quarta-feira, janeiro 19, 2005

Os brasileiros ( 4 Janeiro 2005)

Não deixa de ser curioso que os três melhores jogadores estrangeiros que jamais passaram pelos três grandes fossem todos africanos e que nunca tenham tido seguidores da sua nacionalidade e ao seu nível nesses clubes: o Benfica nunca mais encontrou um moçambicano como Eusébio, o Sporting nunca mais encontrou um maliano como esse fabuloso Salif Keita e o FC Porto nunca mais encontrou no Magrebe uma sombra que fosse do fantástico Rabat Madjer.

ATRIBUI-SE a José Maria Pedroto a célebre frase de que se um brasileiro numa equipa de futebol é bom e dois é aceitável, três já é uma escola de samba.

O que a frase pretende simbolizar é que os futebolistas brasileiros têm tanto de bons, tecnicamente, como de maus, disciplinarmente. Juntem-se três ou mais brasileiros numa equipa europeia e imediatamente abranda o ritmo de jogo em campo, facilita-se o ambiente disciplinar no balneário e forma-se um «grupo parlamentar» à parte, que vai pôr em causa o bom funcionamento da maioria de governo e encher de cabelos brancos treinadores e dirigentes. É claro que há excepções e algumas bem
notáveis. Há casos de jogadores brasileiros, ao longo de gerações, que se adaptaram a Portugal de tal maneira que ficaram como referência eterna dos clubes por onde passaram, quer em termos de classe futebolística quer em termos de profissionalismo e dedicação ao clube.

Nas gerações mais recentes o caso mais impressionante é o de Aloísio,que, depois de ter comandado com uma classe incomparável a defesa do FCPorto durante mais de 10 anos, jogando até aos 37, por cá ficou, ligado ao clube, já lá vão mais de três anos. Mas as excepções confirmam a regra e não será por acaso que não encontramos nenhum grande clube europeu que tenha ao seu serviço simultaneamente mais de dois,excepcionalmente três, jogadores brasileiros.

Os clubes espanhóis, também por afinidades culturais, preferem reforçar-se no mercado espanhol-americano, o que também acontece em parte com italianos relativamente à Argentina. Os alemães preferem pesquisar nos mercados de Leste, e os ingleses, franceses, belgas e nórdicos no mercado africano. E há também quem recorra a mercados emergentes, como o norte-americano, o coreano ou australiano.

Não é o caso português: entre nós, os brasileiros levam a quota de leão no mercado das importações, fazendo de Portugal, de longe, o maior importador de futebolistas brasileiros. Benfica, Sporting e FC Porto têm, todos eles, duas escolas de samba ao serviço da equipa principal, para além de alguns outros que andam pelas equipas B ou emprestados a outros emblemas.

E não são só os três grandes: da Liga de Honra às Distritais há centenas de jogadores brasileiros ao serviço dos clubes portugueses. Em muitos casos, a maior tarefa de dirigentes de clubes completamente obscuros é a viagem anual que fazem ao Brasil para ir buscar «reforços» para o treinador. O excesso de concentração no mercado brasileiro tem, aliás, prejudicado em muito um trabalho mais sério, mais difícil e porventura mais profícuo, que seria o da prospecção de outros mercados, como o
sul-americano e, em especial, o africano.

Não deixa de ser curioso que os três melhores jogadores estrangeiros que jamais passaram pelos três grandes fossem todos africanos e que nunca tenham tido seguidores da sua nacionalidade e ao seu nível nesses clubes: o Benfica nunca mais encontrou um moçambicano como Eusébio, o Sporting nunca mais encontrou um maliano como esse fabuloso Salif Keita e o FC Porto nunca mais encontrou no Magrebe uma sombra que fosse do fantástico Rabat Madjer.

Não encontraram, isto é, nem sequer procuraram. Descansar no mercado brasileiro é mais cómodo, mais fácil e ao alcance de todos. Alguns factores objectivos contribuem, decerto, para isso, mas outros relevam apenas da preguiça ou dos interesses instalados. Temos, em primeiro lugar, a língua, que, sem dúvida é um factor que ajuda à integração mais rápida dos brasileiros. Mas não apenas a eles: como a generalidade dos nossos dirigentes, treinadores e «empresários» não falam outra língua que não o português, o Brasil é o único local que lhes permite falar de negócios sem medo de não perceberem o que se diz e combina. E é muito mais agradável viajar em negócios para o Brasil do que viajar para o Mali, a Argélia, o Peru ou a Bulgária. Temos, depois, a abundância de bons jogadores no mercado brasileiro, o que faz com que os seus preços sejam ainda relativamente baratos, embora já não o eldorado de tempos antigos. É possível, no Brasil, comprar, por um terço do que custaria um jogador português, um brasileiro que cá se revela a estrela da companhia.

Mas também sucede o contrário: pagar uma fortuna por alguém que lá é uma estrela e cá joga a ritmo de samba, pouco disposto para a maior combatividade do futebol europeu. O caso paradigmático é Roger, que acaba de regressar para a sua terceira tentativa no Benfica, onde apenas tem sido uma caríssima decepção. E Diego, do FC Porto, tanto lhe pode seguir as pisadas como, pelo contrário, meditar no exemplo do Deco, que,também ele, esteve à beira de se perder mas que acabou por ser o que é
(entre outras coisas, o jogador que mais correu durante um jogo da Liga dos Campeões do ano passado-em Manchester, segundo um estudo da UEFA).

Neste talvez excessivamente prolongado defeso natalício, estas considerações vêm a propósito dos problemas que Sporting e F.C. Porto têm vivido com os seus brasileiros. Vale a pena meditar no que lhes tem acontecido e pensar friamente se as vantagens dos jogadores brasileiros valem os inconvenientes. Neste defeso, o Sporting viuse obrigado a fazer um «cut-loss», como dizem os economistas, e a livrar-se do Tinga - uma grande aposta que não se cumpriu. Ao mesmo tempo, e depois de ter visto o Liedson dar toda a ideia de ter forçado o quinto amarelo em Guimarães, para se pôr de fora do jogo contra o Benfica e prolongar as férias no Brasil, vive agora o suspense de todos os dias esperar que ele se digne aparecer pela Academia de Alcochete.

Mas, porque, de facto, o «Liedson resolve», o Sporting, não só não se envergonhou de recorrer a um expediente tão-pouco desportivista como o da antecipação do jogo com o Pampilhosa para queimar a suspensão do Liedson, como, inevitavelmente, terá de engolir segunda vez o orgulho e colocá-lo em campo contra o Benfica, nem que ele desembarque na manhã do jogo. E, dê-se o caso de ele marcar mais um golo decisivo, e tudo estará perdoado-como era perdoado ao Jardel, que, do alto do seu extraordinário estatuto de jogador que valia 40 golos por época, era praticamente inimputável a nível disciplinar.

No FC Porto as férias natalícias dos brasileiros foram ainda mais escandalosas. Excepção feita ao Luís Fabiano, que depois de passar dois meses a descansar de uma lesão contraída ao serviço da selecção brasileira e dois jogos a descansar em offside ao serviço do clube, e ao Leandro, que já tinha passado mais de um mês de férias no Brasil, depois de contratado directamente para a mesa de operações, e que agora vai passar mais uns tempos a «ganhar ritmo competitivo», ninguém mais apareceu ao trabalho quando o deveria ter feito. E se o Carlos Alberto teve mais férias porque ninguém sabe o que fazer ao seu imenso talento,se os novatos Diego e Pepe já era de esperar que não voltassem antes do réveillon, se o Maciel apenas confirmou a sua falta de profissionalismo, já o atraso do Derlei só pode ser tido como sinal dos tempos e exemplo prático dos malefícios da tal segunda escola de samba, esta época instalada no Dragão.

