Diz Jesualdo Ferreira que Renteria «tem atributos de qualidade superior». Pois, se fossem apenas de qualidade banalíssima, anteontem teríamos saído da Luz com o título na algibeira.
1- O Benfica-FC Porto desmentiu vários prognósticos, incluindo meus. Para começar, foi um bom jogo de futebol, emotivo até ao fim — o que raramente acontece num clássico, para mais decisivo. Ambas as equipas tiveram a sua parte de domínio e até concordo com Fernando Santos quando diz que a parte do Benfica foi mais «avassaladora» do que a do FC Porto havia sido. Mas a do FC Porto foi mais bem jogada, foi mais banho de bola, do que a do Benfica. Como vai sendo habitual e é já uma imagem de marca, o FC Porto deu o berro na segunda parte — como já sucedera nos dois jogos contra o Chelsea e no jogo contra o Sporting. Jesualdo pode-se refugiar em imprevistos problemas musculares de jogadores do meio-campo, mas salta à vista de todos que a preparação física é o principal handicap de uma equipa que quer ser campeã. Inversamente, o Benfica confirmou uma saudável capacidade de reacção, de resistência e de disputar os jogos até final.
Mas porquê o Renteria?
2- Revelei o meu temor de que o Ricardo Quaresma não acabasse o jogo — estava a vê-lo expulso, depois de reagir a várias entradas à margem das leis. Um temor agravado quando, logo aos dois minutos, Pedro Proença mostrou o amarelo a Bruno Alves, que cortou a bola antes de atingir Simão, e, na jogada seguinte, perdoou o amarelo a Simão por uma entrada directa às pernas do adversário. Temi aí que o critério disciplinar do árbitro viesse a ser durante todo o jogo totalmente unilateral — como foi (sete cartões amarelos para jogadores do FC Porto!) — mas isso não teve como consequência que Quaresma não acabasse o jogo, porque ele, simplesmente, não chegou a entrar nele. Os benfiquistas, que tantas suspeitas lançaram sobre Scolari por não o ter posto a jogar contra a Bélgica, mais a Sérvia (enquanto o Simão descansaria os dois jogos…), não têm razão de queixa: a Bélgica chegou para deixar Quaresma de rastos.
Mas porquê o Renteria?
3- O FC Porto entrou muito bem — sem medo, a agarrar o jogo logo de início e a pôr o Benfica em sentido. Quim roubou um golo certo a Adriano e, mais tarde, falharia por completo no golo de Pepe, permitindo-lhe cabecear a meio metro da baliza, numa zona que é exclusiva do guarda-redes. Pena que este FC Porto não dê para mais do que meia parte. Pena que o gigantismo de Pepe e de Paulo Assunção não tenha sido suficiente para segurar a vitória, perdida a oito minutos do fim. E valeu Helton, finalmente em noite sem mácula e inspirada. A segunda parte do FC Porto foi confrangedora: a equipa recuou, recuou, sem conseguir ganhar uma segunda bola, sem segurar o jogo a meio-campo, sem lançar sequer o contra-ataque. Jesualdo Ferreira assistiu sem reacção e, mais uma vez, mostrou que o seu forte não são as substituições. Lucho, Jorginho, Quaresma e Adriano — enfim, toda a força de ataque — arrastavam-se em campo, e ele… nada. Tinha o Anderson, o Vieirinha, o Alan, o Bruno Morais, até o Postiga.
Mas porquê o Renteria?
4- Os benfiquistas ficaram meio frustrados por não lhes terem dado o Lucílio Baptista como árbitro. Com ele, era trigo limpo, Farinha Amparo. Mas também não ficaram insatisfeitos com Pedro Proença. Que diriam eles se, para um FC Porto-Benfica em que podia decidir-se o título, fosse nomeado um árbitro portuense e portista?
Pedro Proença não teve nenhum erro com influência no resultado. Mas a sua actuação, a começar pela dualidade de critérios disciplinares anunciada logo de início e a continuar em tudo o resto, foi de um caseirismo desnecessário e pouco elegante. Tenho um caderno de notas com três folhas de erros seus enumerados, em que só um e banal, beneficiou o FC Porto. É certo que não se deixou tentar por erros óbvios a pedido do Benfica (como um penalty inventado pelo Nélson) mas também aí não fez o que devia, que era mostrar um amarelo ao Nélson — ele que foi tão pródigo em amarelos aos jogadores do FC Porto.
Mas porquê o Renteria?
5- Rui Costa é o jogador do Benfica que mais admiro. Pelo seu passado, pelo seu presente, pelo seu amor ao clube que o formou, pela sua personalidade e pela sua inteligência. Mesmo a meio-gás, a sua entrada no jogo virou o jogo. A classe ainda é um grande argumento. Repare-se como ele correu, procurou a bola, procurou o jogo, procurou o destino. Enquanto o FC Porto tinha lá um colombiano que, quando perdia a bola (que era sempre que lhe tocava), ficava no mesmo sítio, parado, como se não lhe pagassem para se incomodar com aquilo. Rui Costa ainda faz falta a jogos como este.
Mas porquê o Renteria?
6- Uma volta inteira de campeonato depois, está de regresso aquele que, até então, tinha sido o melhor jogador do campeonato: Anderson (o do FC Porto, é claro). Confesso que nunca tive muita esperança de o voltar a ver jogar este ano e o regresso foi apenas simbólico: Jesualdo Ferreira preferiu meter antes um rapaz da Colômbia, adoptado pelo Natal. Mesmo assim, por muito pouco, por dez centímetros, Anderson não assinalou o seu regresso com o golo da vitória portista. Teria sido a mais sublime vingança. Mas alegrem-se todos os que verdadeiramente gostam de futebol: o génio está de volta e ainda a tempo de fazer a diferença.
Mas porquê o Renteria?
7- Não sei qual o estado de espírito dos benfiquistas após o jogo: se acham que perderam dois pontos ou que salvaram quatro. Eu, portista, fiquei frustrado. Porque estivemos a ganhar até oito minutos antes dos 90, porque nos deixámos empatar de autogolo e porque perdemos a vitória numa jogada de golo certo, ao soar do gongue. Mas o que é certo é que houve, apesar disso, uma subtil melhoria da situação. O Benfica já não depende só de si; em caso de igualdade pontual, ganha o FC Porto; passou mais um jogo; e o Anderson está de volta.
Mas porquê o Renteria?
8- Quando Alexandre Pinto da Costa iniciou a sua brevíssima carreira de empresário de jogadores (em associação com José Veiga…), tratou logo de fazer o seu primeiro negócio a expensas do FC Porto. Impingiu-nos o pior jogador de futebol que alguma vez vi jogar: um tal de Paulinho César, suposto ponta-de-lança. O tipo conseguiu fazer uma coisa que eu achava virtualmente impossível — a meio metro da linha de golo, sem guarda-redes nem ninguém entre ele e a baliza, vê cair-lhe uma bola a saltitar à frente; enche o pé e remata… na vertical, três metros acima da barra. Pois, este tal de Renteria faz-me lembrar o Paulinho César: por duas vezes já o vi ficar de posse de uma bola que só precisava de ser encaminhada, de qualquer forma, para a baliza. E das duas vezes o pobre rapaz nem conseguiu, como diria o Gabriel Alves, ter o «gesto técnico» de fazer um remate. O inocente do Renteria, que não tem culpa nenhuma que o tenham contratado, parece não fazer a mais pequena ideia para que serve uma bola de futebol nem que o objectivo final do jogo é tentar enfiá-la dentro da baliza. A esta hora, Renteria ainda deve estar a perguntar-se quem é que se lembrou de o meter numa equipa que ainda há três anos era campeã da Europa e quem é que se lembrou de o meter num jogo dito do título. Diz Jesualdo Ferreira que ele «tem atributos de qualidade superior». Pois, se fossem apenas de qualidade banalíssima, anteontem teríamos saído do estádio da Luz com o título na algibeira.
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
quarta-feira, abril 11, 2007
Tudo isto e mais um Benfica-FC Porto ( 27 Março 2007)
A esta Selecção falta, de facto, um defesa-esquerdo e um sucessor para Pauleta, no eixo do ataque. À parte isso, é capaz de ser a melhor Selecção portuguesa de todos os tempos.
1- Há três anos que ando a desbaratar elogios a Ricardo Quaresma e a defendê-lo de todos os cépticos ou cegos. Defendi-o em 2005, o ano horrível do FC Porto, quando ele sozinho carregou às costas uma equipa sem tom nem som. Defendi-o no início de 2006, quando o visionário Co Adriaanse resolveu que ele servia era para suplente — ou porque era cigano, ou porque não gostava do penteado dele ou porque, como dizia a generalidade dos críticos, o Quaresma «não defendia». E defendi-o no Verão passado, quando já só um vesgo ou um teimoso é que não reconhecia a excelência do futebol subversivo de Quaresma, e Scolari resolveu, mesmo assim, deixá-lo de fora do Mundial, privando-o de uma experiência que, mais do que tinha justificado e merecido, privou milhões de amantes de futebol no mundo inteiro de tomarem conhecimento da sua existência.
Mas Ricardo Quaresma gosta demasiadamente de jogar futebol para se deixar abater ou ficar cativo da apreciação alheia. Contra tudo e contra todos, até contra a pancada que recebe em doses acrescidas e até contra os castigos que depois é ele que recebe e não os agressores, Ricardo Quaresma continua a ter um imenso prazer em jogar futebol e em cumular-nos de prazer ao vê-lo jogar. Estou inteiramente de acordo com a opinião que João Bonzinho ontem aqui expôs: Cristiano Ronaldo é bem capaz de ser o melhor jogador do mundo, neste momento, mas Quaresma é mais «selvagem», mais «puro» enquanto génio. Cristiano é um jogador completo, arrebatador, demolidor; Quaresma é um mágico, um daqueles jogadores capazes ainda de inventar novos truques com uma bola, de fazerem o impensável de, na subtileza de um simples toque, mudarem o vento do jogo.
Assim, o fantástico golo de Quaresma contra a Bélgica não me surpreendeu. Aliás, já esta época arcou um assim ao Benfica e não marcou outro ao Chelsea porque a bola morreu na tinta da barra de um petrificado Petr Cech. A mim só me surpreende que alguém ainda se surpreenda, e, para a surpresa ser total, só falta que venham dizer que foi o Scolari quem descobriu o génio do Quaresma e o soube pôr ao serviço da Selecção.
2- A esta Selecção falta, de facto, um defesa-esquerdo e um sucessor para Pauleta, no eixo do ataque.
Àparte isso, é capaz de ser a melhor Selecção portuguesa de todos os tempos. Só por incrível acidente é que não chegará à fase final do Europeu. Mas devia jogar sempre em Alvalade: há qualquer coisa ali que os inspira.
3- À moda do Trio D'Ataque, eis a equipa do FC Porto que eu faria entrar de início no relvado da Luz:
Vitor Baía; Fucile, Pepe, Bruno Alves e Marek Cech; Vieirinha, Bosingwa, Paulo Assunção e Raul Meireles; Adriano e Quaresma.
Parto do princípio de que o Lizandro não recupera e que o Anderson só poderá ser utilizado com riscos.
Eu preferia não arriscar, preferia o Anderson para o que resta de campeonato, do que tê-lo na Luz a meio-gás e, depois, perdê-lo até final. Aliás, não tivesse sido a derrota com o Sporting, se o Porto tem chegado à Luz com quatro pontos de avanço, eu também dispensaria o Quaresma: é que tenho um mau pressentimento que ele não vai acabar o jogo.
Mas, seja qual for a equipa que Jesualdo Ferreira venha a escolher, eu deixo aqui uma previsão arriscada: em circunstâncias normais (isto é, sem casos de arbitragem ou jogadores enviados para o estaleiro), o FC Porto é o meu favorito à vitória. Porquê? Porque é nestas alturas que o FC Porto costuma transcender-se e mostrar porque é que que ganha mais vezes que os outros. Porque, quando já nada mais resta do que ir à luta em campo e vencer, o espírito de todas as equipas formadas ao longo dos últimos anos naquela casa é o de vencedores.
Não quero com isto dizer que não tenho respeito ou que não temo a actual equipa do Benfica. Muito pelo contrário, o Benfica em dia sim é uma equipa temível. Mas tanto é capaz do melhor como do pior, e ao longo do mesmo jogo. Mas uma equipa de campeões demora anos a forjar e passa por uma quantidade de factores que não se limitam à vontade de ganhar. É isso que muita gente insiste em não querer ver.
