quarta-feira, setembro 26, 2007

NÃO HOUVE CRÓNICA ( 28 Agosto 2007)

Não houve crónica.

CENAS DO PRIMEIRO CAPÍTULO ( 21 Agosto 2007)

1- Arrancou o campeonato e, segundo deduzi da leitura de A BOLA de ontem, prepara-se já a primeira chicotada da época e no Benfica. As próximas horas (talvez já quando este texto sair) revelarão se o despedimento de Fernando Santos é uma notícia confirmada, um desejo do seu autor ou ambas as coisas.

Fernando Santos é crucificado por ser o elo mais fraco da cadeia e o mais fácil de servir como bode expiatório. Não vou discutir se ele é ou não bom treinador — isso é, sobretudo, uma questão subjectiva e que não seria elegante abordar agora. O que sei é que há uns vinte anos que os treinadores do Benfica pagam pelos desejos eternamente adiados de regresso aos gloriosos tempos do Glorioso. Mas, nesses vinte anos, também não vi que o Benfica tenha tido um único presidente à altura dessa tarefa. Se agora, por exempo, é só o futebol que falha, e a nível da equipa profissional, cabe perguntar em que outro escalão do futebol é que o Benfica foi campeão na época que passou ou em que outra modalidade desportiva foi campeão? Em nenhum e em nenhuma. Donde, todos os treinadores do Benfica são incompetentes e só a Direcção está acima de qualquer crítica. A verdade é que, nos clubes portugueses, e não apenas no Benfica, só há duas espécies de amovíveis: os treinadores e os bons jogadores — que vão e vêm ao sabor das circunstâncias e das oportunidades. Já os presidentes e os maus jogadores, esses, não há quem os remova.

Fernando Santos foi aposta pessoal de Luís Filipe Vieira. José Veiga também e, segundo nos informaram, foi ele quem escolheu os reforços para esta época. Com muita publicidade a ajudar, convenceram os benfiquistas de que, como disse Vieira, esta era «a melhor equipa da década». Isso permitiu a Vieira vender o Simão (que estava para o Benfica como o Quaresma está para o Porto) por 20 milhões, depois de ter jurado que só vendia por 25. Permitiu-lhe vender o Manuel Fernandes no próprio dia do jogo decisivo da Champions, depois de ter garantido que não o vendia e apresentar em troca o Freddy Adu — o «novo Eusébio», um suposto «fenómeno» cobiçado por Manchester, Arsenal e Chelsea, e que o génio de Veiga permitiu comprar pela pechincha de 1,5 milhões de euros. Assim decretado que esta era uma equipa de sonho, restava esperar pelo espectáculo e resultados correspondentes. Como eles não apareceram logo, a culpa só pode ser do treinador, pois que, por definição, o presidente é infalível.

Não há nada como governar sem crítica nem escrutínio. Que o diga Pinto da Costa. E que o diga Luís Filipe Vieira, que conta com 80 por cento da imprensa desportiva eternamente a incensá-lo, promovê-lo e absolvê-lo de todas as asneiras cometidas, num exercício diário de bajulação e subserviência que não abona nada a corporação dos jornalistas desportivos.

2- Um FC Porto transfigurado para melhor em relação ao da Supertaça, venceu com categoria, vontade e toda a justiça do mundo o difícil jogo de estreia em Braga. Eu esperava mais do Braga e menos do Porto, mas felizmente sucedeu o contrário. Desculpem-me a imodéstia, mas sinto-me um bocadinho responsável pela vitória: de há três anos para cá, tenho-me batido incansavelmente em defesa de Ricardo Quaresma e para que o clube o não venda. Começei a fazê-lo ainda quando Co Adriaanse, com o apoio generalizado da crítica, o remetia ao banco de suplentes, com a justificação de que ele «não defendia». Depois de uma época em que Quaresma foi responsável por 50 por cento das assistências para golo, ei-lo que começa esta arrancando sozinho com a vitória em Braga. Depois das vendas de Pepe e de Anderson, se o venderem também, se lhe partirem uma perna ou se o CD da Liga voltar a tomá-lo de ponta, a equipa encosta. Por mais que Jesualdo fale no «colectivo», que até se portou muito bem em Braga.