Anuncia-se que o FC Porto vai pôr todos de castigo no próximo jogo contra o Rio Ave, o que é uma forma de manter a face e dar o exemplo ao balneário, mas que não deixa de ser, também e prioritariamente, um castigo ao próprio clube que, sem o esquadrão brasileiro, arrisca terceira derrota caseira para o campeonato. O dilema não é fácil de resolver: o clube tem de fazer alguma coisa, sob pena de aquilo descambar na anarquia. Também não se pode prejudicar a si próprio e não pode igualmente alienar desde logo a motivação de jogadores que são miúdos de 19 e 20 anos e que, por mais bem pagos que sejam, não podem ter ainda maturidade para perceber todas as implicações de um estatuto de profissional de alta competição e resistirem, como se não fossem humanos, a todas as tentações que os seus verdes anos, o dinheiro e o prestígio de que dispõem e as oportunidades que lhes surgem tornam quase impossível contornar. Para mais, estão longe da pátria e da família, era Natal e ano novo, lá é Verão, faz calor e samba, e cá é frio, triste e longe. Por mais que se fuja à questão, só a língua os une a nós e só o dinheiro os prende aos clubes. A questão é de fundo e estes episódios natalícios devem levar a reflectir se é boa política para os clubes portugueses continuarem a investir, cega e exclusivamente, no mercado brasileiro.

sexta-feira, dezembro 31, 2004

Azul desbotado (28 Dezembro 2004)

Infelizmente, Victor Fernandez parece temer e achar uma inutilidade e um problema os jogadores criativos, como Carlos Alberto e Ricardo Quaresma. A agora anunciada dispensa do Carlos Alberto, para além de uma decisão trágica do ponto de vista desportivo e patrimonial do clube, representa também uma confissão de falhanço por parte de Fernandez. Espero bem que a SAD tenha o bom senso de a não permitir

1- Não fosse Hélder Postiga ter feito questão de confirmar como lhe é difícil acertar com uma baliza e marcar um golo (entre Tottenham, FC Porto e Selecção, creio que acaba o ano de 2004 com um total de três golos marcados!), os portistas teriam saído do Funchal com uma vitória tranquila e incontestada. Mas como, das duas vezes em que se viu isolado perante o guarda-redes do Marítimo,Postiga insistiu em rematar como não se deve, o FC Porto saiu do Funchal com dois pontos perdidos e ainda com o anátema de só ter conseguido conquistar um ponto graças a um golo off-side.

De facto, a jurisprudência antiportista há muito que estabeleceu a sua doutrina na matéria. Não há jogo do FC Porto em que não se procure o erro de arbitragem salvador, capaz, por si só, de afogar no esquecimento qualquer mérito azul-e-branco ou qualquer demérito do adversário.

Assim, no sempre lembrado jogo da Luz, toda a gente continua a falar interminavelmente do tal golo do Benfica que nem o árbitro nem o juiz de linha viram, «esquecendo- se», porém, da primeira parte do jogo, em que o FC Porto reduziu o Benfica à banalidade e poderia, muito justamente, ter saído para o intervalo com dois ou três golos de vantagem.

De igual modo, também agora, no jogo contra o Marítimo, toda a gente parece não ter reparado que o Marítimo apenas fez três remates à baliza do Porto em todo o jogo, que esteve quase uma hora inteira sem fazer remate algum e que o único golo que obteve, no primeiro remate que fez, resultou de uma oferta natalícia de Vítor Baía. E que, em contrapartida, o FC Porto, mesmo desfalcado de seis jogadores habitualmente titulares e sem nunca ter chegado a fazer um bom jogo, falhou três ou quatro oportunidades flagrantes e viu o guarda-redesmadeirense recusar- lhe ainda três golos feitos.

2- Com o escasso e mal conquistado ponto no Funchal, o FC Porto chega assim à pausa de Inverno isolado no comando do campeonato, com um ponto a mais do que os clássicos rivais. Olhando apenas para a verdade dos factos e dos números, tem de se concluir que Victor Fernandez conseguiu cumprir as expectativas exigíveis. Mesmo em ano e equipe de transição, mesmo tendo de digerir a desastrada herança de Del Neri, mesmo com a equipe dizimada por lesões e, em muitos casos — como sucedeu contra o Nacional, o Boavista e o Beira-Mar — com uma persis tente má sorte contra si.

Atendendo às circunstâncias e aos resultados, é forçoso concluir que o balanço é positivo: perdeu a Supertaça Europeia, caiu na Taça de Portugal à primeira eliminatória, encaixou duas derrotas inéditas e consecutivas no Dragão para o campeonato e apenas ganhou metade dos jogos internos; mas ganhou a Supertaça nacional, a Taça Intercontinental, venceu o Benfica e o Sporting e, mais importante ainda, garantiu um lugar nos oitavos-de-final dos Campeões, salvando o prestígio futebolístico e as expectativas financeiras, e conseguindo-o contra o Chelsea de Mourinho — o que teve um valor simbólico e desportivo acrescido.

E, todavia... Todavia, o universo portista não anda por aí além confiante e optimista. Vemos, com toda a boa fé, que o Sporting anda a jogar melhor futebol do que nós—que apenas jogámos verdadeiramente bem a primeira parte contra o Benfica, a segunda contra o Chelsea e os jogos contra o Sporting, o Boavista e o Once Caldas.
Houve jogos em que a equipe jogou um futebol confrangedor de desinspiração e falta de confiança, outros em que se arrastou em campo, revelando um défice de condição física que nem a sobrecarga de jogos e de lesões chegam para explicar. Dos onze jogadores comprados este ano, apenas o Seitaridis, o Pepe (que nem sequer tem sido primeira opção) e o Quaresma (de quem Fernandez desconfia), me parecem reforços seguros, mas insuficientes para preencherem o vazio deixado pelos que partiram. Inexplicável a dispensa do Rossato, preterido pelo Areias que, afinal nem é titular, levando à compra de um terceiro(!) lateral esquerdo na mesma época — o Leandro, que chegou, aliás, magoado e directamente para amesa de operações. E, com quatro laterais- esquerdos, jogamos afinal com um central totalmente (des)adaptado à função e fonte de constantes aflições.

No centro da defesa, pormais que Jorge Costa e Pedro Emanuel prolonguem a sua longevidade, nenhum deles consegue compensar a falta que faz a rapidez do Ricardo Carvalho.

No meio-campo, Diego, embora talentoso e promissor, é, para já, apenas uma pálida sombra de Deco. Onde Deco era a técnica e a inteligência em velocidade, capaz de abrir uma avenida para o golo apenas com um toque em movimento, Diego joga ao ritmo do Brasileirão, tendo de parar a bola, rodar sobre si mesmo e levantar a cabeça para então decidir o que fazer. Para além disso, não aguenta mais do que uma hora de jogo, apesar de não defender — o que obriga o Maniche a ausentar-se das zonas de apoio ao golo, onde era basta vezes decisivo.

E, além da ausência do Deco, convém não esquecer que faltam também o Pedro Mendes e o Alenitchev, o que chega para perceber porquê que o meio-campo do FC Porto joga tão distante dos avançados.

Na frente, confirmada a incapacidade de Maciel, César Peixoto eHélder Postiga agarrarem qualquer oportunidade concedida, há a notável «baixa» de Derlei, que passou de jogador decisivo numa época para uma sombra de si mesmo e um jogador simplesmente a mais, na época que decorre. Já o Luís «Fabuloso» Fabiano, melhor seria fazer-se tratar por Luís «Fora-de-Jogo» Fabiano, tamanha é a frequência e a displicência com que vive em «off-side».

O ataque do FC Porto, conforme está à vista de todos, tem vivido exclusivamente da classe ímpar de McCarthy (que apenas a lesão inicial de Fabiano evitou que fosse tragicamente dispensado), e dos momentos de puro talento inventivo de Ricardo Quaresma (não fosse a sua entrada, embora tardia, contra o Chelsea, e jamais Fernandez teria conseguido avistar os oitavos-de-final da Champion’s). Mas passa-se com Quaresma o mesmo que se passa com Carlos Alberto: Fernandez não gosta dele.

Já aqui escrevi que, infelizmente, Victor Fernandez parece temer e achar uma inutilidade e um problema os jogadores criativos, como Carlos Alberto e Ricardo Quaresma. É certo que eles são jogadores de jogos e de momentos, porque o génio não sai à rua todos os dias, (mas, caramba, quando sai vale a pena!).