4- Li atentamente a entrevista que o dr. Ricardo Costa, presidente da Comissão Disciplinar da Liga,deu ontem a este jornal — como já antes havia lido com igual atenção as suas intervenções anteriores.
Li e não fiquei convencido. Respeito muito a sua vontade de fazer bem, a sua qualificação juridica, o seu esforço pelo futebol. E, obviamente, não está, nem nunca esteve, em causa a sua honestidade ou a dos demais elementos da CD — ao contrário, do que ele sustenta, quando se atira aos comentadores clubísticos. Parece que, infelizmente, também é preciso começar por recordar que, na sociedade democrática em que vivemos, existe uma coisa que se chama direito de opinião, direito de crítica, direito de discordar. Ao contrário do que ele sugere, não existem, de um lado os bons, honestos, sérios e isentos, que são os membros da CD; e, do outro lado, os mal-intencionados, facciosos e,eventualmente, desonestos, que são quem os critica.
Eu, por exemplo, de facto, não sou isento clubisticamente. Só que nunca o escondi, antes o afirmei, e é na qualidade de adepto, e apenas nessa, que aqui exponho as minhas opiniões. Mas também devo dizer que não acredito que os membros da CD da Liga sejam todos isentos clubisticamente. Nem acredito nem o exijo: basta-me que sejam isentos a decidir.
Aqui há semanas, e reflectindo sobre a aparente disparidade de tratamento disciplinar dado aos casos de Nuno Gomes e de Ricardo Quaresma, escrevi aqui um texto, que bastante sereno e isento me pareceu, em que explicava as razões pelas quais não compreendia ou rejeitava alguns dos critérios adoptados e porque é que, a meu ver, eles podiam facilmente conduzir a decisões comparativamente injustas e incompreensíveis. Devo dizer, imodestamente, que achei que as minhas razões poderiam pelo menos suscitar alguma discussão, igualmente séria e serena, em que quem pode e manda tentasse perceber as razões de quem não manda mas pode discordar ou ter dúvidas. O que não esperava, sinceramente, é que quem pode e manda descartasse tudo à conta da ignorância ou do facciosismo clubístico.
Registadas mais uma vez as explicações do dr. Ricardo Costa, eu continuo na minha, nas minhas razões e nas minhas dúvidas, que, de forma alguma, vi esclarecidas. E, acima de tudo, o que me faz confusão é que, na esteira deste mundo de juristas em que vivemos (e eu também o sou, embora salutarmente retirado), se continue a confundir legalidade com justiça. Há muitas áreas, no nosso direito, em que por amor extremo e absurdo à legalidade formal e ao processualismo, se deixa de fazer justiça — pelo menos, uma justiça que o comum dos cidadãos possa entender e respeitar. Mas o futebol e os regulamentos de disciplina desportiva não são um Código Penal. São uma área onde, justamente, o que se pede é bom-senso e justiça, e não uma série infinda de malabarismos processuais e legalistas que fazem com que, no limite, ninguém entenda por que razão um jogador que entra a pontapé sobre as pernas doutro numa disputa de bola é menos penalizado do que um que dá um safanão com o braço para se libertar de um adversário que o está a agarrar. Ou que dois jogadores que praticaram exactamente o mesmo acto possam ser punidos de forma diferente, conforme os árbitros digam que viram ou que não viram o que todos viram, incluindo os membros da CD.
Não duvido de que o dr. Ricardo Costa e os seus pares cumpram escrupulosamente os regulamentos da Liga, ou que, pelo menos, o tentem. Mas, com todo o respeito pelo seu esforço, não é isso que está em causa. Eu estou-me nas tintas para a vaca sagrada dos regulamentos da Liga, se eles não fazem sentido. Quero é uma justiça desportiva que seja rápida, eficaz, coerente, igual para todos e entendível por todos. Isso, para mim, é que seria novo. Mas, pelos vistos, ainda não é desta que a vamos ter.
1- Há três anos que ando a desbaratar elogios a Ricardo Quaresma e a defendê-lo de todos os cépticos ou cegos. Defendi-o em 2005, o ano horrível do FC Porto, quando ele sozinho carregou às costas uma equipa sem tom nem som. Defendi-o no início de 2006, quando o visionário Co Adriaanse resolveu que ele servia era para suplente — ou porque era cigano, ou porque não gostava do penteado dele ou porque, como dizia a generalidade dos críticos, o Quaresma «não defendia». E defendi-o no Verão passado, quando já só um vesgo ou um teimoso é que não reconhecia a excelência do futebol subversivo de Quaresma, e Scolari resolveu, mesmo assim, deixá-lo de fora do Mundial, privando-o de uma experiência que, mais do que tinha justificado e merecido, privou milhões de amantes de futebol no mundo inteiro de tomarem conhecimento da sua existência.
Mas Ricardo Quaresma gosta demasiadamente de jogar futebol para se deixar abater ou ficar cativo da apreciação alheia. Contra tudo e contra todos, até contra a pancada que recebe em doses acrescidas e até contra os castigos que depois é ele que recebe e não os agressores, Ricardo Quaresma continua a ter um imenso prazer em jogar futebol e em cumular-nos de prazer ao vê-lo jogar. Estou inteiramente de acordo com a opinião que João Bonzinho ontem aqui expôs: Cristiano Ronaldo é bem capaz de ser o melhor jogador do mundo, neste momento, mas Quaresma é mais «selvagem», mais «puro» enquanto génio. Cristiano é um jogador completo, arrebatador, demolidor; Quaresma é um mágico, um daqueles jogadores capazes ainda de inventar novos truques com uma bola, de fazerem o impensável de, na subtileza de um simples toque, mudarem o vento do jogo.
Assim, o fantástico golo de Quaresma contra a Bélgica não me surpreendeu. Aliás, já esta época arcou um assim ao Benfica e não marcou outro ao Chelsea porque a bola morreu na tinta da barra de um petrificado Petr Cech. A mim só me surpreende que alguém ainda se surpreenda, e, para a surpresa ser total, só falta que venham dizer que foi o Scolari quem descobriu o génio do Quaresma e o soube pôr ao serviço da Selecção.
2- A esta Selecção falta, de facto, um defesa-esquerdo e um sucessor para Pauleta, no eixo do ataque.
Àparte isso, é capaz de ser a melhor Selecção portuguesa de todos os tempos. Só por incrível acidente é que não chegará à fase final do Europeu. Mas devia jogar sempre em Alvalade: há qualquer coisa ali que os inspira.
3- À moda do Trio D'Ataque, eis a equipa do FC Porto que eu faria entrar de início no relvado da Luz:
Vitor Baía; Fucile, Pepe, Bruno Alves e Marek Cech; Vieirinha, Bosingwa, Paulo Assunção e Raul Meireles; Adriano e Quaresma.
Parto do princípio de que o Lizandro não recupera e que o Anderson só poderá ser utilizado com riscos.
Eu preferia não arriscar, preferia o Anderson para o que resta de campeonato, do que tê-lo na Luz a meio-gás e, depois, perdê-lo até final. Aliás, não tivesse sido a derrota com o Sporting, se o Porto tem chegado à Luz com quatro pontos de avanço, eu também dispensaria o Quaresma: é que tenho um mau pressentimento que ele não vai acabar o jogo.
Mas, seja qual for a equipa que Jesualdo Ferreira venha a escolher, eu deixo aqui uma previsão arriscada: em circunstâncias normais (isto é, sem casos de arbitragem ou jogadores enviados para o estaleiro), o FC Porto é o meu favorito à vitória. Porquê? Porque é nestas alturas que o FC Porto costuma transcender-se e mostrar porque é que que ganha mais vezes que os outros. Porque, quando já nada mais resta do que ir à luta em campo e vencer, o espírito de todas as equipas formadas ao longo dos últimos anos naquela casa é o de vencedores.
Não quero com isto dizer que não tenho respeito ou que não temo a actual equipa do Benfica. Muito pelo contrário, o Benfica em dia sim é uma equipa temível. Mas tanto é capaz do melhor como do pior, e ao longo do mesmo jogo. Mas uma equipa de campeões demora anos a forjar e passa por uma quantidade de factores que não se limitam à vontade de ganhar. É isso que muita gente insiste em não querer ver.
4- Li atentamente a entrevista que o dr. Ricardo Costa, presidente da Comissão Disciplinar da Liga,deu ontem a este jornal — como já antes havia lido com igual atenção as suas intervenções anteriores.
Li e não fiquei convencido. Respeito muito a sua vontade de fazer bem, a sua qualificação juridica, o seu esforço pelo futebol. E, obviamente, não está, nem nunca esteve, em causa a sua honestidade ou a dos demais elementos da CD — ao contrário, do que ele sustenta, quando se atira aos comentadores clubísticos. Parece que, infelizmente, também é preciso começar por recordar que, na sociedade democrática em que vivemos, existe uma coisa que se chama direito de opinião, direito de crítica, direito de discordar. Ao contrário do que ele sugere, não existem, de um lado os bons, honestos, sérios e isentos, que são os membros da CD; e, do outro lado, os mal-intencionados, facciosos e,eventualmente, desonestos, que são quem os critica.
Eu, por exemplo, de facto, não sou isento clubisticamente. Só que nunca o escondi, antes o afirmei, e é na qualidade de adepto, e apenas nessa, que aqui exponho as minhas opiniões. Mas também devo dizer que não acredito que os membros da CD da Liga sejam todos isentos clubisticamente. Nem acredito nem o exijo: basta-me que sejam isentos a decidir.
Aqui há semanas, e reflectindo sobre a aparente disparidade de tratamento disciplinar dado aos casos de Nuno Gomes e de Ricardo Quaresma, escrevi aqui um texto, que bastante sereno e isento me pareceu, em que explicava as razões pelas quais não compreendia ou rejeitava alguns dos critérios adoptados e porque é que, a meu ver, eles podiam facilmente conduzir a decisões comparativamente injustas e incompreensíveis. Devo dizer, imodestamente, que achei que as minhas razões poderiam pelo menos suscitar alguma discussão, igualmente séria e serena, em que quem pode e manda tentasse perceber as razões de quem não manda mas pode discordar ou ter dúvidas. O que não esperava, sinceramente, é que quem pode e manda descartasse tudo à conta da ignorância ou do facciosismo clubístico.
Registadas mais uma vez as explicações do dr. Ricardo Costa, eu continuo na minha, nas minhas razões e nas minhas dúvidas, que, de forma alguma, vi esclarecidas. E, acima de tudo, o que me faz confusão é que, na esteira deste mundo de juristas em que vivemos (e eu também o sou, embora salutarmente retirado), se continue a confundir legalidade com justiça. Há muitas áreas, no nosso direito, em que por amor extremo e absurdo à legalidade formal e ao processualismo, se deixa de fazer justiça — pelo menos, uma justiça que o comum dos cidadãos possa entender e respeitar. Mas o futebol e os regulamentos de disciplina desportiva não são um Código Penal. São uma área onde, justamente, o que se pede é bom-senso e justiça, e não uma série infinda de malabarismos processuais e legalistas que fazem com que, no limite, ninguém entenda por que razão um jogador que entra a pontapé sobre as pernas doutro numa disputa de bola é menos penalizado do que um que dá um safanão com o braço para se libertar de um adversário que o está a agarrar. Ou que dois jogadores que praticaram exactamente o mesmo acto possam ser punidos de forma diferente, conforme os árbitros digam que viram ou que não viram o que todos viram, incluindo os membros da CD.
Não duvido de que o dr. Ricardo Costa e os seus pares cumpram escrupulosamente os regulamentos da Liga, ou que, pelo menos, o tentem. Mas, com todo o respeito pelo seu esforço, não é isso que está em causa. Eu estou-me nas tintas para a vaca sagrada dos regulamentos da Liga, se eles não fazem sentido. Quero é uma justiça desportiva que seja rápida, eficaz, coerente, igual para todos e entendível por todos. Isso, para mim, é que seria novo. Mas, pelos vistos, ainda não é desta que a vamos ter.
Outro olhar sobre o FC Porto-Sporting ( 20 Março 2007)
O Sporting foi indiscutivelmente melhor como equipa e em termos de estratégia de jogo. Mas, para uma equipa a quem só a vitória interessava, a mim ficou-me a ideia de que o Sporting muito pouco fez por isso
1- Mal o jogo acaba, começo a receber SMS de sportinguistas: «Grande banho de bola que vos demos!» Abro os jornais desportivos do dia seguinte e dizem o mesmo. E confesso que fico entre o perplexo e o preocupado: aquilo foi «um banho de bola» e eu não dei por nada? Será que o meu facciosismo clubístico já me impede de ver o que todos vêem, ou todos vêem o que querem ver? Eis o que eu vi.
