Será que, quando reclama justiça para o Apito Dourado, Luís Filipe Vieira está a incluir os casos em que ele próprio e José Veiga aparecem implicados, ou o seu critério de justiça só abrange o Norte e, mais especificamente, Pinto da Costa?
1- Esta deve ter sido uma das piores semanas da centenária existência do Sport Lisboa e Benfica. Por razões desportivas, mas, sobretudo, por razões extradesportivas e que mexem com a justiça — a pior imagem possível para um clube que, pela voz do seu presidente, está autonomeado campeão da «transparência e do rigor».
Terça-feira foi a cena do arresto dos bens do seu director desportivo, José Veiga, às ordens do Tribunal Cível de Cascais, que acabaria por motivar a demissão de Veiga. A este respeito, devo dizer, primeiro que tudo, que não concordo com a divulgação das imagens do arresto por parte da TVI. Não eram imprescindíveis à notícia e constituíram uma desnecessária humilhação e desrespeito pelo seu direito à privacidade — que não desaparece por se tratar de figura pública. Agora, também é verdade que Veiga só se sujeitou ao arresto dos bens móveis para garantir eventual crédito de 1,5 milhões de euros porque, seguramente, não tinha a casa em seu nome. E eu desconfio sempre dos motivos que levam quem não teme a não ter em seu nome os bens de que é dono: quase sempre a intenção é fugir ao fisco ou aos credores.
Seja como for, a defesa de Veiga foi contraditória nos seus próprios termos: disse que se demitia porque não queria escudar-se atrás do seu cargo no Benfica, mas, ao mesmo tempo, disse que aquilo só tinha acontecido por ele ser quem era no Benfica. Ou seja, escudou-se, de facto, atrás do Benfica para justificar um aperto decorrente da sua vida comercial privada. Custa-me a perceber como é que alguém ainda conseguiu ver na demissão um acto de coragem e de dignidade!
Pior ainda foi a defesa de Veiga feita por Luís Filipe Vieira, recuperando pela enésima vez a sua cassete encravada para os momentos difíceis, de modo a insinuar que tudo está relacionado com o Apito Dourado e a mão invisível de Pinto da Costa. Ou seja, foi a mando de Pinto da Costa e daqueles que Vieira gostaria de ver como os únicos implicados no Apito Dourado, que um banco luxemburguês se lembrou, já há uns anos, de reclamar este crédito, que o maior escritório de advogados do País se lembrou de pedir o arresto dos bens de José Veiga, e que uma juíza do Tribunal de Cascais, consultadas as razões do requerente, entendeu decretar o arresto. Tudo isto parece absurdo para qualquer pessoa que entenda como funciona a vida comercial e a justiça. Mas não para o presidente do Benfica, que tanto reclama que a justiça funcione: para ele, e vezes de mais, dá ideia de que a instituição e quem a serve deve estar acima da lei e fora de alcance da justiça comum.
Ainda o primeiro episódio Veiga estava ao rubro e eis que ele e Luís Filipe Vieira são ouvidos, logo no dia seguinte, pela Judiciária italiana, por suspeitas de fuga ao fisco, envolvendo a Juventus, no contrato de empréstimo de Micolli ao Benfica.
Quinta-feira, sem deixar respirar ninguém, foi a vez do vereador da CML, José Sá Fernandes, denunciar que a vereação presidida por Carmona Rodrigues havia pago ao Benfica 8 milhões de euros a mais do que constava no contrato (já de si inacreditável de benesses) que Santana Lopes havia negociado com o clube para a construção do novo Estádio da Luz. Interrogado sobre o assunto, o presidente do Benfica limitou-se a assobiar para o ar e a dizer «ele que apresente as provas». Justamente: Sá Fernandes tinha-as apresentado.
Sábado, equipada com o fatal traje de minhoca desenterrada, a equipa de futebol saiu derrotada de Braga, depois de uma exibição confrangedora. Tão confrangedora que o próprio Vieira não resisitiu a chamar-lhes «rapazinhos» que não sabem o que é a camisola — muito embora, logo a seguir, se tenha lançado na habitual explicação sobre os resultados falsificados que impedem o «maior clube do Mundo» de exibir em pleno todo o seu esplendor e reclamar, de direito, a vassalagem a que se acha predestinado.
Enfim, ontem, ainda nem sete dias estavam decorridos sobre o começo de todas as tragédias, e eis que José Veiga é detido para responder, em processo-crime desta vez, às suspeitas de ter desviado, quando ainda «empresário», cinco milhões de euros do negócio da ida de João Pinto para o Sporting. Há muito, muito tempo, estava ainda longe de imaginar que José Veiga viesse a ter a importância no Benfica que lhe deu Luís Filipe Vieira, escrevi que um dia gostaria, só para dissipar dúvidas, de saber quanto pagava de impostos o empresário José Veiga. Hoje, sei que ficou a dever, provados em tribunal, dois milhões de euros e que, ao que parece, ainda a montanha não foi toda escavada. Aliás, esta azia ao fisco parece ser natureza do Benfica e de vários dos seus dirigentes, ao longo dos anos. Será que também se acham acima das obrigações fiscais, só porque se auto-designam arautos da «transparência e do rigor» e do combate a Pinto da Costa?
2-Ao fim de meses e meses de paralisia, o Apito Dourado mexeu-se, mas poucochinho: o juiz de Gondomar decretou finalmente a abertura da instrução contraditória (fase processual de defesa dos arguidos), no que respeita aos processos pendentes naquela comarca. Por outras comarcas do País há processos já com a instrução a decorrer, outros arquivados por falta de indícios de crime e outros já aguardando marcação de julgamento.
Luís Filipe Vieira tem reclamado sem cessar o avanço do processo — quer na justiça criminal, quer na justiça desportiva. E eu, como já aqui o escrevi, estou de acordo, mas com uma ressalva: todos, mas todos os suspeitos, devem ser investigados e, quando for o caso, acusados — quer num, quer noutro foro. Mas todos, e não apenas os que residem a norte ou nas ilhas.
Ora, como se sabe, o Apito Dourado não parece conter outras provas que não as escutas telefónicas feitas a alguns agentes desportivos e que têm sido objecto de criteriosas fugas de informação para a imprensa. E é aqui que eu não compreendo o zelo justiceiro do presidente do Benfica e a complacência com que a comunicação social o deixa desempenhar o papel de Robin ds Bosques da «verdade desportiva»:
— Se há alguma escuta no processo em que, claramente, um dirigente de clube negoceia a nomeação de um árbitro do seu agrado para um jogo do seu clube, essa é a da transcrição da eloquente conversa entre o então presidente da Liga, Valentim Loureiro, e o seu apoiante n.º 1 — justa- mente o presidente do Benfica. Curiosamente, sobre esta conversa não racaiu qualquer investigação nem abertura de processo...
— Se há alguma escuta onde, claramente, se detectam indícios seguros de tráfico de influências e batota desportiva é a das escandalosas conversas divulgadas entre Valentim Loureiro e o então presidente do Estoril-Praia, José Veiga. Curiosamente, também nenhum andamento processual foi dado a este assunto...
Será que, quando reclama justiça para o Apito Dourado, Luís Filipe Vieira está a incluir os casos em que ele próprio e José Veiga aparecem implicados, ou o seu critério de justiça só abrange o Norte e, mais especificamente, Pinto da Costa?
3-E esta noite o FC Porto vai ganhar ao CSKA em Moscovo.
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
segunda-feira, janeiro 08, 2007
Os pensadores do futebol ( 14 Novembro 2006)
Bem-vindos sejam, pois, o Jorge Valdano, o Paulo Sousa e todos aqueles que, porque insistem em pensar, nos ajudam a pensar também e fazem de nós «pseudo-intelectuais». No futebol, como em tudo o resto
PAULO SOUSA já ontem aqui o escreveu e eu subscrevo: a chegada de Jorge Valdano como colunista de A BOLA é uma grande aquisição deste jornal e, para mim pessoalmente, uma honra tê-lo como companheiro de escrita. De há muito que sigo, mais ou menos regularmente, as suas crónicas sobre futebol e também acho que ninguém escreve como ele, reunindo em si duas qualidades raras: a experiência do futebol vivido por dentro, como jogador, treinador e director desportivo, e a capacidade de abstracção e reflexão vista de fora.
Justamente, e como dizia também Paulo Sousa, Valdano é um bom exemplo da capacidade de observação e reflexão que o futebol de hoje exige a todos: jogadores, treinadores, comentadores. Longe vai o tempo em que os jogadores se poderiam dividir simplesmente entre bons e maus, conforme a sua técnica e a sua força. Longe vai o tempo em que a um génio inato e autodidacta, como Eusébio, bastava apenas soltar o seu instinto e o seu génio para fazer toda a diferença. O verdadeiro génio dos tempos modernos é um jogador como o infortunado Anderson (por isso mesmo infortunado...), que pensa e executa em movimento e que, tal como os grandes jogadores de bilhar, quando está a executar uma tacada, já está a pensar na seguinte.
Hoje, o futebol, quer jogado, quer ensinado, quer pensado, exige essa outra qualidade, cada vez mais decisiva: a inteligência na leitura do jogo, do seu fluxo, do seu movimento. Como escreveu ontem Paulo Sousa, se ele chegou ao topo não foi por ser capaz de fintar três adversários numa cabina telefónica (como Valdano escreveu sobre Futre), ou por ser capaz de correr os 90 minutos sem parar. Foi porque teve a lucidez suficiente para perceber que o futebol requer inteligência de jogo e que essa se aprende ouvindo, lendo, observando, reflectindo. Aliás, e perdoem-me mais um elogio à gente desta casa, mas as próprias crónicas de Paulo Sousa (que leio sempre com imenso prazer e utilidade) reflectem a continuação dessa mesma atitude que o caracterizou como jogador e onde o conhecimento por dentro do futebol se alia ao seu estudo e observação visto de fora. E não é por acaso, certamente, que ainda há tempos, ouvindo na televisão os comentários a um jogo, feitos por um jogador ainda no activo — Rui Costa — pude constatar igualmente que a mesma inteligência que o distinguiu sempre como jogador continua a acompanhá-lo quando, esporadicamente, o vemos no papel de observador.
E lembrei-me de tudo isto também a propósito dos comentários de outro ex-jogador e ex-treinador, João Alves. Alves foi um grande jogador, mas no tempo em que o ritmo e a dinâmica do futebol eram diferentes e ele tinha tempo e espaço para o seu futebol, o que hoje não aconteceria. Mas Alves foi também um treinador fracassado e dá-me ideia, a avaliar pelo seu desabafo contra os «pseudo-intelectuais» que falam sobre futebol, que ele não percebeu as razões do seu fracasso. Devo dizer, em primeiro lugar e com o devido respeito, que sempre que oiço o discurso depreciativo contra os «intelectuais», sei que estou em presença de alguém que acha que a ignorância é uma virtude e que na vida, seja em que actividade for, é possível progredir e ter sucesso sem se dar ao trabalho de ler alguns livros, aprender algumas coisas com os outros e reflectir de vez em quando. Faz-me sempre lembrar a frase do general Newton Cruz, expoente larvar da antiga ditadura militar brasileira: «Quando oiço alguém falar de cultura, apetece-me puxar da pistola!» Também constato que, de cada vez que alguém quer diminuir o valor da cultura ou inteligência alheia, trata-a por «pseudo-intelectual». Parece assim que para esta gente nunca ninguém é suficientemente credível para merecer simplesmente a classificação de «intelectual»: todos os que sabem mais do que eles ou pensam melhor do que eles, não passam de «pseudo-intelectuais». O que será, para eles, pergunto-me, um verdadeiro «intelectual» — alguém que leu mais de mil livros, viu mais de 500 filmes, visitou mais de 50 museus?
