Esta é a primeira e a principal explicação para a actual crise do FC Porto: faltaram os jogadores que fazem a diferença e faltam outros que ao menos a disfarcem.
1-O que aconteceu ao FC Porto com o Estrela da Amadora é daqueles pesadelos que acontecem uma vez por ano no futebol. Uma equipa que, embora sem jogar bem, faz o suficiente para ganhar o jogo, atacando, perdendo golos, metendo avançados, e quando, finalmente, consegue arrancar a vitória, numa jogada bem construída já nos descontos, vê o golo anulado e a vitória esfumar-se (se houve fora-de-jogo no momento do cruzamento, foi milimétrico; se houve antes, não conta); e depois, na jogada seguinte, vê não apenas a vitória mas o próprio empate esfumarem-se no último suspiro do jogo. Se o FC Porto tem ganho o jogo, como seria mais normal face ao que se passou, não estaríamos agora a falar de crise — e, todavia, ela está lá e por isso é que é importante reflectir no que vem acontecendo.
O jogo com o Estrela confirmou-me aquilo que há muito penso — esta equipa do FC Porto é desequilibrada: tem três jogadores fora-de-série (Pepe, Anderson e Quaresma), tem um bom jogador (Lucho) e todos os outros são apenas razoáveis ou nem sequer isso. Na primeira fase da época, a equipe viveu do talento e da dinâmica de jogo de Anderson. Quando ele foi cirurgicamente afastado dos campos, Quaresma pegou na equipa e, a golpes de génio, assegurou a qualidade de jogo suficiente para o FC Porto ultrapassar a fase de grupos da Liga dos Campeões e manter uma liderança destacada no campeonato. Quando, por sua vez, Quaresma foi também cirurgicamente afastado do jogo, o FC Porto ficou reduzido a uma equipa banal, à mercê de golpes como os sofridos contra o Estrela e o Leiria. Bastaria que Anderson ou Quaresma, ao menos um deles, estivesse em campo e o FC Porto não teria ficado em branco nos dois jogos e naturalmente tê-los-ia vencido; bastaria que ao menos Pepe não estivesse também castigado e o Estrela não teria marcado aquele golo.
Se uma equipa tem três jogadores de génio e quase todos os outros banais, é inevitável que, ficando aqueles três de fora, nem o jogo nem os resultados possam ser iguais. Essa é a primeira e a principal explicação para a actual crise: faltaram os jogadores que fazem a diferença e faltam outros que ao menos a disfarcem. Por exemplo: falta ainda muito ao Helton para justificar a categoria que lhe atribuem, em especial no seu inseguro jogo aéreo; falta quem, na ausência de Quaresma, saiba cruzar em condições (contra o Estrela, Bosingwa fez uma dúzia de cruzamentos e só um é que saiu bem); falta um terceiro defesa-central de categoria que, como já se viu tantas e tantas vezes, não será nunca o Ricardo Costa; falta mais um médio de ataque que, mesmo sem o génio de Anderson, empurre o jogo para a frente e seja capaz de, de vez em quando, marcar golos; faltam razões que possam explicar a inexplicável aposta de Jesualdo Ferreira num Raul Meireles totalmente abúlico e ineficiente; e falta ou não é experimentado devidamente (Bruno Moraes) quem saiba finalizar habitualmente — ultrapassada que parece estar a inesperada ressurreição de Hélder Postiga. A crise tem, portanto, também que ver com uma errática e por vezes lastimável politica de aquisições que, por cada grande jogador que consegue, acrescenta meia dúzia de banalidades.
2-O FC Porto, nunca é de mais lembrá-lo, gasta o dobro do Benfica em aquisições e o triplo do Sporting. E, embora tendo já arrepiado algum caminho em relação a tempos de loucura e de irresponsabilidade recentes, os maus hábitos tendem a manter-se. Vejamos o que aconteceu apenas neste período intercalar de compras. O Sporting não fez nenhuma aquisição, nem sequer por empréstimo, porque decidiu que só faria se tivesse dinheiro para tal e encontrasse um jogador capaz de entrar de imediato no onze titular; o Benfica fez duas aquisições, mas ambas por empréstimo: no final da época verá se está ou não interessado em continuar com eles e adquirir os seus passes; já o FC Porto avançou para duas compras, com contratos a longo prazo, como é habitual na casa, ficando amarrado aos jogadores, quer eles provem quer não, por muitos e bons anos. Não espanta, pois, constatar que grande parte do movimento de jogadores neste período tenha correspondido a jogadores emprestados pelo FC Porto. Pelas minhas contas, os portistas devem ter actualmente duas equipas inteiras emprestadas a outros emblemas, incluindo clubes de Espanha, Alemanha e Brasil, sendo que, na maior parte dos casos, é o clube que paga a parte de leão ou mesmo a totalidade dos seus vencimentos. Dos jogadores contratados em Julho para esta época, todos com contratos a longo prazo, mais de metade já estão emprestados, decorridos seis meses e depois de se ter concluído que, afinal, não interessavam. Eis uma coisa que nunca percebi: porque é que quando quer jogadores, o FC Porto só os consegue comprar a bom preço e com excelentes salários e longos contratos e, quando se quer desfazer deles, não consegue vender nenhum? Nesta miniépoca de aquisições, o FC Porto lá foi às compras: aguentou-se nas exigências incomportáveis do Sp. Braga (que tem dois jogadores emprestados pelo FC Porto…) em relação a Diego e Madrid, mas já não resistiu em comprar mais um defesa-esquerdo (o sexto em três anos) e mais um ponta-de-lança (o sexto, contando com Hugo Almeida). Mas um defesa-central para substituir Pedro Emanuel, lesionado, não; e um médio ofensivo para substituir Anderson, lesionado, também não. Erros de gestão destes pagam-se depois em campo.
3-O regresso do ninja ao nosso campeonato merece ser saudado. Derlei deixou um cartaz de jogador de fibra e de talento, um profissional de cima a baixo, para sempre ligado à incrível final de Sevilha. Ao assinar pelo Benfica, perguntaram-lhe e com toda a lógica, como é que ele, que tinha estado ligado a todos os grandes êxitos do FC Porto da época de Mourinho, via a acusação, desencadeada pelo seu novo clube, de que tais êxitos não eram fruto do esforço e do talento de jogadores como ele mas, sim, de batota. Obviamente, ele deu a única resposta que podia dar: que isso agora não interessava, era passado. A ele, não, claro. Mas interessa, sim, ao clube que ele representou com tanto mérito. É disso que trata o Apito Dourado: decidir se o FC Porto de então ganhava porque tinha jogadores como Derlei, Deco, Ricardo Carvalho, Jorge Costa, Vítor Baía, Maniche, Carlos Alberto ou McCarthy, ou porque supostamente subornava os árbitros. É uma questão de honra, de dignidade e de verdade desportiva, e isso nunca é passado. O que sentirá Derlei se lhe retirarem, por alegadas malfeitorias, os títulos de campeão de Portugal conquistados em 2002 e 2003?
Entretanto, bastaram a Derlei quinze minutos em campo na estreia pelo Benfica para ele perceber a diferença das camisolas. Na semana passada, um tal de Ricardo Quaresma que, por acaso, vinha sendo o melhor jogador do campeonato, deu uma palmada com o braço para trás para se livrar de um adversário que estava a agarrá-lo, quando ele tinha a bola e queria fugir para o ataque. Embora estivesse de costas para o juiz de linha, este não hesitou em ver ali uma agressão: Quaresma foi expulso e, para além desse jogo, levou mais dois de suspensão. Esta semana, exactamente no mesmo local do campo, Derlei deu também uma braçada para trás atingindo o adversário. Com uma grande diferença: não estava a ser agarrado e era o outro que tinha a bola e se ia escapar. E mais esta decisiva diferença: estava de frente para o juiz de linha, que tudo viu e nada de mal viu. Nem amarelo, nem vermelho, nem suspensão. Seja bem-vindo ao Benfica, Derlei!
4-Os critérios disciplinares dos árbitros em campo podem ajudar a decidir campeonatos, se os critérios variarem de árbitro para árbitro, de clube para clube e de jogador para jogador. E mais ainda se a essa dualidade de critérios for somada depois igual dualidade da Comissão Disciplinar. Não interessa apenas tentar perceber porque é que Quaresma é expulso e Derlei não. Também interessa perceber porque é que Nuno Gomes é expulso duas vezes, uma delas por agressão a pontapé pelas costas, e só leva um jogo de cada vez, enquanto Quaresma leva dois, logo à primeira e contestada expulsão. Já se sabia que ia ser assim, mas não acham que é um bocado chocante?
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
quarta-feira, abril 11, 2007
Voltaram as dores de cotovelo ( 30 Janeiro 2007)
Jesualdo Ferreira fica a saber que é muito mais difícil triunfar no FC Porto do que por outras paragens.E, se já era difícil antes, agora, com o «factor Carolina», vai ser bem mais.
Sexta-feira à noite, eu estava fora e, para dizer a verdade, nem sequer me lembrei que o FC Porto jogava em Leiria. Por volta da meia-noite recebi uma mensagem de um amigo benfiquista: «Já nem à equipa B conseguem ganhar…Vá lá que perderam só por 1-0.» Foi assim que fiquei a saber do desastre de Leiria. O resto, os pormenores, só fiquei a saber três dias depois. E concluí que, manifestamente, o meu amigo benfiquista tinha feito um relato muito particular e resumido dos acontecimentos de Leiria. Por junto, a única coisa incontroversa é que o Porto tinha perdido 1-0.
Desde logo, a piada da «equipa B», reflectindo aquilo que é a atitude de vida dos benfiquistas, hoje em dia: eles desconfiam de tudo, tudo o que mexe. Treinado pela antiga glória portista Domingos Paciência (ai, que saudades!), com dois ou três jogadores emprestados pelo FC Porto, está bom de ver que outra coisa não era de esperar do que o Leiria facilitar a vida ao FC Porto. Azar o deles: o Leiria ganhou, Paulo Machado foi dos melhores em campo e Ivanildo marcou de forma perfeita o livre que ditou o resultado. Satisfeitos? Não, na próxima oportunidade voltarão a desconfiar. A semana passada, aliás, tive ocasião de ler um texto benfiquista onde, em todo o seu esplendor, se explicava como é que tudo serve para desconfiar. A propósito da expulsão do leiriense Harrison no jogo da Taça contra o Benfica, dizia-se que ele, claro, tinha sido bem expulso. Mas, ao mesmo tempo, levantava-se a suspeição: é que, tendo sido expulso, ele não iria poder jogar o jogo seguinte. E, contra quem era o jogo seguinte? Contra o Porto — estão a ver, não estão?
A mensagem do meu amigo pecava, a seguir, por deformação jornalística: «Perderam só por 1-0.» O «só» dava a entender que poderiam ter sido mais. Mas o visionamento do jogo e os comentários lidos, afinal, revelaram uma coisa bem diferente: o União de Leiria não teve mais nenhuma ocasião de golo, marcou através de um livre inexistente e o FC Porto atirou três bolas à trave, viu um penalty perdoado ao Leiria e jogou meio jogo com um a menos. Detalhes.
Enfim, faltava, obviamente, dizer o principal: o FC Porto não jogou só em inferioridade numérica toda a segunda parte, jogou o jogo inteiro, porque aos onze de Leiria juntaram-se mais duas adjacências insulares, verdadeiramente decisivas para o desfecho final. O FC Porto já tinha sido prejudicado pela arbitragem várias vezes esta época, mas sempre havia conseguido superar esse obstáculo e sair vencedor. A novidade em Leiria, é que foram coisas de mais e todas juntas fizeram o resultado. Salvo o devido respeito pelo União de Leiria, o FC Porto não foi vencido pela equipa de Domingos: foi vencido pela dupla Elmano Santos-Sérgio Lacroix.
Dos dois penalties reclamados pelos portistas, um aceito que não tenha existido ou tenha sido duvidoso. O outro foi claro, embora subtil, mas de frente para o árbitro: uma mãozinha marota que corta deliberadamente um remate com destino a golo. Há um offside arrancado a Postiga que é bem claro que não existe e, sem o qual, ele ficaria frente a frente com o guarda-redes. No livre que dá o golo único ao Leiria, pese às sentenças catedráticas do sr. Coroado e passadas e repassadas as imagens as vezes que se quiserem, não há hipótese de descortinar qualquer falta, ou sequer contacto, do Pepe sobre o avançado leiriense. E há, enfim, a expulsão do Quaresma, que é determinante para o resultado: a partir daí, o Porto não ficou apenas com um jogador a menos, ficou com o Quaresma a menos, o que faz toda a diferença.
Sobre a expulsão do Quaresma, li e ouvi todo o tipo de opiniões: que sim, que não, que talvez. Antes de dizer qual é a minha, não posso deixar de fazer notar duas coisas. Uma é que a moda da perseguição às cotoveladas, viveu-se intensamente há três anos e custou ao FC Porto um campeonato, quando o Deco e o McCarthy passaram uma infinidade de jogos de fora devido a cotoveladas, reais ou supostas. Foi uma época em que se achou absolutamente normal acreditar que só os jogadores do FC Porto é que tinham cotovelos. Passada essa moda, e depois de os jogadores portistas terem sido instruídos para evitarem tudo o que, de perto ou de longe, se pudesse assemelhar a uma cotovelada, as cotoveladas desapareceram misteriosamente do futebol português: o Costinha chegou a sair do campo em semicoma, com traumatismo craniano, o Quaresma saiu de maxilar fracturado e nada aconteceu aos cotovelos alheios. Mas eis que agora, com o FC Porto na liderança com oito pontos de avanço, regressam as cotoveladas. E pela mão do bandeirinha Sérgio Lacroix, que parece ter-se especializado em detectar cotoveladas ao Ricardo Quaresma.
A segunda coisa que queria fazer notar é a ironia da situação: o Ricardo Quaresma, justamente porque é o mais brilhante jogador do campeonato, é também o mais massacrado com faltas dos adversários. Há jogos em que chega a ser revoltante assistir à passividade dos árbitros perante o massacre estratégico a que ele é sujeito, não apenas para bloquear o seu génio, mas também para o desgastar fisicamente e intimidá-lo. Pois foi precisamente o Ricardo Quaresma que o sr. Lacroix resolveu escolher exuberantemente para exemplo de má conduta disciplinar. E, cúmulo da ironia, ele, a quem Tixier tinha fracturado o maxilar no jogo da 1.ª volta, sem sequer ter visto um amarelo, acaba expulso agora, com um vermelho directo, por suposta agressão ao mesmo Tixier. Há coincidências fantásticas!
