Parabéns, então,sr. João Ferreira:o senhor conseguiu,finalmente, decidir este campeonato,que não havia maneira de se decidir
1- Ontem, ao minuto 35 do jogo de Alvalade, o sr. João Ferreira decidiu abrir o caminho do título ao Benfíca, juntando-se a uma vasta campanha nacional em curso que tem como objectivo levar o Benfica ao título, nem que seja por decreto-lei.
Quando digo que decidiu, quero dizer exactamente que a anedótica expulsão de McCarthy - a mais inacreditável expulsão que eu vi em quarenta anos a ver futebol - não foi um deslize de momento, uma precipitação do árbitro. Não: ele teve vários dias para meditar na importância do jogo que estava a dirigir. Ele sabia que jogavam dois candidatos ao título e que a derrota de um deles - o Sporting-significaria que esse estava fora da corrida, e a derrota do outro - o FC Porto - significaria que ambos ficavam, com toda a probabilidade, afastados do título. E sabia, como qualquer árbitro sabe, que, num derby, reduzir uma equipe a 10 jogadores, ainda para mais a visitante, e quando ainda falta mais de uma hora para jogar, equivale praticamente a sentenciar o vencedor. Por isso, uma decisão tão determinante no desfecho quanto essa, tem de assentar num facto absolutamente incontestável por todas as partes. Ora, por mais jogos que arbitre, nunca mais o sr. João Ferreira terá oportunidade e necessidade de expulsar um jogador por ele acertar com o braço na anca de um adversário, quando este está sentado em cima dele e delibera-damente o impede de se levantar. Sobretudo quando, minutos antes, o mesmo sr. João Ferreira fez que não viu uma entrada para aleijar do Beto sobre o Quaresma - que não tinha sido, aliás, a primeira. E, como se dez contra onze não fosse já suficiente, o mesmo sr. João Ferreira, culminando uma arbitragem escandalosamente caseira em tudo, desde o critério disciplinar à avaliação das faltas, ainda tratou de expulsar também o Seitaridis, "esquecendo-se" que, não tendo ele cortado com a mão uma bola que fosse a caminho da baliza, a sanção correspondente era o cartão amarelo e não o vermelho. Podia ser até, que o Sporting viesse a ganhar o jogo com toda a naturalidade e justiça. Mas ele não deixou que as coisas acontecessem com naturalidade e justiça.
De uma assentada, o sr. João Ferreira conseguiu atingir duplamente o FC Porto: tomando decisões que se revelaram determinantes na derrota e privando a equipa de contar com McCarthy para os jogos seguintes. Numa e noutra coisa, ele não é, aliás, original: esta época têm sido inúmeros os jogos em que decisões "infelizes" dos árbitros têm resultado em perdas de pontos para o FC Porto: ainda no penúltimo jogo, contra o Nacional (ninguém falou nisso porque a exibição foi tão má que não cabiam desculpas), mas a verdade, verdadinha, e que o árbitro lisboeta perdoou mnpenalty sobre o Jorge Costa, quando havia 0-1, e fez vista grossa a uma falta sobre o Ricardo Costa que tornou possível o segundo golo do Nacional. E, quanto ao McCarthy, uma coligação de gente que não gosta de ver jogar grandes jogadores se eles forem do FC Porto - que inclui árbitros, juizes do CD da Liga, adeptos e o presidente do Benfica - têm-se esforçado e conseguido, abusando do poder discricionário de que gozam, para impedir que ele jogue, transformando - o numa espécie de carniceiro do futebol, massacrando inocentes defesas que, coitadinhos, tal como o Rui Jorge ontem, que nada fazem para provocar as suas agressões selvagens.
Parabéns, então, Sr. João Ferreira: o senhor conseguiu, finalmente, decidir este campeonato que não havia maneira de se decidir.
2 - Depois do descalabro dos 0-4 com o Nacional da Madeira, José Couceiro tinha dois testes de fogo - daqueles jogos onde o risco é total e, por isso, não há escapatória possível: ou se vale ou não se vale. O teste podia parecer um bocado injusto, para quem acabou de chegar ao clube, recebeu a herança que se sabe e tem apenas dois anos de experiência nas funções. Mas, quando se aceita treinar o campeão nacional e europeu, deve-se estar preparado para desafios desses e não para uma vida tranquila -de outro modo, teria ficado em Setúbal, onde jamais teria de jogar para o títuloou para a sobrevivência na Liga dos Campeões.
Ora, se, quanto ao teste de ontem em Alvalade, forças cósmicas impediram que se pudesse fazer um juízo certo, já o primeiro desses testes de fogo, em S. Siro, traduziu-se por um fiasco total, ao ponto de, em abono da verdade e sem nenhum azedume, ter de se reconhecer que o principal responsável pela eliminação do F.C.Porto da Liga dos Campeões foi exactamente José Couceiro. A falta de experiência em jogos a este nível tolheu-o de medo, e o medo, inevitavelmente, deu-lhe para recorrer à solução clássica (e sempre falhada) dos treinadores portugueses nestas circunstâncias: abdicar do ataque, reforçar a defesa e confiar num milagre. E, porque assim o mereceu, falhou. E falhou tanto mais, quanto o jogo deixou a sensação de que aquele Inter estava ao alcance mesmo deste F.C.Porto.
Couceiro falhou desde logo na inclusão de jogadores ou em nítida crise de forma-Costinha, Nu-no Valente - ou sem categoria para aquele jogo - Diego, Cláudio e, depois, Postiga. Falhou ao ensaiar um sistema nunca testado de três centrais, que só lançou a confusão, e ao abdicar da sua arma mais mortífera, Ricardo Quaresma. Falhou, depois, ao fazer entrar Postiga para o centro e fazer derivar McCarthy para extremo, com isso não ganhando um extremo e perdendo o único ponta-de-lança. E falhou, finalmente, porque, tendo transmitido à equipe a atitude de prudência e medo que era a sua, quando se chegou à hora do tudo-ou-nada, com 2-1 a favor do Inter, a equipe pareceu satisfeita, incapaz de ir à procura do empate e do favor do destino, limitando-se a esperar lá atrás pelo K.O. final e libertador. Foi claramente um jogo em que uma equipe é derrotada à partida pela atitude mental do seu treinador. Que, ao menos, tenha ficado a lição para o futuro.
3 - Outro exemplo do que acima fica dito foi a maneira como o V Setúbal se entregou a perder nas mãos do Benfica. Os dois golos nascem de duas entre as inúmeras ofertas da defesa, e a expulsão de Veríssimo nasce igualmente de uma bola perdida para o avançado benfiquista, em zona proibida. Como se isso não bastasse, José Rachão resolveu, na segunda parte, retirar do meio-campo o construtor de todo o jogo ofensivo do Vitória, Jorginho, e pô-lo a fazer figura de corpo presente entre os centrais do Benfica, à espera de bolas que nunca chegaram. Se uma equipe quisesse pensar cientificamente como é que devia fazer para perder um jogo, teria feito exactamente o que o Vitória fez frente ao Benfica. E, quando penso que o Vitória, o Nacional, o Boavista e o Guimarães - tudo equipas que fizeram a vida negra ao FC Porto se entregaram tão docilmente nas mãos do Benfica, quando vejo arbitragens como a de ontem em Alvalade, só posso concordar com o que aqui se escrevia no domingo: já há um cheirinho a campeão.
4 - Deve ser esse cheirinho a campeão que justificou o tom da entrevista do presidente do Benfica à Sport TV quarta-feira passada. Eu, que já aqui elogiei uma anterior entrevista televisiva de Luís Filipe Vieira, desta vez só posso é lamentar o facciosismo, a intolerância e o tom de dono do mundo de que ele deu provas desta vez. Nem o mais irracional e perturbado dos adeptos conseguiria fazer afirmações como as dele. Na opinião dele, por exemplo, as cotoveladas dos jogadores do Benfica não existem por definição, enquanto as de jogadores do FC Porto deveriam ser punidas com "seis, sete ou oito jogos" (as que ninguém, tirando ele, viu), ou com a "irradiação" (as que, de facto, existiram). Fiquei até com a impressão de que, se ele mandasse ainda mais na Liga e na Comissão Disciplinar, este ano o FC Porto nem sequer seria autorizado a disputar o campeonato.
5 - Será que Scolari não vê mesmo nenhum jogo de clubes portugueses - ao vivo ou, ao menos, pela televisão? Deve ser verdade, porque só isso justifica que o seleccionador continue, imperturbável, a convocar jogadores que o país inteiro vê que estão em gritante crise de forma (para dizer o mínimo) - casos de Ricardo, Costinha, Nuno Valente ou Postiga.
José Mourinho tem razão: de facto, não há lugar mais cómodo do que o de seleccionador nacional. Sobretudo, da forma como Scolari o exerce: uma vez por mês, se tanto, faz uma convocatória, onde estão sempre os mesmos, sem necessidade de se actualizar nem rever escolhas ou fazer novas experiências; depois, dá-lhes dois dias de treino ligeiro e põe-os a jogar contra equipas menores e quase sempre com exibições medíocres; findo o jogo, fecha a loja e descansa até à próxima convocatória. Realmente, não deve haver emprego menos cansativo e mais bem pago. O que o salva é a sorte que ele tem: para o Europeu, já estava apurado à cabeça (de outro modo, a avaliar pelos resultados dos amigáveis, nunca lá teria chegado); e, para o Mundial, com o grupo que nos calhou, até o primo do Rato Mickey nos conseguiria apurar.
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
terça-feira, abril 12, 2005
BASTA ( 17 MARÇO 2005)
Manda a independência de espírito que se diga que o desastre é, primeiro e quase exclusivamente, um desastre ao nível da gestão, do planeamento e da capacidade de renovação. E, logicamente, os responsáveis não se chamam Del Neri, nem Victor Fernandez, nem José Couceiro: chamam-se Pinto da Costa e SAD.
HOJE à noite é preciso que haja um milagre em Milão, mesmo que por directa intervenção divina (e nem se vê como possa ser de outra maneira...)- Foi assim com Victor Fernandez, em Novembro passado: quando tudo parecia perdido, o FC Porto foi ganhar a Moscovo ao CSKA e depois conseguiu, com uma segunda parte que foi até agora o melhor momento da época, transformar uma derrota anunciada numa vitória contra o Chelsea de Mourinho, com isso materializando o milagre da passagem aos oitavos-de-final da Champions.
Mas agora as coisas são ainda piores e as circunstâncias mais exigentes: exige-se (exigem-no os adeptos) que esta pobre equipa do FC Porto, sombra triste de quem foi campeão europeu há 10 meses atrás, elimine hoje o Inter, em Milão, e na segunda-feira vença o Sporting, em Alvalade. Só essa duas quase impossíveis vitórias fora podem atenuar as consequências e fazer esquecer o sofrimento da continuada vergonha da prestação caseira, bem traduzida no facto de ser a única equipa da SuperLiga, e talvez a única no Mundo, que ainda não conseguiu vencer um jogo em casa em 2005.