Esta fobia de alguma gente do nosso futebol à presença em cena de «pseudo-intelectuais» discorrendo sobre futebol não é apenas um reflexo corporativo de treinadores fracassados ou comentadores encartados defendendo o seu feudo. É um verdadeiro instinto de medo, de autoprotecção. Que alguém possa ver da bancada mais e melhor do que eles vêem sentados lá em baixo, que alguém possa explicar que o futebol é um jogo simples de entender e não uma ciência oculta de conhecimento reservado a quem faz aqueles cursozecos de Verão, que alguém possa gozar e usar de uma liberdade de pensamento e de opinião que a eles, por interesses envolvidos com as partes envolvidas no jogo, lhes está vedada ou não é exercida, seguramente mete-lhes medo. O seu estatuto ficará certamente em perigo no dia em que a Sport TV, por exemplo, perceber que não basta ser treinador no desemprego para se ser capaz de saber comentar um jogo de futebol na televisão (há quem o faça bem e comedidamente, como Rui Águas, e há quem só seja suportável com o som desligado...).
O futebol moderno está carregado de exemplos de grandes jogadores que foram treinadores falhados e, inversamente, de jogadores sem história que se tornaram grandes treinadores: Arsène Wenger, Alex Ferguson, José Mourinho. De novo, o que fez a diferença não foi o conhecimento empírico sobre os meandros do futebol, mas a capacidade de aplicar a inteligência e a reflexão à estratégia escolhida para triunfar. Aliás, quando penso em alguns treinadores que vi actuar — desde logo, o exemplo que mais me vem à cabeça é José Mourinho — é impressionante constatar como quase sempre as suas opções e variações — tácticas, estratégicas e de jogadores — coincidem com o diagnóstico da bancada. É claro que por vezes discordamos e muitas vezes sem razão, pois escapam-nos dados de conhecimento que eles têm sobre o estado físico ou anímico de determinado jogador, sobre os pontos fortes e fracos do adversário, sobre o critério disciplinar do árbitro, etc. Mas, ao contrário do que alguns treinadores encartados pensam, da bancada vê-se muito bem o jogo e não é raro ouvir opiniões fundamentadas e inteligentes ou verificar que há um largo consenso de opiniões, que deriva daquilo que é fácil de ver a olho nu, sem necessidade daquele palavreado oco sobre as «compensações», a «equipa compacta e coerente» e outros chavões que tais. Mas nunca vi a bancada tomar por génio um banal caceteiro ou tomar por dispensável um desequilibrador. E constantemente vejo treinadores a fazer isso.
Bem-vindos sejam, pois, o Jorge Valdano, o Paulo Sousa e todos aqueles que, porque insistem em pensar, nos ajudam a pensar também e fazem de nós «pseudo-intelectuais». No futebol, como em tudo o resto.
PAULO SOUSA já ontem aqui o escreveu e eu subscrevo: a chegada de Jorge Valdano como colunista de A BOLA é uma grande aquisição deste jornal e, para mim pessoalmente, uma honra tê-lo como companheiro de escrita. De há muito que sigo, mais ou menos regularmente, as suas crónicas sobre futebol e também acho que ninguém escreve como ele, reunindo em si duas qualidades raras: a experiência do futebol vivido por dentro, como jogador, treinador e director desportivo, e a capacidade de abstracção e reflexão vista de fora.
Justamente, e como dizia também Paulo Sousa, Valdano é um bom exemplo da capacidade de observação e reflexão que o futebol de hoje exige a todos: jogadores, treinadores, comentadores. Longe vai o tempo em que os jogadores se poderiam dividir simplesmente entre bons e maus, conforme a sua técnica e a sua força. Longe vai o tempo em que a um génio inato e autodidacta, como Eusébio, bastava apenas soltar o seu instinto e o seu génio para fazer toda a diferença. O verdadeiro génio dos tempos modernos é um jogador como o infortunado Anderson (por isso mesmo infortunado...), que pensa e executa em movimento e que, tal como os grandes jogadores de bilhar, quando está a executar uma tacada, já está a pensar na seguinte.
Hoje, o futebol, quer jogado, quer ensinado, quer pensado, exige essa outra qualidade, cada vez mais decisiva: a inteligência na leitura do jogo, do seu fluxo, do seu movimento. Como escreveu ontem Paulo Sousa, se ele chegou ao topo não foi por ser capaz de fintar três adversários numa cabina telefónica (como Valdano escreveu sobre Futre), ou por ser capaz de correr os 90 minutos sem parar. Foi porque teve a lucidez suficiente para perceber que o futebol requer inteligência de jogo e que essa se aprende ouvindo, lendo, observando, reflectindo. Aliás, e perdoem-me mais um elogio à gente desta casa, mas as próprias crónicas de Paulo Sousa (que leio sempre com imenso prazer e utilidade) reflectem a continuação dessa mesma atitude que o caracterizou como jogador e onde o conhecimento por dentro do futebol se alia ao seu estudo e observação visto de fora. E não é por acaso, certamente, que ainda há tempos, ouvindo na televisão os comentários a um jogo, feitos por um jogador ainda no activo — Rui Costa — pude constatar igualmente que a mesma inteligência que o distinguiu sempre como jogador continua a acompanhá-lo quando, esporadicamente, o vemos no papel de observador.
E lembrei-me de tudo isto também a propósito dos comentários de outro ex-jogador e ex-treinador, João Alves. Alves foi um grande jogador, mas no tempo em que o ritmo e a dinâmica do futebol eram diferentes e ele tinha tempo e espaço para o seu futebol, o que hoje não aconteceria. Mas Alves foi também um treinador fracassado e dá-me ideia, a avaliar pelo seu desabafo contra os «pseudo-intelectuais» que falam sobre futebol, que ele não percebeu as razões do seu fracasso. Devo dizer, em primeiro lugar e com o devido respeito, que sempre que oiço o discurso depreciativo contra os «intelectuais», sei que estou em presença de alguém que acha que a ignorância é uma virtude e que na vida, seja em que actividade for, é possível progredir e ter sucesso sem se dar ao trabalho de ler alguns livros, aprender algumas coisas com os outros e reflectir de vez em quando. Faz-me sempre lembrar a frase do general Newton Cruz, expoente larvar da antiga ditadura militar brasileira: «Quando oiço alguém falar de cultura, apetece-me puxar da pistola!» Também constato que, de cada vez que alguém quer diminuir o valor da cultura ou inteligência alheia, trata-a por «pseudo-intelectual». Parece assim que para esta gente nunca ninguém é suficientemente credível para merecer simplesmente a classificação de «intelectual»: todos os que sabem mais do que eles ou pensam melhor do que eles, não passam de «pseudo-intelectuais». O que será, para eles, pergunto-me, um verdadeiro «intelectual» — alguém que leu mais de mil livros, viu mais de 500 filmes, visitou mais de 50 museus?
Esta fobia de alguma gente do nosso futebol à presença em cena de «pseudo-intelectuais» discorrendo sobre futebol não é apenas um reflexo corporativo de treinadores fracassados ou comentadores encartados defendendo o seu feudo. É um verdadeiro instinto de medo, de autoprotecção. Que alguém possa ver da bancada mais e melhor do que eles vêem sentados lá em baixo, que alguém possa explicar que o futebol é um jogo simples de entender e não uma ciência oculta de conhecimento reservado a quem faz aqueles cursozecos de Verão, que alguém possa gozar e usar de uma liberdade de pensamento e de opinião que a eles, por interesses envolvidos com as partes envolvidas no jogo, lhes está vedada ou não é exercida, seguramente mete-lhes medo. O seu estatuto ficará certamente em perigo no dia em que a Sport TV, por exemplo, perceber que não basta ser treinador no desemprego para se ser capaz de saber comentar um jogo de futebol na televisão (há quem o faça bem e comedidamente, como Rui Águas, e há quem só seja suportável com o som desligado...).
O futebol moderno está carregado de exemplos de grandes jogadores que foram treinadores falhados e, inversamente, de jogadores sem história que se tornaram grandes treinadores: Arsène Wenger, Alex Ferguson, José Mourinho. De novo, o que fez a diferença não foi o conhecimento empírico sobre os meandros do futebol, mas a capacidade de aplicar a inteligência e a reflexão à estratégia escolhida para triunfar. Aliás, quando penso em alguns treinadores que vi actuar — desde logo, o exemplo que mais me vem à cabeça é José Mourinho — é impressionante constatar como quase sempre as suas opções e variações — tácticas, estratégicas e de jogadores — coincidem com o diagnóstico da bancada. É claro que por vezes discordamos e muitas vezes sem razão, pois escapam-nos dados de conhecimento que eles têm sobre o estado físico ou anímico de determinado jogador, sobre os pontos fortes e fracos do adversário, sobre o critério disciplinar do árbitro, etc. Mas, ao contrário do que alguns treinadores encartados pensam, da bancada vê-se muito bem o jogo e não é raro ouvir opiniões fundamentadas e inteligentes ou verificar que há um largo consenso de opiniões, que deriva daquilo que é fácil de ver a olho nu, sem necessidade daquele palavreado oco sobre as «compensações», a «equipa compacta e coerente» e outros chavões que tais. Mas nunca vi a bancada tomar por génio um banal caceteiro ou tomar por dispensável um desequilibrador. E constantemente vejo treinadores a fazer isso.
Bem-vindos sejam, pois, o Jorge Valdano, o Paulo Sousa e todos aqueles que, porque insistem em pensar, nos ajudam a pensar também e fazem de nós «pseudo-intelectuais». No futebol, como em tudo o resto.
NÃO ACONTECEU NADA ( 7 Novembro 2006)
Pelo que se tem visto ultimamente, e mesmo sem contar com Anderson, o FC Porto é, uma vez mais, o principal candidato ao título.
1- Passou mais de uma semana desde que Katsouranis partiu a perna a Anderson e lhe provocou uma ruptura de ligamentos do pé. Sim, já sei, vão dizer que foi sem querer, que entrou à bola, etc e tal. Que fosse: o facto é que, com dolo, com negligência ou sem culpa, partiu-lhe a perna e rompeu-lhe os ligamentos. Ou há dúvidas sobre isso?
Passou-se uma semana... e nada se passou. O Conselho de Disciplina da Liga (outrora tão rápido a suspender preventivamente jogadores do FC Porto, através dos célebres sumaríssimos), entendeu que o assunto não merecia sequer a abertura de um processo de inquérito ao jogador do Benfica— muito menos a sua suspensão preventiva, a sua condenação a alguns jogos de suspensão ou, no limite e como alguns espíritos ingénuos poderiam imaginar, a suspensão do jogador benfiquista até que o portista estivesse de volta ao campeonato — que, sem ele, ficou infinitamente mais pobre. Nem Katsouranis foi minimamente incomodado por aquela entrada, pelos vistos, banal, nem o impávido Lucílio Baptista viu a sua complacência questionada pelo Conselho de Arbitragem. Não fosse o pobre do Anderson ter sido operado, estar agora a sofrer com dores e ter pela frente apenas a perspectiva de um longo, incerto e doloroso processo de recuperação fisioterapêutico, e dir-se-ia que, de facto, nada se passou no Dragão, ao fatídico minuto 23 do jogo da semana passada. Lucílio Baptista foi renomeado para um jogo desta semana e Katsouranis tem até sido o jogador mais decisivo do Benfica: marcou o primeiro golo no Dragão, quando poderia estar já expulso, e marcou contra o Beira-Mar, quando poderia estar suspenso. Pelo contrário, se alguém ainda, dez dias depois, regressa ao assunto, é para dizer, muito a propósito, que já basta de falar nele. Mas quando um jogador do Beira-Mar tem uma entrada dura, mas infinitamente mais suave que a do Katsouranis, sobre o Miguelito, o público da Luz e os comentadores reclamam em uníssono a sua expulsão. Assim se vê a força do Benfica!
O que não iria por aí agora se, em lugar do Anderson, tem sido o Simão a sair do Dragão com uma perna partida e uma ruptura de ligamentos, depois de um corte «perfeitamente normal» de um jogador portista!
E se tivesse sido o terceiro jogador do Benfica a sair arrumado, no mínimo para um mês, após menos de meia hora de jogo contra o Porto, em três dos últimos quatro derbies?!