Mas, enfim, agrediu ou foi sem querer— qual é a minha opinião? Estou no meio termo: nem acho que tenha havido agressão, nem acho que tenha sido involuntário. Vista e revista diversas vezes a jogada, concluí isto: primeiro, que ele mandou uma braçada para trás, com intenção de atingir o adversário; segundo, que o movimento do braço, aberto, não é de cotovelada nem é com o cotovelo que atinge Tixier, mas sim com as costas da mão; terceiro, que, obviamente, tal gesto não justificou o espalhafato de Tixier, rebolando-se no chão como se tivesse sido atingido com um tiro de uma Magnum entre os olhos; quarto, que Quaresma não quer agredir o adversário, nem sequer o está a ver quando faz o gesto, quer apenas soltar-se de quem o está a agarrar pela camisola, impedindo-o de jogar; e quinto, que, de toda a gente presente no estádio, o único que não estava em situação de ver o lance de frente e desimpedido era justamente o sr. Lacroix, que tinha os dois jogadores de costas para si e engalfinhados um no outro. Mas o sr. Lacroix podia e devia ter visto o Tixier a agarrar a camisola a Quaresma e, se tivesse assinalado a falta, nada mais teria sucedido. O que se torna incompreensível é que num lance em que, no máximo, haveria lugar à mostragem de um amarelo, o árbitro aceite a indicação do seu bandeirinha e nem hesite em mostrar o vermelho directo a um jogador por uma jogada em que ele, árbitro, de frente, nada viu, e o bandeirinha, tapado, é que jura ter visto tudo. E fazê-lo, sabendo que, com isso, poderia estar a decidir o jogo, como sucedeu.
Razão teve Jesualdo Ferreira para, no final, quebrar pela primeira vez o seu absoluto silêncio sobre arbitragens (aliás, extensivo a qualquer elemento do FC Porto). Mas agora o professor ficou a saber do que a casa gasta. Irá descobrir, como tantos antes dele, que uns têm a má fama e outros o proveito. E que é muito mais difícil triunfar no FC Porto do que por outras paragens.
E, se já era difícil antes, agora, com o «factor Carolina», vai ser bem mais. Ai do árbitro que doravante se atreva a, na dúvida, não decidir contra o FC Porto: arrisca-se a passar logo a suspeito do próximo best-seller literário-processual!
Sexta-feira à noite, eu estava fora e, para dizer a verdade, nem sequer me lembrei que o FC Porto jogava em Leiria. Por volta da meia-noite recebi uma mensagem de um amigo benfiquista: «Já nem à equipa B conseguem ganhar…Vá lá que perderam só por 1-0.» Foi assim que fiquei a saber do desastre de Leiria. O resto, os pormenores, só fiquei a saber três dias depois. E concluí que, manifestamente, o meu amigo benfiquista tinha feito um relato muito particular e resumido dos acontecimentos de Leiria. Por junto, a única coisa incontroversa é que o Porto tinha perdido 1-0.
Desde logo, a piada da «equipa B», reflectindo aquilo que é a atitude de vida dos benfiquistas, hoje em dia: eles desconfiam de tudo, tudo o que mexe. Treinado pela antiga glória portista Domingos Paciência (ai, que saudades!), com dois ou três jogadores emprestados pelo FC Porto, está bom de ver que outra coisa não era de esperar do que o Leiria facilitar a vida ao FC Porto. Azar o deles: o Leiria ganhou, Paulo Machado foi dos melhores em campo e Ivanildo marcou de forma perfeita o livre que ditou o resultado. Satisfeitos? Não, na próxima oportunidade voltarão a desconfiar. A semana passada, aliás, tive ocasião de ler um texto benfiquista onde, em todo o seu esplendor, se explicava como é que tudo serve para desconfiar. A propósito da expulsão do leiriense Harrison no jogo da Taça contra o Benfica, dizia-se que ele, claro, tinha sido bem expulso. Mas, ao mesmo tempo, levantava-se a suspeição: é que, tendo sido expulso, ele não iria poder jogar o jogo seguinte. E, contra quem era o jogo seguinte? Contra o Porto — estão a ver, não estão?
A mensagem do meu amigo pecava, a seguir, por deformação jornalística: «Perderam só por 1-0.» O «só» dava a entender que poderiam ter sido mais. Mas o visionamento do jogo e os comentários lidos, afinal, revelaram uma coisa bem diferente: o União de Leiria não teve mais nenhuma ocasião de golo, marcou através de um livre inexistente e o FC Porto atirou três bolas à trave, viu um penalty perdoado ao Leiria e jogou meio jogo com um a menos. Detalhes.
Enfim, faltava, obviamente, dizer o principal: o FC Porto não jogou só em inferioridade numérica toda a segunda parte, jogou o jogo inteiro, porque aos onze de Leiria juntaram-se mais duas adjacências insulares, verdadeiramente decisivas para o desfecho final. O FC Porto já tinha sido prejudicado pela arbitragem várias vezes esta época, mas sempre havia conseguido superar esse obstáculo e sair vencedor. A novidade em Leiria, é que foram coisas de mais e todas juntas fizeram o resultado. Salvo o devido respeito pelo União de Leiria, o FC Porto não foi vencido pela equipa de Domingos: foi vencido pela dupla Elmano Santos-Sérgio Lacroix.
Dos dois penalties reclamados pelos portistas, um aceito que não tenha existido ou tenha sido duvidoso. O outro foi claro, embora subtil, mas de frente para o árbitro: uma mãozinha marota que corta deliberadamente um remate com destino a golo. Há um offside arrancado a Postiga que é bem claro que não existe e, sem o qual, ele ficaria frente a frente com o guarda-redes. No livre que dá o golo único ao Leiria, pese às sentenças catedráticas do sr. Coroado e passadas e repassadas as imagens as vezes que se quiserem, não há hipótese de descortinar qualquer falta, ou sequer contacto, do Pepe sobre o avançado leiriense. E há, enfim, a expulsão do Quaresma, que é determinante para o resultado: a partir daí, o Porto não ficou apenas com um jogador a menos, ficou com o Quaresma a menos, o que faz toda a diferença.
Sobre a expulsão do Quaresma, li e ouvi todo o tipo de opiniões: que sim, que não, que talvez. Antes de dizer qual é a minha, não posso deixar de fazer notar duas coisas. Uma é que a moda da perseguição às cotoveladas, viveu-se intensamente há três anos e custou ao FC Porto um campeonato, quando o Deco e o McCarthy passaram uma infinidade de jogos de fora devido a cotoveladas, reais ou supostas. Foi uma época em que se achou absolutamente normal acreditar que só os jogadores do FC Porto é que tinham cotovelos. Passada essa moda, e depois de os jogadores portistas terem sido instruídos para evitarem tudo o que, de perto ou de longe, se pudesse assemelhar a uma cotovelada, as cotoveladas desapareceram misteriosamente do futebol português: o Costinha chegou a sair do campo em semicoma, com traumatismo craniano, o Quaresma saiu de maxilar fracturado e nada aconteceu aos cotovelos alheios. Mas eis que agora, com o FC Porto na liderança com oito pontos de avanço, regressam as cotoveladas. E pela mão do bandeirinha Sérgio Lacroix, que parece ter-se especializado em detectar cotoveladas ao Ricardo Quaresma.
A segunda coisa que queria fazer notar é a ironia da situação: o Ricardo Quaresma, justamente porque é o mais brilhante jogador do campeonato, é também o mais massacrado com faltas dos adversários. Há jogos em que chega a ser revoltante assistir à passividade dos árbitros perante o massacre estratégico a que ele é sujeito, não apenas para bloquear o seu génio, mas também para o desgastar fisicamente e intimidá-lo. Pois foi precisamente o Ricardo Quaresma que o sr. Lacroix resolveu escolher exuberantemente para exemplo de má conduta disciplinar. E, cúmulo da ironia, ele, a quem Tixier tinha fracturado o maxilar no jogo da 1.ª volta, sem sequer ter visto um amarelo, acaba expulso agora, com um vermelho directo, por suposta agressão ao mesmo Tixier. Há coincidências fantásticas!
Mas, enfim, agrediu ou foi sem querer— qual é a minha opinião? Estou no meio termo: nem acho que tenha havido agressão, nem acho que tenha sido involuntário. Vista e revista diversas vezes a jogada, concluí isto: primeiro, que ele mandou uma braçada para trás, com intenção de atingir o adversário; segundo, que o movimento do braço, aberto, não é de cotovelada nem é com o cotovelo que atinge Tixier, mas sim com as costas da mão; terceiro, que, obviamente, tal gesto não justificou o espalhafato de Tixier, rebolando-se no chão como se tivesse sido atingido com um tiro de uma Magnum entre os olhos; quarto, que Quaresma não quer agredir o adversário, nem sequer o está a ver quando faz o gesto, quer apenas soltar-se de quem o está a agarrar pela camisola, impedindo-o de jogar; e quinto, que, de toda a gente presente no estádio, o único que não estava em situação de ver o lance de frente e desimpedido era justamente o sr. Lacroix, que tinha os dois jogadores de costas para si e engalfinhados um no outro. Mas o sr. Lacroix podia e devia ter visto o Tixier a agarrar a camisola a Quaresma e, se tivesse assinalado a falta, nada mais teria sucedido. O que se torna incompreensível é que num lance em que, no máximo, haveria lugar à mostragem de um amarelo, o árbitro aceite a indicação do seu bandeirinha e nem hesite em mostrar o vermelho directo a um jogador por uma jogada em que ele, árbitro, de frente, nada viu, e o bandeirinha, tapado, é que jura ter visto tudo. E fazê-lo, sabendo que, com isso, poderia estar a decidir o jogo, como sucedeu.
Razão teve Jesualdo Ferreira para, no final, quebrar pela primeira vez o seu absoluto silêncio sobre arbitragens (aliás, extensivo a qualquer elemento do FC Porto). Mas agora o professor ficou a saber do que a casa gasta. Irá descobrir, como tantos antes dele, que uns têm a má fama e outros o proveito. E que é muito mais difícil triunfar no FC Porto do que por outras paragens.
E, se já era difícil antes, agora, com o «factor Carolina», vai ser bem mais. Ai do árbitro que doravante se atreva a, na dúvida, não decidir contra o FC Porto: arrisca-se a passar logo a suspeito do próximo best-seller literário-processual!
Segredos do apito ( 23 Janeiro 2007)
A sugestão que tenho a fazer é simples: que a televisão que na altura transmitiu o tal FC Porto- Estrela da Amadora volte a transmiti-lo, em horário que permita a todos os que se interessam pelo Apito Dourado voltar a recordar o jogo. Assim, todos poderiam perceber bem a existência ou não do tal nexo de causalidade e julgar por si a dimensão da tarefa que aguarda a Dr.ª Maria José Morgado
A Dr.ª Maria José Morgado está zangada e com razão porque o despacho que fez determinando a reabertura do processo relativo ao jogo FC Porto-Estrela da Amadora de 2004, apareceu publicado na net pouco depois de ter sido enviado a várias entidades, entre as quais os advogados dos arguidos no processo. Ela desconfia, e provavelmente também com razão, que a fuga de informação terá partido de um desses advogados. Em consequência, a Sr.ª procuradora adjunta determinou mais um daqueles inquéritos, sempre rigorosissímos e para ontem, para determinar quem será o violador do segredo de justiça. Há, porém, dois pequenos problemas a toldar o fundamento da fúria da senhora procuradora.
Em primeiro lugar, é altamente discutível que estejamos perante uma violação do segredo de justiça. É que, face à lei, tal só existe quando o processo está em segredo e, neste caso, o processo estava já arquivado e não havia, portanto, segredo algum a resguardar. Só a partir do despacho dela é que o segredo se reinstala. Em segundo lugar, não deixa de ser curioso que só esta situação tenha enfurecido a ilustre procuradora, e não todas as outras situações de violação do segredo de justiça — e, essas sim, indiscutíveis — que têm ocorrido com os interrogatórios à pessoa da D.ª Carolina Salgado, levados a cabo por ela. De há duas semanas para cá, desde que Maria José Morgado iniciou tais interrogatótios, temos sido confrontados com a descrição detalhada dos mesmos, publicada em alguns jornais e em tais termos que, mais do que relatos dos interrogatórios a uma testemunha, parece estar-se perante o teor de uma sentença sumária e condenatória dos arguidos. Ora, correndo uma vez mais o risco de enfurecer a fúria justiceira instalada tranquilamente em tantos espíritos moralizadores da praça, faço notar o seguinte: a Drª Maria José Morgado tem beneficiado do privilégio processual de interrogar livremente uma testemunha quando quer, onde quer, as vezes que quer, pelo tempo que quer. Fá-lo sem a presença de um juiz que possa impedir ou limitar formas inadmissíveis de interrogar, sem a presença dos acusados e de advogado que os represente e que possam contestar as perguntas, contra-interrogar, assegurar um princípio fundamental de direito penal, que é o do contraditório. Que estes interrogatórios, onde os arguidos não têm a menor hipótese de defesa e que se passam apenas entre gente do Ministério Público, apareçam depois publicados nos jornais, isso sim, é que é uma grave violação do segredo de justiça — que no passado e em casos semelhantes tem funcionado como uma forma de pré-condenação de suspeitos e pré-determinação da opinião pública. Que a ninguém ocorra mandar investigar essas fugas parece-me, de facto, curioso.
