Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
sexta-feira, agosto 10, 2007
terça-feira, julho 24, 2007
MANUAL DE CONDUTA PARA JOGADORES DO FCPORTO ( 10 Julho 2007)
Hoje, você têm vinte anos e é milionário. Mas a vida não vai ser sempre assim. Se for inteligente, você saberá tirar partido dos seus tempos livres, em lugar de se dedicar ociosamente às três coisas que hoje ocupam em exclusivo a cabeça dos jogadores de futebol: automóveis de luxo, penteados e tatuagens.
Agora, que estamos naquela época do ano em que desaguam no Porto levas de novos jogadores de futebol destinados ao FCP— quase todos estrangeiros, sul-americanos e imberbes — deixo-lhes aqui alguns conselhos de comportamento que, se eu mandasse, lhes faria entregar no aeroporto:
- Livre-se de chegar ao FCP a pensar ou a dizer que já está a almejar mais altos voos (como ainda ontem vi o Leandro Lima — que nem sequer ainda chegou — a afirmar). Primeiro, porque os Chelsea, Manchester United e Barcelona não compram todos os jogadores bons do planeta, mas apenas um número restrito dos verdadeiramente excepcionais. Segundo, porque, ao chegar ao FCP, você já está num grande da Europa. É verdade que há, pelo menos, uma dúzia de clubes maiores na Europa a nível financeiro, mas não há sequer uma dúzia que lhe dê as condições e o prestígio que o FCP lhe pode dar.
- O FCP foi 19 vezes campeão de Portugal, duas vezes campeão da Europa e duas vezes campeão do Mundo. Você ainda não foi nada. É uma honra para si vestir esta camisola e estar ao serviço deste clube. Comece pois, por ser humilde, se quiser vir a ser verdadeiramente grande.
- O FCP tem mais de cem anos de história: ainda o seu avô não tinha nascido e já as cores azul e branca (homenagem à antiga e lindíssima bandeira nacional) jogavam futebol. Visite a sala de troféus, fale com os funcionários mais antigos, com velhas glórias do clube, com adeptos de várias gerações. Aprenda a história do clube para aprender a respeitá-lo.
- Como todos os clubes, também o FCP nasceu e vive graças à dedicação dos seus sócios e adeptos. Nunca confunda quem lhe assina os cheques com quem lhe paga: o seu patrão é o FC Porto e o FC Porto é dos seus sócios. É a eles, antes de mais, que você deve respeito e dedicação — a mesma que eles dão ao clube.
- Desde que foi inaugurado, o Estádio do Dragão tem a mais elevada média de assistências em Portugal. No último campeonato, a média foi de 40.000 espectadores por jogo. Não há muitos clubes no Mundo que se possam gabar disto, não há nenhum em toda a América do Sul. Isso dá-lhe bem a noção do amor ao futebol e da dedicação ao clube dos seus adeptos. E deve dar-lhe também a noção da sua responsabilidade em campo. Nunca esqueça, por exemplo, que o público que paga bilhete e se desloca ao estádio, fá-lo para assistir e vibrar com 90 minutos de futebol, e não apenas com 30, 50 ou 70: se estamos a ganhar por dois ou três a zero, isso não o dispensa nem à equipa de continuar a jogar o melhor que sabe pelo prazer do público.
- Você vai poder jogar no mais bonito estádio do Mundo, vai poder treinar num centro de treinos moderno e impecável onde nada falta, vai estagiar em hotéis de luxo, viajar em autocarro de luxo e 1.º classe de aviões fretados, vai ter técnicos, médicos, enfermeiros, pessoal de apoio ao seu serviço 24 horas por dia: nada o dispensa de não dar o máximo sempre. Devem ser raríssimas as actividades e empresas em todo o Mundo em que alguém disponha das mesmas condições de trabalho que o FCP lhe proporciona. Faça por merecer o privilégio.
- Você faz aquilo de que mais gosta e tem a sorte de poder fazer, profissionalmente, o que milhões de miúdos em todo o Mundo pagariam para poder fazer. Você é principescamente pago para jogar futebol ao serviço de um clube. Não tem desculpas para não encharcar essa camisola, nos treinos e nos jogos.
- Jamais venha com a desculpa de que está cansado porque jogou ao fim-de-semana para o campeonato e a meio da semana para a Liga dos Campeões. Esse é o sonho de qualquer jogador e, se você é bom profissional, tem obrigação de estar preparado para isso e muito mais. Mesmo que oiça essa desculpa ao próprio treinador, não alinhe nela. Os grandes jogadores das grandes equipas sabem que o contrato é claro: são anos de glória e de fortuna, em troca de sacrifícios e trabalho árduo. Para descansar, pode esperar pelos 30 anos. E, se não gosta, pode sempre escolher: há outras profissões de menor desgaste físico, em que se pode fazer noitadas, fumar e beber. Mas têm horários de trabalho de 40 ou mais horas, recebe-se cinquenta ou cem vezes menos e não há multidões a aplaudir o nosso trabalho.
- Hoje, você tem 20 anos e é milionário. Mas a vida não vai ser sempre assim. Se for inteligente, você saberá tirar partido dos seus tempos livres, em lugar de se dedicar ociosamente às três coisas que hoje parecem ocupar em exclusivo a cabeça da maioria dos jogadores de futebol: automóveis de luxo, penteados e tatuagens.
- Em vez disso, procure crescer, aprender, cultivar-se, interessar-se pelas coisas. Além do mais, quanto mais mundo e conhecimentos você adquirir, mais inteligente ficará e hoje o futebol que se joga depende muito da inteligência que os jogadores são capazes de integrar no seu jogo.
