O Sporting não sabe perder e, por isso, adoptou a atitude do Kalimero, sempre a queixar-se dos «meninos maus» que lhe roubam a bola no recreio. É já uma cultura entranhada entre os sportinguistas, tão entranhada como o é a cultura de vitória entre os portistas ou a cultura de superioridade entre os benfiquistas.
Como se sabe, há três clubes chamados grandes no futebol português: a Cigarra, a Formiga e o Kalimero.
A Cigarra é o Benfica: faz-se tratar por «A Instituição» e auto-intitula-se de «maior clube do mundo» — com direito a diploma e tudo; diz que vai a caminho dos trezentos mil sócios e que terá uns trinta milhões de adeptos da «marca Benfica» espalhados pelo mundo inteiro; a sua grandeza é tão desmesurada, tão avalassadora, que nem é preciso ter, como este ano, uma equipa de futebol «que qualquer treinador do mundo gostaria de treinar», para que os títulos lhe caiam, naturalmente e por vassalagem alheia, aos pés. Porque acha que de há muito adquiriu por usucapião o direito natural aos títulos, «A Instituição» não acredita que estes exijam trabalho, talento e paciência. Resultado: não é campeão nacional em modalidade alguma, excepto em futebol de salão (que teve de começar a praticar exactamente para poder ser campeão em alguma coisa, tirando partido do facto de A Formiga não praticar a modalidade).
A Formiga é o FC Porto: passou décadas a prestar vassalagem aos Grandes de Lisboa, aceitando pacificamente o papel de animador inútil dos campeonatos. Até ao dia em que soltou o Grito de Ipiranga e nunca mais parou: ultrapassou confortavelmente o número de títulos nacionais do Kalimero e aproxima-se vertiginosamente dos da Cigarra e, em matéria de títulos internacionais, arrasou: face aos dois longínquos títulos de campeão europeu (numa época em que só três ou quatro boas equipas disputavam a Taça dos Campeões e em que, com estrelinha no sorteio, podia-se ir por ali fora), e face ao mítico título de uma obscura e já defunta Taça das Taças conquistada pelo Kalimero na noite dos tempos, a Formiga tem para apresentar, nos últimos 20 anos, uma Taça UEFA, uma Supertaça Europeia, dois títulos de campeão europeu e outros dois de campeão mundial. Este ano defende os títulos de campeão nacional de futebol, hóquei, andebol e já nem sei que mais. Épocas houve, nestes últimos anos, em que juntou simultâneamente todos os títulos de campeão das modalidades profissionais ou os títulos de campeão nacional de futebol em todos os escalões, dos infantis aos seniores. Tal qual como na fábula, tanto a Cigarra como o Kalimero gritam que os sucessos da Formiga são falsos e resultado apenas de batota — (nacional e internacional, presume-se). Repetem isto há vinte anos na esperança de que, como dizia Goebbells, repetir uma mentira até à exaustão a transforme numa verdade… por exaustão. A Formiga ri-se e segue em frente. Ela sabe que, para ganhar mais vezes do que os outros é preciso muito trabalho, muito talento, muita organização, muita humildade e uma cultura de vitória que não se consegue com simples proclamações de superioridade natural.
O Kalimero é Sporting e é o caso mais problemático. Os tempos mudam e os tempos mudaram em desfavor do Kalimero: no futebol nacional, tal como na vida política ou demográfica do país, os tempos evoluiram para a bipolarização e o Kalimero é o parceiro sobejante. Em vão, vive a proclamar que foram eles que trouxeram o futebol para Portugal, que são eles os gentlemen e guardiões do templo com a profusão de condes e barões que deram ao nosso futebol. A verdade é esta: o Kalimero tem hoje menos títulos, no futebol e no resto, menos adeptos, menos assistências e incomparavelmente menos projecção e conhecimento internacional do que a Formiga. Pior do que isso, eles — que se reivindicam de donos do fair-play e do bom gosto — sofrem de cada vez que comparam o seu novo estádio, com nome de Visconde, a essa coisa linear e deslumbrante que é o Estádio do Dragão, e desesperadamente sentem que, em cada nova geração de adeptos que chega ao futebol, são muito mais os dragões do que os leões.
O Kalimero não tem culpa disto e, ao contrário da Cigarra, tem feito tudo o que pode e deve para contrariar o inevitável. O Sporting — repito o que já aqui disse — é hoje o clube melhor administrado e o que mais faz para evitar a bancarrota em cuja iminência vivem todos os clubes portugueses (e mesmo que isso passe por sacar à Câmara Municipal de Lisboa negócios e benesses que deveriam fazer corar de vergonha os inspectores do IGAT que conseguiram descobrir graves irregularidades na construção do Estádio do Dragão, porque teria havido uns terrenos do clube permutados com a CMP e sobrevaliados, e assistiram depois, em respeitoso silêncio, a todos os negócios de favor celebrados pela CML com Benfica e Sporting para a construção dos seus novos estádios).
Dos três, o Kalimero é o que tem menos dinheiro e menos orçamento para o futebol, o que, em contrapartida, mais talentos cria e exporta, e o que mais faz das tripas coração para se manter na discussão ao nível do topo. Merece por isso um rol de elogios e só não merece todos porque lhe falta uma característica fundamental que distingue os verdadeiros desportistas e o verdadeiro fair-play das falsas nobrezas apregoadas: saber perder. O Sporting não sabe perder e, por isso, adoptou a atitude do Kalimero, sempre a queixar-se dos «meninos maus» que lhe roubam a bola no recreio. É já uma cultura entranhada entre os sportinguistas, tão entranhada como o é a cultura de vitória entre os portistas ou a cultura de superioridade entre os benfiquistas.
Como se tal não bastasse, o Kalimero usa, sem pudor algum, uma bitola com dois pesos e duas medidas, convencido de que ninguém nota a hipocresia. Quando acha que tem razões para se queixar do árbitro — o que sucede sempre que não ganha — arma um escabeche de todo o tamanho, com declarações inflamadas, comunicados patéticos ou rídiculas «procissões de luto»; quando são benficiados — o que acontece muito mais vezes e quase sempre quando jogam em Alvalade — calam-se muito caladinhos e assobiam para o ar. Dizem que só não foram campeões no ano passado porque sofreram um golo marcado com a mão, mas fingem não ter visto o golo que entrou dentro da sua baliza e não valeu ou os erros que lhes permitiram sair do Dragão com uma vitória. Este ano, passaram uma semana revoltados porque o árbitro não lhes marcou um penalty na Amadora, que não teria qualquer influência no resultado, mas calaram-se quando, em Alvalade e contra o Setúbal, o árbitro esqueceu um penalty a favor do Vitória, que teria modificado o resultado.
O «escândalo» desta semana é porque, dizem eles, lhe roubaram dois penalties na Luz ( o mesmo árbitro que os fez ganhar no Porto, em Abril passado…). Ora, penso que, se há alguém insuspeito a analisar um Sporting-Benfica, é um portista. E o que eu vi é que, dos três lances contestados no jogo, o único que oferece dúvidas acabou a beneficiar o Sporting: um penalty que João Moutinho terá cometido mesmo a terminar o jogo. O primeiro penalty reclamado pelo Sporting faz parte daquela categoria de penalties de que os sportinguistas reclamam aos dois ou três por jogo, já por hábito instalado. E o segundo, é preciso ter muito má-fé e uma total falta de vergonha para o reclamar. O país inteiro viu que não houve penalty algum, que o Katsouranis, a menos que fosse decepado, não podia evitar que a bola lhe batesse no braço. O juiz de linha viu mal e marcou penalty, o árbitro viu bem e não o marcou. Sustentar que deveria ter prevalecido a opinião do juiz de linha, mesmo que ela implicasse uma vitória falsa como Judas e com o argumento de que foi assim que o Benfica ganhou na Amadora, deita por terra, sem honra alguma, quaisquer veleidades de se armarem em donos do desportivismo.
Aliás, eu fartei-me de rir, ao ler no sábado e ontem o relato da «histórica reunião» promovida pela Bola entre os presidentes do Benfica e do Sporting. Almoçando antes do jogo, não tiveram dificuldades em entenderem-se na conclusão de que são ambos vítimas das arbitragens, em benefício do «Outro», e irmãos na luta contra o suposto «Sistema» (de que eles controlam tudo: Federação, direcção da Liga, Comissão de Arbitragem e Comissão Disciplinar). Mas — pensei eu com os meus botões — bastaria que houvesse um casosinho ou inventado como tal no jogo do dia seguinte, e lá se ia a harmonia, a irmandade e a luta comum contra as arbitragens e o «Sistema». Dito e feito.
PS: Paulo Bento transformou-se agora no farol dos treinadores sem luz à vista. O problema, Jorge Costa, é que o golo do Guimarães foi mesmo golo e não hoube falta alguma sobre o Madrid. E o problema é que os seus jogadores vêm mostrando, jogo após jogo, que a culpa não é dos árbitros. Você, que tão bem conhece e tão bem interpretou a cultura de vitória do FC Porto, é novo de mais como treinador para se refugiar na cultura do Kalimero.
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
domingo, outubro 14, 2007
quarta-feira, setembro 26, 2007
OBRIGADO, CARLOS CARVALHAL!!! ( 26 Setembro 2007)
Não fosse a atitude, a estratégia e a coragem do Vitória de Setúbal em Alvalade, e a incrível maratona futobolístico-televisiva do final do dia de domingo - a ter de ver, por dever de ofício, os três grandes sucessivamente - teria sido uma verdadeira penitência. Mas, graças, antes de mais, à prestação do Vitória, do princípio ao fim do jogo, o Sporting-Setúbal acabou por ser um jogo vivo, emocionante e mutuamente bem jogado em grande parte do tempo. Dou os parabéns a Carlos Carvalhal, porque:
- É a segunda vez consecutiva que vejo jogar o Vitória: primeiro, deu uma lição de bola ao Braga, agora pôs o Sporting em respeito e em Alvalade;
- Vê-se que está ali muito treino, muito trabalho e uma aposta prévia na coragem: como todas as equipas, o Vitória joga para o resultado, mas a forma de lá chegar é tentando jogar bom futebol e não o oposto, o anti-futebol;
- Empatado ou a ganhar em Alvalade, o Vitória nunca abdicou dos últimos cinquenta metros do campo, nunca desistiu do contra-ataque, com dois, três ou quatro jogadores. De cada vez que o Sporting chegou à igualdade, imaginou-se que o Vitória se iria recolher de vez atrás e deixar-se de veleidades. Mas, não: manteve o Sporting em alerta até mesmo aos descontos.
- Quando teve de defender, o Vitória defendeu com cabeça e organização, não chutando a bola para a frente de qualquer maneira, não recorrendo às faltas sucessivas, nem às lesões simuladas nem às perdas de tempo. Até ao fim, acreditou que, para defender bem, tinha de manter a cabeça fria e a capacidade de continuar a assustar o adversário.
