Quando Paulo Costa sossegou, depois do intervalo, o Vitória pôde, enfim, jogar de igual para igual e, consequentemente, levar a Taça. O jogo foi, assim, um paradigma do que sucedeu em toda a época: quando o Benfica se viu obrigado a jogar de igual para igual demonstrou a sua incapacidade
1- Paulo Costa bem tentou: vestido com um ridículo equipamento azul-bebé, o árbitro da final da Taça achou que a sua missão não era a de assegurar condições de igualdade entre as partes mas sim a de começar desde logo a prestar vassalagem aos novos campeões. E, se assim o pensou, melhor o fez: aos três minutos de jogo, e prolongando uma tendência esta época muito em voga, ofereceu ao Benfica a possibilidade de começar o jogo a vencer sem nada ter feito para tal, através de um penalty de fabricação já tão gasta que só os árbitros que querem é que ainda se deixam enganar. Mas isso foi apenas o início de uma primeira parte que chegou aroçaro escândalo: oito decisõe serradas e todas, olha a coincidência, favoráveis ao Benfica! A boa gente de Setúbal, adeptos de um clube de que o País inteiro gosta, começou a pensar que não havia nada a fazer: apesar da superioridade futebolística gritantemente patenteada pelo Vitória sobre o «justíssimo campeão nacional», tudo pareceria ir esbarrar contra aquela muralha de «transparência» e «verdade futebolística ». Felizmente para a história da Taça de Portugal, Paulo Costa sossegou ao intervalo e o Vitória pôde, enfim, jogar de igual para igual e, consequentemente, levar a Taça. O jogo foi um paradigma eloquente do que sucedeu em toda a época, com o epílogo de fazer do Benfica o menos brilhante campeão nacional de todos os tempos. Mas, ao menos anteontem, fez-se justiça no Jamor.
2- Nem sempre, é verdade, esta questão da justiça no desporto é pacífica. Por exemplo, toda a gente vibrou coma sensacional recuperação do Liverpool contra o Milan, no jogo que determinou o sucessor do FC Porto como campeão da Europa. Porém, analisando o jogo todo, mais o prolongamento, o que se verifica é que o Liverpool jogou apenas 15 minutos contra o destino, nos quais conseguiu recuperar de 0-3 para 3-3, e, mal o conseguiu, voltou a encostar-se às cordas, lá atrás, apostando tudo nos penalties. Todas as despesas do jogo pertenceram ao Milan, todo o esforço para vencer foi doMilan e foi dele também o melhor futebol e, claramente, os melhores jogadores. Mas perderam nos penalties e, por isso, o Liverpool entrou na história e na lenda e remeteu o Milan à posição de «grande derrotado»—sem sequer o ter sido. «The winner takes it all...» Não obsta que seria uma verdadeira aberração se o Liverpool, por inércia burocrática ou esperteza saloia da federação inglesa, viesse a ser impedido de defender para o ano o seu título de campeão europeu. A hipótese é tão aberrante que quase desacreditaria a verdade da próxima edição da Champions.
3- Uma semana depois continuava-se ainda a falar dos «graves incidentes» ocorridos na Avenida dos Aliados, entre claques do FC Porto e do Benfica, durante os festejos do título na cidade do Porto. Moralistas ofendidos e pregadores de ocasião quiseram ver nos tais «graves incidentes» a demonstração final daquilo que há anos vêm proclamando: «a selvajaria dos portistas» e a sua incapacidade de aceitar a derrota. Ora, francamente, eu vejo nisto, sim, a tentativa de tomar os preconceitos por realidades e um sintoma preocupante daquilo que é a incapacidade da gente de Lisboa entender a do Porto e vice-versa. Não sou daqueles, como Jorge Olímpio Bento, que acham que a vitória do Benfica representa «a vitória da capital e do seu cortejo de interesses, das forças do centralismo sobre as energias que afirmam e exaltam localmente o pulsar da nação» (!). Sou portuense, por nascimento e família, e portista desde sempre: mas não sou provinciano nem confundo o que não pode ser confundido nem reduzido a chavões que a história e a estatística desmentem. Mas também não sou daqueles portuenses que, quando se instalam em Lisboa, quase têm vergonha das suas origens e passam a achar que a capital é a civilização e o Porto a província. Vejamos as coisas com um mínimo de calma e de boa-fé. Primeiro que tudo, ao ouvir falar dos «graves incidentes» na Avenida dos Aliados, e sem saber o que tinha acontecido, pensei que tinha ocorrido alguma tragédia, com mortos e feridos. Qual quê! Felizmente, o balanço foi: mortos, zero; feridos graves, zero; feridos ligeiros, zero. Eis o que retira desde logo o adjectivo «grave» aos incidentes. Se pensarmos no contexto de um campeonato decidido a seis minutos do fim, com50 mil adeptos derrotados da claque local a três quilómetros de 30 mil adeptos forasteiros celebrando a vitória, julgo que, em qualquer parte do mundo, se trataria de uma situação potencialmente explosiva e que não haveria ninguém que não se desse por contente por o saldo final se traduzirem zero — zero mortos, zero feridos. Dir-me-ão que isso deveria ser o normal e eu, claro, só posso concordar. Mas, infelizmente, não é esse o mundo em que vivemos, seja no Porto, em Lisboa ou em qualquer outra cidade do mundo. Resta, pois, apenas a «ofensa» de os Superdragões não terem deixado adeptos benfiquistas festejarem a vitória na Avenida dos Aliados, por todos comentada como grave atentado à democracia e aos direitos do «Benfica universal».Vejamos: o Benfica, pela voz do seu presidente, anunciou antes do jogo que, em caso de vitória, festejaria no Bessa, na Rotunda da Boavista, na Avenida da Boavista, no Castelo do Queijo e em todo o percurso daí até ao aeroporto. Para quem não conhece, esclareço que a Rotunda da Boavista é o equivalente, em Lisboa, ao Marquês de Pombal, a Avenida da Boavista à Avenida da Liberdade e o Castelo do Queijo, à falta de comparação possível, será o Terreiro do Paço. Não se tratava, portanto, de celebrar em ruas laterais ou praças escondidas. Por sua vez, os Superdragões anunciaram, também antes do jogo, que, fosse qual fosse o desfecho, se concentrariam na Avenida dos Aliados. E porquê a Avenida dos Aliados? Não só porque é o tradicional local de festejo dos portistas mas sobretudo porque aí se situam os Paços do Concelho, que simbolizam a cidade e onde tradicionalmente o FC Porto e o Boavista entregam à cidade os seus títulos. Ora, o Benfica será a nação, ou até um clube universal, mas não é um clube da cidade do Porto. E, por isso, querer festejar nos Paços do Concelho do Porto um título benfiquista seria o mesmo que os adeptos do Porto quererem festejar o triunfo na Praça do Município de Lisboa — onde o Benfica e o Sporting vão sempre também festejar os seus títulos e ser recebidos pelo presidente da câmara de Lisboa. Assim anunciados os festejos, passou-se o seguinte: que o autocarro do Benfica percorreu todos os pontos previamente indicados, sendo acompanhado pelos seus adeptos, sem a ocorrência de qualquer incidente ou provocação por parte dos adeptos do Porto. E que, no lugar onde os adeptos do Porto tinham indicado que estariam, aí sim, apareceram adeptos do Benfica, que vinham ao quê? Exercer um direito democrático de manifestação, respondem os que acham que ao Benfica tudo é devido e nada é de mais. Não, vinham provocar e tentar humilhar, digo eu. E podem-me dizer o que quiserem que desta não saio. Sei muito bem como é que se provocam incidentes destes e o que se pretende com eles. Já vi escrito, e com justiça, que o presidente do Benfica se soube portar à altura na hora da vitória. Mas não vi escrito, e também seria justo, que todos os dirigentes, técnicos e jogadores dos clubes vencidos — Porto, Sporting, Braga — igualmente souberam aceitar a derrota tranquilamente. Para quê, então, tentar chegar o rastilho a um fogo que não ardeu?
4- E começa a época de todas as minhas angústias: a do corrupio de entradas e saídas no FC Porto. A par de algumas boas perspectivas, tanto nas saídas como nas entradas, anunciam-se algumas outras que fazem antever a repetição de erros anteriores. Um deles é a insistência na recuperação de emigrantes, de que a última época nos deu dois exemplos negativos: Hélder Postiga e Hugo Leal. Agora anuncia-se o Fernando Meira. Santo Deus, para quê o Fernando Meira, que falta faz ele ao FC Porto? Outra teimosia que tem saído cara é a de tentar ressuscitar no FC Porto os falhados do Benfica: depois do Iuran e do Jankauskas, agora ameaçam-nos com o Sokota — seguramente para jogar na bancada ou fazer figura de corpo presente em campo. E, ao mesmo tempo que se pretende comprar um ponta-de-lança que vale dois golos por época, insiste-se em mandar embora o McCarthy, que é o único ponta-de-lança com categoria que passou pelo Porto desde o Jardel. Parece que para o ano vai haver lugar para todos: o Postiga, o Sokota, o Hugo Almeida, o Lizandro López, oBruno Morais e, se calhar também, o Jankauskas. Só não vai haver lugar para o único valor seguro, aquele que rende pontos na Liga dos Campeões, aquele que os adversários tanto temem, que a Comissão Disciplinar da Liga se esforça para deixar jogar o menos que pode: McCarthy. Resta esperar que Co Adriaanse veja com atenção os vídeos e se oponha a esta auto mutilação. Se ainda fora tempo.
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
quarta-feira, junho 01, 2005
Não nos peçam aplausos ( 24 Maio 2005)
O facto de ninguém, claramente, ter merecido mais do que os outros, não faz do Benfica, por direito natural ou privilégio de grandeza popular, um campeão justo. Por isso, digo: peçam-nos compreensão e aceitação pela sua alegria, mas não esperem que lhes demos os parabéns
«Espero que ganhe o pior!»
Manuel Alegre, confiando numa vitória do Benfica, no jogo contr ao Sporting
1-Para os meus muitos e grandes amigos benfiquistas a hora é de alegria ou, ao menos de alívio. Saber que eles estão felizes é, em horas destas, a consolação dos que acabam de ser desportivamente derrotados.O Benfica é um grande clube e eles são grandes amigos. De norte a sul do país, milhares ou milhões de benfiquistas, pequenos, velhos, de meia idade, tiveram enfim o dia de felicidade pelo qual esperaram onze anos. Quem gosta de futebol, quem compreende que o atractivo do futebol está na competição e esta não existe se não houver rotatividade, compreende e aceita que hoje estejam uns felizes e amanhã outros. Assim como me fez impressão a profunda tristeza e decepção dos sportinguistas, que desceram dos céus aos infernos em apenas dez dias, assim também compreendo, aceito e respeito, como não podia deixar de ser, a alegria dos benfiquistas todos.
Sabendo eu o que o futebol significa como descompressor de tantas e tantas tristezas, como matéria de sonho palpável contra a frustração de tanta realidade, só posso respeitar um clube que canaliza em si uma fatia decisiva de tanta alegria e tanto sonho. Essa é, indesmentivelmente, a força do Benfica. E não esquecerei nunca que, num passado já longínquo, as vitórias europeias do Benfica eram a única réstia de luz para todos,mas todos mesmo, no meio das trevas do silêncio e da mediocridade reinantes em Portugal.
Mas ser grande — grande em número de adeptos e seguidores não constitui,em si mesmo,um motivo de mérito ou de excelência. E, menos ainda, concede direitos de privilégio ou a expectativa de exigir e esperar a vassalagem geral. É aí que muitos grandes se transformam em pequenos e muitos pequenos se transformam em grandes. Por mim, no futebol e em tudo o resto, o que mais me incomodou nunca foi estar com os pequenos, mas sim com os grandes, e tenho vivido sempre com a tranquila certeza de que só existe justiça onde existe igualdade de tratamento. Às duas da manhã de domingo (depois disso, já não sei), as três estações de televisão nacionais continuavam a transmitir ininterruptamente, após sete ou oito horas de emissão, a festa do Benfica—primeiro antecipadamente e depois ao minuto e ao pormenor. Todas, até a televisão pública que é paga por todos, benfiquistas e não benfiquistas, e que nunca dedicou uma cobertura sequer parecida às recentes vitórias internacionais do FC Porto—muito menos, obviamente, às nacionais. Pergunto apenas: se tem sido o Porto a ganhar no domingo, assistiríamos a coisa semelhante? De repente, pareceu-me recuar no tempo, à cobertura dos grandes acontecimentos «nacionais e patrióticos » do Estado Novo, quando uma onda de unanimismo se impunha a uma só voz ao país inteiro. Jornalistas e comentadores que tinham passado um ano inteiro a fingirem-se neutros ou isentos, «passaram-se» em directo, assumindo as cores benfiquistas sem problema nem decoro, chegando até a ver um de cachecol no estúdio. Supostos especialistas de arbitragem esforçavam-se por nos apresentar como nítido o penalty que deu o golo ao Benfica no Bessa, enquanto os realizadores trataram de sanear as imagens de um possível penalty a favor do Boavista não assinalado, uns e outros aparentemente crentes de que toda a Gália já estava rendida ou que os desafectos das suas cores não tinham visto nada, eram cegos e desmemoriados. Num dos ecrãs de televisão, o benfiquista Rui Santos, no papel de comentador isento, proclamava que o «Benfica é um clube universal» (já não deve viajar há muito tempo...) e, como tal, os seus adeptos tinham o direito de se manifestar onde quisessem sem ser incomodados — mesmo que alguns tenham escolhido o lugar emblemático das comemorações portistas,um ou outro até, como vi na televisão, com cartazes ou cachecóis rezando «Odeio o Porto» ou «Porto é merda»,numa provocação rasteira e dispensável, destinada exactamente a atrair sarilhos. Reproduzida na imprensa escrita do dia seguinte, foi-se espalhando uma insidiosa onda de arrogância e intolerância, que aliás se sentia desde o inicio da época, e que, compreendem-no os benfiquistas ou não, é aquilo que representa hoje o reverso da vitória do Benfica: ter perdido o respeito e a admiração histórica que muitos adeptos de outros clubes lhe tinham. Porque, se é preciso saber perder, também é preciso saber ganhar.