- Comece, por exemplo, por se interessar e aprender coisas sobre a cidade do Porto, onde terá de viver nos próximos anos. Descubra a história da cidade que deu nome a Portugal, descubra a sua arte, os seus costumes, os seus restaurantes, os seus monumentos, a história do vinho do Porto, a cultura da sua gente. E o mesmo em relação ao seu novo país de acolhimento. Deixe de lado o estereótipo do jogador que diz que é muito caseiro e que só faz vida treino-casa-estágio. Você tem metade dos dias livres: aproveite-os para fazer qualquer coisa de útil.
- Se realmente quer chegar ao topo, deixe as tardes de volta da Playstation, como se fosse um miúdo de doze anos, e ponha-se a aprender línguas, por exemplo: inglês, espanhol, italiano (e português, claro) vão-lhe dar muito jeito para o futuro, dentro ou fora do futebol.
- Contribua para afastar de vez aquela imagem do jogador de futebol que só sabe falar com os pés. Aprenda a exprimir-se como uma pessoa normal, aprenda a falar com a imprensa e, mesmo quando as perguntas são sempre iguais e desinteressantes, como tantas vezes são, procure dar respostas que tenham algum conteúdo e algum interesse para os adeptos. Se só sabe responder por lugares-comuns e banalidades, mais vale então ficar calado: poupa a sua imagem.
- Quando entrar em campo, pense que faz parte de uma equipa e que está ali para dar a vitória ao seu clube. Lá em cima, na bancada, nós não queremos saber se o seu carro custou 123.000 euros, como um dos três carros do Cristiano Ronaldo; não queremos saber se o seu penteado é ainda mais interessante que o do Miguel Veloso, as suas tatuagens mais sexys que as do Beckham e o seu look ainda mais in(?) que o do Abel Xavier. Nem queremos saber se você, como dizia o Valdano, é capaz de fintar três jogadores dentro de uma cabina telefónica — se depois não dá com a saída. Quando estiver em jogo, deixe de se preocupar consigo próprio: use a inteligência a par do talento, levante a cabeça, olhe para o jogo e faça o que for melhor para a equipa, em cada momento.
Se fizer tudo isto, seja bem-vindo ao FC Porto!
Agora, que estamos naquela época do ano em que desaguam no Porto levas de novos jogadores de futebol destinados ao FCP— quase todos estrangeiros, sul-americanos e imberbes — deixo-lhes aqui alguns conselhos de comportamento que, se eu mandasse, lhes faria entregar no aeroporto:
- Livre-se de chegar ao FCP a pensar ou a dizer que já está a almejar mais altos voos (como ainda ontem vi o Leandro Lima — que nem sequer ainda chegou — a afirmar). Primeiro, porque os Chelsea, Manchester United e Barcelona não compram todos os jogadores bons do planeta, mas apenas um número restrito dos verdadeiramente excepcionais. Segundo, porque, ao chegar ao FCP, você já está num grande da Europa. É verdade que há, pelo menos, uma dúzia de clubes maiores na Europa a nível financeiro, mas não há sequer uma dúzia que lhe dê as condições e o prestígio que o FCP lhe pode dar.
- O FCP foi 19 vezes campeão de Portugal, duas vezes campeão da Europa e duas vezes campeão do Mundo. Você ainda não foi nada. É uma honra para si vestir esta camisola e estar ao serviço deste clube. Comece pois, por ser humilde, se quiser vir a ser verdadeiramente grande.
- O FCP tem mais de cem anos de história: ainda o seu avô não tinha nascido e já as cores azul e branca (homenagem à antiga e lindíssima bandeira nacional) jogavam futebol. Visite a sala de troféus, fale com os funcionários mais antigos, com velhas glórias do clube, com adeptos de várias gerações. Aprenda a história do clube para aprender a respeitá-lo.
- Como todos os clubes, também o FCP nasceu e vive graças à dedicação dos seus sócios e adeptos. Nunca confunda quem lhe assina os cheques com quem lhe paga: o seu patrão é o FC Porto e o FC Porto é dos seus sócios. É a eles, antes de mais, que você deve respeito e dedicação — a mesma que eles dão ao clube.
- Desde que foi inaugurado, o Estádio do Dragão tem a mais elevada média de assistências em Portugal. No último campeonato, a média foi de 40.000 espectadores por jogo. Não há muitos clubes no Mundo que se possam gabar disto, não há nenhum em toda a América do Sul. Isso dá-lhe bem a noção do amor ao futebol e da dedicação ao clube dos seus adeptos. E deve dar-lhe também a noção da sua responsabilidade em campo. Nunca esqueça, por exemplo, que o público que paga bilhete e se desloca ao estádio, fá-lo para assistir e vibrar com 90 minutos de futebol, e não apenas com 30, 50 ou 70: se estamos a ganhar por dois ou três a zero, isso não o dispensa nem à equipa de continuar a jogar o melhor que sabe pelo prazer do público.
- Você vai poder jogar no mais bonito estádio do Mundo, vai poder treinar num centro de treinos moderno e impecável onde nada falta, vai estagiar em hotéis de luxo, viajar em autocarro de luxo e 1.º classe de aviões fretados, vai ter técnicos, médicos, enfermeiros, pessoal de apoio ao seu serviço 24 horas por dia: nada o dispensa de não dar o máximo sempre. Devem ser raríssimas as actividades e empresas em todo o Mundo em que alguém disponha das mesmas condições de trabalho que o FCP lhe proporciona. Faça por merecer o privilégio.
- Você faz aquilo de que mais gosta e tem a sorte de poder fazer, profissionalmente, o que milhões de miúdos em todo o Mundo pagariam para poder fazer. Você é principescamente pago para jogar futebol ao serviço de um clube. Não tem desculpas para não encharcar essa camisola, nos treinos e nos jogos.