Mas vale a pena dizer algumas coisas mais sobre o segredo de justiça, cuja natureza e alcance, em minha opinião, tem sido totalmente deturpado. O segredo de justiça visa duas coisas: proteger a eficácia das investigações judiciais e os direitos de defesa dos arguidos. À acusação, isto é, a quem investiga, compete garantir a protecção de ambos os interesses; mas à defesa, aos arguidos, apenas é exigível, a meu ver, a protecção do segredo em benefício próprio. Se eu for chamado para ser interrogado num processo-crime, que está em segredo de justiça, não vejo que fundamento me poderá impedir, em minha defesa (e, numa fase processual em que praticamente não existem meios de defesa), de sair cá para fora e declarar: «Fui ouvido sobre isto e aquilo, coisas que não têm fundamento algum». Aliás, se algum dia me acontecer tal coisa, declaro desde já que, depois de interrogado, tratarei de dizer o que me apetecer — antes que a versão do meu interrogatório que possa convir à acusação apareça, soprada por ela, nos jornais. Assim como, se algum dia previr que me possa acontecer aquilo que aconteceu a alguns dos suspeitos do Apito Dourado, que foi o facto de, sem fundamento algum para suspeitar da fuga, terem sido mandados deter previamente para interrogatório, ficando depois presos dois ou três dias à espera que a juíza tivesse tempo para os ouvir, eu farei o mesmo que fez Pinto da Costa: vou para Vigo ou para Badajoz, e de lá telefono à juíza a perguntar-lhe o dia e a hora certa em que me quer ouvir, e só então me apresento. Porque, lá por serem juízes e magistrados, não têm o direito de ofender a liberdade das pessoas e enxovalhá-las previamente. Só não resiste aos abusos da autoridade quem está habituado a amochar habitualmente.
Em minha opinião, portanto, a suposta violação do segredo de justiça cometida por quem pôs a circular na net o despacho da Dr.ª Maria José Morgado:
— não me parece que possa ser juridicamente classificada como violação do segredo de justiça;
— a ser considerada tal e a ter sido cometida pela defesa dos arguidos, tem toda a legitimidade, face a anteriores violações — essas sim, indiscutíveis e graves;
— e, finalmente, num processo mediático como este, o conhecimento do teor do despacho da Procuradora reveste-se e revestiu-se de todo o interesse público.
Vejamos esta última afirmação. O despacho de Maria José Morgado confirma que a única razão que ela encontrou — os tais «factos novos» que permitem a reabertura de um processo já arquivado — são os depoimentos da D. Carolina Salgado. E permitiu-nos também ficar a saber que a Dr.ª Maria José Morgado não considera relevante a questão da credibilidade da testemunha, bem como a das razões que a levaram ao acto de traição e vingança pessoal que o seu livro e a sua súbita disponibilidade para colaborar com a Justiça revelam. E considera mal, obviamente: ao contrário do que ela escreveu, seja qual for o juízo final que, em tribunal, se venha a fazer sobre a credibilidade da testemunha, é evidente que tal facto não é «estranho ao processo», mas absolutamente decisivo para se chegar depois à conclusão subsequente sobre a veracidade do seu testemunho. Sustentar que Carolina Salgado é uma testemunha como outra qualquer, a quem nada de pessoal move contra Pinto da Costa, é uma crença manifestamente condenada ao fracasso em qualquer tribunal normal.
Resta depois o essencial. Pelo que li do que ela terá dito nos interrogatórios, se há coisas que ela não trouxe foram justamente «factos novos» — como aliás já se esperava. O que ela trouxe no livro e repetiu agora foi comida requentada. Disse o que já todos sabiam sobre o árbitro Jacinto Paixão, o empresário António Araújo e a fruta. Sobre isto, quero repetir o que já antes escrevi e que me parece absolutamente honesto: julgo que, de facto, o FC Porto terá proporcionado serviços, e não propriamente de fruta, ao referido árbitro e a pedido deste. Mas, reconhecido isto, restam por provar duas coisas: uma, que tal não é ou não era prática corrente em todos os clubes e em diversos jogos, incluindo os das competições europeias — onde os clubes da casa são supostos receber, instalar, oferecer as refeições e acompanhar os árbitros internacionais, satisfazendo-lhes as vontades e mordomias. Quem acha que tais coisas não sucedem em Lisboa, seguramente que imagina que em Lisboa também não existem respeitáveis estabelecimentos como o Calor da Noite. É preciso demonstrar, pois, que o tratamento dado pelo FC Porto a este árbitro foi a excepção e não a regra. Desconfio que há muita e insuspeita gente, entre a qual extremosos pais de família e dirigentes desportivos, a quem tal investigação não convirá por aí além.
A segunda coisa que será necessário provar é a tal chatice do «nexo de causalidade» entre o suposto acto de corrupção e o pagamento do favor por parte do corrompido. É, de facto, uma chatice, mas a lei assim o exige, e eu poderia explicar longamente porque é que tal exigência não é um formalismo oco, mas uma garantia essencial de que a justiça é feita, não por palpites, presunções e interesses de terceiros, mas por provas irrefutáveis. Sobre isto, e presumindo (se calhar, mal) que a Dr.ª Maria José Morgado não se interessa ou perceba de futebol, a sugestão que tenho a fazer é simples: que a televisão que na altura transmitiu o tal FC Porto-Estrela da Amadora, e que terá os direitos sobre ele, volte a transmiti-lo, com a devida publicidade e em horário que permita a todos os que se interessam pelo Apito Dourado voltar a recordar o jogo. Assim, todos poderiam perceber bem a existênca ou não do tal nexo de causalidade e julgar por si a dimensão da tarefa que aguarda a Drª Maria José Morgado. Seria um acto de serviço público.
A Dr.ª Maria José Morgado está zangada e com razão porque o despacho que fez determinando a reabertura do processo relativo ao jogo FC Porto-Estrela da Amadora de 2004, apareceu publicado na net pouco depois de ter sido enviado a várias entidades, entre as quais os advogados dos arguidos no processo. Ela desconfia, e provavelmente também com razão, que a fuga de informação terá partido de um desses advogados. Em consequência, a Sr.ª procuradora adjunta determinou mais um daqueles inquéritos, sempre rigorosissímos e para ontem, para determinar quem será o violador do segredo de justiça. Há, porém, dois pequenos problemas a toldar o fundamento da fúria da senhora procuradora.
Em primeiro lugar, é altamente discutível que estejamos perante uma violação do segredo de justiça. É que, face à lei, tal só existe quando o processo está em segredo e, neste caso, o processo estava já arquivado e não havia, portanto, segredo algum a resguardar. Só a partir do despacho dela é que o segredo se reinstala. Em segundo lugar, não deixa de ser curioso que só esta situação tenha enfurecido a ilustre procuradora, e não todas as outras situações de violação do segredo de justiça — e, essas sim, indiscutíveis — que têm ocorrido com os interrogatórios à pessoa da D.ª Carolina Salgado, levados a cabo por ela. De há duas semanas para cá, desde que Maria José Morgado iniciou tais interrogatótios, temos sido confrontados com a descrição detalhada dos mesmos, publicada em alguns jornais e em tais termos que, mais do que relatos dos interrogatórios a uma testemunha, parece estar-se perante o teor de uma sentença sumária e condenatória dos arguidos. Ora, correndo uma vez mais o risco de enfurecer a fúria justiceira instalada tranquilamente em tantos espíritos moralizadores da praça, faço notar o seguinte: a Drª Maria José Morgado tem beneficiado do privilégio processual de interrogar livremente uma testemunha quando quer, onde quer, as vezes que quer, pelo tempo que quer. Fá-lo sem a presença de um juiz que possa impedir ou limitar formas inadmissíveis de interrogar, sem a presença dos acusados e de advogado que os represente e que possam contestar as perguntas, contra-interrogar, assegurar um princípio fundamental de direito penal, que é o do contraditório. Que estes interrogatórios, onde os arguidos não têm a menor hipótese de defesa e que se passam apenas entre gente do Ministério Público, apareçam depois publicados nos jornais, isso sim, é que é uma grave violação do segredo de justiça — que no passado e em casos semelhantes tem funcionado como uma forma de pré-condenação de suspeitos e pré-determinação da opinião pública. Que a ninguém ocorra mandar investigar essas fugas parece-me, de facto, curioso.
Mas vale a pena dizer algumas coisas mais sobre o segredo de justiça, cuja natureza e alcance, em minha opinião, tem sido totalmente deturpado. O segredo de justiça visa duas coisas: proteger a eficácia das investigações judiciais e os direitos de defesa dos arguidos. À acusação, isto é, a quem investiga, compete garantir a protecção de ambos os interesses; mas à defesa, aos arguidos, apenas é exigível, a meu ver, a protecção do segredo em benefício próprio. Se eu for chamado para ser interrogado num processo-crime, que está em segredo de justiça, não vejo que fundamento me poderá impedir, em minha defesa (e, numa fase processual em que praticamente não existem meios de defesa), de sair cá para fora e declarar: «Fui ouvido sobre isto e aquilo, coisas que não têm fundamento algum». Aliás, se algum dia me acontecer tal coisa, declaro desde já que, depois de interrogado, tratarei de dizer o que me apetecer — antes que a versão do meu interrogatório que possa convir à acusação apareça, soprada por ela, nos jornais. Assim como, se algum dia previr que me possa acontecer aquilo que aconteceu a alguns dos suspeitos do Apito Dourado, que foi o facto de, sem fundamento algum para suspeitar da fuga, terem sido mandados deter previamente para interrogatório, ficando depois presos dois ou três dias à espera que a juíza tivesse tempo para os ouvir, eu farei o mesmo que fez Pinto da Costa: vou para Vigo ou para Badajoz, e de lá telefono à juíza a perguntar-lhe o dia e a hora certa em que me quer ouvir, e só então me apresento. Porque, lá por serem juízes e magistrados, não têm o direito de ofender a liberdade das pessoas e enxovalhá-las previamente. Só não resiste aos abusos da autoridade quem está habituado a amochar habitualmente.
Em minha opinião, portanto, a suposta violação do segredo de justiça cometida por quem pôs a circular na net o despacho da Dr.ª Maria José Morgado:
— não me parece que possa ser juridicamente classificada como violação do segredo de justiça;
— a ser considerada tal e a ter sido cometida pela defesa dos arguidos, tem toda a legitimidade, face a anteriores violações — essas sim, indiscutíveis e graves;
— e, finalmente, num processo mediático como este, o conhecimento do teor do despacho da Procuradora reveste-se e revestiu-se de todo o interesse público.
Vejamos esta última afirmação. O despacho de Maria José Morgado confirma que a única razão que ela encontrou — os tais «factos novos» que permitem a reabertura de um processo já arquivado — são os depoimentos da D. Carolina Salgado. E permitiu-nos também ficar a saber que a Dr.ª Maria José Morgado não considera relevante a questão da credibilidade da testemunha, bem como a das razões que a levaram ao acto de traição e vingança pessoal que o seu livro e a sua súbita disponibilidade para colaborar com a Justiça revelam. E considera mal, obviamente: ao contrário do que ela escreveu, seja qual for o juízo final que, em tribunal, se venha a fazer sobre a credibilidade da testemunha, é evidente que tal facto não é «estranho ao processo», mas absolutamente decisivo para se chegar depois à conclusão subsequente sobre a veracidade do seu testemunho. Sustentar que Carolina Salgado é uma testemunha como outra qualquer, a quem nada de pessoal move contra Pinto da Costa, é uma crença manifestamente condenada ao fracasso em qualquer tribunal normal.
Resta depois o essencial. Pelo que li do que ela terá dito nos interrogatórios, se há coisas que ela não trouxe foram justamente «factos novos» — como aliás já se esperava. O que ela trouxe no livro e repetiu agora foi comida requentada. Disse o que já todos sabiam sobre o árbitro Jacinto Paixão, o empresário António Araújo e a fruta. Sobre isto, quero repetir o que já antes escrevi e que me parece absolutamente honesto: julgo que, de facto, o FC Porto terá proporcionado serviços, e não propriamente de fruta, ao referido árbitro e a pedido deste. Mas, reconhecido isto, restam por provar duas coisas: uma, que tal não é ou não era prática corrente em todos os clubes e em diversos jogos, incluindo os das competições europeias — onde os clubes da casa são supostos receber, instalar, oferecer as refeições e acompanhar os árbitros internacionais, satisfazendo-lhes as vontades e mordomias. Quem acha que tais coisas não sucedem em Lisboa, seguramente que imagina que em Lisboa também não existem respeitáveis estabelecimentos como o Calor da Noite. É preciso demonstrar, pois, que o tratamento dado pelo FC Porto a este árbitro foi a excepção e não a regra. Desconfio que há muita e insuspeita gente, entre a qual extremosos pais de família e dirigentes desportivos, a quem tal investigação não convirá por aí além.
A segunda coisa que será necessário provar é a tal chatice do «nexo de causalidade» entre o suposto acto de corrupção e o pagamento do favor por parte do corrompido. É, de facto, uma chatice, mas a lei assim o exige, e eu poderia explicar longamente porque é que tal exigência não é um formalismo oco, mas uma garantia essencial de que a justiça é feita, não por palpites, presunções e interesses de terceiros, mas por provas irrefutáveis. Sobre isto, e presumindo (se calhar, mal) que a Dr.ª Maria José Morgado não se interessa ou perceba de futebol, a sugestão que tenho a fazer é simples: que a televisão que na altura transmitiu o tal FC Porto-Estrela da Amadora, e que terá os direitos sobre ele, volte a transmiti-lo, com a devida publicidade e em horário que permita a todos os que se interessam pelo Apito Dourado voltar a recordar o jogo. Assim, todos poderiam perceber bem a existênca ou não do tal nexo de causalidade e julgar por si a dimensão da tarefa que aguarda a Drª Maria José Morgado. Seria um acto de serviço público.
Ai Carolina, ó i ó ai! ( 16 Janeiro 2007)
Ah, houvesse alguém que conseguisse estabelecer, por sentença judicial ou por decreto-lei, que o FC Porto joga pior e não pode, não deve absolutamente, ser campeão!
1- Pergunta meramente retórica: o que se sucederá se vier a concluir-se que as acusações despejadas em cascata pela D. Carolina Salgado se comprovarem, afinal, serem: a) falsas, b) incapazes de servirem de prova; c) repetição de suspeitas já constantes do processo Apito Dourado e, entretanto, arquivadas por ausência de fundamento; d) um pouco de tudo isso?