Por mim falando, a vitória do Benfica no campeonato, não me incomodou mais de meia hora. Primeiro, porque nunca esperei que o Porto fosse campeão este ano, como várias vezes o escrevi; segundo, porque registei e nunca esqueci a afirmação feita pelo presidente do Benfica, logo a abrir o campeonato, que, fosse como fosse, o Benfica seria campeão este ano. E foi como o foi. Lamento por aqueles dentro desta equipa do Benfica, a começar pelo seu treinador, que não tenho dúvidas que trabalharam duramente e deram o melhor de si para chegar ao título,mas não consigo deixar de dizer que é a primeira vez em muito tempo que não reconheço mérito ao campeão. E tenho a certeza que não encontrarão em Portugal inteiro um só portista e um só sportinguista que reconheça neste Benfica um justo campeão. Eu vejo futebol há mais de quarenta anos, joguei futebol juvenil e amador muitos anos, e creio que sei reconhecer a marca dos campeões, quando uma equipa joga um futebol ou bonito ou vencedor, ou ambas as coisas.E o Benfica não joga nenhum deles. Consigo lembrar-me da forma como o Benfica ganhou inúmeros jogos neste campeonato, mas, se me puser a pensar, não consigo lembrar- me de mais do que dois jogos que tenha ganho com mérito indiscutível. É muito possível e manda a verdade que o diga, que se tem sido campeão qualquer um dos outros, a começar pelo meu Porto, o mesmo poderia ser dito: que não o tinha justificado em campo.Mas o facto de ninguém, claramente, ter merecido mais do que os outros, não faz do Benfica, por direito natural ou privilégio de grandeza popular, um campeão justo. Por isso, digo: peçam-nos compreensão e aceitação pela sua alegria, mas não esperem que lhes demos os parabéns.
2- Mais tarde terei ocasião de falar mais a frio sobre esta época do FC Porto. Sobre o que anteontem aconteceu, há pouco para dizer. Do mal o menos: poderíamos ter acabado desde o 1.º até ao 4.º lugar e acabámos em 2.º, com entrada directa na Liga dos Campeões. Também é verdade — e obviamente ninguém disso fala — que poderíamos, ao menos ter prolongado o sofrimento do Benfica mais um pouco, se o juiz-de-linha do Dragão não tem invalidado de forma incrível o que teria sido o segundo golo contra a Académica. Mas também isso era de prever: os sucessivos tiros no pé dados por esta equipa este ano, andaram sempre a par com as sucessivas e cirúrgicas decisões erradas da arbitragem e a perseguição sem tréguas da Comissão Disciplinar da Liga. Resta que, na sua despedida, José Couceiro—que passou pelo clube com uma imensa vontade, uma imensa dignidade e sem tempo nem calma para mostrar melhor —despediu-se sem glória, pagando o preço da falta de ousadia de entrar em campo, num jogo para ganhar e onde só a vitória interessava, com um avançado e meio (visto que um ponta-de-lança alérgico ao golo, como o Postiga, em termos práticos só pode contar por meio), com o maior desequilibrador (o Quaresma) a suplente, e com o eternamente inútil Diego a emperrar todo o jogo do Porto e a lançar os contra-ataques da Académica. Enfim, resta a grande consolação de saber que, a menos que venha aí uma nova catadupa de asneiras na formação da equipa, para o ano é impossível ser pior.
3- E agora, com o apaixonado do futebol, só desejo mais uma coisa para esta época: que deixem o Vitória de Setúbal bater-se com armas iguais pela Taça de Portugal.
«Espero que ganhe o pior!»
Manuel Alegre, confiando numa vitória do Benfica, no jogo contr ao Sporting
1-Para os meus muitos e grandes amigos benfiquistas a hora é de alegria ou, ao menos de alívio. Saber que eles estão felizes é, em horas destas, a consolação dos que acabam de ser desportivamente derrotados.O Benfica é um grande clube e eles são grandes amigos. De norte a sul do país, milhares ou milhões de benfiquistas, pequenos, velhos, de meia idade, tiveram enfim o dia de felicidade pelo qual esperaram onze anos. Quem gosta de futebol, quem compreende que o atractivo do futebol está na competição e esta não existe se não houver rotatividade, compreende e aceita que hoje estejam uns felizes e amanhã outros. Assim como me fez impressão a profunda tristeza e decepção dos sportinguistas, que desceram dos céus aos infernos em apenas dez dias, assim também compreendo, aceito e respeito, como não podia deixar de ser, a alegria dos benfiquistas todos.
Sabendo eu o que o futebol significa como descompressor de tantas e tantas tristezas, como matéria de sonho palpável contra a frustração de tanta realidade, só posso respeitar um clube que canaliza em si uma fatia decisiva de tanta alegria e tanto sonho. Essa é, indesmentivelmente, a força do Benfica. E não esquecerei nunca que, num passado já longínquo, as vitórias europeias do Benfica eram a única réstia de luz para todos,mas todos mesmo, no meio das trevas do silêncio e da mediocridade reinantes em Portugal.
Mas ser grande — grande em número de adeptos e seguidores não constitui,em si mesmo,um motivo de mérito ou de excelência. E, menos ainda, concede direitos de privilégio ou a expectativa de exigir e esperar a vassalagem geral. É aí que muitos grandes se transformam em pequenos e muitos pequenos se transformam em grandes. Por mim, no futebol e em tudo o resto, o que mais me incomodou nunca foi estar com os pequenos, mas sim com os grandes, e tenho vivido sempre com a tranquila certeza de que só existe justiça onde existe igualdade de tratamento. Às duas da manhã de domingo (depois disso, já não sei), as três estações de televisão nacionais continuavam a transmitir ininterruptamente, após sete ou oito horas de emissão, a festa do Benfica—primeiro antecipadamente e depois ao minuto e ao pormenor. Todas, até a televisão pública que é paga por todos, benfiquistas e não benfiquistas, e que nunca dedicou uma cobertura sequer parecida às recentes vitórias internacionais do FC Porto—muito menos, obviamente, às nacionais. Pergunto apenas: se tem sido o Porto a ganhar no domingo, assistiríamos a coisa semelhante? De repente, pareceu-me recuar no tempo, à cobertura dos grandes acontecimentos «nacionais e patrióticos » do Estado Novo, quando uma onda de unanimismo se impunha a uma só voz ao país inteiro. Jornalistas e comentadores que tinham passado um ano inteiro a fingirem-se neutros ou isentos, «passaram-se» em directo, assumindo as cores benfiquistas sem problema nem decoro, chegando até a ver um de cachecol no estúdio. Supostos especialistas de arbitragem esforçavam-se por nos apresentar como nítido o penalty que deu o golo ao Benfica no Bessa, enquanto os realizadores trataram de sanear as imagens de um possível penalty a favor do Boavista não assinalado, uns e outros aparentemente crentes de que toda a Gália já estava rendida ou que os desafectos das suas cores não tinham visto nada, eram cegos e desmemoriados. Num dos ecrãs de televisão, o benfiquista Rui Santos, no papel de comentador isento, proclamava que o «Benfica é um clube universal» (já não deve viajar há muito tempo...) e, como tal, os seus adeptos tinham o direito de se manifestar onde quisessem sem ser incomodados — mesmo que alguns tenham escolhido o lugar emblemático das comemorações portistas,um ou outro até, como vi na televisão, com cartazes ou cachecóis rezando «Odeio o Porto» ou «Porto é merda»,numa provocação rasteira e dispensável, destinada exactamente a atrair sarilhos. Reproduzida na imprensa escrita do dia seguinte, foi-se espalhando uma insidiosa onda de arrogância e intolerância, que aliás se sentia desde o inicio da época, e que, compreendem-no os benfiquistas ou não, é aquilo que representa hoje o reverso da vitória do Benfica: ter perdido o respeito e a admiração histórica que muitos adeptos de outros clubes lhe tinham. Porque, se é preciso saber perder, também é preciso saber ganhar.
Por mim falando, a vitória do Benfica no campeonato, não me incomodou mais de meia hora. Primeiro, porque nunca esperei que o Porto fosse campeão este ano, como várias vezes o escrevi; segundo, porque registei e nunca esqueci a afirmação feita pelo presidente do Benfica, logo a abrir o campeonato, que, fosse como fosse, o Benfica seria campeão este ano. E foi como o foi. Lamento por aqueles dentro desta equipa do Benfica, a começar pelo seu treinador, que não tenho dúvidas que trabalharam duramente e deram o melhor de si para chegar ao título,mas não consigo deixar de dizer que é a primeira vez em muito tempo que não reconheço mérito ao campeão. E tenho a certeza que não encontrarão em Portugal inteiro um só portista e um só sportinguista que reconheça neste Benfica um justo campeão. Eu vejo futebol há mais de quarenta anos, joguei futebol juvenil e amador muitos anos, e creio que sei reconhecer a marca dos campeões, quando uma equipa joga um futebol ou bonito ou vencedor, ou ambas as coisas.E o Benfica não joga nenhum deles. Consigo lembrar-me da forma como o Benfica ganhou inúmeros jogos neste campeonato, mas, se me puser a pensar, não consigo lembrar- me de mais do que dois jogos que tenha ganho com mérito indiscutível. É muito possível e manda a verdade que o diga, que se tem sido campeão qualquer um dos outros, a começar pelo meu Porto, o mesmo poderia ser dito: que não o tinha justificado em campo.Mas o facto de ninguém, claramente, ter merecido mais do que os outros, não faz do Benfica, por direito natural ou privilégio de grandeza popular, um campeão justo. Por isso, digo: peçam-nos compreensão e aceitação pela sua alegria, mas não esperem que lhes demos os parabéns.
2- Mais tarde terei ocasião de falar mais a frio sobre esta época do FC Porto. Sobre o que anteontem aconteceu, há pouco para dizer. Do mal o menos: poderíamos ter acabado desde o 1.º até ao 4.º lugar e acabámos em 2.º, com entrada directa na Liga dos Campeões. Também é verdade — e obviamente ninguém disso fala — que poderíamos, ao menos ter prolongado o sofrimento do Benfica mais um pouco, se o juiz-de-linha do Dragão não tem invalidado de forma incrível o que teria sido o segundo golo contra a Académica. Mas também isso era de prever: os sucessivos tiros no pé dados por esta equipa este ano, andaram sempre a par com as sucessivas e cirúrgicas decisões erradas da arbitragem e a perseguição sem tréguas da Comissão Disciplinar da Liga. Resta que, na sua despedida, José Couceiro—que passou pelo clube com uma imensa vontade, uma imensa dignidade e sem tempo nem calma para mostrar melhor —despediu-se sem glória, pagando o preço da falta de ousadia de entrar em campo, num jogo para ganhar e onde só a vitória interessava, com um avançado e meio (visto que um ponta-de-lança alérgico ao golo, como o Postiga, em termos práticos só pode contar por meio), com o maior desequilibrador (o Quaresma) a suplente, e com o eternamente inútil Diego a emperrar todo o jogo do Porto e a lançar os contra-ataques da Académica. Enfim, resta a grande consolação de saber que, a menos que venha aí uma nova catadupa de asneiras na formação da equipa, para o ano é impossível ser pior.
3- E agora, com o apaixonado do futebol, só desejo mais uma coisa para esta época: que deixem o Vitória de Setúbal bater-se com armas iguais pela Taça de Portugal.
quarta-feira, maio 18, 2005
Onze anos e seis dias (17 Maio 2005)
E o Benfica está agora a seis dias de quebrar um jejum de onze anos e depois de um campeonato com sete derrotas sofridas, treze vitórias por margem tangencial, não sei quantas arrancadas in extremis, seis jogos contra os dois rivais mais directos sem nenhuma vitória, e... e... viva a «Semana do Futebol!»
1 Falhei a minha previsão, que já vinha detrás, desde Setembro ou Outubro: o Sporting não será campeão nacional este ano. Caiu no momento decisivo, pagando desde já um preço pela situação de risco-limite que estava a viver: numa semana, tudo podia perder e tudo ganhar. São raras as equipas que, quando chegam ao fim de uma época inteira nesta situação, aguentam a pressão e conseguem não deixar fugir presa alguma. O FC Porto de 2003 conseguiu tudo: o Campeonato, a Taça e a Taça UEFA, depois de uma dramática final em Sevilha, em que foi preciso apelar às últimas reservas de energia e vontade dos jogadores. Em 2004, foi campeão e ganhou a Champions,mas falhou a Taça, numa final contra o Benfica em que jogou mais de uma hora só com dez e mesmo assim dominou, teve as melhores opurtunidades e só foi vencido, muito injustamente, devido a umerro do guarda- redesNuno.OSporting não tinha a Taça mas tinha o Campeonato ali à mão e agora só lhe resta não perder a oportunidade única de vencer a Taça UEFA e conseguir que fique em Portugal a terceira taça europeia consecutiva.
Na Luz, no jogo do título, José Peseiro, a meu ver, não resistiu à tentação clássica dos treinadores portugueses: quando o jogo é difícil tira-se umavançado. Controlando sem dificuldade a primeira parte, Peseiro acreditou que a estratégia do 0-0 acabaria por resultar. Trapatoni agradeceu, porque um Sporting com uma frente de ataque de três jogadores, idêntica à de Braga, e a jogar sem medo, teria deixado o Benfi ca de cócoras. Como quase sempre sucede nestas situações, foi quando já parecia ter tudo controlado, que o Sporting perdeu o jogo e o título, através de umcruzamento para a pequena área de Ricardo (que ainda a semana passada eu comentava ser a jogada mais vulnerável desta equipa).
Fica assim afastada do título, e possivelmente até do 2.º lugar, aquela que, consensualmente e clubites à parte, demonstrou, ao longo de toda a época, ser a equipe que, a espaços, era capaz de jogar omelhor futebol, o mais ofensivo e o mais bonito.