- Jamais venha com a desculpa de que está cansado porque jogou ao fim-de-semana para o campeonato e a meio da semana para a Liga dos Campeões. Esse é o sonho de qualquer jogador e, se você é bom profissional, tem obrigação de estar preparado para isso e muito mais. Mesmo que oiça essa desculpa ao próprio treinador, não alinhe nela. Os grandes jogadores das grandes equipas sabem que o contrato é claro: são anos de glória e de fortuna, em troca de sacrifícios e trabalho árduo. Para descansar, pode esperar pelos 30 anos. E, se não gosta, pode sempre escolher: há outras profissões de menor desgaste físico, em que se pode fazer noitadas, fumar e beber. Mas têm horários de trabalho de 40 ou mais horas, recebe-se cinquenta ou cem vezes menos e não há multidões a aplaudir o nosso trabalho.
- Hoje, você tem 20 anos e é milionário. Mas a vida não vai ser sempre assim. Se for inteligente, você saberá tirar partido dos seus tempos livres, em lugar de se dedicar ociosamente às três coisas que hoje parecem ocupar em exclusivo a cabeça da maioria dos jogadores de futebol: automóveis de luxo, penteados e tatuagens.
- Em vez disso, procure crescer, aprender, cultivar-se, interessar-se pelas coisas. Além do mais, quanto mais mundo e conhecimentos você adquirir, mais inteligente ficará e hoje o futebol que se joga depende muito da inteligência que os jogadores são capazes de integrar no seu jogo.
- Comece, por exemplo, por se interessar e aprender coisas sobre a cidade do Porto, onde terá de viver nos próximos anos. Descubra a história da cidade que deu nome a Portugal, descubra a sua arte, os seus costumes, os seus restaurantes, os seus monumentos, a história do vinho do Porto, a cultura da sua gente. E o mesmo em relação ao seu novo país de acolhimento. Deixe de lado o estereótipo do jogador que diz que é muito caseiro e que só faz vida treino-casa-estágio. Você tem metade dos dias livres: aproveite-os para fazer qualquer coisa de útil.
- Se realmente quer chegar ao topo, deixe as tardes de volta da Playstation, como se fosse um miúdo de doze anos, e ponha-se a aprender línguas, por exemplo: inglês, espanhol, italiano (e português, claro) vão-lhe dar muito jeito para o futuro, dentro ou fora do futebol.
- Contribua para afastar de vez aquela imagem do jogador de futebol que só sabe falar com os pés. Aprenda a exprimir-se como uma pessoa normal, aprenda a falar com a imprensa e, mesmo quando as perguntas são sempre iguais e desinteressantes, como tantas vezes são, procure dar respostas que tenham algum conteúdo e algum interesse para os adeptos. Se só sabe responder por lugares-comuns e banalidades, mais vale então ficar calado: poupa a sua imagem.
- Quando entrar em campo, pense que faz parte de uma equipa e que está ali para dar a vitória ao seu clube. Lá em cima, na bancada, nós não queremos saber se o seu carro custou 123.000 euros, como um dos três carros do Cristiano Ronaldo; não queremos saber se o seu penteado é ainda mais interessante que o do Miguel Veloso, as suas tatuagens mais sexys que as do Beckham e o seu look ainda mais in(?) que o do Abel Xavier. Nem queremos saber se você, como dizia o Valdano, é capaz de fintar três jogadores dentro de uma cabina telefónica — se depois não dá com a saída. Quando estiver em jogo, deixe de se preocupar consigo próprio: use a inteligência a par do talento, levante a cabeça, olhe para o jogo e faça o que for melhor para a equipa, em cada momento.
Se fizer tudo isto, seja bem-vindo ao FC Porto!
SALDOS DE VERÃO ( 03 Julho 2007)
A hipótese da venda de Quaresma é simplesmente devastadora - quer desportivamente ( vale metade das assistências para golo em toda a época), quer financeiramente, uma vez que não seria vendido pelos 30 milhões de Anderson, e ele vale-os bem.
1 - Até agora, o Benfica gastou três vezes mais do que os seus rivais nas compras de Verão: 12,6 milhões de euros, contra 3,5 do FC Porto e 3,2 do Sporting. Mas as contas ainda não estão fechadas: Soares Franco já anunciou que vem mais um ponta-de-lança para os leões e Pinto da Costa disse que o plantel do FC Porto não está fechado. De qualquer forma, e se Cardozo provar valer os mais de 9 milhões nele investidos, fica a sensação de que o Benfica, por uma vez, poderá ter saído, teoricamente pelo menos, vencedor deste campeonato particular do defeso.
No que respeita ao FC Porto, o que mais me interessa, há boas e más notícias. Boa notícia é, desde logo, a contenção nos gastos, absolutamente essencial para quem apresentou 30 milhões de euros de prejuízo nas contas de 2005/06 e seguia pelo mesmo caminho na gestão corrente (a venda de Anderson permitirá disfarçar em muito o défice de exploração). Boa notícia é também a venda de Ricardo Costa ao Wolfsburgo por 4 milhões, melhor só mesmo a venda de Ricardo Rocha, do Benfica, ao Tottenham.
Mas a venda de Anderson tão cedo foi, como já aqui o expliquei, um péssimo negócio. Os 4 milhões recebidos pela cedência definitiva de Hugo Almeida ao Werder Bremen também são um fraco negócio para quem não dispõe de um ponta-de-lança que faça a diferença. Ao todo, o FC Porto facturou até agora 38 milhões em vendas e gastou 3,5 em compras — não está mal como negócio mas seguramente que a equipa ficou incomparavelmente mais fraca depois de perder Anderson. Má notícia é também a continuada tendência portista para comprar em quantidade: embora gastando três vezes menos que o Benfica, o FC Porto já vai em oito jogadores novos, quase todos desconhecidos e alguns, como é costume, para posições que já se encontram saturadas. O caso mais evidente é o lateral-esquerdo Lino, que vem para um lugar onde já existem quatro clientes mais, fora os que estão emprestados.
