Deixemo-nos de hipocrisias e cerimónias: esta equipa do Boavista treinada por Jaime Pacheco é um caso lamentável de antijogo, verdadeiro paradigma das razões pelas quais o público se afasta dos estádios
1. No momento em que escrevo isto não sei ainda se o Derlei terá ou não de ser operado, se estará afastado dos relvados duas ou muitas semanas. Seguramente não jogará a final da Supertaça contra o Benfica nem a final da Supertaça europeia contra o Valência. A entrada assassina que sofreu do Toñito prejudica seriamente os interesses do clube que lhe paga e os do próprio jogador – que é um exemplo de combatividade, espírito de sacrifício e lealdade, que torna ainda mais chocante o acto de que foi vítima. Se o Conselho de Disciplina da Liga não existisse quase só para perseguir o FC Porto e proteger o Boavista, o mínimo – repito, o mínimo – que sucederia ao Toñito era o que sucedeu ao Paulinho Santos, quando partiu o nariz ao João Pinto: ficar de fora até que o Derlei regresse em pleno. Quando soube que o FC Porto iria deslocar-se ao Bessa para um «jogo amigável» fiquei logo apreensivo e achei demasiado temerária a atitude da direcção portista de aceitar tal jogo: sabendo nós como joga o Boavista de Jaime Pacheco, tudo o que vá para além dos jogos oficiais, de onde se não pode fugir, é um risco a evitar. E, mal o jogo começou, eu bati três vezes na madeira, desejando que nenhum jogador do FC Porto saísse dali lesionado, aumentando ainda o impressionante rol de baixas para o jogo com o Benfica, na próxima sexta-feira. Infelizmente, a sorte não ajudou e sucedeu aquilo que é o mais normal suceder contra esta equipa do Boavista. E porquê? Porque, deixemo-nos de hipocrisias e cerimónias, esta equipa do Boavista treinada por Jaime Pacheco é um caso lamentável de antijogo, verdadeiro paradigma das razões pelas quais o público se afasta dos estádios. Quando o Boavista de Pacheco foi campeão, eu escrevi isto mesmo – ainda bem para o clube, que já o merecia, ainda mal para o futebol, que o não merecia. Mas, como o Campeonato foi ganho ao FC Porto, o inimigo público do resto do país, toda a gente se desfez em elogios. Criaram um monstro e agora ninguém o segura. Mas, se eles cometerem o erro de partir uma perna ao Mantorras ou ao Liedson, então vão ficar todos indignados. O Campeonato está à porta e porque, segundo afirma o próprio, é este o Boavista que Pacheco quer, é assim que ele gosta das equipas e entende o futebol, não há lugar a pensar que o que se passou anteontem no Bessa foi um acidente de percurso e não o início do percurso que se pretende. E, como a opinião é livre, quer de um lado quer do outro, vou dizer o que penso sobre o «futebol» deste Boavista de Jaime Pacheco: a) O Boavista de Jaime Pacheco não joga nem pretende jogar futebol: pretende apenas evitar que os adversários joguem; b) Para isso, vale tudo, rigorosamente tudo, o que os árbitros, como esse lamentável Paulo Costa, lhe consentem: rasteiras, cotoveladas, socos, pontapés por trás, faltas constantes e sistemáticas a meio-campo para evitar a organização ofensiva do adversário, insultos, intimidações, perdas de tempo, tudo menos assumir o risco de querer jogar futebol; c) O Boavista não joga para marcar golos, mas apenas para os evitar. O zero-zero é um grande resultado, o 1-0 uma goleada; d) Por isso, nenhum jogo onde intervenha o Boavista, particularmente se disputado no Bessa, pode ser um bom jogo de futebol. Porque o adversário é inibido e impedido de jogar, os seus jogadores mais criativos são implacavelmente massacrados e todo o seu jogo construtivo é destruído à nascença pelo recurso sistemático à falta, que corta jogo, desgasta fisicamente e desmoraliza. Quando joga o Boavista, não há golos, não há oportunidades de golo, não há jogadas levadas do princípio ao fim sem faltas. Há, em contrapartida, interrupções constantes, cartões sem fim, uma média de faltas superior a minuto e meio, um tempo útil de jogo que nunca chega aos cinquenta por cento, violência, «sururus», agressões, expulsões – normalmente, e por ironia absoluta, dos adversários. Por alguma razão Jaime Pacheco não se aguentou mais do que um trimestre em Maiorca: porque os espanhóis gostam de ver futebol e por isso é que têm os estádios cheios, enquanto o Bessa está sempre às moscas; e) Mas o pouco público boavisteiro que vai ao Bessa merece inteiramente a equipa que tem e o futebol que vê: são eles, como ainda se constatou no jogo de ontem, que, ao verem um jogador da casa perseguir um adversário, gritam lá para dentro «dá-lhe, dá-lhe!». Este público, que não se importa que a equipa desdenhe do espectáculo e do jogo, que enxovalhe o nome do clube à vista do país na televisão, é o pior público do futebol: aquele que não vai lá por gostar de futebol, mas porque tem contas a ajustar coma vida ou problemas do foro psicológico que acham poder resolver assim; f) Curiosamente, quando o Boavista joga para as competições europeias, tudo muda de figura. Os jogadores sabem que não podem contar aí com a protecção dos árbitros a que estão habituados cá dentro e acontece-lhes até terem de jogar futebol e jogarem bem; g) O que prova que o futebol arruaceiro e caceteiro do Boavista não acontece por acaso, mas por uma atitude deliberada, ensaiada, treinada e incentivada. E por quem? Obviamente por Jaime Pacheco, que ainda anteontem, depois de mais uma entrada a «varrer» de um tal André Barreto sobre um adversário, batia palmas na lateral. Manifestamente, Jaime Pacheco deveria optar antes por ser treinador de kung-fu, kick-boxing ou wrestling. De futebol é que não. Ele faz mal ao futebol, causa danos, desrespeita o jogo, o público, os adversários. Um treinador que tivesse o mínimo de respeito pelo jogo e pelos jogadores, teria tirado o Toñito de campo logo após a sua entrada sobre o Derlei; h) Se observarem com atenção, verão que a estratégia de sarrafada do Boavista não é aleatória nem ao sabor dos acontecimentos. Pelo contrário, obedece a um plano e é ela que comanda e desencadeia os acontecimentos. Os objectivos principais são impedir o jogo do adversário, intimidar e diminuir fisicamente os seus principais jogadores, enervá-los e arrastá-los para o mesmo clima de violência e nervos à flor da pele, onde a superioridade futebolística se perde por completo. Desta estratégia decorrem algumas variantes «tácticas». Por exemplo, não começam todos a distribuir pancada ao mesmo tempo: são seleccionados um ou dois, que fazem as despesas iniciais até levarem finalmente um amarelo; aí, transformam-se em cordeirinhos e avançam outros que os substituem e assim sucessivamente. Outra variante táctica manda que os jogadores do Boavista comecem a distribuir pancada logo desde o minuto inicial e sabendo que contam com a complacência dos árbitros portugueses, que acham que os cartões não são para mostrar no início. Quando, após uma meia-hora de jogo a levar pancada sem reacção do árbitro, o adversário se enerva e começa a responder na mesma moeda, então, como que por milagre, o árbitro desperta e começa a sacar dos cartões... para o adversário. A história dos Boavista-FC Porto dos últimos anos está repleta de episódios destes. Eis a equipa do Boavista que se apresenta para disputar o próximo Campeonato. Continuem a protegê-la mas depois não venham lamentar-se de que os espectáculos são deploráveis e que não há público nos estádios.
2. O pior do futebol português esteve também presente na prestação da Selecção Olímpica contra o Iraque. Não foi só o jogo displicente, o ar de turistas em férias, a bandalheira táctica da equipa. Foi a cultura da «cotovelada», o esforço trocado pela violência gratuita, o tom de meninos mimados que não sabem ganhar nem perder. Parece que ninguém lhes explicou que estavam nuns Jogos Olímpicos. Se fosse eu a mandar, tinha-os mandado para casa imediatamente. Não há medalha que possa valer aquela vergonha. Mas este é o país onde o Amoreirinha passou impune depois de fazer o que fez em Toulon...
3. Nestas duas semanas de férias, das coisas que mais me divertiu foi ver o desespero dos articulistas do Benfica e Sporting perante o despedimento de Del Neri. Eles já afiavam o dente de contentes, ao verem, como todos víamos, que o pobre italiano da mochila tinha conseguido em menos de um mês dar cabo do trabalho de dois anos e meio e prometia continuar, se ninguém o agarrasse. Quando Pinto da Costa o mandou de volta para casa, choveram os artigos moralistas, a dizer que isso não se faz, olha que arrogância, que prepotência! Houve até quem escrevesse contra o «dócil rebanho portista», que, habituado à subserviência, já nem ousava levantar um suspiro contra as decisões prepotentes do «papa» – fingindo não perceber que o que sucedeu foi justamente o contrário: o «papa» é que escutou a vontade e a sabedoria do povo portista. Como não se conseguia destruir de fora e em campo aberto aquela equipa que mandou na Europa nos últimos dois anos, havia a fundada esperança de a ver implodir por dentro. Esteve próximo, mas falhou. Desculpem lá. Mas numa coisa eles têm razão: está por explicar como e porquê Pinto da Costa foi inventar este lírico italiano. Sendo certo que erros destes todos cometemos – senão não haveria despedimentos nem divórcios... – um erro tão evidente e tão previsível dá que pensar. Por exemplo, que a pressa é má conselheira.