3- A suspensão de Lisandro López pelo CD da Federação é um caso de total falta de vergonha e um aparente prenúncio de que este vai ser mais um ano a pagar a factura do Apito Dourado. Que venha esse julgamento e depressa, para que sejam restabelecidas as condições de igualdade na disputa das competições!

4- E, por falar em Apito Dourado, vou dizer uma coisa que ninguém, na barricada oposta, seria capaz de dizer, em sentido contrário: cheira-me que o tal relatório anónimo baptizado de Apito Encarnado não passa de uma manobra inspirada pela Direcção portista.

Mas, dito isto, também não entendo a consternação das vestais da «moral desportiva» com o facto de o procurador-geral da República ter decidido abrir um inquérito aos factos constantes do dito relatório. E, por várias razões. Primeiro, porque as acusações feitas são demasiado graves para que o procurador lhes passasse simplesmente uma esponja por cima. Segundo, porque é fácil de adivinhar que o inquérito concluirá que nada é verdade. E terceiro, porque, tendo o dr. Pinto Monteiro, acabado de entrar em funções, determinado a reabertura da instrução em processos arquivados contra Pinto da Costa, com base unicamente no livro de Carolina Salgado — (de que hoje não restam dúvidas de que foi inspirado, congeminado e escrito a mando de altos cérebros benfiquistas) — não se percebe como poderia ele mandar para o lixo este relatório, sob o argumento de que se tratava de uma simples manobra clubística.

Acontece que o relatório Apito Encarnado, sendo anónimo e provavelmente falso quanto à sua origem, não deixa, contudo, de colocar questões pertinentes, muitas das quais eu próprio aqui tenho colocado.

Por exemplo (e são apenas alguns exemplos): por que razão umas escutas foram motivo de investigação e outras não?

Por que razão dois jogos do FC Porto, sem qualquer importância nem influência no campeonato de então foram declarados suspeitos e outros muito mais importantes e decisivos o não foram?

Por que razão o único crime provado com a obra literária da dª Carolina — a sua auto-incriminação nas agressões ao dr. Ricardo Bexiga — ainda não levou a que ela fosse constituída arguida, continuando antes a gozar do estatuto de testemunha privilegiada e com direito a protecção pessoal paga com o dinheiro dos meus impostos?

Por que razão a dª Carolina — com o curriculum vitae e as motivações de vingança que se conhecem — é uma testemunha tão credível para a dra. Maria José Morgado, e a irmã, sem passado nem motivações correspondentes, é apenas uma difamadora, quando se atreve a vir a público desmentir a maninha?

5- Sábado não estarei cá para ver o FC Porto-Sporting. Não vou fazer antevisões, mas vou deixar um desejo que muito vai irritar os sportinguistas, mas paciência: desejo que nenhuma decisão do árbitro determine o resultado. É que, independentemente de eu achar que o FC Porto jogou mal e perdeu por culpa própria os dois últimos confrontos com o Sporting, em ambos os jogos o resultado final foi influenciado por decisões de arbitragem. Na final da Supertaça, e por todos reconhecido, ficou por marcar um penalty contra o Sporting a castigar um desvio de Tonel com a mão. E, no jogo determinante do campeonato passado, no Dragão, o golo da vitória leonina resultou da conversão de um livre que não existiu, em contraste com o flagrante penalty cometido no último minuto por Polga e que Pedro Henriques, sob o síndroma Apito Dourado, não teve coragem de marcar.

Aliás, quem me segue, sabe que há muitos anos que eu tenho esta tese: no meio da eterna guerra Benfica-Porto, de Apito Dourado para aqui e Apito Encarnado para ali, quem tem verdadeiramente saído a ganhar é o Sporting. Sempre prontos a apresentarem-se como os «cavalheiros do futebol», sempre a protestar contra as arbitragens quando perdem e sempre calados quando são beneficiados, os sportinguistas têm sido, ano após ano, os contemplados com o maior número de erros favoráveis das arbitragens e sempre ajudados, quando jogam em Alvalade, por um caseirismo doentio dos árbitros, sob pressão das bancadas. Por isso é que, nos jogos internacionais, eles são sempre surpreendidos por arbitragens a que não estão habituados. Mas uma tese é uma tese — cada um pode ter a sua.