- Longe de se limitar a preocupações defensivas, Carlos Carvalhal estudou uma estratégia para chegar ao golo, mesmo no terreno da equipe que tem, provavelmente, a melhor defesa do campeonato. E chegou lá duas vezes, com muita inteligência e premeditação — embora o segundo golo do Vitória tenha sido metade da autoria do Mick Jagger, graças ao estado lastimável em que o concerto dos Stones deixou a relva de Alvalade.
- Enfim, o Vitória e o seu treinador tiveram ainda o grande mérito de obrigar o Sporting a jogar o seu melhor futebol para evitar a derrota e conseguiram ainda que, por uma vez, sem ter ganho, os responsáveis sportinguistas não se tenham desculpado com a arbitragem (também era o que faltava depois de terem beneficiado das duas decisões mais controversas do jogo!).
Manda pois a sinceridade que se diga igualmente que foi muito boa a segunda parte do Sporting, a velocidade que conseguiu pôr no jogo e a vontade de vencer, expressa até ao último sopro do desafio. Por aquilo que fez e que lutou, o Sporting também não merecia ter perdido e deu uma importante demonstração da sua vontade de forçar o destino.
A qual, por exemplo e em contraste, esteve notavelmente ausente da exibição do Benfica em Braga. Aliás, e com a responsabilidade distribuída por ambas as equipas, diga-se que o Sp. Braga-Benfica foi um jogo quase indecente, de total falta de respeito pelos espectadores e pelo espectáculo. E, todavia, estavam ali reunidas todas as condições para um bom jogo: um estádio maravilhoso e cheio, uma relva impecável, um fim de tarde de temperatura ideal e duas equipas com anunciadas aspirações de serem uma o campeão e outra o mais perigoso outsider do campeonato. Em vez disso assistiu-se a um jogo deplorável de falta de classe e de ambição, sem oportunidades de golo e praticamente sem uma única boa jogada, de princípio a fim. Sem desculpa.
O mesmo mau futebol viu-se também no Paços de Ferreira-FC Porto, mas aqui com uma desculpa pertinente: é quase impossível jogar-se bom futebol naquele terreno. Há três ou quatro campos na Primeira Liga, com dimensões reduzidas, sem espaço nas laterais e com relvados que, assim que começa a chover, transformam o jogo numa lotaria, que estão claramente a mais numa competição onde os preços dos bilhetes fazem supor que se vai assistir a futebol de primeira. A verdade é que vemos pela televisão inúmeros jogos em estádios de clubes menores da Espanha, Inglaterra, Itália ou Alemanha, e em nenhum deles vemos campos destes. Como já aqui tenho escrito várias vezes, a tradicional tendência dos nossos jornalistas desportivos para tomarem partido pelos Davids contra os Golias (e no caso, defrontavam-se o mais pobre e o mais rico orçamentos da Primeira Liga), leva a adulterar a leitura da relação de forças em presença: em campos como o da Mata Real, os grandes não gozam de favoritismo algum. Pelo contrário, o seu futebol, que precisa de espaço como todo o futebol bem jogado, é manietado à partida e tem de se adaptar a um futebol de combate, de ressaltos, de pontapé para o ar, a que os anfitriões estão muito melhor adaptados e habituados. Foi o que fez o FC Porto, que soube ainda aproveitar duas das quatro oportunidades de golo de que dispôs. O Paços não teve nenhuma e, por isso mesmo, perdeu. Ao contrário do que disse José Mota, as coisas não estiveram equilibradas no relvado supostamente porque o Paços se teria equiparado ao FC Porto. O FC Porto é que teve de se equiparar ao futebol que o campo consente. Jogou forte e feio: tão feio como o Paços, mas mais forte.
E Jesualdo Ferreira lá segue, com o notável registo de cinco vitórias nos cinco primeiros jogos do campeonato. Numa altura em que, apesar do brevíssimo tempo de demonstração que lhes tem sido concedido, mais se acentua a ideia de que, excepção feita a Leandro Lima (com dez minutos em jogo fez mais que Raul Meireles numa hora), os doze reforços da época foram um tremendo flop. Escrevi na época passada, que o FC Porto era uma equipa desequilibrada: tinha três jogadores excepcionais, quatro bons e o resto era mediano ou medíocre. Esta época, penso que tem um excepcional, quatro ou cinco bons e os outros perfeitamente banais. Viu-se, na terça-feira passada, contra o Liverpool, que a manta é curta e que a falta de ambição aí demonstrada é o reflexo da falta de crença da equipa em si mesma. Uma equipa que confiasse no seu valor, não se teria deixado tolher pelo medo, sobretudo quando percebeu que o adversário estava em noite não e, mais ainda, quando o viu ficar reduzido a dez unidades.
Aliás, toda a jornada europeia, saldada pela incrível mas previsível hecatombe de um empate e seis derrotas, foi eloquente de como o nosso futebol de clubes está cada vez mais longe do top europeu. Não é em vão que os melhores jogadores do campeonato, aqueles que verdadeiramente fazem a diferença, vão saindo, ano após ano. Em minha opinião, este ano e para além do caso especial de Rui Costa, restam dois grandes jogadores e não mais do que isso: o Liedson e o Ricardo Quaresma.
Nada de novo no reino da Dinamarca. Como seria de esperar, a Federação Portuguesa de Futebol apoia e presta-se a ajudar o seleccionador na sua demanda com a justiça da UEFA. Como vem sendo hábito, também, Gilberto Madail não aceita responder a perguntas e, apenas por pró-forma, a Federação anuncia que mantém em curso um «auto de averiguações» (como se ainda houvesse alguma coisa para averiguar…) e para depois dizer também da sua justiça.
Há quem pense que Scolari devia sair já e há quem pense que isso seria um gesto de tremenda ingratidão e injustiça. Eu penso que a decisão certa foi esta: mantê-lo, pelo menos, até ao final da fase de qualificação e responder então pelo resultado. Não ignoro que, para isso, Madail teve de dar algumas cambalhotas jurídico-éticas (e daí o seu silêncio), teve de fingir que as desculpas de Scolari não foram um amontoado de mentiras e contradições, que o seu gesto sobre o jogador sérvio não era previsível face a comportamentos seus passados (quando, por exemplo e perante o silêncio cúmplice dos restantes jornalistas presentes, insultou ordinariamente uma jornalista culpada de lhe ter feito uma pergunta de que não gostou), e teve de deixar sem explicação a contradição insanável entre a justiça «exemplar» aplicada ao miúdo Zequinha e a justiça compreensiva aplicada ao seleccionador. Mas, mesmo ponderando tudo isso, continuo a achar que a melhor saída é fazer de conta que só a UEFA é que tem que ver com o assunto, deixando que, na prática, seja Scolari o responsável pelo êxito ou fracasso da qualificação europeia. Só de imaginar o que se diria se ele fosse agora substituído e depois não nos qualificássemos!... Mas é evidente que Scolari sabe que está com pena suspensa internamente: se falhar a qualificação, não há quem lhe valha. A bola está do lado dos jogadores que tanto o apoiam.
- É a segunda vez consecutiva que vejo jogar o Vitória: primeiro, deu uma lição de bola ao Braga, agora pôs o Sporting em respeito e em Alvalade;
- Vê-se que está ali muito treino, muito trabalho e uma aposta prévia na coragem: como todas as equipas, o Vitória joga para o resultado, mas a forma de lá chegar é tentando jogar bom futebol e não o oposto, o anti-futebol;
- Empatado ou a ganhar em Alvalade, o Vitória nunca abdicou dos últimos cinquenta metros do campo, nunca desistiu do contra-ataque, com dois, três ou quatro jogadores. De cada vez que o Sporting chegou à igualdade, imaginou-se que o Vitória se iria recolher de vez atrás e deixar-se de veleidades. Mas, não: manteve o Sporting em alerta até mesmo aos descontos.
- Quando teve de defender, o Vitória defendeu com cabeça e organização, não chutando a bola para a frente de qualquer maneira, não recorrendo às faltas sucessivas, nem às lesões simuladas nem às perdas de tempo. Até ao fim, acreditou que, para defender bem, tinha de manter a cabeça fria e a capacidade de continuar a assustar o adversário.
- Longe de se limitar a preocupações defensivas, Carlos Carvalhal estudou uma estratégia para chegar ao golo, mesmo no terreno da equipe que tem, provavelmente, a melhor defesa do campeonato. E chegou lá duas vezes, com muita inteligência e premeditação — embora o segundo golo do Vitória tenha sido metade da autoria do Mick Jagger, graças ao estado lastimável em que o concerto dos Stones deixou a relva de Alvalade.
- Enfim, o Vitória e o seu treinador tiveram ainda o grande mérito de obrigar o Sporting a jogar o seu melhor futebol para evitar a derrota e conseguiram ainda que, por uma vez, sem ter ganho, os responsáveis sportinguistas não se tenham desculpado com a arbitragem (também era o que faltava depois de terem beneficiado das duas decisões mais controversas do jogo!).
Manda pois a sinceridade que se diga igualmente que foi muito boa a segunda parte do Sporting, a velocidade que conseguiu pôr no jogo e a vontade de vencer, expressa até ao último sopro do desafio. Por aquilo que fez e que lutou, o Sporting também não merecia ter perdido e deu uma importante demonstração da sua vontade de forçar o destino.
A qual, por exemplo e em contraste, esteve notavelmente ausente da exibição do Benfica em Braga. Aliás, e com a responsabilidade distribuída por ambas as equipas, diga-se que o Sp. Braga-Benfica foi um jogo quase indecente, de total falta de respeito pelos espectadores e pelo espectáculo. E, todavia, estavam ali reunidas todas as condições para um bom jogo: um estádio maravilhoso e cheio, uma relva impecável, um fim de tarde de temperatura ideal e duas equipas com anunciadas aspirações de serem uma o campeão e outra o mais perigoso outsider do campeonato. Em vez disso assistiu-se a um jogo deplorável de falta de classe e de ambição, sem oportunidades de golo e praticamente sem uma única boa jogada, de princípio a fim. Sem desculpa.