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
sexta-feira, setembro 03, 2004
Espírito olímpico (17 Agosto 2004)
Que haja alguma noção de decência e decoro: a Selecção olímpica que esteve em Atenas não merece receber qualquer prémio. Merece, quanto muito, pagar multa. Para que não se ande a criar toda uma geração de atletas para quem a derrota é banal e a vitória é uma oportunidade para reclamar privilégios
1 Foi preciso um português nascido naNigéria—oumelhor, umnigeriano naturalizado português—para que a participação olímpica portuguesame despertasse algum entusiasmo. Francis Obikwelu não apenas conquistou uma brilhante e impensável medalha de prata nos 100 metros como ainda destoou, pela atitude, da quase totalidade da nossa delegação olímpica: a ele não lhe ouvimos desculpas esfarrapadas, queixas de falta de apoios, reclamações contra a organização, as instalações ou os próprios Jogos. Foi lá para tentar o melhor e concentrou- se apenas nisso.Teve vontade e orgulho de ganhar, ao contrário de outros que encararam as derrotas e eliminações sumárias quase como uma fatalidade para que o País deve estar preparado, ao ponto de ter eu ouvidoumatleta, instantaneamente eliminado, desabafar: «É bom perder!»
A proeza de Obikwelu torna-se assim ainda mais notável pelo valor de excepção que a sua atitude competitiva teve. É verdade que não foi o único, mas quase o único. É verdade também que antes tinha havido a surpresa da medalha de prata de Sérgio Paulinho mas eu, no que respeita ao ciclismo, desculpem lá, há muito que deixei de acreditar. Há o Lance Armstrong, cuja história pessoal e desportiva o torna motivo de admiração em todo o Mundo, e o resto, quanto a mim, é para duvidar. O longo e interminável historial de doping no ciclismo tornou a modalidade desacreditada. A meus olhos, pelo menos. Aliás, omesmo vai acontecendo um pouco com os Jogos Olímpicos e, em especial, com esta edição de Atenas. São já demasiados os casos de doping detectados (apesar da sofisticação dos meios utilizados para o seu encobrimento), demasiadas batotas, demasiadas dúvidas e desconfianças. Mesmo nos casos aparentemente limpos e sem mácula, nós olhamos para os atletas e dá que pensar: ginastas que não passam de meninas na puberdade e que tiram vantagem do seu ínfimo peso e tamanho, mulheres de outras modalidades que são homens autênticos, corpos estranhos embrulhados em estranhos fatos de competição (por exemplo, reparei que os saltadores para a água desenvolveram agora um estranho músculo lateral, ao nível do peito, que eu nem sabia que existia...). Grande parte daquilo parece-me muito pouco natural, muito pouco desportivo, nada olímpico.
2 No que respeita à nossa participação em Atenas, se o melhor foi até agora a corrida de Obikwelu nos 100 metros, o pior, o insustentável, foi, obviamente, a prestação da Selecção olímpica de futebol. Gostaria de saber se também neste caso a Federação vai pagar prémios de presença e prémios de jogos. É que muita gente esquece-se de que os jogadores de futebol, ao serviço de qualquer Selecção Nacional, se é verdade que em alguns casos acumulam desgaste competitivo, também é verdade que em todos os casos acumulam benefícios financeiros com essa participação: mantêm por inteiro o ordenado que lhes é pago pelos clubes e recebem ainda as diárias e prémios que a Federação lhes paga.
Ora, o que é extraordinário é que parece que estes prémios de jogos são devidos independentemente do resultado final das competições. Foi assim que fiquei a saber, por uma recente entrevista de Gilberto Madail ao Expresso, que a Selecção Nacional que esteve no Mundial da Coreia-Japão, e onde obteve resultados desportivos lastimáveis a par de um deplorável comportamento disciplinar que já se vem tornando imagem demarca do nosso futebol, teve direito a prémios (prémios de quê, perguntaremos todos nós). Mais extraordinário ainda, o presidente da Federação confessa que não desistiu, dois anos depois, de se bater junto doGoverno para que esses prémios — à semelhança dos do Euro-2004—sejam isentos de impostos. A persistência dessa batalha indicia que os ditos prémios não devem ser assim tão pequenos para que jogadores tão bem pagos façam questão de insistir emos receber livres de impostos. Notável, para todos os efeitos, é a explicação que Madail dá para essa pretensão dos jogadores, que ele apadrinha: os jogadores da Selecção, diz ele, estiveram ao serviço do «interesse nacional», e tanto assim que o Presidente da República condecorou os do Euro. Ora, se os condecorou é porque eles serviram o País e se o serviram, conclui o presidente federativo, não lhes é devida a cobrança de impostos.
Portanto: ordenados+prémios de participação+prémios de jogos+ isenção de impostos. Eis o estatuto defendido pelo presidente da Federação de futebol para os jogadores das Selecções Nacionais. Cabe perguntar se Madail também acha que todos os portugueses que em todas as outras actividades, regular ou excepcionalmente, servem o seu país devem beneficiar de idêntico estatuto ou se acha que ele deve ser exclusivo dos futebolistas e porquê. E cabe também perguntar a Madail, uma vez que ele acha que cidadãos que ganham largos milhares de contos por mês devem ficar isentos de impostos relativos a receitas extraordinárias, quem acha ele que deve pagar impostos neste país. Finalmente, gostava de perguntar, uma vez que o «interesse nacional » justifica que os jogadores de futebol das Selecções recebam prémios mesmo em caso de derrota e de eliminações e se ainda devem receber tais prémios sem impostos, onde fica então o amor à pátria, o desvelo pela bandeira e tudo o resto que nos andaram a apregoar no passado mês de Junho. Quem não seria exaltado patriota nestas condições? Que haja alguma noção de decência e decoro: a Selecção olímpica que esteve emAtenas nãomerece receber qualquer prémio. Merece, quanto muito, pagar multa. Para que não se ande a criar toda uma geração de atletas para quem a derrota é banal e a vitória é umaoportunidade para reclamar privilégios face à lei e ao comum dos cidadãos.
3 Espero que a história do fungo que atacou súbita e fulminantemente a relva do renovado Municipal de Coimbra não seja um prenúncio do que nos espera relativamente ao novos estádios financiados pelas autarquias: elefantes brancos cuja manutenção fica a cargo das disponibilidades financeiras das autarquias, sem nenhuma obrigação para os clubes utilizadores, queem alguns casos, como Braga ou Aveiro, ainda ficaram com o direito de receberem uma verba das autarquias... para jogarem nos novos estádios!
Seja como for, o fungo foi uma vergonha que, se houvesse pudor, teria justificado que o dinheiro dos bilhetes fosse devolvido aos espectadores no final do jogo. E se alguma coisa se salvou ainda foi a entrega e o profissionalismo dos jogadores de Benfica e Porto, dando o seu melhor naquelas condições.
Quanto ao jogo em si, o Benfica confirmou a minha opinião de que tem um futebol mais organizado, mais determinado e mais combativo que na época passada. Acho que vai conseguir passar o Anderlecht e entrar na Liga dos Campeões, conforme o clube tanto precisa. Quanto ao FC Porto, confirmou os danos causados por uma mês de planeada desorganização do seu futebol, levada a cabo pelo desastrado Del Neri, e a única coisa que parece ter permanecido intocável foi o seu espírito de luta e o seu vício de vencer. Infelizmente, para agravar uma situação caótica de começo de época, em que, com as Selecções, as lesões e os castigos, não deve ter ensaiado uma única vez o onze teoricamente titular, trouxe de Coimbra, além da Taça, a lesão catastrófica do Diego. E, embora não haja ponta de comparação entre a entrada dura do Paulo Almeida sobre o Diego e a entrada má e violenta do Toñito sobre o Derlei, a verdade é que, em dois jogos contra equipas nacionais, o FC Porto saiu com dois dos seus jogadores mais criativos arrumados para uns dois meses, cada. Esperemos que não seja uma antevisão do que aí vem e que ao treinador nada mais reste que optar entre deixar de fora alguns dos melhores jogadores em jogos considerados de risco ou confiar nos árbitros portugueses para protegerem os jogadores mais criativos e o futebol-espectáculo.Éque a primeira opção desvirtua a capacidade de concorrência dos campeões nacionais e europeus por razões antidesportivas e da segunda nada há a esperar.
1 Foi preciso um português nascido naNigéria—oumelhor, umnigeriano naturalizado português—para que a participação olímpica portuguesame despertasse algum entusiasmo. Francis Obikwelu não apenas conquistou uma brilhante e impensável medalha de prata nos 100 metros como ainda destoou, pela atitude, da quase totalidade da nossa delegação olímpica: a ele não lhe ouvimos desculpas esfarrapadas, queixas de falta de apoios, reclamações contra a organização, as instalações ou os próprios Jogos. Foi lá para tentar o melhor e concentrou- se apenas nisso.Teve vontade e orgulho de ganhar, ao contrário de outros que encararam as derrotas e eliminações sumárias quase como uma fatalidade para que o País deve estar preparado, ao ponto de ter eu ouvidoumatleta, instantaneamente eliminado, desabafar: «É bom perder!»
A proeza de Obikwelu torna-se assim ainda mais notável pelo valor de excepção que a sua atitude competitiva teve. É verdade que não foi o único, mas quase o único. É verdade também que antes tinha havido a surpresa da medalha de prata de Sérgio Paulinho mas eu, no que respeita ao ciclismo, desculpem lá, há muito que deixei de acreditar. Há o Lance Armstrong, cuja história pessoal e desportiva o torna motivo de admiração em todo o Mundo, e o resto, quanto a mim, é para duvidar. O longo e interminável historial de doping no ciclismo tornou a modalidade desacreditada. A meus olhos, pelo menos. Aliás, omesmo vai acontecendo um pouco com os Jogos Olímpicos e, em especial, com esta edição de Atenas. São já demasiados os casos de doping detectados (apesar da sofisticação dos meios utilizados para o seu encobrimento), demasiadas batotas, demasiadas dúvidas e desconfianças. Mesmo nos casos aparentemente limpos e sem mácula, nós olhamos para os atletas e dá que pensar: ginastas que não passam de meninas na puberdade e que tiram vantagem do seu ínfimo peso e tamanho, mulheres de outras modalidades que são homens autênticos, corpos estranhos embrulhados em estranhos fatos de competição (por exemplo, reparei que os saltadores para a água desenvolveram agora um estranho músculo lateral, ao nível do peito, que eu nem sabia que existia...). Grande parte daquilo parece-me muito pouco natural, muito pouco desportivo, nada olímpico.