O Sporting foi indiscutivelmente melhor como equipa e em termos de estratégia de jogo. Explorou os dois pontos fracos do FC Porto, que são evidentes para qualquer pessoa: o meio-campo e a preparação física. Com isso, a equipa dirigida por Paulo Bento controlou grande parte do jogo, anulou, com relativa facilidade, a criatividade do jogo do Porto e jogou, ou não deixou jogar, o suficiente para nunca merecer perder.
Mas, para uma equipa a quem só a vitória interessava, a mim ficou-me a ideia de que o Sporting muito pouco fez por isso: limitou-se quase só a esperar por uma dávida dos céus e ela chegou. Em toda a primeira parte, é verdade que o Sporting e Nani exploraram a seu bel-prazer o flanco direito da defesa do Porto, mas o saldo de tudo isso traduziu-se apenas em dois remates mais ou menos perigosos que Helton defendeu com mais ou menos dificuldade, enquanto que, do lado oposto, Alan desperdiçou a melhor oportunidade de golo, com um remate desastrado. E, na segunda parte, fora o golo de bola parada, o Sporting dispôs apenas de mais uma oportunidade, em contra-ataque e depois do golo — a qual, ao contrário do que vi escrito, não foi salva pelo Helton, foi sim criada pelo Helton, ao defender com os pés e para a frente um remate que deveria ter agarrado com as mãos. Jogando pior e sempre em esforço e desinspiração, o FC Porto teve mais oportunidades de golo do que isso.
2- Jesualdo Ferreira tem uma qualidade que eu aprecio: quando perde não se refugia em desculpas com o árbitro e coisas que tais. Assimilou e bem aquilo que é o sinal distintivo das equipas ganhadoras: só faz sentido falar em erros de arbitragem quando se jogou o suficiente para ganhar e foram os erros do árbitro que o impediram. Sábado, o FC Porto não jogou o suficiente para ganhar e, por isso, não adianta falar no árbitro. Mas duvido que qualquer outro treinador daqui, tendo acabado de viver aquele último lance da partida, não viesse falar do árbitro. Os sportinguistas, de certeza que não tinham ficado calados. A única coisa boa de perder é saber perder.
3- Mas Jesualdo perdeu o jogo, tanto como a equipa, ou mais até. Assistiu, sem reacção, durante toda a primeira parte, à cavalgada do Sporting na alameda do flanco direito da defesa portista, a metros do banco onde ele estava. Assistiu, sem reacção e durante 70 minutos, a mais uma exibição nula de Lucho Gonzalez, cuja inutilidade absoluta e continuada é o único que parece ainda não ter percebido (no jogo anterior, no Funchal, dei-me ao trabalho de seguir o Lucho com atenção: tocou na bola pela primeira vez aos 31 minutos de jogo, já o Porto ganhava por 2-0. Deve ser um feito digno do Guinness…). Eu sei que Jesualdo deixou de contar com o Anderson, já lá vai uma volta inteira de campeonato, sei que perdeu agora também o Ibson, sei que não foi ele quem formou o plantel do FCPorto para esta época e que andou irresponsavelmente a dispensar e emprestar médios de ataque.
Mas também sei que, com o seu aval ou a sua cumplicidade, se comprou no mercado de Dezembro um jogador para ser a quarta opção como defesa-esquerdo (Marenque)e um avançado, que dizem futebolista, para ser a quarta opção como ponta-de-lança (Renteria), mas não se comprou, como era notóriamente necessário, um médio ofensivo. E depois, caramba, há-de haver nos juniores ou nos juvenis alguém que simplesmente corra e jogue, coisa que o Lucho não faz há meses!
À parte isso, que já não é pouco, Jesualdo Ferreira falhou na estratégia, na observação do adversário e nas substituições. E, por mais que o desdiga, o facto é que havia um FC Porto até às fatídicas férias grandes de Dezembro e outro depois disso. Este que agora se apresenta e que já vai na quinta derrota do ano, não pode com uma gata pelo rabo, está deserto de ideias de jogo e vai começando a fazer lembrar cada vez mais o de Co Adriaanse, que sobreviveu uma época inteira, tem-te-não-caias, à custa de três jogadores e apenas três: o Pepe, na defesa, o Paulo Assunção, no meio-campo, e o Quaresma, no ataque. Não chega para fazer uma equipa.
4- Não me vou desdizer: um mau jogo não consente desculpas com erros de arbitragem. Mas não resisto a recflectir o que seria ao contrário. No FC Porto-Sporting de sábado há três decisões controversas da arbitragem e as três foram decididas contra o FC Porto.
Primeira: num contra-ataque letal, Quaresma vai ficar isolado a caminho da baliza: pode optar entre ir para o golo directamente ou fazer o 2x1 com Adriano, face a um desamparado Anderson Polga. Partiu três metros atrás do mesmo Polga e o fiscal de linha demorou três segundos a assinalar um fora-de-jogo que, a olho nu, era evidente que não havia. Esses três segundos foram incompreensíveis: o que terá passado pela cabeça do árbitro assistente nesses três decisivos segundos?
Segunda: Postiga entra de ombro contra ombro em Polga. No meu ver, completamente normal, mas admito que outros não pensem assim. A questão, porém, é que não é o nosso critério de avaliação que deve prevalecer, mas sim o muito personalizado critério disciplinar de Pedro Henriques — que é um bom árbitro, mas que, neste capítulo, assume uma arbitragem de risco permanente. Ora, deixando ele jogar largo, é legítimo que os jogadores se adaptem ao critério do árbitro: até pode ser que aquilo seja falta, mas, segundo o critério daquele árbitro, e designadamente neste jogo, aquilo nunca seria falta. Pedro Henriques não pode deixar passar dez faltas ou pretensas faltas iguais ou piores e marcar aquela, naquela posição. Porque, ainda por cima, foi o lance que decidiu o jogo.
Terceira: tanto na análise de A BOLA, como na dos especialistas do O JOGO, o Polga (sempre ele…) não cometeu falta para penalty no último lance do desafio. E todos o justificam dizendo que ele simplesmente jogou a bola. Convido-vos, porém, a reverem o lance na televisão, tal como eu já o fiz várias vezes: vê-se o Pepe a armar o remate à baliza e vê-se o Polga a entrar (de pé em riste) ao conjunto Pepe-bola; a seguir, vê-se o Pepe a levantar voo como um pião ( e ele não é homem de fitas ou simulações), e vê-se, sobretudo, que a bola não se mexe do mesmo sítio. Como é que o Polga jogou a bola, se ela nem se mexeu?
Mas, nestes tempos de intimidação penal que se vivem, é preciso saber também tomar decisões sábias: só um suicida é que se atreveria a assinalar um penalty decisivo a favor do FC Porto, no último segundo do jogo.
5- Anotem: foi o segundo jogo de título disputado no Dragão este ano. Não houve quaisquer declarações provocatórias ou incendiárias dos dirigentes, técnicos ou jogadores do FC Porto, antes ou depois do jogo; não houve quaisquer incidentes causados pelos adeptos portistas com os jogadores ou adeptos adversários, e os dirigentes destes assistiram ao jogo no camarote da Direcção, em paz e tranquilidade; nenhum jogador adversário saiu do campo com uma perna partida ou lesionado devido a uma entrada de um portista; e, no final, com razões ou não para tal, não houve queixas de arbitragem nem falta de fair play, tanto na vitória como na derrota. Anotem e façam igual.
6- O presidente do Sindicato dos Jogadores de Futebol deveria estar menos entusiástico com o absurdo acórdão do tribunal administrativo que confere aos jogadores a possibilidade de se transformarem em mercenários, que hoje beijam o emblema de um clube e amanhã assinam por outro. A liberdade contratual absoluta dos jogadores implica, a prazo, a morte inevitável dos clubes.
E, sem clubes, não há futebol profissional. Aliás, e como bem nota o presidente do Sporting, se um jogador pode passar a despedir-se sem justa causa e quando o quer, também o clube deve ter a faculdade de fazer o mesmo. E, entrando-se por aí, o Sindicato vai ter muito a que acorrer.
1- Mal o jogo acaba, começo a receber SMS de sportinguistas: «Grande banho de bola que vos demos!» Abro os jornais desportivos do dia seguinte e dizem o mesmo. E confesso que fico entre o perplexo e o preocupado: aquilo foi «um banho de bola» e eu não dei por nada? Será que o meu facciosismo clubístico já me impede de ver o que todos vêem, ou todos vêem o que querem ver? Eis o que eu vi.
O Sporting foi indiscutivelmente melhor como equipa e em termos de estratégia de jogo. Explorou os dois pontos fracos do FC Porto, que são evidentes para qualquer pessoa: o meio-campo e a preparação física. Com isso, a equipa dirigida por Paulo Bento controlou grande parte do jogo, anulou, com relativa facilidade, a criatividade do jogo do Porto e jogou, ou não deixou jogar, o suficiente para nunca merecer perder.
Mas, para uma equipa a quem só a vitória interessava, a mim ficou-me a ideia de que o Sporting muito pouco fez por isso: limitou-se quase só a esperar por uma dávida dos céus e ela chegou. Em toda a primeira parte, é verdade que o Sporting e Nani exploraram a seu bel-prazer o flanco direito da defesa do Porto, mas o saldo de tudo isso traduziu-se apenas em dois remates mais ou menos perigosos que Helton defendeu com mais ou menos dificuldade, enquanto que, do lado oposto, Alan desperdiçou a melhor oportunidade de golo, com um remate desastrado. E, na segunda parte, fora o golo de bola parada, o Sporting dispôs apenas de mais uma oportunidade, em contra-ataque e depois do golo — a qual, ao contrário do que vi escrito, não foi salva pelo Helton, foi sim criada pelo Helton, ao defender com os pés e para a frente um remate que deveria ter agarrado com as mãos. Jogando pior e sempre em esforço e desinspiração, o FC Porto teve mais oportunidades de golo do que isso.
2- Jesualdo Ferreira tem uma qualidade que eu aprecio: quando perde não se refugia em desculpas com o árbitro e coisas que tais. Assimilou e bem aquilo que é o sinal distintivo das equipas ganhadoras: só faz sentido falar em erros de arbitragem quando se jogou o suficiente para ganhar e foram os erros do árbitro que o impediram. Sábado, o FC Porto não jogou o suficiente para ganhar e, por isso, não adianta falar no árbitro. Mas duvido que qualquer outro treinador daqui, tendo acabado de viver aquele último lance da partida, não viesse falar do árbitro. Os sportinguistas, de certeza que não tinham ficado calados. A única coisa boa de perder é saber perder.
3- Mas Jesualdo perdeu o jogo, tanto como a equipa, ou mais até. Assistiu, sem reacção, durante toda a primeira parte, à cavalgada do Sporting na alameda do flanco direito da defesa portista, a metros do banco onde ele estava. Assistiu, sem reacção e durante 70 minutos, a mais uma exibição nula de Lucho Gonzalez, cuja inutilidade absoluta e continuada é o único que parece ainda não ter percebido (no jogo anterior, no Funchal, dei-me ao trabalho de seguir o Lucho com atenção: tocou na bola pela primeira vez aos 31 minutos de jogo, já o Porto ganhava por 2-0. Deve ser um feito digno do Guinness…). Eu sei que Jesualdo deixou de contar com o Anderson, já lá vai uma volta inteira de campeonato, sei que perdeu agora também o Ibson, sei que não foi ele quem formou o plantel do FCPorto para esta época e que andou irresponsavelmente a dispensar e emprestar médios de ataque.
Mas também sei que, com o seu aval ou a sua cumplicidade, se comprou no mercado de Dezembro um jogador para ser a quarta opção como defesa-esquerdo (Marenque)e um avançado, que dizem futebolista, para ser a quarta opção como ponta-de-lança (Renteria), mas não se comprou, como era notóriamente necessário, um médio ofensivo. E depois, caramba, há-de haver nos juniores ou nos juvenis alguém que simplesmente corra e jogue, coisa que o Lucho não faz há meses!
À parte isso, que já não é pouco, Jesualdo Ferreira falhou na estratégia, na observação do adversário e nas substituições. E, por mais que o desdiga, o facto é que havia um FC Porto até às fatídicas férias grandes de Dezembro e outro depois disso. Este que agora se apresenta e que já vai na quinta derrota do ano, não pode com uma gata pelo rabo, está deserto de ideias de jogo e vai começando a fazer lembrar cada vez mais o de Co Adriaanse, que sobreviveu uma época inteira, tem-te-não-caias, à custa de três jogadores e apenas três: o Pepe, na defesa, o Paulo Assunção, no meio-campo, e o Quaresma, no ataque. Não chega para fazer uma equipa.