O mesmo mau futebol viu-se também no Paços de Ferreira-FC Porto, mas aqui com uma desculpa pertinente: é quase impossível jogar-se bom futebol naquele terreno. Há três ou quatro campos na Primeira Liga, com dimensões reduzidas, sem espaço nas laterais e com relvados que, assim que começa a chover, transformam o jogo numa lotaria, que estão claramente a mais numa competição onde os preços dos bilhetes fazem supor que se vai assistir a futebol de primeira. A verdade é que vemos pela televisão inúmeros jogos em estádios de clubes menores da Espanha, Inglaterra, Itália ou Alemanha, e em nenhum deles vemos campos destes. Como já aqui tenho escrito várias vezes, a tradicional tendência dos nossos jornalistas desportivos para tomarem partido pelos Davids contra os Golias (e no caso, defrontavam-se o mais pobre e o mais rico orçamentos da Primeira Liga), leva a adulterar a leitura da relação de forças em presença: em campos como o da Mata Real, os grandes não gozam de favoritismo algum. Pelo contrário, o seu futebol, que precisa de espaço como todo o futebol bem jogado, é manietado à partida e tem de se adaptar a um futebol de combate, de ressaltos, de pontapé para o ar, a que os anfitriões estão muito melhor adaptados e habituados. Foi o que fez o FC Porto, que soube ainda aproveitar duas das quatro oportunidades de golo de que dispôs. O Paços não teve nenhuma e, por isso mesmo, perdeu. Ao contrário do que disse José Mota, as coisas não estiveram equilibradas no relvado supostamente porque o Paços se teria equiparado ao FC Porto. O FC Porto é que teve de se equiparar ao futebol que o campo consente. Jogou forte e feio: tão feio como o Paços, mas mais forte.
E Jesualdo Ferreira lá segue, com o notável registo de cinco vitórias nos cinco primeiros jogos do campeonato. Numa altura em que, apesar do brevíssimo tempo de demonstração que lhes tem sido concedido, mais se acentua a ideia de que, excepção feita a Leandro Lima (com dez minutos em jogo fez mais que Raul Meireles numa hora), os doze reforços da época foram um tremendo flop. Escrevi na época passada, que o FC Porto era uma equipa desequilibrada: tinha três jogadores excepcionais, quatro bons e o resto era mediano ou medíocre. Esta época, penso que tem um excepcional, quatro ou cinco bons e os outros perfeitamente banais. Viu-se, na terça-feira passada, contra o Liverpool, que a manta é curta e que a falta de ambição aí demonstrada é o reflexo da falta de crença da equipa em si mesma. Uma equipa que confiasse no seu valor, não se teria deixado tolher pelo medo, sobretudo quando percebeu que o adversário estava em noite não e, mais ainda, quando o viu ficar reduzido a dez unidades.
Aliás, toda a jornada europeia, saldada pela incrível mas previsível hecatombe de um empate e seis derrotas, foi eloquente de como o nosso futebol de clubes está cada vez mais longe do top europeu. Não é em vão que os melhores jogadores do campeonato, aqueles que verdadeiramente fazem a diferença, vão saindo, ano após ano. Em minha opinião, este ano e para além do caso especial de Rui Costa, restam dois grandes jogadores e não mais do que isso: o Liedson e o Ricardo Quaresma.
Nada de novo no reino da Dinamarca. Como seria de esperar, a Federação Portuguesa de Futebol apoia e presta-se a ajudar o seleccionador na sua demanda com a justiça da UEFA. Como vem sendo hábito, também, Gilberto Madail não aceita responder a perguntas e, apenas por pró-forma, a Federação anuncia que mantém em curso um «auto de averiguações» (como se ainda houvesse alguma coisa para averiguar…) e para depois dizer também da sua justiça.
Há quem pense que Scolari devia sair já e há quem pense que isso seria um gesto de tremenda ingratidão e injustiça. Eu penso que a decisão certa foi esta: mantê-lo, pelo menos, até ao final da fase de qualificação e responder então pelo resultado. Não ignoro que, para isso, Madail teve de dar algumas cambalhotas jurídico-éticas (e daí o seu silêncio), teve de fingir que as desculpas de Scolari não foram um amontoado de mentiras e contradições, que o seu gesto sobre o jogador sérvio não era previsível face a comportamentos seus passados (quando, por exemplo e perante o silêncio cúmplice dos restantes jornalistas presentes, insultou ordinariamente uma jornalista culpada de lhe ter feito uma pergunta de que não gostou), e teve de deixar sem explicação a contradição insanável entre a justiça «exemplar» aplicada ao miúdo Zequinha e a justiça compreensiva aplicada ao seleccionador. Mas, mesmo ponderando tudo isso, continuo a achar que a melhor saída é fazer de conta que só a UEFA é que tem que ver com o assunto, deixando que, na prática, seja Scolari o responsável pelo êxito ou fracasso da qualificação europeia. Só de imaginar o que se diria se ele fosse agora substituído e depois não nos qualificássemos!... Mas é evidente que Scolari sabe que está com pena suspensa internamente: se falhar a qualificação, não há quem lhe valha. A bola está do lado dos jogadores que tanto o apoiam.
A HUMILHAÇÃO DE BERARDO ( 18 Setembro 2007)
1- O golo de Rui Costa à Naval é uma obra de arte de inteligência e simplicidade. É daqueles golos que podem ser repetidos dez, vinte vezes, e nunca cansam de ver. Ao vê-lo revê-lo e voltar a vê-lo, cada vez me convenço mais de uma ideia que há muito tenho: no futebol moderno, só os jogadores inteligentes a jogar podem ser bons jogadores. Aliás, basta observar todo o jogo de Rui Costa: ele pode já não correr como outrora, mas faz a bola correr por ele. Num só passe, é capaz de virar o sentido do jogo de pernas para o ar, de poupar à equipa uma progressão em passes e mais passes laterais ou recuados, de rasgar uma defesa de alto a baixo. O seu futebol é clássico, clarividente, tremendamente simples no seu objectivo final: chegar ao golo. E, agora que a sua carreira se aproxima inexoravelmente do fim, Rui Costa parece ter aprimorado as qualidades que sempre se lhe viram, como se não quisesse despedir-se sem deixar a todos a lembrança de um futebol cristalino.
Já há largos meses tinha feito aqui o seu elogio, escrevendo que, em minha opinião, ele era o melhor jogador, o jogador essencial do Benfica. Ele aceitou o desafio de risco de continuar por mais uma época, porque se sentiu à altura das exigências e, sobretudo, sem dúvida, porque jogar continua a dar-lhe prazer. Luís Filipe Vieira diz agora que Rui Costa está dar uma bofetada de luva branca nos que duvidaram dele — «entre os quais, muitos de vocês», disse ele, apontando para os jornalistas. Como sabemos, não é verdade: quem duvidou de Rui Costa, em termos até insultuosos, foi esse grande benfiquista Joe Berardo, com lugar cativo ao lado de Vieira, no camarote presidencial da Luz. Quem é esbofeteado de luva branca, jogo após jogo, é Berardo. No campo e fora dele, Rui Costa mostra todos os atributos que fazem a inveja de muita gente que acha que o dinheiro compra tudo: categoria, estilo, classe.
Agora, cavalgando a oportunidade e qual monarca iluminado, Vieira diz que vai «preparar» Rui Costa durante três anos para lhe suceder como presidente. Aos olhos do presidente do Benfica, uma coisa decorre naturalmente da outra: só um grande jogador, como Rui Costa, pode dar um grande presidente, como Vieira. A história, porém, ensina-nos outra coisa: nenhum presidente, por maior que seja, consegue fabricar grandes jogadores; mas grandes jogadores, muitas vezes, sustentam presidentes.
2- Vi muito mau futebol, este fim-de-semana. Futebol de faltas sucessivas, interrupções constantes, equipas sem imaginação, sem vontade nem capacidade de jogar para o golo, treinadores mais preocupados em dizer mal dos árbitros do que em pôr as suas equipas a respeitar os espectadores que vão aos estádios. Por junto, para além do fabuloso golo de Rui Costa, a única coisa decente que vi foram, surpreendentemente, os primeiros vinte e os últimos vinte minutos da Naval no Estádio da Luz. No final, fiquei a saber, surpreendentemente também, que o imenso presidente Aprigío Santos, da Naval, achou porém que aquilo foi pouco, que as bolas na barra e a derrota foram culpa do treinador. E, aí vamos: quatro jornadas, três treinadores despedidos. Presidentes despedidos: zero.
Comecei por ver o Setúbal-Braga e confirmei a impressão que o Braga me havia deixado do primeiro jogo contra o FC Porto: está ali uma equipa constituída por ex-vedetas e ex-futuras vedetas, que se portam como tal. Jogadores que, em campo, são o exemplo oposto do que foi o seu treinador, Jorge Costa. Jogam como se estivessem a fazer um frete, como se, de cada vez que tocam na bola, o adversário devesse parar para os aplaudir. Em 90 minutos de jogo, o Braga só acertou com uma bola na baliza do Vitória, e essa foi de penalty, caído do céu. É demasiado pouco para quem tem ambições a ser o «quarto grande».
Depois, vi o FC Porto-Marítimo. Um Marítimo inofensivo, só sabendo defender, e um FC Porto arrastado, previsível, deprimente. Já cheguei ao ponto de não saber se Jesualdo Ferreira terá ou não razão em não pôr a jogar nenhum dos doze reforços que comprou. Não sei se é ele que não lhes dá oportunidades suficientes para se integrarem e mostrarem o que valem, ou se, de facto, são eles que não valem e o melhor é deixá-los de fora. Não sei se o Stepanov é melhor ou pior que o Pedro Emanuel ou o João Paulo, se o Bolatti é melhor ou não que o Paulo Assunção (que confrangedora forma em que ele está!), se o Mariano González é ou não melhor que o Lisandro, se o Farías seria mais útil que o Adriano ou o Lisandro. De facto, só tenho a certeza de uma coisa: o Leandro Lima é bem melhor do que o Raul Meireles — é a diferença entre alguém que tem uma ideia e um objectivo de jogo e alguém que nunca se percebe muito bem o que por ali anda a fazer.
Vi o Benfica entrar em campo, contra a Naval, com cinco aquisições desta época — e não foram seis porque, inesperadamente, Camacho deixou Cardozo no banco. Ao contrário, o FC Porto entrou sem nenhum reforço e foi preciso meio jogo inócuo para aparecer Farias. Mas a fé, ou a teimosia, de Jesualdo Ferreira crescem com estas primeiras vitórias. Enquanto vai ganhando, mais aumenta a impressão de que ele acha possível dar conta de uma época vencedora com a mesma equipa do ano passado… sem o Pepe e o Anderson. Tremo só de olhar para a constituição da equipa que vai entrar em campo, logo à noite, contra o Liverpool.
Também fui espreitando, a bocejar de tédio, o Estrela da Amadora-Sporting. Foi mais uma daquelas vitórias à Sporting, que antes de ser já o era. Antes que pudesse haver dúvidas, o adversário entregou o jogo e, daí até final, arrastaram-se ambos em campo, com o entusiasmo de amanuenses de uma qualquer repartição pública. Ó meus senhores, jogar futebol é assim uma profissão tão chata?