Em 17 jogos oficiais disputados esta época no Dragão o FC Porto venceu cinco. Como aqui já escrevi várias vezes, nenhum por-tista poderia legitimamente esperar e exigir este ano a repetição dos dois fabulosos anos anteriores. Mas, entre isso e o desastre total a que vimos assistindo, vai um abismo que deveria ter consequências. E a primeira consequência seria justamente a devolução do preço pago pelos quase 30 mil titulares de lugares cativos no estádio ou a sua renovação grátis para a época seguinte. Os adeptos, que, apesar do interminável pesadelo a que vêm assistindo, continuam a fazer do Dragão o estádio líder das assistências na SuperLiga e nunca faltam com a sua crença e o seu apoio à equipa, têm direito a um gesto efectivo de desculpas. Talvez custe caro mas pelo menos sempre é menos dinheiro disponível para mais loucuras e disparates.
A segunda consequência, que já deveria ter sido efectivada há muito sem olhar às vaidades e teimosias atingidas, é pegar nas supostas vedetas compradas por milhões e pagas sumptuosamente - Diego, Postiga e Fabiano - e enfiar com elas na equipa B, mesmo com prejuízo da equipa B. E deixá-las por lá a vegetar tempo suficiente até que supliquem a rescisão do contrato. E, mesmo que, a curto prazo, isso custe dinheiro, poupa-se a médio prazo, em ordenados e na nossa paciência. Por-que a minha, devo dizê-lo, esgotou-se em relação a estes três: acho-os três casos irrecuperáveis de falta de categoria e brio profissional.
Ficariam ainda por resolver mais uns quantos casos de jogadores que ninguém entende porquê e a benefício de quem foram comprados: Areias, Raul Meireles, Leo Lima ou Leandro (não o do Bonfim, que esse parece bom jogador). Mas vai demorar anos a amortizar os danos da demência e irresponsabilidade das compras desta época - 17 jogadores, dos quais apenas três são titulares habituais e 10 são brasileiros! Se pensarmos que uma equipa profissional de futebol é normalmente composta por 25 a 30 jogadores, temos a dimensão de uma pequena empresa. Que pequena empresa sobreviveria ao luxo de contratar 17 empregados novos num ano, acabando a tirar partido apenas de três e dando-se até ao luxo de emprestar uns quantos a empresas rivais, ficando a pagar-lhes o ordenado enquanto eles trabalham na concorrência? Só mesmo um clube de futebol habituado a viver na irresponsabilidade financeira.
Por isso mesmo a terceira consequência a tirar era chamar o ou os empresários que este época ganharam milhões no desmantelamento da equipa campeã da Europa e do Mundo, substituindo-a por um charter de pára-quedistas brasileiros, e obrigá-los a devolver o dinheiro ganho com a ruína da equipa, sob pena de não fazerem mais negócios com o FC Porto e não se voltarem a sentar na tribuna de honra do Dragão. Mas já li algures que o sr. Jorge Mendes, sem dor de consciência alguma, se prepara para trazer mais um brasileiro, um tal de Fred, para o FC Porto. E de novo me assaltam as perguntas inocentes: no FC Porto não há prospecção própria de mercados? Só conhecem o mercado brasileiro? Não têm formação e uma equipa B para produzir novos talentos para a equipa principal - onde estão eles?
Passados que são oito meses de mediocridade competitiva, 14 jogos de frustração caseira (até o Beira-Mar, de Cajuda, conseguiu lá a sua única vitória), batidos todos os registos históricos de humilhação entreportas, experimentados 17 novos jogadores e três treinadores em meia época, manda a verdade e manda a independência de espírito que se diga que o desastre é, primeiro e quase exclusivamente, um desastre ao nível da gestão, do planeamento e da capacidade de renovação. E, logicamente, os responsáveis não se chamam Del Neri, nem Victor Fernandez, nem José Couceiro: chamam-se Pinto da Costa e SAD. Na noite gloriosa de Gelsenkirchen confidenciava-me um membro dos órgãos sociais do FC Porto que estava com medo do futuro próximo. Perguntei-lhe porquê e ele respondeu-me: "Porque vem aí muito dinheiro e, com dinheiro no bolso, eles não se conseguem conter." Dito e feito, apesar dos avisos que alguns de nós não deixámos de ir fazendo.
Não seria justo nem útil estar agora a incluir José Couceiro no lote dos também responsabilizáveis. Não tem culpa de ter herdado uma equipa onde alguns inamovíveis só servem para atrapalhar, onde há quatro defesas-esquerdos e apenas um defesa-direito, onde se andou a vender, a dispensar e a emprestar avançados para acabar apenas com um extremo de raiz e um verdadeiro ponta-de-lança, impedindo, por exemplo, que uma equipa oficialmente candidata ao título possa jogar em 4x3x3. Mas a verdade também, e sem culpas próprias, é que não deixa de ser extraordinário que para treinar o campeão da Europa em título baste ter como currículo dois anos de estágio, um bom e um mau, em equipas que lutam pela permanência. José Couceiro pode até vir a revelar-se um excelente treinador, pode demonstrar uma acelerada capacidade para aprender rapidamente, mas não pode ter a maturidade de pegar num campeão europeu em crise e dar-lhe a volta instantaneamente, como que por magia. E dou apenas um exemplo concreto: a desesperada frequência com que o FC Porto inicia os jogos contra equipas que lhe são inferiores em tom de passeio e sem pressas, para logo, na primeira vez que o adversário vem à frente, consentir um golo, é claramente um sinal de imaturidade competitiva, desconcentração e inibição psicológica, que um treinador mais experiente já teria controlado. Essa experiência só se consegue ou com os anos ou com um profundo conhecimento da equipa; é por isso que me custa entender que, sendo capaz de arriscar em Couceiro, a SAD não se tenha lembrado de arriscar antes, e já que estava no ponto de tudo arriscar, em Aloísio, que conhece como poucos os cantos à casa. Dir-me-ão que Mourinho também tinha pouca experiência e também foi um risco que deu certo. Mas Mourinho é um caso à parte, é a excepção que confirma a regra, e, de qualquer forma, como , como adjunto e brevemente como treinador principal, já tinha passado por vários grandes: Sporting, FC Porto, Barcelona e Benfica, além de ter transformado num ápice o União de Leiria num grande. Pode ser, repito, que Couceiro venha a ser um grande treinador do futebol português mas duvido que este fosse o momento dele no FC Porto. Possa eu enganar-me!
E agora? Agora é ganhar hoje em Milão e segunda-feira em Alvalade. E depois falamos.
HOJE à noite é preciso que haja um milagre em Milão, mesmo que por directa intervenção divina (e nem se vê como possa ser de outra maneira...)- Foi assim com Victor Fernandez, em Novembro passado: quando tudo parecia perdido, o FC Porto foi ganhar a Moscovo ao CSKA e depois conseguiu, com uma segunda parte que foi até agora o melhor momento da época, transformar uma derrota anunciada numa vitória contra o Chelsea de Mourinho, com isso materializando o milagre da passagem aos oitavos-de-final da Champions.
Mas agora as coisas são ainda piores e as circunstâncias mais exigentes: exige-se (exigem-no os adeptos) que esta pobre equipa do FC Porto, sombra triste de quem foi campeão europeu há 10 meses atrás, elimine hoje o Inter, em Milão, e na segunda-feira vença o Sporting, em Alvalade. Só essa duas quase impossíveis vitórias fora podem atenuar as consequências e fazer esquecer o sofrimento da continuada vergonha da prestação caseira, bem traduzida no facto de ser a única equipa da SuperLiga, e talvez a única no Mundo, que ainda não conseguiu vencer um jogo em casa em 2005.
Em 17 jogos oficiais disputados esta época no Dragão o FC Porto venceu cinco. Como aqui já escrevi várias vezes, nenhum por-tista poderia legitimamente esperar e exigir este ano a repetição dos dois fabulosos anos anteriores. Mas, entre isso e o desastre total a que vimos assistindo, vai um abismo que deveria ter consequências. E a primeira consequência seria justamente a devolução do preço pago pelos quase 30 mil titulares de lugares cativos no estádio ou a sua renovação grátis para a época seguinte. Os adeptos, que, apesar do interminável pesadelo a que vêm assistindo, continuam a fazer do Dragão o estádio líder das assistências na SuperLiga e nunca faltam com a sua crença e o seu apoio à equipa, têm direito a um gesto efectivo de desculpas. Talvez custe caro mas pelo menos sempre é menos dinheiro disponível para mais loucuras e disparates.
A segunda consequência, que já deveria ter sido efectivada há muito sem olhar às vaidades e teimosias atingidas, é pegar nas supostas vedetas compradas por milhões e pagas sumptuosamente - Diego, Postiga e Fabiano - e enfiar com elas na equipa B, mesmo com prejuízo da equipa B. E deixá-las por lá a vegetar tempo suficiente até que supliquem a rescisão do contrato. E, mesmo que, a curto prazo, isso custe dinheiro, poupa-se a médio prazo, em ordenados e na nossa paciência. Por-que a minha, devo dizê-lo, esgotou-se em relação a estes três: acho-os três casos irrecuperáveis de falta de categoria e brio profissional.
Ficariam ainda por resolver mais uns quantos casos de jogadores que ninguém entende porquê e a benefício de quem foram comprados: Areias, Raul Meireles, Leo Lima ou Leandro (não o do Bonfim, que esse parece bom jogador). Mas vai demorar anos a amortizar os danos da demência e irresponsabilidade das compras desta época - 17 jogadores, dos quais apenas três são titulares habituais e 10 são brasileiros! Se pensarmos que uma equipa profissional de futebol é normalmente composta por 25 a 30 jogadores, temos a dimensão de uma pequena empresa. Que pequena empresa sobreviveria ao luxo de contratar 17 empregados novos num ano, acabando a tirar partido apenas de três e dando-se até ao luxo de emprestar uns quantos a empresas rivais, ficando a pagar-lhes o ordenado enquanto eles trabalham na concorrência? Só mesmo um clube de futebol habituado a viver na irresponsabilidade financeira.
Por isso mesmo a terceira consequência a tirar era chamar o ou os empresários que este época ganharam milhões no desmantelamento da equipa campeã da Europa e do Mundo, substituindo-a por um charter de pára-quedistas brasileiros, e obrigá-los a devolver o dinheiro ganho com a ruína da equipa, sob pena de não fazerem mais negócios com o FC Porto e não se voltarem a sentar na tribuna de honra do Dragão. Mas já li algures que o sr. Jorge Mendes, sem dor de consciência alguma, se prepara para trazer mais um brasileiro, um tal de Fred, para o FC Porto. E de novo me assaltam as perguntas inocentes: no FC Porto não há prospecção própria de mercados? Só conhecem o mercado brasileiro? Não têm formação e uma equipa B para produzir novos talentos para a equipa principal - onde estão eles?