2 E o Benfica está agora a seis dias de quebrar um jejum de onze anos e depois de um campeonato com sete derrotas sofridas, treze vitórias por margem tangencial, não sei quantas arrancadas in extremis, seis jogos contra os dois rivais mais directos sem nenhuma vitória, e... e... viva a «Semana do Futebol!»
Em condições normais, mesmo neste anormal Campeonato, o último obstáculo não seria porém, como todos parecem adivinhar, favas contadas. Em circunstâncias normais, o Benfica não se deslocaria a um Estádio do Bessa unicamente povoado de benfiquistas, graças à venda antecipada da lotação do estádio, em bloco, feita pela Direcção do Boavista à do Benfica, chegando ao ponto de desalojar a claque local do seu lugar habitual. Em circunstâncias normais, o Boavista estaria treinado por Jaime Pacheco e faria o seu habitual jogo de sapa e oportunismo, jogando para marcar um golo e defendê-lo com unhas e dentes — como fez contra o FC Porto, ganhando ambos os jogos Benfipor 1-0, qualquer deles sem réstea de merecimento. Em circunstâncias normais, o Boavista talvez não tivesse visto dois jogadores mal expulsos no jogo de sábado, consequentemente impedidos de defrontar o Benfica. Em circunstâncias normais, o Boavista, enfim, estaria a lutar ao menos pela qualificação para a Taça UEFA, em lugar de estar a lutar por coisa alguma. Sorte a do Benfica!
3 Amigos meus portistas ainda tentam arrastar-me para o Dragão, domingo que vem. Mas não vou: sou homem de pouca fé e a pouca que tinha perdi-a definitivamente no jogo contra oMoreirense, cuja exibição e atitude da equipa não consigo esquecer nem perdoar. Como aqui escrevi então, o FC Porto não merece ser campeão. É verdade que acrescentei que o Benfica também não merecia — e o jogo de Penafiel confirmou-o, sem que o da Luz tenha apagado minimamente essa impressão. Mas, depois de todos os grandes se terem alternadamente demitido das suas obrigações, alguém tem de ser campeão. A diferença histórica entre o FC Porto e os seus rivais de Lisboa é que, para nós sermos campeões, o título tem de ser claramente vencido e merecido—de outra maneira, e ao contrário deles, não chegamos lá.
4 Em Penafiel, um objecto vindo da claque benfiquista atingiu na cabeça Oldair, o defesa-central penafidelense, levando à suspensão do jogo para ele ser assistido. No final, parece que voltou a haver incidentes, já fora do estádio, entre a claque benfiquista e o autor do golo do Penafiel, mas nunca mais se falou no assunto nem ninguém se preocupou em esclarecê-lo. O CD da Liga ignorou o último caso, mas não pôde ignorar o primeiro, à vista de todos: «pesada multa», escreveu-se aqui, em título para a decisão do CD. Cinco mil euros.
Em Faro, o treinador adjunto do Estoril manifestou-se revoltado contra a arbitragem do jogo, que entendeu ter favorecido oBenfica. Por crime de opinião, foi sancionado com o equivalente a dois meses de ordenado. Mas, desta vez, o CD da Liga está inocente: quem aplicou a sentença foi a própria Direcção do Estoril, que assim se tornou na primeira Direcção de um clube a punirumtreinador por este acusar um árbitro de prejudicar o seu clube e favorecer o adversário. Assim se poupa na receita do jogo desviado para Faro, a qual, segundo parece, se destinava exactamente a pagar salários ematraso.
5 Não sei se é verdade, ou provavelmente apenas uma lenda, mas sempre ouvi contar que o único homem em Portugal que conseguiu ganhar duas vezes a taluda foi o major Valentim Loureiro. Pois, se é verdade, a partir de agora já tem companhia: Pinto da Costa. De facto, depois de no ano passado lhe ter saído a taludaAbramovitch/ Chelsea, que pôs nos cofres do clube qualquer coisa como 55 milhões de euros, agora a «roleta russa» voltou a contemplar Pinto da Costa, através da dupla Fedoritchev/Dínamo de Moscovo, que se prepara para lançar mais 30 milhões de euros nos cofres daSAD portista.
São três vendas caídas do céu e qualquer delas um excelente negócio, não só pelos números fabulosos, mas também pelos jogadores envolvidos. Costinha aproxima-se do fim da carreira e, depois de uma penosa época de grande sacrifício e grande dignidade, merece, por tudo o que deu ao clube e pela sua atitude profissional e pessoal, melhorar as suas condições financeiras enquanto pode; Seitaridis, porque é vendido por três vezes o preço de compra, apenas um ano decorrido e, pelo que mostrou neste ano, não justifica tais números nem continuar a ocupar uma vaga de estrangeiro; e Maniche, porque desde que viu frustrada a sua saída no ano passado, nuncamais foi o mesmo, aparentemente já esquecido que, ainda há três épocas vegetava sem futuro na equipaBdoBenfica. Não irá adaptar-se a Moscovo e vai baixar de estatuto profissional, mas vai ficar milionário mais depressa. A escolha foi dele.
Todos os portistas esperam agora que não se desbarate, segunda vez consecutiva, esta extraordinária oportunidade financeira (vale bem mais, financeiramente, do que a conquista de uma Liga dos Campeões!) Esperam que não se repita a compra ao desbarato de jogadores para serem de imediato emprestados, cedidos ou colocados na bancada do estádio, esperam que não haja mais «contentores de brasileiros» contratados por ouvir dizer, que não se assinem de cruz mais contratos milionários, com duração absurda de cinco anos e ordenados de luxo, a favor de jogadores medianos ou nem isso, demodo a que agora, em contrapartida, não há ninguém que consiga pegar neles e pagar-lhes as mordomias que recebem no FC Porto... para não jogar. Esperam, enfim, que desta vez não se confirme a fama de que goza, entre os adeptos, esta Direcção portista: a de que só sabe administrar quando não tem dinheiro.
1 Falhei a minha previsão, que já vinha detrás, desde Setembro ou Outubro: o Sporting não será campeão nacional este ano. Caiu no momento decisivo, pagando desde já um preço pela situação de risco-limite que estava a viver: numa semana, tudo podia perder e tudo ganhar. São raras as equipas que, quando chegam ao fim de uma época inteira nesta situação, aguentam a pressão e conseguem não deixar fugir presa alguma. O FC Porto de 2003 conseguiu tudo: o Campeonato, a Taça e a Taça UEFA, depois de uma dramática final em Sevilha, em que foi preciso apelar às últimas reservas de energia e vontade dos jogadores. Em 2004, foi campeão e ganhou a Champions,mas falhou a Taça, numa final contra o Benfica em que jogou mais de uma hora só com dez e mesmo assim dominou, teve as melhores opurtunidades e só foi vencido, muito injustamente, devido a umerro do guarda- redesNuno.OSporting não tinha a Taça mas tinha o Campeonato ali à mão e agora só lhe resta não perder a oportunidade única de vencer a Taça UEFA e conseguir que fique em Portugal a terceira taça europeia consecutiva.
Na Luz, no jogo do título, José Peseiro, a meu ver, não resistiu à tentação clássica dos treinadores portugueses: quando o jogo é difícil tira-se umavançado. Controlando sem dificuldade a primeira parte, Peseiro acreditou que a estratégia do 0-0 acabaria por resultar. Trapatoni agradeceu, porque um Sporting com uma frente de ataque de três jogadores, idêntica à de Braga, e a jogar sem medo, teria deixado o Benfi ca de cócoras. Como quase sempre sucede nestas situações, foi quando já parecia ter tudo controlado, que o Sporting perdeu o jogo e o título, através de umcruzamento para a pequena área de Ricardo (que ainda a semana passada eu comentava ser a jogada mais vulnerável desta equipa).
Fica assim afastada do título, e possivelmente até do 2.º lugar, aquela que, consensualmente e clubites à parte, demonstrou, ao longo de toda a época, ser a equipe que, a espaços, era capaz de jogar omelhor futebol, o mais ofensivo e o mais bonito.
2 E o Benfica está agora a seis dias de quebrar um jejum de onze anos e depois de um campeonato com sete derrotas sofridas, treze vitórias por margem tangencial, não sei quantas arrancadas in extremis, seis jogos contra os dois rivais mais directos sem nenhuma vitória, e... e... viva a «Semana do Futebol!»
Em condições normais, mesmo neste anormal Campeonato, o último obstáculo não seria porém, como todos parecem adivinhar, favas contadas. Em circunstâncias normais, o Benfica não se deslocaria a um Estádio do Bessa unicamente povoado de benfiquistas, graças à venda antecipada da lotação do estádio, em bloco, feita pela Direcção do Boavista à do Benfica, chegando ao ponto de desalojar a claque local do seu lugar habitual. Em circunstâncias normais, o Boavista estaria treinado por Jaime Pacheco e faria o seu habitual jogo de sapa e oportunismo, jogando para marcar um golo e defendê-lo com unhas e dentes — como fez contra o FC Porto, ganhando ambos os jogos Benfipor 1-0, qualquer deles sem réstea de merecimento. Em circunstâncias normais, o Boavista talvez não tivesse visto dois jogadores mal expulsos no jogo de sábado, consequentemente impedidos de defrontar o Benfica. Em circunstâncias normais, o Boavista, enfim, estaria a lutar ao menos pela qualificação para a Taça UEFA, em lugar de estar a lutar por coisa alguma. Sorte a do Benfica!
3 Amigos meus portistas ainda tentam arrastar-me para o Dragão, domingo que vem. Mas não vou: sou homem de pouca fé e a pouca que tinha perdi-a definitivamente no jogo contra oMoreirense, cuja exibição e atitude da equipa não consigo esquecer nem perdoar. Como aqui escrevi então, o FC Porto não merece ser campeão. É verdade que acrescentei que o Benfica também não merecia — e o jogo de Penafiel confirmou-o, sem que o da Luz tenha apagado minimamente essa impressão. Mas, depois de todos os grandes se terem alternadamente demitido das suas obrigações, alguém tem de ser campeão. A diferença histórica entre o FC Porto e os seus rivais de Lisboa é que, para nós sermos campeões, o título tem de ser claramente vencido e merecido—de outra maneira, e ao contrário deles, não chegamos lá.
4 Em Penafiel, um objecto vindo da claque benfiquista atingiu na cabeça Oldair, o defesa-central penafidelense, levando à suspensão do jogo para ele ser assistido. No final, parece que voltou a haver incidentes, já fora do estádio, entre a claque benfiquista e o autor do golo do Penafiel, mas nunca mais se falou no assunto nem ninguém se preocupou em esclarecê-lo. O CD da Liga ignorou o último caso, mas não pôde ignorar o primeiro, à vista de todos: «pesada multa», escreveu-se aqui, em título para a decisão do CD. Cinco mil euros.
Em Faro, o treinador adjunto do Estoril manifestou-se revoltado contra a arbitragem do jogo, que entendeu ter favorecido oBenfica. Por crime de opinião, foi sancionado com o equivalente a dois meses de ordenado. Mas, desta vez, o CD da Liga está inocente: quem aplicou a sentença foi a própria Direcção do Estoril, que assim se tornou na primeira Direcção de um clube a punirumtreinador por este acusar um árbitro de prejudicar o seu clube e favorecer o adversário. Assim se poupa na receita do jogo desviado para Faro, a qual, segundo parece, se destinava exactamente a pagar salários ematraso.
5 Não sei se é verdade, ou provavelmente apenas uma lenda, mas sempre ouvi contar que o único homem em Portugal que conseguiu ganhar duas vezes a taluda foi o major Valentim Loureiro. Pois, se é verdade, a partir de agora já tem companhia: Pinto da Costa. De facto, depois de no ano passado lhe ter saído a taludaAbramovitch/ Chelsea, que pôs nos cofres do clube qualquer coisa como 55 milhões de euros, agora a «roleta russa» voltou a contemplar Pinto da Costa, através da dupla Fedoritchev/Dínamo de Moscovo, que se prepara para lançar mais 30 milhões de euros nos cofres daSAD portista.
São três vendas caídas do céu e qualquer delas um excelente negócio, não só pelos números fabulosos, mas também pelos jogadores envolvidos. Costinha aproxima-se do fim da carreira e, depois de uma penosa época de grande sacrifício e grande dignidade, merece, por tudo o que deu ao clube e pela sua atitude profissional e pessoal, melhorar as suas condições financeiras enquanto pode; Seitaridis, porque é vendido por três vezes o preço de compra, apenas um ano decorrido e, pelo que mostrou neste ano, não justifica tais números nem continuar a ocupar uma vaga de estrangeiro; e Maniche, porque desde que viu frustrada a sua saída no ano passado, nuncamais foi o mesmo, aparentemente já esquecido que, ainda há três épocas vegetava sem futuro na equipaBdoBenfica. Não irá adaptar-se a Moscovo e vai baixar de estatuto profissional, mas vai ficar milionário mais depressa. A escolha foi dele.