Entretanto, achei deliciosas as explicações avançadas pelos simpatizantes benfiquistas para justificarem a limpeza com que o melhor jogador do campeonato foi despachado para o hospital e para o estaleiro. Para além da entrada «perfeitamente normal e legal» do Katsouranis, houve dois outros argumentos invocados, qual deles o mais extraordinário. O primeiro, sustentava que o Anderson já tinha entrado em campo lesionado, pressupondo, portanto, que o Katsouranis não teve nada a ver com o assunto: foi o departamento médico do FC Porto que, por sugestão maquiavélica de Pinto da Costa, tinha mandado o miúdo para o campo com uma perna partida e uma ruptura de ligamentos... e ele foi! O segundo, aliás também veiculado no site oficial do Benfica, dizia que o Anderson havia regressado ao jogo após a entrada do Katsouranis (de facto, regressou, durante trinta segundos e a pé coxinho...) e que, no final, até havia festejado em campo a vitória. Logo... Logo, das duas uma: ou foi a tentativa de regresso e os festejos que lhe causaram fractura do perónio e ruptura de ligamentos, ou ele, realmente, não tinha nenhuma dessas lesões e foi operado, engessado e retirado dos relvados durante largos meses apenas para que o FC Porto se pudesse queixar da dureza do Benfica. Isto ouvi eu da boca de pessoas que tenho como inteligentes e intelectualmente honestas. Caramba, o que o futebol nos faz! Custa assim tanto reconhecer que o futebol não pode consentir jogadas daquelas, sob pena de se resumir a um jogo onde o talento tem de pagar tributo no hospital?
2- Com a mesma facilidade e o mesmo resultado, os três grandes da Liga dos Campeões desembaraçaram-se dos seus adversários domésticos, não acusando o cansaço que outras equipas da Champions acusaram neste fim-de-semana.
Domingo, na Luz, o Benfica fez uma boa e convincente exibição contra o Beira-Mar — além do mais, levantando uma questão que já aqui me coloquei: como se justifica que uma equipa que, ao fim de dez jornadas de campeonato, já tem mais seis jogos oficiais disputados que o seu adversário e que, a meio da semana teve um compromisso europeu de grande grau de exigência, apresente uma condição física infinitamente melhor que a outra? É que, se a qualidade técnica de uma equipe depende do talento dos seus jogadores e este depende da capacidade financeira do clube, já a preparação física, a mim, parece-me depender apenas do trabalho feito durante a semana. E aí não há diferenças justificáveis entre «grandes» e «pequenos».
Mas, além do mais, porque o jogo já estava ganho e a exibição tinha sido bem aceitável, pior se compreendem os assobios que o público da Luz reservou à entrada em campo de Mário Jardel. Será porque ele foi um extraordinário avançado que para sempre ficará ligado à história dos nossos campeonatos? Porque, depois de vários trambolhões na vida, tenta, com todo o brio e dignidade, regressar, aos 34 anos, ao jogo que o imortalizou? Ou será porque jogou nos rivais, Porto e Sporting e não jogou no Benfica? Mas, se é por isso, o público da Luz faria bem em lembrar-se que, se ele não jogou no Benfica, é porque Manuel Vilarinho — que ganhou as eleições a Vale e Azevedo acenando com um contrato assinado com Jardel — posteriormente não honrou o contrato, nem perante o Benfica, nem perante o próprio Jardel.
Em Alvalade, frente a um Braga que, não consigo perceber porquê, alguém inventou também como candidato ao título, o Sporting obteve mais uma vitória sem grande esforço nem talento. Não só o Braga se encarregou de entregar logo o jogo, em autogolos, antes mesmo de o Sporting ter feito um remate, como, no resto do tempo, a equipa de Carlos Carvalhal exibiu um futebol indigente.
Em Setúbal, finalmente, o FC Porto tratou de ganhar rápida e esclarecedoramente e o único verdadeiro obstáculo que enfrentou foi mais um árbitro complacente com entradas de arrepiar ás pernas dos jogadores azuis e brancos. E aí vão três vitórias consecutivas sem Anderson e o fim de um ciclo terrível ultrapassado com distinção. É um FC Porto a subir de forma e de convicção, com um ressuscitado Postiga, um Quaresma regressado aos grandes dias e um Lucho, enfim, a aproximar-se do que vale. E um treinador «normal», que não complica nem inventa. Este é, uma vez mais, o grande candidato ao título.
3- Depois de ter dado ao Benfica 15 milhões de euros, em troca da utilização do ridículo nome de Caixa Futebol Campus para o centro de estágios do Seixal (nome que, obviamente, ninguém utiliza), a Caixa Geral de Depósitos é agora suspeita de ter dado idêntica quantia pela utilização dos direitos de imagem do seleccionador nacional, Luiz Felipe Scolari. Parece que, lá pela Caixa, estarão muito contentinhos por terem vencido a «concorrência» e terem obtido o exclusivo da imagem do seleccionador. Mas eu temo que seja outro exemplo de investimento sem retorno publicitário adequado: é que, à força de emprestar a sua imagem para tudo e mais alguma coisa, os anúncios com Luiz Felipe Scolari já não conseguem interessar ninguém, apenas incomodar ou irritar as pessoas. Mas, enfim, cada um sabe de si e tudo estaria muito bem se a Caixa, ao mesmo tempo que nega o valor de 15 milhões avançado para o contrato com Scolari, não se negasse igualmente a dizer qual é, então, o valor acordado. Serei eu que estou desactualizado, ou a Caixa ainda é um banco 100% público e Portugal ainda é uma democracia, onde o destino dado aos dinheiros públicos não pode constituir segredo de Estado?
1- Passou mais de uma semana desde que Katsouranis partiu a perna a Anderson e lhe provocou uma ruptura de ligamentos do pé. Sim, já sei, vão dizer que foi sem querer, que entrou à bola, etc e tal. Que fosse: o facto é que, com dolo, com negligência ou sem culpa, partiu-lhe a perna e rompeu-lhe os ligamentos. Ou há dúvidas sobre isso?
Passou-se uma semana... e nada se passou. O Conselho de Disciplina da Liga (outrora tão rápido a suspender preventivamente jogadores do FC Porto, através dos célebres sumaríssimos), entendeu que o assunto não merecia sequer a abertura de um processo de inquérito ao jogador do Benfica— muito menos a sua suspensão preventiva, a sua condenação a alguns jogos de suspensão ou, no limite e como alguns espíritos ingénuos poderiam imaginar, a suspensão do jogador benfiquista até que o portista estivesse de volta ao campeonato — que, sem ele, ficou infinitamente mais pobre. Nem Katsouranis foi minimamente incomodado por aquela entrada, pelos vistos, banal, nem o impávido Lucílio Baptista viu a sua complacência questionada pelo Conselho de Arbitragem. Não fosse o pobre do Anderson ter sido operado, estar agora a sofrer com dores e ter pela frente apenas a perspectiva de um longo, incerto e doloroso processo de recuperação fisioterapêutico, e dir-se-ia que, de facto, nada se passou no Dragão, ao fatídico minuto 23 do jogo da semana passada. Lucílio Baptista foi renomeado para um jogo desta semana e Katsouranis tem até sido o jogador mais decisivo do Benfica: marcou o primeiro golo no Dragão, quando poderia estar já expulso, e marcou contra o Beira-Mar, quando poderia estar suspenso. Pelo contrário, se alguém ainda, dez dias depois, regressa ao assunto, é para dizer, muito a propósito, que já basta de falar nele. Mas quando um jogador do Beira-Mar tem uma entrada dura, mas infinitamente mais suave que a do Katsouranis, sobre o Miguelito, o público da Luz e os comentadores reclamam em uníssono a sua expulsão. Assim se vê a força do Benfica!
O que não iria por aí agora se, em lugar do Anderson, tem sido o Simão a sair do Dragão com uma perna partida e uma ruptura de ligamentos, depois de um corte «perfeitamente normal» de um jogador portista!
E se tivesse sido o terceiro jogador do Benfica a sair arrumado, no mínimo para um mês, após menos de meia hora de jogo contra o Porto, em três dos últimos quatro derbies?!
Entretanto, achei deliciosas as explicações avançadas pelos simpatizantes benfiquistas para justificarem a limpeza com que o melhor jogador do campeonato foi despachado para o hospital e para o estaleiro. Para além da entrada «perfeitamente normal e legal» do Katsouranis, houve dois outros argumentos invocados, qual deles o mais extraordinário. O primeiro, sustentava que o Anderson já tinha entrado em campo lesionado, pressupondo, portanto, que o Katsouranis não teve nada a ver com o assunto: foi o departamento médico do FC Porto que, por sugestão maquiavélica de Pinto da Costa, tinha mandado o miúdo para o campo com uma perna partida e uma ruptura de ligamentos... e ele foi! O segundo, aliás também veiculado no site oficial do Benfica, dizia que o Anderson havia regressado ao jogo após a entrada do Katsouranis (de facto, regressou, durante trinta segundos e a pé coxinho...) e que, no final, até havia festejado em campo a vitória. Logo... Logo, das duas uma: ou foi a tentativa de regresso e os festejos que lhe causaram fractura do perónio e ruptura de ligamentos, ou ele, realmente, não tinha nenhuma dessas lesões e foi operado, engessado e retirado dos relvados durante largos meses apenas para que o FC Porto se pudesse queixar da dureza do Benfica. Isto ouvi eu da boca de pessoas que tenho como inteligentes e intelectualmente honestas. Caramba, o que o futebol nos faz! Custa assim tanto reconhecer que o futebol não pode consentir jogadas daquelas, sob pena de se resumir a um jogo onde o talento tem de pagar tributo no hospital?
2- Com a mesma facilidade e o mesmo resultado, os três grandes da Liga dos Campeões desembaraçaram-se dos seus adversários domésticos, não acusando o cansaço que outras equipas da Champions acusaram neste fim-de-semana.
Domingo, na Luz, o Benfica fez uma boa e convincente exibição contra o Beira-Mar — além do mais, levantando uma questão que já aqui me coloquei: como se justifica que uma equipa que, ao fim de dez jornadas de campeonato, já tem mais seis jogos oficiais disputados que o seu adversário e que, a meio da semana teve um compromisso europeu de grande grau de exigência, apresente uma condição física infinitamente melhor que a outra? É que, se a qualidade técnica de uma equipe depende do talento dos seus jogadores e este depende da capacidade financeira do clube, já a preparação física, a mim, parece-me depender apenas do trabalho feito durante a semana. E aí não há diferenças justificáveis entre «grandes» e «pequenos».
Mas, além do mais, porque o jogo já estava ganho e a exibição tinha sido bem aceitável, pior se compreendem os assobios que o público da Luz reservou à entrada em campo de Mário Jardel. Será porque ele foi um extraordinário avançado que para sempre ficará ligado à história dos nossos campeonatos? Porque, depois de vários trambolhões na vida, tenta, com todo o brio e dignidade, regressar, aos 34 anos, ao jogo que o imortalizou? Ou será porque jogou nos rivais, Porto e Sporting e não jogou no Benfica? Mas, se é por isso, o público da Luz faria bem em lembrar-se que, se ele não jogou no Benfica, é porque Manuel Vilarinho — que ganhou as eleições a Vale e Azevedo acenando com um contrato assinado com Jardel — posteriormente não honrou o contrato, nem perante o Benfica, nem perante o próprio Jardel.
Em Alvalade, frente a um Braga que, não consigo perceber porquê, alguém inventou também como candidato ao título, o Sporting obteve mais uma vitória sem grande esforço nem talento. Não só o Braga se encarregou de entregar logo o jogo, em autogolos, antes mesmo de o Sporting ter feito um remate, como, no resto do tempo, a equipa de Carlos Carvalhal exibiu um futebol indigente.
Em Setúbal, finalmente, o FC Porto tratou de ganhar rápida e esclarecedoramente e o único verdadeiro obstáculo que enfrentou foi mais um árbitro complacente com entradas de arrepiar ás pernas dos jogadores azuis e brancos. E aí vão três vitórias consecutivas sem Anderson e o fim de um ciclo terrível ultrapassado com distinção. É um FC Porto a subir de forma e de convicção, com um ressuscitado Postiga, um Quaresma regressado aos grandes dias e um Lucho, enfim, a aproximar-se do que vale. E um treinador «normal», que não complica nem inventa. Este é, uma vez mais, o grande candidato ao título.
