terça-feira, julho 24, 2007

ÓPÁ ( 19 Junho 2007)

É eloquente do estado de alma do «clube do povo» que a simples notícia de uma OPA tão pouco clara lançada pelo comendador Berardo tenha suscitado tamanho entusiasmo entre as «forças vivas» da nação benfiquista. Mas cada um sabe de si.


O Benfica foi opado. Assim mesmo, sem mais nem menos, como qualquer banco ou fábrica de salsichas. É uma OPA amigável, já que o opante diz nada querer para si, apenas ajudar, e todos os notáveis da opada se mostram entusiasmados com a ideia. O entusiasmo é tanto que, apesar de a oferta ser claramente baixa, os «accionistas do coração» são incentivados a desfazerem-se das suas acções a favor do opante. Cada um sabe de si.

Eu, pessoalmente, não veria com bons olhos a chegada de um raider ao FC Porto, portista ou não portista, que quisesse fazer seu um clube que é de todos os de coração azul. Bem sei que os novos tempos, o mercado, a necessidade de concorrência internacional, etc. e tal… Sei tudo isso, mas um clube de futebol é um clube de futebol, não é um banco nem uma fábrica de salsichas. Haveria duas coisas que eu pensaria: se o coração portista do raider fosse assim tão grande como a sua carteira, não perceberia que não tivesse comprado acções logo no início, ao preço de subscrição, e só se tivesse lembrado de comprar quando elas estavam cá em baixo. E eu que, como portista, tinha ido à subscrição por razões do coração, era agora convidado a desfazer-me delas a preço de saldo porque chegara alguém como maior coração e maior carteira que eu?

As razões do coração, invocadas pelos notáveis benfiquistas, resumem-se à esperança de que Berardo esteja disposto a avançar com dinheiro para o Benfica comprar bons jogadores. As suas vagas referências a um «fundo de investimentos» fizeram soar campainhas de esperança em muitos corações benfiquistas — os quais, todavia e como temos visto em tempos recentes, raramente acompanham de perto a razão. Mas talvez alguma prudência fosse de aconselhar: Berardo terá muitas qualidades e uma argúcia fina para o negócio, mas nunca foi conhecido por dar ou acrescentar valor. Para já, as únicas coisas que ele prometeu dar aos benfiquistas foram uma águia de pedra que comprou na China e entradas a preços especiais para ver a sua Colecção Berardo no seu CCB (estará isto previsto também no fantástico acordo assinado com o Governo?). E, por esse pouco que promete dar, já recebeu muito em troca, aquilo que ele mais gosta: notoriedade e popularidade.

Joe Berardo move-se com inteligência e à vontade num mercado bolsista que tem tudo à sua medida: é um mercado puramente especulativo e de dimensão tão pequena que basta um movimento seu ou umas frases deixadas cair no momento certo para fazer evoluir os preços como ele deseja. Foi notável a forma como ele aproveitou a recente Assembleia Geral do BCP, onde se discutia uma proposta de alteração aos estatutos. Tendo comprado as suas acções baratas, anunciou que, se a proposta fosse recusada, no dia seguinte estaria a comprar mais acções do BCP. Resultado: as acções começaram a subir a toda a velocidade («compro hoje por 10 e amanhã vendo ao Berardo por 12»). Só que, no dia seguinte, Berardo não comprou (se calhar até vendeu), porque as acções já não estavam baratas. E ficou sentado em cima de mais uns milhões de mais-valias realizados com uma simples boca produzida a tempo.

Joe Berardo é a ilustração viva da velha frase de Marx de que o dinheiro faz dinheiro. Ele não compra empresas nem as gere. Ele não cria postos de trabalho nem acrescenta riqueza à economia. Limita-se a comprar barato bocados de empresas criadas por outros e a vender caro, quando o trabalho ou o mérito dos outros as valorizaram ou quando os seus movimentos especulativos na bolsa as fizeram subir artificialmente de preço. E, quando o Zé Povinho vai atrás, na ânsia de o imitar e também fazer fortuna da noite para o dia, já ele e o negócio sumiram para outras paragens.
É eloquente do estado de alma do «clube do povo» que a simples notícia de uma OPA tão pouco clara lançada pelo comendador Berardo tenha suscitado tamanho entusiasmo entre as «forças vivas» da nação benfiquista. Mas cada um sabe de si.

A notícia mais do que previsível da acusação deduzida por Maria José Morgado contra Pinto da Costa e o FC Porto, suscitou uma tamanha onda de euforia entre os inimigos indefectíveis do FCP que levou alguns, até com responsabilidade e capacidade de distinguir as coisas, a saltar entusiasticamente várias etapas, não só dando já a condenação judicial como consumada, como até acrescentando-lhe a pena. Aqui, neste mesmo jornal, houve quem anunciasse «o polvo finalmente cercado», escrevendo que o que mais interessava agora era a condenação desportiva, mais do que a criminal, e incidindo, claro ou sobre títulos ganhos no passado ou «visando os campeonatos a seguir». Não se pode ser mais claro nem mais descarado. Nem mais impaciente.

A acusação da Dr.ª Morgado reporta-se, por enquanto, ao célebre FC Porto-Estrela da Amadora de 2004 e assenta em três provas: uma escuta telefónica, cujo conteúdo foi explicado e contraditado em termos que levaram ao anterior arquivamento dos autos; a opinião de peritos em arbitragem, alguns contradizendo o que na altura haviam dito; e as declarações da testemunha Carolina Salgado. Como já aqui escrevi, nada melhor do que a Sport TV repetir, com aviso prévio, a transmissão desse jogo para que todos possam avaliar o que é um «jogo suspeito» na opinião da magistrada. Não sei porque não se faz uma coisa tão simples como isso…

Quanto ao testemunho da D. Carolina Salgado, esperem até vê-la a depor sem ser no segredo dos deuses, com a protecção do Ministério Público e de alguns civis benfiquistas voluntários da investigação… Esperem até ver a co-autora do livro (a quem a senhora se esqueceu de pagar), a explicar o que foram «as falsidades e invenções» que a forçaram a meter no texto… Esperem até ver um advogado minimamente capaz reconstituir o que foram os seus passos desde que viu desabar a sociedade conjugal que mantinha com o presidente do FC Porto…


A boa notícia é que Vítor Baía vai continuar ligado ao FC Porto. A má notícia é que abandonou o futebol, quando, em minha opinião, ainda é o melhor de todos os guarda-redes que por lá estão. Foi, juntamente com Américo, um símbolo eterno da baliza portista. Para sempre me hei-de lembrar da sensação de tranquilidade absoluta que era ver os adversários a cruzarem bolas sobre a baliza do Porto: ainda a bola não tinha partido e eu já podia distrair-me a olhar para outro lado, porque sabia que ela acabaria nas mãos de Baía, com aquele estilo inimitável e aquela calma a recolher a bola no alto que chegava a ser frustrante para os adversários. Dentro e fora do futebol dentro e fora do FC Porto, Baía foi sempre um senhor. Foi um senhor na forma como encaixou a proscrição de Scolari e a falta de solidariedade de muitos dos seus pares. Foi um senhor na criação da Fundação com o seu nome e que, ao contrário de tantas outras, não serve para chamar as atenções nem para fugir aos impostos. Foi um senhor na forma como, remetido a suplente, continuou a ser o jogador determinante do FC Porto no último ano e meio.