3- Previsível e conservador até ao limite, Jesualdo Ferreira integra, porém, um extenso lote de treinadores que obedecem intransigentemente à conhecida máxima de que «em equipa que ganha não se mexe». Para mim, é das verdades mais idiotas do futebol, mas ao menos compreendo que tem a sua lógica. O que eu nunca tinha visto é um treinador defensor da máxima «em equipa que não ganha não se mexe». Luiz Felipe Scolari é o primeiro defensor do género. Ele é capaz de repetir sucessivamente — Arménia, Polónia e Sérvia — os mesmíssimos jogadores que já toda a gente, menos ele, viu que não estão a jogar nada. Mas, tal como aqui escrevi há tempos, a Selecção de Scolari não é, nunca foi ou será, a Selecção dos melhores em cada momento, mas sim a Selecção dos amigos de Scolari. O que nos vale é que eu nunca conheci, em tantos anos a ver futebol, alguém com tanta sorte como o nosso seleccionador nacional. Com metade dos erros que já cometeu, qualquer treinador teria sucumbido a resultados e nenhum treinador português se teria aguentado em funções.
Quanto ao resto, ao que se passou após o Portugal-Sérvia, quarta-feira passada, já lá vai demasiado tempo e demasiados e reveladores comentários para justificar também o meu. A seu tempo…
4- Bonito de ver foi os jogadores da Selecção de râguebi a abrir alas para a saída dos All Blacks e estes a devolver o gesto. Impensável de ver num jogo de futebol.
Já há largos meses tinha feito aqui o seu elogio, escrevendo que, em minha opinião, ele era o melhor jogador, o jogador essencial do Benfica. Ele aceitou o desafio de risco de continuar por mais uma época, porque se sentiu à altura das exigências e, sobretudo, sem dúvida, porque jogar continua a dar-lhe prazer. Luís Filipe Vieira diz agora que Rui Costa está dar uma bofetada de luva branca nos que duvidaram dele — «entre os quais, muitos de vocês», disse ele, apontando para os jornalistas. Como sabemos, não é verdade: quem duvidou de Rui Costa, em termos até insultuosos, foi esse grande benfiquista Joe Berardo, com lugar cativo ao lado de Vieira, no camarote presidencial da Luz. Quem é esbofeteado de luva branca, jogo após jogo, é Berardo. No campo e fora dele, Rui Costa mostra todos os atributos que fazem a inveja de muita gente que acha que o dinheiro compra tudo: categoria, estilo, classe.
Agora, cavalgando a oportunidade e qual monarca iluminado, Vieira diz que vai «preparar» Rui Costa durante três anos para lhe suceder como presidente. Aos olhos do presidente do Benfica, uma coisa decorre naturalmente da outra: só um grande jogador, como Rui Costa, pode dar um grande presidente, como Vieira. A história, porém, ensina-nos outra coisa: nenhum presidente, por maior que seja, consegue fabricar grandes jogadores; mas grandes jogadores, muitas vezes, sustentam presidentes.
2- Vi muito mau futebol, este fim-de-semana. Futebol de faltas sucessivas, interrupções constantes, equipas sem imaginação, sem vontade nem capacidade de jogar para o golo, treinadores mais preocupados em dizer mal dos árbitros do que em pôr as suas equipas a respeitar os espectadores que vão aos estádios. Por junto, para além do fabuloso golo de Rui Costa, a única coisa decente que vi foram, surpreendentemente, os primeiros vinte e os últimos vinte minutos da Naval no Estádio da Luz. No final, fiquei a saber, surpreendentemente também, que o imenso presidente Aprigío Santos, da Naval, achou porém que aquilo foi pouco, que as bolas na barra e a derrota foram culpa do treinador. E, aí vamos: quatro jornadas, três treinadores despedidos. Presidentes despedidos: zero.
Comecei por ver o Setúbal-Braga e confirmei a impressão que o Braga me havia deixado do primeiro jogo contra o FC Porto: está ali uma equipa constituída por ex-vedetas e ex-futuras vedetas, que se portam como tal. Jogadores que, em campo, são o exemplo oposto do que foi o seu treinador, Jorge Costa. Jogam como se estivessem a fazer um frete, como se, de cada vez que tocam na bola, o adversário devesse parar para os aplaudir. Em 90 minutos de jogo, o Braga só acertou com uma bola na baliza do Vitória, e essa foi de penalty, caído do céu. É demasiado pouco para quem tem ambições a ser o «quarto grande».
Depois, vi o FC Porto-Marítimo. Um Marítimo inofensivo, só sabendo defender, e um FC Porto arrastado, previsível, deprimente. Já cheguei ao ponto de não saber se Jesualdo Ferreira terá ou não razão em não pôr a jogar nenhum dos doze reforços que comprou. Não sei se é ele que não lhes dá oportunidades suficientes para se integrarem e mostrarem o que valem, ou se, de facto, são eles que não valem e o melhor é deixá-los de fora. Não sei se o Stepanov é melhor ou pior que o Pedro Emanuel ou o João Paulo, se o Bolatti é melhor ou não que o Paulo Assunção (que confrangedora forma em que ele está!), se o Mariano González é ou não melhor que o Lisandro, se o Farías seria mais útil que o Adriano ou o Lisandro. De facto, só tenho a certeza de uma coisa: o Leandro Lima é bem melhor do que o Raul Meireles — é a diferença entre alguém que tem uma ideia e um objectivo de jogo e alguém que nunca se percebe muito bem o que por ali anda a fazer.
Vi o Benfica entrar em campo, contra a Naval, com cinco aquisições desta época — e não foram seis porque, inesperadamente, Camacho deixou Cardozo no banco. Ao contrário, o FC Porto entrou sem nenhum reforço e foi preciso meio jogo inócuo para aparecer Farias. Mas a fé, ou a teimosia, de Jesualdo Ferreira crescem com estas primeiras vitórias. Enquanto vai ganhando, mais aumenta a impressão de que ele acha possível dar conta de uma época vencedora com a mesma equipa do ano passado… sem o Pepe e o Anderson. Tremo só de olhar para a constituição da equipa que vai entrar em campo, logo à noite, contra o Liverpool.
Também fui espreitando, a bocejar de tédio, o Estrela da Amadora-Sporting. Foi mais uma daquelas vitórias à Sporting, que antes de ser já o era. Antes que pudesse haver dúvidas, o adversário entregou o jogo e, daí até final, arrastaram-se ambos em campo, com o entusiasmo de amanuenses de uma qualquer repartição pública. Ó meus senhores, jogar futebol é assim uma profissão tão chata?
3- Previsível e conservador até ao limite, Jesualdo Ferreira integra, porém, um extenso lote de treinadores que obedecem intransigentemente à conhecida máxima de que «em equipa que ganha não se mexe». Para mim, é das verdades mais idiotas do futebol, mas ao menos compreendo que tem a sua lógica. O que eu nunca tinha visto é um treinador defensor da máxima «em equipa que não ganha não se mexe». Luiz Felipe Scolari é o primeiro defensor do género. Ele é capaz de repetir sucessivamente — Arménia, Polónia e Sérvia — os mesmíssimos jogadores que já toda a gente, menos ele, viu que não estão a jogar nada. Mas, tal como aqui escrevi há tempos, a Selecção de Scolari não é, nunca foi ou será, a Selecção dos melhores em cada momento, mas sim a Selecção dos amigos de Scolari. O que nos vale é que eu nunca conheci, em tantos anos a ver futebol, alguém com tanta sorte como o nosso seleccionador nacional. Com metade dos erros que já cometeu, qualquer treinador teria sucumbido a resultados e nenhum treinador português se teria aguentado em funções.
Quanto ao resto, ao que se passou após o Portugal-Sérvia, quarta-feira passada, já lá vai demasiado tempo e demasiados e reveladores comentários para justificar também o meu. A seu tempo…
4- Bonito de ver foi os jogadores da Selecção de râguebi a abrir alas para a saída dos All Blacks e estes a devolver o gesto. Impensável de ver num jogo de futebol.
AMADORES E SUBPROFISSIONAIS ( 11 Setembro 2007)
O país que por "imperativo nacional" construiu dez estádios novos para o Euro-2004, dos quais sete estão permanentemente às moscas e constituem um encargo ruinoso para as autarquias, não têm dinheiro para construir uma pista coberta onde os nossos atletas olímpicos se possam treinar no Inverno...
1 - A Selecção Nacional de râguebi, oficialmente «amadora», protagonizava ontem, que eu tenha reparado, nada menos do que três anúncios publicitários a marcas diferentes, na televisão e em duas páginas inteiras de jornais: ao BES, à Caixa-Geral de Depósitos e à Volkswagen. Esclareço desde já que nada tenho contra a participação em campanhas publicitárias, embora eu próprio sempre tenha recusado fazê-las, cumprindo o que está escrito no Código Deontológico dos Jornalistas. Mas nada tenho contra essa forma de ganhar dinheiro, desde que não se caia no abuso extremo do seleccionador nacional de futebol, Scolari, que é capaz de anunciar tudo, até comida para piriquitos, se lhe pagarem o seu cachet.
A questão, a meu ver, só tem importância, se se reflectir até que ponto é que o amadorismo da Selecção de râguebi — tão propagandeado, numa campanha de promoção que tem sido um sucesso notável — resulta de vontade própria ou das circunstâncias, e até que ponto esse estatuto oficial é ou não desejável para a evolução da modalidade. Primeiro que tudo, convém lembrar um facto que nunca é referido: nem todos os elementos da Selecção são amadores. Há dois profissionais a jogar em França e outros, argentinos naturalizados, a jogar em Portugal. É sintomático que este facto seja sempre esquecido ou minimizado, embora ele em nada afecte o valor que tem uma equipa de jovens que, para jogarem, roubam tempo aos estudos, ao trabalho, à vida familiar e pessoal, e que conseguiram, com brilhantismo, a qualificação para França e um jogo de muita garra contra a Escócia.
E era aqui que eu queria chegar. Se, por um lado, é de facto, notável o esforço de competitividade de uma equipa basicamente amadora entre os tubarões deste desporto, por outro lado, creio que o amadorismo do râguebi entre nós (e que é amador apenas porque não tem condições de popularidade para ser profissional), é um factor de marasmo da modalidade. O râguebi é, em Portugal, uma das modalidades desportivas mais elitistas que existem, a par da vela, da equitação ou do golfe. Uma reportagem há dias publicada numa revista, mostrava como a modalidade sempre esteve tradicionalmente nas mãos de quatro ou cinco «boas famílias» de Cascais ou do Restelo, que se sucedem, de geração em geração, nas poucas equipas de clubes existentes e na Selecção Nacional. E não custa perceber porquê: se a modalidade não tem condições de profissionalização, só quem disponha de outras fontes de rendimento, ou porque é estudante sem necessidades de dinheiro ou porque já está instalado noutra profissão — pode fazer do râguebi o seu «hobby».