2 No que respeita à nossa participação em Atenas, se o melhor foi até agora a corrida de Obikwelu nos 100 metros, o pior, o insustentável, foi, obviamente, a prestação da Selecção olímpica de futebol. Gostaria de saber se também neste caso a Federação vai pagar prémios de presença e prémios de jogos. É que muita gente esquece-se de que os jogadores de futebol, ao serviço de qualquer Selecção Nacional, se é verdade que em alguns casos acumulam desgaste competitivo, também é verdade que em todos os casos acumulam benefícios financeiros com essa participação: mantêm por inteiro o ordenado que lhes é pago pelos clubes e recebem ainda as diárias e prémios que a Federação lhes paga.
Ora, o que é extraordinário é que parece que estes prémios de jogos são devidos independentemente do resultado final das competições. Foi assim que fiquei a saber, por uma recente entrevista de Gilberto Madail ao Expresso, que a Selecção Nacional que esteve no Mundial da Coreia-Japão, e onde obteve resultados desportivos lastimáveis a par de um deplorável comportamento disciplinar que já se vem tornando imagem demarca do nosso futebol, teve direito a prémios (prémios de quê, perguntaremos todos nós). Mais extraordinário ainda, o presidente da Federação confessa que não desistiu, dois anos depois, de se bater junto doGoverno para que esses prémios — à semelhança dos do Euro-2004—sejam isentos de impostos. A persistência dessa batalha indicia que os ditos prémios não devem ser assim tão pequenos para que jogadores tão bem pagos façam questão de insistir emos receber livres de impostos. Notável, para todos os efeitos, é a explicação que Madail dá para essa pretensão dos jogadores, que ele apadrinha: os jogadores da Selecção, diz ele, estiveram ao serviço do «interesse nacional», e tanto assim que o Presidente da República condecorou os do Euro. Ora, se os condecorou é porque eles serviram o País e se o serviram, conclui o presidente federativo, não lhes é devida a cobrança de impostos.
Portanto: ordenados+prémios de participação+prémios de jogos+ isenção de impostos. Eis o estatuto defendido pelo presidente da Federação de futebol para os jogadores das Selecções Nacionais. Cabe perguntar se Madail também acha que todos os portugueses que em todas as outras actividades, regular ou excepcionalmente, servem o seu país devem beneficiar de idêntico estatuto ou se acha que ele deve ser exclusivo dos futebolistas e porquê. E cabe também perguntar a Madail, uma vez que ele acha que cidadãos que ganham largos milhares de contos por mês devem ficar isentos de impostos relativos a receitas extraordinárias, quem acha ele que deve pagar impostos neste país. Finalmente, gostava de perguntar, uma vez que o «interesse nacional » justifica que os jogadores de futebol das Selecções recebam prémios mesmo em caso de derrota e de eliminações e se ainda devem receber tais prémios sem impostos, onde fica então o amor à pátria, o desvelo pela bandeira e tudo o resto que nos andaram a apregoar no passado mês de Junho. Quem não seria exaltado patriota nestas condições? Que haja alguma noção de decência e decoro: a Selecção olímpica que esteve emAtenas nãomerece receber qualquer prémio. Merece, quanto muito, pagar multa. Para que não se ande a criar toda uma geração de atletas para quem a derrota é banal e a vitória é umaoportunidade para reclamar privilégios face à lei e ao comum dos cidadãos.
3 Espero que a história do fungo que atacou súbita e fulminantemente a relva do renovado Municipal de Coimbra não seja um prenúncio do que nos espera relativamente ao novos estádios financiados pelas autarquias: elefantes brancos cuja manutenção fica a cargo das disponibilidades financeiras das autarquias, sem nenhuma obrigação para os clubes utilizadores, queem alguns casos, como Braga ou Aveiro, ainda ficaram com o direito de receberem uma verba das autarquias... para jogarem nos novos estádios!
Seja como for, o fungo foi uma vergonha que, se houvesse pudor, teria justificado que o dinheiro dos bilhetes fosse devolvido aos espectadores no final do jogo. E se alguma coisa se salvou ainda foi a entrega e o profissionalismo dos jogadores de Benfica e Porto, dando o seu melhor naquelas condições.
Quanto ao jogo em si, o Benfica confirmou a minha opinião de que tem um futebol mais organizado, mais determinado e mais combativo que na época passada. Acho que vai conseguir passar o Anderlecht e entrar na Liga dos Campeões, conforme o clube tanto precisa. Quanto ao FC Porto, confirmou os danos causados por uma mês de planeada desorganização do seu futebol, levada a cabo pelo desastrado Del Neri, e a única coisa que parece ter permanecido intocável foi o seu espírito de luta e o seu vício de vencer. Infelizmente, para agravar uma situação caótica de começo de época, em que, com as Selecções, as lesões e os castigos, não deve ter ensaiado uma única vez o onze teoricamente titular, trouxe de Coimbra, além da Taça, a lesão catastrófica do Diego. E, embora não haja ponta de comparação entre a entrada dura do Paulo Almeida sobre o Diego e a entrada má e violenta do Toñito sobre o Derlei, a verdade é que, em dois jogos contra equipas nacionais, o FC Porto saiu com dois dos seus jogadores mais criativos arrumados para uns dois meses, cada. Esperemos que não seja uma antevisão do que aí vem e que ao treinador nada mais reste que optar entre deixar de fora alguns dos melhores jogadores em jogos considerados de risco ou confiar nos árbitros portugueses para protegerem os jogadores mais criativos e o futebol-espectáculo.Éque a primeira opção desvirtua a capacidade de concorrência dos campeões nacionais e europeus por razões antidesportivas e da segunda nada há a esperar.
terça-feira, julho 27, 2004
A nova época do campeão europeu ( 27 Julho 2004)
Basta ler a imprensa desportiva lisboeta para qualquer incauto concluir que o campeão nacional e o campeão europeu em título não é o FC Porto — sistematicamente arrumado numa notícia de rodapé de cada primeira página —mas sim o glorioso Benfica, que esmaga, dia após dia, todas as manchetes dos jornais
1. Reinaldo Teles tem toda a razão. Alguma coisa vai mal num país onde se condecoram os vencidos e se ignora os vencedores. Portugal — convém recordá-lo — não foi campeão europeu: com tudo a seu favor, deixou-se bater na final jogada em casa. Mas o FC Porto— convém recordá-lo, porque parece que já ninguém se lembra — foi campeão europeu, desafiando potentados futebolísticos, que são verdadeiras multinacionais de jogadores e de que uma dúzia deles, pelo menos, são bastante melhores, como equipas do que qualquer Selecção das que estiveram em Portugal. E, já agora, convém também lembrar que a equipa do FC Porto que se sagrou campeã europeia entrou em Gelsenkirchen com nove jogadores portugueses no onze inicial. Mas Jorge Sampaio, que se comoveu até às lágrimas ao condecorar a equipa de Scolari, ignorou por completo a equipa de José Mourinho, que conseguiu para Portugal uma proeza que o país há muito não registava em nenhum outro sector da vida pública. Mas Jorge Sampaio não está sozinho, no seu critério particular de justiça. Basta ler a imprensa desportiva lisboeta para qualquer incauto concluir que o campeão nacional e o campeão europeu em título não é o FC Porto — sistematicamente arrumado numa notícia de rodapé de cada primeira página — mas sim o glorioso Benfica, que esmaga, dia após dia, todas as manchetes dos jornais. Houve apenas um brevíssimo intervalo de dois dias, nesta monotonia noticiosa dos últimos tempos: o dia da final de Geselkirchen e o dia seguinte à vitória. Logo depois, regressou-se à normalidade.
2. No território das expectativas — que é onde o Benfica tem vivido nos últimos 10 anos — esta época do defeso é sempre uma época gloriosa para o Benfica. As aquisições são sempre excelentes, os treinadores fantásticos, o ambiente inultrapassável, os estágios fabulosos, jogadores que na época anterior nada fizeram de jeito revelam-se outros radicalmente diferentes para melhor, e todos, sem excepção, mostram-se encantados com o estágio e os métodos de preparação e prontos para uma época de arraso. À força de lermos isto, ano após ano, nós, os que estamos de fora, já não sabemos que Benfica esperar em cada época. A mim acontece-me sistematicamente enganar-me, para mais ou para menos, em relação àquilo que penso que irá valer o Benfica em cada época. Nesta, por exemplo, dá-me ideia, pelo pouco que vi, que o Benfica está melhor e mais bem servido de treinador do que na época passada. À boleia de José Mourinho e do FC Porto, fez um grande negócio com a venda de Tiago ao Chelsea, mas não me parece que ele faça muita falta, sendo que ainda é de esperar, como anunciado, um reforço para o meio-campo e outro para o ataque. Só não percebi para que quis o clube ter três bons guarda-redes, quando só um é que irá jogar regularmente. Mas gostei do que vi contra o Real Madrid, muito embora se espere que não venha a encontrar ao longo da época árbitros tão amigos como o Bruno Paixão, justissimam ente escolhido para participar na festa do centenário benfiquista.