É certo também, que por serem muito novos e cientes do seu talento, tendem a ser jogadores indisciplinados, dentro e fora do campo.Mas aí reside o talento de um treinador: saber orientá-los, discipliná-los, não lhes exigir o que eles não podem dar, mas saber aproveitar cada migalha do génio com que eles são capazes de marcar a diferença e de resolver jogos. A agora anunciada dispensa do Carlos Alberto, para além de uma decisão desastrosa do ponto de vista desportivo e patrimonial do clube, representa também uma confissão de falhanço por parte de Fernandez. Espero bem que a SAD tenha o bom senso de a não permitir.

Em resumo, a liderança interna do FC Porto é tudo menos convincente. Não há um jogo igual ao outro, não há uma continuidade de bom futebol e bons resultados. Há jogadores sobre-aproveitados, sem nenhum ganho para a equipe, e há outros olhados de viés e sentados no banco, sem justificação lógica. Se se confirmar a saída incrível do Carlos Alberto, a juntar à operação do Maniche, e juntando isto a um meio-campo já de si desfalcado no início da época, prevejo que não seja preciso esperar muito tempo para que esta escassa liderança interna se transforme em distância para o novo líder.

3- Há muito que defendo uma regra de transparência mínima nas competições internas: que os castigos relativos a uma prova sejam cumpridos nessa mesma prova. Por exemplo: que a suspensão de um jogo por acumulação de amarelos no campeonato não possa ser cumprida num obscuro jogo da Taça. Agora, com a esperteza saloia (e muito pouco condizente com os apregoados padrões de desportivismo) inventada pelo Sporting para livrar o Liedson de ficar suspenso no jogo contra o Benfica, torna-se urgente que uma medida tão simples, tão lógica e tão justa seja implementada. De outro modo, continuam todos a fazer discursos sobre «moralização» que não passam de discursos para enganar tolos.

O rio Douro e o outro Rio (21 Dezembro 2004)

Ocorre-me pensar o que teria conseguido o FC Porto, nestes últimos três anos, se tem sido mandado a partir do governo ou da câmara do Porto. Se tivesse apostado tudo na participação em sessões partidárias do PSD, em entrevistas pedidas aos ministros ou em favores esperados da câmara

SE não tiver mudado de ideias à última hora, invocando «dificuldades de agenda», o primeiro-ministro Santana Lopes terá estado ontem ao fim da tarde no Porto, a condecorar o FC Porto pela sua recente conquista do título de campeão mundial de clubes.

É um acto de simples justiça que, julgo, ninguém se atreverá a contestar. Mas é também, obviamente, um acto de gestão política—matéria em que Santana Lopes é especialista. Por um lado, ao condecorar o FC Porto, ele antecipa-se e marca pontos relativamente a Jorge Sampaio — sempre tão pronto a condecorar e comover-se com supostos feitos desportivos mas a quem, estranhamente, as conquistas da Taça UEFA, dos títulos europeu e mundial, por parte do FC Porto, não mereceram um sorriso nem uma lágrima de comoção ou de orgulho patriótico. Por outro lado, e com eleições à vista, Santana Lopes tenta, comeste gesto, minimizar os estragos causados pela persistente guerra movida ao FC Porto pelo autoproclamado número 2 do partido e presidente da câmara do Porto, Rui Rio.

Rio, é claro, não terá estado presente nem se atreverá a abrir a boca para criticar este gesto do número 1: ele sabe também que há interesses eleitorais que, circunstancialmente, fazem remeter a um prudente silêncio mesmo alguém, como ele, que gosta de cultivar a imagem de um político diferente.

Rui Rio, também auto-designado campeão da luta contra a promiscuidade entre política e futebol, não é, aliás, virgem em matéria de silêncios convenientes.

De facto, só por má-fé ou má memória é que, volta e meia, aparece alguém a querer lembrar que Pinto da Costa desafiou Rio na pugna eleitoral do Porto e perdeu.

Basta consultar os jornais da época para constatar que não é verdade: ninguém desafiou ninguém.

Quanto a Pinto da Costa, limitou-se, por inércia, hábito e gratidão a um portista que sempre reconheceu o prestígio dado pelo clube à cidade, a apoiar nominalmente a impossível ressurreição autárquica de Fernando Gomes.

Já quanto a Rui Rio, limitou-se a deixar correr as coisas, evitando tudo o que pudesse alienar votos e, especialmente, evitando cuidadosamente insinuar o que quer que fosse que permitisse aos eleitores adivinhar o que viria a ser, depois, a sua sanha patológica contra o FC Porto.

Convém recordá-lo: foi só depois de se ter visto sentado no cadeirão da câmara que Rui Rio partiu em guerra contra o clube que, no dizer de Vítor Baía e no sentimento geral, se confunde quase com a cidade. Se o tem feito antes, durante a campanha eleitoral, teria revelado coragem e ninguém teria tido legitimidade para questionar a sinceridade das suas convicções na matéria. Só que teria também perdido a eleição. Porque o sabia, ele ficou calado. E, tendo ficado calado, transformou em oportunismo o que deveria ter sido coragem.

Agora, à boleia do Apito Dourado e sentindo o adversário fragilizado, Rui Rio achou que o momento era adequado para voltar à carga, antecipando-se mesmo a qualquer conclusão ou até acusação judicial, passando desde logo a incluir Pinto da Costa no rol dos criminosos do futebol, como Tapie ou Gil y Gil. Mas, assim que levou com a resposta de Pinto da Costa e onde mais lhe dói—a ameaça de o enfrentar a sério nas próximas autárquicas —, tratou logo de meter a viola ao saco. Fala quando se imagina forte, cala-se quando lhe parece prudente. É a tal forma diferente de estar na política.

De facto, a prudência mais que aconselha o presidente da câmara do Porto a estar calado. Em primeiro lugar porque o Apito Dourado ainda vai dar muito que falar e muito que rir: e talvez ria melhor quem rir no fim.
Em segundo lugar porque o dito apito começou, como todos se lembram, com suspeitas sobre o major Valentim Loureiro, e suspeitas essas que ultrapassam o âmbito meramente desportivo e remetem directamente para a tal promiscuidade entre política e futebol que ele (e eu) execra. E o major Valentim Loureiro, ao contrário de Pinto da Costa, nunca entrou no rol das figuras do futebol de quem Rui Rio achava higiénico manter-se afastado.

Pelo contrário, foram ambos e simultaneamente dirigentes do PSD, foram ambos e simultaneamente frequentadores do camarote de honra do Estádio do Bessa e foi graças ao apoio de Rio que Valentim ganhou a Junta Metropolitana do Porto. Sobra ainda o facto relevante de à roda das intenções do Boavista relativamente à urbanização dos terrenos do Bessa e às acessibilidades do próprio estádio se levantarem algumas dúvidas pertinentes e algumas notícias preocupantes que, a confirmarem-se, farão das supostas malfeitorias cometidas por Nuno Cardoso a favor do FC Porto e do Estádio do Dragão (razão invocada para a cruzada de Rio) um simples fait-divers administrativo. A ver vamos.

Mas a razão final que aconselha ao silêncio do presidente da câmara do Porto, sobretudo com eleições legislativas e autárquicas à porta, é a comparação daquilo que cada um fez, nestes três últimos anos, desde que Rui Rio chegou aos Paços do Concelho.

Que eu tenha visto (e tenho visto com atenção), nada de substancial mudou no Porto para melhor sob a presidência de Rui Rio. Pelo contrário, em muitos aspectos concretos só tenho visto a cidade piorar e tudo o que de bom foi feito é ainda obra de Fernando Gomes e, em menor parte, de Nuno Cardoso. Basta, aliás, lançar um olhar para o lado de lá do rio para perceber o quanto Gaia foi mudando para melhor, enquanto do lado do Rio a única coisa que se vê, à vista desarmada, é mais e mais urbanizações, pior trânsito e uma cidade que parece estagnada e resignada à falta de ideias e de projectos.

E o que fez, comparativamente, o adversário de Rui Rio nestes três anos?

Fez apenas isto: foi duas vezes campeão nacional e vencedor da Taça de Portugal e Supertaça, conquistou a Taça UEFA, foi campeão da Europa e campeão do Mundo, levando o nome do clube e o da cidade aos quatro cantos do planeta, é campeão nacional em título de futebol, hóquei, andebol, basquetebol e natação e mantém centenas de atletas em actividade, todos os dias e em vários pontos da cidade e de Gaia.