O que daqui resulta é um círculo vicioso, que não é tão virtuoso quanto por estes dias se tem abundantemente escrito. Se o râguebi fosse uma modalidade popular, jogada nas escolas e clubes de bairro, atrairia mais público e, com ele, transmissões televisivas e patrocinadores. Isso faria nascer jogadores profissionais, fora da elite tradicional e, fatalmente, com um campo de recrutamento alargado, faria nascer melhores jogadores (porque não há nenhuma lei genética que diga que os ricos têm mais jeito para o râguebi do que os pobres…). Ou seja: para evoluir entre nós, o râguebi precisa de uma base de recrutamento que vá muito para além do tradicional e que traga à modalidade jogadores que vivam dela, como profissionais. Mas estes não aparecem porque, tal como está, o râguebi não tem condições para os sustentar. E a diferença seria tão simples quanto isto: com uma Selecção composta essencialmente por amadores, ninguém se pode espantar nem exigir que eles não «rebentem» fisicamente nos últimos 15/20 minutos dos jogos; com uma Selecção de profissionais, esse facto já não seria aceitável, porque esses teriam tido todas as condições de treino e preparação que os outros não têm.
Uma última advertência: já sei, por experiência própria, que, nestas coisas de unanimismos patrióticos, quem destoa do coro acrítico de elogios, passa logo à categoria de mau português. Para que fique claro, então: não destoo dos elogios ao esforço e generosidade dos homens da nossa Selecção de râguebi. Digo apenas que o tão louvado estatuto de amadores é, todavia, o reflexo e a causa da não evolução da modalidade.
2 - Nélson Évora, esse, não teve direito a nenhum contrato publicitário, nem a nenhuma campanha de promoção pessoal comparável. E, todavia, o seu feito foi absolutamente incomparável: ele tornou-se o primeiro saltador português campeão do mundo, desmentindo a crença de que, como país subdesenvolvido em matéria de atletismo, apenas poderíamos produzir campeões no fundo e meio-fundo, onde a força de vontade conta mais do que o talento e a capacidade técnica. E fê-lo, não como amador, mas como profissional expatriado à força: treinando em Espanha, tal como Obikwelu ou Naide Gomes — porque o país que, por «imperativo nacional», construiu dez estádios novos para o Euro-2004, dos quais sete estão permanentemente às moscas e constituem um encargo ruinoso para as autarquias, não tem dinheiro para construir uma pista coberta onde os nossos atletas olímpicos se possam treinar durante o Inverno…
Cruzei-me com Nélson Évora na TVI, a semana passada, e fiquei impressionado com a humildade, o antivedetismo absoluto e o visível amor que tem àquilo que faz. Não é todos os dias que nos cruzamos com um português campeão do mundo e não é todos os dias que o ouvimos dizer apenas que gostaria de ter condições para se treinar em Portugal. A propósito: não ouvi foi nenhum daqueles que contestam o Deco e o Pepe na Selecção de Futebol, contestarem também o estatuto de portugueses da Naide Gomes, nascida em S. Tomé e Príncipe, do Francis Obikwelu, nascido na Nigéria, ou do Nélson Évora, cabo-verdiano nascido na Costa do Marfim e treinado em Espanha…
3 - Há pouco mais de quatro meses, vi nascer nos courts do Estádio Nacional durante o Estoril Open, uma jovem esperança do ténis sérvio, fã do Benfica, chamado Novák Djokovic. Pareceu-me, logo ali, que ele iria longe, mas nunca imaginei que tão rápido. Anteontem à noite, na TV, vi-o bater-se como um leão contra o quase imbatível Roger Federer, na final do US Open. A jogar a sua primeira final de um Grand Slam aos 20 anos de idade (!), Djokovic só caiu vítima dos nervos e da inexperiência, depois de ter desperdiçado cinco set-points na primeira partida e dois na segunda (6-7, 6-7, 4-6). E porque Federer é, provavelmente, o jogador mais completo de sempre.
4 - Na sua coluna de «senador» de A BOLA, Rui Moreira chamou a atenção para o facciosismo daqueles que gritaram aos quatro ventos que o segundo golo do FC Porto em Leiria tinha sido irregular (e foi), «esquecendo-se» de dizer que, logo aos 3 minutos de jogo, um golo completamente regular tinha sido anulado ao FC Porto. O Record até destacava o «golo irregular» para título de 1.ª página e houve até quem escrevesse que coisas destas «duram há décadas». Em certos espíritos, o facciosimo benfiquista foi de há muito ultrapassado por um vírus bem mais demencial: o ódio fanático ao FC Porto. Se eles mandassem, o FC Porto seria, pura e simplesmente, varrido dos estádios e pavilhões do país. Como, aliás, sempre se tentou fazer em Portugal com aqueles que, pelos seus méritos, incomodam a mediocridade e o privilégio instalados.
1 - A Selecção Nacional de râguebi, oficialmente «amadora», protagonizava ontem, que eu tenha reparado, nada menos do que três anúncios publicitários a marcas diferentes, na televisão e em duas páginas inteiras de jornais: ao BES, à Caixa-Geral de Depósitos e à Volkswagen. Esclareço desde já que nada tenho contra a participação em campanhas publicitárias, embora eu próprio sempre tenha recusado fazê-las, cumprindo o que está escrito no Código Deontológico dos Jornalistas. Mas nada tenho contra essa forma de ganhar dinheiro, desde que não se caia no abuso extremo do seleccionador nacional de futebol, Scolari, que é capaz de anunciar tudo, até comida para piriquitos, se lhe pagarem o seu cachet.
A questão, a meu ver, só tem importância, se se reflectir até que ponto é que o amadorismo da Selecção de râguebi — tão propagandeado, numa campanha de promoção que tem sido um sucesso notável — resulta de vontade própria ou das circunstâncias, e até que ponto esse estatuto oficial é ou não desejável para a evolução da modalidade. Primeiro que tudo, convém lembrar um facto que nunca é referido: nem todos os elementos da Selecção são amadores. Há dois profissionais a jogar em França e outros, argentinos naturalizados, a jogar em Portugal. É sintomático que este facto seja sempre esquecido ou minimizado, embora ele em nada afecte o valor que tem uma equipa de jovens que, para jogarem, roubam tempo aos estudos, ao trabalho, à vida familiar e pessoal, e que conseguiram, com brilhantismo, a qualificação para França e um jogo de muita garra contra a Escócia.
E era aqui que eu queria chegar. Se, por um lado, é de facto, notável o esforço de competitividade de uma equipa basicamente amadora entre os tubarões deste desporto, por outro lado, creio que o amadorismo do râguebi entre nós (e que é amador apenas porque não tem condições de popularidade para ser profissional), é um factor de marasmo da modalidade. O râguebi é, em Portugal, uma das modalidades desportivas mais elitistas que existem, a par da vela, da equitação ou do golfe. Uma reportagem há dias publicada numa revista, mostrava como a modalidade sempre esteve tradicionalmente nas mãos de quatro ou cinco «boas famílias» de Cascais ou do Restelo, que se sucedem, de geração em geração, nas poucas equipas de clubes existentes e na Selecção Nacional. E não custa perceber porquê: se a modalidade não tem condições de profissionalização, só quem disponha de outras fontes de rendimento, ou porque é estudante sem necessidades de dinheiro ou porque já está instalado noutra profissão — pode fazer do râguebi o seu «hobby».
O que daqui resulta é um círculo vicioso, que não é tão virtuoso quanto por estes dias se tem abundantemente escrito. Se o râguebi fosse uma modalidade popular, jogada nas escolas e clubes de bairro, atrairia mais público e, com ele, transmissões televisivas e patrocinadores. Isso faria nascer jogadores profissionais, fora da elite tradicional e, fatalmente, com um campo de recrutamento alargado, faria nascer melhores jogadores (porque não há nenhuma lei genética que diga que os ricos têm mais jeito para o râguebi do que os pobres…). Ou seja: para evoluir entre nós, o râguebi precisa de uma base de recrutamento que vá muito para além do tradicional e que traga à modalidade jogadores que vivam dela, como profissionais. Mas estes não aparecem porque, tal como está, o râguebi não tem condições para os sustentar. E a diferença seria tão simples quanto isto: com uma Selecção composta essencialmente por amadores, ninguém se pode espantar nem exigir que eles não «rebentem» fisicamente nos últimos 15/20 minutos dos jogos; com uma Selecção de profissionais, esse facto já não seria aceitável, porque esses teriam tido todas as condições de treino e preparação que os outros não têm.
Uma última advertência: já sei, por experiência própria, que, nestas coisas de unanimismos patrióticos, quem destoa do coro acrítico de elogios, passa logo à categoria de mau português. Para que fique claro, então: não destoo dos elogios ao esforço e generosidade dos homens da nossa Selecção de râguebi. Digo apenas que o tão louvado estatuto de amadores é, todavia, o reflexo e a causa da não evolução da modalidade.
2 - Nélson Évora, esse, não teve direito a nenhum contrato publicitário, nem a nenhuma campanha de promoção pessoal comparável. E, todavia, o seu feito foi absolutamente incomparável: ele tornou-se o primeiro saltador português campeão do mundo, desmentindo a crença de que, como país subdesenvolvido em matéria de atletismo, apenas poderíamos produzir campeões no fundo e meio-fundo, onde a força de vontade conta mais do que o talento e a capacidade técnica. E fê-lo, não como amador, mas como profissional expatriado à força: treinando em Espanha, tal como Obikwelu ou Naide Gomes — porque o país que, por «imperativo nacional», construiu dez estádios novos para o Euro-2004, dos quais sete estão permanentemente às moscas e constituem um encargo ruinoso para as autarquias, não tem dinheiro para construir uma pista coberta onde os nossos atletas olímpicos se possam treinar durante o Inverno…
Cruzei-me com Nélson Évora na TVI, a semana passada, e fiquei impressionado com a humildade, o antivedetismo absoluto e o visível amor que tem àquilo que faz. Não é todos os dias que nos cruzamos com um português campeão do mundo e não é todos os dias que o ouvimos dizer apenas que gostaria de ter condições para se treinar em Portugal. A propósito: não ouvi foi nenhum daqueles que contestam o Deco e o Pepe na Selecção de Futebol, contestarem também o estatuto de portugueses da Naide Gomes, nascida em S. Tomé e Príncipe, do Francis Obikwelu, nascido na Nigéria, ou do Nélson Évora, cabo-verdiano nascido na Costa do Marfim e treinado em Espanha…
3 - Há pouco mais de quatro meses, vi nascer nos courts do Estádio Nacional durante o Estoril Open, uma jovem esperança do ténis sérvio, fã do Benfica, chamado Novák Djokovic. Pareceu-me, logo ali, que ele iria longe, mas nunca imaginei que tão rápido. Anteontem à noite, na TV, vi-o bater-se como um leão contra o quase imbatível Roger Federer, na final do US Open. A jogar a sua primeira final de um Grand Slam aos 20 anos de idade (!), Djokovic só caiu vítima dos nervos e da inexperiência, depois de ter desperdiçado cinco set-points na primeira partida e dois na segunda (6-7, 6-7, 4-6). E porque Federer é, provavelmente, o jogador mais completo de sempre.