3. Quanto aos campeões europeus, pois lá fechámos o negócio tão longamente esperado com o Diego. Eu cá dei uma forcinha, com uma provocação que aqui escrevi a semana passada e destinada, exactamente, a produzir o efeito desejado. Espero agora que se confirmem todas as referências elogiosas que ouvi fazerem-lhe no Brasil, porque, se assim for, com dois miúdos como ele e o Carlos Alberto, as saudades do Deco vão ser mais fáceis de passar. Entretanto, e como era de prever, os campeões europeus têm fechado inúmeros e bons negócios. A venda do Paulo Ferreira foi simplesmente fabulosa, a do Deco foi razoável ou boa, se o Quaresma passar de promessa a realidade. As saídas do Pedro Mendes e do Alenitchev, por razões diferentes, acabaram também por ser razoáveis, como bem razoável seria a saída do Costinha, para cujo lugar se comprou o Paulo Assunção e onde existe um outro jogador que vem subindo de qualidade a olhos vistos mas sem grandes oportunidades fora da Selecção dos sub-23, e que é o Bosingwa. Em matéria de aquisições, para além do Diego, a grande esperança e a grande aquisição do defeso, para além do Paulo Assunção e do Ricardo Quaresma, sobre quem recaem grandes esperanças, as aquisições do Seitaridis, do Rossato e do Pepe parecem excelentes. Já as outras, tenho mais dúvidas. O Raul Meireles até agora ainda não consegui perceber o porquê de tantos elogios. O Postiga continua a ser um grande jogador mas a quem continua a faltar a capacidade finalizadora e, sobretudo, não sei para que quer o FC Porto cinco pontas-de-lança, mais o supranumerário Pena. E quanto ao Areias, para além de ser o quarto lateral-esquerdo no plantel, francamente não se entende para que se continua a comprar jogadores directamente para a equipa B ou para serem emprestados. Aliás, os meus leitores mais atentos já sabem que a grande crítica que eu faço sempre à política de aquisições do FC Porto é o exagero delas. Entendo que manter plantéis profissionais que, mesmo depois de uma dúzia de empréstimos, continuam a ter mais de 30 jogadores, para além de financeiramente ruinoso, é prejudicial e não benéfico para a equipa.
4. No que ao FC Porto diz respeito, tudo visto, somado e subtraído—e mesmo mantendo-se em aberto a hipótese de ainda vir a sair um dos dois «grandes», Ricardo Carvalho ou Maniche — o saldo do defeso é francamente positivo. O FC Porto perdeu dois grandes jogadores mas recebeu quatro ou cinco que à partida são também grandes jogadores. E, entre compras e vendas, deve ter saído para já a ganhar uns vinte e cinco milhões de euros, o que representa metade do orçamento anual. Entretanto, o FC Porto perdeu o principal: um treinador da categoria de José Mourinho. Costuma dizer-se que ninguém é insubstituível, mas ele, de facto, é. Não vale a pena passarmos a época a chorar por ele mas convém que todos estejam conscientes de que acabou mesmo um período glorioso, que se deveu, acima de tudo, a José Mourinho. Del Neri, obviamente, não tem culpa alguma disso, pode até vir a revelar-se um excelente treinador, mas a tarefa que tem pela frente é avassaladora. É muito cedo, estupidamente cedo, para fazer qualquer apreciação crítica e gostava que o que vou dizer nem sequer soasse como uma crítica, mas, pelo que tenho visto e lido, temo que ele esteja desnecessariamente a tornar ainda mais difícil a sua tarefa, com tantas alterações profundas numa equipa que basicamente estava estruturada e rotinada num tipo de jogo que se revelou de sucesso total. Comecemos pela defesa em linha, que ele intenta implantar, quase à força, na defesa azul e branca. É um sistema de que eu não gosto à partida, porque diminui a área de jogo, proporciona inúmeras interrupções por offsides, tornando o futebol mais feio e sem espaço. Depois, é um sistema perigoso, porque basta uma fracção de segundo de distracção de um defesa ou do juiz-de-linha e facilmente se sofre um golo, que seria evitável com o sistema de marcação à zona. Enfim, numa equipa como o FC Porto, com dois centrais de marcação tão bons como o Ricardo Carvalho e o Jorge Costa, a defesa em linha não tira partido das suas qualidades e, inversamente, exige-lhes outro tipo de jogo para o qual não estão rotinados nem vocacionados. Depois, temos o 4x2x4, que Del Neri anunciou logo à partida, que era e iria continuar a ser o seu sistema de jogo. Ora, eu não tenho nada contra o 4x2x4 ou contra esquemas de jogo ofensivos, antes pelo contrário. Mas parece-me que um treinador, embora possa ter o seu sistema de jogo favorito e procure pôr as suas equipas a jogar no seu sistema, deve ter a flexibilidade suficiente para perceber quando é que isso é possível e aconselhável e quando não o é. Ou seja, é o modelo de jogo que se deve adaptar à equipa e às características dos seus jogadores e não o contrário. Mourinho, por exemplo, era um grande defensor do 4x3x3, que começou por pôr em prática no FC Porto. Mas, quando perdeu os alas Capucho e César Peixoto, mudou o sistema para o 4x4x2, com o célebre losango do meio-campo. Ora, sucede que para jogar no 4x2x4 que pretende, Del Neri precisa de ter, pelo menos, dois grandes médios-alas. E não tem sequer dois grandes alas: Quaresma é uma incógnita, César Peixoto mais ainda e Maciel, tirando o jogo de estreia na equipa, é uma continuada decepção. Mas, mesmo que qualquer deles se viesse a mostrar em grande forma, nenhum deles é um médio-ala, como exige o modelo de Del Neri: todos são apenas extremos clássicos, que nada acrescentam ao meio-campo. Em contrapartida, o esquema exigiria ainda o incompreensível sacrifício de Carlos Alberto e, agora também, o de Diego. Seria uma equipa sem número 8 e sem número 10 — logo por acaso, as duas grandes esperanças desta equipa. Espero que o assunto tenha sido falado entre o treinador e os dirigentes, antes do investimento feito no Diego. E espero, em consequência, ver como é que Del Neri vai aproveitar a excelente matéria-prima de que dispõe. A grande confusão táctica que foi aquele jogo com o Woleren, em que ninguém parecia saber qual era o seu lugar e a sua função em campo, exigem certamente alguma meditação profunda.
1. Reinaldo Teles tem toda a razão. Alguma coisa vai mal num país onde se condecoram os vencidos e se ignora os vencedores. Portugal — convém recordá-lo — não foi campeão europeu: com tudo a seu favor, deixou-se bater na final jogada em casa. Mas o FC Porto— convém recordá-lo, porque parece que já ninguém se lembra — foi campeão europeu, desafiando potentados futebolísticos, que são verdadeiras multinacionais de jogadores e de que uma dúzia deles, pelo menos, são bastante melhores, como equipas do que qualquer Selecção das que estiveram em Portugal. E, já agora, convém também lembrar que a equipa do FC Porto que se sagrou campeã europeia entrou em Gelsenkirchen com nove jogadores portugueses no onze inicial. Mas Jorge Sampaio, que se comoveu até às lágrimas ao condecorar a equipa de Scolari, ignorou por completo a equipa de José Mourinho, que conseguiu para Portugal uma proeza que o país há muito não registava em nenhum outro sector da vida pública. Mas Jorge Sampaio não está sozinho, no seu critério particular de justiça. Basta ler a imprensa desportiva lisboeta para qualquer incauto concluir que o campeão nacional e o campeão europeu em título não é o FC Porto — sistematicamente arrumado numa notícia de rodapé de cada primeira página — mas sim o glorioso Benfica, que esmaga, dia após dia, todas as manchetes dos jornais. Houve apenas um brevíssimo intervalo de dois dias, nesta monotonia noticiosa dos últimos tempos: o dia da final de Geselkirchen e o dia seguinte à vitória. Logo depois, regressou-se à normalidade.
2. No território das expectativas — que é onde o Benfica tem vivido nos últimos 10 anos — esta época do defeso é sempre uma época gloriosa para o Benfica. As aquisições são sempre excelentes, os treinadores fantásticos, o ambiente inultrapassável, os estágios fabulosos, jogadores que na época anterior nada fizeram de jeito revelam-se outros radicalmente diferentes para melhor, e todos, sem excepção, mostram-se encantados com o estágio e os métodos de preparação e prontos para uma época de arraso. À força de lermos isto, ano após ano, nós, os que estamos de fora, já não sabemos que Benfica esperar em cada época. A mim acontece-me sistematicamente enganar-me, para mais ou para menos, em relação àquilo que penso que irá valer o Benfica em cada época. Nesta, por exemplo, dá-me ideia, pelo pouco que vi, que o Benfica está melhor e mais bem servido de treinador do que na época passada. À boleia de José Mourinho e do FC Porto, fez um grande negócio com a venda de Tiago ao Chelsea, mas não me parece que ele faça muita falta, sendo que ainda é de esperar, como anunciado, um reforço para o meio-campo e outro para o ataque. Só não percebi para que quis o clube ter três bons guarda-redes, quando só um é que irá jogar regularmente. Mas gostei do que vi contra o Real Madrid, muito embora se espere que não venha a encontrar ao longo da época árbitros tão amigos como o Bruno Paixão, justissimam ente escolhido para participar na festa do centenário benfiquista.