Todos os portistas esperam agora que não se desbarate, segunda vez consecutiva, esta extraordinária oportunidade financeira (vale bem mais, financeiramente, do que a conquista de uma Liga dos Campeões!) Esperam que não se repita a compra ao desbarato de jogadores para serem de imediato emprestados, cedidos ou colocados na bancada do estádio, esperam que não haja mais «contentores de brasileiros» contratados por ouvir dizer, que não se assinem de cruz mais contratos milionários, com duração absurda de cinco anos e ordenados de luxo, a favor de jogadores medianos ou nem isso, demodo a que agora, em contrapartida, não há ninguém que consiga pegar neles e pagar-lhes as mordomias que recebem no FC Porto... para não jogar. Esperam, enfim, que desta vez não se confirme a fama de que goza, entre os adeptos, esta Direcção portista: a de que só sabe administrar quando não tem dinheiro.
sexta-feira, maio 13, 2005
Sem categoria (10 Maio 2005)
Nem um nem outro têm, no caso, razões válidas de queixa das arbitragens, mas, mesmo que as tivessem, sobra aquilo que todos vimos e uma vez mais: nem Benfica nem FC Porto mostraram ter categoria para ganhar este campeonato
1- Maisumajornada e mais uma vez a arbitragem utilizada como desculpa para novos tropeções dos candidatos ao título: pelo FC Porto, empate em Moreira de Cónegos, e, excepcionalmente, pelo Benfica, derrotado em Penafiel. Nem um nem outro têm, no caso, razões válidas de queixa, mas, mesmo que as tivessem, sobra aquilo que todos vimos e uma vez mais: nem Benfica nem FC Porto mostraram ter categoria para ganhar este campeonato. OBenfica tem uma equipa com dois, vá lá, três jogadores bons e nada mais. Não é por acaso que, das 18 vitórias no campeonato, doze foram à tangente. Quando não há manobras de Faro, nem expulsões dos adversários, nem erros cirúrgicos dos árbitros, o Benfica fica reduzido a dar o que pode e o que pode é muito pouco. Após Penafiel, o presidente do Benfica queixou-se de o árbitro ser... benfiquista e ter feito vista grossa a três penalties (!), razão da derrota. A crítica, todavia, apenas concede um eventual penalty e, mesmo esse, muito esforçado e nada conclusivo pelas imagens vistas. Em contrapartida, todos viram apenas meia oportunidade de golo construída pelo Benfica em todo o jogo e uma meia hora final verdadeiramente constrangente para quem se afirma candidato natural ao título. Luís Filipe Vieira não se importava de repetir um empate ou vitória por penalty ou penalties duvidosos, como sucedeu contra o Belenenses, na última jornada, e não só. Mas, depois, como se pode falar em justiça e transparência, se o futebol exibido não corresponde minimamente às vitórias registadas e pretendidas? OFC Porto, depois de uma época de «desconstrução científica», tem vivido essencialmente do génio de dois jogadores: Ricardo Quaresma e Vítor Baía — que, para grande desgosto de Scolari, continua, jogo após jogo e ano após ano, a mostrar que não há ninguém que lhe faça sombra em Portugal. De resto, tem alguns outros bons jogadores, que às vezes se esforçam ou estão inspirados e outras não, tem outros que não são maus mas não se esforçam e outros que se esforçam mas, coitados... Como de novo se viu contra o Moreirense, é uma equipa sem rotinas de ataque, incapaz demarcar mais do que um golo por jogo e que, com quatro jogadores de ataque que, todos juntos foram avaliados e pagos pela SAD em qualquer coisa como cinco ou seis milhões de contos, conseguem ser apenas o 10.º ataque da SuperLiga! Depois do Moreirense, Pinto da Costa queixou-se da falta de controlo anti-doping, Reinaldo Te les queixou-se do juiz de linha que expulsou Quaresma, por supostas palavras e que fora o mesmo que no Estoril inventara um penalty inexistente contra o Porto, e José Couceiro, para acabar, queixou-se das «coincidências» de ter ficado sem Fabiano e Quaresma para os jogos seguintes. Mas esqueceram-se todos de dizer que, mais uma vez, o FC Porto sofreu um golo no primeiro remate feito pelo adversário à baliza e que deu meia parte de avanço, antes de começar a pensar em recuperar os danos. E a isso, meus amigos, chama-se falta de atitude competitiva e falta de espírito de vitória. Não merecem.
2- Em contrapartida, mesmo sem grande brilhantismo e com alguma da sorte habitual à mistura (cada vez que a bola é cruzada para a pequena área do Ricardo é ummilagre não acabar dentro da baliza...), o Sporting voltou a dizer ontem à noite que tem os melhores jogadores, o melhor futebol e a melhor atitude competitiva. Creio que vai ser campeão, como sempre aqui vaticinei. Só me pesa aquele decisivo jogo de Alvalade, contra nove jogadores do FC Porto. Um jogo que foi consequência directa do Tordesilhas assinado entre os presidentes do Sporting e do Benfica e que foi consequentemente decidido por João Ferreira (viram como ele ajudou a decidir também, este domingo, a troca de posições, na luta pela despromoção, entre o Gondomar e o Chaves?).
3- Depois da derrota em Vila do Conde, com o Rio Ave, Petit queixou-se de que os adversários estariam «motivados» por fora — leia-se, pagos para ganhar ou empatar com o Benfica. A declaração só me surpreendeu pelo que ela contém de hipocrisia: toda a vida existiram prémios desses e até já houve uma época em que eles eram transparentemente públicos. Neste final de campeonato, seguramente que todos os candidatos ao título os estão a oferecer. Mas isso não é grave, grave seria haver prémios para perder jogos e não para ganhá-los. Lembrei-me disto depois de ver a atitude do Moreirense contra o FC Porto. Sabendo que só a vitória lhes interessava para não desceram de divisão, o que fizeram eles, depois de o FC Porto chegar ao empate? Continuaram a defender com todos, como se o empate fosse precioso, tiraram um jogador ofensivo e substituíram-no por um defensivo e assanharam-se a defender com unhas e dentes mesmo depois de o FC Porto ficar reduzido a 10. No final, entrevistado pela Sport TV, o jogador Nei declarou que o empate não era «de forma alguma uma desilusão» e que «se tivermos de descer, paciência! ». É assim a vida!
4- Também no Liverpool-Chelsea, a equipa de Mourinho consentiu umgolo no primeiro remate do adversário, passou meia parte a dormir e, quando quis ir atrás do prejuízo, faltou-lhe o tempo, faltou-lhe a sorte (que o Milan teve contra o PSV e que o Sporting teve em toda a eliminatória contra o AZ) e acabou por morrer com as mesmas armas com que costuma matar, às mãos de uma equipa que, em termos europeus, é perfeitamente banal. Foi um mau jogo de futebol, como já o havia sido em Londres e como é inevitável que aconteça quando se enfrentam duas equipas que, primeiro que tudo, jogam para não perder. E foi uma desilusão para o país inteiro, que agora venera Mourinho como nunca antes, quando ele era treinador do FC Porto. Para mim, foi uma desilusão particular — não a derrota, que adivinhei, mas a reacção de Mourinho à derrota. Também ele se atirou ao árbitro, por causa do «golo fantasma», que, todavia, pareceu mesmo golo. Mas esqueceu-se de dizer que o desfecho correcto daquela jogada era penalty e expulsão do guarda-redes do Chelsea—o que, muito possivelmente, acabaria por ser pior. Mas o que mais me impressionou foi a resposta que Mourinho deu a um jornalista inglês, no final do encontro. Primeiro, pelo inglês primário, quer de vocabulário quer de pronúncia, que eu não suspeitava que fosse o de um homem tão perfeccionista e que se iniciou no futebol exactamente como tradutor de inglês. Depois, pela resposta em si à pergunta se ainda se considerava «especial». Resposta textual: «Claro que sou especial. Não há dúvida alguma sobre isso. Você acha que tem hipóteses de ter o mesmo sucesso no seu trabalho que eu tive no meu, em três anos? Não tem hipótese nenhuma!» Já há tempos, fiquei siderado com uma afirmação dele em Israel, quando disse que um dia seria seleccionador nacional», mas quando eu quiser, não quando eles quiserem!». José Mourinho deveria parar um pouco para pensar. Não há nada mais inebriante do que o sucesso. Mas o sucesso rápido, ao contrário do que ele parece pensar, é mais fácil do que o sucesso continuado. Mais fácil de adquirir e mais fácil de perder.
5- Esta terça-feira, os promotores do «manifesto»—Dias da Cunha e Filipe Vieira — reúnem-se com quem quiser fazer de «compagnon de route» dos auto designados «moralizadores» do futebol português. Parece que vão discutir as arbitragens — «aquilo que os divide»—agora que as sequelas extrajudiciais e premeditadas do «Apito Dourado» lhes afastaram do caminho o concorrente que os unia: o FC Porto. Adorava ser mosca para lá estar. Deve ser uma conversa surreal: ambos desconfiam que o outro anda a influenciar as arbitragens, ambos desconfiam que o outro lhe quer roubar o título por debaixo da mesa, ambos acusam os árbitros semana sim, semana sim, mas, como começaram esta cruzada contra o «inimigo comum», que agora seria ridículo acusarem, acusam-se um ao outro por meias-palavras e insinuações que depois juram veementemente em nada pretender atingir as nobres intenções e a grande cumplicidade que os une. E isto tudo antes do decisivo Benfica-Sporting, onde é garantido que, no final, um deles, pelo menos, se irá queixar da arbitragem. De que falarão, então?
1- Maisumajornada e mais uma vez a arbitragem utilizada como desculpa para novos tropeções dos candidatos ao título: pelo FC Porto, empate em Moreira de Cónegos, e, excepcionalmente, pelo Benfica, derrotado em Penafiel. Nem um nem outro têm, no caso, razões válidas de queixa, mas, mesmo que as tivessem, sobra aquilo que todos vimos e uma vez mais: nem Benfica nem FC Porto mostraram ter categoria para ganhar este campeonato. OBenfica tem uma equipa com dois, vá lá, três jogadores bons e nada mais. Não é por acaso que, das 18 vitórias no campeonato, doze foram à tangente. Quando não há manobras de Faro, nem expulsões dos adversários, nem erros cirúrgicos dos árbitros, o Benfica fica reduzido a dar o que pode e o que pode é muito pouco. Após Penafiel, o presidente do Benfica queixou-se de o árbitro ser... benfiquista e ter feito vista grossa a três penalties (!), razão da derrota. A crítica, todavia, apenas concede um eventual penalty e, mesmo esse, muito esforçado e nada conclusivo pelas imagens vistas. Em contrapartida, todos viram apenas meia oportunidade de golo construída pelo Benfica em todo o jogo e uma meia hora final verdadeiramente constrangente para quem se afirma candidato natural ao título. Luís Filipe Vieira não se importava de repetir um empate ou vitória por penalty ou penalties duvidosos, como sucedeu contra o Belenenses, na última jornada, e não só. Mas, depois, como se pode falar em justiça e transparência, se o futebol exibido não corresponde minimamente às vitórias registadas e pretendidas? OFC Porto, depois de uma época de «desconstrução científica», tem vivido essencialmente do génio de dois jogadores: Ricardo Quaresma e Vítor Baía — que, para grande desgosto de Scolari, continua, jogo após jogo e ano após ano, a mostrar que não há ninguém que lhe faça sombra em Portugal. De resto, tem alguns outros bons jogadores, que às vezes se esforçam ou estão inspirados e outras não, tem outros que não são maus mas não se esforçam e outros que se esforçam mas, coitados... Como de novo se viu contra o Moreirense, é uma equipa sem rotinas de ataque, incapaz demarcar mais do que um golo por jogo e que, com quatro jogadores de ataque que, todos juntos foram avaliados e pagos pela SAD em qualquer coisa como cinco ou seis milhões de contos, conseguem ser apenas o 10.º ataque da SuperLiga! Depois do Moreirense, Pinto da Costa queixou-se da falta de controlo anti-doping, Reinaldo Te les queixou-se do juiz de linha que expulsou Quaresma, por supostas palavras e que fora o mesmo que no Estoril inventara um penalty inexistente contra o Porto, e José Couceiro, para acabar, queixou-se das «coincidências» de ter ficado sem Fabiano e Quaresma para os jogos seguintes. Mas esqueceram-se todos de dizer que, mais uma vez, o FC Porto sofreu um golo no primeiro remate feito pelo adversário à baliza e que deu meia parte de avanço, antes de começar a pensar em recuperar os danos. E a isso, meus amigos, chama-se falta de atitude competitiva e falta de espírito de vitória. Não merecem.
2- Em contrapartida, mesmo sem grande brilhantismo e com alguma da sorte habitual à mistura (cada vez que a bola é cruzada para a pequena área do Ricardo é ummilagre não acabar dentro da baliza...), o Sporting voltou a dizer ontem à noite que tem os melhores jogadores, o melhor futebol e a melhor atitude competitiva. Creio que vai ser campeão, como sempre aqui vaticinei. Só me pesa aquele decisivo jogo de Alvalade, contra nove jogadores do FC Porto. Um jogo que foi consequência directa do Tordesilhas assinado entre os presidentes do Sporting e do Benfica e que foi consequentemente decidido por João Ferreira (viram como ele ajudou a decidir também, este domingo, a troca de posições, na luta pela despromoção, entre o Gondomar e o Chaves?).
3- Depois da derrota em Vila do Conde, com o Rio Ave, Petit queixou-se de que os adversários estariam «motivados» por fora — leia-se, pagos para ganhar ou empatar com o Benfica. A declaração só me surpreendeu pelo que ela contém de hipocrisia: toda a vida existiram prémios desses e até já houve uma época em que eles eram transparentemente públicos. Neste final de campeonato, seguramente que todos os candidatos ao título os estão a oferecer. Mas isso não é grave, grave seria haver prémios para perder jogos e não para ganhá-los. Lembrei-me disto depois de ver a atitude do Moreirense contra o FC Porto. Sabendo que só a vitória lhes interessava para não desceram de divisão, o que fizeram eles, depois de o FC Porto chegar ao empate? Continuaram a defender com todos, como se o empate fosse precioso, tiraram um jogador ofensivo e substituíram-no por um defensivo e assanharam-se a defender com unhas e dentes mesmo depois de o FC Porto ficar reduzido a 10. No final, entrevistado pela Sport TV, o jogador Nei declarou que o empate não era «de forma alguma uma desilusão» e que «se tivermos de descer, paciência! ». É assim a vida!