Nesta hora de despedida, gostaria de escrever um texto inteiro sobre ele, mas não há necessidade: quem sabe distinguir jogadores de mercenários, cavalheiros de deslumbrados, sabe o quanto Baía significou para o futebol português. E limito-me, assim, a reproduzir o que Lorca escreveu sobre o toureiro António Sanchéz Mejia: «Tardará mucho tiempo en nácer, si és que nace, un andaluz tan claro, tan rico de ventura…»

Há dois casais mediáticos que estão no topo da minha embirração planetária: o casal Tom Cruise e quem quer que o ature e o intragável casal Victória-David Beckham. David Beckham é um jogador banal, cujo único talento é cruzar bolas e cuja grande contribuição para o futebol foi a criação da moda dos penteados diferentes e tatuagens novas todas as semanas, que qualquer jogador de terceira hoje imita, na esperança de chamar as atenções de um grande. Ela é conhecida apenas pela sua futilidade e capacidade de esbanjar milhares de contos em jóias e roupas em menos tempo do que dura um jogo de futebol, além do orgulho com que declarou nunca ter lido um livro na vida…por falta de tempo! Ver a patética Victória e o imbecil do Cruise a torcerem pelo Real nas bancadas de Chamartin, como se percebessem alguma coisa de futebol, fez-me desejar ainda mais que o Barça fosse campeão. Mas a sorte e uma escandalosa arbitragem a favor do Real não tornaram possível o milagre. «Qué lástima!»

BENFICA CAMPEÃO DOS JOGOS FLORAIS ( 12 Junho 2007)

Sabendo-se como em Portugal, todos os cineastas são bissextos, eu fico contente por saber que o João Botelho conseguiu encontrar uma ideia genial para um filme. É mesmo um filão a explorar no futuro, quem sabe, com um novo filme, de título «Prisão», versando as aventuras de Vale e Azevedo e os seus apoiantes de então...


Nenhum benfiquista pode dizer que o seu presidente não é absolutamente infatigável a tentar manter em alta a chama dos benfiquistas espalhados pelo país inteiro e pelas comunidades emigrantes. Já Vale e Azevedo tinha descoberto essa regra elementar: um clube com a dimensão do Benfica não pode passar tanto tempo sem ganhar títulos, nas várias modalidades e, em especial, no futebol. Pelo que, à falta de títulos conquistados em campo, é preciso conquistar, fora do campo, o título de campeão dos jogos florais e isso consegue-se através de duas medidas: estar sempre a arranjar oportunidades para falar e gritar eternamente que, se o Benfica não ganha, é porque os outros fazem batota. Fazem batota em tudo: no hóquei, no básquete, no vólei, no andebol, no atletismo. E, no futebol, não se limitam a fazê-la nos seniores, mas também em todos os outros escalões etários.

Esta semana tivemos mais um bom exemplo desta máxima. Enquanto o presidente do Benfica, de visita a Barcelos, se saía com mais uma repetição daquele disco rachado da «transparência» e «verdade desportiva», em que, segundo ele, o Benfica é campeão nacional absoluto e crónico, lá, de dentro dos campos de futebol, vinham mais uns dolorosos factos: o título de juniores foi à vida, perdido para o FC Porto e, rezam as crónicas, que com toda a justiça; o de juvenis ficou seriamente comprometido com um empate caseiro com o Sporting; e o de iniciados desvaneceu-se numa humilhante derrota por 0-6, também contra o FC Porto. Como não há-de o homem deixar de tocar o seu disco rachado pelo país inteiro, para confortar e sossegar os mais crédulos benfiquistas?

Disse Vieira em Barcelos que, se tivesse ficado calado, o Benfica teria sido campeão (como, porquê, em que jogo?). Mas disse-o por dizer. Ele sabe que a inversa é que é verdadeira: se tivesse sido campeão é que tinha ficado calado. Se tivesse percebido, ao longo da época, que o Benfica tinha superioridade suficiente sobre os rivais para poder ser campeão, não tinha andado a vender a lenda do Apito Dourado pelas chafaricas do Portugal profundo. Não se lembram de o ter ouvido dizer que a arbitragem tinha melhorado, quando o Benfica foi campeão em 2005?

João Botelho e Cª fartaram-se de esperar que a justiça funcione. Tão ou mais impacientes que o próprio presidente do Benfica, eles estão cansados de esperar que a Dr.ª Maria José Morgado consiga provar que o campeão europeu de 2004 precisou de corromper o árbitro para vencer no Dragão um Estrela da Amadora já condenado à descida. Ou que o Ministério Público consiga pôr de pé uma acusação fundada na credibilidade testemunhal da D.ª Carolina Salgado e que não seja sumariamente desfeita em tribunal. Ou que o CD da Liga invente poderes instrutórios próprios e capacidade de investigação criminal adquirida ad hoc para lhes servir numa bandeja a tão esperada vingança de anos a fio de humilhação desportiva de todos os benfiquistas. A vingança tarda e não há como a arte ao serviço da verdade e do povo.

Assim, o João Botelho teve a genial ideia de se substituir à justiça, levando ele o Apito Dourado para o cinema. O título anunciado — Corrupção — diz tudo sobre as preocupações de justiça e verdade de tão cívica empreitada. Antes mesmo de qualquer acusação, de qualquer hipótese de defesa pública, ele já tratou do julgamento e da sentença.

Sabendo-se como em Portugal, todos os cineastas são bissextos, eu fico contente por saber que o João Botelho conseguiu encontrar uma ideia genial para um filme. É mesmo um filão a explorar no futuro, quem sabe, com um novo filme, de título Prisão, versando as aventuras de Vale e Azevedo e os seus apoiantes de então…Por outro lado, também fico contente por saber que este será um dos raros filmes portugueses que não precisa (e certamente não irá ter…) subsídio dos contribuintes.

É que, com seis milhões de benfiquistas, e alguns verdadeiramente militantes como o Barbas — capaz de assistir, de lágrima no olho, a sessões contínuas — está garantido o êxito.