Mas há uma boa novidade, que é o facto de, pela primeira vez desde há muito tempo, haver dois jogadores novos que vêm por um ano à experiência, contrariando a política suicida habitual de contratar todos em definitivo e com contratos de quatro ou cinco anos. A principal razão do défice da SAD advém desta política de novo-rico deslumbrado, que tem como consequência a imensa folha de pagamentos mantida para pagar ordenados a jogadores emprestados a outros clubes. Alguém se lembra que o FC Porto paga ordenados a jogadores como Areias, Pittbull, Leandro do Bonfim, Léo Lima, Bruno, Maciel, etc., etc.?
Outra das causas dos prejuízos de gestão crónicos são os ordenados elevadíssimos que se pagam lá pelo Dragão. Temos agora um bom exemplo, com o interesse reiteradamente noticiado do FC Porto no médio Bolatti, um desconhecido jogador de uma obscura equipa argentina, em processo de falência judicial. O jogador é disputado pelo Corunha e pelo FC Porto: o Deportivo, que pertence a um campeonato rico, oferece 35 mil euros mensais de ordenado; o FC Porto, segundo a imprensa local, oferece mais do dobro: 83 mil. E isto, para um lugar de trinco, onde já estão o Paulo Assunção, o João Paulo e uma das contratações novas, Luís Aguiar!
Ao mesmo tempo que já vai em oito novas contratações, mais dois juniores promovidos, o FC Porto prepara-se para deitar fora, emprestados, jogadores como Alan, Vieirinha (tão mal aproveitado!), Diogo Valente (para que foram comprá-lo?), Ivanildo e o guarda-redes Bruno Vale, infinitamente melhor do que Nuno Espírito Santo, agora recomprado. E a fazer fé no que consta nos mentideros, Jesualdo também estará a fim de prescindir de Ibson e Bruno Morais. Todos jogadores de indiscutível valor e margem de progressão longe de estar esgotada e bem aproveitada. Para quê ficar com a despesa deles, sem a respectiva contrapartida, e ir buscar outros, de valor absolutamente desconhecido, para os substituir? Jesualdo tem o direito de não gostar de jogadores como Vieirinha, Bruno Morais ou Ibson. Mas, num clube que tem excesso de jogadores e excesso de prejuízos, não compreendo que o presidente não se vire para o treinador e lhe diga: «Não gosta? Paciência. São estes que temos. E até que terminem os seus contratos, é com estes que vai ter de contar.» Depois de anos e anos em roda livre de contratações, à SAD do FC Porto deveria aplicar-se o mesmo princípio que à Função Pública: por cada um que entrar há dois que têm de sair da folha de pagamentos.
Acresce que, como já foi notado, parece estar-se a assistir a uma opção pela razia de extremos: Ivanildo, Alan, Vieirinha. Resta Ricardo Quaresma… e se restar. Não é preciso ser bruxo para perceber que a Direcção está mortinha por vender Quaresma — de outro modo, aliás, o Atlético Madrid não continuaria a alimentar esperanças, muito bem documentadas na imprensa espanhola. Se isto tem fundamentos sérios, como parece, julgo que a SAD estará apenas à espera de que esteja vendido um número razoável de lugares de época no estádio para anunciar que, além de Anderson, também se foi Quaresma.
A hipótese da venda de Quaresma é simplesmente devastadora — quer desportivamente (vale metade das assistências para golo em toda a época), quer financeiramente, uma vez que seguramente não seria vendido pelos mesmos 30 milhões de Anderson, e ele vale-os bem. Pior ainda é que, se bem conheço a maneira de funcionar de Pinto da Costa nestas situações, a venda de Quaresma seria compensada por uma qualquer asneira, caríssima — tipo Miccoli —, destinada a acalmar as hostes. Espero bem que esteja enganado e que logo à noite já haja um comunicado da SAD a anunciar que não, nunca, jamais, foi equacionado vender o Quaresma e especialmente ao preço de saldo oferecido pelo Atlético Madrid.
2 - Francamente, não consigo entender como é que o Benfica consente em vestir os equipamentos alternativos que a Adidas lhe propõe a cada ano que passa. É difícil escolher pior e mais horrível. Foi, primeiro, aquele preto, misturado com o encarnado, numa combinação cromática verdadeiramente impossível. Depois, veio aquela cor de minhoca desenterrada, extensível aos fatos de treino, e que foi, talvez, o equipamento mais feio que alguma vez vi numa equipa de futebol. E agora vem aquele cor-de-rosa, com o preto a reincidir, que, enfim… como hei-de dizer? Olhem, é aquilo que vocês estão a pensar! Estas coisas têm (pelo menos, para mim) mais importância do que se julga.
Por exemplo, só há dias e pela mão dos Rolling Stones, tive ocasião de conhecer por dentro o Alvalade XXI — que, por fora, já achava a coisa mais feia feita em Lisboa, nos últimos 30 anos. Pois, meu Deus, por dentro aquilo é absolutamente indescritível! Não apenas é horrendo, deprimente, como também tem um ar sujo, prematuramente degradado, parece um palácio de congressos africano construído por chineses. Coitados dos sportinguistas, tão chiques e com um estádio daqueles! Que inveja, que depressão devem sentir quando vão ao Dragão!