4- Não me vou desdizer: um mau jogo não consente desculpas com erros de arbitragem. Mas não resisto a recflectir o que seria ao contrário. No FC Porto-Sporting de sábado há três decisões controversas da arbitragem e as três foram decididas contra o FC Porto.
Primeira: num contra-ataque letal, Quaresma vai ficar isolado a caminho da baliza: pode optar entre ir para o golo directamente ou fazer o 2x1 com Adriano, face a um desamparado Anderson Polga. Partiu três metros atrás do mesmo Polga e o fiscal de linha demorou três segundos a assinalar um fora-de-jogo que, a olho nu, era evidente que não havia. Esses três segundos foram incompreensíveis: o que terá passado pela cabeça do árbitro assistente nesses três decisivos segundos?
Segunda: Postiga entra de ombro contra ombro em Polga. No meu ver, completamente normal, mas admito que outros não pensem assim. A questão, porém, é que não é o nosso critério de avaliação que deve prevalecer, mas sim o muito personalizado critério disciplinar de Pedro Henriques — que é um bom árbitro, mas que, neste capítulo, assume uma arbitragem de risco permanente. Ora, deixando ele jogar largo, é legítimo que os jogadores se adaptem ao critério do árbitro: até pode ser que aquilo seja falta, mas, segundo o critério daquele árbitro, e designadamente neste jogo, aquilo nunca seria falta. Pedro Henriques não pode deixar passar dez faltas ou pretensas faltas iguais ou piores e marcar aquela, naquela posição. Porque, ainda por cima, foi o lance que decidiu o jogo.
Terceira: tanto na análise de A BOLA, como na dos especialistas do O JOGO, o Polga (sempre ele…) não cometeu falta para penalty no último lance do desafio. E todos o justificam dizendo que ele simplesmente jogou a bola. Convido-vos, porém, a reverem o lance na televisão, tal como eu já o fiz várias vezes: vê-se o Pepe a armar o remate à baliza e vê-se o Polga a entrar (de pé em riste) ao conjunto Pepe-bola; a seguir, vê-se o Pepe a levantar voo como um pião ( e ele não é homem de fitas ou simulações), e vê-se, sobretudo, que a bola não se mexe do mesmo sítio. Como é que o Polga jogou a bola, se ela nem se mexeu?
Mas, nestes tempos de intimidação penal que se vivem, é preciso saber também tomar decisões sábias: só um suicida é que se atreveria a assinalar um penalty decisivo a favor do FC Porto, no último segundo do jogo.
5- Anotem: foi o segundo jogo de título disputado no Dragão este ano. Não houve quaisquer declarações provocatórias ou incendiárias dos dirigentes, técnicos ou jogadores do FC Porto, antes ou depois do jogo; não houve quaisquer incidentes causados pelos adeptos portistas com os jogadores ou adeptos adversários, e os dirigentes destes assistiram ao jogo no camarote da Direcção, em paz e tranquilidade; nenhum jogador adversário saiu do campo com uma perna partida ou lesionado devido a uma entrada de um portista; e, no final, com razões ou não para tal, não houve queixas de arbitragem nem falta de fair play, tanto na vitória como na derrota. Anotem e façam igual.
6- O presidente do Sindicato dos Jogadores de Futebol deveria estar menos entusiástico com o absurdo acórdão do tribunal administrativo que confere aos jogadores a possibilidade de se transformarem em mercenários, que hoje beijam o emblema de um clube e amanhã assinam por outro. A liberdade contratual absoluta dos jogadores implica, a prazo, a morte inevitável dos clubes.
E, sem clubes, não há futebol profissional. Aliás, e como bem nota o presidente do Sporting, se um jogador pode passar a despedir-se sem justa causa e quando o quer, também o clube deve ter a faculdade de fazer o mesmo. E, entrando-se por aí, o Sindicato vai ter muito a que acorrer.
A nossa escala ( 13 Março 2007)
Ainda com as imagens do Barcelona-Real Madrid bem presentes, sentei-me no domingo para ver o Marítimo-FC Porto, e tive de fazer todos os esforços para não adormecer.
1-Foi uma semana eloquente, terrivelmente eloquente, para percebermos a diferença enorme que existe entre a escala do nosso futebol de equipas e a escala das grandes equipas europeias. Em Paris, face a uma equipa à beira da despromoção, totalmente descrente e desacreditada, o Benfica não conseguiu evitar uma derrota incompreensível e sem justificação alguma. Em Braga, e jogando bem melhor do que o Benfica, o Sp. Braga também não conseguiu evitar uma derrota frente a um Tottenham vindo de fantástica vitória em Liverpool por 4-3 e que imprimiu ao jogo uma velocidade estonteante, ao ritmo desse fabuloso Aaron Lennon. Aturdido, o Braga não conseguiu melhor que empatar a zero, três dias depois, em casa, e frente ao Beira-Mar, enquanto o Tottenham foi a Stamford Bridge empatar a 3-3 com o Chelsea, depois de ter estado a vencer 3-1. Nenhuma equipa portuguesa aguentaria a sequência infernal desta semana do Tottenham — e estamos a falar apenas de um clube do meio da tabela inglesa. Aliás, desconfio que nenhum dos nossos grandes teria feito melhor do que o Braga, contra os ingleses.
Toda a semana ouvi portistas e não portistas lamentarem o frango do Helton em Stamford Bridge: «Ah, se não fosse aquele frango…!» Não estou de acordo: é claro que foi frango e que veio na pior altura do jogo; é verdade que o Chelsea, tal como já sucedera no Porto e tal como Jesualdo disse acertadamente, não mostrava quaisquer indícios de ser melhor, futebolisticamente falando, do que o FC Porto. Mas, com o sem frango, e como também disse Mourinho, estou em crer que o Chelsea chegaria à vitória. E porquê? Porque, tal como se viu com o Tottenham em Braga e nos dois jogos do Porto contra o Chelsea, as equipas inglesas (e as espanholas, as italianas, as alemães…) estão muito melhor preparadas fisicamente do que as nossas. O que é incrível, se pensarmos que eles, não só disputam o dobro dos jogos das nossas equipas, como disputam jogos de um grau de exigência incomparavelmente superior. Os estádios estão sempre cheios em Inglaterra, os grandes jogadores ganham fortunas, mas, em contrapartida, têm de dar espectáculo e deixar a alma em campo. Jogos com perdas de tempo, autocarros em frente da baliza, futebol a passo, remates displicentes e lesões simuladas, isso não é com eles. Ali, o público paga, o público tem.
Em ambos os jogos contra o Chelsea, o FC Porto nunca mostrou ser inferior tecnicamente, enquanto equipa — o que é notável, sem dúvida, atendendo aos orçamentos de ambos os clubes. Mas, em contrapartida, em ambos os jogos também, os portistas estoiraram a meia hora do fim — o que é igualmente notável, no mau sentido, sabendo-se que a preparação física não tem que ver com a qualidade dos jogadores nem com o orçamento dos clubes, mas apenas com a qualidade e quantidade de trabalho feito.
Depois, houve outro factor concorrente para a eliminação, mais do que natural e previsível dos portistas. Se, enquanto equipa, não se notaram as diferenças, já tecnicamente a nível individual, elas foram decisivas: nenhum ponta-de-lança do FC Porto tem a capacidade de marcar o golo que Schevchenko marcou no Dragão; e Petr Cech jamais sofreria um golo como o que Helton sofreu nem faria as saídas suicidárias a bolas altas que ele fez — e que repetiu no Funchal, como já no jogo anterior havia feito contra o Braga. Em Dezembro, escrevi aqui que o Helton não é o grande guarda-redes que se diz: é um bom guarda-redes, com potencial para crescer muito, se for bem treinado e ensinado, em especial no jogo aéreo, onde as suas limitações são evidentes e incompreensíveis. Mas tal, infelizmente, não parece estar a suceder: a olho nu, a mim parece-me que o Helton é hoje pior guarda-redes do que era quando veio do Leiria para o FC Porto.
2-O grande futebol não pára para descansar. As equipas saem de um jogo europeu decisivo e logo têm um jogo interno igualmente decisivo. Aqui, basta um jogo europeu ou um jogo para a Taça a meio da semana, e logo servem de desculpa para o «cansaço» ou a «gestão de esforço». Saídos de duas eliminações corrosivas na Liga dos Campeões a meio da semana, o Barcelona e o Real Madrid ofereceram-nos, setenta e duas horas depois, um festival de futebol de primeiríssima qualidade, jogado a um ritmo infernal, com golos em série, oportunidades, jogadas de génio, vontade intensa de vencer. Antes do Mundial da Alemanha, eu tinha apostado em Messi como aquele que despontaria como a grande figura do Mundial. Mas não fui capaz de imaginar que o seleccionador argentino, Pakermann, deixasse Messi de fora, apostando antes numa Selecção de contenção e medo, que saiu do Mundial prematuramente, sem honra nem memória. Sábado, em Camp Nou, Messi cometeu a proeza de marcar três golos ao Real e explicar porque é que alguns apostavam tanto nele antes do Mundial. Pakermann deve ter tido vergonha ao ver o jogo.
Ainda com as imagens do Barça-Real bem presentes, sentei-me no domingo em frente à televisão para ver o Marítimo-FC Porto, e tive de fazer todos os esforços para não adormecer, após um daqueles jogos em que, se houvesse vergonha, os clubes teriam devolvido o dinheiro aos espectadores no final. A culpa principal, à partida, é do FC Porto, que tem melhores jogadores e maiores responsabilidades. Mas, também, chega do fado do coitadinho. O Marítimo não jogou contra o Chelsea a meio da semana, não perdeu dois jogadores por lesão nos primeiros vinte minutos e não se apanhou a ganhar 2-0 antes da meia hora. Além disso, jogava aqui as suas aspirações a um lugar europeu e Ulisses Morais resolveu jogá-las sem ponta-de-lança, deixando no banco os dois melhores marcadores da equipa. Teve o que merecia e é, em grande parte, por causa desta falta de ambição que o nosso futebol de equipas tem tão reduzida dimensão europeia, para além de episódicos desempenhos do FC Porto ou do Benfica.
1-Foi uma semana eloquente, terrivelmente eloquente, para percebermos a diferença enorme que existe entre a escala do nosso futebol de equipas e a escala das grandes equipas europeias. Em Paris, face a uma equipa à beira da despromoção, totalmente descrente e desacreditada, o Benfica não conseguiu evitar uma derrota incompreensível e sem justificação alguma. Em Braga, e jogando bem melhor do que o Benfica, o Sp. Braga também não conseguiu evitar uma derrota frente a um Tottenham vindo de fantástica vitória em Liverpool por 4-3 e que imprimiu ao jogo uma velocidade estonteante, ao ritmo desse fabuloso Aaron Lennon. Aturdido, o Braga não conseguiu melhor que empatar a zero, três dias depois, em casa, e frente ao Beira-Mar, enquanto o Tottenham foi a Stamford Bridge empatar a 3-3 com o Chelsea, depois de ter estado a vencer 3-1. Nenhuma equipa portuguesa aguentaria a sequência infernal desta semana do Tottenham — e estamos a falar apenas de um clube do meio da tabela inglesa. Aliás, desconfio que nenhum dos nossos grandes teria feito melhor do que o Braga, contra os ingleses.
Toda a semana ouvi portistas e não portistas lamentarem o frango do Helton em Stamford Bridge: «Ah, se não fosse aquele frango…!» Não estou de acordo: é claro que foi frango e que veio na pior altura do jogo; é verdade que o Chelsea, tal como já sucedera no Porto e tal como Jesualdo disse acertadamente, não mostrava quaisquer indícios de ser melhor, futebolisticamente falando, do que o FC Porto. Mas, com o sem frango, e como também disse Mourinho, estou em crer que o Chelsea chegaria à vitória. E porquê? Porque, tal como se viu com o Tottenham em Braga e nos dois jogos do Porto contra o Chelsea, as equipas inglesas (e as espanholas, as italianas, as alemães…) estão muito melhor preparadas fisicamente do que as nossas. O que é incrível, se pensarmos que eles, não só disputam o dobro dos jogos das nossas equipas, como disputam jogos de um grau de exigência incomparavelmente superior. Os estádios estão sempre cheios em Inglaterra, os grandes jogadores ganham fortunas, mas, em contrapartida, têm de dar espectáculo e deixar a alma em campo. Jogos com perdas de tempo, autocarros em frente da baliza, futebol a passo, remates displicentes e lesões simuladas, isso não é com eles. Ali, o público paga, o público tem.