O que sucederá, então? A opinião pública ficará convencida? Concluirá que ela afinal não fez mais do que mentir para garantir as luzes da ribalta e o sucesso dessa obra-prima da literatura, do bom-gosto e das boas-maneiras, que dá pelo nome de Eu, Carolina, ou para se vingar de situações amorosas do foro íntimo, que em nada nos deveriam interessar? Não, obviamente que não. A opinião pública, desde que Carolina Salgado veio à praça e o dr. Pinto Monteiro mandou avançar a Dr.ª Maria José Morgado, já só espera, já só se contentará, com uma e uma única coisa: a acusação, julgamento e condenação de Pinto da Costa e do FC Porto. Qual presunção de inocência, qual ónus da prova de quem acusa, qual princípio do contraditório, qual regra do nexo de causalidade entre os cafézinhos e os resultados no estádio! Se for preciso, crucifica-se também a Dr.ª Maria José Morgado e faz-se um levantamento nacional contra o Estado de Direito. A bem da nação, claro.
Se quiserem saber o que pensa a opinião pública, basta atentar no que diz o presidente do Benfica. Aliás, é sempre útil escutá-lo quando ele vai em romaria às casas do Benfica, ocasiões essas em que garantidamente o coração lhe sai pela boca. Disse ele, de visita a Gândaras: «Começamos a ver as caras do polvo. Todo o país irá saber a verdade sobre a viciação da classificação dos árbitros e dos resultados desportivos. O Benfica já sofreu muito por isso.» Estaria ele a referir-se ao seu ex-aliado e sócio na Liga de Clubes, Valentim Loureiro? Podem crer que não… Da mesma forma que, com a referência aos padecimentos do Benfica, não estava seguramente a pensar no campeonato ganho pelo Sr. Trapattoni…
2- A pergunta que faço tem a sua razão de ser fortalecida à luz das informações que vêm sendo publicadas no semanário Sol pela conhecida jornalista Felícia Cabrita. Se ela está bem informada e se o que diz é verdade, prevejo um horizonte nada dourado para o apito. Escreve Felícia Cabrita: «Quanto aos documentos que Carolina dizia ter e que sustentariam as suas acusações, o seu depoiamento foi vago e inconsistente, o que levou a DCICCEF (Direcção Central de Investigação da Criminalidade e Corrupção Económica e Financeira, da PJ) a fazer uma busca a sua casa. «Nada foi encontrado. Apenas documentos antigos, nomeadamente extractos de contas bancárias» — conta a mesma fonte, acrescentando que em pouco tempo as revelações «revelaram-se um flop». Mais interessante ainda teria sido ouvir o presidente do Benfica comentar a seguinte passagem do artigo de Felícia Cabrita no Sol (e recordo que ela foi a primeira jornalista a registar as acusações de Carolina Salgado, antes mesmo da saída do livro): «Segundo o Sol apurou, o primeiro encontro entre os agentes da DCICCEF e Carolina Salgado ocorreu num hotel da Praça de Espanha, em Lisboa, e teve como intermediário o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira. Com Carolina, estava a redactora do livro, Maria Fernanda Freitas, e a jornalista Leonor Pinhão. Duas semanas antes, o presidente do Benfica entregara na DCICCEF um dossier com documentação que, segundo afirmou, iria provocar um abanão no mundo do futebol, contendo provas de corrupção. Mas, segundo a mesma fonte judicial, Luís Filipe Vieira comprou gato por lebre: «os documentos não passavam de fotocópias de peças processuais do processo Apito Dourado que já foram arquivadas».
Curioso tudo isto… Muito, muito curioso. Os agentes da PJ encontram-se com uma pessoa que, aparentemente, lhes quer fazer uma denúncia, num hotel? E o presidente do Benfica serve de intermediário entre as partes? Se isto é verdade, a que título se terão encontrado todos, visto que a título processual não foi, nem podia ser? Seria um encontro de velhos amigos, de benfiquistas, de fundadores do clube A Verdadeira Investigação que Interessa ao Apito Dourado?
Em verdade vos digo, parafraseando o Hamlet: «Há mais coisas entre o céu e a terra do que a nossa vã sabedoria supõe.» Eu, por mim, enquanto vou assistindo, deliciado, ao progresso das investigações, mantenho o que disse: no lugar de Pinto da Costa, tinha-me demitido quando saiu o livro de Carolina Salgado. Não porque acredite numa palavra do que ela ditou ou porque me sejam indiferentes coisas como a presunção de inocência e a verdade da prova feita em juízo. Mas porque ele lhe atribuiu um papel e uma importância no clube que lhe permitiu ficar em posição de arrastar pela lama, não apenas o nome dele, mas o do próprio clube. Por razões internas, e não externas, portanto.
3- Quanto ao resto, quanto à substância das coisas, vou vendo futebol. E o que vejo (mesmo com o inqualificável acidente de percurso do Atlético, à parte), chega-me para perceber as diferenças e quão desesperada é, consequentemente, a esperança sem fim posta aos ombros da Dr.ª Maria José Morgado. Ah, houvesse alguém que conseguisse estabelecer, por sentença judicial ou por decreto-lei, que o FC Porto joga pior e não pode, não deve absolutamente ser campeão! Se houvesse alguém que, nem que fosse por golpe de Estado, pusesse termo a esta monotonia de, ao fim da primeira volta do campeonato, o FC Porto já ter sete pontos de avanço!
4- Vale e Azevedo prepara-se para voltar à cadeia, para cumprir longas penas. Na altura em que alguns, poucos, ousavam questionar os seus métodos e a moralidade que se auto-atribuía para, também ele, regenerar o futebol português, a multidão da opinião pública caía-nos em cima, defendendo o seu herói, o seu D. Quixote, em cruzada santa contra Pinto da Costa e os bandidos do Norte. Mas, agora, onde estão os seguidores de ontem de Vale e Azevedo? Quem chora por ele uma lágrima, quem se detém a pensar «fomos nós que lhe demos força para todas as malfeitorias que fez, fomos nós que fechámos os olhos e os ouvidos e que fingimos não dar por nada, mesmo quando os próprios opositores internos eram silenciados à força»? Onde está ele agora, o exército dedicado que Vale e Azevedo tinha ontem? Eu digo-vos: está com a D. Carolina Salgado, em nova cruzada. Felizmente, não são e não foram todos: há benfiquistas cuja coragem de então nunca me esquecerei de admirar.
1- Pergunta meramente retórica: o que se sucederá se vier a concluir-se que as acusações despejadas em cascata pela D. Carolina Salgado se comprovarem, afinal, serem: a) falsas, b) incapazes de servirem de prova; c) repetição de suspeitas já constantes do processo Apito Dourado e, entretanto, arquivadas por ausência de fundamento; d) um pouco de tudo isso?
O que sucederá, então? A opinião pública ficará convencida? Concluirá que ela afinal não fez mais do que mentir para garantir as luzes da ribalta e o sucesso dessa obra-prima da literatura, do bom-gosto e das boas-maneiras, que dá pelo nome de Eu, Carolina, ou para se vingar de situações amorosas do foro íntimo, que em nada nos deveriam interessar? Não, obviamente que não. A opinião pública, desde que Carolina Salgado veio à praça e o dr. Pinto Monteiro mandou avançar a Dr.ª Maria José Morgado, já só espera, já só se contentará, com uma e uma única coisa: a acusação, julgamento e condenação de Pinto da Costa e do FC Porto. Qual presunção de inocência, qual ónus da prova de quem acusa, qual princípio do contraditório, qual regra do nexo de causalidade entre os cafézinhos e os resultados no estádio! Se for preciso, crucifica-se também a Dr.ª Maria José Morgado e faz-se um levantamento nacional contra o Estado de Direito. A bem da nação, claro.
Se quiserem saber o que pensa a opinião pública, basta atentar no que diz o presidente do Benfica. Aliás, é sempre útil escutá-lo quando ele vai em romaria às casas do Benfica, ocasiões essas em que garantidamente o coração lhe sai pela boca. Disse ele, de visita a Gândaras: «Começamos a ver as caras do polvo. Todo o país irá saber a verdade sobre a viciação da classificação dos árbitros e dos resultados desportivos. O Benfica já sofreu muito por isso.» Estaria ele a referir-se ao seu ex-aliado e sócio na Liga de Clubes, Valentim Loureiro? Podem crer que não… Da mesma forma que, com a referência aos padecimentos do Benfica, não estava seguramente a pensar no campeonato ganho pelo Sr. Trapattoni…
2- A pergunta que faço tem a sua razão de ser fortalecida à luz das informações que vêm sendo publicadas no semanário Sol pela conhecida jornalista Felícia Cabrita. Se ela está bem informada e se o que diz é verdade, prevejo um horizonte nada dourado para o apito. Escreve Felícia Cabrita: «Quanto aos documentos que Carolina dizia ter e que sustentariam as suas acusações, o seu depoiamento foi vago e inconsistente, o que levou a DCICCEF (Direcção Central de Investigação da Criminalidade e Corrupção Económica e Financeira, da PJ) a fazer uma busca a sua casa. «Nada foi encontrado. Apenas documentos antigos, nomeadamente extractos de contas bancárias» — conta a mesma fonte, acrescentando que em pouco tempo as revelações «revelaram-se um flop». Mais interessante ainda teria sido ouvir o presidente do Benfica comentar a seguinte passagem do artigo de Felícia Cabrita no Sol (e recordo que ela foi a primeira jornalista a registar as acusações de Carolina Salgado, antes mesmo da saída do livro): «Segundo o Sol apurou, o primeiro encontro entre os agentes da DCICCEF e Carolina Salgado ocorreu num hotel da Praça de Espanha, em Lisboa, e teve como intermediário o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira. Com Carolina, estava a redactora do livro, Maria Fernanda Freitas, e a jornalista Leonor Pinhão. Duas semanas antes, o presidente do Benfica entregara na DCICCEF um dossier com documentação que, segundo afirmou, iria provocar um abanão no mundo do futebol, contendo provas de corrupção. Mas, segundo a mesma fonte judicial, Luís Filipe Vieira comprou gato por lebre: «os documentos não passavam de fotocópias de peças processuais do processo Apito Dourado que já foram arquivadas».
Curioso tudo isto… Muito, muito curioso. Os agentes da PJ encontram-se com uma pessoa que, aparentemente, lhes quer fazer uma denúncia, num hotel? E o presidente do Benfica serve de intermediário entre as partes? Se isto é verdade, a que título se terão encontrado todos, visto que a título processual não foi, nem podia ser? Seria um encontro de velhos amigos, de benfiquistas, de fundadores do clube A Verdadeira Investigação que Interessa ao Apito Dourado?
Em verdade vos digo, parafraseando o Hamlet: «Há mais coisas entre o céu e a terra do que a nossa vã sabedoria supõe.» Eu, por mim, enquanto vou assistindo, deliciado, ao progresso das investigações, mantenho o que disse: no lugar de Pinto da Costa, tinha-me demitido quando saiu o livro de Carolina Salgado. Não porque acredite numa palavra do que ela ditou ou porque me sejam indiferentes coisas como a presunção de inocência e a verdade da prova feita em juízo. Mas porque ele lhe atribuiu um papel e uma importância no clube que lhe permitiu ficar em posição de arrastar pela lama, não apenas o nome dele, mas o do próprio clube. Por razões internas, e não externas, portanto.
3- Quanto ao resto, quanto à substância das coisas, vou vendo futebol. E o que vejo (mesmo com o inqualificável acidente de percurso do Atlético, à parte), chega-me para perceber as diferenças e quão desesperada é, consequentemente, a esperança sem fim posta aos ombros da Dr.ª Maria José Morgado. Ah, houvesse alguém que conseguisse estabelecer, por sentença judicial ou por decreto-lei, que o FC Porto joga pior e não pode, não deve absolutamente ser campeão! Se houvesse alguém que, nem que fosse por golpe de Estado, pusesse termo a esta monotonia de, ao fim da primeira volta do campeonato, o FC Porto já ter sete pontos de avanço!
4- Vale e Azevedo prepara-se para voltar à cadeia, para cumprir longas penas. Na altura em que alguns, poucos, ousavam questionar os seus métodos e a moralidade que se auto-atribuía para, também ele, regenerar o futebol português, a multidão da opinião pública caía-nos em cima, defendendo o seu herói, o seu D. Quixote, em cruzada santa contra Pinto da Costa e os bandidos do Norte. Mas, agora, onde estão os seguidores de ontem de Vale e Azevedo? Quem chora por ele uma lágrima, quem se detém a pensar «fomos nós que lhe demos força para todas as malfeitorias que fez, fomos nós que fechámos os olhos e os ouvidos e que fingimos não dar por nada, mesmo quando os próprios opositores internos eram silenciados à força»? Onde está ele agora, o exército dedicado que Vale e Azevedo tinha ontem? Eu digo-vos: está com a D. Carolina Salgado, em nova cruzada. Felizmente, não são e não foram todos: há benfiquistas cuja coragem de então nunca me esquecerei de admirar.
terça-feira, janeiro 16, 2007
O julgamento ( 9 Janeiro 2007)
D. Carolina Salgado chegou pontualmente às 9.30 horas ao Tribunal do Monsanto, toda vestida de branco, numa limusine branca. E sob juramento, cinco dos jurados confessaram ser adeptos do Benfica, dois do Sporting, um da Académica, e a D. Cândida declarou não ter clube.
Ao sexto dia de sessões, finalmente, o Tribunal de Monsanto começou a animar-se. O motivo era a comparência, naquela sessão, da testemunha-chave de todo o processo Apito Dourado, a D. Carolina Salgado. Ela chegou pontualmente às 9.30 da manhã, toda vestida de branco, numa limusine branca, e escoltada por um carro preto, carregado de GOE todos vestidos de preto, de óculos Ray-ban e mão discretamente metida no interior dos casacos, que tomaram posições estratégicas de protecção à testemunha, assim que ela desembarcou da limusine e parou por breves instantes, para sorrir e posar para os fotógrafos e acenar à pequena multidão de curiosos que a saudaram com gritos de «Força Carolina d'Arc, dá cabo do gajo!» À sua espera estava o relações públicas da PGR, que logo a conduziu para a sala das testemunhas VIP, onde a aguardava um ramo de flores e um rol de telegramas de incitamento: um do gabinete de imprensa do SL Benfica, 23 de Casas do Benfica espalhadas pelo Mundo, incluindo a de Ontário, 4 do conhecido cidadão Barbas, uma da escritora Inês Pedrosa em nome «das mulheres seviciadas deste país», e três da Leonor Pinhão.
