sexta-feira, outubro 01, 2004

O FC Porto como o Real Madrid (21 Setembro 2004)

Foi curioso ver, no Real Madrid que este fim-de-semana perdeu com o Espanhol, que ficaram de fora jogadores como Figo, Zidane, Beckham e Raúl, enquanto no onze inicial do FC Porto contra o Estoril ficaram de fora Diego, Quaresma, McCarthy e Derlei. Eis como a abundância de estrelas se pode transformar num problema real

O futebol é assim mesmo: o Benfica, como uma equipa base em tudo idêntica à da época passada, menos o Tiago, vai à frente do campeonato com três vitórias em três jogos — nenhum dos quais esteve sequer perto de impressionar pela qualidade do futebol mostrado. Da mesma forma que ganhou anteontem em Coimbra, poderia perfeitamente ter empatado também que ninguém se admiraria, face àquilo que se viu.

O FC Porto, com uma nova constelação de estrelas que substituiu, em quantidade, as que saíram e que até levou José Mourinho a comentar que a equipa desta época é mais forte que a que foi campeã europeia, vai em quatro jogos consecutivos sem vencer (uma única vitória nos seis jogos sob o comando de Fernandez), perdeu a Supertaça Europeia, comprometeu a sua entrada em cena na Liga dos Campeões e, caso consiga ganhar amanhã ao União de Leiria no jogo em atraso, leva, mesmo assim, já quatro pontos a menos que o Benfica. E, todavia, se bem que o seu empate caseiro com o Estoril tenha castigado mais uma exibição sem chama nem tino, a verdade também é que, se tivesse ganho, ninguém se poderia espantar, face à enxurrada de jogo ofensivo, embora desconexo, e de ocasiões de golo de que dispôs na segunda parte.

Fez bem o jovem treinador estorilista Litos em vir desdizer, a frio, a sua observação a quente de que «não nos deixaram ir mais além». Ele é o mais novo treinador da SuperLiga e não lhe fica bem começar já com as habituais suspeitas e desculpas com a arbitragem, para mais quando elas não têm razão de ser. A única queixa válida que o Estoril teve sobre a arbitragem foi a falta cometida por Seitaridis sobre um avançado estorilista que corria com perigo para a baliza portista (embora ainda tivesse um defesa entre ele e a baliza); mas, cometida a falta, acabou o perigo, com o avançado no chão: mesmo que o árbitro, como devia, tivesse assinalado a falta e mostrado o cartão adequado a Seitaridis, é presunção a mais pretender que da cobrança do livre a uns 40 metros da baliza de Baía resultaria fatalmente o golo da vitória do Estoril, a dois minutos do fim. Na verdade, era impossível alguém ter impedido o Estoril de ir mais além quando a própria equipa renunciou ostensivamente a isso, passando a se gunda parte a defender com 10 jogadores dentro da área a vantagem que adquira com os dois únicos remates que fez à baliza do Porto em toda a primeira parte. Quando se tem a sorte do jogo é preciso não se ser ingrato.

O FC Porto podia, de facto, ter ganho. Eventualmente mereceu até ganhar, pelo que tentou e pelo azar que teve. Mas houve diversos erros próprios que o impediram, também. Desde logo a inclusão do Hugo Leal e do Hélder Postiga no onze inicial, em prejuízo do Quaresma e doMcCarthy.OHugo Leal não tem claramente futebol para a primeira equipa do Porto; e o Postiga será apenas o terceiro ponta-de-lança, se não for mesmo o quarto, atrás do Hugo Almeida, e isto porque, muito embora seja bom tecnicamente, tem uma total alergia à função primeira de um ponta-de-lança, que é a de marcar golos. Depois, a inclusão prematura do Derlei, em nítida baixa de forma — como reconheceu depois o próprio Fernandez —, soou a tentativa desesperada de mobilização psicológica da equipa, o que é preocupante. E a própria escolha do Derlei para marcar o penalty foi uma insistência no erro: Jorge, o guarda-redes do Estoril, confessou que se lembrou do jogo da Corunha e apostou que o Derlei iria marcar o penalty para o mesmo lado e da mesma maneira. Não era difícil: também eu adivinhei e acho que todos adivinhámos. É dos tais erros infantis.

A defesa portista abanou demasiadamente, como se o enxerto de três novas unidades fosse suficiente para desfazer todos os automatismos existentes. O ataque revelou a sua já habitual dificuldade em marcar golos, muito embora a forma atabalhoada como o Estoril se defendeu toda a segunda parte tivesse proporcionado inúmeras ocasiões, em que apenas a falta de sorte ou a excepcional prestação de um guarda-redes inspirado tenham evitado vários golos. Mas o ponto verdadeiramente grave desta equipa, para mim, está no meio-campo. Já há semanas aqui o escrevi: tendo- se reforçado tanto e tão caro e com tantos nomes sonantes, o FC Porto de 2004/05 deixou desfalcado o meio-campo. Saíram o Deco, o Pedro Mendes e o Alenitchev, três dos cinco jogadores que frequentavam habitualmente o meio-campo que foi campeão europeu (basta pensar na final de Gelsenkirchen e na contribuição decisiva de Deco e Alenitchev...). E entrou, com estatuto de titular, apenas o Diego, que vem com ritmo e mentalidade de futebol do GNT, jogado com temperaturas de 30 graus, humidade de 85 por cento, relva alta e jogadores que, quando são fintados, deixam-se ficar a aplaudir a finta do adversário. Na Europa não se joga assim e o Diego está a aprendê-lo à sua custa e à custa da equipa. O meio-campo do FC Porto tem vivido assim apenas pelo esforço de quem já conhece o estilo necessário: o Costinha, que até está em baixo de forma, o Carlos Alberto, absurdamente desviado para funções de extremo, que não é minimamente, e o incansável Maniche, que não pode chegar para tudo. É pouco e os resultados estão à vista: o meiocampo defende mal, não lança o ataque, não acorre às segundas bolas, falha na célebre pressão alta e faz com que os sectores joguem longe uns dos outros, sempre com passes feitos no limite, sem circulação de bola, sem confiança no controlo do jogo, sem saber se há-de atacar por um centro sempre povoado ou pelos extremos, que tantas vezes não existem ou são falsos. Esta equipa do FC Porto, a meu ver, foi construída desequilibradamente: tem demasiados defesas-esquerdos, o que até forçou a impensável dispensa do Rossato, e apenas um defesa-direito; demasiados defesas- centrais, trincos e pontas- de-lança e poucos médios armadores e extremos.

Compreende-se a tentação de Victor Fernandez, que conhece mal a equipa e tão pouco tempo teve para experimentar todos os jogadores, em lançar mão daqueles que, à partida, pareceriam os desequilibradores natos. O mesmo fenómeno viveu e vive o Real Madrid e daí os resultados catastróficos que acumulou no ano passado e vai acumulando este ano. Florentino Pérez achou que poderia construir uma equipa só de solistas e todos virados para o ataque, mesmo que tivesse de meter os extremos a médios e pontas-de-lança, como Raúl, a jogar atrás dos avançados. O que conseguiu foi construir uma equipa que é um caso notável de ambiguidade e desequilíbrio funcional: uma defesa cujos laterais só pensam em atacar e cujos centrais não valem nada e um meio-campo e ataque que se confundem nas suas funções e onde se sobrepõem e atropelam algumas centenas de milhões de euros de todas as proveniências.

Salvas as devidas proporções, o mesmo parece estar a acontecer com o FC Porto desta época: há uma profusão de jogadores quase obrigatórios (quanto mais não seja pelo dinheiro que custaram...) e um défice de jogadores necessários. Tanto Fernandez como Camacho parece terem começado a aperceber-se disso e foi curioso ver, no Real Madrid que este fim-de-semana perdeu com o Espanhol, que ficaram de fora jogadores como Figo, Zidane, Beckham e Raúl, enquanto no onze inicial do FC Porto contra o Estoril ficaram de fora Diego, Quaresma, McCarthy e Derlei. Eis como a abundância de estrelas se pode transformar num problema real.