3. Quanto aos campeões europeus, pois lá fechámos o negócio tão longamente esperado com o Diego. Eu cá dei uma forcinha, com uma provocação que aqui escrevi a semana passada e destinada, exactamente, a produzir o efeito desejado. Espero agora que se confirmem todas as referências elogiosas que ouvi fazerem-lhe no Brasil, porque, se assim for, com dois miúdos como ele e o Carlos Alberto, as saudades do Deco vão ser mais fáceis de passar. Entretanto, e como era de prever, os campeões europeus têm fechado inúmeros e bons negócios. A venda do Paulo Ferreira foi simplesmente fabulosa, a do Deco foi razoável ou boa, se o Quaresma passar de promessa a realidade. As saídas do Pedro Mendes e do Alenitchev, por razões diferentes, acabaram também por ser razoáveis, como bem razoável seria a saída do Costinha, para cujo lugar se comprou o Paulo Assunção e onde existe um outro jogador que vem subindo de qualidade a olhos vistos mas sem grandes oportunidades fora da Selecção dos sub-23, e que é o Bosingwa. Em matéria de aquisições, para além do Diego, a grande esperança e a grande aquisição do defeso, para além do Paulo Assunção e do Ricardo Quaresma, sobre quem recaem grandes esperanças, as aquisições do Seitaridis, do Rossato e do Pepe parecem excelentes. Já as outras, tenho mais dúvidas. O Raul Meireles até agora ainda não consegui perceber o porquê de tantos elogios. O Postiga continua a ser um grande jogador mas a quem continua a faltar a capacidade finalizadora e, sobretudo, não sei para que quer o FC Porto cinco pontas-de-lança, mais o supranumerário Pena. E quanto ao Areias, para além de ser o quarto lateral-esquerdo no plantel, francamente não se entende para que se continua a comprar jogadores directamente para a equipa B ou para serem emprestados. Aliás, os meus leitores mais atentos já sabem que a grande crítica que eu faço sempre à política de aquisições do FC Porto é o exagero delas. Entendo que manter plantéis profissionais que, mesmo depois de uma dúzia de empréstimos, continuam a ter mais de 30 jogadores, para além de financeiramente ruinoso, é prejudicial e não benéfico para a equipa.
4. No que ao FC Porto diz respeito, tudo visto, somado e subtraído—e mesmo mantendo-se em aberto a hipótese de ainda vir a sair um dos dois «grandes», Ricardo Carvalho ou Maniche — o saldo do defeso é francamente positivo. O FC Porto perdeu dois grandes jogadores mas recebeu quatro ou cinco que à partida são também grandes jogadores. E, entre compras e vendas, deve ter saído para já a ganhar uns vinte e cinco milhões de euros, o que representa metade do orçamento anual. Entretanto, o FC Porto perdeu o principal: um treinador da categoria de José Mourinho. Costuma dizer-se que ninguém é insubstituível, mas ele, de facto, é. Não vale a pena passarmos a época a chorar por ele mas convém que todos estejam conscientes de que acabou mesmo um período glorioso, que se deveu, acima de tudo, a José Mourinho. Del Neri, obviamente, não tem culpa alguma disso, pode até vir a revelar-se um excelente treinador, mas a tarefa que tem pela frente é avassaladora. É muito cedo, estupidamente cedo, para fazer qualquer apreciação crítica e gostava que o que vou dizer nem sequer soasse como uma crítica, mas, pelo que tenho visto e lido, temo que ele esteja desnecessariamente a tornar ainda mais difícil a sua tarefa, com tantas alterações profundas numa equipa que basicamente estava estruturada e rotinada num tipo de jogo que se revelou de sucesso total. Comecemos pela defesa em linha, que ele intenta implantar, quase à força, na defesa azul e branca. É um sistema de que eu não gosto à partida, porque diminui a área de jogo, proporciona inúmeras interrupções por offsides, tornando o futebol mais feio e sem espaço. Depois, é um sistema perigoso, porque basta uma fracção de segundo de distracção de um defesa ou do juiz-de-linha e facilmente se sofre um golo, que seria evitável com o sistema de marcação à zona. Enfim, numa equipa como o FC Porto, com dois centrais de marcação tão bons como o Ricardo Carvalho e o Jorge Costa, a defesa em linha não tira partido das suas qualidades e, inversamente, exige-lhes outro tipo de jogo para o qual não estão rotinados nem vocacionados. Depois, temos o 4x2x4, que Del Neri anunciou logo à partida, que era e iria continuar a ser o seu sistema de jogo. Ora, eu não tenho nada contra o 4x2x4 ou contra esquemas de jogo ofensivos, antes pelo contrário. Mas parece-me que um treinador, embora possa ter o seu sistema de jogo favorito e procure pôr as suas equipas a jogar no seu sistema, deve ter a flexibilidade suficiente para perceber quando é que isso é possível e aconselhável e quando não o é. Ou seja, é o modelo de jogo que se deve adaptar à equipa e às características dos seus jogadores e não o contrário. Mourinho, por exemplo, era um grande defensor do 4x3x3, que começou por pôr em prática no FC Porto. Mas, quando perdeu os alas Capucho e César Peixoto, mudou o sistema para o 4x4x2, com o célebre losango do meio-campo. Ora, sucede que para jogar no 4x2x4 que pretende, Del Neri precisa de ter, pelo menos, dois grandes médios-alas. E não tem sequer dois grandes alas: Quaresma é uma incógnita, César Peixoto mais ainda e Maciel, tirando o jogo de estreia na equipa, é uma continuada decepção. Mas, mesmo que qualquer deles se viesse a mostrar em grande forma, nenhum deles é um médio-ala, como exige o modelo de Del Neri: todos são apenas extremos clássicos, que nada acrescentam ao meio-campo. Em contrapartida, o esquema exigiria ainda o incompreensível sacrifício de Carlos Alberto e, agora também, o de Diego. Seria uma equipa sem número 8 e sem número 10 — logo por acaso, as duas grandes esperanças desta equipa. Espero que o assunto tenha sido falado entre o treinador e os dirigentes, antes do investimento feito no Diego. E espero, em consequência, ver como é que Del Neri vai aproveitar a excelente matéria-prima de que dispõe. A grande confusão táctica que foi aquele jogo com o Woleren, em que ninguém parecia saber qual era o seu lugar e a sua função em campo, exigem certamente alguma meditação profunda.
Escrita em dia ( 20 Julho 2004)
Escrita em dia
O Euro-2004, tal como qualquer outra megarrealização como esta, compõe-se de duas partes: a festa e a factura. Nunca fui contra a festa, fui sempre contra a factura. Para os «patriotas» das bandeirinhas a questão é, seguramente, indiferente. Para os patriotas que pagam impostos não o é
1- Tinha avisado os leitores de que iria afastar-me uma semana desta coluna, mas circunstâncias outras fizeram com que essa ausência afinal se prolongasse por duas semanas. E, se entendi fazer esse aviso previamente é porque sabia que, sem ele, o meu silêncio subsequente poderia ser interpretado como fuga, por parte de quem sempre se manifestou contra o Euro desde a primeira hora e contra Scolari desde há muito. Perante o êxito, real ou forçado, de um e de outro, sabia que haveria fatalmente quem ficasse a pensar «o tipo, agora, achou mais prudente calar-se». Bruxo: vinha no avião, de regresso do Brasil a Portugal, e lium artigo do António Tavares-Teles onde ele se perguntava que era feito dos criticos do Euro, que estavam todos em silêncio. Dos outros não sei, mas de mim, sabe o António que não sou pessoa de ficar em silêncio perante as responsabilidades e que só circunstâncias mais fortes do que eu me impediriam, como impediram, de falar na hora certa. Mas, embora tarde, não fujo ao desafio. O Euro-2004, tal como qualquer outra megarrealização como esta, compõe-se de duas partes: a festa e a factura. Nunca fui contra a festa, fui sempre contra a factura. A festa foi maravilhosa, melhor do que as melhores expectativas — que, aliás, nunca pus em causa. Ao contrário de outros, nunca me pronunciei, por falta de conhecimento, sobre as expectativas relativas à parte organizativa do Euro. Ouvi dizer que os aeroportos não iriam dar conta do tráfego aéreo, que os acessos aos estádios não iriam estar prontos, que a segurança não conseguiria dar resposta aos problemas, etc e tal: nunca cavalguei essa onda, nunca fiz uma previsão sobre o assunto, limitei-me a esperar para ver. E, tendo visto, acho que é de toda a justiça reconhecer que a organização foi fantástica, o ambiente fabuloso e a festa magnífica. Mesmo sob o aspecto meramente desportivo, o Euro foi muito melhor jogado do que eu esperava, muito embora — e, isso, sim, previ—as grandes selecções tenham feito uma triste figura, em resultado da saturação das suas principais vedetas: França, Espanha, Itália e Inglaterra despediram-se cedo do Euro, deixando para trás a imagem de Zidane, Beckam, Raul arrastando-se em campo, desesperadamente gritando por férias. E a Taça acabou entregue à Grécia, assim uma espécie de Boavista da Europa, que nenhum europeu acredita possa ser a melhor selecção europeia. Agora, vamos à factura. Se a festa fosse dada pelo rei dos ciganos ou, digamos, pelo eng. Belmiro de Azevedo, tido como o homem mais rico do País, eu não teria nada a ver com o assunto: o dinheiro era deles, que fizessem o que quisessem. Mas, quando a festa é feita pelo Estado, isso significa que é feita com o meu dinheiro e o dos restantes pagadores de impostos, e aí tenho tudo a ver com o assunto. Porém, não tenho nenhuma posição de princípio contra as festas feitas e pagas com o dinheiro do Estado: fui a favor da Lisboa-Capital da Cultura, do Porto-Capital da Cultura e entusiasticamente a favor da Expo-98. Porquê? Porque o investimento feito nas festas se prolongava para além delas e constituía até uma oportunidade de recuperação urbana e investimento produtivo. Justamente por estas razões é que fui desde o princípio —desde que tive oportunidade de ler, antes de todos, o caderno de encargos do Euro-2004 — um adversário, de cidadania, desta festa. Sem dúvida, Portugal teve