Passados que são oito meses de mediocridade competitiva, 14 jogos de frustração caseira (até o Beira-Mar, de Cajuda, conseguiu lá a sua única vitória), batidos todos os registos históricos de humilhação entreportas, experimentados 17 novos jogadores e três treinadores em meia época, manda a verdade e manda a independência de espírito que se diga que o desastre é, primeiro e quase exclusivamente, um desastre ao nível da gestão, do planeamento e da capacidade de renovação. E, logicamente, os responsáveis não se chamam Del Neri, nem Victor Fernandez, nem José Couceiro: chamam-se Pinto da Costa e SAD. Na noite gloriosa de Gelsenkirchen confidenciava-me um membro dos órgãos sociais do FC Porto que estava com medo do futuro próximo. Perguntei-lhe porquê e ele respondeu-me: "Porque vem aí muito dinheiro e, com dinheiro no bolso, eles não se conseguem conter." Dito e feito, apesar dos avisos que alguns de nós não deixámos de ir fazendo.
Não seria justo nem útil estar agora a incluir José Couceiro no lote dos também responsabilizáveis. Não tem culpa de ter herdado uma equipa onde alguns inamovíveis só servem para atrapalhar, onde há quatro defesas-esquerdos e apenas um defesa-direito, onde se andou a vender, a dispensar e a emprestar avançados para acabar apenas com um extremo de raiz e um verdadeiro ponta-de-lança, impedindo, por exemplo, que uma equipa oficialmente candidata ao título possa jogar em 4x3x3. Mas a verdade também, e sem culpas próprias, é que não deixa de ser extraordinário que para treinar o campeão da Europa em título baste ter como currículo dois anos de estágio, um bom e um mau, em equipas que lutam pela permanência. José Couceiro pode até vir a revelar-se um excelente treinador, pode demonstrar uma acelerada capacidade para aprender rapidamente, mas não pode ter a maturidade de pegar num campeão europeu em crise e dar-lhe a volta instantaneamente, como que por magia. E dou apenas um exemplo concreto: a desesperada frequência com que o FC Porto inicia os jogos contra equipas que lhe são inferiores em tom de passeio e sem pressas, para logo, na primeira vez que o adversário vem à frente, consentir um golo, é claramente um sinal de imaturidade competitiva, desconcentração e inibição psicológica, que um treinador mais experiente já teria controlado. Essa experiência só se consegue ou com os anos ou com um profundo conhecimento da equipa; é por isso que me custa entender que, sendo capaz de arriscar em Couceiro, a SAD não se tenha lembrado de arriscar antes, e já que estava no ponto de tudo arriscar, em Aloísio, que conhece como poucos os cantos à casa. Dir-me-ão que Mourinho também tinha pouca experiência e também foi um risco que deu certo. Mas Mourinho é um caso à parte, é a excepção que confirma a regra, e, de qualquer forma, como , como adjunto e brevemente como treinador principal, já tinha passado por vários grandes: Sporting, FC Porto, Barcelona e Benfica, além de ter transformado num ápice o União de Leiria num grande. Pode ser, repito, que Couceiro venha a ser um grande treinador do futebol português mas duvido que este fosse o momento dele no FC Porto. Possa eu enganar-me!
E agora? Agora é ganhar hoje em Milão e segunda-feira em Alvalade. E depois falamos.
O FUTEBOL NÃO É TUDO (8 MARÇO 2005)
O Sporting manteve os jogadores principais, reforçou-se pouco mas bem,tem o mesmo treinador desde a pré-época e tem sido poupado em lesões e castigos.
E tem 13 pontos a menos do que tinha em idêntica jornada do campeonato passado. Como explicá-los?
1 - Deixem-me contar uma pequena história pessoal. Em 1978 o FC Porto quebrou um longo jejum de 19 anos, que vinha da minha infância, e sagrou-se, enfim, campeão nacional. Foi o princípio de uma reviravolta decisiva no panorama do futebol português e o início de uma bela história azul e branca, que dura até hoje. Nesse ano o jogo decisivo do campeonato foi o FC Porto-Benfica, da antepenúltima jornada, e que terminaria empatado 1-1, com golos de Humberto Coelho e Ademir. O empate haveria de aproveitar apenas ao FC Porto, que, vencendo nas duas últimas e seguintes jornadas, chegou ao título por goal average.
Aconteceu que nesse dia decisivo do FC Porto-Benfica eu estava de férias no Brasil, em Angra dos Reis, fazendo mergulho, que é um desporto que não vem nas páginas dos jornais. A única maneira de seguir as peripécias do jogo em directo era através do rádio do barco de apoio, sintonizado na onda curta da RDP. Mas o mar de Angra é tão fascinante que não consegui, apesar da importância do jogo, ficar a bordo a escutar o relato: mergulhava e vinha ao barco de vez em quando, para saber como corriam as coisas lá longe, e apenas o último quarto de hora segui à distância de um oceano e em directo.
Pois passados quase 25 anos, e em dia de FC Porto-Benfica, de novo empatados no cimo da tabela, dou comigo outra vez em Angra dos Reis, outra vez no mar, e desta vez, além de não ter televisão, nem sequer tinha um rádio para acompanhar o jogo em directo. E foi por telemóvel que tomei conhecimento da marcha do resultado e do desfecho final, igual ao de então: 1-1. Para aqueles que acreditam nas coincidências do destino, este já está, então, traçado: o Benfica está condenado e o FC Porto será campeão. Esclareço que não é o meu caso: não acredito em campeões por razões sobrenaturais. Mas há sinais que se colhem no mar e o principal é este: o futebol não é, longe disso, o centro da vida.
2 - Quando saí de Portugal o FC Porto e o Benfica estavam em primeiro, o Sporting a dois pontos e o Boavista a três. Regressei a tempo de ver a 24º jornada, finda a qual FC Porto e Benfica continuam empatados na liderança mas o Sporting está agora a três pontos e o Boavista a quatro. No entretanto, o Sporting seguiu em frente na UEFA, o FC Porto deu o passo atrás que se temia na Liga dos Campeões e o Benfica foi eliminado, como se previa, da Europa e compensou-se se com a passagem às meias-finais da Taça, ajudado por uma arbitragem que li ter-lhe sido bastante favorável e por um sorteio que, de há dois anos para cá, teima em só lhe reservar jogos na Luz. É difícil dizer, quem, dos três, andou mais para a frente ou para trás, nestes 15 dias.
Aparentemente, e apesar da esperada eliminação europeia, o Benfica terá sido quem menos perdeu: evitou a derrota no Porto, o que já não acontecia há uma década, e finalmente conseguiu ganhar na Luz ao Beira-Mar e na Madeira ao Nacional. Mas o empate no Dragão pode vir a revelar-se um resultado escasso e falsamente positivo e a vitória na Madeira, pelo que vi, só foi possível graças à sorte e a mais uma arbitragem amiga de Bruno Paixão, que, fazendo vista grossa a umpenalty logo de início, permitiu que a história do jogo se escrevesse de outra maneira. Não vi, em momento algum, a "atitude, personalidade e bom futebol", de que falou no final Trapattoni, nem vi razão para "calar as bocas", de que falava Simão Sabro-sa. Mas esta tem sido a história do Benfica desde o início da épo-ca: não me lembro de um único bom jogo, de princípio a fim, que tenha feito.
Em Penafiel o FC Porto tinha, à partida, o mesmo enredo que o Benfica: um quintal de dimensões reduzidas e um relvado onde a bola não desliza, antes progride aos solavancos. Mas, ao contrário do Benfica, teve a sorte do jogo logo contra si, entrando a perder na primeira jogada do encontro - o que resultou em que, logo a partir daí, tenha sido obrigado a correr atrás do prejuízo, contra 11 jogadores do Penafiel barricados em metade do quintal. Jogando tão mal quanto o Benfica na Madeira, o FC Porto revelou, sim, muito mais atitude e muito mais personalidade. Ganhou no último suspiro do jogo, matando com as armas com que este ano já morreu várias vezes, mas fez por isso e mereceu-o. Essa foi a boa notícia. Isso mais a prestação crescente de Ibson e a estreia promissora, embora breve, de Leandro do Bonfim, que me pareceu incomparavelmente melhor, mais simples de processos e mais eficaz que o desesperantemente inútil Diego. Mas McCarthy foi mais uma vez injustamente castigado (ele não saiu do campo para receber assistência e, portanto, não necessitava de autorização para reentrar) e vai ficar de fora no próximo jogo, o que deixa a Couceiro a angustiante dúvida de escolher entre duas figuras de corpo presente, Postiga e Fabiano, qual dos dois poderá atrapalhar menos o ataque. (A propósito, depois de ver o excelente golo de Hugo Almeida e constatar que eleja marcou, em dois meses no Boavista, mais golos que Postiga marcou em dois anos no Tottenham e no FC Porto, pergunto-me por que razão foi ele o sacrificado para ser emprestado a um rival e, já agora, o que terá passado na cabeça de José Couceiro para deixar o Quaresma no banco e pôr o Postiga em campo, contra o Benfica? Às vezes acho mesmo que os treinadores se guiam por intuições irracionais e não por evidências.)
E, enfim, temos este inexplicável Sporting de José Peseiro, que tão depressa deslumbra como se afunda, de um jogo para o outro e, às vezes, durante um mesmo jogo. Foi o que aconteceu no Restelo, onde, durante 20 minutos da primeira parte, o Sporting voltou a mostrar um futebol feito de movimento, imaginação e abertura de espaços que não vi esta época a ninguém mais e depois desapareceu do jogo, como que por magia, e só por sorte não encaixou uma derrota humilhante. Toda a gente, e com razão, nota o abismo que vai entre o FC Porto deste ano e o da época passada, bem traduzido nos 17 pontos a menos que leva em idêntica jornada do campeonato. Mas o FC Porto perdeu jogadores fundamentais, comprou disparata-damente jogadores que se revelaram verdadeiro fiasco, passou pelos processos que passou com os treinadores e tem tido jogadores fundamentais, como Maniche e McCarthy, constantemente afastados por lesões ou castigos. O Sporting, pelo contrário, manteve os jogadores principais, reforçou-se pouco mas bem, tem o mesmo treinador desde a pré-época e tem sido poupado em lesões e castigos. E tem 13 pontos a menos do que tinha em idêntica jornada do campeonato passado. Como explicá-los?
3 - 0 apito dourado começou a descer ao sul e às ilhas e a envolver alguns árbitros cujo currículo os torna insuspeitos de serem amigos do FC Porto. Pressinto que para alguns espíritos o apito se está a tornar menos dourado.
4 - E o Conselho de Disciplina da Liga, já se demitiu? Já foi demitido? Ou tudo se passa como se nada se tivesse passado?
E tem 13 pontos a menos do que tinha em idêntica jornada do campeonato passado. Como explicá-los?