4- Também no Liverpool-Chelsea, a equipa de Mourinho consentiu umgolo no primeiro remate do adversário, passou meia parte a dormir e, quando quis ir atrás do prejuízo, faltou-lhe o tempo, faltou-lhe a sorte (que o Milan teve contra o PSV e que o Sporting teve em toda a eliminatória contra o AZ) e acabou por morrer com as mesmas armas com que costuma matar, às mãos de uma equipa que, em termos europeus, é perfeitamente banal. Foi um mau jogo de futebol, como já o havia sido em Londres e como é inevitável que aconteça quando se enfrentam duas equipas que, primeiro que tudo, jogam para não perder. E foi uma desilusão para o país inteiro, que agora venera Mourinho como nunca antes, quando ele era treinador do FC Porto. Para mim, foi uma desilusão particular — não a derrota, que adivinhei, mas a reacção de Mourinho à derrota. Também ele se atirou ao árbitro, por causa do «golo fantasma», que, todavia, pareceu mesmo golo. Mas esqueceu-se de dizer que o desfecho correcto daquela jogada era penalty e expulsão do guarda-redes do Chelsea—o que, muito possivelmente, acabaria por ser pior. Mas o que mais me impressionou foi a resposta que Mourinho deu a um jornalista inglês, no final do encontro. Primeiro, pelo inglês primário, quer de vocabulário quer de pronúncia, que eu não suspeitava que fosse o de um homem tão perfeccionista e que se iniciou no futebol exactamente como tradutor de inglês. Depois, pela resposta em si à pergunta se ainda se considerava «especial». Resposta textual: «Claro que sou especial. Não há dúvida alguma sobre isso. Você acha que tem hipóteses de ter o mesmo sucesso no seu trabalho que eu tive no meu, em três anos? Não tem hipótese nenhuma!» Já há tempos, fiquei siderado com uma afirmação dele em Israel, quando disse que um dia seria seleccionador nacional», mas quando eu quiser, não quando eles quiserem!». José Mourinho deveria parar um pouco para pensar. Não há nada mais inebriante do que o sucesso. Mas o sucesso rápido, ao contrário do que ele parece pensar, é mais fácil do que o sucesso continuado. Mais fácil de adquirir e mais fácil de perder.
5- Esta terça-feira, os promotores do «manifesto»—Dias da Cunha e Filipe Vieira — reúnem-se com quem quiser fazer de «compagnon de route» dos auto designados «moralizadores» do futebol português. Parece que vão discutir as arbitragens — «aquilo que os divide»—agora que as sequelas extrajudiciais e premeditadas do «Apito Dourado» lhes afastaram do caminho o concorrente que os unia: o FC Porto. Adorava ser mosca para lá estar. Deve ser uma conversa surreal: ambos desconfiam que o outro anda a influenciar as arbitragens, ambos desconfiam que o outro lhe quer roubar o título por debaixo da mesa, ambos acusam os árbitros semana sim, semana sim, mas, como começaram esta cruzada contra o «inimigo comum», que agora seria ridículo acusarem, acusam-se um ao outro por meias-palavras e insinuações que depois juram veementemente em nada pretender atingir as nobres intenções e a grande cumplicidade que os une. E isto tudo antes do decisivo Benfica-Sporting, onde é garantido que, no final, um deles, pelo menos, se irá queixar da arbitragem. De que falarão, então?
O que tem de ser tem muita força (3 Maio 2005)
Nunca uma equipa portuguesa dispôs de tamanhas condições favoráveis para ganhar uma competição europeia como o Sporting para ganhar a Taça UEFA este ano.
1- Estávamos onze amigos reunidos a preparar-nos para ver o Benfica-Belenenses.Curiosamente, umpainelmuito pouco representativo dos tais seis milhões de benfiquistas em Portugal Continental: dos onze, seis eram sportinguistas, quatro portistas e apenas umbenfiquista.E juro que não foram escolhidos por mim, por preferências clubistas.
E, antes do jogo começar, faziam- se apostas sobre quem seria o campeão deste ano. O Braga não recolheu nenhum voto: todos acharam que, na hora da verdade, baquearia (e ainda não tinha havido o descalabro contra o Sporting). O Benfica recolheu apenas dois votos-o do próprio benfiquista e o meu. Todos os outros coincidiam em não acreditar que, com tão pouco futebol, o Benfica conseguisse chegar ao título. Eu achava, e continuo a achar, que, embora seja verdade que o futebol que o Benfica joga seja de uma pobreza franciscana, aquilo que tem de ser tem muita força.
Assim, os nove assistentes restantes dividiam-se, em partes iguais, na atribuição do favoritismo ao Sporting-porque joga o melhor futebol - e ao FC Porto- porque tem o hábito de vencer, está a subir de forma e dispõe do mais fácil calendário. Mas isto era antes do jogo: no final do Benfica- Belenenses tinha-se estabelecido uma unanimidade feita de conformidade: o Benfica vai ser campeão. Parece que está escrito, algures.
2- O Benfica ganhou ao Belenenses sem conseguir prescindir, uma vez mais,de fortuitas colaborações exteriores: na primeira parte, Mário Mendes ficou- lhe a dever um penalty, pouco nítido mas real, sobre Nuno Gomes; mas compensou na segunda parte, positivamente inventando o penalty da vitória e ignorando aquele que seria o empate para o Belenenses. Mais dois pontos amealhados «transparentemente ».
3- O FC Porto venceu o Marítimo com dois erros claros de arbitragem e um duvidoso. No primeiro, beneficiou de um golo validado em claro offside; no segundo, teve um golo anulado por erro grosseiro de interpretação da regra do offside; no terceiro, beneficiou de um duvidoso penalty que, felizmente, alguma alma benfazeja encarregou o Diego de falhar
(obviamente...). No balanço final, não perdeu nem ganhou e, por isso mesmo, os presidentes do Sporting e do Braga perderam uma excelente oportunidade de ficar calados, quando quiseram meter no mesmo saco a arbitragem da Luz e a do Dragão. Quando as pessoas são capazes de reclamar do golomal validado ao Porto, mas ignorar o golomal invalidado,
sabendo que toda a gente de boa-fé viu ume outro, o que julgarão-que alguém os pode levar a sério? E quando o presidente do Sporting não perde uma ocasião de reclamar contra os erros que beneficiam outros e se cala, muito bem caladinho, quando o beneficiário é o Sporting-como sucedeu no decisivo Sporting- Porto ou ainda na semana passada, no Sporting-Académica - o que julgará: que alguém lhe reconhece autoridademoral na matéria?
4- O Sporting limpou o jogo de Braga com toda a eficácia do mundo: quatro oportunidades, três golos. E fez o pleno: livrou-se de ter o Braga nos calcanhares, manteve-se na luta pelo título, fez descansar jogadores e viu nascer Pinilha. Uma aposta ganha em toda a linha e com todo o mérito. Quinta-feira o Sporting joga na Holanda um jogo que só pode ganhar. Nunca, creio eu, uma equipe portuguesa dispôs de tamanhas condições favoráveis para ganhar uma competição europeia. Nunca a Taça UEFA foi tão acessível como este ano, em que, depois da fase de grupos,não estava presente nenhuma das principais equipas da Espanha, da Itália, da Inglaterra, da Alemanha, da França, da Escócia, da Grécia.
Nunca um estreante em jogos europeus, totalmente desconhecido, como o AZ Alkmaar, chegou às meias-finais e, ainda por cima, com meia equipa indisponível. Nunca se tinha visto uma equipa fazer o que o Parma fez na outra meia-final: alinhar com a reserva, para se poupar para o campeonato. Nunca, enfim, uma equipa portuguesa tinha chegado a uma meia-final com o estímulo de saber que, se a ultrapassar, jogará a final no seu próprio estádio. É, verdadeiramente, uma oportunidade imperdível.
5- O Braga despediu-se do título e, provavelmente, da Liga dos Campeões. E morreu, perante o Sporting, com as armas com que se habitou a matar: o contra-ataque. O contraataque é, de facto, uma arma temível, se se dispõe de jogadores para esse tipo de jogo e se ele está muito bem ensaiado. Mas dificilmente alguém consegue ganhar uma competição apenas
com base no contra-ataque. Há sempre uma outra equipa que faz o mesmo ou outra que marca primeiro e obriga o especialista no contra- ataque a mudar de sistema e ter de ir atrás do prejuízo. Os campeões são normalmente os que estão disponíveis para assumir sempre as despesas do jogo, ou, ao menos, para alternarem, de vez em quando. O Sporting pôs a
nu essa debilidade do Braga, mas não fez esqueçer o belo campeonato feito pela equipa do Minho. E que, aliás, não merecia ter sido manchado pelas declarações de maus perdedores com que encaixaram duas derrotas sucessivas, ditadas apenas por debilidade própria. O Braga fez um belo campeonato, mas convém não esqueçer que, muitas vezes também, beneficiou
de arbitragens favoráveis e da compreensão da crítica... precisamente porque não é um grande e há sempre aquela tendência de estar com os mais fracos.
6- Nunva vi, nem sabia que havia, tantos admiradores de José Mourinho. Há para aí gente que só agora, depois de ele ter deixado o FC Porto, é que o reconhecem como grande treinador e grande embaixador de Portugal no Mundo. Aposto que até o Presidente da República, que não se lembrou de o condecorar quando ele trouxe para Portugal a Taça UEFA e a Taça dos
Campeões, desta vez não se vai esquecer dele... Todos os louvores são devidos, até porque há uma coisa que não tem sido notada: este Chelsea, de Mourinho, é francamente mais fraco do que era o FC Porto de Mourinho, que ganhou a Liga dos Campeões e, sobretudo, aquele que ganhou a Taça UEFA em Sevilha. Pela minha parte, devo ter visto, esta época, uns doze
jogos do Chelsea e, tirando o jogo contra o Barcelona (onde o Barcelona jogou até melhor), nunca os vi fazer um jogo de encher o olho. Pelo contrário, tudo aquilo é frio, científico, preparado ao pormenor,chegando a parecer que até os inúmeros golos de ressalto foram previstos. Essa capacidade de previsão, organização e planeamento de jogo é a marca inconfundível do génio de Mourinho. Porque, de resto-e esta é uma pessoalíssima opinião - o Chelsea não tem mais do que cinco verdadeiros grandes jogadores: o guarda-redes Peter Cech, os centrais John Terry e Ricardo Carvalho, o capitão Frank Lampard e o striker Didier Drogba. Os grandes méritos da equipa, para além da autodisciplina e organização de jogo, são uma defesa fantástica (13 golos em 34 jogos da Liga Inglesa!) e uma preparação física notável, quase incompreensível. E, claro, aquele insaciável vício de vencer que José Mourinho já passou a toda a equipa e que é uma fé que move montanhas.
Veremos se esta noite move também a montanha de Liverpool.
7- Sejam quais forem os resultados de Liverpool e de Eindhoven, amanhã, fica- -me uma fraca impressão desta época futobolística europeia: nenhuma equipa esteve próxima de deslumbrar pelo futebol jogado. Os vencedores potenciais, como Chelsea e Milan, são os que conseguiram gerir melhor o cansaço, o excesso de jogos e as oportunidades de vencer.
São, sobretudo, equipas pacientes, persistentes, resistentes. Mas, francamente, a Europa já viu bem melhores anos. PS. Àqueles supostos humoristas, sem graça alguma, das «Crónicas do Zé Manel», que passam a vida a meter-se comigo, eu queria apenas responder à frase final da sua última crónica: «para que servem os jornalistas, se não vêm o que o país inteiro já viu?» Primeiro: não é «o país inteiro », são apenas os sportinguistas e os benfiquistas como eles, com dor de cotovelo das vitórias do Porto.
Segundo: alguns jornalistas servem precisamente para lembrar que, no «Apito Dourado» ou em qualquer outro processo criminal, a verdade dos factos e a culpabilidade das pessoas não se estabelece em tribunal popular nem por vontade da maioria,mas sim após uma acusação, uma defesa, um julgamento e uma sentença transitada em julgado.
E, ao contrário do que conviria ao primarismo dos srs. Góis e Araújo Pereira, numa democracia a sério a ninguém que escreva em jornais, seja jornalista ou humorista, é lícito fazer a acusação, prescindir da defesa e dar a sentença de processos emque os suspeitos ainda nem sabem de que são acusados e emque termos. Quanto ao resto, nem vale a pena gastar espaço com as baboseiras deles.
1- Estávamos onze amigos reunidos a preparar-nos para ver o Benfica-Belenenses.Curiosamente, umpainelmuito pouco representativo dos tais seis milhões de benfiquistas em Portugal Continental: dos onze, seis eram sportinguistas, quatro portistas e apenas umbenfiquista.E juro que não foram escolhidos por mim, por preferências clubistas.
E, antes do jogo começar, faziam- se apostas sobre quem seria o campeão deste ano. O Braga não recolheu nenhum voto: todos acharam que, na hora da verdade, baquearia (e ainda não tinha havido o descalabro contra o Sporting). O Benfica recolheu apenas dois votos-o do próprio benfiquista e o meu. Todos os outros coincidiam em não acreditar que, com tão pouco futebol, o Benfica conseguisse chegar ao título. Eu achava, e continuo a achar, que, embora seja verdade que o futebol que o Benfica joga seja de uma pobreza franciscana, aquilo que tem de ser tem muita força.
Assim, os nove assistentes restantes dividiam-se, em partes iguais, na atribuição do favoritismo ao Sporting-porque joga o melhor futebol - e ao FC Porto- porque tem o hábito de vencer, está a subir de forma e dispõe do mais fácil calendário. Mas isto era antes do jogo: no final do Benfica- Belenenses tinha-se estabelecido uma unanimidade feita de conformidade: o Benfica vai ser campeão. Parece que está escrito, algures.
2- O Benfica ganhou ao Belenenses sem conseguir prescindir, uma vez mais,de fortuitas colaborações exteriores: na primeira parte, Mário Mendes ficou- lhe a dever um penalty, pouco nítido mas real, sobre Nuno Gomes; mas compensou na segunda parte, positivamente inventando o penalty da vitória e ignorando aquele que seria o empate para o Belenenses. Mais dois pontos amealhados «transparentemente ».