1 - Até agora, o Benfica gastou três vezes mais do que os seus rivais nas compras de Verão: 12,6 milhões de euros, contra 3,5 do FC Porto e 3,2 do Sporting. Mas as contas ainda não estão fechadas: Soares Franco já anunciou que vem mais um ponta-de-lança para os leões e Pinto da Costa disse que o plantel do FC Porto não está fechado. De qualquer forma, e se Cardozo provar valer os mais de 9 milhões nele investidos, fica a sensação de que o Benfica, por uma vez, poderá ter saído, teoricamente pelo menos, vencedor deste campeonato particular do defeso.
No que respeita ao FC Porto, o que mais me interessa, há boas e más notícias. Boa notícia é, desde logo, a contenção nos gastos, absolutamente essencial para quem apresentou 30 milhões de euros de prejuízo nas contas de 2005/06 e seguia pelo mesmo caminho na gestão corrente (a venda de Anderson permitirá disfarçar em muito o défice de exploração). Boa notícia é também a venda de Ricardo Costa ao Wolfsburgo por 4 milhões, melhor só mesmo a venda de Ricardo Rocha, do Benfica, ao Tottenham.
Mas a venda de Anderson tão cedo foi, como já aqui o expliquei, um péssimo negócio. Os 4 milhões recebidos pela cedência definitiva de Hugo Almeida ao Werder Bremen também são um fraco negócio para quem não dispõe de um ponta-de-lança que faça a diferença. Ao todo, o FC Porto facturou até agora 38 milhões em vendas e gastou 3,5 em compras — não está mal como negócio mas seguramente que a equipa ficou incomparavelmente mais fraca depois de perder Anderson. Má notícia é também a continuada tendência portista para comprar em quantidade: embora gastando três vezes menos que o Benfica, o FC Porto já vai em oito jogadores novos, quase todos desconhecidos e alguns, como é costume, para posições que já se encontram saturadas. O caso mais evidente é o lateral-esquerdo Lino, que vem para um lugar onde já existem quatro clientes mais, fora os que estão emprestados.
Mas há uma boa novidade, que é o facto de, pela primeira vez desde há muito tempo, haver dois jogadores novos que vêm por um ano à experiência, contrariando a política suicida habitual de contratar todos em definitivo e com contratos de quatro ou cinco anos. A principal razão do défice da SAD advém desta política de novo-rico deslumbrado, que tem como consequência a imensa folha de pagamentos mantida para pagar ordenados a jogadores emprestados a outros clubes. Alguém se lembra que o FC Porto paga ordenados a jogadores como Areias, Pittbull, Leandro do Bonfim, Léo Lima, Bruno, Maciel, etc., etc.?
Outra das causas dos prejuízos de gestão crónicos são os ordenados elevadíssimos que se pagam lá pelo Dragão. Temos agora um bom exemplo, com o interesse reiteradamente noticiado do FC Porto no médio Bolatti, um desconhecido jogador de uma obscura equipa argentina, em processo de falência judicial. O jogador é disputado pelo Corunha e pelo FC Porto: o Deportivo, que pertence a um campeonato rico, oferece 35 mil euros mensais de ordenado; o FC Porto, segundo a imprensa local, oferece mais do dobro: 83 mil. E isto, para um lugar de trinco, onde já estão o Paulo Assunção, o João Paulo e uma das contratações novas, Luís Aguiar!
Ao mesmo tempo que já vai em oito novas contratações, mais dois juniores promovidos, o FC Porto prepara-se para deitar fora, emprestados, jogadores como Alan, Vieirinha (tão mal aproveitado!), Diogo Valente (para que foram comprá-lo?), Ivanildo e o guarda-redes Bruno Vale, infinitamente melhor do que Nuno Espírito Santo, agora recomprado. E a fazer fé no que consta nos mentideros, Jesualdo também estará a fim de prescindir de Ibson e Bruno Morais. Todos jogadores de indiscutível valor e margem de progressão longe de estar esgotada e bem aproveitada. Para quê ficar com a despesa deles, sem a respectiva contrapartida, e ir buscar outros, de valor absolutamente desconhecido, para os substituir? Jesualdo tem o direito de não gostar de jogadores como Vieirinha, Bruno Morais ou Ibson. Mas, num clube que tem excesso de jogadores e excesso de prejuízos, não compreendo que o presidente não se vire para o treinador e lhe diga: «Não gosta? Paciência. São estes que temos. E até que terminem os seus contratos, é com estes que vai ter de contar.» Depois de anos e anos em roda livre de contratações, à SAD do FC Porto deveria aplicar-se o mesmo princípio que à Função Pública: por cada um que entrar há dois que têm de sair da folha de pagamentos.
Acresce que, como já foi notado, parece estar-se a assistir a uma opção pela razia de extremos: Ivanildo, Alan, Vieirinha. Resta Ricardo Quaresma… e se restar. Não é preciso ser bruxo para perceber que a Direcção está mortinha por vender Quaresma — de outro modo, aliás, o Atlético Madrid não continuaria a alimentar esperanças, muito bem documentadas na imprensa espanhola. Se isto tem fundamentos sérios, como parece, julgo que a SAD estará apenas à espera de que esteja vendido um número razoável de lugares de época no estádio para anunciar que, além de Anderson, também se foi Quaresma.
A hipótese da venda de Quaresma é simplesmente devastadora — quer desportivamente (vale metade das assistências para golo em toda a época), quer financeiramente, uma vez que seguramente não seria vendido pelos mesmos 30 milhões de Anderson, e ele vale-os bem. Pior ainda é que, se bem conheço a maneira de funcionar de Pinto da Costa nestas situações, a venda de Quaresma seria compensada por uma qualquer asneira, caríssima — tipo Miccoli —, destinada a acalmar as hostes. Espero bem que esteja enganado e que logo à noite já haja um comunicado da SAD a anunciar que não, nunca, jamais, foi equacionado vender o Quaresma e especialmente ao preço de saldo oferecido pelo Atlético Madrid.