Faço sempre um esforço consciente para distinguir, quando critico alguém, os aspectos públicos dos privados. Isto é, não faço críticas de carácter pessoal, mas apenas à actividade pública, profissional, dos visados — o que é completamente legítimo. Por exemplo: Ricardo, o guarda-redes do Sporting e da Selecção. Critiquei-o algumas vezes no passado, como guarda-redes e nada mais, e, por isso, consigo reconhecer, com toda a normalidade, que ele foi o melhor guarda-redes do campeonato, este ano. A experiência diz-me que isto não é compreendido pela generalidade das pessoas que andam no futebol, e, em particular, pelos jogadores. Estão habituados a só ouvir elogios ou silêncios, quando mereciam críticas. Alguns acham que têm o mundo aos pés e que estão acima do direito de crítica — mesmo alguns que viveram ou jogaram no estrangeiro e que sabem que lá a crítica não é tão branda nem tão hipócrita como aqui. Paciência, só resta esperar que aprendam que não são mais do que os escritores, os pintores, os músicos, os arquitectos, os políticos, qualquer um que desempenhe uma profissão ou uma função pública.

Vem isto a propósito da morte de Adriano Pinto, que anos, décadas a fio, foi presidente da Associação de Futebol do Porto. Li diversos obituários e opiniões sobre ele, mas em nenhum deles, alguém, nem sequer os seus inimigos de sempre, se atreveram a criticá-lo. É um hábito bem português: quando morremos, todos passamos a ser santos. Ora, eu não conheci o homem, que me merece o respeito devido a todos, mas conheci, de fora, o dirigente. É evidente para mim e para todos os que olham o futebol de fora, sem jamais aspirar a nada do que continuar a ser espectador, que Adriano Pinto representou um tipo de dirigente desportivo que nada trouxe, antes pelo contrário, ao crédito e prestígio que todos reclamam para a indústria do futebol. Que ninguém tenha sido capaz de o dizer, preto no branco, demonstra até que ponto essa indústria continua a ser um mundo fechado, de cumplicidades, conivências e solidariedades obscuras, em que os gritos de «moralização» ou «transparência» não passam de tiros de pólvora seca de quem episodicamente está a perder e quer voltar a ganhar. Soube agora que o Presidente Jorge Sampaio o condecorou com uma qualquer medalha de mérito, em 2005. Foi um dos 30.350 (!) comendadores que os nossos Presidentes da República resolveram distinguir nos trinta anos de democracia que levamos. E, se assim foi, devo ser eu que estou errado.

PARA ONDE VAI O DINHEIRO ( 05 Junho 2007)

E para onde vai agora o dinheiro da venda de Anderson? Vai para comprar mais uns Renterias e Mareques, com contratos por cinco anos e ordenados de 50 mil euros, e que para o ano estarão a ser emprestados..


No dia em que foi anunciada a venda de Anderson ao Manchester United, recebi pelo correio a carta anual convidando-me a renovar o meu lugar no Dragão, com a promessa de mais um ano de grandes espectáculos. Mas, sem Anderson em campo — e, provavelmente, sem Quaresma ou Pepe — o lugar passa a valer bem menos. Terça-feira passada, o FC Porto vendeu a maior fonte potencial de espectáculo e o mais promissor talento que passou por lá na última década. Vendeu-o, sem sequer ter chegado a tirar partido dele e do seu talento — 18 jogos na Liga e mais três na Liga dos Campeões.
Toda a gente diz que Anderson foi muito bem vendido e que por 30 milhões não há como recusar. Permito-me discordar: 30 milhões de euros é, de facto, muito dinheiro. Em termos de tesouraria é um grande negócio; em termos económicos é um mau negócio. Para começar, e como já disse, o FC Porto vendeu-o sem ter chegado a tirar partido dele. Depois, tem 19 anos, acabados de fazer, e prepara-se para jogar a Copa América — as duas coisas juntas, a prazo, fariam subir muito mais a sua cotação. Não tenho qualquer dúvida de que, se as coisas se passarem normalmente, se em Inglaterra não houver Katsouranis nem Lucílios Baptistas, se o próprio Anderson continuar a ser o miúdo ajuizado e profissional que é, ele pode vir a revelar-se como um jogador verdadeiramente espantoso. Os 30 milhões parecem-me pouco para tantas esperanças nele depositadas. Mas o pior é que os 30 milhões, contas feitas, são bem menos. São praticamente zero. Vejamos:Dos 30 milhões, o FC Porto só tem direito a 80 por cento — 24 milhões. A estes, tem de subtrair a comissão de Jorge Mendes: 5 por cento no mínimo, 1,2 milhões. A este montante tem de subtrair ainda os 10 milhões que pagou por 80 por cento do seu passe, mais os cerca de 1,8 milhões que gastou a mantê-lo durante dois anos e à mãe, que foi contratada pelo clube, para contornar a proibição de poder comprar um jogador com menos de 18 anos: restam 11 milhões. Destes, é natural que gaste metade em reforços, para colmatar a sua baixa, acrescida, ao que parece, à de Ibson, num sector — o meio-campo — fragilizado, mesmo com eles. Restam 5,5 milhões, que representam uma fase na Liga dos Campeões — provavelmente aquela que o FC Porto deixará de alcançar pelo facto de já não contar com Anderson. A esta luz, entre abatimentos e lucros cessantes, Anderson foi vendido a custo zero. Nada a ver com o negócio de Nani, que não custou nada ao Sporting.

É claro, porém, que os raciocínios económicos não são aplicáveis a um clube que apresentou 30 milhões de prejuízo no último exercício e que este ano vai a caminho dos 25 milhões. Era vender ou falir. Mas esse é o problema de fundo da gestão da SAD do FC Porto, que deveria ter sido discutido na campanha eleitoral e não o foi. Há anos que a SAD vive a vender os anéis de diamantes para comprar cachuchos. Vende uma pérola fina por 30 milhões e depois gasta-os a comprar uma dúzia de falsos brilhantes. Para quê? Ora, já não restam dúvidas a ninguém: para pagar comissões a muita e boa gente que parasita no clube. Para que queremos um Lino, para uma posição onde já existem seis jogadores sob contrato? Para quê ir recomprar um guarda-redes banal, como o Nuno, quando temos lá melhor, que vamos emprestar?Para quê o Renteria, o Mareque, o Sonkaya, o Pittbul, o Tarik, o Leo Lima, o Sokota (que, afinal, custou 3 milhões de euros, pagos a uma off-shore)? Para quê 70 jogadores sob contrato? Porquê não haver ninguém promovido dos juniores? Porque deixou de haver olheiros e só há comissionistas? Porque não há prospecção em África — porque é mais agradável ir ao Rio ou a Buenos Aires? Porquê o FC Porto, ao contrário até de grandes clubes europeus, nunca adquire jogadores por empréstimo, para testá-los, e os adquire sempre com contratos definitivos e a longo prazo, acabando a emprestá-los ao fim de um ano? Porquê até para ir buscar Jesualdo Ferreira ali ao lado é preciso recorrer aos serviços de um empresário sul-americano? , já agora, admite-se que um dos administradores da SAD tenha um irmão que faz negócios com o clube? E admite-se que uma SAD que todos os anos regista prejuízos de exploração e tem acumulado um passivo assustador, aproveite o único ano em que conseguiu obter lucros — graças a Mourinho e à Liga dos Campeões — para distribuir prémios de gestão aos administradores?