3- O FC Porto venceu o Marítimo com dois erros claros de arbitragem e um duvidoso. No primeiro, beneficiou de um golo validado em claro offside; no segundo, teve um golo anulado por erro grosseiro de interpretação da regra do offside; no terceiro, beneficiou de um duvidoso penalty que, felizmente, alguma alma benfazeja encarregou o Diego de falhar
(obviamente...). No balanço final, não perdeu nem ganhou e, por isso mesmo, os presidentes do Sporting e do Braga perderam uma excelente oportunidade de ficar calados, quando quiseram meter no mesmo saco a arbitragem da Luz e a do Dragão. Quando as pessoas são capazes de reclamar do golomal validado ao Porto, mas ignorar o golomal invalidado,
sabendo que toda a gente de boa-fé viu ume outro, o que julgarão-que alguém os pode levar a sério? E quando o presidente do Sporting não perde uma ocasião de reclamar contra os erros que beneficiam outros e se cala, muito bem caladinho, quando o beneficiário é o Sporting-como sucedeu no decisivo Sporting- Porto ou ainda na semana passada, no Sporting-Académica - o que julgará: que alguém lhe reconhece autoridademoral na matéria?
4- O Sporting limpou o jogo de Braga com toda a eficácia do mundo: quatro oportunidades, três golos. E fez o pleno: livrou-se de ter o Braga nos calcanhares, manteve-se na luta pelo título, fez descansar jogadores e viu nascer Pinilha. Uma aposta ganha em toda a linha e com todo o mérito. Quinta-feira o Sporting joga na Holanda um jogo que só pode ganhar. Nunca, creio eu, uma equipe portuguesa dispôs de tamanhas condições favoráveis para ganhar uma competição europeia. Nunca a Taça UEFA foi tão acessível como este ano, em que, depois da fase de grupos,não estava presente nenhuma das principais equipas da Espanha, da Itália, da Inglaterra, da Alemanha, da França, da Escócia, da Grécia.
Nunca um estreante em jogos europeus, totalmente desconhecido, como o AZ Alkmaar, chegou às meias-finais e, ainda por cima, com meia equipa indisponível. Nunca se tinha visto uma equipa fazer o que o Parma fez na outra meia-final: alinhar com a reserva, para se poupar para o campeonato. Nunca, enfim, uma equipa portuguesa tinha chegado a uma meia-final com o estímulo de saber que, se a ultrapassar, jogará a final no seu próprio estádio. É, verdadeiramente, uma oportunidade imperdível.
5- O Braga despediu-se do título e, provavelmente, da Liga dos Campeões. E morreu, perante o Sporting, com as armas com que se habitou a matar: o contra-ataque. O contraataque é, de facto, uma arma temível, se se dispõe de jogadores para esse tipo de jogo e se ele está muito bem ensaiado. Mas dificilmente alguém consegue ganhar uma competição apenas
com base no contra-ataque. Há sempre uma outra equipa que faz o mesmo ou outra que marca primeiro e obriga o especialista no contra- ataque a mudar de sistema e ter de ir atrás do prejuízo. Os campeões são normalmente os que estão disponíveis para assumir sempre as despesas do jogo, ou, ao menos, para alternarem, de vez em quando. O Sporting pôs a
nu essa debilidade do Braga, mas não fez esqueçer o belo campeonato feito pela equipa do Minho. E que, aliás, não merecia ter sido manchado pelas declarações de maus perdedores com que encaixaram duas derrotas sucessivas, ditadas apenas por debilidade própria. O Braga fez um belo campeonato, mas convém não esqueçer que, muitas vezes também, beneficiou
de arbitragens favoráveis e da compreensão da crítica... precisamente porque não é um grande e há sempre aquela tendência de estar com os mais fracos.
6- Nunva vi, nem sabia que havia, tantos admiradores de José Mourinho. Há para aí gente que só agora, depois de ele ter deixado o FC Porto, é que o reconhecem como grande treinador e grande embaixador de Portugal no Mundo. Aposto que até o Presidente da República, que não se lembrou de o condecorar quando ele trouxe para Portugal a Taça UEFA e a Taça dos
Campeões, desta vez não se vai esquecer dele... Todos os louvores são devidos, até porque há uma coisa que não tem sido notada: este Chelsea, de Mourinho, é francamente mais fraco do que era o FC Porto de Mourinho, que ganhou a Liga dos Campeões e, sobretudo, aquele que ganhou a Taça UEFA em Sevilha. Pela minha parte, devo ter visto, esta época, uns doze
jogos do Chelsea e, tirando o jogo contra o Barcelona (onde o Barcelona jogou até melhor), nunca os vi fazer um jogo de encher o olho. Pelo contrário, tudo aquilo é frio, científico, preparado ao pormenor,chegando a parecer que até os inúmeros golos de ressalto foram previstos. Essa capacidade de previsão, organização e planeamento de jogo é a marca inconfundível do génio de Mourinho. Porque, de resto-e esta é uma pessoalíssima opinião - o Chelsea não tem mais do que cinco verdadeiros grandes jogadores: o guarda-redes Peter Cech, os centrais John Terry e Ricardo Carvalho, o capitão Frank Lampard e o striker Didier Drogba. Os grandes méritos da equipa, para além da autodisciplina e organização de jogo, são uma defesa fantástica (13 golos em 34 jogos da Liga Inglesa!) e uma preparação física notável, quase incompreensível. E, claro, aquele insaciável vício de vencer que José Mourinho já passou a toda a equipa e que é uma fé que move montanhas.
Veremos se esta noite move também a montanha de Liverpool.
7- Sejam quais forem os resultados de Liverpool e de Eindhoven, amanhã, fica- -me uma fraca impressão desta época futobolística europeia: nenhuma equipa esteve próxima de deslumbrar pelo futebol jogado. Os vencedores potenciais, como Chelsea e Milan, são os que conseguiram gerir melhor o cansaço, o excesso de jogos e as oportunidades de vencer.
São, sobretudo, equipas pacientes, persistentes, resistentes. Mas, francamente, a Europa já viu bem melhores anos. PS. Àqueles supostos humoristas, sem graça alguma, das «Crónicas do Zé Manel», que passam a vida a meter-se comigo, eu queria apenas responder à frase final da sua última crónica: «para que servem os jornalistas, se não vêm o que o país inteiro já viu?» Primeiro: não é «o país inteiro », são apenas os sportinguistas e os benfiquistas como eles, com dor de cotovelo das vitórias do Porto.
Segundo: alguns jornalistas servem precisamente para lembrar que, no «Apito Dourado» ou em qualquer outro processo criminal, a verdade dos factos e a culpabilidade das pessoas não se estabelece em tribunal popular nem por vontade da maioria,mas sim após uma acusação, uma defesa, um julgamento e uma sentença transitada em julgado.
E, ao contrário do que conviria ao primarismo dos srs. Góis e Araújo Pereira, numa democracia a sério a ninguém que escreva em jornais, seja jornalista ou humorista, é lícito fazer a acusação, prescindir da defesa e dar a sentença de processos emque os suspeitos ainda nem sabem de que são acusados e emque termos. Quanto ao resto, nem vale a pena gastar espaço com as baboseiras deles.
Detalhes ( 26 Abril 2005)
A pergunta sem resposta séria é esta: alguém pode garantir que o Benfica teria ganho este jogo, a jogar no campo de dimensões reduzidas da Amoreira, com oito mil adeptos a apoiá-lo contra dois mil estorilistas?
1- Vendo o presidente do Estoril sentado ao lado do presidente do Benfica, no Estádio do Algarve, pensei que ele tinha razões para se sentir intensamente feliz - ou intensamente envergonhado, conforme a perspectiva...O seu Benfica vencera o jogo e o seu Estoril enchera a tesouraria. Raramente alguém consegue reunir razões de coração e razões de carteira para estar feliz no mesmo momento. Ah, mas há sempre um senão: sobre tanta felicidade de António Figueiredo ficará sempre a
pairar a memória do dia em que o presidente do Estoril vendeu as últimas hipóteses de permanência do clube na SuperLiga, a troco de um milhão de euros e de facilitar ao Benfica a conquista do campeonato, subvertendo,em perfeita comunhão de sentimentos com o presidente do Benfica e o secretário-geral da Liga, os tão proclamados princípios de transparência
e lealdade competitiva. Dentro e fora do Estádio do Algarve, antes e durante o jogo, foi verdadeiramente uma total confluência de vontades benfiquistas que se uniram para evitar que, primeiro, dez e, depois, nove rapazes do Estoril pudessem continuar a sonhar. Li por aí que há quem se admire com os que se admiram que esta perfeita golpada tenha
sido tolerada pela Liga de clubes. Trazem à colação o recente exemplo do Sporting, comprando a antecipação do jogo da Taça com o Pampilhosa, para limpar o amarelo que impedia Liedson de jogar contra o Benfica. Têm razão mas isso é um assunto entre os dois autoproclamados cavalheiros do futebol português, cujo fair play e limpeza de processos eles se
explicarão mutuamente. Restam os outros e, para os outros, não vale o argumento de que já muitos jogos trocaram de local a pedido dos anfitriões. Primeiro, porque isso sucedia no tempo em que havia estádios sem iluminação para receber jogos televisionados, o que hoje já não sucede. Segundo - e este é o detalhe essencial-, quando tal sucedia, sucedia com todos os grandes e não, como agora, num caso ad hoc a favor de um só deles. Também não vale o argumento de que os clubes pequenos têm direito de fazer grandes receitas, aproveitando a popularidade do grande Benfica-que ninguém contesta mas que é um argumento de facto e não de razão. Se o fosse, à excepção do Dragão e de Alvalade, o Benfica poderia permitir-se o luxo de jogar sempr é em casa e ainda passar por benemérito dos pequeninos: teríamos, não um campeonato de futebol, mas um concurso de popularidade entre os clubes. Mesmo assim, sendo certo que também FC Porto e Sporting arrastam mais adeptos que os locais, tem de se colocar a questão da reciprocidade e aí pergunto: alguém imagina o sr. António Figueiredo a fazer disputar o Estoril-FC Porto, não naquele campo terrível da Amoreira, onde o FC Porto sempre sofre, mas, por exemplo, em Aveiro ou na Maia? E o Estoril-Sporting em Leiria ou Setúbal? Ese, a seguir ao exemplo do Estoril, vier o Penafiel, e depois disso qualquer um, pergunto que paródia de campeonato seria este em que os clubes pequenos viveriam em perpétuo leilão dos seus jogos caseiros contra os grandes? Porque, finalmente, a pergunta sem resposta séria é esta: alguém pode garantir que o Benfica teria ganho este jogo, a jogar no campo de dimensões reduzidas da Amoreira, com oito mil adeptos a apoiá-lo contra dois mil estorilistas, em vez do campo largo (para jogar com dez e nove ainda mais largo...) do Algarve, com 30 mil adeptos a apoiá-lo e a pressionar o árbitro, face a seis adeptos do Estoril, que conseguiram comprar bilhete fora das casas do Benfica, e entre os quais não incluo, obviamente, o presidente do próprio Estoril?
2- Sábado à noite, em Alvalade, com 0-0 no marcador, um jogador da Académica isola-se a caminho da área do Sporting quando Polga corta a bola ostensivamente com a mão. É lance para vermelho, em qualquer compêndio de arbitragem. Mas não em Alvalade: o árbitro vem de lá detrás, muito devagar, com tempo mais que suficiente para pensar no que fazer, mete a mão ao bolso e saca... amarelo. Há dois tipos de erros dos árbitros: os erros involuntários, sobre questões de facto, e os erros voluntários, sobre questões de leis do jogo-como é óbvio, só no primeiro caso é que se pode falar em erro. Quem pode garantir que este erro não valeu um ponto ao Sporting? Domingo à tarde, no Algarve: o Benfica perde por 0-1, há um canto a favor do Estoril e, nas barbas do árbitro, Ricardo Rocha aplica um gasganete num jogador do Estoril, impedindo-o de saltar à bola e só o largando quando o viu por terra. Passado uma e duas vezes na televisão, o lance só conseguiu deixar dúvidas ao comentador de serviço, que viu os dois jogadores «a agarrarem-se mutuamente». Era penalty e, muito possivelmente, o 0- 2. Quem pode garantir que não valeu três pontos ao Benfica? Domingo à noite em Aveiro: Ibson vai entrar na área do Beira-Mar quando é literalmente agredido a pontapé por um jogador aveirense. O árbitro resolve, como disse o comentador, «dar a lei da vantagem» e, depois, já que tinha dado alguma coisa, absteve-se de dar também quer o vermelho quer o amarelo. Pouco depois Diego isola-se, evita o guarda-redes e vai marcar golo quando este levanta uma perna e rasteira-o: amarelo para Diego, por «simulação». Quem pode garantir que, se os lances têm sido ao contrário, o jogo acabaria sem um
penalty contra o FC Porto e dois portistas expulsos? José Couceiro tem alguma razão quando diz que actualmente os árbitros, quando em dúvida, decidem sempre contra o FCPorto. Tem alguma razão mas não tem toda: é que não é só quando têm dúvidas, agora é também quando têm a certeza.
3- A acreditar na manchete de ontem deste jornal, foi a vontade de Deus que levou o Benfica à vitória no Algarve. Não foi o rigor disciplinar desigual do árbitro, nem o penalty esquecido, nem os 27 livres de que falava Litos à entrada da área do Estoril, até que um deles finalmente resultasse, nem os 30 mil adeptos de um lado e os 6 do outro, neste jogo em casa do Estoril. Foi a vontade de Deus. Fico mais tranquilo assim: com tantas queixas aos governos por parte da direcção do Benfica, tantos pedidos de entrevista aos membros do governo, embaixadas benfiquistas ao serviço da propaganda partidária do partido vencedor, manifestos, ameaças e a garantia solene, logo em Agosto, de que este ano ninguém tira o campeonato ao Benfica, eu já começava a temer que o campeonato se decidisse por decreto-lei. Mas, sendo antes por vontade de Deus, o melhor é não contestar.