Em ambos os jogos contra o Chelsea, o FC Porto nunca mostrou ser inferior tecnicamente, enquanto equipa — o que é notável, sem dúvida, atendendo aos orçamentos de ambos os clubes. Mas, em contrapartida, em ambos os jogos também, os portistas estoiraram a meia hora do fim — o que é igualmente notável, no mau sentido, sabendo-se que a preparação física não tem que ver com a qualidade dos jogadores nem com o orçamento dos clubes, mas apenas com a qualidade e quantidade de trabalho feito.
Depois, houve outro factor concorrente para a eliminação, mais do que natural e previsível dos portistas. Se, enquanto equipa, não se notaram as diferenças, já tecnicamente a nível individual, elas foram decisivas: nenhum ponta-de-lança do FC Porto tem a capacidade de marcar o golo que Schevchenko marcou no Dragão; e Petr Cech jamais sofreria um golo como o que Helton sofreu nem faria as saídas suicidárias a bolas altas que ele fez — e que repetiu no Funchal, como já no jogo anterior havia feito contra o Braga. Em Dezembro, escrevi aqui que o Helton não é o grande guarda-redes que se diz: é um bom guarda-redes, com potencial para crescer muito, se for bem treinado e ensinado, em especial no jogo aéreo, onde as suas limitações são evidentes e incompreensíveis. Mas tal, infelizmente, não parece estar a suceder: a olho nu, a mim parece-me que o Helton é hoje pior guarda-redes do que era quando veio do Leiria para o FC Porto.
2-O grande futebol não pára para descansar. As equipas saem de um jogo europeu decisivo e logo têm um jogo interno igualmente decisivo. Aqui, basta um jogo europeu ou um jogo para a Taça a meio da semana, e logo servem de desculpa para o «cansaço» ou a «gestão de esforço». Saídos de duas eliminações corrosivas na Liga dos Campeões a meio da semana, o Barcelona e o Real Madrid ofereceram-nos, setenta e duas horas depois, um festival de futebol de primeiríssima qualidade, jogado a um ritmo infernal, com golos em série, oportunidades, jogadas de génio, vontade intensa de vencer. Antes do Mundial da Alemanha, eu tinha apostado em Messi como aquele que despontaria como a grande figura do Mundial. Mas não fui capaz de imaginar que o seleccionador argentino, Pakermann, deixasse Messi de fora, apostando antes numa Selecção de contenção e medo, que saiu do Mundial prematuramente, sem honra nem memória. Sábado, em Camp Nou, Messi cometeu a proeza de marcar três golos ao Real e explicar porque é que alguns apostavam tanto nele antes do Mundial. Pakermann deve ter tido vergonha ao ver o jogo.
Ainda com as imagens do Barça-Real bem presentes, sentei-me no domingo em frente à televisão para ver o Marítimo-FC Porto, e tive de fazer todos os esforços para não adormecer, após um daqueles jogos em que, se houvesse vergonha, os clubes teriam devolvido o dinheiro aos espectadores no final. A culpa principal, à partida, é do FC Porto, que tem melhores jogadores e maiores responsabilidades. Mas, também, chega do fado do coitadinho. O Marítimo não jogou contra o Chelsea a meio da semana, não perdeu dois jogadores por lesão nos primeiros vinte minutos e não se apanhou a ganhar 2-0 antes da meia hora. Além disso, jogava aqui as suas aspirações a um lugar europeu e Ulisses Morais resolveu jogá-las sem ponta-de-lança, deixando no banco os dois melhores marcadores da equipa. Teve o que merecia e é, em grande parte, por causa desta falta de ambição que o nosso futebol de equipas tem tão reduzida dimensão europeia, para além de episódicos desempenhos do FC Porto ou do Benfica.
Stamford Bridge: missão impossível? ( 06 Março 2007)
Com intenção ou sem ela, o Liedson dá um pontapé num adversário, é expulso... e a culpa é do Pinto da Costa? Isto é para ser levado a sério?
1- Em 78 jogos disputados no seu terreno e sob o comando de José Mourinho, o Chelsea perdeu apenas um — contra o Barcelona, que viria a ser campeão europeu, e, mesmo assim, jogando com dez durante uma hora. É verdade que logo à noite o FC Porto não precisa de uma vitória: pode empatar, desde que marque pelo menos dois golos, ou pode empatar 1-1, desde que ganhe depois o desempate nos penalties. Mas, mesmo assim, as hipóteses à partida devem andar, nas bolsas de apostas, pelos 5% contra 95%. Como se viu no Dragão, o que faz a diferença entre uma grande equipa e uma boa equipa são jogadores como Schevchenko que, dispondo de uma opurtunidade de meter a bola no buraco da agulha, não falham.
Mas no Dragão também se viram outras diferenças: uma melhor preparação física do Chelsea — o que é notável, para quem joga muito mais jogos e de dificuldade bastante maior do que o FC Porto — e um controlo quase arrogante sobre o meio-campo. De facto, é no meio-campo que esta equipa de Jesualdo Ferreira tem o seu ponto mais fraco: no meio-campo e no centro do ataque. Paulo Assunção é, na ausência de Anderson, o único elemento do sector que actualmente dá garantias firmes, na sua posição de médio defensivo. Mas é nas outras posições de médios ofensivos, com a responsabilidade de levar o jogo para a frente, que o meio-campo portista, amputado de Anderson, revela uma constrangente fraqueza. Lucho raramente faz um bom jogo inteiro: normalmente apenas aparece em fogachos, alternando momentos tecnicamente superiores com longos espaços de ausência do jogo. Apesar de tudo, é jogador para jogos como este e, por isso, a sua baixa logo à noite pode ser mais uma contrariedade a enfrentar. Raul Meireles terá feito precisamente contra o Chelsea, no Dragão, o único jogo aceitável de toda a época (acabando ironicamente substituído por Jesualdo que, aliás, não acertou em nenhuma das substituições). Nos outros jogos todos, Meireles afina pelo histórico mostrado contra o Braga: são mais os passes que acabam nos pés dos adversários do que o contrário. Embora não seja um jogador de qualidade regular, toda a nação portista preferia ver Ibson naquele lugar, mas quem manda é Jesualdo e ele não entende assim. E resta, por junto, o fantasma do Jorginho, que é um caso de análise psicológica para que me escapa a competência. É pouco, muito pouco, para uma época inteira e, sobretudo, para logo à noite.
Acrescem as limitações já mais do que sabidas no ataque — o qual tem obrigatoriamente de marcar hoje e, de preferência, mais do que uma vez. Não é tarefa fácil, sabendo-se que na baliza do adversário está apenas o melhor guarda-redes do Mundo: no Dragão, o FC Porto marcou um golo feliz, com a trajectória da bola a ser desviada decisivamente, e apenas dispôs de outra opurtunidade, num lance, mais um, saído do génio de Quaresma. Finalmente, e para agravar tudo, vai estar pela frente um treinador e uma equipa que são cerebralmente frios a jogar para o resultado. Resta esperar que tudo isto possa ser contrariado por uma noite de inspiração suprema, de sorte total ou qualquer outra coisa que permita, mais uma vez, poder-se dizer no final que o futebol é imprevisível. Que grande festa que seria!
2- Francamente, não sei (nem sei quem e como poderá saber-se de ciência certa) se o Liedson quis ou não dar um pontapé no Rossato. Sei que o deu, porque se viu bem nas imagens televisivas, assim como não se viu qualquer falta anterior do Rossato, e se viu sim, e mais tarde, o Caneira a tentar atingir a soco o Harison e depois a enfiar-lhe uma joelhada intencional e subreptícia nas costas. Isto foi o que eu vi, outros terão visto diferente. Repito que admito que o Liedson não tivesse intenção de agredir o adversário, assim como admito o contrário. A questão é que, até hoje, ainda não foi inventado o intencionómetro, capaz de avaliar instantaneamente as intenções dos jogadores de futebol.
Que eu saiba, não foi inventado. Mas parece que há quem já o tenha inventado e posto ao dispor. Paulo Bento, por exemplo, que, não só não teve dúvidas em concluir pela falta de intenção agressiva por parte de Liedson, como ainda foi mais longe e logo descobriu na decisão do árbitro auxiliar a intenção de acolher os interesses de «outras equipas que, mais do que o Leiria, estavam interessadas em que o Sporting não ganhasse». E se ele se referiu a «outras equipas», a imprensa que logo saltou, gulosa, sobre mais um desses processos de intenções em que se deleita o futebol português, tratou logo de reduzir os suspeitos a um só: o FC Porto, pois claro. Aliás, sabendo-se que o outro potencial suspeito — o Benfica — «está na linha da frente do combate pela transparência», o suspeito só podia ser o habitual. De que viveria o futebol português se não tivesse o FC Porto institucionalizado como o eterno beneficiário e mandante oculto de todos os potenciais erros de arbitragem, sejam em que jogo for? Não é disso, e só disso, que trata o Apito Dourado?
Neste caso, as razões da suspeita saltam à vista: se o Liedson, como o Quaresma, por exemplo, levar dois jogos de suspensão, contra quem vai calhar o segundo jogo? Claro, branco é, galinha o põe. Como já aqui escrevi, nada mais me pode surpreender depois de ter visto escrito que esse mesmo Harison, expulso na Luz contra o Benfica, tinha sido bem expulso, mas como, na jornada seguinte, o Leiria jogava contra o Porto, a expulsão passava automaticamente de correcta a suspeita. Está a fazer falta uma directiva para os árbitros que estabeleça que nenhum jogador pode ser expulso antes de um jogo contra o FC Porto…
Agora, claro, está aberta a campanha para aplicar ao Liedson a doutrina Nuno Gomes, de modo a que ele leve só um jogo de suspensão. Ao contrário do que afirma convictamente Soares Franco, eu imagino que não será difícil convencer o Conselho de Disciplina disso mesmo. Mas também imagino que Soares Franco não estava assim tão convicto da sua profecia. Pois eu cá, no que me diz respeito e acreditem ou não, desejo que o Liedson esteja presente no Dragão. Em primeiro lugar, porque se trata de um grande jogador e os grandes jogadores, sem excepção, devem estar nos grandes jogos. Em segundo lugar, porque gosto de ver o meu clube ganhar sem desculpas alheias, de que francamente já estou farto até aos cabelos, e, aliás, o Liedson nunca fez mossa contra o Porto e confio cegamente que o Pepe chegue para ele. E em terceiro lugar, porque gostaria de ver o Paulo Bento ter de se retractar por ter lançado imediatamente as suspeitas que lançou, quando lhe perguntaram se achava que a expulsão de Liedson tinha que ver com o jogo no Dragão.
Francamente, eu acho que as pessoas, as de bom senso pelo menos, deveriam pensar um bocado antes de dizerem a primeira coisa que lhes apetece. Como o presidente do Beira-Mar — cujas direcções fizeram todas as asneiras possíveis em prejuízo do clube — e que agora, só porque um árbitro terá assinalado mal um penalty contra a equipa, logo vem dizer que «o futebol caminha a passos largos para o abismo e a degradação». Com intenção ou sem ela, o Liedson dá um pontapé num adversário, é expulso… e a culpa é do Pinto da Costa? Isto é para ser levado a sério?
1- Em 78 jogos disputados no seu terreno e sob o comando de José Mourinho, o Chelsea perdeu apenas um — contra o Barcelona, que viria a ser campeão europeu, e, mesmo assim, jogando com dez durante uma hora. É verdade que logo à noite o FC Porto não precisa de uma vitória: pode empatar, desde que marque pelo menos dois golos, ou pode empatar 1-1, desde que ganhe depois o desempate nos penalties. Mas, mesmo assim, as hipóteses à partida devem andar, nas bolsas de apostas, pelos 5% contra 95%. Como se viu no Dragão, o que faz a diferença entre uma grande equipa e uma boa equipa são jogadores como Schevchenko que, dispondo de uma opurtunidade de meter a bola no buraco da agulha, não falham.