Há dias, Santos Neves tinha aqui um texto muito curioso, em que fazia contas aos milhões encaixados pela SAD do FC Porto com a venda de jogadores, desde que, há três anos, foram campeões europeus. Contabilizando todas as vendas, a dispersão integral da equipa campeã europeia, Santos Neves chegava à fantástica soma de 155 milhões de euros de vendas. E esqueceu-se, ainda, de acrescentar ao rol de jogadores que enumerava, os nomes de Diego, McCarthy, Hugo Almeida e Carlos Alberto (que grande jogador desperdiçado!). Com mais esses, o número chega perto dos 175 milhões de vendas conseguidas em três anos. Trinta e cinco milhões de contos! Para onde foi todo esse dinheiro se, no final de um ano normal, sem nenhuma compra relevante, a SAD consegue apresentar prejuízos de 30 milhões? Para onde foi? Eis o que eu gostaria de ver Pinto da Costa explicar.

E para onde vai agora o dinheiro da venda de Anderson? Se nos dissessem que vai para reduzir o passivo, ainda o podíamos perceber — embora continuando sem perceber como se acumularam tantas dívidas. Mas já sabemos que não é para aí que o dinheiro vai. Vai para comprar mais uns Renterias e Mareques, com contratos por cinco anos e ordenados de 50 mil euros, e que para o ano estarão a ser emprestados, com o FC Porto a pagar os ordenados para que eles joguem pela concorrência. Esta é que é a penosa verdade e muitos começam já a percebê-la. Por isso é que, com 50.000 pessoas no Dragão para o jogo do título e as urnas de voto dentro do estádio, apenas 3700 sócios se deram ao trabalho de votar na recondução do actual estado de coisas. É certo que — e graças a Jorge Mendes — ainda se vão descobrindo, de quando em vez, uns Andersons, que fazem manter viva a chama da esperança. Mas os efeitos úteis das suas contratações são rapidamente desperdiçados pela necessidade de tapar os buracos abertos por uma política suicida e nova-rica de contratações, que todos os anos se repete desgraçadamente nesta altura.

terça-feira, junho 19, 2007

DE MAL COM O MUNDO ( 27 Maio 2007)

VIEIRA DE MAL COM O FUTEBOL, O DESPORTO E O MUNDO.


Luís Filipe Vieira acha que lhe basta vestir a farda de presidente do Benfica para que todos se curvem à sua passagem. Acha que basta invocar o nome do Benfica para que o mundo lhe caia aos pés. E não percebe porque não cai: o mundo, os títulos , as acções na bolsa.



Segunda-feira da semana passada, o presidente do Benfica embarcou com a equipe de futebol para o Canadá, para mais uma daquelas digressões de final de época em que os pobres emigrantes são tradicionalmente desiludidos com penosas e desmotivadas exibições da equipa do coração. Sem nada de entusiasmante para dizer aos benfiquistas, sem nenhuma novidade para dar aos microfones como sempre diligentemente estendidos à sua passagem, o presidente do Benfica deu vazão ao mau humor matinal, atirando-se ao presidente da Liga. Por causa do Apito Dourado, é claro — quando não tem nada para dizer nem boas notícias para a sua gente, Luís Filipe Vieira recorre ao Apito Dourado.

E, visivelmente, o Apito Dourado não lhe está a correr bem: depois de inúmeras diligências de investigação às suspeitíssimas vitórias do FC Porto sobre o Estrela da Amadora e o Beira-Mar, em 2004; depois das desmedidas esperanças postas no dream team de Maria José Morgado, depois das autorizadas e credibilíssimas denúncias da d.ª Carolina Salgado, a verdade nua e crua é que tarda a prisão de Pinto da Costa, tarda a despromoção do FC Porto à Liga de Honra (e já não foi a tempo de evitar mais um título…) e tarda a atribuição judicial ao Benfica dos campeonatos perdidos nas últimas décadas para o FC Porto.

É verdade que as coisas podiam ser ainda piores. Bastaria que o Apito Dourado se lembrasse de investigar também o que quereria dizer o presidente do Benfica com a célebre afirmação de que era mais importante estar na direcção da Liga, ao lado do major Valentim Loureiro, do que ter uma boa equipa de futebol;

ou que se ocupasse daquela reveladora conversa telefónica em que os presidentes da Liga e do Benfica combinavam juntos o árbitro a nomear para um jogo da Taça com o Belenenses e em que Viera se saiu com aquela enigmática frase de que teria outras formas de resolver o assunto;

ou aquela inesquecível conversa telefónica em que José Veiga ameaçava Valentim com um beijo como forma de pagar um favor prestado ao seu Estoril de então.

Mas, mesmo com essas lateralidades do Apito convenientemente esquecidas e todas as suspeitas concentradas em quem lhe convém, o presidente do Benfica não está satisfeito e impacienta-se com estas morosidades da investigação, esses obstáculos à verdade desportiva que constituem coisas como a presunção de inocência, o direito do contraditório, o ónus da prova, as garantias de defesa, etc, etc.

E vai daí, resolveu atirar-se ao presidente da Liga (o actual — não o seu antigo sócio e curiosamente o suspeito principal de tudo o que consta do Apito). Não se lembrando, como fez notar Vítor Serpa, que não cabe ao presidente da Liga poder disciplinar nem jurisdicional, Vieira insurgiu-se por nada ainda ter acontecido ao FC Porto — nem na justiça penal, nem, ao menos, na justiça desportiva. Porque, está bem de ver, no espírito de Luís Filipe Vieira de há muito que a acusação está provada, a defesa dispensa-se e a sentença já está determinada. Assim fosse ele a mandar e sozinho, tal e qual como manda no Benfica…

Mas, nessa segunda-feira, 21 de Maio, havia especiais motivos para o mau humor do presidente e para mais uma das suas investidas sobre o Apito, de que lança mão sempre que a hora é de desviar as atenções dos benfiquistas ou ocultar erros próprios.