Mais: demoliu um estádio velho e construiu um novo, que é por muitos considerado o estádio mais bonito do Mundo e é hoje um ex-líbris da cidade e uma referência da arquitectura portuguesa contemporânea, e, apesar da tenaz oposição do presidente da câmara em exercício, conseguiu acabá-lo a tempo de servir de abertura ao Campeonato Europeu de futebol.

Para além disso, o Estádio do Dragão é o único caso, entre todos os estádios construídos para o Euro- 2004, que não apenas não prejudicou a cidade como contribuiu decisivamente para a reabilitação e requalificação de toda a zona envolvente, criando uma nova centralidade periférica na cidade, pensada e planeada como raras vezes o são as urbanizações novas.

Por ironia do destino, a obra tão atacada por Rui Rio, alvo de todas as suas suspeitas e obstruções, é a única que, no decorrer do seu mandato, ficará a assinalar um momento de visão, planeamento integrado e qualidade arquitectónica na cidade do Porto. E não só não foi feita por ele mas contra ele.

A verdade remanescente é esta:

Rui Rio faz quanto pode para que notem que despreza o FC Porto;
-o FC Porto não precisa de fazer nada para desprezar Rui Rio.
-O clube fez obra, Rio não fez nada.
-O clube, que tirou o nome da cidade, prestigiou-o e levou-o ao Mundo inteiro.
-E a Rui Rio, se alguém o conhece, é tão-somente por ser o autarca que odeia o clube que prestigia e representa a cidade que ele chefia administrativamente.

Estas reflexões ocorrem-me no momento em que alguns, como o presidente do Sporting, clamam abertamente pela ingerência do poder político no futebol.

Ocorre-me pensar o que teria conseguido o FC Porto, nestes últimos três anos, se tem sido mandado a partir do governo ou da câmara do Porto. Se tivesse apostado tudo na participação em sessões partidárias do PSD, em entrevistas pedidas aos ministros ou em favores esperados da câmara.

Não tenho dúvidas quanto à resposta: seguramente, não teria sido campeão nacional e muito menos campeão europeu e mundial. E não teria acabado a tempo o Estádio do Dragão ou, se o tivesse feito, teria gasto três vezes mais do que o orçamentado— como sucedeu com o estádio de Braga e todos aqueles que foram pagos, não pelos clubes, mas pelos contribuintes. É isso que deve matar de inveja o número 2 do partido.

Campeões no Mundo, suspeitos nos arredores (14 Dezembro 2004)

Como imaginam que nós, portistas, vemos e sentimos tudo isto? Esta inveja doentia, que os leva a desprezar o que deveria ser motivo de orgulho para todos os portugueses, que os leva, não a tentar imitar os feitos do FC Porto, mas sim a retirar-lhes importância, rodeá-los de eternas suspeitas e calúnias? É sabido que a justiça é cega. Não fosse a justiça cega e seria incompreensível que, após um ano e meio de invocadas investigações policiais e do Ministério Público, se decidisse actuar contra o presidente do FC Porto exactamente nas vésperas de o clube viver os dias decisivos que lhe poderiam garantir a continuidade em prova e a defesa do título de campeão europeu e acrescentar-lhe o de campeão do Mundo de futebol. Compreende-se, pois, que as gravíssimas suspeitas que recairão sobre o presidente do FC Porto, no esperançoso caso Apito Dourado - e traduzidas, designadamente, no pagamento por alguém estranho ao clube de umas meninas de alterne a uns árbitros, para que eles não se esquecessem de favorecer o FC Porto nos decisivos jogos contra a Académica, então último classificado, nas Antas (4-1), e contra o Beira-Mar, em Aveiro (0-0), bem como a oferta do relógio oficial dos 100 anos, no valor de 15 contos, ao major Valentim Loureiro, ou ainda um telefonema a Pinto de Sousa em que o presidente do FC Porto terá intercedido a favor de Deco e Mourinho, para que a Comissão Disciplinar da Liga suavizasse momentaneamente a sua tradicional e famosa senha antiportista - tudo isso, todos esses gravíssimos supostos indícios que,todavia, não justificaram mais que medidas mínimas de contrapartida à liberdade condicional do suspeito, não podia esperar nem mais uma semana para ser trazido à praça pública.

Imaginava-se que todo o showoff montado à roda da «detenção prévia para interrogatório» (essa curiosa e moderna figura processual que parece importada de uma qualquer ditadura africana) conduzisse, como conduziu, à imediata transformação do «suspeito » em criminoso - não só aos olhos de uma opinião pública desinformada mas também aos dos fazedores de opinião pública, ávidos por notícias destas.

Imaginava-se que tivesse o condão mágico de instantaneamente propiciar, como propiciou, o esperado discurso de «estão a ver, nós não dizíamos que só por causa dos árbitros é que o FC Porto tem dominado o futebol português nos últimos 20 anos?».

(Sim, porque alguma vez o FC Porto de Mourinho, o FC Porto do ano em que ganhou o campeonato com 12 pontos de avanço, a Taça de Portugal e a Supertaça e ainda a Taça UEFA, seria capaz de vencer a Académica nas Antas ou empatar com o Beira-Mar em Aveiro sem pôr antes umas meninas a distrair os árbitros?)

Imaginava-se ainda que, com um tiro no almirante, toda a esquadra se afundaria e o país futebolístico não teria de passar pelo horror de ver um clube português vencer o invencível Chelsea, ultrapassar a fase de grupos da Liga dos Campeões, acumular mais pontos a favor dos demais clubes portugueses no ranking das competições europeias e ainda, supremo desplante, trazer do Japão, e pela segunda vez, o título de campeão do Mundo.

Imaginava-se mas, aqui, as expectativas saíram traídas. Passado o primeiro momento de choque, que ainda poderá ter ajudado à derrota caseira contra o Beira-Mar, o FC Porto demonstrou que os grandes clubes são mais que apenas um presidente, por melhor que ele seja: são adeptos,treinadores, dirigentes, jogadores, uma mística, uma vontade, uma crença, uma capacidade de resistência à adversidade, em todas as situações e em todos os cenários.

O FC Porto resistiu às coincidências temporais do Apito Dourado, resistiu em silêncio às calúnias, difamações e falsificações históricas grosseiras que os arautos dos medíocres de imediato atearam, resistiu ao cansaço, aos fusos horários, a um adversário em campo que só jogou para o 0-0, aos golos mal anulados, à profusão de bolas na trave, resistiu a tudo e trouxe de Yokohama a tão merecida e tão desejada Taça Intercontinental, fazendo do FC Porto um dos membros do selectíssimo
clube dos 10 que mais títulos internacionais conquistaram em toda a história do futebol mundial.

Contra o desprezo e maledicência da própria pátria, são hoje campeões da Europa e campeões do Mundo. Haverá alguma outra coisa, desportiva ou não desportiva, em que Portugal se possa orgulhar de ter obtido o título de melhor do Mundo?

Aparentemente o mundo não chega aqui, aos arredores portugueses.

Lembro o Presidente Jorge Sampaio, que correu a condecorar o presidente da Federação, o seleccionador nacional e toda a Selecção que, em condições extremamente favoráveis, foi vice campeã da Europa mas esqueceu-se de condecorar o FC Porto, que por si só, sem ajudas nacionais, fora campeão europeu, dois meses antes.

Lembro a primeira página dos nossos três jornais desportivos neste sábado, totalmente ocupados com o palpitante Sporting-Braga dessa noite, remetendo o jogo do FC Porto em Yokohama, da manhã seguinte, para um rodapé de página. Lembro a mesma imprensa de domingo, com as manchetes ocupadas com as incidências do Sporting-Braga ou a magna questão de saber se o Benfica jogaria contra o Belenenses com ou sem o Sokota de início e o FC Porto de novo remetido para uma notinha cá em baixo, a par... do Boavista.

E lembro, porque não consigo calá-lo, a histórica e tristíssima edição de ontem deste jornal em que escrevo, em que o desastre do Benfica no Restelo ocupava 75 por cento da primeira página e o êxito do FC Porto não ocupava mais de 15 por cento, de novo cá nos baixios da página e sem ao menos ter a menção - detalhe - de que tinha conquistado o título de... campeão do Mundo! Enfim, lembro os telejornais de domingo da TVI e da SIC, que abriram, não com a notícia da vitória do FC Porto no Japão, mas sim com a notícia de uma ameaça de bomba no Real Madrid-Real Sociedad...