QUEM TEM MEDO COMPRA UM CÃO, NÃO COMPRA UMA EQUIPA ( 14 Agosto 2007)

Optando por não encaixar na equipa nenhum dos reforços que pediu e obteve, optando por dispensar o talento e o imprevisto que deixou sentados no banco, em benefício de um futebol previsível e inócuo, Jesualdo ficou sentado à espera do erro do adversário. E lixou-se. Ele, sozinho, perdeu a Supertaça para Paulo Bento. Haverá, ao longo da época e tal como na anterior, muitas ocasiões para o elogiar, segundo espero. Desta vez não houve.


Caros leitores portistas: este texto, e esta reflexão, é só para vocês. É o primeiro da nova época e deve ficar só entre nós. Quando vos deixei para ir de férias tínhamos acabado de vender o Anderson e o meu último texto foi quase de raiva: entendi, e continuo a entender, que o Anderson foi muito mal vendido. Foi vendido prematuramente, antes de ter ainda dado o suficiente ao clube e antes ainda de se poder valorizar muito mais, porque ele vai ser um caso sério no futebol. Foi vendido à pressa, para tapar o buraco dos 30 milhões de prejuízos de gestão da SAD. Depois disso foi vendido o Pepe — e, esse sim, foi bem vendido, porque, apesar de eu vir escrevendo que ele era o melhor central que eu via a jogar, 30 milhões por um central são irrecusáveis.

Dos três verdadeiramente fora de série que tínhamos para vender resta o Quaresma. Não sei, ninguém sabe, se virá ou não a ser vendido, mas com as vendas do Pepe e do Anderson e depois de termos sido o clube do mundo inteiro que mais facturou no defeso com vendas, não é difícil afirmar, como o fez Pinto da Costa, que este ano o FC Porto vai dar lucro. Era o que faltava que não desse! A questão está em saber se para o ano será preciso vender o Quaresma, mais o Leandro Lima, para tapar mais uns 30 milhões de prejuízos da gestão corrente…

O cerne da questão é sempre o mesmo: ano após ano o FC Porto vende poucos e bons e compra muitos e maus. E o dinheiro da venda de uns esgota-se a sustentar os outros. Um portista mais compreensivo dizia-me há dias que só comprando muitos é que se consegue comprar um Anderson e um Pepe de vez em quando. Como se estivéssemos a falar de melões. Mas não é preciso perceber muito de futebol para ver que um Mareque, um Renteria e outros que tais jamais poderiam transformar-se em Pepes ou Andersons — e por isso mesmo é que já foram emprestados, seis meses depois de terem sido comprados.

Este ano, quando inicialmente parecia que iria haver mais contenção, afinal a história acabou por se repetir: foi comprada uma equipa inteira, uma dúzia de jogadores — dos quais três foram directamente emprestados. Dos que não interessavam (do meu ponto de vista…) só um foi vendido: o Ricardo Costa. Os outros ou foram emprestados, com os encargos a cargo do clube, ou «esperam colocação» ou «treinam-se à parte», ou estão como excedentários no núcleo principal. Porque, nestas coisas, os grandes clubes compradores não se enganam: eles querem é os verdadeiramente bons. Os outros, aqueles que, segundo a imprensa amiga, «têm muito mercado», continuam à espera. Ou seja: vende-se o Anderson mas segura-se o Lucho, vende-se o Pepe mas segura-se o Raul Meireles. Pois…