Na véspera, terminara o campeonato e, mais uma vez, o Benfica não fora além do terceiro lugar: nem título nem entrada directa na Liga dos Campeões. Nem Taça UEFA nem Taça de Portugal ou Supertaça — nada, mais uma época em branco. Como se isso não fosse suficiente, nesse fatídico domingo a equipe de andebol tinha ao seu alcance a possibilidade de conquistar o único título da época em todas as modalidades: a Taça de Portugal. Na final (e logo contra o FC Porto…), estava a ganhar por quatro golos de vantagem a cinco minutos do fim e com o adversário a jogar com menos dois elementos. E não é que conseguiu perder o jogo?

Por isso, ao embarcar segunda-feira rumo ao Canadá, Luís Filipe Vieira levava na bagagem para mostrar aos emigrantes benfiquistas o saldo de uma época desportiva sob a sua gestão: no futebol, no basquetebol, no andebol, no hóquei, no voleibol, nada. Nem um campeonato, nem uma taça, nem um torneio de amigos. O atletismo parece que vai desaparecer e o ressuscitado ciclismo até agora só se fez notar por acrescentar mais um caso de doping ao universo desportivo benfiquista.

É tudo? Não, ainda. Resta, como diz Vieira, a superior credibilidade da gestão financeira e económica do Benfica. A entrada em bolsa, justamente, iria provar como os investidores confiavam nessa gestão. Foi o que se viu: as acções entraram e caíram 11% ao fim do primeiro dia, 22% ao fim do segundo, 45% ao fim do terceiro e, a partir daí, a imprensa, misericordiosa, deixou de dar notícias sobre o descalabro.

Ora, sob a gestão de Luís Filipe Vieira e crescentemente, o Sport Lisboa e Benfica é obra de um homem só — ele mesmo. Quem é o n.º 2 do Benfica? E o n.º 3? Ninguém sabe. Quem está autorizado a falar? Ele e só ele. Quem ameaçou e descompôs à cautela os que se atrevessem a disputar-lhe o lugar em eleições? Ele. Quem geriu o dossier Nuno Assis em termos de tal arrogância e prepotência que acabou a prejudicar o jogador e o clube? Ele apenas. Quem dirige o futebol, depois de Veiga se ter auto-suspenso e de Vieira já ter avisado que só o deixará voltar, e como seu capacho, quando e se ele quiser e depois de resolver os seus problemas fiscais? Viera (embora, todos os trimestres anuncie que vai passar a dirigir pessoalmente o futebol, esquecendo-se que é suposto já estar a fazê-lo).

Luís Filipe Viera acha que o cargo faz o homem e que o cargo de presidente do Benfica, por si só, confere ao seu detentor uma aura de importância, credibilidade e infalibilidade incontestáveis. Se lhe falta a razão nas guerras que compra, tem sempre o argumento do maior clube do mundo. Se lhe faltam os resultados que vive a prometer, tem sempre o Apito Dourado como desculpa — no futebol e, pelos vistos, em tudo o resto. Ele acha que lhe basta vestir a farda de presidente do Benfica para que todos se curvem à sua passagem. Acha que basta invocar o nome do Benfica para que o mundo lhe caia aos pés. E não percebe porque não cai: o mundo, os títulos, as acções da bolsa. Daí a sua permanente má disposição, a sua vontade de dar lições ao mundo, a sua incapacidade de reconhecer qualquer mérito alheio ou erro próprio, a insustentável inveja e despeito que passeia por todas as chafaricas do País.

No passado, elogiei a forma como Viera chegou ao Benfica, a sua atitude de humildade e vontade de trabalhar, e não, como quase todos, de buscar protagonismo e acreditação social no futebol. Mas, lá está, toca a todos: parece que o poder cega. Hoje, vejo, sobretudo no presidente do Benfica, alguém de mal com o futebol, com o desporto e com o mundo. Alguém que não consegue ganhar e que não sabe perder.

sábado, maio 26, 2007

PARABÉNS A TODOS ( 22 Maio 2007)

JESUALDO DEVE CONTINUAR MAS TÊM DE MEDITAR.


O FCPORTO teve contra si o «factor Carolina Salgado/Apito Dourado», que se traduziu num campeonato inteiro em que, tendo sido vítima de vários erros de arbitragem, não teve a seu favor, e correspondentemente, uma única decisão favorável em jogadas controversas. Da 1.ª à 30.ª jornada, na dúvida, na mais pequena dúvida, todos os árbitros, sem excepção, decidiram sempre contra o FCPORTO.



FCPORTO

O FC Porto foi campeão — à tangente, sofridamente, com o credo na boca e o coração nas mãos, mas foi. Comandou da primeira à última jornada e teve um momento decisivo, pela positiva: quando foi à Luz, já com a morte encomendada, e mostrou a fibra de que se fazem os campeões. Era o grande favorito à partida e o que maiores obrigações tinha, porque dispunha do maior orçamento e da melhor equipa. Mas perdeu Anderson durante meio campeonato, Quaresma em quatro jogos e Pepe noutros quatro. Até Fevereiro, acumulou o campeonato com uma boa prestação na Liga dos Campeões e, não fossem as fatídicas férias de Natal, o fatídico jogo de Leiria, com a expulsão de Quaresma e duas derrotas consecutivas, a incapacidade demonstrada na recuperação fisica dos jogadores e uma inesperada instabilidade psicológica no final do campeonato, e poderia ter terminado tranquilamente o passeio que fez na 1.ª volta.

Porque, se as últimas imagens são as que mais perduram, é bom que as pessoas não se esqueçem que um campeonato são 30 jogos e não apenas os dez últimos. Por outro lado, e de uma forma que foi flagrante para qualquer observador atento e de boa-fé, o FC Porto teve contra si o factor Carolina Salgado/Apito Dourado, que se traduziu num campeonato inteiro em que, tendo sido vítima de vários erros de arbitragem, não teve a seu favor, e correspondentemente, uma única decisão favorável em jogadas controversas: nem um golo mal validado, um penalty mal assinalado, uma expulsão forçada de um adversário.

Da 1.ª à 30.ª jornada, na dúvida, na mais pequena dúvida, todos os árbitros, sem excepção, decidiram sempre contra o FC Porto — mesmo na última jornada, no Dragão, onde o golo do Desportivo das Aves, que podia ter valido um campeonato, foi obtido em offside. Quinze dias antes, no mesmo palco e contra o Nacional da Madeira, o que teria sido o primeiro golo do FC Porto foi invalidado por offside inexistente…

Campeão pela primeira vez, campeão merecidamente, com uma equipa que não fez e uma pré-época que não foi sua, Jesualdo Ferreira confirmou a regra de que no FC Porto qualquer um se arrisca a ser campeão. Há quinze dias, nesta crónica, defendi a sua continuação, qualquer que fosse o desfecho do campeonato. Agora, continuo a defendê-la, obviamente, mas estou mais à vontade para dizer que Jesualdo — ultrapassado esse Rubicão e as razões de um nervoso, às vezes quase paralisante, que se transmitia à equipa — tem agora muito que meditar.