Faço uma pergunta a sério aos leitores de outras cores que não as minhas: como imaginam que nós, portistas, vemos e sentimos tudo isto?
Esta inveja doentia, que os leva a desprezar o que deveria ser motivo de orgulho para todos os portugueses, que os leva, não a tentar imitar os feitos do FC Porto, mas sim a retirar-lhes importância, rodeá-los de eternas suspeitas e calúnias?

Se somos campeões europeus é preciso desconfiar de um Porto-Académica de há dois anos atrás; se somos campeões do Mundo é preciso desconfiar de um Sporting-Braga em que o árbitro auxiliar anulou um golo ao Sporting por offside (embora tenha também cortado uma jogada de golo ao Braga, em situação idêntica, mas isso claro que não interessa).

Imaginem por um instante que o Benfica ou o Sporting tinham ganho na véspera um título mundial de clubes: acham que algum jornal desportivo português daria ao facto quase tanto destaque na primeira página como aos protestos de Pinto da Costa por ter sido mal anulado um golo ao Porto, contra o Braga, dois dias antes? O que nos dói, como portistas e como portugueses, é olhar para a imprensa desportiva internacional, no dia seguinte à vitória do FC Porto sobre o milionário e inacessível Chelsea, e constatar que o que os ocupa são as notícias, retransmitidas da imprensa portuguesa, sobre a «prisão» por «corrupção» do presidente do FC Porto e por causa de suspeitas levantadas a propósito de jogos contra a Académica e o Beira-Mar- nós, que levámos de vencida, até ao título europeu, Chelsea, Arsenal e Manchester, Real Madrid, Barcelona, Corunha e Valência, Juventus, Inter e Milan, Bayern, Schalke, Ajax e Galatasaray, enfim, tantos e tantos milionários do futebol europeu, que
dificilmente perdoaram a afronta cometida por um clube desse país periférico que é Portugal.

P. S. 1- Luís Filipe Vieira diz que em breve vai fazer muitas mais revelações, para acrescentar aos capítulos do Apito Dourado. Sendo certo que nada, obviamente, dirá sobre a anedota da arbitragem do ano - que foi aquele penalty a favor do Karadas e que valeu dois pontos contra o Estoril-, ele deveria explicar o que faziam dois jogadores do Benfica, que não participavam no jogo e não podiam ali estar, no túnel de acesso à cabine da filial estorilense, discutindo com dois adversários, durante
o intervalo do jogo. E, em particular, deveria talvez explicar o que quererá ter dito o Petit ao seu ex-colega do Boavista Paulo Sousa quando ao intervalo lhe reclamou que «não complicasse» as coisas. Sim, o que quereria ele dizer com isso? Também parece que houve algumas cenas menos próprias, no final do Sporting-Braga, no tal túnel de Alvalade, onde o Sporting diz ter câmaras de filmar montadas. Seria possível vermos o filme ou o único túnel suspeito é o do Dragão?

P. S. 2 - Interrogado no final do Porto-Chelsea sobre o envolvimento de Pinto da Costa no Apito Dourado, José Mourinho limitou-se a dizer que seguia a coisa à distância, como se isso lhe fosse totalmente alheio.
Fez mal. Primeiro porque o presidente do FC Porto era ainda o seu patrão há poucos meses atrás e, embora o clube muito deva a Mourinho, ele também deve a Pinto da Costa e ao clube a sua rápida projecção internacional. Segundo porque, a fazer fé nas notícias, o que está em causa são suspeitas que recaem sobre jogos do Porto quando Mourinho era o seu treinador. Ou seja, o que o país futebolístico faz por acreditar é que não foi graças à organização do clube, à gestão de Pinto da Costa, à
categoria de Mourinho ou à classe dos jogadores que o FC Porto registou os êxitos dos últimos anos: tudo terá sido devido a umas meninas de alterne, intermediadas por um empresário de Avintes e a favor de uns árbitros do Alentejo. José Mourinho não se sentirá atingido também?

Terça-feira decisiva ( 7 Dezembro 2004)

Penso que eu e todos os portistas nada menos esperamos e exigimos do que uma vitória esta noite contra o Chelsea e, no próximo domingo, em Yokohama. De outro modo, nada nos convencerá que Victor Fernandez esteve e está à altura de treinar o campeão nacional e europeu

1- Há muito tempo que o FC Porto não tinha um dia tão importante e tão decisivo como o desta terça-feira. A partir das 09.00 da manhã, no tribunal de Gondomar, joga-se o bom nome do clube e o do seu presidente. A partir das 19.45, joga-se, no Estádio do Dragão, a sobrevivência na Liga dos Campeões, de cujo título o clube é detentor. A partir das dez da noite, a Europa saberá se fomos campeões europeus por um acaso ou engenho de um treinador providencial (esta noite, nosso adversário) e nós , portistas, talvez possamos começar a ver melhor se o objectivo final do Apito Dourado não é o de ajudar a convencer a multidão de invejosos cá da terra de que só fomos campeões da Europa graças aos árbitros... portugueses. Começemos pelo futebol.

2- A derrota de sexta-feira passada contra o Beira-Mar abalou de cima abaixo toda a nação portista. Por várias razões que, todas elas, tornavam tal derrota inimaginável e inaceitável: - porque aconteceu num dia especial, em que, como dizia o Costinha, a equipa devia a Pinto da Costa uma vitória, aliás fácil, à partida; -porque o adversário era o último da classificação, há oito jogos que não conhecia a vitória, e,como se viu em campo, nada mais tinha ensaiado do que a hipótese de ganhar a taluda com uma simples cautela; - porque, depois da derrota traumática com o Boavista, a primeira no Dragão, era impensável que o jogo seguinte em casa se saldasse por nova derrota; - porque, depois de perder quatro golos feitos nos primeiros vinte minutos de jogo, a equipa resolveu acalmar e abrandar, quando pelo estádio inteiro perpassou a percepção do desastre, de tal forma os deuses da fortuna tinham sido desafiados; -porque, depois de se encontrar isolado na frente do campeonato, sem que para isso tenha feito muito - apenas beneficiando da irregularidade do Sporting e da mediocridade do Benfica - esperava-se que a equipa finalmente arrancasse e começasse a justificar a liderança; - porque, depois de duas jornadas felizes - Moscovo e Setúbal - onde a sorte compensou a falta de audácia e os erros do treinador, era mais do que tempo de fazer por merecer essa sorte; - porque é chocante ver vedetas pagas a peso de ouro jogarem displicentemente contra um adversário cuja folha salarial, toda junta, não deve chegar para pagar uma só dessas vedetas. A derrota foi traumática, enxovalhante,desmoralizante. O Beira-Mar, por mais que Manuel Cajuda encha o peito e a boca, não fez nada para merecer a vitória: foi o FC Porto que fez tudo para merecer a derrota.

Há culpados? Sim, há culpados. Dois, fundamentalmente: Hélder Postiga e Victor Fernandez. Ir buscar Postiga de volta ao Tottenham (escrevi-o aqui, na altura), foi o pior erro da pré-época do clube. Por alguma razão Mourinho o quis despachar e disse depois que em nada o admirava o Postiga ter falhado em Inglaterra. Desgraçadamente, porém, Pinto da Costa tem essa fraqueza de ir buscar de volta os jogadores que um dia vendeu para o estrangeiro e, salvo casos raríssimos-Baía, Oliveira-a experiência sai sempre frustrada. No caso de Postiga, que tinha marcado apenas dois golos em toda a época inglesa, a operação foi especialmente ruinosa porque ele custou uma pipa de dinheiro mais o Pedro Mendes, e, como se tem visto nas várias opurtunidades de que tem beneficiado, não justifica em nada o investimento. A sua actuação contra o Beira-Mar chegou a ser chocante, ao ponto de o comentador da TSF o classificar como o melhor central do adversário.Mas, para mim, pior ainda do que o desempenho, foi a atitude «ausente » em campo.