4 - Na sua coluna de «senador» de A BOLA, Rui Moreira chamou a atenção para o facciosismo daqueles que gritaram aos quatro ventos que o segundo golo do FC Porto em Leiria tinha sido irregular (e foi), «esquecendo-se» de dizer que, logo aos 3 minutos de jogo, um golo completamente regular tinha sido anulado ao FC Porto. O Record até destacava o «golo irregular» para título de 1.ª página e houve até quem escrevesse que coisas destas «duram há décadas». Em certos espíritos, o facciosimo benfiquista foi de há muito ultrapassado por um vírus bem mais demencial: o ódio fanático ao FC Porto. Se eles mandassem, o FC Porto seria, pura e simplesmente, varrido dos estádios e pavilhões do país. Como, aliás, sempre se tentou fazer em Portugal com aqueles que, pelos seus méritos, incomodam a mediocridade e o privilégio instalados.
ESCRITA EM DIA ( 4 Setembro 2007)
Se voltarem a perder o campeonato por um ponto, juro-vos que os sportinguistas virão dizer que só não foram campeões porque o árbitro percebeu mal que a intenção de Polga não era atrasar a bola para o guarda-redes no jogo do Dragão.
Onze dias fora do mundo sabem sempre bem, são até uma necessidade para quem, por dever de oficio, passa um ano inteiro, dia após dia, a seguir os sinais do mundo. Uma vez ao ano, pelo menos, eu dedico-me a esse exercício de limpeza do espírito. Infelizmente, porém, vem acontecendo ultimamente que, de cada vez que o faço, o meu afastamento coincide com algum momento decisivo da cena futebolística nacional, no que às minhas cores diz respeito. Afastar-me e perder um Benfica-FC Porto ou um FC Porto-Sporting, já vem sendo uma fatalidade que, todavia, não me faz prescindir do essencial — e o essencial, meus caros amigos, não é nem há-de ser nunca o futebol.
Desta vez, tudo se acumulou para me isolar do mundo: onde estive, não chegavam jornais nem televisão de Portugal, a Internet não funcionava e, para fechar o círculo, até o telemóvel caiu à agua e deixou de funcionar também. Soube-me pela vida! Lá soube que o FC Porto tinha ganho ao Sporting por 1-0 e que o Benfica tinha ultrapassado o FC Copenhaga e conseguido o acesso à Liga dos Campeões. E foi tudo.
Comecei a recuperar o perdido logo com a leitura dos jornais do dia no avião, e continuei com horas de leitura de dez dias de jornais atrasados, que me esperavam à chegada. Eis as conclusões resumidas deste curioso exercício de updating intensivo.
- O FC Porto ganhou ao Sporting aparentemente sem espinhas e apenas porque jogou mais ou menos mal ou porque fez mais pela vitória do que o adversário. Das várias opiniões lidas, não consta que o Sporting alguma vez tenha estado em perigo de poder ganhar o jogo ou sequer tentar ganhá-lo. A diferença para o jogo da Supertaça é que, desta vez, não apareceu um pontapé do outro mundo para desmentir a verdade do ditado que diz que quem não arrisca não petisca. Mas, afinal, os sportinguistas (nem outra coisa seria de esperar deles na hora da derrota…) trataram logo de vir explicar que só perderam o jogo por culpa do árbitro. Este teria interpretado mal a intenção de Polga ao atrasar a bola para o seu guarda-redes: ele não quis atrasá-la, quis apenas cortá-la — palavras do próprio Polga. Já há uns meses, também no Dragão, o Polga não teve intenção de derrubar o Pepe na área, quis apenas cortar a bola. Foi coincidência que então a bola nem se tenha mexido, enquanto o Pepe levantou voo, e coincidência que agora a bola tenha ido direitinha para as mãos do guarda-redes. A grande diferença é que, se então o árbitro esteve sincronizado com as intenções do Polga, desta vez não esteve. Mas parece também que, no domingo passado e frente ao Belenenses, o árbitro já esteve melhor sincronizado com as intenções sportinguistas. Basta ver como, desta vez, eles se remeteram ao silêncio sobre a arbitragem. No final, contas feitas e se voltarem a perder o campeonato por um ponto, juro-vos que eles virão dizer que só não foram campeões porque o árbitro percebeu mal que a intenção do Polga não era atrasar a bola para o guarda-redes, no jogo do Dragão. Vira o disco e toca o mesmo de sempre…
- Quarta-feira, o Benfica comprou mais três sul-americanos e Di Maria estreou-se, finalmente curado da lesão que trazia e confirmando as boas referências que lhe fizeram. E, no decisivo jogo de Copenhaga, conforme reza a crónica de A BOLA, teve a sorte do jogo e a sorte da arbitragem. E, assim, Camacho fez esquecer Fernando Santos e salvou a intangibilidade de Luís Filipe Vieira. Porque, se o Benfica tem falhado a Liga dos Campeões, para algum lado se iria virar a ira dos adeptos e palpita-me que, desta vez, não seria contra o treinador.
- Francamente, achei de muito mau gosto e muito pouco desportiva a intransigência do FC Porto ao não ceder ao adiamento do seu jogo contra o União de Leiria. Para mais, com a paragem do campeonato no próximo fim-de-semana, não havia argumento razoável que o justificasse (e, para mais, se o jogo tem sido ontem, eu já o tinha visto…). Parece-me que a intenção clara foi tirar partido do cansaço do adversário — e conseguiu-o. São jogadas que não gosto de ver, nem no meu clube ou, principalmente, no meu clube.
- Em três jornadas, o FC Porto matou três borregos da época passada: Sp. Braga, Sporting e U. Leiria. Foi um começo de campeonato a 100%, cuja importância se poderá revelar determinante no futuro. Mas nem tudo é líquido na equipa de Jesualdo Ferreira. A situação de Postiga, nem vendido nem aproveitado, é uma das razões de perplexidade. A outra é, obviamente, a situação dos reforços, de que já aqui falei. Jesualdo não gosta da palavra reforços e acha que numa equipa campeã ninguém é comprado para entrar a jogar mas, sim, para ficar em banho-maria, à espera que algum dos campeões se lesione. É um ponto de vista de treinador e aceitável, como todos os outros. Diferente é o meu ponto de vista, o de accionista e sócio pagante. E insisto no meu ponto de vista, já longamente exposto: se os reforços não fazem falta nem têm, por si só, categoria para entrar directamente na equipa, para quê a necessidade de comprar uma dúzia deles todos os anos, fazendo com que o grande problema da gestão do plantel seja arranjar clubes que os queiram por empréstimo? Das duas, uma: Jesualdo não tem razão na forma como não integra novos jogadores com valor na equipa, ou tem razão em não integrá-los mas, neste caso, deve uma explicação aos sócios sobre o motivo porque os quis, e logo tantos. É que gastar dinheiro a comprar jogadores por atacado é fácil. Só que depois vai ser urgente vender o Quaresma para esconder o défice acumulado a pagar ordenados a jogadores inúteis e excedentários.
- Desafio alguém a dizer-me quais eram os clubes de Carl Lewis, Jesse Owens, Juantorama, Abéé Bikila, ou qualquer outra das glórias eternas do atletismo mundial. Lá fora, de certeza que muitos não esqueceram os nomes de Carlos Lopes, Fernanda Ribeiro ou Rosa Mota. Quem não esqueceu, sabe que são atletas portugueses, mas de certeza que ninguém sabe a que clube pertenciam. O atletismo tem essa vantagem anti-clubística sobre o futebol. Ou melhor, tinha: porque esta semana, lendo opiniões de vários leitores de vários jornais, cheguei à conclusão de que os dois novos campeões mundiais, Vanessa Fernandes e Nelson Évora, não são de Portugal mas, sim, do Benfica. Pois felicito o Benfica pelos seus campeões do mundo mas, se não se importam, considero que eles são campeões de nós todos e não apenas dos benfiquistas.
PS: Se bem percebi, a minha colega de coluna, Leonor Pinhão, desmente que tenha tido alguma coisa que ver com a escrita do livro da d.ª Carolina Salgado ou com a entusiástica ressurreição das investigações do Apito Dourado, determinadas pela publicação dessa obra literária. Parece que ela, e citando as suas próprias palavras, nunca se dispôs a «sujeitar a verdade ao crivo do julgamento popular em função das paixões clubistas que toldam o raciocínio». Assim, por exemplo, o tão publicitado filme Corrupção — de que ela é autora do script e o marido da direcção — não tem nada que ver com um julgamento popular ditado por paixões clubistas, em que a verdade já está estabelecida previamente, sem necessidade de contraditório, o julgamento já está feito e a sentença já está dada. É tudo uma aldrabice.
Onze dias fora do mundo sabem sempre bem, são até uma necessidade para quem, por dever de oficio, passa um ano inteiro, dia após dia, a seguir os sinais do mundo. Uma vez ao ano, pelo menos, eu dedico-me a esse exercício de limpeza do espírito. Infelizmente, porém, vem acontecendo ultimamente que, de cada vez que o faço, o meu afastamento coincide com algum momento decisivo da cena futebolística nacional, no que às minhas cores diz respeito. Afastar-me e perder um Benfica-FC Porto ou um FC Porto-Sporting, já vem sendo uma fatalidade que, todavia, não me faz prescindir do essencial — e o essencial, meus caros amigos, não é nem há-de ser nunca o futebol.
Desta vez, tudo se acumulou para me isolar do mundo: onde estive, não chegavam jornais nem televisão de Portugal, a Internet não funcionava e, para fechar o círculo, até o telemóvel caiu à agua e deixou de funcionar também. Soube-me pela vida! Lá soube que o FC Porto tinha ganho ao Sporting por 1-0 e que o Benfica tinha ultrapassado o FC Copenhaga e conseguido o acesso à Liga dos Campeões. E foi tudo.
Comecei a recuperar o perdido logo com a leitura dos jornais do dia no avião, e continuei com horas de leitura de dez dias de jornais atrasados, que me esperavam à chegada. Eis as conclusões resumidas deste curioso exercício de updating intensivo.