Mas no Dragão também se viram outras diferenças: uma melhor preparação física do Chelsea — o que é notável, para quem joga muito mais jogos e de dificuldade bastante maior do que o FC Porto — e um controlo quase arrogante sobre o meio-campo. De facto, é no meio-campo que esta equipa de Jesualdo Ferreira tem o seu ponto mais fraco: no meio-campo e no centro do ataque. Paulo Assunção é, na ausência de Anderson, o único elemento do sector que actualmente dá garantias firmes, na sua posição de médio defensivo. Mas é nas outras posições de médios ofensivos, com a responsabilidade de levar o jogo para a frente, que o meio-campo portista, amputado de Anderson, revela uma constrangente fraqueza. Lucho raramente faz um bom jogo inteiro: normalmente apenas aparece em fogachos, alternando momentos tecnicamente superiores com longos espaços de ausência do jogo. Apesar de tudo, é jogador para jogos como este e, por isso, a sua baixa logo à noite pode ser mais uma contrariedade a enfrentar. Raul Meireles terá feito precisamente contra o Chelsea, no Dragão, o único jogo aceitável de toda a época (acabando ironicamente substituído por Jesualdo que, aliás, não acertou em nenhuma das substituições). Nos outros jogos todos, Meireles afina pelo histórico mostrado contra o Braga: são mais os passes que acabam nos pés dos adversários do que o contrário. Embora não seja um jogador de qualidade regular, toda a nação portista preferia ver Ibson naquele lugar, mas quem manda é Jesualdo e ele não entende assim. E resta, por junto, o fantasma do Jorginho, que é um caso de análise psicológica para que me escapa a competência. É pouco, muito pouco, para uma época inteira e, sobretudo, para logo à noite.
Acrescem as limitações já mais do que sabidas no ataque — o qual tem obrigatoriamente de marcar hoje e, de preferência, mais do que uma vez. Não é tarefa fácil, sabendo-se que na baliza do adversário está apenas o melhor guarda-redes do Mundo: no Dragão, o FC Porto marcou um golo feliz, com a trajectória da bola a ser desviada decisivamente, e apenas dispôs de outra opurtunidade, num lance, mais um, saído do génio de Quaresma. Finalmente, e para agravar tudo, vai estar pela frente um treinador e uma equipa que são cerebralmente frios a jogar para o resultado. Resta esperar que tudo isto possa ser contrariado por uma noite de inspiração suprema, de sorte total ou qualquer outra coisa que permita, mais uma vez, poder-se dizer no final que o futebol é imprevisível. Que grande festa que seria!
2- Francamente, não sei (nem sei quem e como poderá saber-se de ciência certa) se o Liedson quis ou não dar um pontapé no Rossato. Sei que o deu, porque se viu bem nas imagens televisivas, assim como não se viu qualquer falta anterior do Rossato, e se viu sim, e mais tarde, o Caneira a tentar atingir a soco o Harison e depois a enfiar-lhe uma joelhada intencional e subreptícia nas costas. Isto foi o que eu vi, outros terão visto diferente. Repito que admito que o Liedson não tivesse intenção de agredir o adversário, assim como admito o contrário. A questão é que, até hoje, ainda não foi inventado o intencionómetro, capaz de avaliar instantaneamente as intenções dos jogadores de futebol.
Que eu saiba, não foi inventado. Mas parece que há quem já o tenha inventado e posto ao dispor. Paulo Bento, por exemplo, que, não só não teve dúvidas em concluir pela falta de intenção agressiva por parte de Liedson, como ainda foi mais longe e logo descobriu na decisão do árbitro auxiliar a intenção de acolher os interesses de «outras equipas que, mais do que o Leiria, estavam interessadas em que o Sporting não ganhasse». E se ele se referiu a «outras equipas», a imprensa que logo saltou, gulosa, sobre mais um desses processos de intenções em que se deleita o futebol português, tratou logo de reduzir os suspeitos a um só: o FC Porto, pois claro. Aliás, sabendo-se que o outro potencial suspeito — o Benfica — «está na linha da frente do combate pela transparência», o suspeito só podia ser o habitual. De que viveria o futebol português se não tivesse o FC Porto institucionalizado como o eterno beneficiário e mandante oculto de todos os potenciais erros de arbitragem, sejam em que jogo for? Não é disso, e só disso, que trata o Apito Dourado?
Neste caso, as razões da suspeita saltam à vista: se o Liedson, como o Quaresma, por exemplo, levar dois jogos de suspensão, contra quem vai calhar o segundo jogo? Claro, branco é, galinha o põe. Como já aqui escrevi, nada mais me pode surpreender depois de ter visto escrito que esse mesmo Harison, expulso na Luz contra o Benfica, tinha sido bem expulso, mas como, na jornada seguinte, o Leiria jogava contra o Porto, a expulsão passava automaticamente de correcta a suspeita. Está a fazer falta uma directiva para os árbitros que estabeleça que nenhum jogador pode ser expulso antes de um jogo contra o FC Porto…
Agora, claro, está aberta a campanha para aplicar ao Liedson a doutrina Nuno Gomes, de modo a que ele leve só um jogo de suspensão. Ao contrário do que afirma convictamente Soares Franco, eu imagino que não será difícil convencer o Conselho de Disciplina disso mesmo. Mas também imagino que Soares Franco não estava assim tão convicto da sua profecia. Pois eu cá, no que me diz respeito e acreditem ou não, desejo que o Liedson esteja presente no Dragão. Em primeiro lugar, porque se trata de um grande jogador e os grandes jogadores, sem excepção, devem estar nos grandes jogos. Em segundo lugar, porque gosto de ver o meu clube ganhar sem desculpas alheias, de que francamente já estou farto até aos cabelos, e, aliás, o Liedson nunca fez mossa contra o Porto e confio cegamente que o Pepe chegue para ele. E em terceiro lugar, porque gostaria de ver o Paulo Bento ter de se retractar por ter lançado imediatamente as suspeitas que lançou, quando lhe perguntaram se achava que a expulsão de Liedson tinha que ver com o jogo no Dragão.
Francamente, eu acho que as pessoas, as de bom senso pelo menos, deveriam pensar um bocado antes de dizerem a primeira coisa que lhes apetece. Como o presidente do Beira-Mar — cujas direcções fizeram todas as asneiras possíveis em prejuízo do clube — e que agora, só porque um árbitro terá assinalado mal um penalty contra a equipa, logo vem dizer que «o futebol caminha a passos largos para o abismo e a degradação». Com intenção ou sem ela, o Liedson dá um pontapé num adversário, é expulso… e a culpa é do Pinto da Costa? Isto é para ser levado a sério?
Mourinho no Dragão ( 27 Fevereiro 2007)
Pena tenho que o Anderson não esteja a jogar. Porque estou convencido de que, com ele em campo, talvez José Mourinho recebesse em Stamford Bridge uma lição de humildade.
1- Parabéns a José Mourinho, que conquistou mais uma Taça ao serviço do Chelsea, a Carling Cup. Ganhar é o seu talento, o seu vício, o seu destino. Mas saber ganhar, já não sei se será.
Na semana passada repeti aqui os elogios a Mourinho, que já tantas vezes lhe fiz e sempre com sincera admiração. Disse que ele seria recebido no Dragão, pelos verdadeiros portistas, com a admiração e a gratidão que merecia quem lá deixou a obra e a memória que ele deixou. Estou, pois, à vontade para agora dizer que a passagem de Mourinho pelo Dragão, terça-feira passada, me deixou um profundo sentimento de decepção, dando comigo a pensar se esta paixão pelo futebol será mesmo coisa recomendável.
Primeiro que tudo, foram as declarações de José Mourinho ainda em Inglaterra, dizendo que esperava ser recebido com alguns assobios e manifestações de ingratidão, a que já estava habituado e não o afectavam em nada. Ora, sucedeu que, tendo sido recebido exactamente ao contrário, desde o aeroporto até ao estádio, Mourinho não foi capaz de ter uma palavra, já não digo de arrependimento pelo que dissera, mas ao menos de saudação ao público. Não teve uma palavra, não teve um gesto, não teve uma atitude. E celebrou o golo do Chelsea com um entusiasmo tão grande quanto desnecessário: já Luís Figo, ao celebrar o golo do Inter contra o seu Sporting, nos havia ensinado o que estamos fartos de saber, mas fingimos sempre não acreditar: que, tirando raras e estranhas excepções, estas coisas do amor à camisola, de gratidão para com um clube, de fidelidade à memória e aos adeptos que ontem nos veneravam, só existe mesmo para os adeptos. Eles, os profissionais, só conhecem sentimentos para quem, em cada momento, lhes paga.
Depois, Mourinho pôs em campo uma equipa de luxo a fazer um futebol medíocre, sem rasgo nem alma, unicamente pensado para levar de vencida a eliminatória e nada mais. Tanto pior para os idiotas como eu, que continuam a pensar que só vale a pena ir aos estádios para ver bom futebol; se é apenas para ver a minha equipa ganhar, fico em casa a ver pela televisão, que é bem mais barato e confortável.
Mas Mourinho não se limitou a castrar o espectáculo que a sua equipa tinha obrigação de dar, em benefício do resultado que pretendia: tratou também de assegurar que o adversário não pudesse dar espectáculo. Não é preciso ser um «treinador de top mundial», como Mourinho se definiu, para perceber que, na ausência de Anderson, a única hipótese de perigo do FC Porto e a única hipótese de espectáculo do jogo, residiam nos pés desse talento ainda não normalizado chamado Ricardo Quaresma. E, assim, a sua grande estratégia para este jogo consistiu numa coisa simples e feia: anular Ricardo Quaresma de qualquer maneira: a bem, se possível; a mal, se necessário. Para isso, começou por tirar Paulo Ferreira (desconfiou que, por razões várias, talvez não estivesse disponível para uma sale besogne) e fê-lo substituir por um Diarra instruído para perseguir como um doberman e atacar como um rottweiler. Em seu apoio, não estivesse Quaresma suficientemente intimidado e massacrado, colocou Essien, com a missão de jamais deixar passar o adversário com a bola nos pés. E, enfim, ele próprio, Mourinho, tornou-se o terceiro elemento decisivo do Plano Quaresma Não Passa!, colocando-se estrategicamente de pé junto à lateral, para esbracejar e gritar «teatro!» de cada vez que Quaresma encontrava um ombro, um joelho ou um pé de Diarra a barrar-lhe a passagem. A certa altura, quando Essien, vindo em auxílio de Diarra, ceifou Quaresma com uma entrada assassina, ainda o extremo portista voava no ar e já Mourinho gesticulava em direcção ao árbitro, tentando convencê-lo de que nem falta houvera. E a verdade é que valeu a pena a sua atenção: Essien foi poupado a um vermelho directo e, no final, Mourinho ainda se deu ao luxo de dizer que Quaresma era tão talentoso como «batoteiro» e que lhe faria bem passar uns tempos em Inglaterra para aprender a levar porrada com um sorriso nos lábios. Confesso que para um treinador de «top mundial», esperava outra estratégia, menos feia, mais amiga do futebol. E outra memória — dos tempos em que ele treinava o FC Porto e os ingleses, incapazes de digerir a derrota do Celtic ou a eliminação do Manchester United, o acusavam de ser treinador de uma equipe de mergulhadores.
No fim, ainda ouvi José Mourinho a queixar-se que a lesão de John Terry e o facto de não dispor de outro central de raiz é que tinha condicionado todo o futebol do Chelsea. Como é sabido e conforme é de tradição com os nossos emigrantes do futebol no estrangeiro, a imprensa portuguesa assumiu todas as dores de Mourinho, porque o vilão do Abramovich lhe negou em Dezembro a compra de outro central. Ora, convém recordar que o vilão do Abramovich gastou 60 milhões de contos, em três anos, a dar a Mourinho os jogadores que ele quis e, só no ano passado, perdeu 24 milhões de contos com o futebol do Chelsea. Certamente que não é da sua responsabilidade que, com tantos milhões para gastar, Mourinho se tenha esquecido de comprar outro central. Só com o dinheiro do Shevchenko, ele teria comprado dois ou três de primeira linha e, assim, a lesão do John Terry não teria constituído problema algum. Mas também o Shevchenko não estaria lá para marcar aquele golo. Como em tudo na vida, quando se faz uma escolha, tem de se prescindir de alguma coisa…
Pena tenho que o Anderson não esteja a jogar. Porque estou convencido de que, com ele em campo, talvez José Mourinho recebesse em Stamford Bridge uma lição de humildade que lhe relembrasse quais são verdadeiramente os grandes desafios e as grandes vitórias. E essas não são as que o livro de cheques torna possíveis.
2- Inacreditável a história protagonizada pelo ilustríssimo desembargador Lima, presidente do CJ da Liga, que, depois de ter agendada uma reunião para decidir do recurso da suspensão de Ricardo Quaresma e depois de ter constatado que ele era o único dos juízes que se opunha à despenalização do jogador, resolveu adiar a decisão sine die, dizendo que «não tinha tido tempo» de ler o processo! É inacreditável e, obviamente, não pode passar impune. Não há ninguém que tenha a decência de o demitir, já que ele, por si, não tem tempo para o fazer?