3- Depois de ter dado ao Benfica 15 milhões de euros, em troca da utilização do ridículo nome de Caixa Futebol Campus para o centro de estágios do Seixal (nome que, obviamente, ninguém utiliza), a Caixa Geral de Depósitos é agora suspeita de ter dado idêntica quantia pela utilização dos direitos de imagem do seleccionador nacional, Luiz Felipe Scolari. Parece que, lá pela Caixa, estarão muito contentinhos por terem vencido a «concorrência» e terem obtido o exclusivo da imagem do seleccionador. Mas eu temo que seja outro exemplo de investimento sem retorno publicitário adequado: é que, à força de emprestar a sua imagem para tudo e mais alguma coisa, os anúncios com Luiz Felipe Scolari já não conseguem interessar ninguém, apenas incomodar ou irritar as pessoas. Mas, enfim, cada um sabe de si e tudo estaria muito bem se a Caixa, ao mesmo tempo que nega o valor de 15 milhões avançado para o contrato com Scolari, não se negasse igualmente a dizer qual é, então, o valor acordado. Serei eu que estou desactualizado, ou a Caixa ainda é um banco 100% público e Portugal ainda é uma democracia, onde o destino dado aos dinheiros públicos não pode constituir segredo de Estado?
quinta-feira, novembro 02, 2006
CRIMES SEM CASTIGO? ( 31 Outubro 2006)
Dirigentes que passam a semana a acirrar os ódios, antes de enfrentar o adversário e que fazem gestos obscenos para o público; uma equipa que entra a jogar duro e feio até arrumar o melhor jogador adversário; e um árbitro que assiste, impávido. E tudo deve passar impune?
PEÇO desculpa ao Vítor Serpa e a todos os benfíquistas cuja opinião respeito, mas eu não posso concordar com o raciocínio que está subjacente ao editorial que ele ontem aqui assinou. Escreveu ele: «Era legítima a esperança que, terminado o jogo no Dragão, FC Porto e Benfíca não se envolveriam numa discussão que continuasse o destrambelho de toda a semana... seria do mais elementar bom senso dar o caso por encerrado... E, se ambos insistirem, ao menos que a Liga encontre «maneira de castigar os dois, pelo mal que andam a fazer ao futebol. »
Não poderia estar mais em desacordo: não era legítima a esperança que aquilo que de muito grave rodeou o FC Porto-Benfica de sábado morresse após o jogo; passar uma esponja sobre tudo o que aconteceu, não seria um sinal de bom-senso mas de impunidade; castigar ambos, não seria uma justiça salomónica, mas apenas hipócrita. Aconteceu que um dos lados passou a semana a insultar o outro; que uma das equipas entrou em jogo com uma atitude de intimidação e provocação a roçar a arruaça; um jogador de uma das equipas teve uma entrada de uma violência extrema sobre um adversário, arrumando-o para o jogo e para o futebol, durante os próximos meses, com graves prejuízos financeiros e desportivos para o seu clube; um dirigente de um dos clubes provocou o público com gestos obscenos; e um árbitro consentiu tudo o que viu numa atitude de vamos lá, que isto não tem importância. E tudo isto foi feito apenas por um dos lados em confronto: o Benfica.
É fácil dizer que o bom-senso mandaria encerrar o caso ou então castigar ambos por igual. Mas seria o mesmo que um ladrão assaltar uma casa, espancar o marido, violar a mulher, roubar as pratas e atemorizar os filhos e, à saída, dizer para o dono da casa: «Vamos por fim a isto e decretar tréguas». Talvez se possa achar de bom-senso não reagir, mas achar justo, isso é que, desculpem-me lá, só mesmo por temor reverenciai ao ladrão
Luís Filipe Vieira passou a semana a atacar, ofender e provocar o presidente do FC Porto e o clube. Na semana anterior, Pinto da Costa reagiu às provocações, mas na semana que passou, antecedendo o jogo, manteve-se em silêncio, não ajudando a contribuir para a criação de um clima de crispação e ódio entre ambos os clubes e os seus adeptos. Agora é fácil mandar calar os dois, mas teria sido mais útil e mais pedagógico ter mandado calar o presidente do Benfíca, quando ele era o único a acirrar ódios e destilar insultos. Sim, eu sei, que ele tinha uma eleição difícil na sexta-feira: candidato único, precisava de atrair as atenções para que alguém fosse votar e nada melhor para tal do que atacar o FC Porto — é uma receita clássica dos presidentes do Benfíca, raramente com sucesso, conforme o outrora muito idolatrado Vale e Azevedo demonstrou. Mas ninguém tem culpa que, no segundo maior clube do mundo, com 160.000 sócios, menos de 8.000, representando menos de 5%, se tenham dado ao trabalho de votar em Vieira, apesar das facilidades do voto electrónico, nas casas e etc. (Sócrates também era candidato único ao PS e votaram nele 25.000 dos 80.000 militantes registados)... Se a ideia de Vieira era arranjar problemas para si próprio, para depois se arvorar em vítima, não o conseguiu: pelo terceiro ano consecutivo, ele só pode reconhecer que esteve no camarote presidencial do Dragão «sem problema algum». Pergunto-me se o mesmo poderia dizer Pinto da Costa, se se arriscasse à experiência...
Na atitude habitual de comigo o puto vai sempre atrás, também o inacreditável José Veiga, (juntamente com Valentim Loureiro, um dos mais bem apanhados no Apito Dourado), veio chegar-se à conversa, tendo até o supremo desplante de falar no Apito Dourado. E acabou a fazer aquele eloquente gesto para o público do Dragão que Cristiano Ronaldo fez para o da Luz e que tanta popularidade lhe vale lá por aquelas bandas. Não adianta a Vieira falar em transparência, exigência, isto e aquilo: enquanto o seu José Veiga estiver no futebol, não há credibilização possível - nem para o que diz Vieira, nem para o Benfica, nem para o futebol.
Enfim, aquilo que mais interessa, o que verdadeiramente me dói e revolta. Os meus leitores sabem o quanto vinha elogiando, deslumbrado, o génio desse miúdo Anderson. Não apenas nem sobretudo, porque ele veste a camisola do meu clube, mas porque ele faz parte daquela rara categoria de jogadores que tornam o futebol um espectáculo incomparável, arrebatante, lindo. Quem passa à história e divulga o futebol são jogadores assim: é o Eusébio e não o Stiles, o Pele e não o Morais, o Cruyft e não o Nando, o Anderson e não o Katsouranis, o génio e não o seu carrasco.
Pois o miúdo acaba de ser arrumado — no mínimo por quatro meses, na realidade, hão-de ver, por uns seis. Foi arrumado, varrido dos estádios e do nosso deslumbramento, para que no seu lugar fiquem os caceteiros ou os jogadores medíocres, de que alguns treinadores tanto gostam. E porquê? Porque era bom de mais, reduzia à insignificância os que tinham que o marcar e perseguir. Porque o seu talento ofendia a mediocridade, desequilibrava as forças em campo, desesperava o facciosismo clubístico. Sem ele em jogo, os adversários podem até afectar um pesar de circunstância, mas, lá no fundo e no íntimo, esfregam as mãos de contentes: o adversário ficou mais fraco e os medíocres têm mais chances. E viva o futebol!
Há várias hipóteses para explicar aquela entrada para arrumar de Katsouranis. Premeditação, resultado de uma estratégia táctica? Não, sinceramente, não acredito, apesar da coincidência ser terrível: em três Benfica-Porto dos últimos dois anos e meio, foram arrumados, com entradas semelhantes, três jogadores do FC Porto que eram decisivos na altura — Diego (um mês de paragem), Lisandro (um mês e meio) e Anderson (três a seis meses). Mas, se calhar apenas e só pelo carácter de Fernando Santos, eu não acredito nesta sinistra hipótese.
Outra hipótese, a benevolente: foi sem querer. Também não acredito. Não foi sem querer. Não, não deu na bola (vejam a decomposição das imagens no Jogo de ontem). A entrada era escusada, a jogada passava-se na lateral do meio-campo, sem perigo para o Benfica, e nada justificava aquela violência, que, conforme o relatório médico, causou fractura grave do perónio por «traumatismo directo» (isto é, pela porrada directa na perna), rotura dos ligamentos do tornozelo e da membrana de ligação.
Resta portanto perceber o porquê daquela violência. A minha tese é que se tratou de uma atitude de violência induzida. Porque Anderson é um génio que dá cabo da cabeça a jogadores banais como o Katsouranis, porque o Benfica estava a perder por 2-0 aos 20 minutos e de cabeça perdida. Mas também pelo clima de incitamento ao ódio que toda a semana foi atiçado pelos dirigentes do Benfica. E é por isso que nem uns nem outros podem passar impunes, se é que alguém pretende verdadeiramente defender o futebol-espectáculo. É face aos casos concretos que se mede a seriedade das propagadas boas intenções. O Inferno está cheio delas.
Mas há outro protagonista desta vergonha pública que não pode passar impune: o Excelentíssimo Senhor Lucílio Baptista. Que ele seja, manifestamente, o mais incompetente dos árbitros portugueses e continua a ser chamado para os grandes jogos envolvendo o FC Porto, já é grave. Que, de há três ou quatro anos para cá, seja, de encomenda, nomeado para todos os derbys do FC Porto com o Sporting e o Benfica e sempre, sempre, prejudicando o FC Porto, e continuando a ser nomeado, é sintomático. Que seja um dos suspeitos do Apito Dourado e continue como uma eminência parda da nossa arbitragem, é chocante. Mas que assista de braços cruzados a duas entradas que arrumam com dois jogadores do FC Porto em dois jogos consecutivos contra o Benfica no Dragão, sem ao menos mostrar uma amarelo, isso já é mais do que grave: é insustentável para a integridade física dos jogadores. Este árbitro não respeita o espectáculo nem os jogadores. Que apite em Malta ou em Chipre, aqui não. Reconheço que este texto não tem, porventura, o bom-senso recomendável. Mas se o bom-senso é pactuar ou amochar perante o discurso grosso do Benfica, então que se lixe o bom-senso! Jogadores como o Anderson merecem que quem gosta de futebol os defenda. E não é só com lágrimas de carpideira.
PEÇO desculpa ao Vítor Serpa e a todos os benfíquistas cuja opinião respeito, mas eu não posso concordar com o raciocínio que está subjacente ao editorial que ele ontem aqui assinou. Escreveu ele: «Era legítima a esperança que, terminado o jogo no Dragão, FC Porto e Benfíca não se envolveriam numa discussão que continuasse o destrambelho de toda a semana... seria do mais elementar bom senso dar o caso por encerrado... E, se ambos insistirem, ao menos que a Liga encontre «maneira de castigar os dois, pelo mal que andam a fazer ao futebol. »
Não poderia estar mais em desacordo: não era legítima a esperança que aquilo que de muito grave rodeou o FC Porto-Benfica de sábado morresse após o jogo; passar uma esponja sobre tudo o que aconteceu, não seria um sinal de bom-senso mas de impunidade; castigar ambos, não seria uma justiça salomónica, mas apenas hipócrita. Aconteceu que um dos lados passou a semana a insultar o outro; que uma das equipas entrou em jogo com uma atitude de intimidação e provocação a roçar a arruaça; um jogador de uma das equipas teve uma entrada de uma violência extrema sobre um adversário, arrumando-o para o jogo e para o futebol, durante os próximos meses, com graves prejuízos financeiros e desportivos para o seu clube; um dirigente de um dos clubes provocou o público com gestos obscenos; e um árbitro consentiu tudo o que viu numa atitude de vamos lá, que isto não tem importância. E tudo isto foi feito apenas por um dos lados em confronto: o Benfica.