- O FC Porto ganhou ao Sporting aparentemente sem espinhas e apenas porque jogou mais ou menos mal ou porque fez mais pela vitória do que o adversário. Das várias opiniões lidas, não consta que o Sporting alguma vez tenha estado em perigo de poder ganhar o jogo ou sequer tentar ganhá-lo. A diferença para o jogo da Supertaça é que, desta vez, não apareceu um pontapé do outro mundo para desmentir a verdade do ditado que diz que quem não arrisca não petisca. Mas, afinal, os sportinguistas (nem outra coisa seria de esperar deles na hora da derrota…) trataram logo de vir explicar que só perderam o jogo por culpa do árbitro. Este teria interpretado mal a intenção de Polga ao atrasar a bola para o seu guarda-redes: ele não quis atrasá-la, quis apenas cortá-la — palavras do próprio Polga. Já há uns meses, também no Dragão, o Polga não teve intenção de derrubar o Pepe na área, quis apenas cortar a bola. Foi coincidência que então a bola nem se tenha mexido, enquanto o Pepe levantou voo, e coincidência que agora a bola tenha ido direitinha para as mãos do guarda-redes. A grande diferença é que, se então o árbitro esteve sincronizado com as intenções do Polga, desta vez não esteve. Mas parece também que, no domingo passado e frente ao Belenenses, o árbitro já esteve melhor sincronizado com as intenções sportinguistas. Basta ver como, desta vez, eles se remeteram ao silêncio sobre a arbitragem. No final, contas feitas e se voltarem a perder o campeonato por um ponto, juro-vos que eles virão dizer que só não foram campeões porque o árbitro percebeu mal que a intenção do Polga não era atrasar a bola para o guarda-redes, no jogo do Dragão. Vira o disco e toca o mesmo de sempre…
- Quarta-feira, o Benfica comprou mais três sul-americanos e Di Maria estreou-se, finalmente curado da lesão que trazia e confirmando as boas referências que lhe fizeram. E, no decisivo jogo de Copenhaga, conforme reza a crónica de A BOLA, teve a sorte do jogo e a sorte da arbitragem. E, assim, Camacho fez esquecer Fernando Santos e salvou a intangibilidade de Luís Filipe Vieira. Porque, se o Benfica tem falhado a Liga dos Campeões, para algum lado se iria virar a ira dos adeptos e palpita-me que, desta vez, não seria contra o treinador.
- Francamente, achei de muito mau gosto e muito pouco desportiva a intransigência do FC Porto ao não ceder ao adiamento do seu jogo contra o União de Leiria. Para mais, com a paragem do campeonato no próximo fim-de-semana, não havia argumento razoável que o justificasse (e, para mais, se o jogo tem sido ontem, eu já o tinha visto…). Parece-me que a intenção clara foi tirar partido do cansaço do adversário — e conseguiu-o. São jogadas que não gosto de ver, nem no meu clube ou, principalmente, no meu clube.
- Em três jornadas, o FC Porto matou três borregos da época passada: Sp. Braga, Sporting e U. Leiria. Foi um começo de campeonato a 100%, cuja importância se poderá revelar determinante no futuro. Mas nem tudo é líquido na equipa de Jesualdo Ferreira. A situação de Postiga, nem vendido nem aproveitado, é uma das razões de perplexidade. A outra é, obviamente, a situação dos reforços, de que já aqui falei. Jesualdo não gosta da palavra reforços e acha que numa equipa campeã ninguém é comprado para entrar a jogar mas, sim, para ficar em banho-maria, à espera que algum dos campeões se lesione. É um ponto de vista de treinador e aceitável, como todos os outros. Diferente é o meu ponto de vista, o de accionista e sócio pagante. E insisto no meu ponto de vista, já longamente exposto: se os reforços não fazem falta nem têm, por si só, categoria para entrar directamente na equipa, para quê a necessidade de comprar uma dúzia deles todos os anos, fazendo com que o grande problema da gestão do plantel seja arranjar clubes que os queiram por empréstimo? Das duas, uma: Jesualdo não tem razão na forma como não integra novos jogadores com valor na equipa, ou tem razão em não integrá-los mas, neste caso, deve uma explicação aos sócios sobre o motivo porque os quis, e logo tantos. É que gastar dinheiro a comprar jogadores por atacado é fácil. Só que depois vai ser urgente vender o Quaresma para esconder o défice acumulado a pagar ordenados a jogadores inúteis e excedentários.
- Desafio alguém a dizer-me quais eram os clubes de Carl Lewis, Jesse Owens, Juantorama, Abéé Bikila, ou qualquer outra das glórias eternas do atletismo mundial. Lá fora, de certeza que muitos não esqueceram os nomes de Carlos Lopes, Fernanda Ribeiro ou Rosa Mota. Quem não esqueceu, sabe que são atletas portugueses, mas de certeza que ninguém sabe a que clube pertenciam. O atletismo tem essa vantagem anti-clubística sobre o futebol. Ou melhor, tinha: porque esta semana, lendo opiniões de vários leitores de vários jornais, cheguei à conclusão de que os dois novos campeões mundiais, Vanessa Fernandes e Nelson Évora, não são de Portugal mas, sim, do Benfica. Pois felicito o Benfica pelos seus campeões do mundo mas, se não se importam, considero que eles são campeões de nós todos e não apenas dos benfiquistas.
PS: Se bem percebi, a minha colega de coluna, Leonor Pinhão, desmente que tenha tido alguma coisa que ver com a escrita do livro da d.ª Carolina Salgado ou com a entusiástica ressurreição das investigações do Apito Dourado, determinadas pela publicação dessa obra literária. Parece que ela, e citando as suas próprias palavras, nunca se dispôs a «sujeitar a verdade ao crivo do julgamento popular em função das paixões clubistas que toldam o raciocínio». Assim, por exemplo, o tão publicitado filme Corrupção — de que ela é autora do script e o marido da direcção — não tem nada que ver com um julgamento popular ditado por paixões clubistas, em que a verdade já está estabelecida previamente, sem necessidade de contraditório, o julgamento já está feito e a sentença já está dada. É tudo uma aldrabice.
CENAS DO PRIMEIRO CAPÍTULO ( 21 Agosto 2007)
1- Arrancou o campeonato e, segundo deduzi da leitura de A BOLA de ontem, prepara-se já a primeira chicotada da época e no Benfica. As próximas horas (talvez já quando este texto sair) revelarão se o despedimento de Fernando Santos é uma notícia confirmada, um desejo do seu autor ou ambas as coisas.
Fernando Santos é crucificado por ser o elo mais fraco da cadeia e o mais fácil de servir como bode expiatório. Não vou discutir se ele é ou não bom treinador — isso é, sobretudo, uma questão subjectiva e que não seria elegante abordar agora. O que sei é que há uns vinte anos que os treinadores do Benfica pagam pelos desejos eternamente adiados de regresso aos gloriosos tempos do Glorioso. Mas, nesses vinte anos, também não vi que o Benfica tenha tido um único presidente à altura dessa tarefa. Se agora, por exempo, é só o futebol que falha, e a nível da equipa profissional, cabe perguntar em que outro escalão do futebol é que o Benfica foi campeão na época que passou ou em que outra modalidade desportiva foi campeão? Em nenhum e em nenhuma. Donde, todos os treinadores do Benfica são incompetentes e só a Direcção está acima de qualquer crítica. A verdade é que, nos clubes portugueses, e não apenas no Benfica, só há duas espécies de amovíveis: os treinadores e os bons jogadores — que vão e vêm ao sabor das circunstâncias e das oportunidades. Já os presidentes e os maus jogadores, esses, não há quem os remova.
Fernando Santos foi aposta pessoal de Luís Filipe Vieira. José Veiga também e, segundo nos informaram, foi ele quem escolheu os reforços para esta época. Com muita publicidade a ajudar, convenceram os benfiquistas de que, como disse Vieira, esta era «a melhor equipa da década». Isso permitiu a Vieira vender o Simão (que estava para o Benfica como o Quaresma está para o Porto) por 20 milhões, depois de ter jurado que só vendia por 25. Permitiu-lhe vender o Manuel Fernandes no próprio dia do jogo decisivo da Champions, depois de ter garantido que não o vendia e apresentar em troca o Freddy Adu — o «novo Eusébio», um suposto «fenómeno» cobiçado por Manchester, Arsenal e Chelsea, e que o génio de Veiga permitiu comprar pela pechincha de 1,5 milhões de euros. Assim decretado que esta era uma equipa de sonho, restava esperar pelo espectáculo e resultados correspondentes. Como eles não apareceram logo, a culpa só pode ser do treinador, pois que, por definição, o presidente é infalível.
Não há nada como governar sem crítica nem escrutínio. Que o diga Pinto da Costa. E que o diga Luís Filipe Vieira, que conta com 80 por cento da imprensa desportiva eternamente a incensá-lo, promovê-lo e absolvê-lo de todas as asneiras cometidas, num exercício diário de bajulação e subserviência que não abona nada a corporação dos jornalistas desportivos.
2- Um FC Porto transfigurado para melhor em relação ao da Supertaça, venceu com categoria, vontade e toda a justiça do mundo o difícil jogo de estreia em Braga. Eu esperava mais do Braga e menos do Porto, mas felizmente sucedeu o contrário. Desculpem-me a imodéstia, mas sinto-me um bocadinho responsável pela vitória: de há três anos para cá, tenho-me batido incansavelmente em defesa de Ricardo Quaresma e para que o clube o não venda. Começei a fazê-lo ainda quando Co Adriaanse, com o apoio generalizado da crítica, o remetia ao banco de suplentes, com a justificação de que ele «não defendia». Depois de uma época em que Quaresma foi responsável por 50 por cento das assistências para golo, ei-lo que começa esta arrancando sozinho com a vitória em Braga. Depois das vendas de Pepe e de Anderson, se o venderem também, se lhe partirem uma perna ou se o CD da Liga voltar a tomá-lo de ponta, a equipa encosta. Por mais que Jesualdo fale no «colectivo», que até se portou muito bem em Braga.
3- A suspensão de Lisandro López pelo CD da Federação é um caso de total falta de vergonha e um aparente prenúncio de que este vai ser mais um ano a pagar a factura do Apito Dourado. Que venha esse julgamento e depressa, para que sejam restabelecidas as condições de igualdade na disputa das competições!
4- E, por falar em Apito Dourado, vou dizer uma coisa que ninguém, na barricada oposta, seria capaz de dizer, em sentido contrário: cheira-me que o tal relatório anónimo baptizado de Apito Encarnado não passa de uma manobra inspirada pela Direcção portista.
Mas, dito isto, também não entendo a consternação das vestais da «moral desportiva» com o facto de o procurador-geral da República ter decidido abrir um inquérito aos factos constantes do dito relatório. E, por várias razões. Primeiro, porque as acusações feitas são demasiado graves para que o procurador lhes passasse simplesmente uma esponja por cima. Segundo, porque é fácil de adivinhar que o inquérito concluirá que nada é verdade. E terceiro, porque, tendo o dr. Pinto Monteiro, acabado de entrar em funções, determinado a reabertura da instrução em processos arquivados contra Pinto da Costa, com base unicamente no livro de Carolina Salgado — (de que hoje não restam dúvidas de que foi inspirado, congeminado e escrito a mando de altos cérebros benfiquistas) — não se percebe como poderia ele mandar para o lixo este relatório, sob o argumento de que se tratava de uma simples manobra clubística.