Antes desse dia, que tudo iria mudar, o tribunal tinha-se arrastado em chatíssimos depoimentos de especialistas em arbitragem, que tentaram demonstrar como o FC Porto havia sido beneficiado com evidentes favores dos árbitros em jogos decisivos, tais como os desafios contra o Estrela da Amadora e o Beira-Mar para o Campeonato, ou os desafios contra o Maia e o Rio Ave, para a Taça. Só o depoimento do especialista Jorge Coroado havia requerido uma sessão inteira, devido à necessidade do uso de tradução simultânea, em especial nas partes que envolviam a «percepção da problemática das condicionantes psicotácticas que podem obstruir o ângulo de visão do árbitro». Visivelmente adormecido com tudo aquilo, o juiz lembrou-se às tantas de fazer a mais estúpida das perguntas:
— Ó Senhora Delegada, o réu FC Porto não era treinado à época dos factos pelo Sr. José Mourinho?
— Era sim, Sr. Dr. Juiz.
— Então e ele não é, como todos dizem, o melhor treinador português?
— E então, Sr. Dr. Juiz?
— Então... é que... não estou a ver bem... bom, adiante!
Também o advogado de defesa, defensor oficioso nomeado pela Ordem, se arriscou, a certa altura, a fazer uma pergunta:
— Ó Sr. Dr. Juiz, aqui, neste jogo entre o FC Porto e o Estrela da Amadora, parece que houve um golo mal anulado ao FC Porto, quando o resultado ainda estava em 0-0. E, no jogo com o Rio Ave, também parece que há um penalty que ficou por marcar... Por que é que esses lances não constam do vídeo nem foram objecto de análise pelos peritos?
— Porque não são matéria que envolva os factos em julgamento: quem está a ser julgado é o FC Porto e o seu presidente, não o Estrela da Amadora ou o Rio Ave, atalhou de imediato a delegada do Ministério Público.
— É isso mesmo, Sr. Dr., sentenciou o juiz, e passou adiante.
Na verdade, a única emoção registada fora logo na primeira sessão, quando se tratou de aprovar a constituição do júri popular requerido pelo Ministério Público. O advogado de defesa pretendeu que os oito jurados populares revelassem a sua filiação clubística antes de serem aprovados. A delegada opôs-se, invocando a inconstitucionalidade de tal pretensão e o que ela significava de devassa da intimidade dos jurados. Mas, tendo o advogado de defesa feito notar que a questão era relevante para apurar da sua isenção a julgar, o juiz não teve outro remédio senão dar-lhe razão. Sob juramento, cinco dos jurados confessaram ser adeptos do Benfica, dois do Sporting, um da Académica e a D. Cândida Modesto declarou não ter filiação clubística.
— Atendendo ao que antecede — ditou o juiz para a acta — considero regularmente constituído o júri. De facto, conforme é público e notório, há seis milhões de benfiquistas em Portugal, três milhões de sportinguistas, um milhão de vários outros clubes, sobrando um milhão que não se interessa pelo assunto. A esta luz, a composição do júri reflecte fielmente o sentir da opinião pública portuguesa.
Fez-se então entrar a testemunha Carolina Salgado, que tomou lugar na barra.
— Nome? Estado civil? — perguntou o juiz.
— Carolina Salgado. Divorciada.
— Morada?
— Por razões de segurança, devo omiti-la: o Sr. Dr. Juiz sabe o que aconteceu ao Dr. Ricardo Bexiga, não sabe?
— Sim, sim, claro, desculpe. Profissão?
— Escritora.
— Peço desculpa, Sr. Dr. Juiz — interveio, meio embaraçado, o advogado de defesa. Um escritor é alguém que escreve e a testemunha declarou publicamente que foi uma amiga que lhe escreveu o livro. Por outro lado, nesse mesmo livro, a testemunha declara que ganhou muito dinheiro como profissional do bar de alterne No calor da noite. Pelo que...
— Protesto, Sr. Dr. Juiz! — interveio a delegada, quase gritando. Eu já estava à espera deste golpe baixo! Pretende-se diminuir a credibilidade da testemunha, chamando-a de alternadeira, quando o que ela é é uma mulher de coragem e um exemplo cívico!
— Não fui eu que chamei, foi a própria testemunha no seu livro...
— Bem, bem, senhores advogados, vamos chegar a um consenso: proponho que a profissão da testemunha fique registada como mulher de coragem. De acordo?
— Nada a opor — declarou a delegada.
— E essa profissão paga impostos? — perguntou o defensor oficioso.
— Se paga impostos? — saltou a delegada, de dedo em riste, apontado ao adversário. Fique sabendo que as mulheres de coragem deste país (que, aliás, são todas), pagam todos os dias na pele e na sua tripla condição de mulheres, mães e trabalhadoras, vítimas que são do mais sórdido machismo de que V.ª Ex.ª acaba de dar mostras...
— Sr.ª Dr.ª...? — interrompeu o juiz, que estava a braços com uma terrível dor de cabeça. Vamos adiante, está bem?
Ouvida, a testemunha confirmou todos os factos arrolados no seu livro e prometeu até novas revelações para futura obra. Na apreciação do juiz e do júri, esclareceu consistentemente todas as questões em causa — incluindo a passagem do seu livro em que refere ter destruído previamente as câmaras de vigilância do parque de estacionamento onde se deu a agressão ao Dr. Ricardo Bexiga, e as quais, afinal, nunca tinham existido em tal parque. Esclareceu ainda um suposto encontro prévio à publicação do livro que terá tido com o senhor presidente do Benfica, bem como uma fantasiosa tentativa de extorsão que terá ensaiado junto do réu Pinto da Costa, pedindo 500.000 euros para não publicar a sua relevante obra sobre as profundezas da vida conjugal, intitulada Eu, Carolina. Saiu da sala sob aplausos do júri, perdão, do público presente, e embarcou de volta na sua limusine branca, rodeada de GOE vestidos de preto, rumo a um futuro cor-de-rosa.
As alegações finais foram rápidas, pouco restando por esclarecer. O defensor oficioso pediu «justiça» e sentou-se. A delegada espraiou-se, sobretudo, na desmontagem da «armadilha jurídica do nexo de causalidade» — essa relação que a lei penal exige que exista entre o acto de corrupção e os seus resultados práticos. Na sua brilhante argumentação, a delegada explicou que era totalmente irrelevante que os jogos em que os réus estavam acusados de corromper os árbitros fossem de menor ou de diminuta importância, e que era até mesmo irrelevante verificar que, afinal, nesses jogos sob suspeita, fosse impossível demonstrar que os réus haviam sido beneficiados pelos árbitros. O que interessava era o princípio: uma vez apalavrado, com cafezinhos e chocolatinhos, um árbitro estaria sempre disponível para o serviço dos réus — assim como um jornalista, que aceita um almoço ou uma viagem pagos por um clube, está sempre disponível para o servir. E, para responder à pergunta insidiosa se os ditos árbitros corruptos apenas se venderiam aos réus deste processo e não também a outros clubes, ela respondeu que, se a justiça se fosse deter a apurar isso, nunca mais ninguém chegaria a julgamento. «Estão aqui réus, factos, provas: resta condená-los» — rematou ela.
O júri conclui rapidamente também pela condenação, depois de afastadas umas hesitações inciais da D. Cândida Modesto, finalmente persuadida sob a ameaça de não poder voltar para casa a tempo de dar o jantar aos gatos. Chegou-se, então, ao momento da leitura da sentença, por parte do Meritíssimo.
— Levantem-se os réus!
Levantou-se o senhor Pinto da Costa e o dragão de peluche que simbolizava o FC Porto. O juiz, tossiu, pôs os óculos e começou a ler:
— O crime de homicídio qualificado de que vêm acusados os réus... O juiz deteve-se, confuso, e chamou o escrivão, falando-lhe em voz baixa:
— Ó Sr. Serafim, não é esta a sentença, caramba! Onde é que está a sentença deste caso?
— Eu não sei, Sr. Dr. Juiz, já foi escrita há tanto tempo!
O juiz começou a remexer freneticamente nos papéis.
— Ah, aqui está! Eu bem me parecia que a tinha escrito a encarnado, para não me enganar! Fez uma pausa e começou a ler:
— Tendo todos os factos da acusação sido dados como provados, condeno o réu Pinto da Costa a três anos e oito meses de prisão em estabelecimento prisional adequado. E condeno o réu F C Porto:
— a ser despojado de todos os títulos nacionais conquistados entre 1994 e 2004, revertendo seis deles a favor do Sport Lisboa e Benfica, três a favor do Sporting Clube de Portugal e um a favor do Sporting Clube de Braga;
— a ser despromovido à I Divisão dos campeonatos distritais do Porto;
— a não poder usar o equipamento com cores azuis e brancas nos próximos dez anos.
Acessoriamente determino:
— que os instrumentos utilizados na consumação dos crimes sejam declarados perdidos a favor da comunidade. Assim, o local conhecido por Estádio do Dragão será entregue ao Dr. Rui Rio, presidente da Câmara do Porto. O património constituído pelos seus profissionais de futebol será posto à disposição, a custo zero, dos clubes prejudicados pela actuação do réu e na proporção dos títulos que lhes foram esbulhados, cabendo a escolha dos três primeiros à Instituição Sport Lisboa e Benfica.
Aqui, houve uma súbita interrupção do porta-voz dos jurados:
— Sr. Dr. Juiz, nós escolhemos o Pepe, o Quaresma e o Anderson.
— Schiu, silêncio! Não lhes compete a vocês escolher, mas sim ao assistente, aqui representado pelo Sr. José Veiga.
E prosseguiu na leitura da sentença:
— que se oficie a UEFA e a FIFA no sentido de serem retirados ao réu os títulos internacionais conquistados neste período, designadamente Taça UEFA, Liga dos Campeões e Taça Intercontinental, sendo os mesmos atribuídos ao Sport Lisboa e Benfica, que deveria ter sido, e não foi, o representante português nas referidas competições, só por esse motivo não as tendo vencido.
Fez outra pausa e bateu com o martelo na mesa.
— Assim se faz justiça e se põe termo a essa vergonha conhecida por Apito Dourado, que permitiu que, ao longo dos anos, todos os portugueses e todos os adeptos de futebol do mundo inteiro pudessem ver como a verdade desportiva era roubada, domingo após domingo, com prejuízo das equipas que todos viam ser bem melhores do que as do réu! Declaro encerrada a audiência.
NOTA: o presente texto não visa, como é óbvio, desconsiderar a justiça portuguesa ou os seus agentes ou retirar qualquer credibilidade às investigações judiciais em curso. Visa apenas ilustrar o que seria a paródia de justiça se ela se consumasse como alguns justiceiros civis a pretendem.
Ao sexto dia de sessões, finalmente, o Tribunal de Monsanto começou a animar-se. O motivo era a comparência, naquela sessão, da testemunha-chave de todo o processo Apito Dourado, a D. Carolina Salgado. Ela chegou pontualmente às 9.30 da manhã, toda vestida de branco, numa limusine branca, e escoltada por um carro preto, carregado de GOE todos vestidos de preto, de óculos Ray-ban e mão discretamente metida no interior dos casacos, que tomaram posições estratégicas de protecção à testemunha, assim que ela desembarcou da limusine e parou por breves instantes, para sorrir e posar para os fotógrafos e acenar à pequena multidão de curiosos que a saudaram com gritos de «Força Carolina d'Arc, dá cabo do gajo!» À sua espera estava o relações públicas da PGR, que logo a conduziu para a sala das testemunhas VIP, onde a aguardava um ramo de flores e um rol de telegramas de incitamento: um do gabinete de imprensa do SL Benfica, 23 de Casas do Benfica espalhadas pelo Mundo, incluindo a de Ontário, 4 do conhecido cidadão Barbas, uma da escritora Inês Pedrosa em nome «das mulheres seviciadas deste país», e três da Leonor Pinhão.
Antes desse dia, que tudo iria mudar, o tribunal tinha-se arrastado em chatíssimos depoimentos de especialistas em arbitragem, que tentaram demonstrar como o FC Porto havia sido beneficiado com evidentes favores dos árbitros em jogos decisivos, tais como os desafios contra o Estrela da Amadora e o Beira-Mar para o Campeonato, ou os desafios contra o Maia e o Rio Ave, para a Taça. Só o depoimento do especialista Jorge Coroado havia requerido uma sessão inteira, devido à necessidade do uso de tradução simultânea, em especial nas partes que envolviam a «percepção da problemática das condicionantes psicotácticas que podem obstruir o ângulo de visão do árbitro». Visivelmente adormecido com tudo aquilo, o juiz lembrou-se às tantas de fazer a mais estúpida das perguntas:
— Ó Senhora Delegada, o réu FC Porto não era treinado à época dos factos pelo Sr. José Mourinho?
— Era sim, Sr. Dr. Juiz.
— Então e ele não é, como todos dizem, o melhor treinador português?
— E então, Sr. Dr. Juiz?
— Então... é que... não estou a ver bem... bom, adiante!
Também o advogado de defesa, defensor oficioso nomeado pela Ordem, se arriscou, a certa altura, a fazer uma pergunta:
— Ó Sr. Dr. Juiz, aqui, neste jogo entre o FC Porto e o Estrela da Amadora, parece que houve um golo mal anulado ao FC Porto, quando o resultado ainda estava em 0-0. E, no jogo com o Rio Ave, também parece que há um penalty que ficou por marcar... Por que é que esses lances não constam do vídeo nem foram objecto de análise pelos peritos?
— Porque não são matéria que envolva os factos em julgamento: quem está a ser julgado é o FC Porto e o seu presidente, não o Estrela da Amadora ou o Rio Ave, atalhou de imediato a delegada do Ministério Público.
— É isso mesmo, Sr. Dr., sentenciou o juiz, e passou adiante.
Na verdade, a única emoção registada fora logo na primeira sessão, quando se tratou de aprovar a constituição do júri popular requerido pelo Ministério Público. O advogado de defesa pretendeu que os oito jurados populares revelassem a sua filiação clubística antes de serem aprovados. A delegada opôs-se, invocando a inconstitucionalidade de tal pretensão e o que ela significava de devassa da intimidade dos jurados. Mas, tendo o advogado de defesa feito notar que a questão era relevante para apurar da sua isenção a julgar, o juiz não teve outro remédio senão dar-lhe razão. Sob juramento, cinco dos jurados confessaram ser adeptos do Benfica, dois do Sporting, um da Académica e a D. Cândida Modesto declarou não ter filiação clubística.