3- Na quinta-feira passada, o Público voltava a revelar novos dados sobre os trabalhos da task force de Maria José Morgado contra Pinto da Costa (e, ao que parece, só contra ele). Desta vez, tratava-se de mais umas declarações «incriminatórias» de Carolina Salgado, cuja grande novidade consistia em que essas declarações — produzidas em «rigoroso» segredo de justiça, a sós com os investigadores, sem testemunhas nem hipótese de contraditório — aparecerem reproduzidas no jornal com tal detalhe que até vinham entre aspas. Mas, desta vez, não reparei que a doutora Maria José Morgado se tivesse insurgido contra esta fuga. E, todavia, a experiência diz-nos que, tanto a sua origem quanto a sua finalidade, são tão evidentes que só mesmo um imbecil é que não percebe.
Tenho seguido atentamente tudo o que sai referente ao Apito Dourado. Não quero antecipar conclusões mas tenho alguma experiência e conhecimento de como é que as coisas se fazem e, sem querer desde já matar tão tremendas esperanças agora depositadas na justiça, digo-vos que, a fazer fé no que tem vindo a público e se aquilo é tudo o que se está a passar, tirem o cavalinho da chuva: qualquer estagiário de advocacia reduz aquilo a pó. Mas aguardemos.
4- E, por falar em Apito Dourado, meditem nesta história exemplar. Em 2004, o ano de ouro do FC Porto, de Mourinho, um empresário resolveu emprestar 25 mil euros a um seu jogador, então no União de Leiria. Todos os dias acontece isso, empresários emprestarem dinheiro aos jogadores e até aos clubes. Mas sucede que, três dias depois, o Leiria jogava contra o FC Porto: foi quanto bastou para que se levantasse a suspeita de corrupção do adversário, por parte do FC Porto. E, sem sequer atentar que o dito jogador era ponta-de-lança (e não guarda-redes ou defesa, como suponho que seria normal nestas circunstâncias), abriu-se mais um processo por suspeitas contra o FC Porto e o seu presidente — e logo o Correio da Manhã, depois seguido por outros, gritou as suspeitas aos quatro ventos. Afinal, aberta a investigação, descobre-se que o jogador nem sequer chegou a depositar o cheque recebido. Sem se dar por vencida, a task force continua a investigar, não aceitando o arquivamento. Mas o efeito útil já está conseguido: a suspeita foi divulgada e ficou instalada.
1- Parabéns a José Mourinho, que conquistou mais uma Taça ao serviço do Chelsea, a Carling Cup. Ganhar é o seu talento, o seu vício, o seu destino. Mas saber ganhar, já não sei se será.
Na semana passada repeti aqui os elogios a Mourinho, que já tantas vezes lhe fiz e sempre com sincera admiração. Disse que ele seria recebido no Dragão, pelos verdadeiros portistas, com a admiração e a gratidão que merecia quem lá deixou a obra e a memória que ele deixou. Estou, pois, à vontade para agora dizer que a passagem de Mourinho pelo Dragão, terça-feira passada, me deixou um profundo sentimento de decepção, dando comigo a pensar se esta paixão pelo futebol será mesmo coisa recomendável.
Primeiro que tudo, foram as declarações de José Mourinho ainda em Inglaterra, dizendo que esperava ser recebido com alguns assobios e manifestações de ingratidão, a que já estava habituado e não o afectavam em nada. Ora, sucedeu que, tendo sido recebido exactamente ao contrário, desde o aeroporto até ao estádio, Mourinho não foi capaz de ter uma palavra, já não digo de arrependimento pelo que dissera, mas ao menos de saudação ao público. Não teve uma palavra, não teve um gesto, não teve uma atitude. E celebrou o golo do Chelsea com um entusiasmo tão grande quanto desnecessário: já Luís Figo, ao celebrar o golo do Inter contra o seu Sporting, nos havia ensinado o que estamos fartos de saber, mas fingimos sempre não acreditar: que, tirando raras e estranhas excepções, estas coisas do amor à camisola, de gratidão para com um clube, de fidelidade à memória e aos adeptos que ontem nos veneravam, só existe mesmo para os adeptos. Eles, os profissionais, só conhecem sentimentos para quem, em cada momento, lhes paga.
Depois, Mourinho pôs em campo uma equipa de luxo a fazer um futebol medíocre, sem rasgo nem alma, unicamente pensado para levar de vencida a eliminatória e nada mais. Tanto pior para os idiotas como eu, que continuam a pensar que só vale a pena ir aos estádios para ver bom futebol; se é apenas para ver a minha equipa ganhar, fico em casa a ver pela televisão, que é bem mais barato e confortável.
Mas Mourinho não se limitou a castrar o espectáculo que a sua equipa tinha obrigação de dar, em benefício do resultado que pretendia: tratou também de assegurar que o adversário não pudesse dar espectáculo. Não é preciso ser um «treinador de top mundial», como Mourinho se definiu, para perceber que, na ausência de Anderson, a única hipótese de perigo do FC Porto e a única hipótese de espectáculo do jogo, residiam nos pés desse talento ainda não normalizado chamado Ricardo Quaresma. E, assim, a sua grande estratégia para este jogo consistiu numa coisa simples e feia: anular Ricardo Quaresma de qualquer maneira: a bem, se possível; a mal, se necessário. Para isso, começou por tirar Paulo Ferreira (desconfiou que, por razões várias, talvez não estivesse disponível para uma sale besogne) e fê-lo substituir por um Diarra instruído para perseguir como um doberman e atacar como um rottweiler. Em seu apoio, não estivesse Quaresma suficientemente intimidado e massacrado, colocou Essien, com a missão de jamais deixar passar o adversário com a bola nos pés. E, enfim, ele próprio, Mourinho, tornou-se o terceiro elemento decisivo do Plano Quaresma Não Passa!, colocando-se estrategicamente de pé junto à lateral, para esbracejar e gritar «teatro!» de cada vez que Quaresma encontrava um ombro, um joelho ou um pé de Diarra a barrar-lhe a passagem. A certa altura, quando Essien, vindo em auxílio de Diarra, ceifou Quaresma com uma entrada assassina, ainda o extremo portista voava no ar e já Mourinho gesticulava em direcção ao árbitro, tentando convencê-lo de que nem falta houvera. E a verdade é que valeu a pena a sua atenção: Essien foi poupado a um vermelho directo e, no final, Mourinho ainda se deu ao luxo de dizer que Quaresma era tão talentoso como «batoteiro» e que lhe faria bem passar uns tempos em Inglaterra para aprender a levar porrada com um sorriso nos lábios. Confesso que para um treinador de «top mundial», esperava outra estratégia, menos feia, mais amiga do futebol. E outra memória — dos tempos em que ele treinava o FC Porto e os ingleses, incapazes de digerir a derrota do Celtic ou a eliminação do Manchester United, o acusavam de ser treinador de uma equipe de mergulhadores.
No fim, ainda ouvi José Mourinho a queixar-se que a lesão de John Terry e o facto de não dispor de outro central de raiz é que tinha condicionado todo o futebol do Chelsea. Como é sabido e conforme é de tradição com os nossos emigrantes do futebol no estrangeiro, a imprensa portuguesa assumiu todas as dores de Mourinho, porque o vilão do Abramovich lhe negou em Dezembro a compra de outro central. Ora, convém recordar que o vilão do Abramovich gastou 60 milhões de contos, em três anos, a dar a Mourinho os jogadores que ele quis e, só no ano passado, perdeu 24 milhões de contos com o futebol do Chelsea. Certamente que não é da sua responsabilidade que, com tantos milhões para gastar, Mourinho se tenha esquecido de comprar outro central. Só com o dinheiro do Shevchenko, ele teria comprado dois ou três de primeira linha e, assim, a lesão do John Terry não teria constituído problema algum. Mas também o Shevchenko não estaria lá para marcar aquele golo. Como em tudo na vida, quando se faz uma escolha, tem de se prescindir de alguma coisa…
Pena tenho que o Anderson não esteja a jogar. Porque estou convencido de que, com ele em campo, talvez José Mourinho recebesse em Stamford Bridge uma lição de humildade que lhe relembrasse quais são verdadeiramente os grandes desafios e as grandes vitórias. E essas não são as que o livro de cheques torna possíveis.
2- Inacreditável a história protagonizada pelo ilustríssimo desembargador Lima, presidente do CJ da Liga, que, depois de ter agendada uma reunião para decidir do recurso da suspensão de Ricardo Quaresma e depois de ter constatado que ele era o único dos juízes que se opunha à despenalização do jogador, resolveu adiar a decisão sine die, dizendo que «não tinha tido tempo» de ler o processo! É inacreditável e, obviamente, não pode passar impune. Não há ninguém que tenha a decência de o demitir, já que ele, por si, não tem tempo para o fazer?
3- Na quinta-feira passada, o Público voltava a revelar novos dados sobre os trabalhos da task force de Maria José Morgado contra Pinto da Costa (e, ao que parece, só contra ele). Desta vez, tratava-se de mais umas declarações «incriminatórias» de Carolina Salgado, cuja grande novidade consistia em que essas declarações — produzidas em «rigoroso» segredo de justiça, a sós com os investigadores, sem testemunhas nem hipótese de contraditório — aparecerem reproduzidas no jornal com tal detalhe que até vinham entre aspas. Mas, desta vez, não reparei que a doutora Maria José Morgado se tivesse insurgido contra esta fuga. E, todavia, a experiência diz-nos que, tanto a sua origem quanto a sua finalidade, são tão evidentes que só mesmo um imbecil é que não percebe.
Tenho seguido atentamente tudo o que sai referente ao Apito Dourado. Não quero antecipar conclusões mas tenho alguma experiência e conhecimento de como é que as coisas se fazem e, sem querer desde já matar tão tremendas esperanças agora depositadas na justiça, digo-vos que, a fazer fé no que tem vindo a público e se aquilo é tudo o que se está a passar, tirem o cavalinho da chuva: qualquer estagiário de advocacia reduz aquilo a pó. Mas aguardemos.
4- E, por falar em Apito Dourado, meditem nesta história exemplar. Em 2004, o ano de ouro do FC Porto, de Mourinho, um empresário resolveu emprestar 25 mil euros a um seu jogador, então no União de Leiria. Todos os dias acontece isso, empresários emprestarem dinheiro aos jogadores e até aos clubes. Mas sucede que, três dias depois, o Leiria jogava contra o FC Porto: foi quanto bastou para que se levantasse a suspeita de corrupção do adversário, por parte do FC Porto. E, sem sequer atentar que o dito jogador era ponta-de-lança (e não guarda-redes ou defesa, como suponho que seria normal nestas circunstâncias), abriu-se mais um processo por suspeitas contra o FC Porto e o seu presidente — e logo o Correio da Manhã, depois seguido por outros, gritou as suspeitas aos quatro ventos. Afinal, aberta a investigação, descobre-se que o jogador nem sequer chegou a depositar o cheque recebido. Sem se dar por vencida, a task force continua a investigar, não aceitando o arquivamento. Mas o efeito útil já está conseguido: a suspeita foi divulgada e ficou instalada.
Regresso a casa ( 20 Fevereiro 2007)
Com Mourinho, um bom jogador não fica nunca sem trabalho e um jogador medíocre não consegue nunca passar por bom.
1- Amanhã, à noite, José Mourinho vai estar pela segunda vez de regresso à casa que o projectou para os altos céus onde agora habita. Um jornal inglês telefonou-me há dias para perguntar coisas sobre Mourinho e saber como é que ele iria ser recebido no Dragão. Disse-lhes que, pela minha parte, e julgo que por parte de quase todos os portistas, iria ser recebido com o respeito e a gratidão que merece quem deu tanto ao FC Porto e, com toda a legitimidade e normalidade, quis depois subir um escalão mais na sua vida profissional. Porque, para os portistas, só pode ser motivo de orgulho que o Chelsea, depois de 50 anos à fome, tenha necessitado de vir buscar o nosso treinador para conseguir ser campeão de Inglaterra. Queriam saber também quais eram, em minha opinião, as razões para o sucesso de Mourinho — uma questão que já me colocaram inúmeras vezes. Acho que a questão também já foi respondida inúmeras vezes e por diversas pessoas e pouco mais ou nada há já a acrescentar. É consensual que a maior parte do seu sucesso tem que ver com a forma quase obsessiva como prepara, estuda e planeia os jogos. Com a capacidade que tem de conseguir extrair o máximo de cada jogador e com o olho clínico que tem para raramente se enganar neste aspecto: com Mourinho, um bom jogador não fica nunca sem trabalho e um jogador medíocre não consegue nunca passar por bom. Parece simples, mas a experiência mostra-nos que para muitos treinadores as dificuldades começam exactamente na incapacidade de distinguirem um bom jogador de um jogador banal. Depois, Mourinho tem uma outra característica que é muito pouco portuguesa e que por isso o ajudou a fazer a diferença entre nós. Não tem medo de correr riscos, de aceitar desafios, de ir à luta, por mais incerto que pareça o seu desfecho. Com Mourinho no comando, não me recordo de o FC Porto ter alguma vez enfrentado um destes grandes desafios europeus com o seu treinador borrado de medo — e de medo transmitido à equipa — como tantas vezes vejo suceder. O normal dos portugueses é procurarem sempre um abrigo para as situações difíceis e uma desculpa para as derrotas: ou é o Estado, ou é o chefe ou é o árbitro. O risco e a culpa são sempre transmissíveis. Não admira, assim, que, depois de ter vencido tudo o que havia para vencer por aqui, José Mourinho tenha olhado à volta e percebido que o horizonte estava fechado.