uma grande projecção mediática com o evento (não sei se tanta que compense o próprio investimento feito na promoção...), sem dúvida, todo o sector da restauração teve um mês de prosperidade como nunca, mas a minha dúvida é se será legítimo que o Estado gaste centenas de milhões de contos (os outros números, os do ministro Arnaut, são conversa para papalvos...) para beneficiar um só sector da vida económica do País. O turismo e a restauração saíram a ganhar, sem dúvida, mas agora é altura de pagar a conta. Há seis estádios, construídos pelas autarquias e que, segundo um estudo divulgado pelo jornal Público, demorarão dez anos a pagar, que em alguns casos representaram a totalidade das verbas anuais de investimento da respectiva autarquia e que, ou o Estado central cobre as dívidas ou as autarquias que sedearam estádios para o Euro ficarão durante muito tempo sem verbas para investir nas políticas de habitação, de equipamentos sociais, de apoio à juventude ou terceira idade. E há seis estádios, financiados pelo Estado, via autarquias, de que nem um só cumpriu o respectivo orçamento (a obra-prima de Braga, por exemplo, custou só três vezes mais do que o previsto...) e de que nem um só tem expectativas de, uma vez que seja nos anos mais próximos, justificar a sua capacidade de 30 mil lugares ou de gerar receitas que consigam cobrir a respectiva manutenção. Ou seja, ficámos com seis elefantes brancos para pagar e para sustentar no futuro – à custa de dinheiros públicos, não certamente dos clubes usufrutuários. Para os patriotas das bandeirinhas, a questão é, seguramente, indiferente. Para os patriotas que pagam impostos, não o é. 2- E a Selecção? Scolari e os outros 23 heróis da Pátria, condecorados como tal pelo Presidente da República? Pois, o que acho é que tiveram condições como nenhuma outra Selecção Nacional jamais teve: país organizador, com todos os apoios, explícitos e implicitos, daí tradicionalmente decorrentes; dispensados da qualificação e de jogos a doer, durante dois anos; apoiados por um país inteiro, em estado de euforia; prémios de jogos, contratos publicitários, mordomias todas; imprensa rendida, aliada e acrítica; calendário de jogos garantindo sempre mais tempo de repouso entre jogos do que o dos adversários: enfim, tudo, rigorosamente tudo, a favor, como jamais. Balanço final: ganharam três jogos, empataram um e perderam dois. Heróis nacionais? Porque não, agora que tudo parece tão fácil – chegar ao poder ou ser herói? 3- Scolari demorou dois anos e precisou da derrota inicial contra a Grécia para perceber o que já todos tinham percebido: que a sua selecção estava errada. Na iminência do descalabro, só lhe restava mudar tudo e mudou: passou a ser tido como um génio, porque tinha visto a necessidade de mudar – embora depois de toda a gente. Tendo mudado e tendo passado a ganhar, achou que o assunto estava resolvido e que nunca mais precisaria de voltar a mudar. Jogou contra a Grécia como tinha jogado contra a Holanda, a Inglaterra ou a Espanha. Achou que a receita era universal, como já antes havia sido a receita oposta. Que não era preciso estudar o adversário nem adaptar-se a ele. Otto Reaghel fez o inverso, fez o que lhe competia: estudou a segunda versão da selecção de Scolari, certo de que ela não traria novidade alguma, e manietou-a por completo. Tornou Portugal impotente e conseguiu que a pior equipe ganhasse o jogo e o Campeonato: eis um treinador a sério. Scolari ficou com a Ordem do Infante e com o sorriso orelha-a-orelha dos brasileiros, a quem perguntei a sua opinião sobre o mestre: «Fiquem com ele, por amor de Deus, fiquem com ele!» 4- No Brasil, onde estive a semana passada, perguntei também pelas novas aquisições feitas ou a fazer pelos clubes portugueses. O «meia» Paulo Almeida, que o Benfica foi buscar, «não vale grande coisa». Luis Fabiano, que se diz cobiçado pelo FC Porto é uma fraca versão de Roberto Dinamite: ora dá, ora não dá, mas não sabe jogar de cabeça. Já Diego – que o FC Porto igualmente cobiça, mas que não irá conseguiré unanimemente tido como o grande jogador brasileiro do futuro, «um novo Zico», a quem só lhe falta aprender a jogar sem olhar para a bola. Entretanto, há um brasileiro novo na estima local: chama-se Deco, viram-no em Gelsenkirchen e viram-no no Euro e perguntam-se como é que Filipão não o viu para a Selecção doBrasil. Em Paraty, cidade histórica de apenas quatro mil habitantes, vi três locais com a camisola do FC Porto e duas delas tinham nas costas o nome de Deco. Para o ano vão ter de vender em Paraty camisolas do Barcelona. 5- Ricardo, o guarda-redes da Selecção, prossegue o seu ajuste de contas pessoal. Depois da lastimável entrevista dada antes do Euro, cheia de insinuações sem destinatário concreto, eis que chega agora um livro de desabafos, onde o substancial parece ser uma página onde ataca Vítor Baía. Forte do único dos seis penalties que conseguiu defender no desempate contra a Inglaterra, acha-se no direito de atacar ainda quem não se pôde defender em campo. Baía foi um senhor na forma como encarou o seu afastamento da Selecção e do Euro – que, como o Ricardo bem sabe, teve origem em tudo menos no mérito e na justiça. Bastaria ao Ricardo, depois de ver afastado o seu rival por obscuras razões, ter tido uma simples palavra dizendo que seguramente Baía tinha lugar entre os três melhores guarda-redes seleccionáveis: teria saído da controvérsia em grande, como Baía saiu. Mas, não, parece que a sombra ainda o atormenta. E com razão, afinal: será que o Baía teria permitido aquele cabeçeamento dentro da pequena área que deu o Euro à Grécia?
O Euro-2004, tal como qualquer outra megarrealização como esta, compõe-se de duas partes: a festa e a factura. Nunca fui contra a festa, fui sempre contra a factura. Para os «patriotas» das bandeirinhas a questão é, seguramente, indiferente. Para os patriotas que pagam impostos não o é
1- Tinha avisado os leitores de que iria afastar-me uma semana desta coluna, mas circunstâncias outras fizeram com que essa ausência afinal se prolongasse por duas semanas. E, se entendi fazer esse aviso previamente é porque sabia que, sem ele, o meu silêncio subsequente poderia ser interpretado como fuga, por parte de quem sempre se manifestou contra o Euro desde a primeira hora e contra Scolari desde há muito. Perante o êxito, real ou forçado, de um e de outro, sabia que haveria fatalmente quem ficasse a pensar «o tipo, agora, achou mais prudente calar-se». Bruxo: vinha no avião, de regresso do Brasil a Portugal, e lium artigo do António Tavares-Teles onde ele se perguntava que era feito dos criticos do Euro, que estavam todos em silêncio. Dos outros não sei, mas de mim, sabe o António que não sou pessoa de ficar em silêncio perante as responsabilidades e que só circunstâncias mais fortes do que eu me impediriam, como impediram, de falar na hora certa. Mas, embora tarde, não fujo ao desafio. O Euro-2004, tal como qualquer outra megarrealização como esta, compõe-se de duas partes: a festa e a factura. Nunca fui contra a festa, fui sempre contra a factura. A festa foi maravilhosa, melhor do que as melhores expectativas — que, aliás, nunca pus em causa. Ao contrário de outros, nunca me pronunciei, por falta de conhecimento, sobre as expectativas relativas à parte organizativa do Euro. Ouvi dizer que os aeroportos não iriam dar conta do tráfego aéreo, que os acessos aos estádios não iriam estar prontos, que a segurança não conseguiria dar resposta aos problemas, etc e tal: nunca cavalguei essa onda, nunca fiz uma previsão sobre o assunto, limitei-me a esperar para ver. E, tendo visto, acho que é de toda a justiça reconhecer que a organização foi fantástica, o ambiente fabuloso e a festa magnífica. Mesmo sob o aspecto meramente desportivo, o Euro foi muito melhor jogado do que eu esperava, muito embora — e, isso, sim, previ—as grandes selecções tenham feito uma triste figura, em resultado da saturação das suas principais vedetas: França, Espanha, Itália e Inglaterra despediram-se cedo do Euro, deixando para trás a imagem de Zidane, Beckam, Raul arrastando-se em campo, desesperadamente gritando por férias. E a Taça acabou entregue à Grécia, assim uma espécie de Boavista da Europa, que nenhum europeu acredita possa ser a melhor selecção europeia. Agora, vamos à factura. Se a festa fosse dada pelo rei dos ciganos ou, digamos, pelo eng. Belmiro de Azevedo, tido como o homem mais rico do País, eu não teria nada a ver com o assunto: o dinheiro era deles, que fizessem o que quisessem. Mas, quando a festa é feita pelo Estado, isso significa que é feita com o meu dinheiro e o dos restantes pagadores de impostos, e aí tenho tudo a ver com o assunto. Porém, não tenho nenhuma posição de princípio contra as festas feitas e pagas com o dinheiro do Estado: fui a favor da Lisboa-Capital da Cultura, do Porto-Capital da Cultura e entusiasticamente a favor da Expo-98. Porquê? Porque o investimento feito nas festas se prolongava para além delas e constituía até uma oportunidade de recuperação urbana e investimento produtivo. Justamente por estas razões é que fui desde o princípio —desde que tive oportunidade de ler, antes de todos, o caderno de encargos do Euro-2004 — um adversário, de cidadania, desta festa. Sem dúvida, Portugal teve uma grande projecção mediática com o evento (não sei se tanta que compense o próprio investimento feito na promoção...), sem dúvida, todo o sector da restauração teve um mês de prosperidade como nunca, mas a minha dúvida é se será legítimo que o Estado gaste centenas de milhões de contos (os outros números, os do ministro Arnaut, são conversa para papalvos...) para beneficiar um só sector da vida económica do País. O turismo e a restauração saíram a ganhar, sem dúvida, mas agora é altura de pagar a conta. Há seis estádios, construídos