Sempre ouvi dizer que uma boa equipa se constrói de trás para a frente. E, salvo melhor opinião e reconhecendo todas as limitações que Victor Fernandez tem tido, parece-me que é isso que está a faltar no FC Porto. Por mais estrelas que estejam em campo, a imagem dada é a de um conjunto de jogadores que não funciona como equipa, que não sabe o que há-de fazer com a bola, que não tem esquemas ofensivos que vão para além da inspiração individual de cada um, que não sabe como tapar os caminhos ao adversário e que, se encontra pela frente uma defesa cerrada, como a do Estoril ou a do CSKA, rapidamente cai na falsa solução dos centros por alto, desde o meio campo. A chave está no miolo, volto a insistir, e atrevo-me, por exemplo, a perguntar ao Victor Fernandez se já considerou a hipótese de um jogador chamado José Bosingwa para tentar dar mais alguma consistência e pulmão ao meio-campo. Depois, caramba, não é preciso que seja o próprio jogador, como o Diego, a dizer que não se sente em condições para jogar, quando já era manifesto que o não estava; não se pode manter a titular um ponta-de-lança que passa um jogo inteiro sem fazer um remate à baliza só porque «lutou muito»; não se pode confiar a transformação de um penalty decisivo a um jogador só porque ele em tempos marcou outro decisivo e sem ao menos lhe dizer para não o repetir, tal e qual; é preciso estar definido quem marca os livres e porquê, enfim, muitas outras coisas que qualquer treinador sabe melhor que eu.

O Benfica é uma equipa, embora formada por muito fracos jogadores. O FC Porto é um fortíssimo somatório de grandes jogadores mas não é ainda uma equipa. E isso não se consegue por simples voluntarismo.

O parente rico (7 Setembro 2004)

O mínimo exigível ao FC Porto, numa época em que dispõe de um orçamento que é mais do dobro do do Benfica e três vezes o do Sporting, é que vença tudo o que há para vencer, internamente. A vitória será, assim, banal; a derrota inexplicável

Dois mil adeptos, segundo rezam as crónicas, receberam no Dragão, entusiasmados, a última aquisição da época do FC Porto, Luís Fabiano. Compreende-se: o adepto comum quer é novos craques — verdadeiros, potenciais ou simplesmente ilusórios. E nada há, aqui ou lá fora, que mais gozo dê a um presidente de clube que apresentar as suas novas conquistas aos adeptos. Mesmo nestes tempos generalizados de suposta crise financeira dos clubes, comprar jogadores, por mais caros que sejam, continua a funcionar quase como o único critério, senão de uma boa gestão, pelo menos daquela que mais entusiasma os adeptos. E, por isso e até mais ver, os defesos continuarão a ser as épocas preferidas dos presidentes de clube, o seu território privado de protagonismo e glórias. A verdade é que há, no FC Porto ou noutro grande clube, dois mil adeptos para receber as novas estrelas da companhia mas não há dois mil adeptos ou sócios para olhar anualmente para as contas dos clubes e deitar-se a pensar quantos mais defesos de glória pode suportar o seu clube. A Europa está hoje cheia de clubes arruinados em sucessivos defesos onde o efémero gozo das aquisições de Verão foi depois pago com lágrimas de amargura. Aí está a arruinada Florentina a ter de recomeçar tudo do zero, partindo da IV Divisão italiana para tentar reconstruir a pulso, e agora com os pés assentes na terra, um clube dos mais antigos e prestigiados de Itália, desmoronado por dívidas e sonhos de Ptolomeu. Aí está o Corunha, que, pela primeira vez em muitos anos, não fez uma só aquisição neste defeso, sufocado que está por 120 milhões de euros de dívidas que não evitaram que, travado pelo FC Porto, falhasse o sonho da Liga dos Campeões e a derradeira tábua de salvação financeira. Dito isto, há que reconhecer que Luís Fabiano foi um bom negócio. Embora pessoalmente não me tenha entusiasmado por aí além das duas vezes que o vi jogar (continuo a preferir o sportinguista Liedson, cujo passe não vale nem 10 por cento do de Fabiano), a verdade é que um jogador do lote dos 18 habituais da selecção brasileira, apenas a troco do desembolso de 1,85 milhões de euros, é um excelente negócio. Resta saber o que vai a tal Global Investments, que ficou dona da fatia de leão do passe, exigir para rentabilizar o seu investimento—certamente que não investiram milhões de euros apenas pelo prazer de o ver jogar de azul e branco. O problema, aquilo que traz alguns portistas bastante apreensivos, não é, pois, o negócio específico de Luís Fabiano mas sim todos os outros que a Torre das Antas celebrou neste defeso. Por exemplo: no mesmo dia em que Luís Fabiano era apresentado em grande estilo e a troco de apenas 1,85 milhões de euros, pela porta dos fundos entrava discretamente mais um brasileiro, Thiago de seu nome, defesa-central destinado à equipa B e adquirido, segundo li, por... 2,5 milhões. Quinhentos mil contos por um defesa de 19 anos para a equipa B? Mas isso nem oReal Madrid paga! E, no mesmo dia, o último (felizmente!) para o fecho dos negócios saía pela porta dos fundos e por menos do que havia custado há dois meses, nada menos que o Rossato — o melhor defesa-esquerdo do campeonato do ano passado e que nem chegou a ter uma verdadeira hipótese de se mostrar. Aliás, como o Paulo Assunção, duas vezes comprado e duas vezes emprestado— desta logo após a compra. É difícil de entender como é que um clube português, cronicamente deficitário na sua gestão corrente, se pode dar ao luxo de comprar 12 jogadores numa época só para a equipa principal, quando apenas vende seis e mantém uma outra dúzia emprestada a outros emblemas, mas com os ordenados a serem pagos, no todo ou em parte, por esse mesmo clube. Ou como é que se pode dar ao luxo de comprar jogadores para imediatamente os emprestar, para imediatamente os vender a perder dinheiro ou pagar meio milhão de contos por um defesa de 19 anos, directamente destinado à equipa B. Bem sabemos que este foi um ano excepcional, único e irrepetível, em que subitamente a tesouraria do clube se viu inundada de dinheiro, como nunca nos mais de 100 anos de história do FC Porto. Para isso convergiram três factores, qualquer deles, por si só, quase impossível de repetir-se e virtualmente impossível de voltar a acontecer simultaneamente com os outros dois: a vitória na Liga dos Campeões, a ida do seu treinador para um clube estrangeiro, arrastando compras de jogadores que treinava, e a propriedade desse clube por parte de um multimilionário de ocasião, que seguramente não estará muitos mais anos nem no Chelsea nem em liberdade. Esse conjunto de circunstâncias excepcionais deve-as o FC Porto ao mérito desportivo, à sorte e a José Mourinho — um verdadeiro rei Midas desportivo e financeiro que por lá passou. À conta disso o FC Porto facturou neste defeso a impensável soma de 81,85 milhões de euros, entre cedências de jogadores e do próprio treinador. Se a esta soma descontarmos a parte dos passes que não pertenciam por inteiro ao clube e as comissões de agência de Jorge Mendes (que fortuna ele não deve ter feito!), e se acrescentarmos as receitas da Liga dos Campeões, concluiremos que o FC Porto obteve, na época que terminou em Julho, receitas extraordinárias entre os 60 e os 70 milhões de euros. Chegaria, provavelmente, para acabar de pagar o estádio e ainda pôr a zero o passivo acumulado em tantos anos em que as receitas não cobriram as despesas. E, porque se tratava de uma oportunidade única para o fazer, para poder arrumar de vez a casa e poder iniciar um novo ciclo em que o clube não tivesse de viver dependente de um novo Totoloto, teriam de ser extremamente ponderosas as razões para o não fazer. Até porque, convém lembrá-lo de vez em quando, o FC Porto é uma sociedade anónima, em que aos sócios deve ser explicado porque não têm direito a quaisquer dividendos de lucros tão extraordinários, se ainda por cima eles não são aplicados para liquidar o passivo mas antes em constantes novos investimentos em jogadores, alguns logo à partida excedentários. É óbvio que o FC Porto tem vários títulos e um prestígio internacional adquirido a defender e que, por isso e porque vendeu excepcionalmente bem, teria de ir às compras para de algum modo minimizar os danos resultantes das saídas de Deco, Alenitchev, Pedro Mendes, Paulo Ferreira e Ricardo Carvalho. Todos os portistas o entendem e todos, creio até, o exigiam. O problema está, como várias vezes tenho escrito, num critério que tende a privilegiar a quantidade sobre a qualidade: não tenho dúvidas algumas sobre a justeza das aquisições do Diego, do Pepe, do Seitaridis, do Ricardo Quaresma e até do Luís Fabiano. Mas dificilmente entendo a necessidade do Areias, do Raul Meireles, do Hélder Postiga (e ao preço que foi), do Hugo Leal e do Paulo Assunção. E jamais entenderei a lógica da compra, para imediata venda, do Rossato. O FC Porto acabou assim por gastar mais de 33 milhões de euros em compras — o que representa 7 vezes o investimento do Benfica e quase 15 vezes (!) o do Sporting. A questão que se põe é simples: havia necessidade? Nesta época que agora se iniciou, excepção feita a FC Porto, Nacional e a Académica, nenhum dos clubes da SuperLiga aumentou o seu orçamento relativamente ao ano passado. E, como os investimentos têm de ter retorno, o mínimo exigível ao FC Porto, numa época em que dispõe de um orçamento que é mais do dobro do do Benfica e três vezes o do Sporting, é que vença tudo o que há para vencer, internamente. A vitória será, assim, banal; a derrota inexplicável.