— Atendendo ao que antecede — ditou o juiz para a acta — considero regularmente constituído o júri. De facto, conforme é público e notório, há seis milhões de benfiquistas em Portugal, três milhões de sportinguistas, um milhão de vários outros clubes, sobrando um milhão que não se interessa pelo assunto. A esta luz, a composição do júri reflecte fielmente o sentir da opinião pública portuguesa.
Fez-se então entrar a testemunha Carolina Salgado, que tomou lugar na barra.
— Nome? Estado civil? — perguntou o juiz.
— Carolina Salgado. Divorciada.
— Morada?
— Por razões de segurança, devo omiti-la: o Sr. Dr. Juiz sabe o que aconteceu ao Dr. Ricardo Bexiga, não sabe?
— Sim, sim, claro, desculpe. Profissão?
— Escritora.
— Peço desculpa, Sr. Dr. Juiz — interveio, meio embaraçado, o advogado de defesa. Um escritor é alguém que escreve e a testemunha declarou publicamente que foi uma amiga que lhe escreveu o livro. Por outro lado, nesse mesmo livro, a testemunha declara que ganhou muito dinheiro como profissional do bar de alterne No calor da noite. Pelo que...
— Protesto, Sr. Dr. Juiz! — interveio a delegada, quase gritando. Eu já estava à espera deste golpe baixo! Pretende-se diminuir a credibilidade da testemunha, chamando-a de alternadeira, quando o que ela é é uma mulher de coragem e um exemplo cívico!
— Não fui eu que chamei, foi a própria testemunha no seu livro...
— Bem, bem, senhores advogados, vamos chegar a um consenso: proponho que a profissão da testemunha fique registada como mulher de coragem. De acordo?
— Nada a opor — declarou a delegada.
— E essa profissão paga impostos? — perguntou o defensor oficioso.
— Se paga impostos? — saltou a delegada, de dedo em riste, apontado ao adversário. Fique sabendo que as mulheres de coragem deste país (que, aliás, são todas), pagam todos os dias na pele e na sua tripla condição de mulheres, mães e trabalhadoras, vítimas que são do mais sórdido machismo de que V.ª Ex.ª acaba de dar mostras...
— Sr.ª Dr.ª...? — interrompeu o juiz, que estava a braços com uma terrível dor de cabeça. Vamos adiante, está bem?
Ouvida, a testemunha confirmou todos os factos arrolados no seu livro e prometeu até novas revelações para futura obra. Na apreciação do juiz e do júri, esclareceu consistentemente todas as questões em causa — incluindo a passagem do seu livro em que refere ter destruído previamente as câmaras de vigilância do parque de estacionamento onde se deu a agressão ao Dr. Ricardo Bexiga, e as quais, afinal, nunca tinham existido em tal parque. Esclareceu ainda um suposto encontro prévio à publicação do livro que terá tido com o senhor presidente do Benfica, bem como uma fantasiosa tentativa de extorsão que terá ensaiado junto do réu Pinto da Costa, pedindo 500.000 euros para não publicar a sua relevante obra sobre as profundezas da vida conjugal, intitulada Eu, Carolina. Saiu da sala sob aplausos do júri, perdão, do público presente, e embarcou de volta na sua limusine branca, rodeada de GOE vestidos de preto, rumo a um futuro cor-de-rosa.
As alegações finais foram rápidas, pouco restando por esclarecer. O defensor oficioso pediu «justiça» e sentou-se. A delegada espraiou-se, sobretudo, na desmontagem da «armadilha jurídica do nexo de causalidade» — essa relação que a lei penal exige que exista entre o acto de corrupção e os seus resultados práticos. Na sua brilhante argumentação, a delegada explicou que era totalmente irrelevante que os jogos em que os réus estavam acusados de corromper os árbitros fossem de menor ou de diminuta importância, e que era até mesmo irrelevante verificar que, afinal, nesses jogos sob suspeita, fosse impossível demonstrar que os réus haviam sido beneficiados pelos árbitros. O que interessava era o princípio: uma vez apalavrado, com cafezinhos e chocolatinhos, um árbitro estaria sempre disponível para o serviço dos réus — assim como um jornalista, que aceita um almoço ou uma viagem pagos por um clube, está sempre disponível para o servir. E, para responder à pergunta insidiosa se os ditos árbitros corruptos apenas se venderiam aos réus deste processo e não também a outros clubes, ela respondeu que, se a justiça se fosse deter a apurar isso, nunca mais ninguém chegaria a julgamento. «Estão aqui réus, factos, provas: resta condená-los» — rematou ela.
O júri conclui rapidamente também pela condenação, depois de afastadas umas hesitações inciais da D. Cândida Modesto, finalmente persuadida sob a ameaça de não poder voltar para casa a tempo de dar o jantar aos gatos. Chegou-se, então, ao momento da leitura da sentença, por parte do Meritíssimo.
— Levantem-se os réus!
Levantou-se o senhor Pinto da Costa e o dragão de peluche que simbolizava o FC Porto. O juiz, tossiu, pôs os óculos e começou a ler:
— O crime de homicídio qualificado de que vêm acusados os réus... O juiz deteve-se, confuso, e chamou o escrivão, falando-lhe em voz baixa:
— Ó Sr. Serafim, não é esta a sentença, caramba! Onde é que está a sentença deste caso?
— Eu não sei, Sr. Dr. Juiz, já foi escrita há tanto tempo!
O juiz começou a remexer freneticamente nos papéis.
— Ah, aqui está! Eu bem me parecia que a tinha escrito a encarnado, para não me enganar! Fez uma pausa e começou a ler:
— Tendo todos os factos da acusação sido dados como provados, condeno o réu Pinto da Costa a três anos e oito meses de prisão em estabelecimento prisional adequado. E condeno o réu F C Porto:
— a ser despojado de todos os títulos nacionais conquistados entre 1994 e 2004, revertendo seis deles a favor do Sport Lisboa e Benfica, três a favor do Sporting Clube de Portugal e um a favor do Sporting Clube de Braga;
— a ser despromovido à I Divisão dos campeonatos distritais do Porto;
— a não poder usar o equipamento com cores azuis e brancas nos próximos dez anos.
Acessoriamente determino:
— que os instrumentos utilizados na consumação dos crimes sejam declarados perdidos a favor da comunidade. Assim, o local conhecido por Estádio do Dragão será entregue ao Dr. Rui Rio, presidente da Câmara do Porto. O património constituído pelos seus profissionais de futebol será posto à disposição, a custo zero, dos clubes prejudicados pela actuação do réu e na proporção dos títulos que lhes foram esbulhados, cabendo a escolha dos três primeiros à Instituição Sport Lisboa e Benfica.
Aqui, houve uma súbita interrupção do porta-voz dos jurados:
— Sr. Dr. Juiz, nós escolhemos o Pepe, o Quaresma e o Anderson.
— Schiu, silêncio! Não lhes compete a vocês escolher, mas sim ao assistente, aqui representado pelo Sr. José Veiga.
E prosseguiu na leitura da sentença:
— que se oficie a UEFA e a FIFA no sentido de serem retirados ao réu os títulos internacionais conquistados neste período, designadamente Taça UEFA, Liga dos Campeões e Taça Intercontinental, sendo os mesmos atribuídos ao Sport Lisboa e Benfica, que deveria ter sido, e não foi, o representante português nas referidas competições, só por esse motivo não as tendo vencido.
Fez outra pausa e bateu com o martelo na mesa.
— Assim se faz justiça e se põe termo a essa vergonha conhecida por Apito Dourado, que permitiu que, ao longo dos anos, todos os portugueses e todos os adeptos de futebol do mundo inteiro pudessem ver como a verdade desportiva era roubada, domingo após domingo, com prejuízo das equipas que todos viam ser bem melhores do que as do réu! Declaro encerrada a audiência.
NOTA: o presente texto não visa, como é óbvio, desconsiderar a justiça portuguesa ou os seus agentes ou retirar qualquer credibilidade às investigações judiciais em curso. Visa apenas ilustrar o que seria a paródia de justiça se ela se consumasse como alguns justiceiros civis a pretendem.
segunda-feira, janeiro 08, 2007
A escolha de Pepe ( 2 Janeiro 2007)
Não se pode aceitar Obikwelu porque era a nossa grande esperança de uma medalha olímpica, nem recusar Pepe porque de momento não temos uma necessidade premente de centrais.
1- Num mundo perfeito, não haveria selecções nacionais que não fossem compostas integralmente por nacionais nascidos no país ou filhos de pais nascidos no país, e que soubessem perfeitamente cantar o hino, falar a língua e debitar um mínimo de generalidades sobre a história, a geografia e a cultura do país cuja nacionalidade invocassem. Mas, num mundo perfeito, também não haveria tantos emigrantes por necessidade, tanta gente deslocada das suas raízes e da sua terra, apenas para conseguir sobreviver.
Mas também num mundo justo a pátria é onde nos sentimos em casa, onde nos apetece trabalhar, viver, ter filhos, criar outras raízes. Em Portugal e apenas no futebol existem cerca de mil brasileiros a trabalhar. Ao fim de seis anos, segundo a Lei da Nacionalidade, eles auferem o direito de requerer a nacionalidade portuguesa, passando a beneficiar de dupla nacionalidade: a portuguesa, que adquiriram, e a brasileira, que não perderam. Um desses mil jogadores é Pepe, central do FC Porto que, como aqui escrevi na semana passada, é, em minha opinião, o melhor central do mundo actualmente. Porque o Brasil tem muitos e bons jogadores ou porque também na selecção brasileira vigora a lei Scolari de só chamar os que já se conhecem, Pepe nunca mereceu a honra e a justiça de uma chamada ao escrete. Sai a perder o Brasil, pode sair a ganhar Portugal — se a Federação for sensível à firme e reiterada vontade de Pepe em jogar pela Selecção Nacional. A fazer fé em Scolari, a vontade de Pepe é mesmo essa: ou joga pela Selecção portuguesa ou não joga por nenhuma.
Confrontado com o desafio de Pepe, o presidente da federação, Gilberto Madail, esclareceu a sua posição, não esclarecendo nada: por um lado, «é preciso aproveitar as oportunidades de um mercado restrito»; por outro lado, «é preciso manter a identidade da Selecção». Diga-se, em abono do desamparado Madail, que a questão não é fácil de resolver.
Primeiro, há que distinguir dois planos: o da Lei da Nacionalidade e o dos critérios próprios das selecções nacionais. A diferença está em que o primeiro estabelece quem é que é português e o segundo quem é que pode representar Portugal. Juridicamente, quem pode uma coisa pode a outra mas, em termos de imagem, há toda uma diferença: suponhamos que Paul Auster naturalizava-se português — será que o poderíamos considerar representante da literatura portuguesa?
No plano da Lei da Nacionalidade — a nossa — não discuto os critérios da sua aquisição, o que discuto é o estatuto que ela confere. Se alguém decide naturalizar-se português, ou chinês, ou bielorrusso, não acho lógico nem justo que possa simultaneamente manter a nacionalidade de origem: ou se é português ou brasileiro; as duas coisas ao mesmo tempo parece-me um privilégio excessivo e sem justificação.
Mas a verdade é que é com esta Lei da Nacionalidade e outras idênticas, que as nossas Federação Nacionais e de outros países têm de se haver. E aí é que começam as dúvidas e os dilemas: todos nós, obviamente, gostaríamos de nos ver representados por selecções desportivas que não desvirtuassem a sua identidade de representações nacionais. Mais: entre a opção de ganhar menos vezes só com atletas nacionais, ou ganhar mais recorrendo também a atletas naturalizados, eu, pessoalmente, preferiria a primeira. Mas a verdade é que o país inteiro vibrou, por exemplo, com as proezas olímpicas de Francis Obikwelu, que pouco tem de português, para além do facto de nem sequer residir em Portugal. O que vale para o atletismo não vale para o futebol?
Por outro lado, existe este argumento decisivo: se vivemos num mundo progressivamente globalizado, se instituímos, e bem, uma Europa sem fronteiras, que é uma das principais aquisições da nacionalidade e estatuto europeu, e se todos os outros fazem o mesmo, que razão ponderosa nos levaria a constituir excepção? Todos sabemos que a França, que foi campeã do Mundo, não teria mais de três ou quatro jogadores genuinamente franceses; todos vimos a selecção da Suécia (a terra dos vikings altos e loiros) com metade dos jogadores de raça negra, e o mesmo sucede com a selecção inglesa; se a selecção espanhola que esteve na Alemanha jogava com um brasileiro naturalizado a meio-campo e diversas selecções de países do Leste europeu fazem o mesmo, quem somos nós para adoptarmos critérios mais restritivos? Acaso um brasileiro não tem muito mais a ver connosco que com Espanha, Rússia ou Bósnia-Herzegovina?
A questão, todavia, só se nos pôs, nos tempos recentes, com o Deco. E a verdade é que Deco tem demonstrado uma dedicação à Selecção portuguesa muito para além do que seria legítimo esperar. Ao contrário de outros, portugueses de gema, que entram e saem da Selecção ao sabor das suas conveniências pessoais, Deco, mesmo depois de se ter mudado para Espanha, tem estado sempre disponível quando é chamado. Então, pergunta-se: se Deco foi aceite, porque não deverá ser Pepe?
Mas é justamente aqui que as dúvidas se adensam: depois de Deco e Pepe, quem se seguirá? A tentação de abrasileirar a Selecção é terrível e isso implica que, para além de todas as dúvidas e dilemas, se estabeleça um critério e se termine com o casuísmo em que temos vivido. Tem de haver regras que sejam claras, públicas e imutáveis — que se apliquem sempre e em todos os casos e que não variem conforme as situações e as necessidades. Não sei quais devam ser essas regras — penso que devem sair de um debate profundo e de um trabalho de reflexão sério, eventualmente promovido a nível do Governo e para valer para todas as modalidades. Mas há um critério que rejeito logo à partida por me parecer de flagrante oportunismo: o das conveniências das selecções. Ou seja, não se pode aceitar Obikwelu porque era a nossa grande esperança de uma medalha olímpica, nem recusar Pepe porque de momento não temos necessidade premente de centrais.