2 - Francamente, não consigo entender como é que o Benfica consente em vestir os equipamentos alternativos que a Adidas lhe propõe a cada ano que passa. É difícil escolher pior e mais horrível. Foi, primeiro, aquele preto, misturado com o encarnado, numa combinação cromática verdadeiramente impossível. Depois, veio aquela cor de minhoca desenterrada, extensível aos fatos de treino, e que foi, talvez, o equipamento mais feio que alguma vez vi numa equipa de futebol. E agora vem aquele cor-de-rosa, com o preto a reincidir, que, enfim… como hei-de dizer? Olhem, é aquilo que vocês estão a pensar! Estas coisas têm (pelo menos, para mim) mais importância do que se julga.
Por exemplo, só há dias e pela mão dos Rolling Stones, tive ocasião de conhecer por dentro o Alvalade XXI — que, por fora, já achava a coisa mais feia feita em Lisboa, nos últimos 30 anos. Pois, meu Deus, por dentro aquilo é absolutamente indescritível! Não apenas é horrendo, deprimente, como também tem um ar sujo, prematuramente degradado, parece um palácio de congressos africano construído por chineses. Coitados dos sportinguistas, tão chiques e com um estádio daqueles! Que inveja, que depressão devem sentir quando vão ao Dragão!
E JÁ ESTREBUCHA NA FORCA COMO UM MORTO ( 26 Junho 2007)
Desde que Maria José Morgado foi nomeada «ad hoc» para o Apito Dourado, Pinto da Costa endendeu que a melhor estratégia de defesa era o silêncio - deixar ela trabalhar em paz e no fim se veria. Em minha opinião, fez mal.
1 - Alguns já discutem quais serão os campeonatos que Benfica e Sporting dividirão entre si, depois de eles serem retirados ao FC Porto pelo CD da Liga. Outros preferem antes uma condenação para o futuro e a dúvida é saber se o FC Porto deve ir parar à Liga de Honra ou à Segunda Divisão-Zona Norte. Elegante, como sempre, o presidente do Benfica, por seu lado, já vê Pinto da Costa a «estrebuchar como um morto», certamente pendurado da forca que lhe está destinada.
A terceira acusação deduzida contra Pinto da Costa diz que ele terá comprado o árbitro do Nacional-Benfica de 2004 — jogo que, segundo o Correio da Manhã, foi decisivo para afastar de vez o Benfica do título desse ano. Infelizmente, não vi lembrado em lado algum quando é que o jogo teve lugar, a quantos pontos estava o Benfica do FC Porto, quando é que o Benfica esteve em risco de ganhar esse campeonato e, já agora, que favores de arbitragem terá o árbitro proporcionado no dito jogo em troca do suborno. Em contrapartida, o Ministério Público refere na acusação em que terá consistido o suborno: num bilhete — um — para o jogo FC Porto-Manchester United.
Se o preço parece barato, convém não esqueçer que, também neste aspecto, está em vigor e amplamente cultivada pela imprensa, uma teoria que se espera consiga suprir as deficiências ou fraquezas da acusação. A teoria diz que o FC Porto manteria com os árbitros uma espécie de «conta-corrente», a qual faria deles avençados permanentes ao serviço do clube. Um bilhetinho para o futebol hoje, as atenções de uma menina amanhã. Ou, se a coisa ainda continuar a parecer barata de mais, entra o testemunho da D.ª Carolina, falando em sacos de notas de quinhentos contos, contados e entregues à sua frente, enquanto ela servia cafezinhos e desempenhava eficazmente o seu papel de agente infiltrado para mais tarde recordar.
Teorias simplificadoras há várias. Há uma, por exemplo, que se destina a contornar a objecção lógica de perguntar que necessidade tinha o FC Porto dos gloriosos anos de 2003/04 de comprar o árbitro para levar de vencida o Estrela da Amadora no Dragão ou empatar com o Beira-Mar, fora de casa. A resposta aconselhada é: um árbitro, uma vez comprado, nem que seja com um bilhete de futebol, está comprado para todos os jogos — o Estrela da Amadora e o Beira-Mar são apenas exemplos. Presumo, é claro, que tenham tentado também encontrar vestígios de crime naqueles jogos que mais atenções movem: os FC Porto-Benfica, Boavista-FC Porto, Sporting-FC Porto. Mas Lucílio Baptista apitou tantos deles que não foi possível encontrar vestígios para incriminar os portistas. A teoria, porém, mantém-se de pé: é para isso que servem as teorias.
Há muitas teorias e informações cruzadas. O Correio da Manhã, que anda muito bem informado sobre o Apito, descobriu agora que o dito se vai ocupar também de uma conversa gravada entre Valentim Loureiro e João Bartolomeu, em que o presidente do Leiria negoceia com o major a escolha de um árbitro para um jogo. Esta teoria está manifestamente errada. Primeiro, porque desde que Maria José Morgado chamou a si o Apito, só tem havido investigações e acusações a Pinto da Costa. O major tem visto os seus casos serem arquivados paulatinamente e dos outros nada consta. Segundo, porque conversas a negociar árbitros não são relevantes para o Apito — como se conclui do facto daquela tão elucidativa conversa entre o major e o presidente do Benfica, escolhendo cautelosamente o nome do árbitro para um jogo com o Belenenses, nunca ter sido motivo para qualquer investigação, penal ou desportiva.
Comentando as declarações de Pinto da Costa nas comemorações dos 25 anos da Casa do FC Porto em Lisboa, A BOLA dizia que o presidente portista tinha decidido que a melhor defesa é o ataque. Infelizmente, chega tarde e em resultado de uma má análise da situação.