P. S. — Sempre achei que as claques organizadas serviam para berrar e não para expor qualquer pensamento articulado. A fantástica conferência de imprensa dos Super Dragões veio confirmá-lo. Cabe agora a estes portistas de gema provar, contra o seu clube, aquilo que ainda ninguém conseguiu provar: que o Mourinho rasgou mesmo a camisola do Rui Jorge. Façam favor.

Um pouco mais de futebol, s. f. f.(14 Setembro 2004)

Ainda agora se começou e já se joga para os pontos, sem qualquer preocupação pela qualidade do espectáculo, e com as justificações habituais: pouco tempo de treino, início de época, integração de jogadores novos, assimilação dos métodos dos novos treinadores ou até a necessidade de começar já a poupar energias para o resto da época.


REGRESSOU enfim o futebol de competição e regressou em fraqueza. Ainda agora se começou e já se joga para os pontos, semqualquer preocupação pela qualidade do espectáculo, e com as justificações habituais: pouco tempo de treino, início de época, integração de jogadores novos, assimilação dos métodos dos novos treinadores ou até a necessidade de começar já a poupar energias para o resto da época. Confesso que já tenho saudades de ver um bom jogo de futebol, bem jogado do princípio ao fim. Repare-se na Selecção: arrastou- se na Letónia, durante mais de uma hora, para, subitamente e inspirada por uma stripper espontânea e dois rasgos de Cristiano, resolver num minuto o que aquele futebol de sucessivos passes entre os defesas e os médios, sem qualquer agressividade ou objectivo aparente, não parecia capaz de resolver. Recebemos a Estónia e até a 13 minutos do fim,mostrámos um futebol capaz de curar as insónias do doente mais persistente – excepção feita a dois momentos em que a Estónia esteve na iminência de conseguir um escandaloso golo na baliza de um Ricardo eternamente aos papéis de cada vez que a bola é jogada na pequena área.Mas eis que o Deco cruza a preceito, o Cristiano eleva-se como mandam os manuais do ponta-de-lança e, de repente, foi como se uma torneira de segurança se tivesse aberto: 4-0,um resultado em que ninguém teria apostado a um quarto de hora do fim. Começo a admirar sinceramente este Luiz Felipe Scolari: o homem não só é um dos melhores profissionais de marketing que eu já vi actuar, como é também um dos sujeitos com mais sorte que eu conheci até hoje – a seguir, talvez, ao Pedro Santana Lopes.

Repare-se agora no FCPorto, orgulho e raça da nação, campeão nacional e europeu, maior vendedor de estrelas de todo o defeso.Em todos os jogos «a sério» que disputou até agora, amigáveis ou oficiais, ficou- se sempre por um golo marcado: contra o Arsenal (vitória), o Galatasaray (derrota), o Boavista (empate), o Benfica (vitória), o Valência (derrota) e o Braga (empate). Com um ataque com o Quaresma, o Maciel, o Derlei, o McCarthy, o Postiga, o Hugo Almeida (o César Peixoto não, esse é umtremendo erro de casting), este ataque não consegue marcar mais do que um golo por jogo? E aquele meio-campo de luxo, com o Carlos Alberto, o Costinha, o Diego e o Maniche (O Hugo Leal não, é outro erro de casting), como não consegue ele lançar um ataque em condições, segurar o jogo, manter a posse de bola, ao ponto de a «táctica de jogo estar reduzida à forma mais simples: pontapé do Baía directamente por cima da defesa e do meio campo a lançar o ataque? É preciso recuar aos deprimentes tempos do Octávio para lembrar uma equipa do FC Porto tão falha de ideias, de inspiração, de espírito de conquista. É facto que se perdeu um mês decisivo com esse outro erro de casting que foi o Del Neri, e é facto também que Victor Fernandez ainda não conseguiu ter, cinco dias que fosse, o onze principal todo junto para ensaiar com ele o que quer que seja. A tendência, fatalmente, só pode ser para melhorar e muito estranho seria que jogadores como um Seitaridis, um Carlos Alberto, um McCarthy ou um Diego não conseguissem desmentir rapidamente esta frustrante imagem de banalidade que têm mostrado. Espera- se ainda a estreia de Luis Fabiano e um rápido regresso de Derlei, não apenas em boas condições físicas, mas também na posse da plenitude das suas qualidades futebolísticas que, desde o malfadado jogo de Alverca, nunca mais se viram verdadeiramente. Quem sabe, talvez já esta noite, no regresso oficial ao Dragão e no primeiro e fundamental jogo de defesa do título europeu, o FC Porto possa dar uma amostra de reencontro com o espírito da equipa que deu cartas no futebol europeu dos últimos dois anos. Uma entrada com o pé esquerdo na Liga dos Campeões poderia ter efeitos psicológicos graves e comprometedores para toda a época.

Entretanto, a sua estreia no campeonato ficou marcada por aquela exibição de fraqueza e abulia em Braga. Tornou-se demasia- do evidente que a equipa passou a jogar para o 1-0, logo que aos 3 minutos o génio de Maniche a colocou de imediato em avanço. Todavia, mesmo jogando mais do que o FC Porto, pareceu-me a mim que o Braga não chegaria por si só ao empate, não fosse, uma vez mais, a alergia de Pedro Proença ao azul e branco. Notável a forma incisiva como ele conseguiu ver de imediato a falta do Quaresma sobre o Wender, que nenhuma imagem televisiva conseguiu esclarecer claramente, e como ele conseguiu ver que a falta, a existir, tinha acontecido dentro da área – quando todas as imagens vistas mostram o Wender sobre o risco da área.Mas mais fantástico ainda foi o facto de ele, que tão peremptoriamente tinha assinalado um penalty tão duvidoso contra o FC Porto, dez minutos depois não ter sido capaz de ver um penalty tão evidente contra o Braga. Dizia o jornalista de «A Bola» que talvez ele não tenha visto, mas as repetições televisivas mostram claramente Pedro Proença a não mais que três metros do lance e, sem ninguém no meio, a ver o jogador do Braga, de frente para ele, a meter descaradamente a mão à bola. Pelo que, dúvidas não há: o árbitro viu o penalty.A questão resume- se, assim, a saber porquê que não o marcou – porque não gosta de marcar dois penalties no mesmo jogo, porque achou que oPorto não merecia ganhar daquela maneira, porque é devoto do Bom Jesus de Braga? Nestas coisas, eu acho sempre que uma equipa não tem grande legitimidade para se queixar das decisões dos árbitros quando não justificou no jogo outro resultado que não o que obteve – como foi o caso do FC Porto em Braga. Mas a verdade é que há por aí muita gente que defende o contrário, que chega ao fim da época e apesar de a sua equipa nunca ter mostrado merecimento para tal, vem declarar solenemente que, não fossem x pontos «roubados» pelos árbitros e teriam sido campeões.Assim, e para a contabilidade pessoal do dr. Dias da Cunha, deve ficar desde já registado que, na primeira jornada do campeonato, o «sistema» tirou ao FC Porto dois pontos em Braga.