1 - Deixem-me contar uma pequena história pessoal. Em 1978 o FC Porto quebrou um longo jejum de 19 anos, que vinha da minha infância, e sagrou-se, enfim, campeão nacional. Foi o princípio de uma reviravolta decisiva no panorama do futebol português e o início de uma bela história azul e branca, que dura até hoje. Nesse ano o jogo decisivo do campeonato foi o FC Porto-Benfica, da antepenúltima jornada, e que terminaria empatado 1-1, com golos de Humberto Coelho e Ademir. O empate haveria de aproveitar apenas ao FC Porto, que, vencendo nas duas últimas e seguintes jornadas, chegou ao título por goal average.
Aconteceu que nesse dia decisivo do FC Porto-Benfica eu estava de férias no Brasil, em Angra dos Reis, fazendo mergulho, que é um desporto que não vem nas páginas dos jornais. A única maneira de seguir as peripécias do jogo em directo era através do rádio do barco de apoio, sintonizado na onda curta da RDP. Mas o mar de Angra é tão fascinante que não consegui, apesar da importância do jogo, ficar a bordo a escutar o relato: mergulhava e vinha ao barco de vez em quando, para saber como corriam as coisas lá longe, e apenas o último quarto de hora segui à distância de um oceano e em directo.
Pois passados quase 25 anos, e em dia de FC Porto-Benfica, de novo empatados no cimo da tabela, dou comigo outra vez em Angra dos Reis, outra vez no mar, e desta vez, além de não ter televisão, nem sequer tinha um rádio para acompanhar o jogo em directo. E foi por telemóvel que tomei conhecimento da marcha do resultado e do desfecho final, igual ao de então: 1-1. Para aqueles que acreditam nas coincidências do destino, este já está, então, traçado: o Benfica está condenado e o FC Porto será campeão. Esclareço que não é o meu caso: não acredito em campeões por razões sobrenaturais. Mas há sinais que se colhem no mar e o principal é este: o futebol não é, longe disso, o centro da vida.
2 - Quando saí de Portugal o FC Porto e o Benfica estavam em primeiro, o Sporting a dois pontos e o Boavista a três. Regressei a tempo de ver a 24º jornada, finda a qual FC Porto e Benfica continuam empatados na liderança mas o Sporting está agora a três pontos e o Boavista a quatro. No entretanto, o Sporting seguiu em frente na UEFA, o FC Porto deu o passo atrás que se temia na Liga dos Campeões e o Benfica foi eliminado, como se previa, da Europa e compensou-se se com a passagem às meias-finais da Taça, ajudado por uma arbitragem que li ter-lhe sido bastante favorável e por um sorteio que, de há dois anos para cá, teima em só lhe reservar jogos na Luz. É difícil dizer, quem, dos três, andou mais para a frente ou para trás, nestes 15 dias.
Aparentemente, e apesar da esperada eliminação europeia, o Benfica terá sido quem menos perdeu: evitou a derrota no Porto, o que já não acontecia há uma década, e finalmente conseguiu ganhar na Luz ao Beira-Mar e na Madeira ao Nacional. Mas o empate no Dragão pode vir a revelar-se um resultado escasso e falsamente positivo e a vitória na Madeira, pelo que vi, só foi possível graças à sorte e a mais uma arbitragem amiga de Bruno Paixão, que, fazendo vista grossa a umpenalty logo de início, permitiu que a história do jogo se escrevesse de outra maneira. Não vi, em momento algum, a "atitude, personalidade e bom futebol", de que falou no final Trapattoni, nem vi razão para "calar as bocas", de que falava Simão Sabro-sa. Mas esta tem sido a história do Benfica desde o início da épo-ca: não me lembro de um único bom jogo, de princípio a fim, que tenha feito.
Em Penafiel o FC Porto tinha, à partida, o mesmo enredo que o Benfica: um quintal de dimensões reduzidas e um relvado onde a bola não desliza, antes progride aos solavancos. Mas, ao contrário do Benfica, teve a sorte do jogo logo contra si, entrando a perder na primeira jogada do encontro - o que resultou em que, logo a partir daí, tenha sido obrigado a correr atrás do prejuízo, contra 11 jogadores do Penafiel barricados em metade do quintal. Jogando tão mal quanto o Benfica na Madeira, o FC Porto revelou, sim, muito mais atitude e muito mais personalidade. Ganhou no último suspiro do jogo, matando com as armas com que este ano já morreu várias vezes, mas fez por isso e mereceu-o. Essa foi a boa notícia. Isso mais a prestação crescente de Ibson e a estreia promissora, embora breve, de Leandro do Bonfim, que me pareceu incomparavelmente melhor, mais simples de processos e mais eficaz que o desesperantemente inútil Diego. Mas McCarthy foi mais uma vez injustamente castigado (ele não saiu do campo para receber assistência e, portanto, não necessitava de autorização para reentrar) e vai ficar de fora no próximo jogo, o que deixa a Couceiro a angustiante dúvida de escolher entre duas figuras de corpo presente, Postiga e Fabiano, qual dos dois poderá atrapalhar menos o ataque. (A propósito, depois de ver o excelente golo de Hugo Almeida e constatar que eleja marcou, em dois meses no Boavista, mais golos que Postiga marcou em dois anos no Tottenham e no FC Porto, pergunto-me por que razão foi ele o sacrificado para ser emprestado a um rival e, já agora, o que terá passado na cabeça de José Couceiro para deixar o Quaresma no banco e pôr o Postiga em campo, contra o Benfica? Às vezes acho mesmo que os treinadores se guiam por intuições irracionais e não por evidências.)
E, enfim, temos este inexplicável Sporting de José Peseiro, que tão depressa deslumbra como se afunda, de um jogo para o outro e, às vezes, durante um mesmo jogo. Foi o que aconteceu no Restelo, onde, durante 20 minutos da primeira parte, o Sporting voltou a mostrar um futebol feito de movimento, imaginação e abertura de espaços que não vi esta época a ninguém mais e depois desapareceu do jogo, como que por magia, e só por sorte não encaixou uma derrota humilhante. Toda a gente, e com razão, nota o abismo que vai entre o FC Porto deste ano e o da época passada, bem traduzido nos 17 pontos a menos que leva em idêntica jornada do campeonato. Mas o FC Porto perdeu jogadores fundamentais, comprou disparata-damente jogadores que se revelaram verdadeiro fiasco, passou pelos processos que passou com os treinadores e tem tido jogadores fundamentais, como Maniche e McCarthy, constantemente afastados por lesões ou castigos. O Sporting, pelo contrário, manteve os jogadores principais, reforçou-se pouco mas bem, tem o mesmo treinador desde a pré-época e tem sido poupado em lesões e castigos. E tem 13 pontos a menos do que tinha em idêntica jornada do campeonato passado. Como explicá-los?
3 - 0 apito dourado começou a descer ao sul e às ilhas e a envolver alguns árbitros cujo currículo os torna insuspeitos de serem amigos do FC Porto. Pressinto que para alguns espíritos o apito se está a tornar menos dourado.
4 - E o Conselho de Disciplina da Liga, já se demitiu? Já foi demitido? Ou tudo se passa como se nada se tivesse passado?
TUDO DEPENDE DA PERSPECTIVA (22 FEVEREIRO 2005)
Dizem que houve um penalty «nítido» contra o FC Porto, não assinalado no Restelo. E como foi ele — foi rasteira, empurrão, puxanço? Com a mão, com o braço, com o pé, com o joelho? Quem viu, quem pode descrever ao certo o que se passou, para além da simples presunção?
1- Por vontade expressa da comunicação social (e, devo dizê-lo, particularmente deste jornal) está criado mais um caso de arbitragem palpitante: um, suposto ou real ,penalty não assinalado contra o FC Porto, nos instantes finais do Belenenses-FC Porto.
Se assinalado e convertido, o penalty teria tirado dois pontos ao FC Porto, permitindo, provavelmente (ainda não sei o resultado do Benfica-Guimarães), que o Benfica chegasse às Antas, se-gunda-feira próxima, na confortável posição psicológica de líder isolado. Mas não foi assinalado e daí o desespero.
Ora vejamos: o treinador do Belenenses, Carlos Carvalhal, diz que até do banco viu o penalty; Trapattoni, treinador do Benfica, diz que na televisão lhe pareceu penalty; José Manuel Freitas, aqui em A BOLA, achou o penalty tão flagrante que não hesitou em puxar para título da crónica do jogo a opinião de que o árbitro foi o protagonista do jogo. Foi? Eu acho que não. Tirando esse lance, em que ele, a cinco metros da jogada, não viu o que Carvalhal diz ter visto do banco, o árbitro não teve qualquer decisão com influência no jogo. O que faz com que, de facto, tenha havido outros intérpretes principais. Desde logo mais uma triste e apagada exibição do FC Porto, salva por um canto teleguiado do Quaresma e uma cabeçada fulminante do Costinha. Depois — facto que apareceu como despiciendo em todas as críticas — a ainda pior exibição do Belenenses, que até ao minuto 85
não criou a mais pequena veleidade de oportunidade de golo e que, no fim, queria empatar com um penalty caído do céu (e é clássica esta tentação de transferir para o árbitro a responsabilidade pela incompetência própria). E, finalmente, se querem um protagonista sério, porque não Vítor Baía, que, com duas defesas fantásticas, quando finalmente o Belenenses ousou rematar à baliza (de livre, claro), mostrou que, contra ventos e marés, como dizia o ex, continua a ser o melhor guar-da-redes português?
Mas não. Tratando-se do FC Porto, a única coisa que interessa reter do jogo é o pretenso penalty e, consequentemente, mais um árbitro potencial arguido do apito dourado. Mas, só para que percebam como as opiniões são influenciadas pela filiação clubística, eu direi, contraditoriamente, que não encontrarão um único portista que ache que aquilo foi penalty. Pessoalmente o que eu vi foi um dos inúmeros lances duvidosos dentro da área, entre um avançado e um defesa — ainda mais duvidoso porque, neste caso, era um lance de desespero, quase ao cair do pano e por parte de uma equipa que até aí demonstrara não ter solução alguma para poder chegar ao golo por métodos, digamos, normais. Ora, mandam a experiência e a prudência que árbitro algum marque um possível penalty daqueles, na fronteira de todas as dúvidas. Mas, entre os que comentaram que foi nítido, não encontrei descrição alguma dessa nitidez: foi rasteira, empurrão, puxanço? Com a mão, com o braço, com o pé, com o joelho? Quem viu, quem pode descrever ao certo o que se passou, para além da simples presunção? De uma coisa tenho a certeza: árbitro algum, nas competições internacionais, assinalaria este penalty (e daí, por exemplo, a revolta ingénua dos sportinguistas com a arbitragem do jogo contra o Feyenoord — estão habituados a critérios mais generosos cada vez que o Liedson cai na área...).