4- Há dois jogadores do Sporting que verdadeiramente merecem ser campeões. Um é Sá Pinto, não apenas por aquilo que sofreu e que teria levado muitos a desistir, não apenas pela alma e paixão com que joga,mas pela qualidade e inteligência do seu jogo. Tacticamente faz lembrar Cruyff: não é extremo, não é médio, não é primeiro ponta-de-lança nem segundo- é um pouco de tudo isso e até defesa, se necessário. Aos 32 anos de idade, o mais notável em Sá Pinto é que ele continua a jogar futebol com a mesma paixão, a mesma raiva, o mesmo prazer, com que todos nós-os que gostamos de futebol- jogávamos em miúdos. O outro é Liedson, que já no ano passado aqui classifiquei como o melhor jogador do campeonato português, em minha o pinião. O golo que marcou ao Moreirense, na penúltima jornada, foi um momento mágico de futebol, um verdadeiro hino ao ponta-de-lança moderno. Vale a pena recordar: bola batida longa e por alto pelo Ricardo; Liedson corre, juntamente com dois defesas do Moreirense; com a diagonal que faz deixa logo um deles fora da jogada e depois, com um toque de cabeça, afasta o outro e entra na área pelo lado direito, com a bola a saltitar à sua frente; em lugar de
tentar o remate, que já seria em desequilíbrio, ao ângulo oposto, ele remata na passada, de cima para baixo, ao canto mais próximo e sem defesa. Sem menosprezo pelos outros bons jogadores que o Sporting tem, julgo que a estes dois ficará a dever o campeonato, caso o consiga.
1- Vendo o presidente do Estoril sentado ao lado do presidente do Benfica, no Estádio do Algarve, pensei que ele tinha razões para se sentir intensamente feliz - ou intensamente envergonhado, conforme a perspectiva...O seu Benfica vencera o jogo e o seu Estoril enchera a tesouraria. Raramente alguém consegue reunir razões de coração e razões de carteira para estar feliz no mesmo momento. Ah, mas há sempre um senão: sobre tanta felicidade de António Figueiredo ficará sempre a
pairar a memória do dia em que o presidente do Estoril vendeu as últimas hipóteses de permanência do clube na SuperLiga, a troco de um milhão de euros e de facilitar ao Benfica a conquista do campeonato, subvertendo,em perfeita comunhão de sentimentos com o presidente do Benfica e o secretário-geral da Liga, os tão proclamados princípios de transparência
e lealdade competitiva. Dentro e fora do Estádio do Algarve, antes e durante o jogo, foi verdadeiramente uma total confluência de vontades benfiquistas que se uniram para evitar que, primeiro, dez e, depois, nove rapazes do Estoril pudessem continuar a sonhar. Li por aí que há quem se admire com os que se admiram que esta perfeita golpada tenha
sido tolerada pela Liga de clubes. Trazem à colação o recente exemplo do Sporting, comprando a antecipação do jogo da Taça com o Pampilhosa, para limpar o amarelo que impedia Liedson de jogar contra o Benfica. Têm razão mas isso é um assunto entre os dois autoproclamados cavalheiros do futebol português, cujo fair play e limpeza de processos eles se
explicarão mutuamente. Restam os outros e, para os outros, não vale o argumento de que já muitos jogos trocaram de local a pedido dos anfitriões. Primeiro, porque isso sucedia no tempo em que havia estádios sem iluminação para receber jogos televisionados, o que hoje já não sucede. Segundo - e este é o detalhe essencial-, quando tal sucedia, sucedia com todos os grandes e não, como agora, num caso ad hoc a favor de um só deles. Também não vale o argumento de que os clubes pequenos têm direito de fazer grandes receitas, aproveitando a popularidade do grande Benfica-que ninguém contesta mas que é um argumento de facto e não de razão. Se o fosse, à excepção do Dragão e de Alvalade, o Benfica poderia permitir-se o luxo de jogar sempr é em casa e ainda passar por benemérito dos pequeninos: teríamos, não um campeonato de futebol, mas um concurso de popularidade entre os clubes. Mesmo assim, sendo certo que também FC Porto e Sporting arrastam mais adeptos que os locais, tem de se colocar a questão da reciprocidade e aí pergunto: alguém imagina o sr. António Figueiredo a fazer disputar o Estoril-FC Porto, não naquele campo terrível da Amoreira, onde o FC Porto sempre sofre, mas, por exemplo, em Aveiro ou na Maia? E o Estoril-Sporting em Leiria ou Setúbal? Ese, a seguir ao exemplo do Estoril, vier o Penafiel, e depois disso qualquer um, pergunto que paródia de campeonato seria este em que os clubes pequenos viveriam em perpétuo leilão dos seus jogos caseiros contra os grandes? Porque, finalmente, a pergunta sem resposta séria é esta: alguém pode garantir que o Benfica teria ganho este jogo, a jogar no campo de dimensões reduzidas da Amoreira, com oito mil adeptos a apoiá-lo contra dois mil estorilistas, em vez do campo largo (para jogar com dez e nove ainda mais largo...) do Algarve, com 30 mil adeptos a apoiá-lo e a pressionar o árbitro, face a seis adeptos do Estoril, que conseguiram comprar bilhete fora das casas do Benfica, e entre os quais não incluo, obviamente, o presidente do próprio Estoril?
2- Sábado à noite, em Alvalade, com 0-0 no marcador, um jogador da Académica isola-se a caminho da área do Sporting quando Polga corta a bola ostensivamente com a mão. É lance para vermelho, em qualquer compêndio de arbitragem. Mas não em Alvalade: o árbitro vem de lá detrás, muito devagar, com tempo mais que suficiente para pensar no que fazer, mete a mão ao bolso e saca... amarelo. Há dois tipos de erros dos árbitros: os erros involuntários, sobre questões de facto, e os erros voluntários, sobre questões de leis do jogo-como é óbvio, só no primeiro caso é que se pode falar em erro. Quem pode garantir que este erro não valeu um ponto ao Sporting? Domingo à tarde, no Algarve: o Benfica perde por 0-1, há um canto a favor do Estoril e, nas barbas do árbitro, Ricardo Rocha aplica um gasganete num jogador do Estoril, impedindo-o de saltar à bola e só o largando quando o viu por terra. Passado uma e duas vezes na televisão, o lance só conseguiu deixar dúvidas ao comentador de serviço, que viu os dois jogadores «a agarrarem-se mutuamente». Era penalty e, muito possivelmente, o 0- 2. Quem pode garantir que não valeu três pontos ao Benfica? Domingo à noite em Aveiro: Ibson vai entrar na área do Beira-Mar quando é literalmente agredido a pontapé por um jogador aveirense. O árbitro resolve, como disse o comentador, «dar a lei da vantagem» e, depois, já que tinha dado alguma coisa, absteve-se de dar também quer o vermelho quer o amarelo. Pouco depois Diego isola-se, evita o guarda-redes e vai marcar golo quando este levanta uma perna e rasteira-o: amarelo para Diego, por «simulação». Quem pode garantir que, se os lances têm sido ao contrário, o jogo acabaria sem um
penalty contra o FC Porto e dois portistas expulsos? José Couceiro tem alguma razão quando diz que actualmente os árbitros, quando em dúvida, decidem sempre contra o FCPorto. Tem alguma razão mas não tem toda: é que não é só quando têm dúvidas, agora é também quando têm a certeza.
3- A acreditar na manchete de ontem deste jornal, foi a vontade de Deus que levou o Benfica à vitória no Algarve. Não foi o rigor disciplinar desigual do árbitro, nem o penalty esquecido, nem os 27 livres de que falava Litos à entrada da área do Estoril, até que um deles finalmente resultasse, nem os 30 mil adeptos de um lado e os 6 do outro, neste jogo em casa do Estoril. Foi a vontade de Deus. Fico mais tranquilo assim: com tantas queixas aos governos por parte da direcção do Benfica, tantos pedidos de entrevista aos membros do governo, embaixadas benfiquistas ao serviço da propaganda partidária do partido vencedor, manifestos, ameaças e a garantia solene, logo em Agosto, de que este ano ninguém tira o campeonato ao Benfica, eu já começava a temer que o campeonato se decidisse por decreto-lei. Mas, sendo antes por vontade de Deus, o melhor é não contestar.
4- Há dois jogadores do Sporting que verdadeiramente merecem ser campeões. Um é Sá Pinto, não apenas por aquilo que sofreu e que teria levado muitos a desistir, não apenas pela alma e paixão com que joga,mas pela qualidade e inteligência do seu jogo. Tacticamente faz lembrar Cruyff: não é extremo, não é médio, não é primeiro ponta-de-lança nem segundo- é um pouco de tudo isso e até defesa, se necessário. Aos 32 anos de idade, o mais notável em Sá Pinto é que ele continua a jogar futebol com a mesma paixão, a mesma raiva, o mesmo prazer, com que todos nós-os que gostamos de futebol- jogávamos em miúdos. O outro é Liedson, que já no ano passado aqui classifiquei como o melhor jogador do campeonato português, em minha o pinião. O golo que marcou ao Moreirense, na penúltima jornada, foi um momento mágico de futebol, um verdadeiro hino ao ponta-de-lança moderno. Vale a pena recordar: bola batida longa e por alto pelo Ricardo; Liedson corre, juntamente com dois defesas do Moreirense; com a diagonal que faz deixa logo um deles fora da jogada e depois, com um toque de cabeça, afasta o outro e entra na área pelo lado direito, com a bola a saltitar à sua frente; em lugar de
tentar o remate, que já seria em desequilíbrio, ao ângulo oposto, ele remata na passada, de cima para baixo, ao canto mais próximo e sem defesa. Sem menosprezo pelos outros bons jogadores que o Sporting tem, julgo que a estes dois ficará a dever o campeonato, caso o consiga.
O fim de uma grande equipa (12 Abril 2005)
A imagem de Pinto da Costa amordaçado ao lado de João Loureiro marcou-me tanto, em simbolismo, como a própria imagem da impotência revelada em campo por esta milionária equipa, que actualmente discute o 5.º lugar do campeonato e custa mais 25 por cento que a equipa do ano passado, que foi campeã da Europa.
1- Há um ano atrás Pinto da Costa teria estado sentado no banco durante o jogo do Bessa. E o FC Porto teria jogado para ganhar e teria ganho, como era próprio do campeão europeu e de uma equipa que espalhava perfume e pânico em todos os estádios do País. Neste triste ano de 2005, sábado passado, sentado ao lado de João Loureiro-como se fossem amigos!
-, Pinto da Costa assistiu, do alto do camarote presidencial do Bessa, a mais uma tranquila derrota do FC Porto, às mãos de uma equipa cujo orçamento é 10 por cento daquela que o presidente do FC Porto e alguns dos membros da sua Direcção construíram para esta época.
A imagem de Pinto da Costa amordaçado ao lado de João Loureiro marcou-me tanto, em simbolismo, como a própria imagem da impotência revelada em campo por esta milionária equipa, que actualmente discute o 5.º lugar do campeonato e custa mais 25 por cento que a equipa do ano passado, que foi campeã da Europa. Pela enésima vez, para que não haja confusões, repito que o erro não foi a venda de jogadores, que encheu a tesouraria do clube: o erro foram os seis milhões de contos ou mais gastos em pérolas como Diego, Fabiano, Postiga, Areias, Raul Meireles, Cláudio Pitbull, Leandro, Leo Lima ou Hugo Leal. O erro foram as dispensas de Paulo Assunção, Thiago e Rossato-comprados e nem sequer testados - ou de Carlos Alberto e Hugo Almeida-um devolvido de borla, o outro emprestado justamente ao Boavista, que, graças a ele, poderá até roubarnos um lugar na Liga dos Campeões, para o ano que vem. Era impossível gastar mais e fazer pior. Nunca tão poucos conseguiram destruir tanto em tão pouco tempo.
Como consolação poderia pensar- se que, ao menos, a lição foi aprendida.Mas não: já se anuncia para o ano que vem uma série de contratações, feitas de cima para baixo, em entendimento entre dirigentes e empresários, sem aval do treinador, e que hão-de conseguir reduzir a zero os ganhos que José Mourinho depositou no cofre do clube: ele é Lucho Gonzalez, ele é Lizandro López, ele é o grego Katsouranis, ele é aquele guarda-redes do Setúbal de que a única referência que se conhece
é o frango dado contra o Benfica (quando há tantos bons guarda-redes com provas dadas na SuperLiga...), ele é até a inverosímil hipótese do Sokota, típica jogada à Pinto da Costa e desperdício escandaloso para quem tem, para o mesmo lugar, McCarthy, Postiga, Fabiano, Hugo Almeida e Bruno Morais. E, no meio de tantas compras já anunciadas, mais as que
virão durante aquele ruinoso mês de Julho, mais a clássica e ridícula aquisição- surpresa da noite da apresentação, vão sobrar 30 ou 40 jogadores sem lugar no plantel e a quem o clube terá de pagar ordenado para jogarem noutros lados, na equipa B ou em lado nenhum. Por algum estranho bloqueio mental, os homens da SAD do FC Porto são os únicos portistas que ainda não perceberam que o interesse estratégico imediato do clube e da sociedade não é comprar, é vender; não é aumentar o número de jogadores mas livrar-se daquela multidão de excedentários, que o asfixiam financeiramente e contribuem para que se instale um espírito de mercenariado que está brilhantemente documentado na prestação desta época.
2- Se aceitar, sem estrebuchar, a equipa que a SAD e os srs. Jorge Mendes e Paulo Barbosa lhe quiserem dar para o ano, José Couceiro estará a pregar os pregos no caixão onde lhe hão-de fazer o enterro.
No Bessa ele terá percebido definitivamente que, tirando Baía e Jorge Costa, já não há ali mais ninguém que carregue consigo a atitude de inconformismo e de conquista que fez a glória desta equipa. Dos restantes, uns são bons mas não sabem o que andam a fazer, outros já baixaram os braços e outros são simplesmente maus-por mais dinheiro que tenham custado ou por mais que se imaginem bons.