Quanto aos rivais, o Sporting confirmou a sua tendência para a inconstância das exibições e dos resultados, diminuindo-se estranhamente longe de Alvalade.Falta-lhe uma continuidade de autoconfiança (gritante na forma como cedeu o 2.º lugar ao Benfica, no final da época passada) e que a categoria de alguns dos seus jogadores torna difícil de entender.Desmentindo a minha própria previsão de pré-época, o Benfica, por seu lado, vai revelando que não passa de uma equipa banal, eventualmente esforçada, mas não mais do que isso. Leva duas vitórias em outros tantos jogos – o que deve ser motivo de inesperado júbilo por aquelas bandas – mas nem empurrada por todos os carrinhos de mão disponíveis consegue disfarçar a sua absoluta impotência na hora da verdade, para tanto bastando que lhe saia ao caminho um simples Anderlecht. Bem, e o Boavista continua igual a si mesmo e igual à descrição que dele aqui fiz há umas semanas: joga para marcarumgolito fortuito e defendê- lo como se estivesse a defender a virgindade de uma princesa prometida, com muita pancada, muito antijogo, muitas lesões simuladas, muitas perdas de tempo, faltas constantes e sucessivas (74, segundo a contagem televisiva no jogo contra o Gil Vicente!), e uma arte única de conseguir enervar os adversários ao ponto de os pôr a jogar igual. Por mais que me esforce, não consigo perceber como é que há adeptos disponíveis para apoiar este futebol.

Enfim, talvez eu seja mais exigente ou mais pessimista que o comum dos outros. Vejo por aí gente quase exultante com «as primeiras indicações» do campeonato ou as primeiras prestações da Selecção na qualificação para o Mundial da Alemanha. Eu bem sei que, quando o Benfica vai à frente, nem que seja nos primeiros fogachos, o «país futebolístico » anda mais contente e satisfeito, e, se ainda por cima a Selecção cumpre os mínimos exigíveis no grupo de qualificação mais fácil de que há memória para algum candidato a uma fase final de um Mundial, então a felicidade é dupla. Contentamo- nos com pouco? Depende daquilo a que cada um está habituado.

sexta-feira, setembro 03, 2004

Uma questão de atitude ( 31 Agosto 2004)

Às vezes, quando vejo a facilidade com que se abespinham com as críticas estes habitantes do futebol português, pergunto-me se eles, porventura, nunca leram a imprensa desportiva dos países mais fortes futebolisticamente: a Espanha, a Itália, a Inglaterra, o Brasil

1- Francis Obikwelu deixou o País de boca aberta depois de ganhar uma impensável medalha de prata nos 100 metros dos Jogos Olímpicos de Atenas. Depois disso passeou-se nas eliminatórias dos 200 metros e, a recuperar de uma febre, bateu-se ainda por uma medalha na final mas não conseguiu melhor que um, mesmo assim brilhante, 5.º lugar. No final pediu desculpas aos portugueses por não ter alcançado a segunda medalha —ele que já tinha feito muito mais que a sua obrigação. O brasileiro Vanderlei Lima correu quase uma hora isolado na maratona. A sete quilómetros da chegada, quando lutava desesperadamente por manter o seu avanço sobre um duo perseguidor, foi derrubado por um irlandês tresloucado que, louco ou não, merecia ser açoitado e preso durante um bom par de anos. Derrubado, assustado, com o ritmo fatalmente comprometido, Vanderlei Lima levantou-se e regressou à corrida, não conseguindo evitar que os dois que o perseguiam o ultrapassassem. Mas, contrariando a lógica e as expectativas, cerrou os dentes, foi inventar novas forças e novo ânimo aos seus tempos de bóia-fria e segurou o bronze: foi, talvez, o momento mais bonito dos Jogos. No final recusou-se a responder à pergunta óbvia: se teria ganho a maratona sem a intervenção do imbecil do irlandês. Limitou-se a dizer que não queria arranjar desculpas para não ter ganho. Ninguém, em competição alguma, é obrigado a ganhar. Mas ninguém, na alta competição, no desporto profissional, está desobrigado de tentar tudo para ganhar ou, pelo menos, para se ultrapassar nos grandes momentos. É esse o espírito dos grandes desportistas.

2- Em Bruxelas o Benfica perdeu uma vez mais a possibilidade de regressar ao convívio dos grandes da Europa, na Liga dos Campeões. Uma vez mais desaproveitou a possibilidade de qualificação, que deve ao FC Porto, e desaproveitou a sorte que tem tido nos sorteios europeus (veja-se a Taça UEFA do ano passado e já a deste ano, veja-se esta eliminatória da Liga dos Campeões). O Anderlecht era, há uns anos atrás, uma boa equipa europeia mas a lei Bosman, que veio para cavar um fosso definitivo entre os clubes ricos e todos os outros, acabou com esses tempos. Hoje o Anderlecht é uma equipa pouco mais que banal e perfeitamente ao alcance do Benfica, como os primeiros 20 minutos do jogo de Bruxelas mostraram: bastaria um mínimo de talento, de lucidez e de combatividade para segurar ou ampliar a vantagem trazida de Lisboa. Em vez disso, o Benfica sucumbiu ao primeiro golpe e afundou-se por completo, só por acaso não tendo saído vergado a uma derrota por números escandalosos. Se eu fosse benfiquista terme-ia sentido humilhado e ofendido pela exibição da equipa em Bruxelas. Alguns benfiquistas também o sentiram e manifestaram-no—para além da grande falange dos que há muito já desistiram de esperar boas notícias. Mas, nestas ocasiões, há sempre quem se preste a minimizar o alcance dos falhanços e insinue que as críticas vêm de fora e são jogadas dos adversários. Viu-se agora: bastou uma feliz vitória tangencial sobre o Beira-Mar, em condições mais que favoráveis pela maciça presença de adeptos benfiquistas, para que alguns jogadores logo desatassem a sacudir as críticas injustas e até a falar já na conquista do título — como se ganhar ao Beira-Mar fosse tão fácil como ganhar o campeonato e como se ganhar ao Beira- Mar pudesse fazer esquecer a tremenda desilusão de, uma vez mais, falhar a Liga dos Campeões. O mais estranho ainda é que o próprio director do futebol benfiquista, o ex-empresário José Veiga, foi quem encabeçou as críticas aos críticos, a quem chamou «pessoas quase mortas» e a quem mandou calar nos tempos mais próximos, por virtude da extraordinária vitória alcançada... sobre o Beira-Mar! Quando isto os contenta, quando o grau de exigência interno da equipa não vai além disto e quando o exemplo vem de cima, parece-me a mim (mas devo estar morto e não o sei...) que é difícil instalar nesta equipa um espírito de vitória, de há muito perdido. Mas eles lá sabem...Também há uns anos atrás, em ocasião semelhante, Vale e Azevedo veio dizer que não era importante nem decisivo para o Benfica entrar na Liga dos Campeões. Pois se não o acham...