Desde que Maria José Morgado foi nomeada ad hoc para o Apito, Pinto da Costa entendeu que a melhor estratégia de defesa era o silêncio — deixar que ela trabalhasse em paz e no fim se veria. Em minha opinião fez mal. Primeiro, porque as declarações logo então proferidas pelo Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, sobre a importância que dava ao livro de Carolina Salgado, foram um sinal evidente de que, para o Ministério Público, já havia um pré-juízo sobre a culpabilidade de Pinto da Costa. A partir daí tornou-se mais ou menos claro que a tarefa de Maria José Morgado consistia em reatar os processos arquivados contra o presidente portista e, baseando-se no testemunho de Carolina Salgado (com quem pôde trabalhar livremente o tempo que quis), deduzir todas as acusações que conseguisse contra ele. O Apito Dourado ficou desde logo restringido à caça a Pinto da Costa. E o seu silêncio, ao longo de nove meses em que foi cirurgicamente cozido em lume brando, com as habituais fugas de informação e comentários de imprensa, equivaleu para a opinião pública predisposta a tal, a uma confissão de culpa.
Desde a primeira hora que Pinto da Costa deveria ter dito o que disse domingo passado: estou inocente de todas as acusações. Em vez disso, preferiu confiar em que fosse a investigação a dizê-lo, em vez dele. Enganou-se e agora parte para o contra-ataque e para a instrução do processo — a primeira altura em que, processualmente, se pode defender — em posição de inferioridade. Também acho, e escrevi-o na altura, que ele se deveria ter então demitido — não por causa do Apito Dourado, mas por causa dos danos que consentiu que a sua vida privada causasse ao clube —, como se viu já transparentemente no campeonato que acabou e como, seguramente, se vai ver no próximo. Demitir-se não significava uma assunção de culpa, mas o assumir da responsabilidade que advém de certos cargos que se ocupa. Pode ser um preço injusto a pagar, mas é o ónus da função: sair e provar cá fora a sua inocência.
2 - Não percebo nada de vela, mas tentei seguir atentamente a segunda regata da Taça América, em Valência, através da Sport TV. Com dois comentadores em estúdio, que não escondiam a sua expertize na matéria, confiei em que eles me iriam elucidando ao longo da regata sobre aquilo que se ia passando, nomeadamente explicando como funcionava a tripulação, o significado de manobras a que assistíamos, as jogadas tácticas de-senvolvidas, a influência dos ventos na estratégia, a razão da opção por certas velas em alguns momentos e noutros não, etc, tudo aquilo que um leigo e espectador comum precisava de ir sabendo para poder acompanhar a regata com um mínimo de interesse. Afinal, deparei-me com dois comentadores a falarem para si próprios e sem a menor noção de como se faz um comentário desportivo em televisão — como tantas vezes sucede na Sport TV, por exemplo, com os comentários de ténis de Tânia Couto, que são autêntico ruído de imagem. Apesar de tudo, comecei a achar estranho, a certa altura, que eles só falassem, totalmente a despropósito, da situação da vela e dos velejadores portugueses, de outras provas nacionais decorridas ou a decorrer e de outros assuntos absolutamente exdrúxulos onde aproveitavam para mostrar até que ponto pertenciam ao milieu. Enfim, falavam de tudo, menos da regata a que estávamos a assistir. Finalmente, percebi a razão: eles não percebiam nada do que se estava a passar.
3 - Como não se consegue exprimir bem em nenhuma das três línguas que fala — português, inglês e madeirense —, e como também não consegue conter a sua ânsia de protagonismo, Joe Berardo escorregou e espalhou-se ao comprido, com os insultos a Rui Costa. Agora, até ele já percebeu o preço a pagar: ou mete mesmo uns milhões, contados, no Benfica, ou pode ir pregar para outra freguesia.
1 - Alguns já discutem quais serão os campeonatos que Benfica e Sporting dividirão entre si, depois de eles serem retirados ao FC Porto pelo CD da Liga. Outros preferem antes uma condenação para o futuro e a dúvida é saber se o FC Porto deve ir parar à Liga de Honra ou à Segunda Divisão-Zona Norte. Elegante, como sempre, o presidente do Benfica, por seu lado, já vê Pinto da Costa a «estrebuchar como um morto», certamente pendurado da forca que lhe está destinada.
A terceira acusação deduzida contra Pinto da Costa diz que ele terá comprado o árbitro do Nacional-Benfica de 2004 — jogo que, segundo o Correio da Manhã, foi decisivo para afastar de vez o Benfica do título desse ano. Infelizmente, não vi lembrado em lado algum quando é que o jogo teve lugar, a quantos pontos estava o Benfica do FC Porto, quando é que o Benfica esteve em risco de ganhar esse campeonato e, já agora, que favores de arbitragem terá o árbitro proporcionado no dito jogo em troca do suborno. Em contrapartida, o Ministério Público refere na acusação em que terá consistido o suborno: num bilhete — um — para o jogo FC Porto-Manchester United.
Se o preço parece barato, convém não esqueçer que, também neste aspecto, está em vigor e amplamente cultivada pela imprensa, uma teoria que se espera consiga suprir as deficiências ou fraquezas da acusação. A teoria diz que o FC Porto manteria com os árbitros uma espécie de «conta-corrente», a qual faria deles avençados permanentes ao serviço do clube. Um bilhetinho para o futebol hoje, as atenções de uma menina amanhã. Ou, se a coisa ainda continuar a parecer barata de mais, entra o testemunho da D.ª Carolina, falando em sacos de notas de quinhentos contos, contados e entregues à sua frente, enquanto ela servia cafezinhos e desempenhava eficazmente o seu papel de agente infiltrado para mais tarde recordar.