É fácil dizer que o bom-senso mandaria encerrar o caso ou então castigar ambos por igual. Mas seria o mesmo que um ladrão assaltar uma casa, espancar o marido, violar a mulher, roubar as pratas e atemorizar os filhos e, à saída, dizer para o dono da casa: «Vamos por fim a isto e decretar tréguas». Talvez se possa achar de bom-senso não reagir, mas achar justo, isso é que, desculpem-me lá, só mesmo por temor reverenciai ao ladrão
Luís Filipe Vieira passou a semana a atacar, ofender e provocar o presidente do FC Porto e o clube. Na semana anterior, Pinto da Costa reagiu às provocações, mas na semana que passou, antecedendo o jogo, manteve-se em silêncio, não ajudando a contribuir para a criação de um clima de crispação e ódio entre ambos os clubes e os seus adeptos. Agora é fácil mandar calar os dois, mas teria sido mais útil e mais pedagógico ter mandado calar o presidente do Benfíca, quando ele era o único a acirrar ódios e destilar insultos. Sim, eu sei, que ele tinha uma eleição difícil na sexta-feira: candidato único, precisava de atrair as atenções para que alguém fosse votar e nada melhor para tal do que atacar o FC Porto — é uma receita clássica dos presidentes do Benfíca, raramente com sucesso, conforme o outrora muito idolatrado Vale e Azevedo demonstrou. Mas ninguém tem culpa que, no segundo maior clube do mundo, com 160.000 sócios, menos de 8.000, representando menos de 5%, se tenham dado ao trabalho de votar em Vieira, apesar das facilidades do voto electrónico, nas casas e etc. (Sócrates também era candidato único ao PS e votaram nele 25.000 dos 80.000 militantes registados)... Se a ideia de Vieira era arranjar problemas para si próprio, para depois se arvorar em vítima, não o conseguiu: pelo terceiro ano consecutivo, ele só pode reconhecer que esteve no camarote presidencial do Dragão «sem problema algum». Pergunto-me se o mesmo poderia dizer Pinto da Costa, se se arriscasse à experiência...
Na atitude habitual de comigo o puto vai sempre atrás, também o inacreditável José Veiga, (juntamente com Valentim Loureiro, um dos mais bem apanhados no Apito Dourado), veio chegar-se à conversa, tendo até o supremo desplante de falar no Apito Dourado. E acabou a fazer aquele eloquente gesto para o público do Dragão que Cristiano Ronaldo fez para o da Luz e que tanta popularidade lhe vale lá por aquelas bandas. Não adianta a Vieira falar em transparência, exigência, isto e aquilo: enquanto o seu José Veiga estiver no futebol, não há credibilização possível - nem para o que diz Vieira, nem para o Benfica, nem para o futebol.
Enfim, aquilo que mais interessa, o que verdadeiramente me dói e revolta. Os meus leitores sabem o quanto vinha elogiando, deslumbrado, o génio desse miúdo Anderson. Não apenas nem sobretudo, porque ele veste a camisola do meu clube, mas porque ele faz parte daquela rara categoria de jogadores que tornam o futebol um espectáculo incomparável, arrebatante, lindo. Quem passa à história e divulga o futebol são jogadores assim: é o Eusébio e não o Stiles, o Pele e não o Morais, o Cruyft e não o Nando, o Anderson e não o Katsouranis, o génio e não o seu carrasco.
Pois o miúdo acaba de ser arrumado — no mínimo por quatro meses, na realidade, hão-de ver, por uns seis. Foi arrumado, varrido dos estádios e do nosso deslumbramento, para que no seu lugar fiquem os caceteiros ou os jogadores medíocres, de que alguns treinadores tanto gostam. E porquê? Porque era bom de mais, reduzia à insignificância os que tinham que o marcar e perseguir. Porque o seu talento ofendia a mediocridade, desequilibrava as forças em campo, desesperava o facciosismo clubístico. Sem ele em jogo, os adversários podem até afectar um pesar de circunstância, mas, lá no fundo e no íntimo, esfregam as mãos de contentes: o adversário ficou mais fraco e os medíocres têm mais chances. E viva o futebol!
Há várias hipóteses para explicar aquela entrada para arrumar de Katsouranis. Premeditação, resultado de uma estratégia táctica? Não, sinceramente, não acredito, apesar da coincidência ser terrível: em três Benfica-Porto dos últimos dois anos e meio, foram arrumados, com entradas semelhantes, três jogadores do FC Porto que eram decisivos na altura — Diego (um mês de paragem), Lisandro (um mês e meio) e Anderson (três a seis meses). Mas, se calhar apenas e só pelo carácter de Fernando Santos, eu não acredito nesta sinistra hipótese.
Outra hipótese, a benevolente: foi sem querer. Também não acredito. Não foi sem querer. Não, não deu na bola (vejam a decomposição das imagens no Jogo de ontem). A entrada era escusada, a jogada passava-se na lateral do meio-campo, sem perigo para o Benfica, e nada justificava aquela violência, que, conforme o relatório médico, causou fractura grave do perónio por «traumatismo directo» (isto é, pela porrada directa na perna), rotura dos ligamentos do tornozelo e da membrana de ligação.
Resta portanto perceber o porquê daquela violência. A minha tese é que se tratou de uma atitude de violência induzida. Porque Anderson é um génio que dá cabo da cabeça a jogadores banais como o Katsouranis, porque o Benfica estava a perder por 2-0 aos 20 minutos e de cabeça perdida. Mas também pelo clima de incitamento ao ódio que toda a semana foi atiçado pelos dirigentes do Benfica. E é por isso que nem uns nem outros podem passar impunes, se é que alguém pretende verdadeiramente defender o futebol-espectáculo. É face aos casos concretos que se mede a seriedade das propagadas boas intenções. O Inferno está cheio delas.
Mas há outro protagonista desta vergonha pública que não pode passar impune: o Excelentíssimo Senhor Lucílio Baptista. Que ele seja, manifestamente, o mais incompetente dos árbitros portugueses e continua a ser chamado para os grandes jogos envolvendo o FC Porto, já é grave. Que, de há três ou quatro anos para cá, seja, de encomenda, nomeado para todos os derbys do FC Porto com o Sporting e o Benfica e sempre, sempre, prejudicando o FC Porto, e continuando a ser nomeado, é sintomático. Que seja um dos suspeitos do Apito Dourado e continue como uma eminência parda da nossa arbitragem, é chocante. Mas que assista de braços cruzados a duas entradas que arrumam com dois jogadores do FC Porto em dois jogos consecutivos contra o Benfica no Dragão, sem ao menos mostrar uma amarelo, isso já é mais do que grave: é insustentável para a integridade física dos jogadores. Este árbitro não respeita o espectáculo nem os jogadores. Que apite em Malta ou em Chipre, aqui não. Reconheço que este texto não tem, porventura, o bom-senso recomendável. Mas se o bom-senso é pactuar ou amochar perante o discurso grosso do Benfica, então que se lixe o bom-senso! Jogadores como o Anderson merecem que quem gosta de futebol os defenda. E não é só com lágrimas de carpideira.
OS SÍMBOLOS CONTAM ( 24 Outubro 2006)
Ao menos isso: devolvam-nos os equipamentos das nossas equipas, tal como eram e sempre foram até ao dia em que os «marqueteiros» resolveram vender clubes como quem vende sabonetes
1- A jornada europeia da semana passada veio adensar as piores perspectivas: que nenhum dos três grandes consiga seguir em frente na Liga dos Campeões e que o Braga morra na fase de grupos da Taça UEFA. Braga e Benfica foram inapelavelmente derrotados por margem que não deixa dúvidas: 3-0. Sim, já sei, não tiveram a sorte do jogo; ao contrário dos adversários, falharam só na concretização; os resultados foram enganadores, já que dominaram os respectivos jogos em largos períodos; etc. e tal, o fado do costume. Certo, certo, é que ambos nunca chegaram verdadeiramente a discutir o resultado. O mesmo choradinho se ouviu a propósito da derrota caseira e comprometedora do Sporting: que «dominou 80% do jogo» (do qual, metade jogando contra dez), que só falhou na concretização, e por aí fora, mais do mesmo. Certo, porém, é que o Bayern entrou em Alvalade a pôr o Sporting em sentido desde o primeiro minuto e só abrandou quando chegou ao golo e se viu em inferioridade numérica. O FC Porto, depois de um arranque altamente negativo na competição, cumpriu a sua obrigação de vencer em casa um Hamburgo desfalcado e até fez o seu melhor jogo da época. Poderia ter reentrado na luta pelo segundo lugar se, lá longe em Moscovo, um árbitro espanhol não se tivesse lembrado de anular ao Arsenal, e já ao cair do pano, um golo limpíssimo do Thierry Henry. Foram dois pontos dados ao CSKA que, tudo indica, virão a ser decisivos, a menos que o FC Porto consiga a proeza de vencer dois dos três jogos que faltam e empatar o outro.
Eu, todavia, olho para este cenário carregado com uma dose grande de fatalismo e pessimismo. Acho que o futebol europeu ao mais altíssimo nível, que é o da Liga dos Campeões, é hoje praticamente inacessível a qualquer equipa portuguesa. O FC Porto de Mourinho foi um epifenómeno resultante de um conjunto de circunstâncias de felicidade e mérito que acontecem uma vez em cada geração, se tanto. Lembro-me de quando estava a abandonar o Arena AufSchalke, em Gelsenkirchen, nessa noite inesquecível, pensar que certamente nunca mais, em dias da minha vida, eu iria ver o meu clube ou qualquer outro clube português ser campeão da Europa. Quando olhamos, por exemplo, para o banco do Real Madrid e do Barcelona, no derby espanhol deste domingo, ou quando vemos o CSKA jogar contra o Arsenal com três brasileiros, dois dos quais da Selecção, e o Arsenal jogar sem nenhum inglês e onze internacionais de oito países diferentes, percebemos que o tradicional jeito português para a bola já não chega nem pode chegar para fazer frente a estas multinacionais do futebol.
Por isso mesmo, eu compreendo o desabafo do José Manuel Delgado: que o Benfica leve três do Celtic em Glasgow, ainda vá que não vá, agora que nem ao menos jogue de encarnado e branco, optando por aquele horrendo equipamento cor de minhoca desenterrada, isso é que, mais do que uma derrota, é o desfazer de uma história. Ao menos isso: devolvam-nos os equipamentos das nossa equipas, tal como eram e sempre foram até ao dia em que os marqueteiros resolveram vender clubes como quem vende sabonetes.
2- O Sporting-FC Porto, o primeiro derby do ano, foi um mau e marcado pelo mau estado do terreno, pelo cansaço europeu das duas equipas e pela ausência do astro maior que actualmente brilha nos estádios portugueses: Anderson, de seu nome. Jesualdo Ferreira assumiu, com seriedade, o mau jogo e a má exibição portista - assim como podia ter assumido também o erro que foi desfazer, no lado direito, a dupla Fusile-Quaresma, que estava a pôr em sentido o Sporting, ou como podia ter assumido a vã teimosia de continuar a apostar num Lucho González que parece a alma penada do outro que por aqui passou na época transacta. Mas já Paulo Bento, revelando menor ambição, achou que o Sporting jogou bem, que teve várias oportunidades de golo (?!) e nem sequer teve pudor em reclamar uma mais que duvidosa expulsão de Paulo Assunção (teriam sido duas faltas, dois cartões amarelos...), para que, pela segunda vez consecutiva, o Sporting pudesse ter beneficiado da vantagem de jogar toda a segunda parte em superioridade numérica. Pelos vistos, onze contra onze é um problema insolúvel.
3- E com tudo a juntar-se no malto da tabela, aí vem um Porto-Benfica - espero eu e todos os portistas, já com o Anderson, que, como se demonstrou em Alvalade, representa 60% da capacidade ofensiva da equipa.
Infelizmente, o Porto-Benfica já começou mal, com o episódio dos bilhetes, onde o FC Porto aproveitou para se vingar, na mesma moeda, da patifaria que o Benfica lhe fez há dois anos. Actos destes são um recado directo aos espectadores: quando o jogo é grande, dispensamos a presença de adeptos do clube forasteiro. Eis o que indubitavelmente contribui para atrair público aos estádios!
E, como se não bastasse o episódio dos bilhetes, o presidente do Benfica, tentando certamente fazer esquecer aos benfiquistas a hecatombe de Glasgow e visando animar a mais chata campanha eleitoral de que há memória nos anais da democracia, resolveu abrir fogo de barragem, em termos pessoais, contra o presidente portista. O qual respondeu à letra, no mesmo tom de elevada elegância. Eis o contributo de ambos para um bom ambiente no Dragão, no próximo sábado.
4- Imagem igualmente eloquente e marcante a de João Loureiro virando costas à equipa quando esta ficou a perder 3-0. Se houvesse alguém acima dele no clube, talvez o tivesse despedido na hora. Como não havia, foi ele que despediu o treinador.