3- Às vezes, quando vejo a facilidade com que se abespinham com as críticas estes habitantes do futebol português, pergunto-me se eles, porventura, nunca leram a imprensa desportiva dos países mais fortes futebolisticamente: a Espanha, a Itália, a Inglaterra, o Brasil. É que lá, quando uma equipa joga mal, quando os jogadores não correm e não jogam, quando os treinadores falham, a crítica é impiedosa, não faz cerimónia perante quem é protagonista de um espectáculo público, que é pago e bem pago. Às vezes pergunto-me até se esta gente já realizou que vivemos em democracia, onde a liberdade de expressão é um direito e a crítica às profissões públicas um dever. Ou pensarão eles que a crítica de cinema, de teatro, de música, de livros, de televisão, é livre mas a do futebol deve ser condicionada a eles próprios, em circuito fechado? Lembrei-me também disso esta semana, depois de ter lido uma citação do habitual caluniador Octávio Machado, em que me chamava «moço de recados» (gostaria de saber de quem...). Ora, embora eu ache o personagem mesquinho e detestável, a verdade é que nunca o ataquei pessoalmente mas apenas o critiquei profissionalmente, tendo defendido sempre e abertamente, desde o primeiro dia e contra a direcção do meu clube, que ele não servia para treinador do FC Porto. E limitei-me, aliás, a ter razão antes de tempo, conforme os factos e os resultados vieram depois a demonstrar, forçando a direcção do clube a abreviar-lhe a estada, antes que ele desfizesse de vez a equipa. Comparando os resultados da sua passagem pelo Porto com os de José Mourinho, o mínimo que Octávio Machado poderia fazer, se tivesse consciência do ridículo, era ficar calado para sempre, em lugar de andar ciclicamente a exibir o seu ressentimento de cada vez que alguém, vá-se lá saber porquê, ache interessante ir ouvir o que tem para dizer. Como se não fosse ele que tivesse falhado notoriamente, e à vista de todos, mas sim quem criticou a sua prestação ou quem veio depois pôr a nu a sua insustentável incompetência!

4- A semana foi também decepcionante para o FC Porto, com a perda em dois anos consecutivos da Supertaça Europeia. É verdade que Victor Fernandez foi confrontado com vários problemas quase inultrapassáveis, como o pouco tempo de treino e conhecimento da equipa, as lesões de jogadores fundamentais, a falta de mais um médio (saíram o Deco, o Pedro Mendes, o Alenitchev, o Ricardo Fernandes e só entraram o Diego o Raul Meireles e o Hugo Leal), a continuada baixa de forma de um jogador decisivo como o Costinha e de todos os pontas-de-lança, simultaneamente. Mas já deu para perceber que, neste início de temporada, os pontos fortes da equipa estão no Baía, no Pepe, no Maniche, Diego, Quaresma e Carlos Alberto. O Diego estava magoado mas o Quaresma não se percebe que tenha ficado mais de uma hora no banco, preterido por um totalmente ineficaz Hugo Leal e por um4x4x2 em que os dois pontas-de-lança não tinham quem os servisse, para mais com Carlos Alberto deslocado para inglórias tarefas defensivas, ele que é um notável desequilibrador no jogo ofensivo. Apesar de todas as dificuldades conhecidas e não menosprezáveis, apesar de o Valência estar longe de ser um Anderlecht, a verdade é que a derrota deixou em todos os portistas com quem conversei um sabor de amarga frustração. Por ser a segunda vez consecutiva que falhámos a Supertaça mas também por se ter visto que a equipa sofre de um notável défice de imaginação e simplicidade de processos ofensivos, parecendo que os jogadores continuam a ter uma extraordinária capacidade de luta pela posse da bola mas depois não sabem o que fazer com ela. Enfim, salvou-se o espírito de combate, a vontade de vencer e o inconformismo perante a derrota, que são a imagem de marca desta fantástica equipa. E a verdade também é que a procissão vai no adro e nós, portistas, estamos muito mal (ou muito bem...) habituados.

5- Uma das maiores dificuldades que Victor Fernandez tem encontrado é, por paradoxal que pareça, ter uma equipa para treinar. Repare-se o que tem sido este início de temporada: cinco jogadores do Europeu apenas integraram o estágio três semanas depois dos outros; quando chegaram, partiram outros cinco para a Selecção Olímpica; regressados estes, vão partir agora outros cinco para a Selecção A (além de Seitaridis e McCarthy, para as respectivas selecções) e mais outros cinco, entre os quais Raul Meireles e Ricardo Quaresma, para os sub-21. Se a isto juntarmos os lesionados, se pensarmos que o Diego chegou após disputar a Copa América, é fácil constatar que desde que a época começou, há mais de mês e meio, não deve ter havido um só dia em que todos os jogadores tenham estado disponíveis para o clube. Ocorre perguntar se faz sentido haver tantas Selecções: sub-18, sub-20, sub-21, sub-23, olímpicos e A—já nem sei bem quantas são. Ocorre perguntar, como o presidente do COP, se faz sentido sequer que o futebol seja uma modalidade olímpica. E ocorre perguntar até quando é que os clubes vão ter de sustentar uma situação em que são obrigados a pagar ordenados a jogadores que passam grande parte do seu tempo ao serviço de uma profusão de Selecções Nacionais. É assunto a que voltarei.

O pior do futebol ( 24 Agosto 2004)

Deixemo-nos de hipocrisias e cerimónias: esta equipa do Boavista treinada por Jaime Pacheco é um caso lamentável de antijogo, verdadeiro paradigma das razões pelas quais o público se afasta dos estádios