Uma semana antes, em Braga, também os bracarenses e o seu treinador reclamaram um penalty «nítido» não assinalado contra o Benfica, ao cair do pano. Mas aí, curiosamente, a coisa passou como um fait-divers ou nem isso. Parece que os penalties reclamados contra uns são sempre mais notícia que os penalties reclamados contra outros. Nada a que a gente não esteja habituada. Uns e outros.
2- Em todo o jogo de Leiria, que me lembre, o Sporting não criou uma só oportunidade de golo, em contraste com o União, que viu Ricardo negar-lhe o golo por três ou quatro vezes. Mesmo assim, no final do jogo o repórter televisivo de serviço não encontrou melhor pergunta para pôr a José Peseiro que saber se o empate do Sporting se tinha ficado a dever a «cansaço» ou «falta de sorte». (Repare-se no pormenor elucidativo de a pergunta já conter e antecipar a desculpa para o entrevistado: cansaço ou falta de sorte. E porque não falta de ambiçao ou faltaa de talento?) Assim ajudado pelo repórter, José Peseiro — que parece ter um efeito intimidatório sobre alguns perguntadores— obviamente agarrou na deixa que lhe dava mais jeito: «Foi falta de sorte», declarou ele. Porque, acrescentou, o Sporting, no resto, «teve uma atitude de campeão». Foi, foi mesmo? E somos todos ceguinhos, não?
3- Como era de prever, o Conselho de Justiça da FPF, chamado a decidir o primeiro dos sumaríssimos em que o Conselho de Disciplina da Liga inventou a nova tese jurídica de que, se alguém recorre de um castigo, ele é logo agravado preventivamente, arrasou esta douta doutrina ad hoc, escrevendo que ela equivalia, na prática, a negar o direito de defesa e de recurso. O beneficiado, para já, foi Nem, do Sporting de Braga, metido ao barulho para melhor embrulhar as punições agravadas de McCarthy e Pedro Emanuel. Mas, se decidiu assim para Nem, é fatal que assim terá de decidir para McCarthy. Nesse caso, e se tivessem um minimo de vergonha, o que os excelentíssimos conselheiros disciplinares da Liga deveriam fazer era demitir-se no acto.
Leonor Pinhão perguntava aqui, no outro dia e em tom inocente, se «nós» defendemos que as cotoveladas fiquem impunes. Não, não defendemos. Defendemos que sejam castigadas. Mas, para que não fiquem dúvidas, defendemos também:
- Que não sejam apenas as cotoveladas a ser castigadas mas também as cuspidelas ou as entradas a matar sobre os adversários;.
- Que sejam castigadas todas e não apenas as dos jogadores do FC Porto;
- E que não se inventem prazos,leis e doutrinas novas para aplicar aos jogadores do FCPorto à medida das conveniências dos adversários.
É tão simples como isto. Ou será que é confuso?
P. S. — Obrigações profissionais levam-me a estar ausente desta coluna na próxima terça-feira. Pior: levam-me para onde, provavelmente, nem terei acesso às transmissões televisivas do FC Porto-Inter e do FC Porto-Benfica. Aqui fica o aviso, não vão alguns espíritos pensar que, por as coisas poderem ter corrido mal para as minhas cores, eu desertei da opinião. Aliás, a previsão normal é que as coisas corram mal contra o Inter e bem contra o Benfica. O que fugir disto será anormal.
1- Por vontade expressa da comunicação social (e, devo dizê-lo, particularmente deste jornal) está criado mais um caso de arbitragem palpitante: um, suposto ou real ,penalty não assinalado contra o FC Porto, nos instantes finais do Belenenses-FC Porto.
Se assinalado e convertido, o penalty teria tirado dois pontos ao FC Porto, permitindo, provavelmente (ainda não sei o resultado do Benfica-Guimarães), que o Benfica chegasse às Antas, se-gunda-feira próxima, na confortável posição psicológica de líder isolado. Mas não foi assinalado e daí o desespero.
Ora vejamos: o treinador do Belenenses, Carlos Carvalhal, diz que até do banco viu o penalty; Trapattoni, treinador do Benfica, diz que na televisão lhe pareceu penalty; José Manuel Freitas, aqui em A BOLA, achou o penalty tão flagrante que não hesitou em puxar para título da crónica do jogo a opinião de que o árbitro foi o protagonista do jogo. Foi? Eu acho que não. Tirando esse lance, em que ele, a cinco metros da jogada, não viu o que Carvalhal diz ter visto do banco, o árbitro não teve qualquer decisão com influência no jogo. O que faz com que, de facto, tenha havido outros intérpretes principais. Desde logo mais uma triste e apagada exibição do FC Porto, salva por um canto teleguiado do Quaresma e uma cabeçada fulminante do Costinha. Depois — facto que apareceu como despiciendo em todas as críticas — a ainda pior exibição do Belenenses, que até ao minuto 85
não criou a mais pequena veleidade de oportunidade de golo e que, no fim, queria empatar com um penalty caído do céu (e é clássica esta tentação de transferir para o árbitro a responsabilidade pela incompetência própria). E, finalmente, se querem um protagonista sério, porque não Vítor Baía, que, com duas defesas fantásticas, quando finalmente o Belenenses ousou rematar à baliza (de livre, claro), mostrou que, contra ventos e marés, como dizia o ex, continua a ser o melhor guar-da-redes português?
Mas não. Tratando-se do FC Porto, a única coisa que interessa reter do jogo é o pretenso penalty e, consequentemente, mais um árbitro potencial arguido do apito dourado. Mas, só para que percebam como as opiniões são influenciadas pela filiação clubística, eu direi, contraditoriamente, que não encontrarão um único portista que ache que aquilo foi penalty. Pessoalmente o que eu vi foi um dos inúmeros lances duvidosos dentro da área, entre um avançado e um defesa — ainda mais duvidoso porque, neste caso, era um lance de desespero, quase ao cair do pano e por parte de uma equipa que até aí demonstrara não ter solução alguma para poder chegar ao golo por métodos, digamos, normais. Ora, mandam a experiência e a prudência que árbitro algum marque um possível penalty daqueles, na fronteira de todas as dúvidas. Mas, entre os que comentaram que foi nítido, não encontrei descrição alguma dessa nitidez: foi rasteira, empurrão, puxanço? Com a mão, com o braço, com o pé, com o joelho? Quem viu, quem pode descrever ao certo o que se passou, para além da simples presunção? De uma coisa tenho a certeza: árbitro algum, nas competições internacionais, assinalaria este penalty (e daí, por exemplo, a revolta ingénua dos sportinguistas com a arbitragem do jogo contra o Feyenoord — estão habituados a critérios mais generosos cada vez que o Liedson cai na área...).
Uma semana antes, em Braga, também os bracarenses e o seu treinador reclamaram um penalty «nítido» não assinalado contra o Benfica, ao cair do pano. Mas aí, curiosamente, a coisa passou como um fait-divers ou nem isso. Parece que os penalties reclamados contra uns são sempre mais notícia que os penalties reclamados contra outros. Nada a que a gente não esteja habituada. Uns e outros.
2- Em todo o jogo de Leiria, que me lembre, o Sporting não criou uma só oportunidade de golo, em contraste com o União, que viu Ricardo negar-lhe o golo por três ou quatro vezes. Mesmo assim, no final do jogo o repórter televisivo de serviço não encontrou melhor pergunta para pôr a José Peseiro que saber se o empate do Sporting se tinha ficado a dever a «cansaço» ou «falta de sorte». (Repare-se no pormenor elucidativo de a pergunta já conter e antecipar a desculpa para o entrevistado: cansaço ou falta de sorte. E porque não falta de ambiçao ou faltaa de talento?) Assim ajudado pelo repórter, José Peseiro — que parece ter um efeito intimidatório sobre alguns perguntadores— obviamente agarrou na deixa que lhe dava mais jeito: «Foi falta de sorte», declarou ele. Porque, acrescentou, o Sporting, no resto, «teve uma atitude de campeão». Foi, foi mesmo? E somos todos ceguinhos, não?
3- Como era de prever, o Conselho de Justiça da FPF, chamado a decidir o primeiro dos sumaríssimos em que o Conselho de Disciplina da Liga inventou a nova tese jurídica de que, se alguém recorre de um castigo, ele é logo agravado preventivamente, arrasou esta douta doutrina ad hoc, escrevendo que ela equivalia, na prática, a negar o direito de defesa e de recurso. O beneficiado, para já, foi Nem, do Sporting de Braga, metido ao barulho para melhor embrulhar as punições agravadas de McCarthy e Pedro Emanuel. Mas, se decidiu assim para Nem, é fatal que assim terá de decidir para McCarthy. Nesse caso, e se tivessem um minimo de vergonha, o que os excelentíssimos conselheiros disciplinares da Liga deveriam fazer era demitir-se no acto.
Leonor Pinhão perguntava aqui, no outro dia e em tom inocente, se «nós» defendemos que as cotoveladas fiquem impunes. Não, não defendemos. Defendemos que sejam castigadas. Mas, para que não fiquem dúvidas, defendemos também:
- Que não sejam apenas as cotoveladas a ser castigadas mas também as cuspidelas ou as entradas a matar sobre os adversários;.
- Que sejam castigadas todas e não apenas as dos jogadores do FC Porto;
- E que não se inventem prazos,leis e doutrinas novas para aplicar aos jogadores do FCPorto à medida das conveniências dos adversários.
É tão simples como isto. Ou será que é confuso?
P. S. — Obrigações profissionais levam-me a estar ausente desta coluna na próxima terça-feira. Pior: levam-me para onde, provavelmente, nem terei acesso às transmissões televisivas do FC Porto-Inter e do FC Porto-Benfica. Aqui fica o aviso, não vão alguns espíritos pensar que, por as coisas poderem ter corrido mal para as minhas cores, eu desertei da opinião. Aliás, a previsão normal é que as coisas corram mal contra o Inter e bem contra o Benfica. O que fugir disto será anormal.
quinta-feira, fevereiro 17, 2005
O horizonte é vermelho (15 Fevereiro 2005
Só há dois jogadores que o Benfica tem razão de temer para o jogo do Dragão: o McCarthy, que marcou aquele golão na Luz, e o Ricardo Quaresma, que lhes roubou a Supertaça, com outro golaço. Do primeiro já se ocupou o CD da Liga. Do segundo, havendo o mínimo pretexto, alguém se vai ocupar daqui até lá.
1- Miguel Ribeiro Teles compreendeu o que Dias da Cunha não compreendeu: que, na sua ânsia de combater moinhos de vento, o presidente do Sporting acabou a selar um pacto contra o próprio inimigo por ele identificado— o tal de «sistema».
Em todas as 22 jornadas que a SuperLiga deste ano leva disputadas, o Benfica tem apenas uma eventual razão de queixa de um árbitro, e nem sequer se pode falar propriamente de um erro, mas de uma má visualização por parte do fiscal de linha: a célebre jogada contra o FC Porto, no jogo da Luz, em que a bola terá entrado por completo na baliza de Baía. E nada mais: todos os outros lances duvidosos ocorridos em jogos do Benfica, ao longo das restantes 21 jornadas, foram decididos a seu favor.