Amanhã, os portistas (e só os portistas, deixemo-nos de hipocrisias…) vão todos torcer contra Mourinho, mas com todo o respeito, conforme é normal e justo. Nesta sua segunda volta a casa, depois da saída, ele espera poder desfazer a memória da primeira visita, onde o seu imbatível Chelsea caiu às mãos de um FC Porto então à deriva, mas que nessa noite se transcendeu, ao ponto de até Diego ter conseguido marcar um golo de fora da área — ele que só por acaso é que acerta na baliza. Mas, amanhã, as perspectivas são ainda mais negras do que então. O que faz a diferença entre o Chelsea e o FC Porto é que na milionária equipa inglesa todos os jogadores são bons e, por isso, se não for a noite de Terry será a de Ricardo Carvalho ou de Petr Cech, se não for a de Essien será a de Lampard, se não for a de Drogba será a de Schevchenko. Enquanto que no FC Porto há três jogadores excepcionas, três razoáveis e o resto banais. Quer dizer que para poder levar de vencida o Chelsea, o FC Porto precisa de todos os seus talentos em acção e todos os outros sem falhas. Mas, como se sabe, desde aquela entrada (oh, puramente acidental e nem sequer faltosa!) de Katsouranis sobre Anderson, secou a principal fonte de inspiração ofensiva do futebol portista e o principal motivo de beleza do campeonato português. Logo aí ficou ameaçado de morte o destino da época europeia do FC Porto e eu pessoalmente temo que nem sequer haja mais Anderson para o resto da época. Sem ele, e em grande parte graças ao levantamento do estandarte por parte de Ricardo Quaresma, foi possível, mesmo assim, continuar a liderar o campeonato e ultrapassar a fase de grupos da Liga dos Campeões. Mas, aqui chegados, conseguir ir ainda mais além face à luxuosa equipa do Chelsea não é tarefa impossível mas é terrivelmente desigual. E, tendo eu como certo que uma equipa como o Chelsea não falha, vencê-la só se tornará possível se for o FC Porto a transcender-se. Oxalá!
2- Quinta-feira passada, na véspera de o Conselho de Justiça se reunir para analisar os recursos dos castigos impostos pelo CD a José Pedro, do Belenenses, e Ricardo Quaresma, do F C Porto, li dois textos onde se estranhava que a decisão fosse ser tomada em tempo útil. Estranhava-se não, desconfiava-se, insinuava-se. Desconfiava-se em tanta rapidez por parte do FC Porto que nem sequer gastara todo o prazo disponível para a interposição do recurso; desconfiava-se que o CJ fosse tomar a decisão no próprio dia em que o FC Porto iria jogar com a Naval e queria utilizar o Quaresma. E, entrelinhas, insinuava-se em tudo isto um tratamento de excepção e favor, talvez digno de aturadas investigações do dream team da Dr.ª Maria José Morgado. Ou seja: desconfiava-se que o clube que estava interessado numa decisão rápida não atrasasse o processo; desconfiava-se que, no meio tenha havido uma semana com a Taça, que fez prolongar o período útil da decisão, e desconfiava-se que, na primeira reunião ordinária em que o pudesse fazer, o CJ se ocupasse do assunto. Numa palavra, desconfiava-se do facto banal de a justiça poder, por uma vez, funcionar em tempo útil e cumprir a sua função. Com tanta desconfiança e tanta insinuação, o CJ tomou a inexplicável e inexplicada decisão… de não tomar decisão alguma, fazendo com que um eventual vencimento do recurso por parte do FC Porto não tenha efeito útil algum. E, para tornar as coisas ainda mais inexplicáveis, o CJ decidiu o recurso de José Pedro e esqueceu o de Quaresma. Agora, é bom de prever que só confirmando a decisão recorrida é que o CJ pode supor que sai de face levantada. Por parte do FC Porto, julgo que tudo fica, ao menos, cristalinamente claro: dentro e fora do campo, este vai ser um campeonato terrível de ser ganho. Nunca tantos tentaram tanto contra tão poucos. Mais dois ou três jogos sem o Quaresma — arrumado por entrada acidental de um adversário ou por imposição de um juiz-de-linha após uma palmada acidental — e o campeonato pode ficar decidido.
3- Três atletas de três modalidades diversas do Benfica apanhados sucessivamente no controlo anti-doping é, em termos de imagem pública, a pior resposta que podia ser dada de dentro para fora à ronda de conversações políticas em que o presidente do Benfica explicou aos partidos como era preocupante a situação do combate ao doping em Portugal — no qual, como em tudo o resto, o Benfica, e só o Benfica, está na primeira linha de combate pela transparência e et cetera e tal. Azar.
1- Amanhã, à noite, José Mourinho vai estar pela segunda vez de regresso à casa que o projectou para os altos céus onde agora habita. Um jornal inglês telefonou-me há dias para perguntar coisas sobre Mourinho e saber como é que ele iria ser recebido no Dragão. Disse-lhes que, pela minha parte, e julgo que por parte de quase todos os portistas, iria ser recebido com o respeito e a gratidão que merece quem deu tanto ao FC Porto e, com toda a legitimidade e normalidade, quis depois subir um escalão mais na sua vida profissional. Porque, para os portistas, só pode ser motivo de orgulho que o Chelsea, depois de 50 anos à fome, tenha necessitado de vir buscar o nosso treinador para conseguir ser campeão de Inglaterra. Queriam saber também quais eram, em minha opinião, as razões para o sucesso de Mourinho — uma questão que já me colocaram inúmeras vezes. Acho que a questão também já foi respondida inúmeras vezes e por diversas pessoas e pouco mais ou nada há já a acrescentar. É consensual que a maior parte do seu sucesso tem que ver com a forma quase obsessiva como prepara, estuda e planeia os jogos. Com a capacidade que tem de conseguir extrair o máximo de cada jogador e com o olho clínico que tem para raramente se enganar neste aspecto: com Mourinho, um bom jogador não fica nunca sem trabalho e um jogador medíocre não consegue nunca passar por bom. Parece simples, mas a experiência mostra-nos que para muitos treinadores as dificuldades começam exactamente na incapacidade de distinguirem um bom jogador de um jogador banal. Depois, Mourinho tem uma outra característica que é muito pouco portuguesa e que por isso o ajudou a fazer a diferença entre nós. Não tem medo de correr riscos, de aceitar desafios, de ir à luta, por mais incerto que pareça o seu desfecho. Com Mourinho no comando, não me recordo de o FC Porto ter alguma vez enfrentado um destes grandes desafios europeus com o seu treinador borrado de medo — e de medo transmitido à equipa — como tantas vezes vejo suceder. O normal dos portugueses é procurarem sempre um abrigo para as situações difíceis e uma desculpa para as derrotas: ou é o Estado, ou é o chefe ou é o árbitro. O risco e a culpa são sempre transmissíveis. Não admira, assim, que, depois de ter vencido tudo o que havia para vencer por aqui, José Mourinho tenha olhado à volta e percebido que o horizonte estava fechado.
Amanhã, os portistas (e só os portistas, deixemo-nos de hipocrisias…) vão todos torcer contra Mourinho, mas com todo o respeito, conforme é normal e justo. Nesta sua segunda volta a casa, depois da saída, ele espera poder desfazer a memória da primeira visita, onde o seu imbatível Chelsea caiu às mãos de um FC Porto então à deriva, mas que nessa noite se transcendeu, ao ponto de até Diego ter conseguido marcar um golo de fora da área — ele que só por acaso é que acerta na baliza. Mas, amanhã, as perspectivas são ainda mais negras do que então. O que faz a diferença entre o Chelsea e o FC Porto é que na milionária equipa inglesa todos os jogadores são bons e, por isso, se não for a noite de Terry será a de Ricardo Carvalho ou de Petr Cech, se não for a de Essien será a de Lampard, se não for a de Drogba será a de Schevchenko. Enquanto que no FC Porto há três jogadores excepcionas, três razoáveis e o resto banais. Quer dizer que para poder levar de vencida o Chelsea, o FC Porto precisa de todos os seus talentos em acção e todos os outros sem falhas. Mas, como se sabe, desde aquela entrada (oh, puramente acidental e nem sequer faltosa!) de Katsouranis sobre Anderson, secou a principal fonte de inspiração ofensiva do futebol portista e o principal motivo de beleza do campeonato português. Logo aí ficou ameaçado de morte o destino da época europeia do FC Porto e eu pessoalmente temo que nem sequer haja mais Anderson para o resto da época. Sem ele, e em grande parte graças ao levantamento do estandarte por parte de Ricardo Quaresma, foi possível, mesmo assim, continuar a liderar o campeonato e ultrapassar a fase de grupos da Liga dos Campeões. Mas, aqui chegados, conseguir ir ainda mais além face à luxuosa equipa do Chelsea não é tarefa impossível mas é terrivelmente desigual. E, tendo eu como certo que uma equipa como o Chelsea não falha, vencê-la só se tornará possível se for o FC Porto a transcender-se. Oxalá!
2- Quinta-feira passada, na véspera de o Conselho de Justiça se reunir para analisar os recursos dos castigos impostos pelo CD a José Pedro, do Belenenses, e Ricardo Quaresma, do F C Porto, li dois textos onde se estranhava que a decisão fosse ser tomada em tempo útil. Estranhava-se não, desconfiava-se, insinuava-se. Desconfiava-se em tanta rapidez por parte do FC Porto que nem sequer gastara todo o prazo disponível para a interposição do recurso; desconfiava-se que o CJ fosse tomar a decisão no próprio dia em que o FC Porto iria jogar com a Naval e queria utilizar o Quaresma. E, entrelinhas, insinuava-se em tudo isto um tratamento de excepção e favor, talvez digno de aturadas investigações do dream team da Dr.ª Maria José Morgado. Ou seja: desconfiava-se que o clube que estava interessado numa decisão rápida não atrasasse o processo; desconfiava-se que, no meio tenha havido uma semana com a Taça, que fez prolongar o período útil da decisão, e desconfiava-se que, na primeira reunião ordinária em que o pudesse fazer, o CJ se ocupasse do assunto. Numa palavra, desconfiava-se do facto banal de a justiça poder, por uma vez, funcionar em tempo útil e cumprir a sua função. Com tanta desconfiança e tanta insinuação, o CJ tomou a inexplicável e inexplicada decisão… de não tomar decisão alguma, fazendo com que um eventual vencimento do recurso por parte do FC Porto não tenha efeito útil algum. E, para tornar as coisas ainda mais inexplicáveis, o CJ decidiu o recurso de José Pedro e esqueceu o de Quaresma. Agora, é bom de prever que só confirmando a decisão recorrida é que o CJ pode supor que sai de face levantada. Por parte do FC Porto, julgo que tudo fica, ao menos, cristalinamente claro: dentro e fora do campo, este vai ser um campeonato terrível de ser ganho. Nunca tantos tentaram tanto contra tão poucos. Mais dois ou três jogos sem o Quaresma — arrumado por entrada acidental de um adversário ou por imposição de um juiz-de-linha após uma palmada acidental — e o campeonato pode ficar decidido.
3- Três atletas de três modalidades diversas do Benfica apanhados sucessivamente no controlo anti-doping é, em termos de imagem pública, a pior resposta que podia ser dada de dentro para fora à ronda de conversações políticas em que o presidente do Benfica explicou aos partidos como era preocupante a situação do combate ao doping em Portugal — no qual, como em tudo o resto, o Benfica, e só o Benfica, está na primeira linha de combate pela transparência e et cetera e tal. Azar.