1. No momento em que escrevo isto não sei ainda se o Derlei terá ou não de ser operado, se estará afastado dos relvados duas ou muitas semanas. Seguramente não jogará a final da Supertaça contra o Benfica nem a final da Supertaça europeia contra o Valência. A entrada assassina que sofreu do Toñito prejudica seriamente os interesses do clube que lhe paga e os do próprio jogador – que é um exemplo de combatividade, espírito de sacrifício e lealdade, que torna ainda mais chocante o acto de que foi vítima. Se o Conselho de Disciplina da Liga não existisse quase só para perseguir o FC Porto e proteger o Boavista, o mínimo – repito, o mínimo – que sucederia ao Toñito era o que sucedeu ao Paulinho Santos, quando partiu o nariz ao João Pinto: ficar de fora até que o Derlei regresse em pleno. Quando soube que o FC Porto iria deslocar-se ao Bessa para um «jogo amigável» fiquei logo apreensivo e achei demasiado temerária a atitude da direcção portista de aceitar tal jogo: sabendo nós como joga o Boavista de Jaime Pacheco, tudo o que vá para além dos jogos oficiais, de onde se não pode fugir, é um risco a evitar. E, mal o jogo começou, eu bati três vezes na madeira, desejando que nenhum jogador do FC Porto saísse dali lesionado, aumentando ainda o impressionante rol de baixas para o jogo com o Benfica, na próxima sexta-feira. Infelizmente, a sorte não ajudou e sucedeu aquilo que é o mais normal suceder contra esta equipa do Boavista. E porquê? Porque, deixemo-nos de hipocrisias e cerimónias, esta equipa do Boavista treinada por Jaime Pacheco é um caso lamentável de antijogo, verdadeiro paradigma das razões pelas quais o público se afasta dos estádios. Quando o Boavista de Pacheco foi campeão, eu escrevi isto mesmo – ainda bem para o clube, que já o merecia, ainda mal para o futebol, que o não merecia. Mas, como o Campeonato foi ganho ao FC Porto, o inimigo público do resto do país, toda a gente se desfez em elogios. Criaram um monstro e agora ninguém o segura. Mas, se eles cometerem o erro de partir uma perna ao Mantorras ou ao Liedson, então vão ficar todos indignados. O Campeonato está à porta e porque, segundo afirma o próprio, é este o Boavista que Pacheco quer, é assim que ele gosta das equipas e entende o futebol, não há lugar a pensar que o que se passou anteontem no Bessa foi um acidente de percurso e não o início do percurso que se pretende. E, como a opinião é livre, quer de um lado quer do outro, vou dizer o que penso sobre o «futebol» deste Boavista de Jaime Pacheco: a) O Boavista de Jaime Pacheco não joga nem pretende jogar futebol: pretende apenas evitar que os adversários joguem; b) Para isso, vale tudo, rigorosamente tudo, o que os árbitros, como esse lamentável Paulo Costa, lhe consentem: rasteiras, cotoveladas, socos, pontapés por trás, faltas constantes e sistemáticas a meio-campo para evitar a organização ofensiva do adversário, insultos, intimidações, perdas de tempo, tudo menos assumir o risco de querer jogar futebol; c) O Boavista não joga para marcar golos, mas apenas para os evitar. O zero-zero é um grande resultado, o 1-0 uma goleada; d) Por isso, nenhum jogo onde intervenha o Boavista, particularmente se disputado no Bessa, pode ser um bom jogo de futebol. Porque o adversário é inibido e impedido de jogar, os seus jogadores mais criativos são implacavelmente massacrados e todo o seu jogo construtivo é destruído à nascença pelo recurso sistemático à falta, que corta jogo, desgasta fisicamente e desmoraliza. Quando joga o Boavista, não há golos, não há oportunidades de golo, não há jogadas levadas do princípio ao fim sem faltas. Há, em contrapartida, interrupções constantes, cartões sem fim, uma média de faltas superior a minuto e meio, um tempo útil de jogo que nunca chega aos cinquenta por cento, violência, «sururus», agressões, expulsões – normalmente, e por ironia absoluta, dos adversários. Por alguma razão Jaime Pacheco não se aguentou mais do que um trimestre em Maiorca: porque os espanhóis gostam de ver futebol e por isso é que têm os estádios cheios, enquanto o Bessa está sempre às moscas; e) Mas o pouco público boavisteiro que vai ao Bessa merece inteiramente a equipa que tem e o futebol que vê: são eles, como ainda se constatou no jogo de ontem, que, ao verem um jogador da casa perseguir um adversário, gritam lá para dentro «dá-lhe, dá-lhe!». Este público, que não se importa que a equipa desdenhe do espectáculo e do jogo, que enxovalhe o nome do clube à vista do país na televisão, é o pior público do futebol: aquele que não vai lá por gostar de futebol, mas porque tem contas a ajustar coma vida ou problemas do foro psicológico que acham poder resolver assim; f) Curiosamente, quando o Boavista joga para as competições europeias, tudo muda de figura. Os jogadores sabem que não podem contar aí com a protecção dos árbitros a que estão habituados cá dentro e acontece-lhes até terem de jogar futebol e jogarem bem; g) O que prova que o futebol arruaceiro e caceteiro do Boavista não acontece por acaso, mas por uma atitude deliberada, ensaiada, treinada e incentivada. E por quem? Obviamente por Jaime Pacheco, que ainda anteontem, depois de mais uma entrada a «varrer» de um tal André Barreto sobre um adversário, batia palmas na lateral. Manifestamente, Jaime Pacheco deveria optar antes por ser treinador de kung-fu, kick-boxing ou wrestling. De futebol é que não. Ele faz mal ao futebol, causa danos, desrespeita o jogo, o público, os adversários. Um treinador que tivesse o mínimo de respeito pelo jogo e pelos jogadores, teria tirado o Toñito de campo logo após a sua entrada sobre o Derlei; h) Se observarem com atenção, verão que a estratégia de sarrafada do Boavista não é aleatória nem ao sabor dos acontecimentos. Pelo contrário, obedece a um plano e é ela que comanda e desencadeia os acontecimentos. Os objectivos principais são impedir o jogo do adversário, intimidar e diminuir fisicamente os seus principais jogadores, enervá-los e arrastá-los para o mesmo clima de violência e nervos à flor da pele, onde a superioridade futebolística se perde por completo. Desta estratégia decorrem algumas variantes «tácticas». Por exemplo, não começam todos a distribuir pancada ao mesmo tempo: são seleccionados um ou dois, que fazem as despesas iniciais até levarem finalmente um amarelo; aí, transformam-se em cordeirinhos e avançam outros que os substituem e assim sucessivamente. Outra variante táctica manda que os jogadores do Boavista comecem a distribuir pancada logo desde o minuto inicial e sabendo que contam com a complacência dos árbitros portugueses, que acham que os cartões não são para mostrar no início. Quando, após uma meia-hora de jogo a levar pancada sem reacção do árbitro, o adversário se enerva e começa a responder na mesma moeda, então, como que por milagre, o árbitro desperta e começa a sacar dos cartões... para o adversário. A história dos Boavista-FC Porto dos últimos anos está repleta de episódios destes. Eis a equipa do Boavista que se apresenta para disputar o próximo Campeonato. Continuem a protegê-la mas depois não venham lamentar-se de que os espectáculos são deploráveis e que não há público nos estádios.
2. O pior do futebol português esteve também presente na prestação da Selecção Olímpica contra o Iraque. Não foi só o jogo displicente, o ar de turistas em férias, a bandalheira táctica da equipa. Foi a cultura da «cotovelada», o esforço trocado pela violência gratuita, o tom de meninos mimados que não sabem ganhar nem perder. Parece que ninguém lhes explicou que estavam nuns Jogos Olímpicos. Se fosse eu a mandar, tinha-os mandado para casa imediatamente. Não há medalha que possa valer aquela vergonha. Mas este é o país onde o Amoreirinha passou impune depois de fazer o que fez em Toulon...

3. Nestas duas semanas de férias, das coisas que mais me divertiu foi ver o desespero dos articulistas do Benfica e Sporting perante o despedimento de Del Neri. Eles já afiavam o dente de contentes, ao verem, como todos víamos, que o pobre italiano da mochila tinha conseguido em menos de um mês dar cabo do trabalho de dois anos e meio e prometia continuar, se ninguém o agarrasse. Quando Pinto da Costa o mandou de volta para casa, choveram os artigos moralistas, a dizer que isso não se faz, olha que arrogância, que prepotência! Houve até quem escrevesse contra o «dócil rebanho portista», que, habituado à subserviência, já nem ousava levantar um suspiro contra as decisões prepotentes do «papa» – fingindo não perceber que o que sucedeu foi justamente o contrário: o «papa» é que escutou a vontade e a sabedoria do povo portista. Como não se conseguia destruir de fora e em campo aberto aquela equipa que mandou na Europa nos últimos dois anos, havia a fundada esperança de a ver implodir por dentro. Esteve próximo, mas falhou. Desculpem lá. Mas numa coisa eles têm razão: está por explicar como e porquê Pinto da Costa foi inventar este lírico italiano. Sendo certo que erros destes todos cometemos – senão não haveria despedimentos nem divórcios... – um erro tão evidente e tão previsível dá que pensar. Por exemplo, que a pressa é má conselheira.

Espírito olímpico (17 Agosto 2004)

Que haja alguma noção de decência e decoro: a Selecção olímpica que esteve em Atenas não merece receber qualquer prémio. Merece, quanto muito, pagar multa. Para que não se ande a criar toda uma geração de atletas para quem a derrota é banal e a vitória é uma oportunidade para reclamar privilégios

1 Foi preciso um português nascido naNigéria—oumelhor, umnigeriano naturalizado português—para que a participação olímpica portuguesame despertasse algum entusiasmo. Francis Obikwelu não apenas conquistou uma brilhante e impensável medalha de prata nos 100 metros como ainda destoou, pela atitude, da quase totalidade da nossa delegação olímpica: a ele não lhe ouvimos desculpas esfarrapadas, queixas de falta de apoios, reclamações contra a organização, as instalações ou os próprios Jogos. Foi lá para tentar o melhor e concentrou- se apenas nisso.Teve vontade e orgulho de ganhar, ao contrário de outros que encararam as derrotas e eliminações sumárias quase como uma fatalidade para que o País deve estar preparado, ao ponto de ter eu ouvidoumatleta, instantaneamente eliminado, desabafar: «É bom perder!»

A proeza de Obikwelu torna-se assim ainda mais notável pelo valor de excepção que a sua atitude competitiva teve. É verdade que não foi o único, mas quase o único. É verdade também que antes tinha havido a surpresa da medalha de prata de Sérgio Paulinho mas eu, no que respeita ao ciclismo, desculpem lá, há muito que deixei de acreditar. Há o Lance Armstrong, cuja história pessoal e desportiva o torna motivo de admiração em todo o Mundo, e o resto, quanto a mim, é para duvidar. O longo e interminável historial de doping no ciclismo tornou a modalidade desacreditada. A meus olhos, pelo menos. Aliás, omesmo vai acontecendo um pouco com os Jogos Olímpicos e, em especial, com esta edição de Atenas. São já demasiados os casos de doping detectados (apesar da sofisticação dos meios utilizados para o seu encobrimento), demasiadas batotas, demasiadas dúvidas e desconfianças. Mesmo nos casos aparentemente limpos e sem mácula, nós olhamos para os atletas e dá que pensar: ginastas que não passam de meninas na puberdade e que tiram vantagem do seu ínfimo peso e tamanho, mulheres de outras modalidades que são homens autênticos, corpos estranhos embrulhados em estranhos fatos de competição (por exemplo, reparei que os saltadores para a água desenvolveram agora um estranho músculo lateral, ao nível do peito, que eu nem sabia que existia...). Grande parte daquilo parece-me muito pouco natural, muito pouco desportivo, nada olímpico.