Quando Dias da Cunha se junta a Filipe Vieira para, entre outras coisas, reclamar da arbitragem, esquece que está a juntar-se ao maior beneficiário das arbitragens, esta época. E esquece-se que Benfica e Boavista — que, sem futebol para tal, são dois dos comandantes da SuperLiga — dominam de facto o «sistema», através do seu controlo a meias da Liga de Clubes e, correspondentemente, da arbitragem. E não apenas da arbitragem: também da disciplina. A ideia da introdução do castigo a jogadores a posteriori, através do vídeo e pela mão do Conselho de Disciplina da Liga, denuncia-se a si própria nos seus propósitos, através de uma simples leitura das estatísticas: dos 25 jogos de suspensão até agora aplicados pelo CD, doze foram-no a jogadores do FC Porto (incluo já a incrível e revoltante promessa de suspensão de Seitaridis por dois jogos, por pretensa agressão); dois contemplaram jogadores do Boavista e nenhum jogadores do Benfica (e, todavia, todos vimos, por exemplo, no jogo entre os dois clubes mandantes da Liga, o Petit a agredir com uma cotovelada o Tiago...). De todos os castigos aplicados, apenas os jogadores do FC Porto foram contemplados com mais de um jogo de suspensão — esticado, no caso mais recente do Mc Carthy, até três jogos, o suficiente para conseguir incluir o jogo contra o Benfica. A pergunta é simples: se quem domina a organização dos jogos, a arbitragem e a disciplina, não constitui o «sistema», o que é, afinal, o tal sistema de que tanto fala o presidente do Sporting?
Miguel Ribeiro Teles percebe infinitamente mais de futebol do que Dias da Cunha. Ele sabe que, para além do absurdo de o sistema ser dominado por quem está de fora e não por quem está dentro, não há sistema que possa transformar em campeão—e de Portugal, da Europa e do Mundo —uma equipa banal ou medíocre. E sabe que o FC Porto dos últimos anos nunca foi banal nem medíocre. Agora, o que a ele lhe deve parecer estranho é que o único dirigente de clube que anda a anunciar aos quatro ventos e desde o início da época que vai ser campeão e que até já tem a festa pensada, depois do último jogo (contra o Boavista, no Bessa...), é precisamente o presidente do Benfica — cuja equipa oscila entre o banal e o medíocre.
O que Miguel Ribeiro Teles percebeu e Dias da Cunha não, é que o pacto com o Benfica visou um adversário que neste momento, e devido à sua auto-implosão, tinha deixado de ser o inimigo a abater. E que, inversamente, levou o Sporting a entregar-se na boca do lobo. E, enquanto Dias da Cunha ficou muito contente porque julga ter neutralizado Pinto da Costa, Filipe Vieira ficou ainda mais contente porque neutralizou ambos e, ainda para mais, viu-se elevado à condição de parceiro moralizador na luta contra o «sistema»—ele, que declarou ser mais importante ganhar a Liga do que ter uma boa equipa de futebol.
2- Há vários anos que venho aqui insurgindo-me contra o CD da Liga e a sua reiterada actuação indisfarçadamente clubista. Este é um órgão, supostamente de justiça, cujas decisões são sistematicamente desautorizadas por outro órgão superior, o Conselho de Justiça, sem que esse facto leve os seus membros, como seria normal, a reverem o seu critério e a terem algum pudor e algum resquício de isenção. Este é o órgão que, no ano passado, numa decisão contra o Deco, chegou ao ponto de escrever que ele era «iníquo e indigno» — e hoje o Deco é universalmente tido como um dos melhores jogadores do Mundo, continuando, mesmo sendo apenas português naturalizado e a viver no estrangeiro, a dar o seu contributo voluntário à Selecção de Portugal. Ao contrário, quem se atreveria a apresentar o CD da Liga como órgão representativo do que de melhor há na justiça portuguesa? Só por anedota. Há muitos anos que o Conselho Superior da Magistratura vem pedindo aos juízes de carreira que se afastem do futebol, onde a sua actuação só tem servido para desprestigiar a magistratura. Eles fazem orelhas moucas mas, apesar de tudo, seria de esperar que não esticassem a corda até ao ponto de se mostrarem autores de uma paródia de justiça que, antes de mais, os enxovalha a si próprios. Esta sentença sobre o McCarthy ultrapassou todos os limites aceitáveis. Primeiro, a esperteza saloia, feita à vista de todos, de protelar a decisão durante quatorze dias, o suficiente para ela poder abranger o Porto-Benfica. Depois, a violação de um princípio universal da justiça penal — seja criminal, fiscal ou desportiva — que qualquer aluno de um 1.º ano de uma Faculdade de Direito conheçe e que estabelece que nenhuma pena poderá ser agravada se apenas o condenado recorreu dela. Conscientes de que o histórico da sua actuação mostra exuberantemente uma justiça selectiva dirigida contra o FC Porto, e desejosos de evitarem que o clube continue a apelar para o Conselho de Justiça que, uma a uma, vai desautorizando e desmascarando o sentido das sentenças do CD, os tristes membros deste órgão resolveram agora inventar um sistema que iniba o clube, no futuro, de recorrer das suas decisões. «Se recorres, agravamos-te préviamente a pena» — eis a mensagem passada por eles. Acontecesse isto com o Benfica, o Sporting ou o Boavista, e o que não iria por aí de escândalo e gritaria!
3- Nesta triste versão do FC Porto pós-Mourinho, só há dois jogadores que o Benfica tem razão de temer para o jogo do Dragão: o Mc Carthy, que marcou aquele golão na Luz, e o Ricardo Quaresma, que lhes roubou a Supertaça, com outro golaço. Do primeiro já se ocupou o CD da Liga. Do segundo, havendo o mínimo pretexto, alguém se vai ocupar daqui até lá: ou o árbitro do Restelo, no próximo sábado, ou o CD, posteriormente.
4- E esta triste versão do FC Porto pós-Mourinho também não merece o 1.º lugar que ocupa, de parceria com mais três (como vêem, a clubite não me cega...). Este domingo, bastaram-me os dois primeiros minutos de jogo contra o Guimarães (gastos com a bola a circular entre os centrais, os laterais e os trincos, jogando para trás, sem pressas, sem ideias e a medo), para confirmar que estamos perante o pior FC Porto desde há muito tempo. E, para além dos erros de «casting » com os treinadores, a grande razão do insucesso é que a equipe, pura e simplesmente, não presta. Dos quatorze jogadores(!) comprados esta época, apenas um —o Ricardo Quaresma—tem valor para a equipa. Todos os outros não caberiam em nenhuma equipe até ao 8.º lugar da SuperLiga. O Fabiano, o Diego, o Postiga, o Leo Lima, o Leandro, o Cláudio P., o Raul Meireles, etc. etc., são tudo jogadores para esquecer, sendo que não podem ser despedidos e o seu destino natural é transformarem-se num encargo sem retorno para o clube nos próximos três ou quatro anos. Os ditos «empresários», que sempre voltearam à roda do F C Porto, sobretudo quando lhes cheira a dinheiro fresco, devem ter-se fartado de facturar este ano. Mas o clube está tramado: gastou uma fortuna a renovar a equipa e falhou em toda a linha. E, de cada vez que tentou emendar a mão, foi pior a asneira. Dá que pensar que o F C Porto não se tenha lembrado de ir buscar o Nuno Assis ou o Jorginho, que estavam ali à espera de quem lhes deitasse a mão, e que se tenha lembrado de deitar fora o Carlos Alberto e o Rossato e de emprestar o Hugo Almeida ao Boavista, para se atestar de brasileiros sem categoria nem espírito de combatividade. Se os nossos adversários tivessem congeminado a maneira de liquidar a grande equipa que o F C Porto tinha, não teriam conseguido melhor.
1- Miguel Ribeiro Teles compreendeu o que Dias da Cunha não compreendeu: que, na sua ânsia de combater moinhos de vento, o presidente do Sporting acabou a selar um pacto contra o próprio inimigo por ele identificado— o tal de «sistema».
Em todas as 22 jornadas que a SuperLiga deste ano leva disputadas, o Benfica tem apenas uma eventual razão de queixa de um árbitro, e nem sequer se pode falar propriamente de um erro, mas de uma má visualização por parte do fiscal de linha: a célebre jogada contra o FC Porto, no jogo da Luz, em que a bola terá entrado por completo na baliza de Baía. E nada mais: todos os outros lances duvidosos ocorridos em jogos do Benfica, ao longo das restantes 21 jornadas, foram decididos a seu favor.
Quando Dias da Cunha se junta a Filipe Vieira para, entre outras coisas, reclamar da arbitragem, esquece que está a juntar-se ao maior beneficiário das arbitragens, esta época. E esquece-se que Benfica e Boavista — que, sem futebol para tal, são dois dos comandantes da SuperLiga — dominam de facto o «sistema», através do seu controlo a meias da Liga de Clubes e, correspondentemente, da arbitragem. E não apenas da arbitragem: também da disciplina. A ideia da introdução do castigo a jogadores a posteriori, através do vídeo e pela mão do Conselho de Disciplina da Liga, denuncia-se a si própria nos seus propósitos, através de uma simples leitura das estatísticas: dos 25 jogos de suspensão até agora aplicados pelo CD, doze foram-no a jogadores do FC Porto (incluo já a incrível e revoltante promessa de suspensão de Seitaridis por dois jogos, por pretensa agressão); dois contemplaram jogadores do Boavista e nenhum jogadores do Benfica (e, todavia, todos vimos, por exemplo, no jogo entre os dois clubes mandantes da Liga, o Petit a agredir com uma cotovelada o Tiago...). De todos os castigos aplicados, apenas os jogadores do FC Porto foram contemplados com mais de um jogo de suspensão — esticado, no caso mais recente do Mc Carthy, até três jogos, o suficiente para conseguir incluir o jogo contra o Benfica. A pergunta é simples: se quem domina a organização dos jogos, a arbitragem e a disciplina, não constitui o «sistema», o que é, afinal, o tal sistema de que tanto fala o presidente do Sporting?
Miguel Ribeiro Teles percebe infinitamente mais de futebol do que Dias da Cunha. Ele sabe que, para além do absurdo de o sistema ser dominado por quem está de fora e não por quem está dentro, não há sistema que possa transformar em campeão—e de Portugal, da Europa e do Mundo —uma equipa banal ou medíocre. E sabe que o FC Porto dos últimos anos nunca foi banal nem medíocre. Agora, o que a ele lhe deve parecer estranho é que o único dirigente de clube que anda a anunciar aos quatro ventos e desde o início da época que vai ser campeão e que até já tem a festa pensada, depois do último jogo (contra o Boavista, no Bessa...), é precisamente o presidente do Benfica — cuja equipa oscila entre o banal e o medíocre.