5- Outra imagem marcante, e vai sendo repetida quase todas as semanas e, esta sim, a valer a pena ver: todos os putos do FC Porto que marcam golos, correm para abraçar... Vítor Baía. É curioso que Baía possa ser, pelos vistos, mais importante sentado no banco de suplentes do que alguns que andam lá dentro. E é curioso que sejam os putos a lembrar o que alguns parecem ter esquecido: que foi a geração de jogadores do Baía que levou ao clube o célebre e inimitável ambiente de balneário que fez do FC Porto um clube vencedor. Hoje, resta só ele e Pedro Emanuel.
Por ter percebido isso, é que Mourinho foi buscar de volta o Jorge Costa e é por perceber essas coisas que ele foi campeão europeu. Por o não terem percebido, é que Octávio e Adriaanse se permitiram desdenhar do Jorge Costa e por isso é que ambos não passaram da vulgaridade.
Durante anos a fio, Jorge Costa foi também desprezado por quase todos os não portistas. Que era lento, que era caceteiro, que era isto ou aquilo. Mas nós, portistas, sorríamos para dentro: nós sabíamos o que ele valia e sabíamos que a sua importância na equipa começava e continuava muito para além do tempo dos jogos. E sabíamos, por exemplo, que o que faltava e continua a faltar ao Benfica é um ou dois jogadores e homens como Jorge Costa para ensinar aos outros o que é um clube, o que é o espírito de sacrifício e o que é a ambição de vitória. Agora, que, retirado, Jorge Costa recebeu os elogios do mundo, e agora que o capitão do FC Porto é um estrangeiro chegado no ano passado, a voz de inspiração e de comando dos miúdos que jogam de azul e branco é o Baía, mesmo sentado no banco de suplentes!
1- A jornada europeia da semana passada veio adensar as piores perspectivas: que nenhum dos três grandes consiga seguir em frente na Liga dos Campeões e que o Braga morra na fase de grupos da Taça UEFA. Braga e Benfica foram inapelavelmente derrotados por margem que não deixa dúvidas: 3-0. Sim, já sei, não tiveram a sorte do jogo; ao contrário dos adversários, falharam só na concretização; os resultados foram enganadores, já que dominaram os respectivos jogos em largos períodos; etc. e tal, o fado do costume. Certo, certo, é que ambos nunca chegaram verdadeiramente a discutir o resultado. O mesmo choradinho se ouviu a propósito da derrota caseira e comprometedora do Sporting: que «dominou 80% do jogo» (do qual, metade jogando contra dez), que só falhou na concretização, e por aí fora, mais do mesmo. Certo, porém, é que o Bayern entrou em Alvalade a pôr o Sporting em sentido desde o primeiro minuto e só abrandou quando chegou ao golo e se viu em inferioridade numérica. O FC Porto, depois de um arranque altamente negativo na competição, cumpriu a sua obrigação de vencer em casa um Hamburgo desfalcado e até fez o seu melhor jogo da época. Poderia ter reentrado na luta pelo segundo lugar se, lá longe em Moscovo, um árbitro espanhol não se tivesse lembrado de anular ao Arsenal, e já ao cair do pano, um golo limpíssimo do Thierry Henry. Foram dois pontos dados ao CSKA que, tudo indica, virão a ser decisivos, a menos que o FC Porto consiga a proeza de vencer dois dos três jogos que faltam e empatar o outro.
Eu, todavia, olho para este cenário carregado com uma dose grande de fatalismo e pessimismo. Acho que o futebol europeu ao mais altíssimo nível, que é o da Liga dos Campeões, é hoje praticamente inacessível a qualquer equipa portuguesa. O FC Porto de Mourinho foi um epifenómeno resultante de um conjunto de circunstâncias de felicidade e mérito que acontecem uma vez em cada geração, se tanto. Lembro-me de quando estava a abandonar o Arena AufSchalke, em Gelsenkirchen, nessa noite inesquecível, pensar que certamente nunca mais, em dias da minha vida, eu iria ver o meu clube ou qualquer outro clube português ser campeão da Europa. Quando olhamos, por exemplo, para o banco do Real Madrid e do Barcelona, no derby espanhol deste domingo, ou quando vemos o CSKA jogar contra o Arsenal com três brasileiros, dois dos quais da Selecção, e o Arsenal jogar sem nenhum inglês e onze internacionais de oito países diferentes, percebemos que o tradicional jeito português para a bola já não chega nem pode chegar para fazer frente a estas multinacionais do futebol.
Por isso mesmo, eu compreendo o desabafo do José Manuel Delgado: que o Benfica leve três do Celtic em Glasgow, ainda vá que não vá, agora que nem ao menos jogue de encarnado e branco, optando por aquele horrendo equipamento cor de minhoca desenterrada, isso é que, mais do que uma derrota, é o desfazer de uma história. Ao menos isso: devolvam-nos os equipamentos das nossa equipas, tal como eram e sempre foram até ao dia em que os marqueteiros resolveram vender clubes como quem vende sabonetes.
2- O Sporting-FC Porto, o primeiro derby do ano, foi um mau e marcado pelo mau estado do terreno, pelo cansaço europeu das duas equipas e pela ausência do astro maior que actualmente brilha nos estádios portugueses: Anderson, de seu nome. Jesualdo Ferreira assumiu, com seriedade, o mau jogo e a má exibição portista - assim como podia ter assumido também o erro que foi desfazer, no lado direito, a dupla Fusile-Quaresma, que estava a pôr em sentido o Sporting, ou como podia ter assumido a vã teimosia de continuar a apostar num Lucho González que parece a alma penada do outro que por aqui passou na época transacta. Mas já Paulo Bento, revelando menor ambição, achou que o Sporting jogou bem, que teve várias oportunidades de golo (?!) e nem sequer teve pudor em reclamar uma mais que duvidosa expulsão de Paulo Assunção (teriam sido duas faltas, dois cartões amarelos...), para que, pela segunda vez consecutiva, o Sporting pudesse ter beneficiado da vantagem de jogar toda a segunda parte em superioridade numérica. Pelos vistos, onze contra onze é um problema insolúvel.
3- E com tudo a juntar-se no malto da tabela, aí vem um Porto-Benfica - espero eu e todos os portistas, já com o Anderson, que, como se demonstrou em Alvalade, representa 60% da capacidade ofensiva da equipa.
Infelizmente, o Porto-Benfica já começou mal, com o episódio dos bilhetes, onde o FC Porto aproveitou para se vingar, na mesma moeda, da patifaria que o Benfica lhe fez há dois anos. Actos destes são um recado directo aos espectadores: quando o jogo é grande, dispensamos a presença de adeptos do clube forasteiro. Eis o que indubitavelmente contribui para atrair público aos estádios!
E, como se não bastasse o episódio dos bilhetes, o presidente do Benfica, tentando certamente fazer esquecer aos benfiquistas a hecatombe de Glasgow e visando animar a mais chata campanha eleitoral de que há memória nos anais da democracia, resolveu abrir fogo de barragem, em termos pessoais, contra o presidente portista. O qual respondeu à letra, no mesmo tom de elevada elegância. Eis o contributo de ambos para um bom ambiente no Dragão, no próximo sábado.
4- Imagem igualmente eloquente e marcante a de João Loureiro virando costas à equipa quando esta ficou a perder 3-0. Se houvesse alguém acima dele no clube, talvez o tivesse despedido na hora. Como não havia, foi ele que despediu o treinador.
5- Outra imagem marcante, e vai sendo repetida quase todas as semanas e, esta sim, a valer a pena ver: todos os putos do FC Porto que marcam golos, correm para abraçar... Vítor Baía. É curioso que Baía possa ser, pelos vistos, mais importante sentado no banco de suplentes do que alguns que andam lá dentro. E é curioso que sejam os putos a lembrar o que alguns parecem ter esquecido: que foi a geração de jogadores do Baía que levou ao clube o célebre e inimitável ambiente de balneário que fez do FC Porto um clube vencedor. Hoje, resta só ele e Pedro Emanuel.
Por ter percebido isso, é que Mourinho foi buscar de volta o Jorge Costa e é por perceber essas coisas que ele foi campeão europeu. Por o não terem percebido, é que Octávio e Adriaanse se permitiram desdenhar do Jorge Costa e por isso é que ambos não passaram da vulgaridade.
Durante anos a fio, Jorge Costa foi também desprezado por quase todos os não portistas. Que era lento, que era caceteiro, que era isto ou aquilo. Mas nós, portistas, sorríamos para dentro: nós sabíamos o que ele valia e sabíamos que a sua importância na equipa começava e continuava muito para além do tempo dos jogos. E sabíamos, por exemplo, que o que faltava e continua a faltar ao Benfica é um ou dois jogadores e homens como Jorge Costa para ensinar aos outros o que é um clube, o que é o espírito de sacrifício e o que é a ambição de vitória. Agora, que, retirado, Jorge Costa recebeu os elogios do mundo, e agora que o capitão do FC Porto é um estrangeiro chegado no ano passado, a voz de inspiração e de comando dos miúdos que jogam de azul e branco é o Baía, mesmo sentado no banco de suplentes!
20.45 TMG ( 17 Outubro 2006)
Tal como o país, o FC Porto vive com o que não tem, acima das suas possibilidades. Mas enquanto o país já começa a reagir, no FC Porto continua a contar-se com a venda extraordinária do património ou com epopeias desportivas para poder continuar a gastar o que se gasta
1- Às 20.45 europeias de hoje, 19.45 em Portugal, Benfica e FC Porto começam a poder fazer contas e a antecipar o que poderá vir a ser, em grande parte, a sua época europeia de 2005/06. A derrota nos respectivos jogos desta noite significará para ambos, quase inevitavelmente, a perspectiva de ficarem desde já limitados a lutar apenas pelo terceiro lugar no grupo e o prémio de consolação de acesso à Taça UEFA — no caso do FC Porto, mesmo esse objectivo de difícil realização. Em caso de vitória, ao Benfica abrem-se razoáveis perspectivas de poder chegar a um dos dois primeiros lugares do grupo, que dão continuidade na Champions. Ao FC Porto, a quem só a vitória pode rigorosamente interessar, ela por si só nada mais garante do que continuar na luta pelo segundo lugar, dependendo ainda de uma vitória do Arsenal sobre o CSKA para que as esperanças não sejam apenas aritméticas. Enfim, o empate não seria um mau resultado para o Benfica, que joga em Glasgow, no terreno do adversário directo na luta pelo segundo lugar, mas já para o FC Porto significaria o fim de qualquer ilusão. A experiência mostra que começar a Champions em casa é uma vantagem, desde que não se deixe fugir a vitória; em caso inverso, significa quase sempre deixar fugir a qualificação. O empate inaugural do FC Porto contra o CSKA soou como uma pré-sentença de morte e, a partir daí, a equipa ficou obrigada a correr atrás do prejuízo, não desperdiçando mais pontos em casa e tentando ir resgatar fora os que perdeu na primeira jornada. Por isso, o jogo de hoje é para os portistas de vida ou morte: tudo o que não seja uma vitória sobre o Hamburgo deixá-los-á na unidade de cuidados intensivos. Quanto ao Benfica, na eventualidade de uma derrota contra o Celtic, poderá vir a lamentar, como aqui previ na altura, os dois pontos deixados em Copenhaga, num jogo e frente a um adversário em que a vitória estava perfeitamente ao seu alcance mas em que se limitaram a jogar para o empate.
Diferente, para bem melhor, é a situação do Sporting, que passará de confortável a excelente se amanhã tiver engenho e coragem para levar de vencida o Bayern, em Alvalade.
2- Assinale-se que foi mais uma jornada sem casos de arbitragem nos jogos que envolveram os grandes, o que é sempre de aplaudir. Aliás, já lá vão cinco jornadas e ainda não houve um caso controverso em qualquer dos jogos envolvendo FC Porto e Benfica. Apenas com o Sporting houve dois erros de arbitragem com influência directa no resultado - um beneficiando-o, o outro prejudicando-o. Contas feitas, o saldo destas cinco jornadas é anormalmente positivo. Que assim continue!