2 No que respeita à nossa participação em Atenas, se o melhor foi até agora a corrida de Obikwelu nos 100 metros, o pior, o insustentável, foi, obviamente, a prestação da Selecção olímpica de futebol. Gostaria de saber se também neste caso a Federação vai pagar prémios de presença e prémios de jogos. É que muita gente esquece-se de que os jogadores de futebol, ao serviço de qualquer Selecção Nacional, se é verdade que em alguns casos acumulam desgaste competitivo, também é verdade que em todos os casos acumulam benefícios financeiros com essa participação: mantêm por inteiro o ordenado que lhes é pago pelos clubes e recebem ainda as diárias e prémios que a Federação lhes paga.

Ora, o que é extraordinário é que parece que estes prémios de jogos são devidos independentemente do resultado final das competições. Foi assim que fiquei a saber, por uma recente entrevista de Gilberto Madail ao Expresso, que a Selecção Nacional que esteve no Mundial da Coreia-Japão, e onde obteve resultados desportivos lastimáveis a par de um deplorável comportamento disciplinar que já se vem tornando imagem demarca do nosso futebol, teve direito a prémios (prémios de quê, perguntaremos todos nós). Mais extraordinário ainda, o presidente da Federação confessa que não desistiu, dois anos depois, de se bater junto doGoverno para que esses prémios — à semelhança dos do Euro-2004—sejam isentos de impostos. A persistência dessa batalha indicia que os ditos prémios não devem ser assim tão pequenos para que jogadores tão bem pagos façam questão de insistir emos receber livres de impostos. Notável, para todos os efeitos, é a explicação que Madail dá para essa pretensão dos jogadores, que ele apadrinha: os jogadores da Selecção, diz ele, estiveram ao serviço do «interesse nacional», e tanto assim que o Presidente da República condecorou os do Euro. Ora, se os condecorou é porque eles serviram o País e se o serviram, conclui o presidente federativo, não lhes é devida a cobrança de impostos.

Portanto: ordenados+prémios de participação+prémios de jogos+ isenção de impostos. Eis o estatuto defendido pelo presidente da Federação de futebol para os jogadores das Selecções Nacionais. Cabe perguntar se Madail também acha que todos os portugueses que em todas as outras actividades, regular ou excepcionalmente, servem o seu país devem beneficiar de idêntico estatuto ou se acha que ele deve ser exclusivo dos futebolistas e porquê. E cabe também perguntar a Madail, uma vez que ele acha que cidadãos que ganham largos milhares de contos por mês devem ficar isentos de impostos relativos a receitas extraordinárias, quem acha ele que deve pagar impostos neste país. Finalmente, gostava de perguntar, uma vez que o «interesse nacional » justifica que os jogadores de futebol das Selecções recebam prémios mesmo em caso de derrota e de eliminações e se ainda devem receber tais prémios sem impostos, onde fica então o amor à pátria, o desvelo pela bandeira e tudo o resto que nos andaram a apregoar no passado mês de Junho. Quem não seria exaltado patriota nestas condições? Que haja alguma noção de decência e decoro: a Selecção olímpica que esteve emAtenas nãomerece receber qualquer prémio. Merece, quanto muito, pagar multa. Para que não se ande a criar toda uma geração de atletas para quem a derrota é banal e a vitória é umaoportunidade para reclamar privilégios face à lei e ao comum dos cidadãos.

3 Espero que a história do fungo que atacou súbita e fulminantemente a relva do renovado Municipal de Coimbra não seja um prenúncio do que nos espera relativamente ao novos estádios financiados pelas autarquias: elefantes brancos cuja manutenção fica a cargo das disponibilidades financeiras das autarquias, sem nenhuma obrigação para os clubes utilizadores, queem alguns casos, como Braga ou Aveiro, ainda ficaram com o direito de receberem uma verba das autarquias... para jogarem nos novos estádios!

Seja como for, o fungo foi uma vergonha que, se houvesse pudor, teria justificado que o dinheiro dos bilhetes fosse devolvido aos espectadores no final do jogo. E se alguma coisa se salvou ainda foi a entrega e o profissionalismo dos jogadores de Benfica e Porto, dando o seu melhor naquelas condições.

Quanto ao jogo em si, o Benfica confirmou a minha opinião de que tem um futebol mais organizado, mais determinado e mais combativo que na época passada. Acho que vai conseguir passar o Anderlecht e entrar na Liga dos Campeões, conforme o clube tanto precisa. Quanto ao FC Porto, confirmou os danos causados por uma mês de planeada desorganização do seu futebol, levada a cabo pelo desastrado Del Neri, e a única coisa que parece ter permanecido intocável foi o seu espírito de luta e o seu vício de vencer. Infelizmente, para agravar uma situação caótica de começo de época, em que, com as Selecções, as lesões e os castigos, não deve ter ensaiado uma única vez o onze teoricamente titular, trouxe de Coimbra, além da Taça, a lesão catastrófica do Diego. E, embora não haja ponta de comparação entre a entrada dura do Paulo Almeida sobre o Diego e a entrada má e violenta do Toñito sobre o Derlei, a verdade é que, em dois jogos contra equipas nacionais, o FC Porto saiu com dois dos seus jogadores mais criativos arrumados para uns dois meses, cada. Esperemos que não seja uma antevisão do que aí vem e que ao treinador nada mais reste que optar entre deixar de fora alguns dos melhores jogadores em jogos considerados de risco ou confiar nos árbitros portugueses para protegerem os jogadores mais criativos e o futebol-espectáculo.Éque a primeira opção desvirtua a capacidade de concorrência dos campeões nacionais e europeus por razões antidesportivas e da segunda nada há a esperar.

terça-feira, julho 27, 2004

A nova época do campeão europeu ( 27 Julho 2004)

Basta ler a imprensa desportiva lisboeta para qualquer incauto concluir que o campeão nacional e o campeão europeu em título não é o FC Porto — sistematicamente arrumado numa notícia de rodapé de cada primeira página —mas sim o glorioso Benfica, que esmaga, dia após dia, todas as manchetes dos jornais

1. Reinaldo Teles tem toda a razão. Alguma coisa vai mal num país onde se condecoram os vencidos e se ignora os vencedores. Portugal — convém recordá-lo — não foi campeão europeu: com tudo a seu favor, deixou-se bater na final jogada em casa. Mas o FC Porto— convém recordá-lo, porque parece que já ninguém se lembra — foi campeão europeu, desafiando potentados futebolísticos, que são verdadeiras multinacionais de jogadores e de que uma dúzia deles, pelo menos, são bastante melhores, como equipas do que qualquer Selecção das que estiveram em Portugal. E, já agora, convém também lembrar que a equipa do FC Porto que se sagrou campeã europeia entrou em Gelsenkirchen com nove jogadores portugueses no onze inicial. Mas Jorge Sampaio, que se comoveu até às lágrimas ao condecorar a equipa de Scolari, ignorou por completo a equipa de José Mourinho, que conseguiu para Portugal uma proeza que o país há muito não registava em nenhum outro sector da vida pública. Mas Jorge Sampaio não está sozinho, no seu critério particular de justiça. Basta ler a imprensa desportiva lisboeta para qualquer incauto concluir que o campeão nacional e o campeão europeu em título não é o FC Porto — sistematicamente arrumado numa notícia de rodapé de cada primeira página — mas sim o glorioso Benfica, que esmaga, dia após dia, todas as manchetes dos jornais. Houve apenas um brevíssimo intervalo de dois dias, nesta monotonia noticiosa dos últimos tempos: o dia da final de Geselkirchen e o dia seguinte à vitória. Logo depois, regressou-se à normalidade.