O que Miguel Ribeiro Teles percebeu e Dias da Cunha não, é que o pacto com o Benfica visou um adversário que neste momento, e devido à sua auto-implosão, tinha deixado de ser o inimigo a abater. E que, inversamente, levou o Sporting a entregar-se na boca do lobo. E, enquanto Dias da Cunha ficou muito contente porque julga ter neutralizado Pinto da Costa, Filipe Vieira ficou ainda mais contente porque neutralizou ambos e, ainda para mais, viu-se elevado à condição de parceiro moralizador na luta contra o «sistema»—ele, que declarou ser mais importante ganhar a Liga do que ter uma boa equipa de futebol.
2- Há vários anos que venho aqui insurgindo-me contra o CD da Liga e a sua reiterada actuação indisfarçadamente clubista. Este é um órgão, supostamente de justiça, cujas decisões são sistematicamente desautorizadas por outro órgão superior, o Conselho de Justiça, sem que esse facto leve os seus membros, como seria normal, a reverem o seu critério e a terem algum pudor e algum resquício de isenção. Este é o órgão que, no ano passado, numa decisão contra o Deco, chegou ao ponto de escrever que ele era «iníquo e indigno» — e hoje o Deco é universalmente tido como um dos melhores jogadores do Mundo, continuando, mesmo sendo apenas português naturalizado e a viver no estrangeiro, a dar o seu contributo voluntário à Selecção de Portugal. Ao contrário, quem se atreveria a apresentar o CD da Liga como órgão representativo do que de melhor há na justiça portuguesa? Só por anedota. Há muitos anos que o Conselho Superior da Magistratura vem pedindo aos juízes de carreira que se afastem do futebol, onde a sua actuação só tem servido para desprestigiar a magistratura. Eles fazem orelhas moucas mas, apesar de tudo, seria de esperar que não esticassem a corda até ao ponto de se mostrarem autores de uma paródia de justiça que, antes de mais, os enxovalha a si próprios. Esta sentença sobre o McCarthy ultrapassou todos os limites aceitáveis. Primeiro, a esperteza saloia, feita à vista de todos, de protelar a decisão durante quatorze dias, o suficiente para ela poder abranger o Porto-Benfica. Depois, a violação de um princípio universal da justiça penal — seja criminal, fiscal ou desportiva — que qualquer aluno de um 1.º ano de uma Faculdade de Direito conheçe e que estabelece que nenhuma pena poderá ser agravada se apenas o condenado recorreu dela. Conscientes de que o histórico da sua actuação mostra exuberantemente uma justiça selectiva dirigida contra o FC Porto, e desejosos de evitarem que o clube continue a apelar para o Conselho de Justiça que, uma a uma, vai desautorizando e desmascarando o sentido das sentenças do CD, os tristes membros deste órgão resolveram agora inventar um sistema que iniba o clube, no futuro, de recorrer das suas decisões. «Se recorres, agravamos-te préviamente a pena» — eis a mensagem passada por eles. Acontecesse isto com o Benfica, o Sporting ou o Boavista, e o que não iria por aí de escândalo e gritaria!
3- Nesta triste versão do FC Porto pós-Mourinho, só há dois jogadores que o Benfica tem razão de temer para o jogo do Dragão: o Mc Carthy, que marcou aquele golão na Luz, e o Ricardo Quaresma, que lhes roubou a Supertaça, com outro golaço. Do primeiro já se ocupou o CD da Liga. Do segundo, havendo o mínimo pretexto, alguém se vai ocupar daqui até lá: ou o árbitro do Restelo, no próximo sábado, ou o CD, posteriormente.
4- E esta triste versão do FC Porto pós-Mourinho também não merece o 1.º lugar que ocupa, de parceria com mais três (como vêem, a clubite não me cega...). Este domingo, bastaram-me os dois primeiros minutos de jogo contra o Guimarães (gastos com a bola a circular entre os centrais, os laterais e os trincos, jogando para trás, sem pressas, sem ideias e a medo), para confirmar que estamos perante o pior FC Porto desde há muito tempo. E, para além dos erros de «casting » com os treinadores, a grande razão do insucesso é que a equipe, pura e simplesmente, não presta. Dos quatorze jogadores(!) comprados esta época, apenas um —o Ricardo Quaresma—tem valor para a equipa. Todos os outros não caberiam em nenhuma equipe até ao 8.º lugar da SuperLiga. O Fabiano, o Diego, o Postiga, o Leo Lima, o Leandro, o Cláudio P., o Raul Meireles, etc. etc., são tudo jogadores para esquecer, sendo que não podem ser despedidos e o seu destino natural é transformarem-se num encargo sem retorno para o clube nos próximos três ou quatro anos. Os ditos «empresários», que sempre voltearam à roda do F C Porto, sobretudo quando lhes cheira a dinheiro fresco, devem ter-se fartado de facturar este ano. Mas o clube está tramado: gastou uma fortuna a renovar a equipa e falhou em toda a linha. E, de cada vez que tentou emendar a mão, foi pior a asneira. Dá que pensar que o F C Porto não se tenha lembrado de ir buscar o Nuno Assis ou o Jorginho, que estavam ali à espera de quem lhes deitasse a mão, e que se tenha lembrado de deitar fora o Carlos Alberto e o Rossato e de emprestar o Hugo Almeida ao Boavista, para se atestar de brasileiros sem categoria nem espírito de combatividade. Se os nossos adversários tivessem congeminado a maneira de liquidar a grande equipa que o F C Porto tinha, não teriam conseguido melhor.
Entre perdidos e achados ( 8 Fevereiro 2005)
O que acontece quando se fica com a ideia de que um jogador, por exemplo, dá uma cotovelada noutro mas não se pode ter a certeza porque o realizador não repetiu a jogada? Já se imaginou o extraordinário poder que passa a recair sobre os realizadores de TV— o de castigarem um jogador ou deixá-lo impune?
1-Como disse José Mourinho, parece que a liderança desta SuperLiga queima.Com tanta incapacidade de fixação no topo, é de prever que quem consiga lá se aguentar durante três jornadas a fio fique embalado de vez para o título. Mas quem será? Este fim-de-semana começámos por assistir à queda do Sp. Braga, incapaz de segurar a liderança mais de uma simples semana mas já capaz de revelar tiques de grande, ao atribuir ao árbitro as culpas da sua derrota em Guimarães. Tenho as maiores dúvidas de que tenha mesmo existido penalty aos 94 minutos—pareceu-me, sim, que o jogador do Braga se desviou subtilmente para ir chocar com o seu adversário. Mas, com ou sem penalty, a verdade é que o Braga nunca demonstrou uma atitude de querer assumir os riscos que a continuação da liderança exigia. Quem quer ser campeão não pode jogar a contar com a sorte.
No dia seguinte foi a vez de o Sporting desabar, com estrondo, no Funchal. Sem desculpas nem atenuantes e revelando tamanha incapacidade que me começo a interrogar sobre o meu próprio diagnóstico de que o Sporting é (era?) o principal candidato à vitória final. Começa a instalar-se a ideia de que,tirando a táctica do «Liedson resolve» ou «Rochemback resolve », não há muito mais ideias, confiança ou estratégias de jogo por ali.
Não sabendo ainda o que terá feito ontem à noite o Boavista em Setúbal (estava capaz de apostar numa vitória...), temos que a sempre provisória liderança do campeonato está, para já e pelo menos, confiada a Benfica e FC Porto. Quem diria — a pior das cinco equipas da frente e a mais esfrangalhada delas todas!
2- Jogando num campo de que todos os portistas têm terror e enfrentando um árbitro que quase tornava impossível a vitória, José Couceiro conseguiu estrear-se com um imenso, um inimaginável, suspiro de alívio. Para quem conhece bem a química psicológica daquela equipa —mesmo descaracterizada, como está — um novo tropeção, nesta altura,teria provavelmente significado o fim de todas as ilusões. Couceiro conseguiu sobreviver a esta roleta russa, mesmo lançando mão (talvez
as circunstâncias ou diplomacia interna a isso o tenham obrigado...) a munições completamente ineficientes, como Costinha, Diego ou Hélder Postiga— este com a agravante de remeter McCarthy para outras zonas do campo, privando a equipa do único homem capaz de fazer golos lá na frente. Couceiro ficou a saber, caso ainda tivesse dúvidas, que esta equipa, todas as semanas acrescentada, só tem um extremo de raiz e só tem um ponta- de-lança digno desse nome. Muito samba e pouco
rock'n'roll.
3- Já há semanas aqui levantei a dúvida metafísica de saber como se resolve a desigualdade penal de castigar através do vídeo jogadores que não foram devidamente castigados em campo, quando uns têm todos os seus jogos televisionados e outros apenas alguns. Como é óbvio, não há solução para tal e daí as dúvidas que tal princípio levanta, aqui e lá fora. Mas, durante o jogo Guimarães- Braga, ao observar um lance concreto do jogo que o realizador televisivo não repetiu, ocorreu-me
também a dúvida sobre o que sucede em tais casos. O que acontece quando se fica com a ideia de que um jogador, por exemplo, dá uma cotovelada noutro mas não se pode ter a certeza porque o realizador não repetiu a jogada? Já se imaginou o extraordinário poder que passa a recair sobre os realizadores de TV —o de castigarem um jogador ou deixá-lo impune? E a nova fonte de suspeitas que daí pode surgir?
4- Uma das principais críticas que faço à arbitragem portuguesa é a da ausência de um critério disciplinar uniforme e lógico. Há, por exemplo, aqueles árbitros que acham que as entradas violentas e os respectivos cartões amarelos só são para levar em conta após meia hora de jogo e há equipas que se habituaram a fazer grande uso desse absurdo critério. Agora, nesta onda justiçeira — embora mais para uns que para outros—a que se assiste, é comum ver árbitros sacarem do amarelo por dá-cá-aquela- palha, muitas vezes parecendo que a exibição do cartão serve para acalmar os sobressaltos da própria consciência.
Dois exemplos da jornada: Pedro Proença mostrando o amarelo a César Peixoto, por um simples gesto de inconformismo, nem sequer de protesto,após uma decisão errada do árbitro; e João Ferreira mostrando o amarelo a Quaresma, culpado de nada: de ter sido rasteirado dentro da área pelo guarda- redes do Estoril, sem que o árbitro tivesse marcado o penalty e expulsado o infractor, como reza a lei. O resultado útil disto é que acabam por ser os jogadores a pagar os erros dos árbitros.
E o vídeo não serve para os despenalizar...
5- O Dínamo de Moscovo é o maior mistério do momento... ou talvez não.