Não vi o Jogo do Benfica em Leiria, que me dizem ter sido o melhor dos encarnados, desde há muito tempo. Vi bocados da segunda parte do jogo do Sporting no Estoril, que me pareceu cientificamente jogado para o resultado, face a uma equipa menos do que banal. Já o jogo do FC Porto, obviamente, vi-o todo. Vi um Postiga autor de dois excelentes golos, o que a mim, devo dizê-lo com toda a sinceridade, me surpreende: já estava conformado com um Hélder Postiga capaz de passar jogos inteiros a fugir da zona de responsabilidade do pon-ta-de-lança e sem nunca correr o risco de rematar à baliza. Será possível que um jogador ressuscite de quatro anos de frustração? Oxalá que sim! Vi também o regresso simbólico do Bruno Moraes, cujos únicos 50 minutos jogados num particular, na Holanda, me deixaram a pensar que ali estava o único ponta-de-lança fiável do plantei azul e branco, no caso de alguém conseguir deslindar o mistério da sua permanente indisponibilida-de física. Enfim, vi também mais uma exibição exuberante desse menino Anderson, um prodígio como há muito não via em estádios portugueses, e vi mais uma exibição apagada, quer do Quaresma quer do Lucho, ambos verdadeiramente irreconhecíveis esta época. E, que me desculpe Jesualdo Ferreira, mas continuo a não ver qualquer ideia ou estratégia pensada no jogo do FC Porto, cujos jogadores dão a sensação de não saberem o que hão-de fazer em cada momento do jogo.
3- Verdadeiramente aterrador o resultado do exercício 2005/06 apresentado pela SAD do FC Porto: 30,4 milhões de euros de prejuízo, ou seis milhões e oitocentos mil contos, na moeda antiga. Mais assustador ainda, foram as razões apresentadas para este défice de exploração: o afastamento na primeira fase da Liga dos Campeões e o facto de se ter optado por não vender nenhum dos grandes jogadores (o que não é bem correcto, visto que sempre se vendeu o McCarthy e o Diego e só se compraram segundos ou terceiros planos). E assustador, porque isto significa que a SAD do FC Porto assume só conseguir equilibrar as contas, ou ao menos menorizar os prejuízos, através de receitas extraordinárias, que espera conseguir realizar todos os anos. Ou seja, tal como o País, o FC Porto vive com o que não tem, acima das suas possibilidades. Mas, enquanto o País já começa a reagir e o objectivo principal da política financeira é hoje reduzir o défice das contas públicas até chegar ao ponto de equilíbrio, já no FC Porto continua a contar-se com a venda extraordinária do património ou com epopeias desportivas para poder continuar a gastar o que se gasta no resto. Aparentemente, o FC Porto só é viável financeiramente se conseguir vencer a Liga dos Campeões ou se conseguir vender um jogador por milhões. Só que nem de dez em dez anos se ganha uma Liga dos Campeões e nem de cinco em cinco anos aparece um Deco ou um Anderson. E, aliás, uma e outra coisa são incompatíveis: não se pode ganhar uma Liga dos Campeões sem um Deco ou um Anderson. Dir-me-ão que também se pode ganhar primeiro com eles e depois vendê-los. Pois pode: mas para ganhar a taluda duas vezes só mesmo alguém que compra os bilhetes premiados depois do sorteio, para lavar dinheiro.
4- E sempre assim: primeiro, passa-se o mandato inteiro em campanha eleitoral para o mandato seguinte e a fomentar o culto da personalidade, até um ponto tão extremo e tão ridículo que só o próprio é que não se dá conta disso; depois, ameaça-se constantemente com a demissão, para logo suscitar jantares de apoio e movimentos de desagravo; repete-se até à exaustão que o clube não pode ser entregue a aventureiros nem ambiciosos, e que só por isso é que ele não abandona, conforme é seu veemente desejo; enfim, depois de assim ter secado tudo à roda e atingir a triste condição de candidato único, entra-se em pânico ao aperceber-se subitamente que a resposta dos eleitores a uma pugna tão entusiasmante pode vir a ser uma abstenção inconveniente. Chatices da democracia.
1- Às 20.45 europeias de hoje, 19.45 em Portugal, Benfica e FC Porto começam a poder fazer contas e a antecipar o que poderá vir a ser, em grande parte, a sua época europeia de 2005/06. A derrota nos respectivos jogos desta noite significará para ambos, quase inevitavelmente, a perspectiva de ficarem desde já limitados a lutar apenas pelo terceiro lugar no grupo e o prémio de consolação de acesso à Taça UEFA — no caso do FC Porto, mesmo esse objectivo de difícil realização. Em caso de vitória, ao Benfica abrem-se razoáveis perspectivas de poder chegar a um dos dois primeiros lugares do grupo, que dão continuidade na Champions. Ao FC Porto, a quem só a vitória pode rigorosamente interessar, ela por si só nada mais garante do que continuar na luta pelo segundo lugar, dependendo ainda de uma vitória do Arsenal sobre o CSKA para que as esperanças não sejam apenas aritméticas. Enfim, o empate não seria um mau resultado para o Benfica, que joga em Glasgow, no terreno do adversário directo na luta pelo segundo lugar, mas já para o FC Porto significaria o fim de qualquer ilusão. A experiência mostra que começar a Champions em casa é uma vantagem, desde que não se deixe fugir a vitória; em caso inverso, significa quase sempre deixar fugir a qualificação. O empate inaugural do FC Porto contra o CSKA soou como uma pré-sentença de morte e, a partir daí, a equipa ficou obrigada a correr atrás do prejuízo, não desperdiçando mais pontos em casa e tentando ir resgatar fora os que perdeu na primeira jornada. Por isso, o jogo de hoje é para os portistas de vida ou morte: tudo o que não seja uma vitória sobre o Hamburgo deixá-los-á na unidade de cuidados intensivos. Quanto ao Benfica, na eventualidade de uma derrota contra o Celtic, poderá vir a lamentar, como aqui previ na altura, os dois pontos deixados em Copenhaga, num jogo e frente a um adversário em que a vitória estava perfeitamente ao seu alcance mas em que se limitaram a jogar para o empate.
Diferente, para bem melhor, é a situação do Sporting, que passará de confortável a excelente se amanhã tiver engenho e coragem para levar de vencida o Bayern, em Alvalade.
2- Assinale-se que foi mais uma jornada sem casos de arbitragem nos jogos que envolveram os grandes, o que é sempre de aplaudir. Aliás, já lá vão cinco jornadas e ainda não houve um caso controverso em qualquer dos jogos envolvendo FC Porto e Benfica. Apenas com o Sporting houve dois erros de arbitragem com influência directa no resultado - um beneficiando-o, o outro prejudicando-o. Contas feitas, o saldo destas cinco jornadas é anormalmente positivo. Que assim continue!
Não vi o Jogo do Benfica em Leiria, que me dizem ter sido o melhor dos encarnados, desde há muito tempo. Vi bocados da segunda parte do jogo do Sporting no Estoril, que me pareceu cientificamente jogado para o resultado, face a uma equipa menos do que banal. Já o jogo do FC Porto, obviamente, vi-o todo. Vi um Postiga autor de dois excelentes golos, o que a mim, devo dizê-lo com toda a sinceridade, me surpreende: já estava conformado com um Hélder Postiga capaz de passar jogos inteiros a fugir da zona de responsabilidade do pon-ta-de-lança e sem nunca correr o risco de rematar à baliza. Será possível que um jogador ressuscite de quatro anos de frustração? Oxalá que sim! Vi também o regresso simbólico do Bruno Moraes, cujos únicos 50 minutos jogados num particular, na Holanda, me deixaram a pensar que ali estava o único ponta-de-lança fiável do plantei azul e branco, no caso de alguém conseguir deslindar o mistério da sua permanente indisponibilida-de física. Enfim, vi também mais uma exibição exuberante desse menino Anderson, um prodígio como há muito não via em estádios portugueses, e vi mais uma exibição apagada, quer do Quaresma quer do Lucho, ambos verdadeiramente irreconhecíveis esta época. E, que me desculpe Jesualdo Ferreira, mas continuo a não ver qualquer ideia ou estratégia pensada no jogo do FC Porto, cujos jogadores dão a sensação de não saberem o que hão-de fazer em cada momento do jogo.
3- Verdadeiramente aterrador o resultado do exercício 2005/06 apresentado pela SAD do FC Porto: 30,4 milhões de euros de prejuízo, ou seis milhões e oitocentos mil contos, na moeda antiga. Mais assustador ainda, foram as razões apresentadas para este défice de exploração: o afastamento na primeira fase da Liga dos Campeões e o facto de se ter optado por não vender nenhum dos grandes jogadores (o que não é bem correcto, visto que sempre se vendeu o McCarthy e o Diego e só se compraram segundos ou terceiros planos). E assustador, porque isto significa que a SAD do FC Porto assume só conseguir equilibrar as contas, ou ao menos menorizar os prejuízos, através de receitas extraordinárias, que espera conseguir realizar todos os anos. Ou seja, tal como o País, o FC Porto vive com o que não tem, acima das suas possibilidades. Mas, enquanto o País já começa a reagir e o objectivo principal da política financeira é hoje reduzir o défice das contas públicas até chegar ao ponto de equilíbrio, já no FC Porto continua a contar-se com a venda extraordinária do património ou com epopeias desportivas para poder continuar a gastar o que se gasta no resto. Aparentemente, o FC Porto só é viável financeiramente se conseguir vencer a Liga dos Campeões ou se conseguir vender um jogador por milhões. Só que nem de dez em dez anos se ganha uma Liga dos Campeões e nem de cinco em cinco anos aparece um Deco ou um Anderson. E, aliás, uma e outra coisa são incompatíveis: não se pode ganhar uma Liga dos Campeões sem um Deco ou um Anderson. Dir-me-ão que também se pode ganhar primeiro com eles e depois vendê-los. Pois pode: mas para ganhar a taluda duas vezes só mesmo alguém que compra os bilhetes premiados depois do sorteio, para lavar dinheiro.
4- E sempre assim: primeiro, passa-se o mandato inteiro em campanha eleitoral para o mandato seguinte e a fomentar o culto da personalidade, até um ponto tão extremo e tão ridículo que só o próprio é que não se dá conta disso; depois, ameaça-se constantemente com a demissão, para logo suscitar jantares de apoio e movimentos de desagravo; repete-se até à exaustão que o clube não pode ser entregue a aventureiros nem ambiciosos, e que só por isso é que ele não abandona, conforme é seu veemente desejo; enfim, depois de assim ter secado tudo à roda e atingir a triste condição de candidato único, entra-se em pânico ao aperceber-se subitamente que a resposta dos eleitores a uma pugna tão entusiasmante pode vir a ser uma abstenção inconveniente. Chatices da democracia.
ASSIM VAI O FCPORTO ( 10 Outubro 2006)
Quando, com apenas dois jogos disputados na Liga dos Campeões, o próprio Pinto da Costa vem dizer que o objectivo mínimo é o apuramento para a Taça UEFA, os sonhos não podem ser o que já foram até há ainda bem pouco tempo
APROVEITANDO esta pausa no futebol nacional, procedo a um primeiro balanço deste início de época do FC Porto - no plano desportivo e não só - seguindo a par e comentando os temas abordados por Pinto da Costa, na longa entrevista ontem concedida ao jornal O Jogo e com a qual quebrou um silêncio de meses.
AS DUAS DERROTAS SEGUIDAS, em Londres e em Braga, também foram vistas com preocupação pelo presidente portista. Em especial a segunda, em relação à qual ele até se permitiu uma rara critica à falta de atitude da equipa, afirmando estar confiante de que a mesma se não repetirá. De facto, houve uma falta de ambição e de atitude, mas que não foram os únicos factores das derrotas. Em ambos os jogos, particularmente contra o Arsenal, a equipa também mostrou que lhe faltam jogadores de qualidade em alguns lugares-chaves e o próprio treinador cometeu erros de aprendizagem em ambos os casos: em Londres, mudando o esquema habitual para reforçar a capacidade defensiva, e em Braga, experimentando o Anderson como ala-direito - duas apostas falhadas.
A CONTRATAÇÃO DE JESUALDO FERREIRA por um só ano e depois de ter pago um milhão de euros de indemnização ao Boavista, não foi explicada por Pinto da Costa. Assim como não o foi o facto de ter sido preciso um empresário para negociar com o Boavista, em vez da negociação directa.