Tem de deixar de ser tão conservador e previsível — por exemplo na aposta em jogadores a quem dá o estatuto de inquestionáveis, mesmo quando eles não estão em forma, como Lucho ou Helton— e tem de saber jogar a época com um plantel de 18/20 jogadores e não de 13/15. Tem de dar sinais claros de que sabe ler o jogo em andamento, não substituindo apenas por substituir, mas para influir no jogo, tem de esclarecer de uma vez por todas o que é e para que serve o meio-campo, para não ter de voltar a viver pesadelos como os do jogo com o Sporting, no Dragão, onde o meio-campo do FC Porto foi quase enxovalhado pelo do Sporting. Resta saber, é claro, quantos do seu trio genial— Pepe, Quaresma, Anderson— é que a nova/velha Direcção do clube vai vender este Verão…


SPORTING

Paulo Bento foi o treinador do ano. Inquestionavelmente. Partiu com o mais baixo orçamento dos três grandes, uma equipa de miúdos, que levou meio campeonato a afinar e a ensinar o que era jogar para a vitória. Por pouco, por muito pouco, tinha conseguido um triunfo que teria sido deveras impressionante e pedagógico. Ao intervalo do FC Porto-Desportivo das Aves, sabendo que o Sporting já vencia o Belenenses por 2-0 e observando mais uma melancólica exibição do FC Porto, eu já estava a mentalizar-me para aceitar que o Sporting seria um justo campeão. Porque a sua recuperação, o seu campeonato sem nenhuma derrota fora, a sua atitude de conquista, a sua crença, a sua capacidade de pôr pressão sobre o Porto e a sacudir de si próprio, o justificavam. Mas (felizmente!) o FC Porto entrou para a segunda parte do seu jogo de cara lavada e vontade de ser campeão. Isso não impede que se reconheça o grande campeonato feito pelo Sporting e a grande condução levada a cabo por Paulo Bento.

Mas há um reverso da medalha. Eu sei que, durante anos, os sportinguistas vão dizer que não ganharam o campeonato porque, no Sporting-Paços de Ferreira, da 2.ª jornada, o Paços ganhou com um golo marcado com a mão. E são esses detalhes, essa imagem de marca dos sportinguistas, que irritam os outros: o Sporting vive a queixar-se, a reclamar, a lamuriar-se, a encontrar sempre uma culpa alheia para os desaires próprios. É verdade que o Paços ganhou em Alvalade com um golo marcado com mão. Se isso não tem acontecido, o Sporting tinha empatado: perdeu aí um ponto. Mas, logo na jornada anterior, a 1.ª, venceu no Funchal o Nacional com um golo precedido de falta: se tem sido anulado, como deveria, teria empatado e não vencido: ganhou aí dois pontos. No Dragão, no jogo que relançou o campeonato, marcou o único golo na cobrança de uma falta que não existiu e, no último segundo, Pedro Hdenriques não teve coragem de assinalar penalty flagrante de Polga sobre Pepe. O mesmo Pedro Henriques, no jogo da Luz, perdoou duas vezes a expulsão a Caneira, e Lucílio Baptista, o árbitro preferido em Alvalade, perdoou penalty claro a Liedson, na penúltima jornada em Coimbra, quando havia 0-1. Mas já todos sabemos que memórias destas não constam do arquivo sportinguista.

Felizmente, abortou a tentativa de conseguir ganhar o campeonato na secretaria, graças à repetição do jogo de Leiria — fundada em razões e expedientes jurídicos tão rebuscados e descarados que nada abonam à suposta atitude de cavalheiros que os sportinguistas acham que os caracteriza. Mas a mensagem foi clara: cavalheiros sim, mas para ganhar vale tudo, mesmo aquilo a que em direito se chama «litigância de má-fé». E foi pena, porque, como o disse, acho que, por aquilo que se viu em campo, o campeonato também não teria ficado mal entregue ao Sporting. Mas em campo, não na secretaria.


BENFICA

Os benfiquistas vão cair em cima de Fernando Santos, que é o elo mais fraco e mais fácil de atacar. Em minha opinião, muito injustamente. É certo que não foram campeões e que nem ao segundo lugar chegaram. Mas ficaram a um ponto do segundo e a dois do primeiro — o que é notável para a equipa que Fernando Santos teve ao seu dispor. Durante a primeira volta, e várias vezes vi o Benfica jogar um grande futebol, só que — como aconteceu também com o FC Porto e não aconteceu com o Sporting — o Benfica teve azar com as lesões e defendeu durante muito tempo uma campanha europeia de sucesso. O que sucede no Benfica é que há um desfasamento claro entre a arrogância do discurso constante do presidente e os meios que ele faculta aos seus para darem corpo à sua ambição. Fernando Santos não foi campeão no futebol — e o vólei, o basquete, o hóquei, o andebol? Em que é que o Benfica é campeão, para além do futebol de salão?

Até à última batida ( 15 Maio 2007)

HELTON NÃO É GUARDA-REDES PARA UMA GRANDE EQUIPA.


Meus amigos: se querem ser campeões para a semana, mudem de atitude radicalmente, desliguem os telemóveis aos vossos agentes daqui até Domingo, respeitem a multidão que vos têm acompanhado jogo após jogo e deixem-se de desculpas com a pressão ou outras coisas mais próprias de equipas de derrotados.


1- Há quatro ou cinco jornadas que me venho repetindo: isto só está ganho para o FC Porto depois do apito final do último jogo. Ao contrário do que disse Jesualdo Ferreira, não é fácil entender as razões de tanta instabilidade e tanta falta de consistência do futebol azul-e-branco. Pressão? Claro que há pressão, há sempre pressão quando se tem de ganhar um jogo e um campeonato, mas se há coisa para que o FC Porto está preparado desde há largos anos é para viver sob pressão.

Pelo contrário, eu penso que, se calhar, aquilo que tem faltado é a consciência da pressão de ganhar. Veja-se este jogo contra o Paços de Ferreira: desde os três minutos que os jogadores já sabiam que, como habitualmente, o Sporting estava a ganhar em Coimbra, fruto de uma oferta do adversário. Logo, desde os três minutos que os jogadores portistas sabiam que tinham de lutar pela vitória: o empate não apenas deixava as coisas mais complicadas, como era um resultado perigoso para manter até final. E que fizeram eles, face a isso? Nada. Passaram 20 minutos a trocar a bola displicentemente, sem pressa alguma, sem nenhum esforço para ligar minimamente uma jogada, e com alguns deles, como Lisandro (que época desastrada!), a jogarem tão mal que mais parecia terem caído ali por engano.