2. No território das expectativas — que é onde o Benfica tem vivido nos últimos 10 anos — esta época do defeso é sempre uma época gloriosa para o Benfica. As aquisições são sempre excelentes, os treinadores fantásticos, o ambiente inultrapassável, os estágios fabulosos, jogadores que na época anterior nada fizeram de jeito revelam-se outros radicalmente diferentes para melhor, e todos, sem excepção, mostram-se encantados com o estágio e os métodos de preparação e prontos para uma época de arraso. À força de lermos isto, ano após ano, nós, os que estamos de fora, já não sabemos que Benfica esperar em cada época. A mim acontece-me sistematicamente enganar-me, para mais ou para menos, em relação àquilo que penso que irá valer o Benfica em cada época. Nesta, por exemplo, dá-me ideia, pelo pouco que vi, que o Benfica está melhor e mais bem servido de treinador do que na época passada. À boleia de José Mourinho e do FC Porto, fez um grande negócio com a venda de Tiago ao Chelsea, mas não me parece que ele faça muita falta, sendo que ainda é de esperar, como anunciado, um reforço para o meio-campo e outro para o ataque. Só não percebi para que quis o clube ter três bons guarda-redes, quando só um é que irá jogar regularmente. Mas gostei do que vi contra o Real Madrid, muito embora se espere que não venha a encontrar ao longo da época árbitros tão amigos como o Bruno Paixão, justissimam ente escolhido para participar na festa do centenário benfiquista.

3. Quanto aos campeões europeus, pois lá fechámos o negócio tão longamente esperado com o Diego. Eu cá dei uma forcinha, com uma provocação que aqui escrevi a semana passada e destinada, exactamente, a produzir o efeito desejado. Espero agora que se confirmem todas as referências elogiosas que ouvi fazerem-lhe no Brasil, porque, se assim for, com dois miúdos como ele e o Carlos Alberto, as saudades do Deco vão ser mais fáceis de passar. Entretanto, e como era de prever, os campeões europeus têm fechado inúmeros e bons negócios. A venda do Paulo Ferreira foi simplesmente fabulosa, a do Deco foi razoável ou boa, se o Quaresma passar de promessa a realidade. As saídas do Pedro Mendes e do Alenitchev, por razões diferentes, acabaram também por ser razoáveis, como bem razoável seria a saída do Costinha, para cujo lugar se comprou o Paulo Assunção e onde existe um outro jogador que vem subindo de qualidade a olhos vistos mas sem grandes oportunidades fora da Selecção dos sub-23, e que é o Bosingwa. Em matéria de aquisições, para além do Diego, a grande esperança e a grande aquisição do defeso, para além do Paulo Assunção e do Ricardo Quaresma, sobre quem recaem grandes esperanças, as aquisições do Seitaridis, do Rossato e do Pepe parecem excelentes. Já as outras, tenho mais dúvidas. O Raul Meireles até agora ainda não consegui perceber o porquê de tantos elogios. O Postiga continua a ser um grande jogador mas a quem continua a faltar a capacidade finalizadora e, sobretudo, não sei para que quer o FC Porto cinco pontas-de-lança, mais o supranumerário Pena. E quanto ao Areias, para além de ser o quarto lateral-esquerdo no plantel, francamente não se entende para que se continua a comprar jogadores directamente para a equipa B ou para serem emprestados. Aliás, os meus leitores mais atentos já sabem que a grande crítica que eu faço sempre à política de aquisições do FC Porto é o exagero delas. Entendo que manter plantéis profissionais que, mesmo depois de uma dúzia de empréstimos, continuam a ter mais de 30 jogadores, para além de financeiramente ruinoso, é prejudicial e não benéfico para a equipa.

4. No que ao FC Porto diz respeito, tudo visto, somado e subtraído—e mesmo mantendo-se em aberto a hipótese de ainda vir a sair um dos dois «grandes», Ricardo Carvalho ou Maniche — o saldo do defeso é francamente positivo. O FC Porto perdeu dois grandes jogadores mas recebeu quatro ou cinco que à partida são também grandes jogadores. E, entre compras e vendas, deve ter saído para já a ganhar uns vinte e cinco milhões de euros, o que representa metade do orçamento anual. Entretanto, o FC Porto perdeu o principal: um treinador da categoria de José Mourinho. Costuma dizer-se que ninguém é insubstituível, mas ele, de facto, é. Não vale a pena passarmos a época a chorar por ele mas convém que todos estejam conscientes de que acabou mesmo um período glorioso, que se deveu, acima de tudo, a José Mourinho. Del Neri, obviamente, não tem culpa alguma disso, pode até vir a revelar-se um excelente treinador, mas a tarefa que tem pela frente é avassaladora. É muito cedo, estupidamente cedo, para fazer qualquer apreciação crítica e gostava que o que vou dizer nem sequer soasse como uma crítica, mas, pelo que tenho visto e lido, temo que ele esteja desnecessariamente a tornar ainda mais difícil a sua tarefa, com tantas alterações profundas numa equipa que basicamente estava estruturada e rotinada num tipo de jogo que se revelou de sucesso total. Comecemos pela defesa em linha, que ele intenta implantar, quase à força, na defesa azul e branca. É um sistema de que eu não gosto à partida, porque diminui a área de jogo, proporciona inúmeras interrupções por offsides, tornando o futebol mais feio e sem espaço. Depois, é um sistema perigoso, porque basta uma fracção de segundo de distracção de um defesa ou do juiz-de-linha e facilmente se sofre um golo, que seria evitável com o sistema de marcação à zona. Enfim, numa equipa como o FC Porto, com dois centrais de marcação tão bons como o Ricardo Carvalho e o Jorge Costa, a defesa em linha não tira partido das suas qualidades e, inversamente, exige-lhes outro tipo de jogo para o qual não estão rotinados nem vocacionados. Depois, temos o 4x2x4, que Del Neri anunciou logo à partida, que era e iria continuar a ser o seu sistema de jogo. Ora, eu não tenho nada contra o 4x2x4 ou contra esquemas de jogo ofensivos, antes pelo contrário. Mas parece-me que um treinador, embora possa ter o seu sistema de jogo favorito e procure pôr as suas equipas a jogar no seu sistema, deve ter a flexibilidade suficiente para perceber quando é que isso é possível e aconselhável e quando não o é. Ou seja, é o modelo de jogo que se deve adaptar à equipa e às características dos seus jogadores e não o contrário. Mourinho, por exemplo, era um grande defensor do 4x3x3, que começou por pôr em prática no FC Porto. Mas, quando perdeu os alas Capucho e César Peixoto, mudou o sistema para o 4x4x2, com o célebre losango do meio-campo. Ora, sucede que para jogar no 4x2x4 que pretende, Del Neri precisa de ter, pelo menos, dois grandes médios-alas. E não tem sequer dois grandes alas: Quaresma é uma incógnita, César Peixoto mais ainda e Maciel, tirando o jogo de estreia na equipa, é uma continuada decepção. Mas, mesmo que qualquer deles se viesse a mostrar em grande forma, nenhum deles é um médio-ala, como exige o modelo de Del Neri: todos são apenas extremos clássicos, que nada acrescentam ao meio-campo. Em contrapartida, o esquema exigiria ainda o incompreensível sacrifício de Carlos Alberto e, agora também, o de Diego. Seria uma equipa sem número 8 e sem número 10 — logo por acaso, as duas grandes esperanças desta equipa. Espero que o assunto tenha sido falado entre o treinador e os dirigentes, antes do investimento feito no Diego. E espero, em consequência, ver como é que Del Neri vai aproveitar a excelente matéria-prima de que dispõe. A grande confusão táctica que foi aquele jogo com o Woleren, em que ninguém parecia saber qual era o seu lugar e a sua função em campo, exigem certamente alguma meditação profunda.