pelas autarquias e que, segundo um estudo divulgado pelo jornal Público, demorarão dez anos a pagar, que em alguns casos representaram a totalidade das verbas anuais de investimento da respectiva autarquia e que, ou o Estado central cobre as dívidas ou as autarquias que sedearam estádios para o Euro ficarão durante muito tempo sem verbas para investir nas políticas de habitação, de equipamentos sociais, de apoio à juventude ou terceira idade. E há seis estádios, financiados pelo Estado, via autarquias, de que nem um só cumpriu o respectivo orçamento (a obra-prima de Braga, por exemplo, custou só três vezes mais do que o previsto...) e de que nem um só tem expectativas de, uma vez que seja nos anos mais próximos, justificar a sua capacidade de 30 mil lugares ou de gerar receitas que consigam cobrir a respectiva manutenção. Ou seja, ficámos com seis elefantes brancos para pagar e para sustentar no futuro – à custa de dinheiros públicos, não certamente dos clubes usufrutuários. Para os patriotas das bandeirinhas, a questão é, seguramente, indiferente. Para os patriotas que pagam impostos, não o é. 2- E a Selecção? Scolari e os outros 23 heróis da Pátria, condecorados como tal pelo Presidente da República? Pois, o que acho é que tiveram condições como nenhuma outra Selecção Nacional jamais teve: país organizador, com todos os apoios, explícitos e implicitos, daí tradicionalmente decorrentes; dispensados da qualificação e de jogos a doer, durante dois anos; apoiados por um país inteiro, em estado de euforia; prémios de jogos, contratos publicitários, mordomias todas; imprensa rendida, aliada e acrítica; calendário de jogos garantindo sempre mais tempo de repouso entre jogos do que o dos adversários: enfim, tudo, rigorosamente tudo, a favor, como jamais. Balanço final: ganharam três jogos, empataram um e perderam dois. Heróis nacionais? Porque não, agora que tudo parece tão fácil – chegar ao poder ou ser herói? 3- Scolari demorou dois anos e precisou da derrota inicial contra a Grécia para perceber o que já todos tinham percebido: que a sua selecção estava errada. Na iminência do descalabro, só lhe restava mudar tudo e mudou: passou a ser tido como um génio, porque tinha visto a necessidade de mudar – embora depois de toda a gente. Tendo mudado e tendo passado a ganhar, achou que o assunto estava resolvido e que nunca mais precisaria de voltar a mudar. Jogou contra a Grécia como tinha jogado contra a Holanda, a Inglaterra ou a Espanha. Achou que a receita era universal, como já antes havia sido a receita oposta. Que não era preciso estudar o adversário nem adaptar-se a ele. Otto Reaghel fez o inverso, fez o que lhe competia: estudou a segunda versão da selecção de Scolari, certo de que ela não traria novidade alguma, e manietou-a por completo. Tornou Portugal impotente e conseguiu que a pior equipe ganhasse o jogo e o Campeonato: eis um treinador a sério. Scolari ficou com a Ordem do Infante e com o sorriso orelha-a-orelha dos brasileiros, a quem perguntei a sua opinião sobre o mestre: «Fiquem com ele, por amor de Deus, fiquem com ele!» 4- No Brasil, onde estive a semana passada, perguntei também pelas novas aquisições feitas ou a fazer pelos clubes portugueses. O «meia» Paulo Almeida, que o Benfica foi buscar, «não vale grande coisa». Luis Fabiano, que se diz cobiçado pelo FC Porto é uma fraca versão de Roberto Dinamite: ora dá, ora não dá, mas não sabe jogar de cabeça. Já Diego – que o FC Porto igualmente cobiça, mas que não irá conseguiré unanimemente tido como o grande jogador brasileiro do futuro, «um novo Zico», a quem só lhe falta aprender a jogar sem olhar para a bola. Entretanto, há um brasileiro novo na estima local: chama-se Deco, viram-no em Gelsenkirchen e viram-no no Euro e perguntam-se como é que Filipão não o viu para a Selecção doBrasil. Em Paraty, cidade histórica de apenas quatro mil habitantes, vi três locais com a camisola do FC Porto e duas delas tinham nas costas o nome de Deco. Para o ano vão ter de vender em Paraty camisolas do Barcelona. 5- Ricardo, o guarda-redes da Selecção, prossegue o seu ajuste de contas pessoal. Depois da lastimável entrevista dada antes do Euro, cheia de insinuações sem destinatário concreto, eis que chega agora um livro de desabafos, onde o substancial parece ser uma página onde ataca Vítor Baía. Forte do único dos seis penalties que conseguiu defender no desempate contra a Inglaterra, acha-se no direito de atacar ainda quem não se pôde defender em campo. Baía foi um senhor na forma como encarou o seu afastamento da Selecção e do Euro – que, como o Ricardo bem sabe, teve origem em tudo menos no mérito e na justiça. Bastaria ao Ricardo, depois de ver afastado o seu rival por obscuras razões, ter tido uma simples palavra dizendo que seguramente Baía tinha lugar entre os três melhores guarda-redes seleccionáveis: teria saído da controvérsia em grande, como Baía saiu. Mas, não, parece que a sombra ainda o atormenta. E com razão, afinal: será que o Baía teria permitido aquele cabeçeamento dentro da pequena área que deu o Euro à Grécia?
sábado, julho 03, 2004
Fábrica de heróis ( 29 Junho 2004)
Para as meias-finais são favoritos os que tiveram mais dias para descansar, os que disputaram os seus cinco jogos em período mais dilatado de tempo, os que tiveram menos jogos no horário violento das cinco da tarde, os que estão mais habituados a este calor demolidor, os que tiveram uma época menos carregada para os seus principais jogadores. São favoritos, portanto, Portugal e Grécia .
1- Nada melhor que uma grande montra internacional, como um Europeu de futebol, para fabricar instantaneamente heróis e proporcionar negócios de estarrecer. Bastaram quatro golos ao inglês Rooney para ser transformado no novo herói das ilhas Britânicas e levar o seu clube, o Everton, a estimar em 75 milhões de euros o seu valor transaccionável: 18,75 milhões por cada golo marcado. Entre nós o delírio das transacções fantásticas também é uma constante: ainda o Euro não tinha começado e já nada menos que quatro jogadores do Benfica eram dados como prováveis no Real Madrid de Camacho: Miguel, Tiago, Luisão, Petit. Nuno Gomes—que deve apenas a dois golos marcados num outro Europeu a sua transferência milionária para Itália — vê agora, e graças ao seu inspirado golo contra a Espanha, a sua renovação contratual transformada em prioridade para os lados da Luz, não venha novo tubarão europeu querer raptá-lo novamente.
Quanto ao último herói em data — Ricardo, guarda-redes do Sporting e da Selecção— , já se podem ler textos onde se perspectivam as mais-valias que o Sporting vai fazer com a sua venda, assim que termine o Europeu, e onde se tecem elogios à capacidade de antecipação do negócio de que deu provas, um ano atrás, a SAD do Sporting. Deixo aqui uma aposta pessoal: nenhum destes se vai transferir para o estrangeiro, a não ser que muito baratinho.
Já quanto aos portistas ao serviço da Selecção, infelizmente não posso apostar o mesmo. O mercado não é parvo, não nada em dinheiro para deitar fora e nem sempre se deixa ir atrás de impressões fugazes ou dos desejos dos empresários colocadores de notícias. O verdadeiro núcleo de jogadores portugueses que interessam ao mercado é aquele que foi campeão da Europa de clubes e que entrou em cena depois do Portugal-Grécia para transformar uma Selecção vencida numa equipa de vencedores. Porque será?
2- A passagem do Ricardo a herói nacional é, objectivamente, um acto de voluntarismo da imprensa. É certo que, no meio daquele drama sempre psicologicamente demolidor que é o desempate por penalties, a sua prestação teve um tom de verdadeiro drama e glória que, tendo sido o último acto de um espectáculo tenso e intenso de duas horas, ficou para sempre condenada a passar à história. O acto de descalçar as luvas para tentar a defesa decisiva e, logo de seguida, aproveitar o estado de transe para cobrar ele o último penalty foi do melhor, em termos dramáticos, que se pode servir a uma multidão.
E, como as últimas impressões é que ficam, tudo o resto ficou apagado. O quê, ao certo? De positivo, duas boas defesas, uma saindo a pontapé fora da área, outra mergulhando em voo para um remate frontal. De negativo, a falta de reflexos para conseguir emendar a fífia do Costinha aos três minutos de jogo (o remate de Owen é espontâneo e bem executado mas saiu fraco e à figura) e duas bolas cabeceadas livremente na sua zona de interdição aérea, uma das quais esbarrou na trave e viu a recarga vitoriosa felizmente anulada pelo árbitro. Até que se chegou aos penalties e, depois de Beckham ter escorregado no primeiro, os três seguintes entraram pelo meio da baliza, enquanto Ricardo se atirava sistematicamente para a sua esquerda.
E estávamos nisto quando Eusébio, desesperado, correu ao longo da lateral para, como ele contaria depois, ir suplicar a Ricardo que não se mexesse antes de ver para onde ia a bola — pois que, como lhe ensinara Lev Yashine há muitos anos, essa é a única hipótese que um guarda-redes tem de defender um penalty sem ser por sorte. Mas a verdade é que, felizmente para Portugal, Ricardo não escutou o conselho de Eusébio nem quis saber da lição de Yashine. E, pela quarta vez consecutiva, atirou-se para o mesmo lado e teve a sorte de ver o seu adversário inglês fazer-lhe finalmente a vontade e atirar para lá a bola.
Depois, veio aquele gesto iluminado de mandar afastar o Nuno Valente e encarregar-se ele próprio de cobrar o nosso penalty. Ora a sua cobrança (tirando a do Rui Costa, que saiu por alto) foi a pior entre as seis cobranças de Portugal. Porque há quatro regras, por ordem de importância decrescente, para cobrar bem um penalty: 1.ª, enganar o guarda-redes; 2.ª, rematar rasteiro e nunca por alto; 3.ª, colocar a bola o mais desviada possível do centro; 4.ª, rematar com força.