A SURPRESA DO COMPORTAMENTO DE CO ADRIAANSE, pode ter sido uma surpresa para todos, como diz Pinto da Costa, mas está dentro da lógica do seu comportamento habitual e que teve sempre muito pouco de lógico e bastante de intempestivo e desequilibrado. Coisa que só parece ter escapado ao presidente portista.
AS DISPENSAS DE JOGADORES, impostas por Co Adriaanse e aceites por Pinto da Costa, já se sabia que iam ser um erro quando foram feitas — particularmente as de McCarthy e Hugo Almeida, quando o clube andava à procura de um ponta-de-lança e não encontrou nenhum (já agora, é um mistério como é que o Hesselink custava 8 milhões de euros para o FC Porto e só custou 5 milhões para o Celtic).
AS VENDAS DE ANDERSON e dos outros em relação aos quais o clube recebeu propostas no defeso (Quaresma, Lucho e Helton — vejam lá como os interessados não são parvos e só querem os bons...), ficam suspensas para já, no dizer do presidente portista, que explica e bem que é um erro, para o clube e para os jogadores, vendê-los cedo de mais. Em relação jóia da coroa, o Anderson, Pinto da Costa desmente a informação que eu aqui havia veiculado de que constava que o FC Porto teria vendido recentemente 10 por cento do seu passe. Afinal, comprou mais 15 por cento, estando agora detentor de 85 por cento. Eis uma boa notícia para os portistas. Não que isso impeça a sua venda próxima ou inevitável num futuro breve, mas ao menos será melhor negócio.
SOBRE COMPRAS DE JOGADORES EFECTUADAS ESTA ÉPOCA Pinto da Costa não fala nesta entrevista. Mas o tema é interessante, porque se o grosso dos accionistas está disposto a encaixar mais um exercício com «elevado prejuízo», que em breve será revelado, e em troca de se manterem no clube os activos representados pelos seus principais jogadores com mercado, também é verdade que talvez não houvesse prejuízo com uma melhor gestão das compras. Volto a dizer que não entendo porquê que se compra uma série de jogadores numa época (Paulo Ribeiro, Ezequias, Diogo Valente, Fucile, João Paulo, Tarik) nenhum dos quais tem valor para se impor como efectivo na equipa. E não percebo como é que, com três defesas-esquerdos no plantei, se deixa ir embora o César Peixoto, com provas dadas como defesa e como extremo e depois de um ano a recuperá-lo clinicamente, e se deixa continuar emprestado no Brasil, com parte do ordenado a pagar pelo clube, outro jogador com provas dadas, como o Leandro. E, depois de abrir mão dos dois, se vai comprar... o Ezequias.
AS DÍVIDAS DO DÍNAMO DE MOSCOVO que julgo ter sido a primeira vez que foram mencionadas por Pinto da Costa, é também um tema preocu-pante. O FC Porto vendeu ao Dínamo, a dois tempos, o Costinha, o Maniche, o Derlei e o Seitari-dis. Pelos vistos, vendeu sem as devidas garantias de pagamento e voltou a vender mesmo depois de o Dínamo não estar a cumprir os primeiros pagamentos. Entretanto, o Dínamo já revendeu o Costinha e o Maniche para o Atlético de Madrid e ocorre perguntar se esses dois já estariam pagos ou se o Dínamo fez dinheiro com jogadores que não pagou e sem que o FC Porto tenha assegurado o seu direito de regresso em relação ao Atlético de Madrid. A queixa à FIFA, por si só, não assegura o pagamento e o fraco rendimento dos atletas portugueses ao serviço do Dínamo não deve motivar muito os russos a pagarem as suas dívidas.
SOBRE O «APITO DOURADO» Pinto da Costa refere que, das onze certidões extraídas para eventual procedimento disciplinar contra ele, nove foram já arquivadas sem que ele tenha sequer sido ouvido, o que significa que os magistrados do Ministério Público entenderam não haver matéria para a instauração de processo. Restam, portanto, duas. E resta conhecer toda a documentação sobre o Apito Dourado, a transcrição de todas as conversas escutadas a toda a gente e ouvir todas as defesas, para se perceber se há matéria criminal ou simplesmente disciplinar, se houve corrupção ou apenas tráfico de influências, se tudo era uma batota organizada e quase generalizada ou apenas a habitual bandalheira tão portuguesa das cunhas e empenhos, centradas na figura tutelar do major Valentim Loureiro.
SOBRE A DEFUNTA DIRECÇÃO DA LIGA DE CLUBES Pinto da Costa é certeiro e incisivo. Foi obra congeminada a duas mãos entre Valentim Loureiro e Luís Filipe Vieira — que depois disse «querer regenerar a Liga que ele próprio havia feito». E, porque nesta direcção perdeu o poder que detinha na anterior, passou logo a inimigo declarado desta, antes mesmo que ela tivesse mexido uma palha.
Eis o universo portista na actualidade, passado em revista pelo seu presidente e acrescentado dos meus comentários. Percebe-se que os tempos dourados de Mourinho, no futebol, não voltarão tão depressa. Percebe-se, e percebe-se mal, que a situação financeira é má e que não se aproveitaram os lucros excepcionais conquistados nos anos de ouro de 2003 e 2004. Os tempos são de transição, tentando consolidar a supremacia interna, sem grandes veleidades europeias. Quando, com apenas dois jogos disputados na Liga dos Campeões, o próprio Pinto da Costa vem dizer que o objectivo mínimo é o apuramento para a Taça UEFA, os sonhos não podem ser o que já foram até há ainda bem pouco tempo.
APROVEITANDO esta pausa no futebol nacional, procedo a um primeiro balanço deste início de época do FC Porto - no plano desportivo e não só - seguindo a par e comentando os temas abordados por Pinto da Costa, na longa entrevista ontem concedida ao jornal O Jogo e com a qual quebrou um silêncio de meses.
AS DUAS DERROTAS SEGUIDAS, em Londres e em Braga, também foram vistas com preocupação pelo presidente portista. Em especial a segunda, em relação à qual ele até se permitiu uma rara critica à falta de atitude da equipa, afirmando estar confiante de que a mesma se não repetirá. De facto, houve uma falta de ambição e de atitude, mas que não foram os únicos factores das derrotas. Em ambos os jogos, particularmente contra o Arsenal, a equipa também mostrou que lhe faltam jogadores de qualidade em alguns lugares-chaves e o próprio treinador cometeu erros de aprendizagem em ambos os casos: em Londres, mudando o esquema habitual para reforçar a capacidade defensiva, e em Braga, experimentando o Anderson como ala-direito - duas apostas falhadas.
A CONTRATAÇÃO DE JESUALDO FERREIRA por um só ano e depois de ter pago um milhão de euros de indemnização ao Boavista, não foi explicada por Pinto da Costa. Assim como não o foi o facto de ter sido preciso um empresário para negociar com o Boavista, em vez da negociação directa.
A SURPRESA DO COMPORTAMENTO DE CO ADRIAANSE, pode ter sido uma surpresa para todos, como diz Pinto da Costa, mas está dentro da lógica do seu comportamento habitual e que teve sempre muito pouco de lógico e bastante de intempestivo e desequilibrado. Coisa que só parece ter escapado ao presidente portista.
AS DISPENSAS DE JOGADORES, impostas por Co Adriaanse e aceites por Pinto da Costa, já se sabia que iam ser um erro quando foram feitas — particularmente as de McCarthy e Hugo Almeida, quando o clube andava à procura de um ponta-de-lança e não encontrou nenhum (já agora, é um mistério como é que o Hesselink custava 8 milhões de euros para o FC Porto e só custou 5 milhões para o Celtic).
AS VENDAS DE ANDERSON e dos outros em relação aos quais o clube recebeu propostas no defeso (Quaresma, Lucho e Helton — vejam lá como os interessados não são parvos e só querem os bons...), ficam suspensas para já, no dizer do presidente portista, que explica e bem que é um erro, para o clube e para os jogadores, vendê-los cedo de mais. Em relação jóia da coroa, o Anderson, Pinto da Costa desmente a informação que eu aqui havia veiculado de que constava que o FC Porto teria vendido recentemente 10 por cento do seu passe. Afinal, comprou mais 15 por cento, estando agora detentor de 85 por cento. Eis uma boa notícia para os portistas. Não que isso impeça a sua venda próxima ou inevitável num futuro breve, mas ao menos será melhor negócio.
SOBRE COMPRAS DE JOGADORES EFECTUADAS ESTA ÉPOCA Pinto da Costa não fala nesta entrevista. Mas o tema é interessante, porque se o grosso dos accionistas está disposto a encaixar mais um exercício com «elevado prejuízo», que em breve será revelado, e em troca de se manterem no clube os activos representados pelos seus principais jogadores com mercado, também é verdade que talvez não houvesse prejuízo com uma melhor gestão das compras. Volto a dizer que não entendo porquê que se compra uma série de jogadores numa época (Paulo Ribeiro, Ezequias, Diogo Valente, Fucile, João Paulo, Tarik) nenhum dos quais tem valor para se impor como efectivo na equipa. E não percebo como é que, com três defesas-esquerdos no plantei, se deixa ir embora o César Peixoto, com provas dadas como defesa e como extremo e depois de um ano a recuperá-lo clinicamente, e se deixa continuar emprestado no Brasil, com parte do ordenado a pagar pelo clube, outro jogador com provas dadas, como o Leandro. E, depois de abrir mão dos dois, se vai comprar... o Ezequias.
AS DÍVIDAS DO DÍNAMO DE MOSCOVO que julgo ter sido a primeira vez que foram mencionadas por Pinto da Costa, é também um tema preocu-pante. O FC Porto vendeu ao Dínamo, a dois tempos, o Costinha, o Maniche, o Derlei e o Seitari-dis. Pelos vistos, vendeu sem as devidas garantias de pagamento e voltou a vender mesmo depois de o Dínamo não estar a cumprir os primeiros pagamentos. Entretanto, o Dínamo já revendeu o Costinha e o Maniche para o Atlético de Madrid e ocorre perguntar se esses dois já estariam pagos ou se o Dínamo fez dinheiro com jogadores que não pagou e sem que o FC Porto tenha assegurado o seu direito de regresso em relação ao Atlético de Madrid. A queixa à FIFA, por si só, não assegura o pagamento e o fraco rendimento dos atletas portugueses ao serviço do Dínamo não deve motivar muito os russos a pagarem as suas dívidas.
SOBRE O «APITO DOURADO» Pinto da Costa refere que, das onze certidões extraídas para eventual procedimento disciplinar contra ele, nove foram já arquivadas sem que ele tenha sequer sido ouvido, o que significa que os magistrados do Ministério Público entenderam não haver matéria para a instauração de processo. Restam, portanto, duas. E resta conhecer toda a documentação sobre o Apito Dourado, a transcrição de todas as conversas escutadas a toda a gente e ouvir todas as defesas, para se perceber se há matéria criminal ou simplesmente disciplinar, se houve corrupção ou apenas tráfico de influências, se tudo era uma batota organizada e quase generalizada ou apenas a habitual bandalheira tão portuguesa das cunhas e empenhos, centradas na figura tutelar do major Valentim Loureiro.
SOBRE A DEFUNTA DIRECÇÃO DA LIGA DE CLUBES Pinto da Costa é certeiro e incisivo. Foi obra congeminada a duas mãos entre Valentim Loureiro e Luís Filipe Vieira — que depois disse «querer regenerar a Liga que ele próprio havia feito». E, porque nesta direcção perdeu o poder que detinha na anterior, passou logo a inimigo declarado desta, antes mesmo que ela tivesse mexido uma palha.
Eis o universo portista na actualidade, passado em revista pelo seu presidente e acrescentado dos meus comentários. Percebe-se que os tempos dourados de Mourinho, no futebol, não voltarão tão depressa. Percebe-se, e percebe-se mal, que a situação financeira é má e que não se aproveitaram os lucros excepcionais conquistados nos anos de ouro de 2003 e 2004. Os tempos são de transição, tentando consolidar a supremacia interna, sem grandes veleidades europeias. Quando, com apenas dois jogos disputados na Liga dos Campeões, o próprio Pinto da Costa vem dizer que o objectivo mínimo é o apuramento para a Taça UEFA, os sonhos não podem ser o que já foram até há ainda bem pouco tempo.