Victor Fernandez, antes de mais, foi o único espectador do jogo de Setúbal que conseguiu achar positiva a exibição de Postiga - (falhou um golo feito e nada mais fez em todo o jogo)- ao ponto de ter alegremente reincidido no erro. Decididamente, ele terá de render-se à triste evidência de que há um trio, composto pelo Postiga, o César Peixoto e o Maciel, que não querem ou não conseguem agarrar as oportunidades - (numa entrevista domingo passado, aqui na A BOLA, o Maciel dizia que não percebia porque não jogava: ele que vá ver os vídeos das suas últimas prestações e talvez perceba...). Para além do erro de Postiga, Fernandez, uma vez mais, mexeu na equipa apenas com o condão de a piorar. Já é um clássico: quando ele começa a olhar para o campo com um ar perdido e a consultar-se com o Nárcis Sierra, já se sabe que dali vai sair pior emenda do que o soneto. Enfim, e mais importante do que tudo,o FC Porto de Victor Fernandez voltou amostrar o seu desesperante lado de melancia: quando se abre, nunca se sabe o que está lá dentro. Tanto pode, episodicamente, sair um grande jogo, como um jogo sem sentido nem nexo. Tanto pode sair uma grande primeira parte, como uma segunda parte de salve-se quem puder. O jogo da equipa não tem estatégia visível, não tem lógica nem continuidade, há jogadores que não sabem qual é a sua posição nem a sua função em campo, não há, aparentemente, jogadas ensaiadas nem conhecimento dos adversários, não há um fio condutor no jogo da equipa, a começar logo pelas reposições da bola em jogo pelo guarda-redes. Tudo aquilo, por mais treinos à porta fechada e mais dias de folga cancelados que se façam, parece decorrer ao sabor dos improvisos dos artistas emcampo.Mas, às vezes, parece haver um excesso de artistas e um défice de equipa e de organização.

Felizmente, começei a criticar Fernandez, esgotado o meu benefício da dúvida, na semana passada - depois das vitórias em Moscovo e em Setúbal.
Penso que eu e todos os portistas nada mais esperamos e não exigimos menos do que uma vitória esta noite contra o Chelsea e, na próxima quarta- feira, em Yokohama. De outro modo, nada nos convencerá que Victor Fernandez esteve e está à altura de treinar o campeão nacional e europeu e ter o privilégio de defender esses títulos nas respectivas competições e ainda poder, graças ao trabalho alheio, ter a hipótese de ganhar a Supertaça Europeia-que já desperdiçou - e a Taça Intercontinental - que não pode e não deve perder.


3- Até ser possível ver mais claro, acho que não é sério, da parte de ninguém, tirar conclusões, num ou noutro sentido, sobre aquilo a que já chamam a Operação Apito Dourado- Parte II. Registo, obviamente, a euforia indisfarçada que reina em certos círculos desportivos, só pelo simples facto de o Ministério Público ter promovido a audição judicial do presidente do FC Porto.

Há até quem, sem conseguir conter-se, fale já de «oportunidade única» para a «regeneração» do futebol português. Eu não iria tão depressa:
olhem-me bem para os outros personagens do futebol português e digam lá se alguém pode acreditar que a verdade oculta neste mistério se resume a isto -um mau da fita, que é Pinto da Costa, e um coro de anjos celestiais, que são todos os outros.

As experiências dos últimos anos ensinaram-me, infelizmente, a desconfiar das investigações da PJ e do Ministério Público, nos chamados casos mediáticos.

Registo, neste caso, que já começaram as fugas da PJ: «fontes da investigação » sugeriram aos jornalistas que Pinto da Costa foi informado previamente do mandato de detenção para interrogatório de que era alvo e, por isso, pode evitar o enxovalho da prisão caseira para ser presente à juíza. Uma fuga dentro da própria fonte das fugas: ou o peixe que morre pela boca. Pois devo dizer que, se isso é verdade, acho que Pinto da Costa fez muito bem em evitar a «prisão preventiva» para interrogatório e apresentar-se antes voluntariamente ao tribunal.

No tempo em que estudei e exerçi direito processual penal - quando Portugal era ainda um Estado de Direito-as pessoas eram notificadas para prestar declarações e só após estas e se o juiz assim o entendesse, depois do interrogatório, é que ficavam presas preventivamente. Agora,porém, inventou-se uma nova modalidade, já aplicada a Pimenta Machado e a Valentim Loureiro: mesmo sem que haja qualquer motivo para presumir que as pessoas vão fugir ou furtar-se a prestar declarações, elas são presas cautelarmente e aguardam um fim-de-semana, dois ou três dias nos calabouços da PJ, até que o juiz tenha disponibilidade para os ouvir. E,durante esses dias de espera, como é evidente, a opinião pública já formou a sua opinião. Lembram-se quem é que, no tempo da outra senhora,prendia primeiro e interrogava depois?

4- Anteontem à noite, em Coimbra, o Sporting viu subitamente a Académica virar um jogo perdido num jogo aberto, passando de 0-2 para 2- 2.
Apostei comigo mesmo que o árbitro iria então tornar-se decisivo e não me enganei: no espaço de um minuto, ele perdoou o segundo amarelo a Rui Jorge, por falta grosseira, e foi dá-lo a Vasco Faísca, da Académica, por ter passado a mão pelo ombro de Ricardo, que logo se atirou para o chão, como se tivesse sido ceifado. Nesse minuto a sorte do jogo ficou sentenciada. Como dizia Artur Jorge e como disse Mourinho (nenhum dos dois portista), os erros de arbitragem, contas feitas no final da época, acabam por se repartir por todos em partes iguais. E eu acredito que sim. Mas uma coisa são erros de percepção, outra são diferenças de critério: os primeiros são involuntários, os segundos são certamente voluntários.

Registo que, de há vários anos para cá, o maior choramingas das arbitragens - o Sporting-é claramente o maior beneficiado dos erros voluntários. Talvez ocorra à juíza de Gondomar interrogar Pinto da Costa sobre este mistério: porque será que o FC Porto é, de todos os grandes,o que mais vezes tem jogadores expulsos, enquanto o Sporting é o que mais vezes consegue fazer expulsar jogadores adversários?

terça-feira, novembro 30, 2004

Começa-se a ver mais claro ( 30 Novembro 2004)

Victor Fernandez privilegia claramente os jogadores de contenção, em lugar dos criativos, como Quaresma ou Carlos Alberto, no que é um indicador quase sempre seguro de um treinador que não gosta de correr riscos e desconfia dos jogadores capazes de o fazer. Arrisca-se a ser campeão por inércia, a menos que qualquer dia a sorte se canse de lhe dar oportunidades


O campeonato ultrapassou o seu primeiro terço, tem sido o mais disputado dos últimos anos e, agora que começa o terço de Inverno, já é possível começar a ver mais claro. Lá em cima, a surpresa é o Boavista e o segundo lugar que ocupa — muito por fruto da sua vitória, injustíssima e caída do céu, no Dragão. Depois de um início de campeonato oscilante e marcado por uma crítica impiedosa aos processos de jogo da equipa, foi visível que Jaime Pacheco acusou o toque e andou hesitante entre um futebol mais positivo ou um futebol mais produtivo de pontos: em Alvalade tentou a primeira versão e foi esmagado; no Dragão, nem a jogar contra dez durante mais de uma hora se atreveu a atravessar a linha do meio campo, e quando finalmente o fez, aos 93 minutos, ganhou o jogo. Mesmo levando em conta o historial do Boavista nos jogos contra os grandes (não ser antipático contra os de Lisboa, morrer em campo contra o Porto), é provável que, experiência feita, Jaime Pacheco prefira ficar pelo futebol feio que dá pontos do que pelo futebol aberto que dá elogios.

Surpresa pela positiva, e apesar da derrota nocturna de ontem, é ainda o Vitória de Setúbal que tem o mais baixo orçamento do campeonato mas que este ano pode aspirar, em princípio, a uma época sem o sobressalto permanente da linha-de-água. Mas, às vezes, começa-se eufórico e acaba-se mal, ou vice-versa. Que o diga Manuel Cajuda que, quando começa bem, não consegue calar os auto-elogios e proclamar pela enésima vez que já merecia um grande. Este ano começou com a euforia da Taça UEFA, mas nem lá chegou ao comando do Marítimo. E a verdade é que, sem ele, o Marítimo teve um grande arranque e o Beira-Mar, desde que ele chegou, ainda não conheceu o perfume de uma vitória: é o mais sério candidato a futuro comentador da Sport TV.