No Bessa, também levado pela falta de confiança geral, ele pagou o erro de, mais uma vez - tal como em Milão -, ter enfrentado um jogo, onde só lhe interessava ganhar, desfalcando o ataque, com Quaresma no banco e Bosingwa remetido a uma função de falso extremo-direito, para que não revelou talento nem entendimento. Depois, quando o Boavista marcou o seu golozito fortuito da ordem e passou a defender com 11 atrás da bola, já era tarde para virar as coisas. Teve azar o FC Porto, sim, teve azar, mas a sorte só ajuda os audazes. E também, como eu tinha previsto, o Boavista que saiu ao FC Porto era o habitual e não o de facilidades que esta época saiu sempre ao Sporting e ao Benfica. Mas isso era mais que previsível e, por isso, a única hipótese de vitória era tentar a todo o custo marcar antes deles. Era um jogo para arriscar tudo de início. Para agir por antecipação e não reagir por desespero. Couceiro não quis arriscar, perdeu tudo. E nesse tudo inclui-se, por mais escandalosa que a hipótese possa ser, a possibilidade de o FC Porto nem sequer ficar entre os três da frente que disputarão a Liga dos Campeões, graças aos pontos amealhados... pelo FC Porto.
3- No final do jogo de Vila do Conde, depois de ter afirmado que, para o Benfica, cada jogo é agora uma final, Petit lamentou que o Rio Ave tenha jogado como se o jogo fosse também para eles uma final-«como se houvesse mais qualquer coisa por trás». Infelizmente para o infeliz Petit, o repórter de serviço, ao contrário do que lhes é habitual, não se deixou
ficar com a insinuação e obrigou-o a concretizar. Ao que ele respondeu que essa mais qualquer coisa seriam «uns incentivos». Ficámos assim a saber que o Petit acha que as outras equipas, ditas menores, têm a obrigação de não dar o seu máximo contra o Benfica; que, se o fizerem, é porque foram pagas pelos adversários do Benfica; e que, sendo pagas para jogar o máximo, o Benfica não chega para elas. Eis como eles se propõem ser campeões.
Pois eu, de facto, também tenho ouvido uns rumores sobre incentivos, que envolvem várias equipas pagantes - a minha incluída. Acontece, porém, que tal não é ilícito - em Espanha, por exemplo, é feito à luz do dia.Mas também tenho ouvido outros rumores de sinal contrário, desde o início deste campeonato, e, esses sim, ilícitos e envolvendo pura e simples corrupção. Nunca o escrevi nem concretizei, como o Petit, porque não tenho senão rumores sobre o assunto. Mas, agora que o Petit certamente irá ser chamado pelo Conselho de Disciplina da Liga e pelos investigadores do Apito Dourado para provar o que disse, vamos seguramente conhecer toda a verdade.
4- Para as contas daqueles sportinguistas que são capazes de citar abundantemente os casos em que acham que o Sporting foi prejudicado e o FC Porto beneficiado pelas arbitragens, mas sempre esquecem os casos opostos, certamente não entrará o golo legalíssimo do Beira-Mar, em Alvalade, e que, se não tivesse sido erradamente anulado, teria ditado outra história para o jogo e, quem sabe, para a classificação final do campeonato. Mas eles são assim mesmo: na semana passada viram, como eu vi, a mão do Jorge Costa no jogo contra o Gil Vicente e que passou sem o respectivo penalty. Mas não viram antes a mão do jogador do Gil que também passou em branco-e havia ainda 0-0. Viram a fantástica cotovelada do McCarthy no Rui Jorge, que valeu a vitória no jogo contra o FC Porto e a suspensão do McCarthy por quatro jogos, em termos práticos, mas
aposto que não viram o coice dado pelo Hugo Viana num jogador do Beira-Mar e que, adivinhem, só mereceu cartão... cor-de-rosa. E aí vão três arbitragens de seguida a empurrar o Sporting para a vitória. É caso para perguntar, como Dias da Cunha: «Quando terminará o escândalo?»
5- Título deste jornal: «Estoril pretende jogar contra o Benfica no Estádio Nacional. SAD do Benfica não se deverá opor à pretensão.» Bruxo! Quem é que se importaria de trocar o quintal da Amoreira pelo próprio campo de treinos? Digam lá que o Estoril não é amigo? Nem sequer guarda rancor pela forma como perdeu o jogo da primeira volta na Luz...
6- Tudo visto e meditado, devidamente considerada a santíssima verdade desportiva, perguntarão os meus leitores: o que deseja um portista para desfecho deste campeonato, considerando, como eu considero, que o FC Porto já não pode nem merece ganhá-lo?
Pois bem, é assim: Benfica e Sporting têm sido - desculpem, mas é a minha opinião - os clubes mais beneficiados pelas arbitragens e pelos efeitos do Apito Dourado e da perseguição do CD da Liga ao FC Porto. Só por isso não merecem ser campeões.Mas acresce que o Benfica não tem futebol para ser campeão e o Sporting não tem atitude de campeão. O
Boavista joga um futebol inapresentável, verdadeira propaganda contra este jogo magnífico. Por exclusão de partes, e por mérito próprio, resta o Sporting de Braga. Seria uma estreia e seria a única justiça digna até aqui neste campeonato.
1- Há um ano atrás Pinto da Costa teria estado sentado no banco durante o jogo do Bessa. E o FC Porto teria jogado para ganhar e teria ganho, como era próprio do campeão europeu e de uma equipa que espalhava perfume e pânico em todos os estádios do País. Neste triste ano de 2005, sábado passado, sentado ao lado de João Loureiro-como se fossem amigos!
-, Pinto da Costa assistiu, do alto do camarote presidencial do Bessa, a mais uma tranquila derrota do FC Porto, às mãos de uma equipa cujo orçamento é 10 por cento daquela que o presidente do FC Porto e alguns dos membros da sua Direcção construíram para esta época.
A imagem de Pinto da Costa amordaçado ao lado de João Loureiro marcou-me tanto, em simbolismo, como a própria imagem da impotência revelada em campo por esta milionária equipa, que actualmente discute o 5.º lugar do campeonato e custa mais 25 por cento que a equipa do ano passado, que foi campeã da Europa. Pela enésima vez, para que não haja confusões, repito que o erro não foi a venda de jogadores, que encheu a tesouraria do clube: o erro foram os seis milhões de contos ou mais gastos em pérolas como Diego, Fabiano, Postiga, Areias, Raul Meireles, Cláudio Pitbull, Leandro, Leo Lima ou Hugo Leal. O erro foram as dispensas de Paulo Assunção, Thiago e Rossato-comprados e nem sequer testados - ou de Carlos Alberto e Hugo Almeida-um devolvido de borla, o outro emprestado justamente ao Boavista, que, graças a ele, poderá até roubarnos um lugar na Liga dos Campeões, para o ano que vem. Era impossível gastar mais e fazer pior. Nunca tão poucos conseguiram destruir tanto em tão pouco tempo.
Como consolação poderia pensar- se que, ao menos, a lição foi aprendida.Mas não: já se anuncia para o ano que vem uma série de contratações, feitas de cima para baixo, em entendimento entre dirigentes e empresários, sem aval do treinador, e que hão-de conseguir reduzir a zero os ganhos que José Mourinho depositou no cofre do clube: ele é Lucho Gonzalez, ele é Lizandro López, ele é o grego Katsouranis, ele é aquele guarda-redes do Setúbal de que a única referência que se conhece
é o frango dado contra o Benfica (quando há tantos bons guarda-redes com provas dadas na SuperLiga...), ele é até a inverosímil hipótese do Sokota, típica jogada à Pinto da Costa e desperdício escandaloso para quem tem, para o mesmo lugar, McCarthy, Postiga, Fabiano, Hugo Almeida e Bruno Morais. E, no meio de tantas compras já anunciadas, mais as que
virão durante aquele ruinoso mês de Julho, mais a clássica e ridícula aquisição- surpresa da noite da apresentação, vão sobrar 30 ou 40 jogadores sem lugar no plantel e a quem o clube terá de pagar ordenado para jogarem noutros lados, na equipa B ou em lado nenhum. Por algum estranho bloqueio mental, os homens da SAD do FC Porto são os únicos portistas que ainda não perceberam que o interesse estratégico imediato do clube e da sociedade não é comprar, é vender; não é aumentar o número de jogadores mas livrar-se daquela multidão de excedentários, que o asfixiam financeiramente e contribuem para que se instale um espírito de mercenariado que está brilhantemente documentado na prestação desta época.
2- Se aceitar, sem estrebuchar, a equipa que a SAD e os srs. Jorge Mendes e Paulo Barbosa lhe quiserem dar para o ano, José Couceiro estará a pregar os pregos no caixão onde lhe hão-de fazer o enterro.
No Bessa ele terá percebido definitivamente que, tirando Baía e Jorge Costa, já não há ali mais ninguém que carregue consigo a atitude de inconformismo e de conquista que fez a glória desta equipa. Dos restantes, uns são bons mas não sabem o que andam a fazer, outros já baixaram os braços e outros são simplesmente maus-por mais dinheiro que tenham custado ou por mais que se imaginem bons.
No Bessa, também levado pela falta de confiança geral, ele pagou o erro de, mais uma vez - tal como em Milão -, ter enfrentado um jogo, onde só lhe interessava ganhar, desfalcando o ataque, com Quaresma no banco e Bosingwa remetido a uma função de falso extremo-direito, para que não revelou talento nem entendimento. Depois, quando o Boavista marcou o seu golozito fortuito da ordem e passou a defender com 11 atrás da bola, já era tarde para virar as coisas. Teve azar o FC Porto, sim, teve azar, mas a sorte só ajuda os audazes. E também, como eu tinha previsto, o Boavista que saiu ao FC Porto era o habitual e não o de facilidades que esta época saiu sempre ao Sporting e ao Benfica. Mas isso era mais que previsível e, por isso, a única hipótese de vitória era tentar a todo o custo marcar antes deles. Era um jogo para arriscar tudo de início. Para agir por antecipação e não reagir por desespero. Couceiro não quis arriscar, perdeu tudo. E nesse tudo inclui-se, por mais escandalosa que a hipótese possa ser, a possibilidade de o FC Porto nem sequer ficar entre os três da frente que disputarão a Liga dos Campeões, graças aos pontos amealhados... pelo FC Porto.
3- No final do jogo de Vila do Conde, depois de ter afirmado que, para o Benfica, cada jogo é agora uma final, Petit lamentou que o Rio Ave tenha jogado como se o jogo fosse também para eles uma final-«como se houvesse mais qualquer coisa por trás». Infelizmente para o infeliz Petit, o repórter de serviço, ao contrário do que lhes é habitual, não se deixou
ficar com a insinuação e obrigou-o a concretizar. Ao que ele respondeu que essa mais qualquer coisa seriam «uns incentivos». Ficámos assim a saber que o Petit acha que as outras equipas, ditas menores, têm a obrigação de não dar o seu máximo contra o Benfica; que, se o fizerem, é porque foram pagas pelos adversários do Benfica; e que, sendo pagas para jogar o máximo, o Benfica não chega para elas. Eis como eles se propõem ser campeões.
Pois eu, de facto, também tenho ouvido uns rumores sobre incentivos, que envolvem várias equipas pagantes - a minha incluída. Acontece, porém, que tal não é ilícito - em Espanha, por exemplo, é feito à luz do dia.Mas também tenho ouvido outros rumores de sinal contrário, desde o início deste campeonato, e, esses sim, ilícitos e envolvendo pura e simples corrupção. Nunca o escrevi nem concretizei, como o Petit, porque não tenho senão rumores sobre o assunto. Mas, agora que o Petit certamente irá ser chamado pelo Conselho de Disciplina da Liga e pelos investigadores do Apito Dourado para provar o que disse, vamos seguramente conhecer toda a verdade.
4- Para as contas daqueles sportinguistas que são capazes de citar abundantemente os casos em que acham que o Sporting foi prejudicado e o FC Porto beneficiado pelas arbitragens, mas sempre esquecem os casos opostos, certamente não entrará o golo legalíssimo do Beira-Mar, em Alvalade, e que, se não tivesse sido erradamente anulado, teria ditado outra história para o jogo e, quem sabe, para a classificação final do campeonato. Mas eles são assim mesmo: na semana passada viram, como eu vi, a mão do Jorge Costa no jogo contra o Gil Vicente e que passou sem o respectivo penalty. Mas não viram antes a mão do jogador do Gil que também passou em branco-e havia ainda 0-0. Viram a fantástica cotovelada do McCarthy no Rui Jorge, que valeu a vitória no jogo contra o FC Porto e a suspensão do McCarthy por quatro jogos, em termos práticos, mas
aposto que não viram o coice dado pelo Hugo Viana num jogador do Beira-Mar e que, adivinhem, só mereceu cartão... cor-de-rosa. E aí vão três arbitragens de seguida a empurrar o Sporting para a vitória. É caso para perguntar, como Dias da Cunha: «Quando terminará o escândalo?»
5- Título deste jornal: «Estoril pretende jogar contra o Benfica no Estádio Nacional. SAD do Benfica não se deverá opor à pretensão.» Bruxo! Quem é que se importaria de trocar o quintal da Amoreira pelo próprio campo de treinos? Digam lá que o Estoril não é amigo? Nem sequer guarda rancor pela forma como perdeu o jogo da primeira volta na Luz...
6- Tudo visto e meditado, devidamente considerada a santíssima verdade desportiva, perguntarão os meus leitores: o que deseja um portista para desfecho deste campeonato, considerando, como eu considero, que o FC Porto já não pode nem merece ganhá-lo?
Pois bem, é assim: Benfica e Sporting têm sido - desculpem, mas é a minha opinião - os clubes mais beneficiados pelas arbitragens e pelos efeitos do Apito Dourado e da perseguição do CD da Liga ao FC Porto. Só por isso não merecem ser campeões.Mas acresce que o Benfica não tem futebol para ser campeão e o Sporting não tem atitude de campeão. O
Boavista joga um futebol inapresentável, verdadeira propaganda contra este jogo magnífico. Por exclusão de partes, e por mérito próprio, resta o Sporting de Braga. Seria uma estreia e seria a única justiça digna até aqui neste campeonato.