Então, sucedeu aquilo que já se tornou um hábito, desde os tempos de Co Adriaanse e desde que Helton agarrou a titularidade da baliza portista: nos jogos contra equipas mais fracas, fora de casa, quando o FC Porto não entra logo para matar, acontece invariavelmente que, no primeiro remate à baliza feito pelo adversário, sofre um golo. Mal batido no golo do Paços, Helton (que não foi o único culpado), confirmou uma suspeita que venho alimentando: que ele é um grande guarda-redes para uma equipa mediana como o Leiria, mas que não é guarda-redes para uma grande equipa, habituada a jogar ao mais alto nível.

A sua especialidade são as defesas impossíveis, que, numa equipa mediana, significam pontos e vitórias. Mas, numa grande equipa, só muito raramente o guarda-redes é chamado a defesas impossíveis. O que se lhe pede é que não falhe nenhuma das possíveis, que não cause sobressaltos no jogo aéreo ou com os pés, que saiba comandar a defesa e que transmita absoluta tranquilidade para que a equipa se possa ocupar livremente daquilo que mais tem de fazer: atacar e atacar.

No Leiria, Helton terá ganho inúmeros pontos para a equipa, graças às suas defesas; no FC Porto, lembro-me de algumas grandes defesas, mas não me lembro que alguma delas tenha segurado resultados.

A perder desde os 20 minutos, num campo pequeno de mais para o espaço que talentos como Quaresma e Anderson precisam, a ter de arrostar com duas enxurradas de granizo, uma em cada parte, eu cheguei a crer, durante uma hora a fio, que 2700 sportinguistas teriam de honrar a sua palavra e nunca mais voltarem a entrar num IKEA, comprando os seus móveis na indústria local de Paços de Ferreira. Diga-se que nunca mais o Paços acertou um remate na baliza — o golo, de livre, foi o único que acertou em todo o jogo —, mas que, se a bola não tem ido de encontro à perna de Adriano, o campeonato teria ficado perdido ali, submerso naquele lençol de água, com um ar de fatalidade quase natural.

Pelo que, meus amigos: se querem ser campeões para a semana, mudem de atitude radicalmente, desliguem os telemóveis aos vossos agentes daqui até domingo, respeitem a multidão que vos tem acompanhado jogo após jogo e deixem-se de desculpas com a pressão ou outras coisas mais próprias de equipas de derrotados, que não é o caso. Se querem ser campeões, até aos 20 minutos têm de estar a ganhar por 2-0 ao Aves e depois não podem descansar no resultado.

2 - Ano após ano, torci em vão pelo regresso do Leixões à I Divisão. Não apenas porque é do Porto (ou quase…), porque é um clube simpático e popular, porque tem uma massa de adeptos que merece o melhor, mas também porque o nome do Leixões faz parte integrante das minhas memórias de infância e juventude. 19 anos depois, ei-lo de volta e eu só desejo que para muitos e bons anos.

Também o Vitória de Guimarães faz parte das minhas boas memórias futebolísticas de sempre e, por isso, foi também por ele que eu torci este ano. E o Vitória de Guimarães, com uma falange de adeptos de uma dedicação e militância raras, bem merece também este regresso aos grandes. Não só pelos adeptos, mas também por uma outra razão: a dignidade com que encarou a sua descida impensável ao escalão secundário. E vale a pena, a propósito, comparar a atitude do Guimarães com a do Gil Vicente. O Guimarães desceu, sem um protesto, sem uma desculpa esfarrapada, com a consciência de que a descida fora merecida e de que só havia um caminho: trabalhar para um regresso tão rápido quanto possível. Trabalhou e acreditou até ao fim e teve a justa compensação. Agora, o Gil Vicente? O Gil Vicente quis transformar uma batota desportiva numa vitória de secretaria. Acicatado por um presidente populista, que os sócios transportavam aos ombros como herói, embalado nos malabarismos jurídicos de uma ilustre equipa de causídicos, o Gil convenceu-se que, mais depressa parava o futebol em Portugal do que órgão algum os obrigava a jogar na Honra. A arrogância e a cegueira litigante, sem qualquer traço de razão desportiva, foram tão grandes, que o presidente do clube nem recuou perante a irresponsabilidade de mandar a equipa faltar aos três primeiros jogos da Liga de Honra, só cedendo quando o treinador e os jogadores lhe fizeram ver que, a partir daí, iam todos para o desemprego. Resultado: o Gil perdeu logo de entrada a possibilidade de lutar pela subida em pé de igualdade com Leixões e Guimarães, por exemplo; o futuro financeiro e desportivo do clube é negro; o presidente-herói pôs-se ao fresco; e só os advogados parece que continuam a litigar — agora para que as faltas de comparência voluntárias não contem como tal, ao abrigo da interpretação adequada do parágrafo X, do artigo Y, da lei Z. E a verdade é esta: se, no final de tudo, o Gil for desaparecendo aos poucos, ninguém verterá uma lágrima por ele.

PS — O Conselho de Justiça, presidido por aquele ilustre magistrado que achou mais importante uma partida de bridge com os amigos do que dar uma sentença desportiva em tempo útil, concluiu (ainda na sentença do caso Quaresma), que «Ricardo Quaresma não tem registo de serviços relevantes prestados ao futebol português». A gente lê isto e fica sem saber se é de rir com a ignorância demonstrada, se é de ficar chocado com a pesporrência exibida. Mas há uma coisa que eu reafirmo, e ao contrário da opinião dominante: se eu mandasse, dispensava todos os ilustres juristas do futebol. A eles, sim, é que não consigo encontrar-lhes sinal de qualquer serviço relevante prestado ao futebol português.

Vamos com calma, Porto! ( 8 Maio 2007)

Já imaginaram um autocarro de adeptos do Benfica ser impedido pela polícia de passar além de Vila Nova de Gaia?


1- Jesualdo Ferreira tem reagido mal às poucas críticas de que é alvo em voz alta. Passei a semana a ouvir recados sobre as injustiças das minhas críticas, que afinal se têm resumido a duas coisas: a deficiente condição fisica de que a equipa dá mostras desde a pausa natalícia, e o facto de Jesualdo Ferreira preferir meter o Anderson só nas segundas partes dos jogos, quando já tudo está resolvido. Escrevi que, se ele não tem ainda condição física para um jogo inteiro, fazia mais sentido metê-lo de início do que no final, porque ele faz parte do restrito número dos que são capazes de resolver os jogos, enquanto eles estão por resolver.