Enfim, entraram 12 novos. Presumo que todos tenham tido o aval do treinador, como seria de esperar. Presumo igualmente que foi com o seu aval que o Ibson e o Diogo Valente foram dispensados, que flanqueadores como o Alan e o Vierinha (este sem nunca ter tido oportunidades para confirmar as boas indicações iniciais) foram emprestados. Presumo também que foi por sua vontade que o FC Porto foi buscar jogadores como o Nuno, o Luís Aguiar, o Bolatti, o Edgar ou o Lino. Presumo que, como seria de esperar, os que entraram são melhores que os que foram dispensados. E que só os foram buscar porque se considerou que eles constituem uma mais-valia para a equipa. E é presumindo tudo isso que não consigo entender como é que, 12 compras depois, Jesualdo Ferreira não tem para apresentar, no primeiro jogo oficial da época, nenhuma cara nova na final da Supertaça. Se não há nenhum com entrada directa na equipa (o Sporting teve quatro…), para que os quis? Se era para serem suplentes não serviam os outros que deitou fora?

Jesualdo preparou quase cientificamente a derrota na Supertaça com o Sporting. Sim, eu sei, houve um penalty por marcar, três bolas aos postes, uma jogada de golo interrompida sem explicação razoável pelo nosso conhecido Bruno Paixão e um adversário, chamado Izmailov, que, depois de um jogo inteiro a dormir, arrancou um pontapé do outro mundo. Mas a verdade é que ele perdeu contra uma equipa do Sporting que mostrou defender bem mas nada mais que isso. E é a segunda vez que o consegue e, francamente, começa a irritar.

Percebi que o FC Porto iria perder o jogo quando ouvi as declarações de Jesualdo Ferreira, antevendo a partida. Disse ele que o jogo seria resolvido por um erro de alguma das duas equipas. Enganou-se, mas o importante é que essa declaração mostrou logo que a sua única táctica para a vitória era confiar num erro do adversário. Por si, pelo valor da sua equipa, ele não esperava chegar lá.

E, quando se apresenta um meio-campo formado por Paulo Assunção, Marek Cech e Raul Meireles — três jogadores que só sabem jogar para os lados ou para trás —, é difícil conseguir chegar aos golos que dão as vitórias. Pelo que vi na pré-época, Jesualdo só tem uma estratégia para o golo: bola para o Quaresma e ele que resolva. Mas, ou o Quaresma é vendido, ou é arrumado, como fizeram ao Anderson, ou é judiciosamente castigado, como na época passada, ou rebenta de exaustão. Depois de 12 jogadores comprados, a mim parece-me que não é de mais exigir que o treinador tenha outras alternativas e as ponha em jogo.

Acontece que, pelo que se viu nos jogos de preparação, até parece tê-las. Há dois jogadores que podem ser uma clara mais-valia: Mariano González e Leandro Lima. Mas Jesualdo só os meteu em campo quando o jogo já estava perdido, porque, e seguindo uma sábia escola de alguns treinadores muito científicos, o talento é uma coisa perigosa e que precisa de ser vigiada. Os jogadores medíocres têm sempre utilidade, os bons é que precisam de «ser integrados aos poucos». O Anderson e o Quaresma, por exemplo, estiveram cada um deles um ano a ser integrados aos poucos…

Optando por não encaixar na equipa nenhum dos reforços que pediu e obteve, optando por dispensar o talento e o imprevisto que deixou sentados no banco, em benefício de um futebol previsível e inócuo, Jesualdo ficou sentado à espera do erro do adversário. E lixou-se. Ele, sozinho, perdeu a Supertaça para Paulo Bento. Haverá, ao longo da época e tal como na anterior, muitas ocasiões para o elogiar, segundo espero. Desta vez não houve.

PS — Tenho-me divertido a sério a ler as notícias das filmagens da Corrupção. Tenho-me divertido a sério a ler nas entrelinhas o embaraço da dr.ª Morgado com o depoimento da irmã da D. Carolina. Tenho-me divertido a sério a ler a minha colega Leonor Pinhão a explicar que o FC Porto é que provocou um conflito com a TAP para incendiar a «guerra Norte-Sul». E tenho-me divertido a sério a ler o José Manuel Delgado a fazer apelos ao comendador Berardo para que meta dinheiro no Benfica, antes que acabe a época de compras. Digo-vos sinceramente que, para quem não é benfiquista nem autista, tudo isto só dá vontade de rir.