Acontece que o relatório Apito Encarnado, sendo anónimo e provavelmente falso quanto à sua origem, não deixa, contudo, de colocar questões pertinentes, muitas das quais eu próprio aqui tenho colocado.
Por exemplo (e são apenas alguns exemplos): por que razão umas escutas foram motivo de investigação e outras não?
Por que razão dois jogos do FC Porto, sem qualquer importância nem influência no campeonato de então foram declarados suspeitos e outros muito mais importantes e decisivos o não foram?
Por que razão o único crime provado com a obra literária da dª Carolina — a sua auto-incriminação nas agressões ao dr. Ricardo Bexiga — ainda não levou a que ela fosse constituída arguida, continuando antes a gozar do estatuto de testemunha privilegiada e com direito a protecção pessoal paga com o dinheiro dos meus impostos?
Por que razão a dª Carolina — com o curriculum vitae e as motivações de vingança que se conhecem — é uma testemunha tão credível para a dra. Maria José Morgado, e a irmã, sem passado nem motivações correspondentes, é apenas uma difamadora, quando se atreve a vir a público desmentir a maninha?
5- Sábado não estarei cá para ver o FC Porto-Sporting. Não vou fazer antevisões, mas vou deixar um desejo que muito vai irritar os sportinguistas, mas paciência: desejo que nenhuma decisão do árbitro determine o resultado. É que, independentemente de eu achar que o FC Porto jogou mal e perdeu por culpa própria os dois últimos confrontos com o Sporting, em ambos os jogos o resultado final foi influenciado por decisões de arbitragem. Na final da Supertaça, e por todos reconhecido, ficou por marcar um penalty contra o Sporting a castigar um desvio de Tonel com a mão. E, no jogo determinante do campeonato passado, no Dragão, o golo da vitória leonina resultou da conversão de um livre que não existiu, em contraste com o flagrante penalty cometido no último minuto por Polga e que Pedro Henriques, sob o síndroma Apito Dourado, não teve coragem de marcar.
Aliás, quem me segue, sabe que há muitos anos que eu tenho esta tese: no meio da eterna guerra Benfica-Porto, de Apito Dourado para aqui e Apito Encarnado para ali, quem tem verdadeiramente saído a ganhar é o Sporting. Sempre prontos a apresentarem-se como os «cavalheiros do futebol», sempre a protestar contra as arbitragens quando perdem e sempre calados quando são beneficiados, os sportinguistas têm sido, ano após ano, os contemplados com o maior número de erros favoráveis das arbitragens e sempre ajudados, quando jogam em Alvalade, por um caseirismo doentio dos árbitros, sob pressão das bancadas. Por isso é que, nos jogos internacionais, eles são sempre surpreendidos por arbitragens a que não estão habituados. Mas uma tese é uma tese — cada um pode ter a sua.
Fernando Santos é crucificado por ser o elo mais fraco da cadeia e o mais fácil de servir como bode expiatório. Não vou discutir se ele é ou não bom treinador — isso é, sobretudo, uma questão subjectiva e que não seria elegante abordar agora. O que sei é que há uns vinte anos que os treinadores do Benfica pagam pelos desejos eternamente adiados de regresso aos gloriosos tempos do Glorioso. Mas, nesses vinte anos, também não vi que o Benfica tenha tido um único presidente à altura dessa tarefa. Se agora, por exempo, é só o futebol que falha, e a nível da equipa profissional, cabe perguntar em que outro escalão do futebol é que o Benfica foi campeão na época que passou ou em que outra modalidade desportiva foi campeão? Em nenhum e em nenhuma. Donde, todos os treinadores do Benfica são incompetentes e só a Direcção está acima de qualquer crítica. A verdade é que, nos clubes portugueses, e não apenas no Benfica, só há duas espécies de amovíveis: os treinadores e os bons jogadores — que vão e vêm ao sabor das circunstâncias e das oportunidades. Já os presidentes e os maus jogadores, esses, não há quem os remova.
Fernando Santos foi aposta pessoal de Luís Filipe Vieira. José Veiga também e, segundo nos informaram, foi ele quem escolheu os reforços para esta época. Com muita publicidade a ajudar, convenceram os benfiquistas de que, como disse Vieira, esta era «a melhor equipa da década». Isso permitiu a Vieira vender o Simão (que estava para o Benfica como o Quaresma está para o Porto) por 20 milhões, depois de ter jurado que só vendia por 25. Permitiu-lhe vender o Manuel Fernandes no próprio dia do jogo decisivo da Champions, depois de ter garantido que não o vendia e apresentar em troca o Freddy Adu — o «novo Eusébio», um suposto «fenómeno» cobiçado por Manchester, Arsenal e Chelsea, e que o génio de Veiga permitiu comprar pela pechincha de 1,5 milhões de euros. Assim decretado que esta era uma equipa de sonho, restava esperar pelo espectáculo e resultados correspondentes. Como eles não apareceram logo, a culpa só pode ser do treinador, pois que, por definição, o presidente é infalível.
Não há nada como governar sem crítica nem escrutínio. Que o diga Pinto da Costa. E que o diga Luís Filipe Vieira, que conta com 80 por cento da imprensa desportiva eternamente a incensá-lo, promovê-lo e absolvê-lo de todas as asneiras cometidas, num exercício diário de bajulação e subserviência que não abona nada a corporação dos jornalistas desportivos.
2- Um FC Porto transfigurado para melhor em relação ao da Supertaça, venceu com categoria, vontade e toda a justiça do mundo o difícil jogo de estreia em Braga. Eu esperava mais do Braga e menos do Porto, mas felizmente sucedeu o contrário. Desculpem-me a imodéstia, mas sinto-me um bocadinho responsável pela vitória: de há três anos para cá, tenho-me batido incansavelmente em defesa de Ricardo Quaresma e para que o clube o não venda. Começei a fazê-lo ainda quando Co Adriaanse, com o apoio generalizado da crítica, o remetia ao banco de suplentes, com a justificação de que ele «não defendia». Depois de uma época em que Quaresma foi responsável por 50 por cento das assistências para golo, ei-lo que começa esta arrancando sozinho com a vitória em Braga. Depois das vendas de Pepe e de Anderson, se o venderem também, se lhe partirem uma perna ou se o CD da Liga voltar a tomá-lo de ponta, a equipa encosta. Por mais que Jesualdo fale no «colectivo», que até se portou muito bem em Braga.
3- A suspensão de Lisandro López pelo CD da Federação é um caso de total falta de vergonha e um aparente prenúncio de que este vai ser mais um ano a pagar a factura do Apito Dourado. Que venha esse julgamento e depressa, para que sejam restabelecidas as condições de igualdade na disputa das competições!
4- E, por falar em Apito Dourado, vou dizer uma coisa que ninguém, na barricada oposta, seria capaz de dizer, em sentido contrário: cheira-me que o tal relatório anónimo baptizado de Apito Encarnado não passa de uma manobra inspirada pela Direcção portista.
Mas, dito isto, também não entendo a consternação das vestais da «moral desportiva» com o facto de o procurador-geral da República ter decidido abrir um inquérito aos factos constantes do dito relatório. E, por várias razões. Primeiro, porque as acusações feitas são demasiado graves para que o procurador lhes passasse simplesmente uma esponja por cima. Segundo, porque é fácil de adivinhar que o inquérito concluirá que nada é verdade. E terceiro, porque, tendo o dr. Pinto Monteiro, acabado de entrar em funções, determinado a reabertura da instrução em processos arquivados contra Pinto da Costa, com base unicamente no livro de Carolina Salgado — (de que hoje não restam dúvidas de que foi inspirado, congeminado e escrito a mando de altos cérebros benfiquistas) — não se percebe como poderia ele mandar para o lixo este relatório, sob o argumento de que se tratava de uma simples manobra clubística.
Acontece que o relatório Apito Encarnado, sendo anónimo e provavelmente falso quanto à sua origem, não deixa, contudo, de colocar questões pertinentes, muitas das quais eu próprio aqui tenho colocado.
Por exemplo (e são apenas alguns exemplos): por que razão umas escutas foram motivo de investigação e outras não?
Por que razão dois jogos do FC Porto, sem qualquer importância nem influência no campeonato de então foram declarados suspeitos e outros muito mais importantes e decisivos o não foram?
Por que razão o único crime provado com a obra literária da dª Carolina — a sua auto-incriminação nas agressões ao dr. Ricardo Bexiga — ainda não levou a que ela fosse constituída arguida, continuando antes a gozar do estatuto de testemunha privilegiada e com direito a protecção pessoal paga com o dinheiro dos meus impostos?
Por que razão a dª Carolina — com o curriculum vitae e as motivações de vingança que se conhecem — é uma testemunha tão credível para a dra. Maria José Morgado, e a irmã, sem passado nem motivações correspondentes, é apenas uma difamadora, quando se atreve a vir a público desmentir a maninha?
5- Sábado não estarei cá para ver o FC Porto-Sporting. Não vou fazer antevisões, mas vou deixar um desejo que muito vai irritar os sportinguistas, mas paciência: desejo que nenhuma decisão do árbitro determine o resultado. É que, independentemente de eu achar que o FC Porto jogou mal e perdeu por culpa própria os dois últimos confrontos com o Sporting, em ambos os jogos o resultado final foi influenciado por decisões de arbitragem. Na final da Supertaça, e por todos reconhecido, ficou por marcar um penalty contra o Sporting a castigar um desvio de Tonel com a mão. E, no jogo determinante do campeonato passado, no Dragão, o golo da vitória leonina resultou da conversão de um livre que não existiu, em contraste com o flagrante penalty cometido no último minuto por Polga e que Pedro Henriques, sob o síndroma Apito Dourado, não teve coragem de marcar.
Aliás, quem me segue, sabe que há muitos anos que eu tenho esta tese: no meio da eterna guerra Benfica-Porto, de Apito Dourado para aqui e Apito Encarnado para ali, quem tem verdadeiramente saído a ganhar é o Sporting. Sempre prontos a apresentarem-se como os «cavalheiros do futebol», sempre a protestar contra as arbitragens quando perdem e sempre calados quando são beneficiados, os sportinguistas têm sido, ano após ano, os contemplados com o maior número de erros favoráveis das arbitragens e sempre ajudados, quando jogam em Alvalade, por um caseirismo doentio dos árbitros, sob pressão das bancadas. Por isso é que, nos jogos internacionais, eles são sempre surpreendidos por arbitragens a que não estão habituados. Mas uma tese é uma tese — cada um pode ter a sua.