2- O Conselho de Disciplina da Liga viu-se obrigado a vir explicar por que razão, ao contrário do que tem sido sempre a regra, aplicou apenas um jogo de suspensão a Nuno Gomes, expulso com um vermelho directo em Alvalade, depois daquela entrada, quase agressão pura, a Tonel. E a explicação foi extraordinária: porque Nuno Gomes — embora já tivesse visto neste campeonato um vermelho directo no Bessa — não era reincidente, visto que o primeiro fora por palavras ao árbitro e o segundo por entrada sobre um adversário. A inovação (veremos se também vale para outros casos...) é de pasmar: a partir de agora, um vermelho directo vale o mesmo que dois amarelos e só dá origem a dois jogos de suspensão se os motivos forem os mesmos. Assim, um jogador pode ser expulso quatro vezes — uma porque insultou o árbitro, outra porque agrediu um adversário, outra porque fez gestos obscenos para o público, outra porque cortou a bola com a mão na linha de golo — e de todas as vezes levará apenas um jogo de suspensão.
É por estas e outras que eu, ao arrepio daquilo que é a esmagadora maioria das opiniões expressas, sou a favor da proibição dos magistrados no futebol. Porque não dignificam o futebol e muito menos as magistraturas.
1- Num mundo perfeito, não haveria selecções nacionais que não fossem compostas integralmente por nacionais nascidos no país ou filhos de pais nascidos no país, e que soubessem perfeitamente cantar o hino, falar a língua e debitar um mínimo de generalidades sobre a história, a geografia e a cultura do país cuja nacionalidade invocassem. Mas, num mundo perfeito, também não haveria tantos emigrantes por necessidade, tanta gente deslocada das suas raízes e da sua terra, apenas para conseguir sobreviver.
Mas também num mundo justo a pátria é onde nos sentimos em casa, onde nos apetece trabalhar, viver, ter filhos, criar outras raízes. Em Portugal e apenas no futebol existem cerca de mil brasileiros a trabalhar. Ao fim de seis anos, segundo a Lei da Nacionalidade, eles auferem o direito de requerer a nacionalidade portuguesa, passando a beneficiar de dupla nacionalidade: a portuguesa, que adquiriram, e a brasileira, que não perderam. Um desses mil jogadores é Pepe, central do FC Porto que, como aqui escrevi na semana passada, é, em minha opinião, o melhor central do mundo actualmente. Porque o Brasil tem muitos e bons jogadores ou porque também na selecção brasileira vigora a lei Scolari de só chamar os que já se conhecem, Pepe nunca mereceu a honra e a justiça de uma chamada ao escrete. Sai a perder o Brasil, pode sair a ganhar Portugal — se a Federação for sensível à firme e reiterada vontade de Pepe em jogar pela Selecção Nacional. A fazer fé em Scolari, a vontade de Pepe é mesmo essa: ou joga pela Selecção portuguesa ou não joga por nenhuma.
Confrontado com o desafio de Pepe, o presidente da federação, Gilberto Madail, esclareceu a sua posição, não esclarecendo nada: por um lado, «é preciso aproveitar as oportunidades de um mercado restrito»; por outro lado, «é preciso manter a identidade da Selecção». Diga-se, em abono do desamparado Madail, que a questão não é fácil de resolver.
Primeiro, há que distinguir dois planos: o da Lei da Nacionalidade e o dos critérios próprios das selecções nacionais. A diferença está em que o primeiro estabelece quem é que é português e o segundo quem é que pode representar Portugal. Juridicamente, quem pode uma coisa pode a outra mas, em termos de imagem, há toda uma diferença: suponhamos que Paul Auster naturalizava-se português — será que o poderíamos considerar representante da literatura portuguesa?
No plano da Lei da Nacionalidade — a nossa — não discuto os critérios da sua aquisição, o que discuto é o estatuto que ela confere. Se alguém decide naturalizar-se português, ou chinês, ou bielorrusso, não acho lógico nem justo que possa simultaneamente manter a nacionalidade de origem: ou se é português ou brasileiro; as duas coisas ao mesmo tempo parece-me um privilégio excessivo e sem justificação.
Mas a verdade é que é com esta Lei da Nacionalidade e outras idênticas, que as nossas Federação Nacionais e de outros países têm de se haver. E aí é que começam as dúvidas e os dilemas: todos nós, obviamente, gostaríamos de nos ver representados por selecções desportivas que não desvirtuassem a sua identidade de representações nacionais. Mais: entre a opção de ganhar menos vezes só com atletas nacionais, ou ganhar mais recorrendo também a atletas naturalizados, eu, pessoalmente, preferiria a primeira. Mas a verdade é que o país inteiro vibrou, por exemplo, com as proezas olímpicas de Francis Obikwelu, que pouco tem de português, para além do facto de nem sequer residir em Portugal. O que vale para o atletismo não vale para o futebol?
Por outro lado, existe este argumento decisivo: se vivemos num mundo progressivamente globalizado, se instituímos, e bem, uma Europa sem fronteiras, que é uma das principais aquisições da nacionalidade e estatuto europeu, e se todos os outros fazem o mesmo, que razão ponderosa nos levaria a constituir excepção? Todos sabemos que a França, que foi campeã do Mundo, não teria mais de três ou quatro jogadores genuinamente franceses; todos vimos a selecção da Suécia (a terra dos vikings altos e loiros) com metade dos jogadores de raça negra, e o mesmo sucede com a selecção inglesa; se a selecção espanhola que esteve na Alemanha jogava com um brasileiro naturalizado a meio-campo e diversas selecções de países do Leste europeu fazem o mesmo, quem somos nós para adoptarmos critérios mais restritivos? Acaso um brasileiro não tem muito mais a ver connosco que com Espanha, Rússia ou Bósnia-Herzegovina?
A questão, todavia, só se nos pôs, nos tempos recentes, com o Deco. E a verdade é que Deco tem demonstrado uma dedicação à Selecção portuguesa muito para além do que seria legítimo esperar. Ao contrário de outros, portugueses de gema, que entram e saem da Selecção ao sabor das suas conveniências pessoais, Deco, mesmo depois de se ter mudado para Espanha, tem estado sempre disponível quando é chamado. Então, pergunta-se: se Deco foi aceite, porque não deverá ser Pepe?
Mas é justamente aqui que as dúvidas se adensam: depois de Deco e Pepe, quem se seguirá? A tentação de abrasileirar a Selecção é terrível e isso implica que, para além de todas as dúvidas e dilemas, se estabeleça um critério e se termine com o casuísmo em que temos vivido. Tem de haver regras que sejam claras, públicas e imutáveis — que se apliquem sempre e em todos os casos e que não variem conforme as situações e as necessidades. Não sei quais devam ser essas regras — penso que devem sair de um debate profundo e de um trabalho de reflexão sério, eventualmente promovido a nível do Governo e para valer para todas as modalidades. Mas há um critério que rejeito logo à partida por me parecer de flagrante oportunismo: o das conveniências das selecções. Ou seja, não se pode aceitar Obikwelu porque era a nossa grande esperança de uma medalha olímpica, nem recusar Pepe porque de momento não temos necessidade premente de centrais.
2- O Conselho de Disciplina da Liga viu-se obrigado a vir explicar por que razão, ao contrário do que tem sido sempre a regra, aplicou apenas um jogo de suspensão a Nuno Gomes, expulso com um vermelho directo em Alvalade, depois daquela entrada, quase agressão pura, a Tonel. E a explicação foi extraordinária: porque Nuno Gomes — embora já tivesse visto neste campeonato um vermelho directo no Bessa — não era reincidente, visto que o primeiro fora por palavras ao árbitro e o segundo por entrada sobre um adversário. A inovação (veremos se também vale para outros casos...) é de pasmar: a partir de agora, um vermelho directo vale o mesmo que dois amarelos e só dá origem a dois jogos de suspensão se os motivos forem os mesmos. Assim, um jogador pode ser expulso quatro vezes — uma porque insultou o árbitro, outra porque agrediu um adversário, outra porque fez gestos obscenos para o público, outra porque cortou a bola com a mão na linha de golo — e de todas as vezes levará apenas um jogo de suspensão.
É por estas e outras que eu, ao arrepio daquilo que é a esmagadora maioria das opiniões expressas, sou a favor da proibição dos magistrados no futebol. Porque não dignificam o futebol e muito menos as magistraturas.
FC Porto 2006/2007 ( 26 Dezembro 2006)
Parabéns a Jesualdo Ferreira e a todos os que contribuem para o sopro do dragão. De A a Z, eis o dicionário destes quatro meses de triunfo.
O FC Porto, de Jesualdo Ferreira, esmaga a concorrência: é a única equipa portuguesa que se mantém ao mais alto nível na Europa, depois de uma recuperação brilhante na fase de grupos da Champions; é o líder do Campeonato, com uma vantagem já simpática sobre os seus dois rivais directos; tem o maior número de golos marcados e o menor número de golos sofridos; lidera o troféu do melhor marcador, do melhor jogador do Campeonato e do jogador mais valioso; lidera o Troféu BES e o Troféu Disciplina; é a equipa com maior média de assistências por jogo e talvez a única de que não é possível dizer que deve um único ponto às arbitragens. Melhor, honestamente, era impossível. Parabéns a Jesualdo Ferreira e a todos os que contribuem para o sopro do dragão. De A a Z, eis o dicionário destes quatro meses de triunfo.
ADRIAANSE — A primeira e mais decisiva entrada deste dicionário. A sua saída, antes de disputado qualquer jogo oficial, foi a melhor notícia e a mais importante aquisição nesta temporada. Não era por acaso que todos os anti-portistas elogiavam tanto Adriaanse: a sua irracionalidade, teimosia e arrogância acabariam por desfazer uma grande equipa. Deve estar a roer-se de inveja por constatar que, com a mesmíssima equipa e um sistema de jogo natural, Jesualdo Ferreira pôs o FC Porto a vencer e a marcar golos, uniu a equipa e o balneário, recuperou jogadores banidos e fez as pazes com o público.
ADRIANO — Parece que está de saída para o Sporting Braga, confirmando que nunca seria mais do que um razoável suplente.
ALAN — Inconstante e inseguro, capaz de coisas boas e de trapalhadas sem sentido. Pode fazer melhor.
ANDERSON — Um dos três génios da equipa, o vértice central do triângulo verdadeiramente luxuoso: Pepe, Anderson, Quaresma. É um médio de ataque que só sabe jogar para a frente e em movimento constante. Com ele, não há paragens nem quebras de ritmo — é um carrossel alucinante que põe a cabeça em água aos adversários. Há muito que não via um jogador assim e penso que todos aqueles que, acima de tudo, gostam de ver grande futebol, só podem lamentar aquela entrada de Katsouranis que o retirou da nossa vista durante quatro ou cinco meses. Se voltar igual ao que era, vale seguramente uns 40 milhões de euros — sobretudo, se voltar antes dos decisivos jogos com o Chelsea.
ATITUDE — É o grande plus deste clube e das equipas que o vão representando, ano após ano. Os jogadores do FC Porto são melhores profissionais e têm mais respeito pelo clube e pelos adeptos que quaisquer outros. Vítor Baía é, neste momento, o exemplo: onde estão os vítor baías do Sporting ou do Benfica?
BOSINGWA — Também irregular e inconstante, mas a melhorar claramente. Fez-lhe bem ter finalmente concorrência — a de Fucile. Deveria tentar mais as derivações pelo meio porque é bom em drible e em progressão.
BRUNO ALVES — Em relação a ele e a Postiga, dou a mão à palmatória: nunca pensei que Jesualdo conseguisse transformá-los em bons jogadores. Talvez pelo contágio de Pepe ou pela segurança que as oportunidades de jogar lhe deram, Bruno Alves não tem nada a ver com o jogador da época transacta, que não sabia quando atacar a bola e que a despachava de qualquer maneira. Está a crescer, jogo após jogo.
BRUNO MORAIS — Um só jogo que lhe vi, ainda na pré-temporada, foi o suficiente para entender por que razão Mourinho o contratou. Apesar do azar e das lesões, apesar do renascimento de Postiga, Bruno Morais já deu indicações suficientes de que está ali um grande jogador, pronto a explodir. Que a sorte finalmente o acompanhe!
CAROLINA SALGADO — Não joga pelo FC Porto, mas joga e muito, pelos adversários. Quis, com a sua traição e o seu abjecto panfleto, manchar o trabalho de todos estes jogadores e técnicos, que se batiam no campo enquanto ela se exibia no camarote. Mas acredito que, no fim, a verdade virá ao de cima, embora a desonra e os danos já ninguém os apague.
CECH — Um bom jogador, não um extraordinário jogador. Ataca bem, defende pior. Mas tem terreno e idade para progredir.
CSKA MOSCOVO — A vitória decisiva, a demonstração que faltava de que este FC Porto é herdeiro dos grandes FC Porto que honraram este país e o nosso futebol. Por muito que isso custe a engolir a muitos.
DIEGO — Há um que saiu e bem, em minha opinião, e outro que vai entrar. O que saiu era o oposto de Anderson: travava o jogo, perdia-se em rodriguinhos inúteis e não sabia onde ficava a baliza do adversário.
DIOGO VALENTE — Parece que vai ser emprestado, mas gostaria de o ter visto mais vezes em jogo. Não deixa de ser impressionante pensar que, das sete aquisições feitas pelo FC Porto esta época — Paulo Ribeiro, Ezequias, João Paulo, Tarik Sektoui, Diogo Valente, Vieirinha (este promovido) e Fucile — só o último é regularmente utilizado.
DÍVIDAS DA SAD — Trinta milhões de euros declarados no último exercício: um descalabro que, fatalmente, terá de ser remediado, mais tarde ou mais cedo, com a venda dos anéis. Esta febre de comprar jogadores que não servem para nada a não ser para serem emprestados explica muita coisa. Só falta explicar para que os compram.
ESTÁDIO DO DRAGÃO — O mais bonito estádio de futebol que alguma vez vi. Uma das melhores obras de sempre da arquitectura portuguesa. E é sempre a primeira vez em cada regresso a casa.