Que um clube lá dos antípodas europeus desate, sem mais nem menos, a comprar jogadores portugueses já é coisa estranha.Um ou dois, ainda vá,agora seis ou sete, assim de repente, é esquisito. Que pague, sem discutir, oito milhões de euros pelo Derlei, em fim de carreira e em vazio de forma, é ainda mais estranho. Mas o negócio do Nuno Assis,esse, ultrapassa qualquer capacidade de compreensão: por que raio quererá um clube, russo ou marciano, comprar um jogador estrangeiro
para o emprestar durante quatro anos e meio (toda a duração do contrato) a outro clube do país de origem do jogador? O Dínamo de Moscovo terá algum interesse— comercial, desportivo ou filosófico — em ajudar o Benfica a conseguir ser campeão de Portugal? Constato,todavia, que esta minha ingénua perplexidade não encontra companhia alguma na nossa imprensa desportiva: aparentemente toda a gente acha isto muito normal. Ainda a ninguém ocorreu interrogar-se por que razão o patrão do Dínamo de Moscovo anda tão empenhado ematirar dinheiro à rua. E logo aqui, em Portugal. É mistério que a nossa curiosidade jornalística não acha digno de investigação, nem sequer de interrogação. Pelo contrário, até já vi escrito que é por mistérios destes que pode passar a salvação financeira dos clubes portugueses. Ó
bendita nação, em que o pobre já nem desconfia quando a esmola é grande!
6- As Câmaras Municipais de Loulé e Faro lançaram um apelo ao Governo para que as ajude a pagar os custos de manutenção do Estádio do Algarve — sem utilização alguma depois de um jogo da Selecção e dois do Euro, o que faz dele, até à data, o mais ruinoso estádio do Mundo: quatro milhões de contos por cada jogo lá disputado. O Tribunal de Contas arrasou o acordo de gestão feito entre a câmara de Leiria e o União, concluindo, como já se sabia, que ele consiste em a câmara pagar todas as despesas e o clube ainda receber um subsídio por lá jogar. O mesmo sucede em Aveiro, em Coimbra e em Braga —um estádio que custou duas vezes e meia ou três o orçamentado. Em Guimarães a câmara pagou a renovação e o clube ficou com a ajuda europeia para as obras.
Ou seja, em todos os estádios do Euro que (oficialmente...) foram construídos ou remodelados apenas com dinheiros públicos não há um só cuja manutenção seja assegurada pelos clubes que os utilizam. No Algarve não há sequer um clube utilizador e em Aveiro e Coimbra, para o ano, haverá, muito provavelmente, clubes de II Divisão a utilizá-los. É por estas e por outras que, quando oiço alguém reclamar o Mundial de futebol ou os Jogos Olímpicos para Portugal, já sei que estou perante alguém que foge ao fisco ou vive de cargos ou dinheiros públicos.
7-Não sabia que o Adriano Cerqueira dirigia o Jornal do Benfica. Nem sabia que estava gravemente doente. Imaginava- o retirado no seu monte alentejano, com a mesma discrição com que se retirou do activo e a mando o seu Benfica com esse sereno amor de sempre. Foi dos meus primeiros chefes na RTP. Tivemos algumas desavenças mas nunca por causa de futebol ou por mesquinhas questões. O Adriano era um senhor.
1-Como disse José Mourinho, parece que a liderança desta SuperLiga queima.Com tanta incapacidade de fixação no topo, é de prever que quem consiga lá se aguentar durante três jornadas a fio fique embalado de vez para o título. Mas quem será? Este fim-de-semana começámos por assistir à queda do Sp. Braga, incapaz de segurar a liderança mais de uma simples semana mas já capaz de revelar tiques de grande, ao atribuir ao árbitro as culpas da sua derrota em Guimarães. Tenho as maiores dúvidas de que tenha mesmo existido penalty aos 94 minutos—pareceu-me, sim, que o jogador do Braga se desviou subtilmente para ir chocar com o seu adversário. Mas, com ou sem penalty, a verdade é que o Braga nunca demonstrou uma atitude de querer assumir os riscos que a continuação da liderança exigia. Quem quer ser campeão não pode jogar a contar com a sorte.
No dia seguinte foi a vez de o Sporting desabar, com estrondo, no Funchal. Sem desculpas nem atenuantes e revelando tamanha incapacidade que me começo a interrogar sobre o meu próprio diagnóstico de que o Sporting é (era?) o principal candidato à vitória final. Começa a instalar-se a ideia de que,tirando a táctica do «Liedson resolve» ou «Rochemback resolve », não há muito mais ideias, confiança ou estratégias de jogo por ali.
Não sabendo ainda o que terá feito ontem à noite o Boavista em Setúbal (estava capaz de apostar numa vitória...), temos que a sempre provisória liderança do campeonato está, para já e pelo menos, confiada a Benfica e FC Porto. Quem diria — a pior das cinco equipas da frente e a mais esfrangalhada delas todas!
2- Jogando num campo de que todos os portistas têm terror e enfrentando um árbitro que quase tornava impossível a vitória, José Couceiro conseguiu estrear-se com um imenso, um inimaginável, suspiro de alívio. Para quem conhece bem a química psicológica daquela equipa —mesmo descaracterizada, como está — um novo tropeção, nesta altura,teria provavelmente significado o fim de todas as ilusões. Couceiro conseguiu sobreviver a esta roleta russa, mesmo lançando mão (talvez
as circunstâncias ou diplomacia interna a isso o tenham obrigado...) a munições completamente ineficientes, como Costinha, Diego ou Hélder Postiga— este com a agravante de remeter McCarthy para outras zonas do campo, privando a equipa do único homem capaz de fazer golos lá na frente. Couceiro ficou a saber, caso ainda tivesse dúvidas, que esta equipa, todas as semanas acrescentada, só tem um extremo de raiz e só tem um ponta- de-lança digno desse nome. Muito samba e pouco
rock'n'roll.
3- Já há semanas aqui levantei a dúvida metafísica de saber como se resolve a desigualdade penal de castigar através do vídeo jogadores que não foram devidamente castigados em campo, quando uns têm todos os seus jogos televisionados e outros apenas alguns. Como é óbvio, não há solução para tal e daí as dúvidas que tal princípio levanta, aqui e lá fora. Mas, durante o jogo Guimarães- Braga, ao observar um lance concreto do jogo que o realizador televisivo não repetiu, ocorreu-me
também a dúvida sobre o que sucede em tais casos. O que acontece quando se fica com a ideia de que um jogador, por exemplo, dá uma cotovelada noutro mas não se pode ter a certeza porque o realizador não repetiu a jogada? Já se imaginou o extraordinário poder que passa a recair sobre os realizadores de TV —o de castigarem um jogador ou deixá-lo impune? E a nova fonte de suspeitas que daí pode surgir?
4- Uma das principais críticas que faço à arbitragem portuguesa é a da ausência de um critério disciplinar uniforme e lógico. Há, por exemplo, aqueles árbitros que acham que as entradas violentas e os respectivos cartões amarelos só são para levar em conta após meia hora de jogo e há equipas que se habituaram a fazer grande uso desse absurdo critério. Agora, nesta onda justiçeira — embora mais para uns que para outros—a que se assiste, é comum ver árbitros sacarem do amarelo por dá-cá-aquela- palha, muitas vezes parecendo que a exibição do cartão serve para acalmar os sobressaltos da própria consciência.
Dois exemplos da jornada: Pedro Proença mostrando o amarelo a César Peixoto, por um simples gesto de inconformismo, nem sequer de protesto,após uma decisão errada do árbitro; e João Ferreira mostrando o amarelo a Quaresma, culpado de nada: de ter sido rasteirado dentro da área pelo guarda- redes do Estoril, sem que o árbitro tivesse marcado o penalty e expulsado o infractor, como reza a lei. O resultado útil disto é que acabam por ser os jogadores a pagar os erros dos árbitros.
E o vídeo não serve para os despenalizar...
5- O Dínamo de Moscovo é o maior mistério do momento... ou talvez não.
Que um clube lá dos antípodas europeus desate, sem mais nem menos, a comprar jogadores portugueses já é coisa estranha.Um ou dois, ainda vá,agora seis ou sete, assim de repente, é esquisito. Que pague, sem discutir, oito milhões de euros pelo Derlei, em fim de carreira e em vazio de forma, é ainda mais estranho. Mas o negócio do Nuno Assis,esse, ultrapassa qualquer capacidade de compreensão: por que raio quererá um clube, russo ou marciano, comprar um jogador estrangeiro
para o emprestar durante quatro anos e meio (toda a duração do contrato) a outro clube do país de origem do jogador? O Dínamo de Moscovo terá algum interesse— comercial, desportivo ou filosófico — em ajudar o Benfica a conseguir ser campeão de Portugal? Constato,todavia, que esta minha ingénua perplexidade não encontra companhia alguma na nossa imprensa desportiva: aparentemente toda a gente acha isto muito normal. Ainda a ninguém ocorreu interrogar-se por que razão o patrão do Dínamo de Moscovo anda tão empenhado ematirar dinheiro à rua. E logo aqui, em Portugal. É mistério que a nossa curiosidade jornalística não acha digno de investigação, nem sequer de interrogação. Pelo contrário, até já vi escrito que é por mistérios destes que pode passar a salvação financeira dos clubes portugueses. Ó
bendita nação, em que o pobre já nem desconfia quando a esmola é grande!
6- As Câmaras Municipais de Loulé e Faro lançaram um apelo ao Governo para que as ajude a pagar os custos de manutenção do Estádio do Algarve — sem utilização alguma depois de um jogo da Selecção e dois do Euro, o que faz dele, até à data, o mais ruinoso estádio do Mundo: quatro milhões de contos por cada jogo lá disputado. O Tribunal de Contas arrasou o acordo de gestão feito entre a câmara de Leiria e o União, concluindo, como já se sabia, que ele consiste em a câmara pagar todas as despesas e o clube ainda receber um subsídio por lá jogar. O mesmo sucede em Aveiro, em Coimbra e em Braga —um estádio que custou duas vezes e meia ou três o orçamentado. Em Guimarães a câmara pagou a renovação e o clube ficou com a ajuda europeia para as obras.
Ou seja, em todos os estádios do Euro que (oficialmente...) foram construídos ou remodelados apenas com dinheiros públicos não há um só cuja manutenção seja assegurada pelos clubes que os utilizam. No Algarve não há sequer um clube utilizador e em Aveiro e Coimbra, para o ano, haverá, muito provavelmente, clubes de II Divisão a utilizá-los. É por estas e por outras que, quando oiço alguém reclamar o Mundial de futebol ou os Jogos Olímpicos para Portugal, já sei que estou perante alguém que foge ao fisco ou vive de cargos ou dinheiros públicos.
7-Não sabia que o Adriano Cerqueira dirigia o Jornal do Benfica. Nem sabia que estava gravemente doente. Imaginava- o retirado no seu monte alentejano, com a mesma discrição com que se retirou do activo e a mando o seu Benfica com esse sereno amor de sempre. Foi dos meus primeiros chefes na RTP. Tivemos algumas desavenças mas nunca por causa de futebol ou por mesquinhas questões. O Adriano era um senhor.