Desilusão ainda, mas esta já habitual, é o Vitória de Guimarães, uma equipa cujo único assomo de competitividade e qualidade futebolística ficou reservada também para o jogo contra o FC Porto, para a Taça. Eliminado o campeão europeu, não é de excluir a possibilidade de desaparecer da Taça já na próxima eliminatória.

Voltando ao topo, o Benfica encaixou o terceiro jogo consecutivo sem vencer e a segunda derrota frente a um União de Leiria que tem sido também uma desilusão em prova. Desfalcado de Miguel e Petit, com Simão desinspirado, o Benfica desapareceu, com toda a naturalidade do mundo. E desapareceu porque, sendo verdade que a equipa revela este ano uma outra e melhor atitude competitiva, também é verdade que apenas tem cinco jogadores de qualidade e nem mais um: Moreira, Miguel, Petit, Manuel Fernandes e Simão. Todos transitados da época anterior, o que significa que as aquisições deste ano não acrescentaram valor algum à equipa. Os sonhos vão sendo alimentados com os Robinhos e os Karagounis, as confissões das estrelas planetárias que não conseguem esconder a ansiedade de virem jogar para o Grande Benfica, mas que depois, estranhamente, acabam por deixar apenas um rasto de cometas longínquos no céu da Luz. O que falta ao Benfica é, muito simplesmente, bons jogadores e dinheiro para comprar bons jogadores.

Comparando com os seus rivais directos, jogador por jogador, o Benfica perde largamente para o FC Porto e claramente para o Sporting. Nem sempre, é verdade, os bons jogadores chegam para fazer uma boa equipa, mas não conheço nenhuma boa equipa que não tenha um mínimo de bons jogadores, sete ou oito, que o Benfica não tem.

O Sporting, sim, tem uma primeira linha de grandes jogadores, embora sem suplentes à altura. Não tem o luxo de poder ter, como o FC Porto (sem lesões) um banco de suplentes com um Pepe, um Carlos Alberto, um Bosingwa, um Fabiano ou um Postiga. Mas tem, em primeira linha, três bons centrais, um meio-campo que integra três grandes tecnicistas e rematodores de meia-distância — Rochembach, um regressado Hugo Viana que já leva cinco golos marcados, e Carlos Martins, talvez a revelação deste campeonato. E, na frente, tem um dos melhores, senão o melhor extremo do campeonato, Douala, e um ponta-de-lança que eu não me canso de elogiar, porque acho um verdadeiro prazer vê-lo jogar futebol: Liedson. Liedson, tirando a sua esporádica vocação teatral, é talvez o melhor jogador do campeonato — mesmo não esquecendo que, no meu clube, joga também um ponta-de-lança fora de série: Benni McCarthy. Mas Liedson consegue reunir a capacidade técnica, a elegância de processos e o instinto de matador a uma inteligência e imaginação activas, que hoje são atributos essenciais de quem joga frente à baliza adversária.

É verdade que tudo isto foi secado no teste de fogo do Dragão, onde o Sporting foi positivamente metido ao bolso por um FC Porto dos grandes jogos. Mas julgo que isso tem mais a ver com factores psicológicos e uma inibição instalada do Sporting perante os momentos decisivos e as equipas sem medo, como é o FC Porto. Não querendo tirar qualquer mérito a José Peseiro, cujo trabalho é ainda demasiado breve para poder ser julgado num ou noutro sentido, não tenho dúvidas de que José Mourinho, por exemplo, faria do Sporting campeão este ano.

No FC Porto, inversamente, Victor Fernandez arrisca-se a ser campeão... por inércia. Ou seja, não é preciso fazer muito para que aquela equipa, com o vício de ganhar e com 12 ou 13 grandes jogadores, seja campeã nacional. De facto, basta não querer complicar inútilmente as coisas, como pretendeu fazer um despassarado Del Neri. E basta acreditar nos jogadores que se tem e não ter medo de querer ganhar sempre. Mas também Fernandez é ainda um melão por abrir. Que é simpático, civilizado, trabalhador, previsível e lógico, é incontestável. Mas falta-lhe o sabor das grandes vitórias, a obsessão de ganhar, a apetência do risco.

Em Moscovo, quarta-feira passada, num jogo onde só a vitória interessava, entre correr o risco de tentar o xeque-mate ou correr o risco de defender o 1-0 até ao fim, ele optou sem hesitar pela segunda alternativa, tirando do jogo McCarthy e Quaresma — os desequilibradores — e abdicando, acto contínuo, do ataque, para viver até final um sufoco que poderia e deveria ter evitado. E ontem à noite, em Setúbal repetiu a receita e, de novo a sorte protegeu a sua falta de audácia e de visão. Mas não escondeu os erros, quase de manual: manter Jorge Costa em jogo depois do primeiro amarelo e quando era evidente que a missão principal de Jorginho era tentar expulsá-lo, como conseguiu; abdicar de um criativo e homem de bolas paradas, como Diego, e, sobretudo, tirando Quaresma em noite de espectáculo, capaz por si só de manter em respeito três defensores contrários, para deixar em campo um inútil Postiga e a seguir fazer entrar César Peixoto, sempre reincidente na inutilidade. Em ambos os jogos, colocado perante situações de tensão e de emergência, tomou sempre as opções erradas e acabou salvo pela sorte e pelo espírito de luta e vontade de vencer dos seus jogadores. Mas, qualquer dia, como de resto já aconteceu, a sorte cansa-se de lhe dar oportunidades. Aliás, o seu conservadorismo é patente na insistência em manter sempre em jogo um Derlei que é uma sombra dele próprio (um golo marcado em toda a época e uma infinidade de golos desperdiçados), e em manter sempre em jogo Costinha e Maniche, quando a condição física de ambos grita por tréguas, a benefício da equipa. Privilegia claramente os jogadores de contenção, em lugar dos criativos, como Quaresma ou Carlos Alberto, no que é um indicador quase sempre seguro de um treinador que não gosta de correr riscos e desconfia dos jogadores capazes de o fazer. Para além disso (e excepto quando ficou na bancada a ver o Porto-Sporting e pareceu ver dali o que nunca tinha visto antes), dá a sensação de ser um treinador que lê mal os jogos, procedendo a substituições extemporâneas ou erradas: que me lembre, nunca a equipa melhorou depois de ele proceder a substituições. É incontestável que tem sido perseguido por uma estranha e ainda por explicar onda de lesões, e agora de castigos, que nunca ou quase nunca lhe permitiram fixar um onze-base e jogar com ele dois jogos de seguida. Mas com um plantel tão rico em soluções e, sobretudo com alguns jogadores cuja capacidade de resolver jogos é tão evidente por si mesma — McCarthy, Carlos Alberto, Quaresma — é estranha a sua persistência em dúvidas, hesitações e escolhas que não fazem sentido.

Também queremos fazer queixinhas(23 NOvembro 2004)

Repare V. Ex.ª que, tendo sido nós, nos últimos dois anos, campeões nacionais, vencedores da Taça UEFA e da Liga dos Campeões, só não conseguimos ganhar nunca quando no nosso caminho se atravessa a figura implacável do Sr. Lucílio Baptista!

O sr. ministro já tinha visto algum árbitro FIFA ignorar uma agressão tão escandalosa como aquela entrada do Éder ao McCarthy?

O FC Porto, sociedade desportiva de utilidade pública, vem, por intermédio deste que acima se assina (e sem mandato para tal), pedir a V. Ex.ª o favor de uma entrevistazinha a fim de expor algumas coisas que também lhe ocorrem sobre o panorama actual do futebol português. Em boa verdade, devemos reconhecer que esta ideia nunca nos teria normalmente ocorrido — sendo nós, como os restantes clubes profissionais, oficialmente defensores da independência do futebol face ao poder político. Mas, uma vez que a instituição tomou a iniciativa de o fazer e que V. Ex.ª entendeu recebê-los «por se tratar de uma instituição de referência do desporto nacional», nós atrevemo-nos também a pedir-lhe que nos dispense uma horinha do seu precioso tempo a ouvir as nossas queixinhas, quanto mais não seja para aliviarmos o saco.