Contra o Nacional, viu-se como Anderson continua a ser um desequilibrador decisivo e como, enquanto teve forças, foi ele quem resolveu o jogo. E viu-se também que, não só Anderson, mas mais três ou quatro jogadores acabaram o jogo a arrastar-se no campo (Lucho desde os 20 minutos…). Mas não é isso que transformou em justas as minhas críticas. As críticas, desde que sérias e isentas, podem estar certas ou erradas, mas jamais poderão ser injustas pelo simples facto de existirem. Ninguém é perfeito e ninguém está acima da crítica. É evidente que Jesualdo estava errado em relação ao timing da utilização de Anderson e é evidente que o FC Porto é, de há meses para cá, das equipas com pior condição fisica do campeonato. Dizer isso é apenas constar um facto, não é ser injusto.

Aliás, e para que fique claro, eu devo dizer, se ainda não se percebeu, que tenho gostado do trabalho de Jesualdo Ferreira à frente do FC Porto. Mais (e estas coisas devem ser ditas antes e não depois): mesmo que o campeonato se perca na recta final, eu defendo a continuidade de Jesualdo Ferreira à frente do FC Porto. Defendo que ele deve ter a oportunidade que não teve este ano de escolher a equipa e fazer a pré-época. Acho que não lhe podem ser cobrados os dois desaires mais marcantes da época: a eliminação às mãos do Chelsea, mais do que previsível e precipitada pela ausência de Anderson e o frango de Helton, e a escandalosa eliminação na Taça, contra o Atlético, inteiramente da responsabilidade dos jogadores que estiveram em campo. Jesualdo conseguiu ultrapassar a fase de grupos da Champions e fez uma primeira volta do campeonato simplesmente notável. As longas férias de Natal desfizeram a coesão da equipa e estranhamente, por razões que talvez ele queira explicar um dia, trouxeram de volta uma equipa a quem o público tem de levar ao colo — como sucedeu este sábado no Dragão — para que ela se tente aguentar em jogo os 90 minutos.

Para Paços de Ferreira, Jesualdo vai ter finalmente quase toda a equipa livre de castigos e lesões. É o penúltimo passo para o título e agora acredito firmemente que não o vai falhar. Isso é que não seria justo.

2- Pela quinta vez consecutiva, um adversário do Sporting entregou-lhe o jogo mal soou o apito inicial. Parece que têm pressa em perder, o que, obviamente, facilita e de que maneira os triunfos leoninos: mal começam os jogos, a equipa fica aliviada de pressão, sem ter de correr contra o tempo nem contra a sorte. No Dragão, o FC Porto chegou ao intervalo empatado a zero, depois de ter falhado uns seis ou sete golos e de ter marcado dois que não valeram — um dos quais, ninguém sabe porquê. Em Alvalade, com um minuto de jogo, canto e autogolo. Faz uma diferença, uma grande diferença.

Em última análise, a coisa até é injusta para o próprio Sporting, que assim vê de alguma forma diminuido o mérito das vitórias alcançadas. E a verdade é que o Sporting fez contra o Vitória uma primeira parte esplendorosa, apenas minimizada pela fraqueza da oposição encontrada. Da mesma maneira que o facto de a defesa do Vitória ter deixado suicidariamente Liedson à solta por duas vezes, não pode apagar mais uma demonstração da classe deste ponta-de-lança — o melhor do nosso campeonato e agora sem rival, desde que McCarthy rumou para Inglaterra, onde passeia a sua classe e golos.

3- Carmona Rodrigues vive os últimos dias na presidência da Câmara de Lisboa, de onde foi publicamente despedido pelo partido que o fez eleger e quando se tornou penosamente evidente que Lisboa já nem sequer estava a ser governada. Parece, todavia, que não se quer ir embora sem aprovar a favor do Sporting um controverso projecto de urbanização que é tudo menos transparente. Mandaria o bom senso que deixasse o assunto para quem se lhe seguir. E mandaria o decoro que, três dias antes de forçar a votação do projecto, não estivesse em Alvalade, sentado ao lado do presidente do Sporting, a assistir ao jogo. Mesmo Carmona Rodrigues, que todos têm como um homem sério, não está ao abrigo da cominação da mulher de César…

4- Em minha opinião, o Vitória de Setúbal é a pior equipa do campeonato e a sua descida aos infernos da Honra é absolutamente natural e justificada. Passa-se com o Vitória a mesma coisa que se passa com a própria cidade de Setúbal. Há 20 anos atrás, Setúbal tinha todas as condições para se transformar numa cidade modelo, em termos de urbanismo e qualidade de vida: dimensão adequada, espaço para se desenvolver harmoniosamente fora do centro, possibilidade fácil de recuperar o centro histórico e ligá-lo ao rio, condições naturais excepcionais, com o estuário do Sado aos pés, o mar em frente, a montanha ao lado, praias magníficas, frente de rio única, avenidas largas, praças suficientes, enfim, tudo ou quase tudo.

Mas vieram os Mata Cáceres e outros artistas do poder local e transformaram Setúbal numa coisa caótica e aberrante, com urbanizações dignas de subúrbio africano, esculturas pseudomodernas horrendas, o triunfo do pato-bravismo, do mau gosto e da gestão sem planeamento nem ideias.

Também o futebol do Vitória chegou a encantar Portugal e a surpreender a Europa. Mas depois, as forças vivas da cidade, ou seja, os mesmos artistas que destruiram a beleza de Setúbal, tomaram conta do clube e demonstraram que eram tão bons a dirigi-lo como a fazer a cidade. Hoje a cidade é uma dor de alma e o clube um cadáver adiado. Que ninguém fale em injustiça.

5- Aconteceu já há uns quinze dias e eu esperei para ver se alguém se indignava publicamente com o assunto. Esperei em vão. E, todavia, foi das coisas mais graves que sucederam ultimamente no desporto português. Depois de o presidente do Benfica, a propósito dos incidentes no Benfica-Porto, ter declarado que, de futuro, o clube se reservava no direito de interditar a presença de adeptos do adversário no Estádio da Luz, depois de o inquérito do MAI ter concluído que os incidentes eram da responsabilidade do Benfica e da PSP, um autocarro com adeptos do FC Porto que vinham assistir ao Benfica-Porto em hóquei em patins, foi interceptado pela polícia em Alverca e impedido de entrar em Lisboa. Apesar de a bordo viajarem inclusivamente adeptos com bilhete já comprado para o jogo.

Concluo assim que a PSP está ao serviço do presidente do Benfica e faz cumprir os seus desejos ou ordens, mesmo quando isso implica vedar o acesso a espectáculos abertos ao público por lei, ou, pior ainda, quando isso implica que cidadãos portugueses sejam impedidos de entrar numa cidade do País. Nem na Idade Média os nobres se permitiam controlar assim o direito de entrada nas suas terras! Já imaginaram um autocarro de adeptos do Benfica ser impedido pela polícia de passar além de Vila Nova de Gaia?

Ah, mas Deus, se existe, não dorme: mesmo assim, o Benfica perdeu o jogo e o campeonato…