EZEQUIAS — Quem o comprou que explique.
FUCILE — Ah, uma na mouche! Grande miúdo, grande personalidade, grande coragem! Vai deixar marca.
GOLOS — Afinal, não era o sistema maluco de Adriaanse que os conseguia. Este ano, de volta ao 4x3x3, o FC Porto só ficou em branco em jogos da Champions.
HÉLDER POSTIGA — A impossível ressurreição. Quem o viu nas três temporadas anteriores, custa-lhe a crer que seja o mesmo. Não é só ter começado a marcar golos, é tudo o resto: remata, corre, desmarca-se, tem alegria em jogar. Antes, não se mexia, não se dava a incómodos. Será para durar?
HELTON — A elegância na baliza e a rapidez de reflexos. Mas falta-lhe ainda uma coisa para me tranquilizar: aprender a sair às bolas altas como o Baía faz.
IBSON — Vale mais do que mostra. Valerá bem mais quando puser os olhos em Anderson e perceber que nenhuma jogada, por mais espectacular que seja, tem interesse se, no fim, a bola acaba nos pés dos adversários. Levante a cabeça e olhe para o jogo!
JESUALDO FERREIRA — Até que enfim, um treinador normal! Até que enfim, alguém para quem a inteligência supera a vaidade! Merece todo o crédito pela revolução tranquila que está a levar a cabo no FC Porto.
JORGE COSTA — Teve uma despedida despercebida e injusta mas há-de voltar, porque faz parte da vida deste clube.
JORGINHO — Um mistério eternamente por esclarecer: como é que era tão bom em Setúbal e é tão abúlico no Porto? Mas já teve oportunidades suficientes — só se pode queixar de si próprio.
JOÃO PAULO — Quem o comprou deveria ter alguma ideia: importa-se de dizer qual era?
KATSOURANIS — Joga pelos outros, mas sozinho causou-nos maiores danos do que todos os adversários e inimigos juntos. Quando for o jogo da Luz, é de esperar que Jesualdo deixe Quaresma no banco!
LISANDRO — Umas vezes bem, outras nem tanto. Ainda faz sentir saudades de Derlei.
LUCHO — Dois jogos de classe e dois golos portentosos — contra o Hamburgo e o Nacional. No resto, muito, muito aquém do que pode e sabe. Deve bem mais à equipa.
PAULO ASSUNÇÃO — Muito longe do nível da época passada e o meio-campo ressente-se disso.
PEDRO EMANUEL — Lesionado logo no início da época, vai ter um regresso difícil.
PEPE — Podem levar à conta de facciosismo clubístico mas é isto que eu penso e já vem de trás: é o melhor central do Mundo, na actualidade.
PAULO RIBEIRO - ?
PINTO DA COSTA — Enfrenta o seu ano de todos os perigos. Carolina e o défice são dois combates que não consentem subterfúgios.
RAUL MEIRELES — Claramente, o elemento mais fraco da equipa. Vagueia pelo campo, sem grande utilidade visível. Alguém estabeleceu que era um grande rematador de meia-distância: há seis meses que não acerta um remate na baliza.
REINALDO TELES — O homem que está lá sempre. For all seasons.
RICARDO COSTA — Sem lugar na equipa. De saída, normal, para Marselha.
RICARDO QUARESMA — Pegou no facho depois de Anderson cair em combate e levou a equipa atrás, mostrando que é o melhor futebolista português da actualidade e um dos melhores do Mundo nas suas várias posições. É um jogador absolutamente excepcional, como já o era no ano passado e há dois anos, e agora se percebe melhor o crime que foi deixá-lo de fora do Mundial-2006. Em lugar de explicações sem sentido, Scolari deveria pedir desculpa — a ele, aos portugueses e a todos os que gostam de futebol e não o puderam ver na Alemanha.
RUI BARROS — Missão cumprida. Mais uma. E a Supertaça no bolso.
SOKOTA — O mais azarado e o mais caro do clube.
TARIK SEKTOUI — Talvez um razoável suplente.
VIEIRINHA — A grande revelação da pré-época, a que Jesualdo não deu continuidade. E é pena, porque parece estar ali um grande jogador em potência.
VÍTOR BAÍA — Capitão do balneário, treinador adjunto oficioso, guarda-redes suplente, o que quiserem: Baía é a Torre dos Clérigos desta equipa, um jogador e um desportista como não há outro e já tenho saudade de o ver jogar.
O FC Porto, de Jesualdo Ferreira, esmaga a concorrência: é a única equipa portuguesa que se mantém ao mais alto nível na Europa, depois de uma recuperação brilhante na fase de grupos da Champions; é o líder do Campeonato, com uma vantagem já simpática sobre os seus dois rivais directos; tem o maior número de golos marcados e o menor número de golos sofridos; lidera o troféu do melhor marcador, do melhor jogador do Campeonato e do jogador mais valioso; lidera o Troféu BES e o Troféu Disciplina; é a equipa com maior média de assistências por jogo e talvez a única de que não é possível dizer que deve um único ponto às arbitragens. Melhor, honestamente, era impossível. Parabéns a Jesualdo Ferreira e a todos os que contribuem para o sopro do dragão. De A a Z, eis o dicionário destes quatro meses de triunfo.
ADRIAANSE — A primeira e mais decisiva entrada deste dicionário. A sua saída, antes de disputado qualquer jogo oficial, foi a melhor notícia e a mais importante aquisição nesta temporada. Não era por acaso que todos os anti-portistas elogiavam tanto Adriaanse: a sua irracionalidade, teimosia e arrogância acabariam por desfazer uma grande equipa. Deve estar a roer-se de inveja por constatar que, com a mesmíssima equipa e um sistema de jogo natural, Jesualdo Ferreira pôs o FC Porto a vencer e a marcar golos, uniu a equipa e o balneário, recuperou jogadores banidos e fez as pazes com o público.
ADRIANO — Parece que está de saída para o Sporting Braga, confirmando que nunca seria mais do que um razoável suplente.
ALAN — Inconstante e inseguro, capaz de coisas boas e de trapalhadas sem sentido. Pode fazer melhor.
ANDERSON — Um dos três génios da equipa, o vértice central do triângulo verdadeiramente luxuoso: Pepe, Anderson, Quaresma. É um médio de ataque que só sabe jogar para a frente e em movimento constante. Com ele, não há paragens nem quebras de ritmo — é um carrossel alucinante que põe a cabeça em água aos adversários. Há muito que não via um jogador assim e penso que todos aqueles que, acima de tudo, gostam de ver grande futebol, só podem lamentar aquela entrada de Katsouranis que o retirou da nossa vista durante quatro ou cinco meses. Se voltar igual ao que era, vale seguramente uns 40 milhões de euros — sobretudo, se voltar antes dos decisivos jogos com o Chelsea.
ATITUDE — É o grande plus deste clube e das equipas que o vão representando, ano após ano. Os jogadores do FC Porto são melhores profissionais e têm mais respeito pelo clube e pelos adeptos que quaisquer outros. Vítor Baía é, neste momento, o exemplo: onde estão os vítor baías do Sporting ou do Benfica?
BOSINGWA — Também irregular e inconstante, mas a melhorar claramente. Fez-lhe bem ter finalmente concorrência — a de Fucile. Deveria tentar mais as derivações pelo meio porque é bom em drible e em progressão.
BRUNO ALVES — Em relação a ele e a Postiga, dou a mão à palmatória: nunca pensei que Jesualdo conseguisse transformá-los em bons jogadores. Talvez pelo contágio de Pepe ou pela segurança que as oportunidades de jogar lhe deram, Bruno Alves não tem nada a ver com o jogador da época transacta, que não sabia quando atacar a bola e que a despachava de qualquer maneira. Está a crescer, jogo após jogo.
BRUNO MORAIS — Um só jogo que lhe vi, ainda na pré-temporada, foi o suficiente para entender por que razão Mourinho o contratou. Apesar do azar e das lesões, apesar do renascimento de Postiga, Bruno Morais já deu indicações suficientes de que está ali um grande jogador, pronto a explodir. Que a sorte finalmente o acompanhe!
CAROLINA SALGADO — Não joga pelo FC Porto, mas joga e muito, pelos adversários. Quis, com a sua traição e o seu abjecto panfleto, manchar o trabalho de todos estes jogadores e técnicos, que se batiam no campo enquanto ela se exibia no camarote. Mas acredito que, no fim, a verdade virá ao de cima, embora a desonra e os danos já ninguém os apague.
CECH — Um bom jogador, não um extraordinário jogador. Ataca bem, defende pior. Mas tem terreno e idade para progredir.
CSKA MOSCOVO — A vitória decisiva, a demonstração que faltava de que este FC Porto é herdeiro dos grandes FC Porto que honraram este país e o nosso futebol. Por muito que isso custe a engolir a muitos.
DIEGO — Há um que saiu e bem, em minha opinião, e outro que vai entrar. O que saiu era o oposto de Anderson: travava o jogo, perdia-se em rodriguinhos inúteis e não sabia onde ficava a baliza do adversário.
DIOGO VALENTE — Parece que vai ser emprestado, mas gostaria de o ter visto mais vezes em jogo. Não deixa de ser impressionante pensar que, das sete aquisições feitas pelo FC Porto esta época — Paulo Ribeiro, Ezequias, João Paulo, Tarik Sektoui, Diogo Valente, Vieirinha (este promovido) e Fucile — só o último é regularmente utilizado.
DÍVIDAS DA SAD — Trinta milhões de euros declarados no último exercício: um descalabro que, fatalmente, terá de ser remediado, mais tarde ou mais cedo, com a venda dos anéis. Esta febre de comprar jogadores que não servem para nada a não ser para serem emprestados explica muita coisa. Só falta explicar para que os compram.
ESTÁDIO DO DRAGÃO — O mais bonito estádio de futebol que alguma vez vi. Uma das melhores obras de sempre da arquitectura portuguesa. E é sempre a primeira vez em cada regresso a casa.
EZEQUIAS — Quem o comprou que explique.
FUCILE — Ah, uma na mouche! Grande miúdo, grande personalidade, grande coragem! Vai deixar marca.
GOLOS — Afinal, não era o sistema maluco de Adriaanse que os conseguia. Este ano, de volta ao 4x3x3, o FC Porto só ficou em branco em jogos da Champions.
HÉLDER POSTIGA — A impossível ressurreição. Quem o viu nas três temporadas anteriores, custa-lhe a crer que seja o mesmo. Não é só ter começado a marcar golos, é tudo o resto: remata, corre, desmarca-se, tem alegria em jogar. Antes, não se mexia, não se dava a incómodos. Será para durar?
HELTON — A elegância na baliza e a rapidez de reflexos. Mas falta-lhe ainda uma coisa para me tranquilizar: aprender a sair às bolas altas como o Baía faz.
IBSON — Vale mais do que mostra. Valerá bem mais quando puser os olhos em Anderson e perceber que nenhuma jogada, por mais espectacular que seja, tem interesse se, no fim, a bola acaba nos pés dos adversários. Levante a cabeça e olhe para o jogo!
JESUALDO FERREIRA — Até que enfim, um treinador normal! Até que enfim, alguém para quem a inteligência supera a vaidade! Merece todo o crédito pela revolução tranquila que está a levar a cabo no FC Porto.
JORGE COSTA — Teve uma despedida despercebida e injusta mas há-de voltar, porque faz parte da vida deste clube.
JORGINHO — Um mistério eternamente por esclarecer: como é que era tão bom em Setúbal e é tão abúlico no Porto? Mas já teve oportunidades suficientes — só se pode queixar de si próprio.
JOÃO PAULO — Quem o comprou deveria ter alguma ideia: importa-se de dizer qual era?
KATSOURANIS — Joga pelos outros, mas sozinho causou-nos maiores danos do que todos os adversários e inimigos juntos. Quando for o jogo da Luz, é de esperar que Jesualdo deixe Quaresma no banco!
LISANDRO — Umas vezes bem, outras nem tanto. Ainda faz sentir saudades de Derlei.
LUCHO — Dois jogos de classe e dois golos portentosos — contra o Hamburgo e o Nacional. No resto, muito, muito aquém do que pode e sabe. Deve bem mais à equipa.
PAULO ASSUNÇÃO — Muito longe do nível da época passada e o meio-campo ressente-se disso.
PEDRO EMANUEL — Lesionado logo no início da época, vai ter um regresso difícil.
PEPE — Podem levar à conta de facciosismo clubístico mas é isto que eu penso e já vem de trás: é o melhor central do Mundo, na actualidade.
PAULO RIBEIRO - ?
PINTO DA COSTA — Enfrenta o seu ano de todos os perigos. Carolina e o défice são dois combates que não consentem subterfúgios.
RAUL MEIRELES — Claramente, o elemento mais fraco da equipa. Vagueia pelo campo, sem grande utilidade visível. Alguém estabeleceu que era um grande rematador de meia-distância: há seis meses que não acerta um remate na baliza.
REINALDO TELES — O homem que está lá sempre. For all seasons.
RICARDO COSTA — Sem lugar na equipa. De saída, normal, para Marselha.
RICARDO QUARESMA — Pegou no facho depois de Anderson cair em combate e levou a equipa atrás, mostrando que é o melhor futebolista português da actualidade e um dos melhores do Mundo nas suas várias posições. É um jogador absolutamente excepcional, como já o era no ano passado e há dois anos, e agora se percebe melhor o crime que foi deixá-lo de fora do Mundial-2006. Em lugar de explicações sem sentido, Scolari deveria pedir desculpa — a ele, aos portugueses e a todos os que gostam de futebol e não o puderam ver na Alemanha.
RUI BARROS — Missão cumprida. Mais uma. E a Supertaça no bolso.
SOKOTA — O mais azarado e o mais caro do clube.
TARIK SEKTOUI — Talvez um razoável suplente.
VIEIRINHA — A grande revelação da pré-época, a que Jesualdo não deu continuidade. E é pena, porque parece estar ali um grande jogador em potência.
VÍTOR BAÍA — Capitão do balneário, treinador adjunto oficioso, guarda-redes suplente, o que quiserem: Baía é a Torre dos Clérigos desta equipa, um jogador e um desportista como não há outro e já tenho saudade de o ver jogar.