Bem sabemos que não nos assiste a mesma representatividade, nem legitimidade para tal, que assiste à instituição. Eles, como se sabe, representam seis milhões de portugueses—o que, somado aos quatro milhões representados pelo projecto, não deixa ninguém mais, em Portugal inteiro, para nós próprios representarmos.

Apesar disso, convirá V. Ex.ª que talvez haja a possibilidade de as estatísticas serem, neste caso, um pouco exageradas: embora não representando estatisticamente ninguém (visto que o País só tem10 milhões de habitantes que são integralmente representados, em termos futebolísticos e incluindo criancinhas de berço, velhos já sem memória e inimputáveis, pela instituição e pelo projecto), o facto é que, por exemplo, desde que os nossos três clubes inauguraram os seus novos estádios, aquele que tem mais lugares anuais vendidos e mais assistências médias nos jogos somos nós — estranhamente.

Talvez porque tenhamos levado a sério aquela publicidade que diz que alguns estádios se fizeram para estar vazios e outros não...

Por outro lado, e como V. Ex.ª saberá, dá-se ainda a anormalidade de nós sermos o campeão nacional em título. E, como se tal ainda não bastasse, somos também o campeão europeu em título e, assim a Providência nos ajude, no próximo dia 12 de Dezembro poderemos, pela segunda vez, trazer para Portugal o título de campeão mundial de clubes (mundial, sr. ministro!).

E, como se tal ainda fosse pouco, somos também, e desde há vários anos, o único clube português que integra o chamadoG-14, o restrito grupo que representa todos os clubes europeus junto da UEFA e da FIFA.

Embora, como os outros lhe dirão, tudo isto derive apenas das arbitragens, há que convir, senhor ministro, que esta de ser o clube português com mais títulos internacionais conquistados e de sermos ainda, este ano, mais uma vez, detentores dos títulos de campeão nacional de futebol, hóquei, básquete e andebol, deixando para a instituição e o projecto pouco mais que o futsal, háde levarV.Ex.ª a conceder-nos o favorzinho de uma audiência.

Enfim, não ignoramos também que, face à instituição, temos por nós a desvantagem de não ter ido em devido tempo, isto é, na véspera das últimas eleições legislativas, em romaria da nossa direcção, e acompanhados pelo então presidente da câmara de Lisboa e hoje primeiro-ministro, apresentar os nossos respeitos e solidariedade numa manifestação de campanha a favor do partido que nos governa e de que V. Ex.ª é lídimo representante.

Mas, se o não fizemos, foi apenas porque, não só não tínhamos e não temos as dívidas de gratidão para com o então presidente da câmara de Lisboa que a instituição e o projecto têm, como também e uma vez mais, nos convencemos que era a sério aquela de separar o futebol da política—ingenuidade de que ora nos penitenciamos expressamente.

Também sabemos que já vem de trás este privilégio natural de a instituição ser recebida pelos governantes, sempre que o requeira. Ainda retemos na memória aquele saudoso presidente da instituição, ora em liberdade condicional, a ser recebido com pompa e circunstância pelo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, para lhe fazer entrega de um cheque sem cobertura para pagar as dívidas da instituição ao Fisco (dívida essa que depois, como se sabe, veio a ser misteriosamente esquecida de ser denunciada e executada pelo Fisco...).

E veja, excelência, que ainda agora, depois de ter organizado um jogo de futebol contra nós em que violou os regulamentos sobre a venda de bilhetes ao adversário, passou a semana antes do jogo a acirrar os ódios contra nós, pôs em causa a segurança dos nossos adeptos no seu estádio, entalando 3000 deles num espaço para 1500, e acolhendo os nossos adeptos à pedrada, a instituição conseguiu ser recebida pelo seu colega da Administração Interna, a quem terá ido requerer a abertura de um processo-crime contra o sr. Olegário Benquerença, por crime de deficiência visual. Enquanto nós fomos à Luz sem causar qualquer problema, recebemos o projecto e o Boavista sem qualquer problema, sem que ninguém, em todas as situações, tivesse escutado uma palavra de provocação ou de arruaça de dirigentes, técnicos ou jogadores nossos e, mesmo depois daquele final melodramático contra o Boavista, ninguém viu o nosso presidente, acompanhado do sr. Reinaldo Teles, ir à sala de imprensa fazer considerações sobre a vida privada e familiar do dr. João Loureiro.

E, mesmo assim, com o cadastro limpo, não ousámos, excelência, incomodar o senhor ministro da Administração Interna para lhe dar conta dos assaltos sistemáticos de que temos sido vítimas, de há dois anos para cá, por parte do excelentíssimo senhor Lucílio Baptista. E é, pois, justamente sobre este senhor que nós queríamos desabafar com V. Ex.ª Queríamos-lhe pedir se, aproveitando o prestígio internacional deste árbitro (curiosamente não acompanhado internamente pela generalidade da crítica), não seria possível, quem sabe, nomeá-lo embaixador num país lusófono, representante do ICEP em Bruxelas ou até chamá-lo ao governo de que V. Ex.ª faz parte, como secretário de Estado dos emigrantes?

Qualquer coisa, enfim, que definitivamente o afastasse do nosso caminho, não sendo possível, como se tem provado, curá-lo daquela doença contagiosa de uma invencível aversão ao azul.

É que, repare V. Ex.ª, tendo sido nós, nos últimos dois anos, campeões nacionais, vencedores da Taça UEFA e da Liga dos Campeões, só não conseguimos ganhar nunca quando no nosso caminho se atravessa a figura implacável do sr. Lucílio Baptista!

Há dois anos, em Alvalade, em jogo contra o projecto, ignorou quatro penalties tão flagrantes a nosso favor que ficámos convencidos de que havia um problema com os holofotes do estádio.

No ano passado, em idêntico jogo, foi ele que incentivou o Rui Jorge a repor rapidamente a bola em jogo, enquanto o Jorge Costa assistia o João Pinto, e, logo de seguida, correu pressuroso a marcar penalty contra nós assim que o Liedson se atirou para o chão dentro da área.

Depois, apanhámo-lo na final da Taça, contra a instituição, num jogo em que a sua exuberante dualidade de critérios disciplinares nos deixou durante mais de hora e meia a jogar com menos um — o que permitiu à instituição ganhar finalmente qualquer coisa, para além de uma coisa por eles inventada com o nome de Troféu Ibérico.
Mas agora, contra o Boavista, francamente achamos que a sua doença se agudizou já a um ponto irrecuperável. O sr. ministro já tinha visto algum árbitro FIFA ignorar uma agressão tão escandalosa com o aquela entrada do Éder ao Mc Carthy?
O sr. ministro acha normal que ele, que nem um amarelo achou adequado para o Éder, a seguir corra a expulsar o McCarthy porque o árbitro auxiliar lhe bufou que o McCarthy tinha enfiado uma estalada num adversário (mas esqueceu-se de dizer que antes tinha sido o adversário a enfiar uma estalada no McCarthy)?
Acha normal que só ele não tenha reparado que a falta sobre o Bosingwa foi dentro da área e não fora?
E acha normal que ele tenha continuado a confiar no critério de um árbitro auxiliar que passou o jogo a assinalar mal os offsides (primeiro um ao Derlei, depois dois ao Cafu), permitindo que o Boavista ganhasse no último minuto com um golo offside?

O sr.ministro não concorda que, se isto tem acontecido em Alvalade ou na Luz, e ainda para mais com laivos de perseguição sistemática do mesmo árbitro ao mesmo lube, o País já estaria na iminência de uma guerra civil?

Como vê, sr. ministro, também a nossa nau Catrineta tem muito que contar. Além do mais, parece que quem fica calado se lixa: veja-se o caso do projecto, que vai no terceiro jogo consecutivo em que os árbitros lhe perdoam penalties, ou o exemplo da instituição, que, logo após anunciada a audiência com V. Ex.ª, teve o beneplácito de poder empatar com um golo em offside, enquanto nós perdemos com um golo em offside.

Vá lá, senhor ministro, conceda-nos uma entrevistazinha, quanto mais não seja para salvaguardar o princípio do contraditório.