Teorias simplificadoras há várias. Há uma, por exemplo, que se destina a contornar a objecção lógica de perguntar que necessidade tinha o FC Porto dos gloriosos anos de 2003/04 de comprar o árbitro para levar de vencida o Estrela da Amadora no Dragão ou empatar com o Beira-Mar, fora de casa. A resposta aconselhada é: um árbitro, uma vez comprado, nem que seja com um bilhete de futebol, está comprado para todos os jogos — o Estrela da Amadora e o Beira-Mar são apenas exemplos. Presumo, é claro, que tenham tentado também encontrar vestígios de crime naqueles jogos que mais atenções movem: os FC Porto-Benfica, Boavista-FC Porto, Sporting-FC Porto. Mas Lucílio Baptista apitou tantos deles que não foi possível encontrar vestígios para incriminar os portistas. A teoria, porém, mantém-se de pé: é para isso que servem as teorias.
Há muitas teorias e informações cruzadas. O Correio da Manhã, que anda muito bem informado sobre o Apito, descobriu agora que o dito se vai ocupar também de uma conversa gravada entre Valentim Loureiro e João Bartolomeu, em que o presidente do Leiria negoceia com o major a escolha de um árbitro para um jogo. Esta teoria está manifestamente errada. Primeiro, porque desde que Maria José Morgado chamou a si o Apito, só tem havido investigações e acusações a Pinto da Costa. O major tem visto os seus casos serem arquivados paulatinamente e dos outros nada consta. Segundo, porque conversas a negociar árbitros não são relevantes para o Apito — como se conclui do facto daquela tão elucidativa conversa entre o major e o presidente do Benfica, escolhendo cautelosamente o nome do árbitro para um jogo com o Belenenses, nunca ter sido motivo para qualquer investigação, penal ou desportiva.
Comentando as declarações de Pinto da Costa nas comemorações dos 25 anos da Casa do FC Porto em Lisboa, A BOLA dizia que o presidente portista tinha decidido que a melhor defesa é o ataque. Infelizmente, chega tarde e em resultado de uma má análise da situação.
Desde que Maria José Morgado foi nomeada ad hoc para o Apito, Pinto da Costa entendeu que a melhor estratégia de defesa era o silêncio — deixar que ela trabalhasse em paz e no fim se veria. Em minha opinião fez mal. Primeiro, porque as declarações logo então proferidas pelo Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, sobre a importância que dava ao livro de Carolina Salgado, foram um sinal evidente de que, para o Ministério Público, já havia um pré-juízo sobre a culpabilidade de Pinto da Costa. A partir daí tornou-se mais ou menos claro que a tarefa de Maria José Morgado consistia em reatar os processos arquivados contra o presidente portista e, baseando-se no testemunho de Carolina Salgado (com quem pôde trabalhar livremente o tempo que quis), deduzir todas as acusações que conseguisse contra ele. O Apito Dourado ficou desde logo restringido à caça a Pinto da Costa. E o seu silêncio, ao longo de nove meses em que foi cirurgicamente cozido em lume brando, com as habituais fugas de informação e comentários de imprensa, equivaleu para a opinião pública predisposta a tal, a uma confissão de culpa.
Desde a primeira hora que Pinto da Costa deveria ter dito o que disse domingo passado: estou inocente de todas as acusações. Em vez disso, preferiu confiar em que fosse a investigação a dizê-lo, em vez dele. Enganou-se e agora parte para o contra-ataque e para a instrução do processo — a primeira altura em que, processualmente, se pode defender — em posição de inferioridade. Também acho, e escrevi-o na altura, que ele se deveria ter então demitido — não por causa do Apito Dourado, mas por causa dos danos que consentiu que a sua vida privada causasse ao clube —, como se viu já transparentemente no campeonato que acabou e como, seguramente, se vai ver no próximo. Demitir-se não significava uma assunção de culpa, mas o assumir da responsabilidade que advém de certos cargos que se ocupa. Pode ser um preço injusto a pagar, mas é o ónus da função: sair e provar cá fora a sua inocência.
2 - Não percebo nada de vela, mas tentei seguir atentamente a segunda regata da Taça América, em Valência, através da Sport TV. Com dois comentadores em estúdio, que não escondiam a sua expertize na matéria, confiei em que eles me iriam elucidando ao longo da regata sobre aquilo que se ia passando, nomeadamente explicando como funcionava a tripulação, o significado de manobras a que assistíamos, as jogadas tácticas de-senvolvidas, a influência dos ventos na estratégia, a razão da opção por certas velas em alguns momentos e noutros não, etc, tudo aquilo que um leigo e espectador comum precisava de ir sabendo para poder acompanhar a regata com um mínimo de interesse. Afinal, deparei-me com dois comentadores a falarem para si próprios e sem a menor noção de como se faz um comentário desportivo em televisão — como tantas vezes sucede na Sport TV, por exemplo, com os comentários de ténis de Tânia Couto, que são autêntico ruído de imagem. Apesar de tudo, comecei a achar estranho, a certa altura, que eles só falassem, totalmente a despropósito, da situação da vela e dos velejadores portugueses, de outras provas nacionais decorridas ou a decorrer e de outros assuntos absolutamente exdrúxulos onde aproveitavam para mostrar até que ponto pertenciam ao milieu. Enfim, falavam de tudo, menos da regata a que estávamos a assistir. Finalmente, percebi a razão: eles não percebiam nada do que se estava a passar.
3 - Como não se consegue exprimir bem em nenhuma das três línguas que fala — português, inglês e madeirense —, e como também não consegue conter a sua ânsia de protagonismo, Joe Berardo escorregou e espalhou-se ao comprido, com os insultos a Rui Costa. Agora, até ele já percebeu o preço a pagar: ou mete mesmo uns milhões, contados, no Benfica, ou pode ir pregar para outra freguesia.