Rarissimamente se conseguem reunir as quatro no mesmo remate mas isso não é importante desde que a primeira delas seja assegurada: um guarda-redes desequilibrado para o lado contrário àquele em que se envia a bola jamais conseguirá ir buscá-la. O Ricardo conseguiu as últimas três condições de êxito mas não a primeira, o que, com um guarda-redes tão comprido como o James, seria normalmente fatal, se a bola não tem saído, de facto, tão colocada. Um palmo mais para dentro e a esta hora já não haveria herói Ricardo e, se porventura a Inglaterra tem ganho a seguir o desempate, toda a gente estaria agora a condenar a sobranceria do Ricardo, que nos teria custado a eliminação. Eis quão frágil é a fronteira entre os heróis e os vilões.
A heroicização do Ricardo teve, como contrapartida inevitável, o esquecimento dos méritos de outros. Poderíamos falar, desde logo, do Maniche, que encheu o campo com uma exibição imensa, culminada com uma cobrança exemplar do penalty que lhe coube. Ou do Hélder Postiga, que em 10 minutos revolucionou o ataque português, nos levou à igualdade e nos devolveu a esperança e que cobrou o seu penalty com um número circense daqueles que ficam para sempre na memória, pela classe e calma com que foi executado. Mas o herói escolhido foi o Ricardo. Porque são as últimas impressões que contam e também por outras razões que na hora de unicidade nacional não convém que sejam especificadas.
3- Há uns meses atrás escrevi aqui que o Europeu era uma competição que não me entusiasmava muito, pois que raramente era bem jogado, fruto do cansaço de final de época que revelavam os melhores jogadores das melhores equipas, o que fazia, aliás, com que o estatuto de favorito fosse mais institucional que real. O próprio Mundial é, a meu ver, uma competição sempre ligeiramente falseada pela vantagem que sul-americanos têm em relação aos europeus, fruto das diferentes épocas em que a competição aparece dos dois lados do Atlântico. Se brasileiros e argentinos aparecem sempre como candidatos à vitória é sem dúvida porque ambos os países são verdadeiras fábricas de grandes jogadores, em produção industrial, mas também porque as suas selecções aparecem sempre nos Mundiais em muito melhores condições físicas e anímicas que as selecções europeias.
Este Europeu — que eu confesso que, apesar disso, me tem surpreendido por uma qualidade superior à que esperava — não foge, todavia, à regra. Vimos selecções como a francesa, a italiana, a inglesa, a alemã, a espanhola, positivamente nos limites. Vimos as vedetas multinacionais do Real Madrid — Zidane, Beckham, Raul, o próprio Figo — fazerem das tripas coração, algumas já de arrasto. À medida que o campeonato avança para o fim, e os jogos nas pernas se acumulam, este vai ser o factor decisivo. Para as meias-finais são favoritos os que tiveram mais dias para descansar, os que disputaram os seus cinco jogos em período mais dilatado de tempo, os que tiveram menos jogos no horário violento das cinco da tarde, os que estão mais habituados a este calor demolidor, os que tiveram uma época menos carregada para os seus principais jogadores. Os favoritos são-no pelas circunstâncias da prova e não por estatuto predeterminado. São favoritos, portanto, Portugal e Grécia.
P. S. — E, por falar em circunstâncias, e se outras de última hora não ocorrerem, no próximo domingo, à hora em que se disputa a final do Europeu, estarei fechado e longe de tudo a bordo de um avião com destino ao Brasil. Porque se trata de trabalho e não de férias e tenho coisas com hora marcada à minha espera, nada há que possa fazer contra as circunstâncias. Só me resta conformar-me com ser um dos raros portugueses que não só não vão assistir, nem sequer pela televisão, à final do Europeu disputado em Portugal, e onde temos a hipótese, que julgo inédita, de sermos na mesma época campeões da Europa de clubes e de selecções, como também estar ausente num momento em que o meu país surge ameaçado por uma catástrofe política sem precedentes na sua história.
Assim, com toda a probabilidade, terça-feira não estarei aqui, nesta coluna. E aviso-o desde já para evitar outras interpretações de gente que por aí há.
1- Nada melhor que uma grande montra internacional, como um Europeu de futebol, para fabricar instantaneamente heróis e proporcionar negócios de estarrecer. Bastaram quatro golos ao inglês Rooney para ser transformado no novo herói das ilhas Britânicas e levar o seu clube, o Everton, a estimar em 75 milhões de euros o seu valor transaccionável: 18,75 milhões por cada golo marcado. Entre nós o delírio das transacções fantásticas também é uma constante: ainda o Euro não tinha começado e já nada menos que quatro jogadores do Benfica eram dados como prováveis no Real Madrid de Camacho: Miguel, Tiago, Luisão, Petit. Nuno Gomes—que deve apenas a dois golos marcados num outro Europeu a sua transferência milionária para Itália — vê agora, e graças ao seu inspirado golo contra a Espanha, a sua renovação contratual transformada em prioridade para os lados da Luz, não venha novo tubarão europeu querer raptá-lo novamente.
Quanto ao último herói em data — Ricardo, guarda-redes do Sporting e da Selecção— , já se podem ler textos onde se perspectivam as mais-valias que o Sporting vai fazer com a sua venda, assim que termine o Europeu, e onde se tecem elogios à capacidade de antecipação do negócio de que deu provas, um ano atrás, a SAD do Sporting. Deixo aqui uma aposta pessoal: nenhum destes se vai transferir para o estrangeiro, a não ser que muito baratinho.
Já quanto aos portistas ao serviço da Selecção, infelizmente não posso apostar o mesmo. O mercado não é parvo, não nada em dinheiro para deitar fora e nem sempre se deixa ir atrás de impressões fugazes ou dos desejos dos empresários colocadores de notícias. O verdadeiro núcleo de jogadores portugueses que interessam ao mercado é aquele que foi campeão da Europa de clubes e que entrou em cena depois do Portugal-Grécia para transformar uma Selecção vencida numa equipa de vencedores. Porque será?
2- A passagem do Ricardo a herói nacional é, objectivamente, um acto de voluntarismo da imprensa. É certo que, no meio daquele drama sempre psicologicamente demolidor que é o desempate por penalties, a sua prestação teve um tom de verdadeiro drama e glória que, tendo sido o último acto de um espectáculo tenso e intenso de duas horas, ficou para sempre condenada a passar à história. O acto de descalçar as luvas para tentar a defesa decisiva e, logo de seguida, aproveitar o estado de transe para cobrar ele o último penalty foi do melhor, em termos dramáticos, que se pode servir a uma multidão.
E, como as últimas impressões é que ficam, tudo o resto ficou apagado. O quê, ao certo? De positivo, duas boas defesas, uma saindo a pontapé fora da área, outra mergulhando em voo para um remate frontal. De negativo, a falta de reflexos para conseguir emendar a fífia do Costinha aos três minutos de jogo (o remate de Owen é espontâneo e bem executado mas saiu fraco e à figura) e duas bolas cabeceadas livremente na sua zona de interdição aérea, uma das quais esbarrou na trave e viu a recarga vitoriosa felizmente anulada pelo árbitro. Até que se chegou aos penalties e, depois de Beckham ter escorregado no primeiro, os três seguintes entraram pelo meio da baliza, enquanto Ricardo se atirava sistematicamente para a sua esquerda.
E estávamos nisto quando Eusébio, desesperado, correu ao longo da lateral para, como ele contaria depois, ir suplicar a Ricardo que não se mexesse antes de ver para onde ia a bola — pois que, como lhe ensinara Lev Yashine há muitos anos, essa é a única hipótese que um guarda-redes tem de defender um penalty sem ser por sorte. Mas a verdade é que, felizmente para Portugal, Ricardo não escutou o conselho de Eusébio nem quis saber da lição de Yashine. E, pela quarta vez consecutiva, atirou-se para o mesmo lado e teve a sorte de ver o seu adversário inglês fazer-lhe finalmente a vontade e atirar para lá a bola.
Depois, veio aquele gesto iluminado de mandar afastar o Nuno Valente e encarregar-se ele próprio de cobrar o nosso penalty. Ora a sua cobrança (tirando a do Rui Costa, que saiu por alto) foi a pior entre as seis cobranças de Portugal. Porque há quatro regras, por ordem de importância decrescente, para cobrar bem um penalty: 1.ª, enganar o guarda-redes; 2.ª, rematar rasteiro e nunca por alto; 3.ª, colocar a bola o mais desviada possível do centro; 4.ª, rematar com força.
Rarissimamente se conseguem reunir as quatro no mesmo remate mas isso não é importante desde que a primeira delas seja assegurada: um guarda-redes desequilibrado para o lado contrário àquele em que se envia a bola jamais conseguirá ir buscá-la. O Ricardo conseguiu as últimas três condições de êxito mas não a primeira, o que, com um guarda-redes tão comprido como o James, seria normalmente fatal, se a bola não tem saído, de facto, tão colocada. Um palmo mais para dentro e a esta hora já não haveria herói Ricardo e, se porventura a Inglaterra tem ganho a seguir o desempate, toda a gente estaria agora a condenar a sobranceria do Ricardo, que nos teria custado a eliminação. Eis quão frágil é a fronteira entre os heróis e os vilões.
A heroicização do Ricardo teve, como contrapartida inevitável, o esquecimento dos méritos de outros. Poderíamos falar, desde logo, do Maniche, que encheu o campo com uma exibição imensa, culminada com uma cobrança exemplar do penalty que lhe coube. Ou do Hélder Postiga, que em 10 minutos revolucionou o ataque português, nos levou à igualdade e nos devolveu a esperança e que cobrou o seu penalty com um número circense daqueles que ficam para sempre na memória, pela classe e calma com que foi executado. Mas o herói escolhido foi o Ricardo. Porque são as últimas impressões que contam e também por outras razões que na hora de unicidade nacional não convém que sejam especificadas.
3- Há uns meses atrás escrevi aqui que o Europeu era uma competição que não me entusiasmava muito, pois que raramente era bem jogado, fruto do cansaço de final de época que revelavam os melhores jogadores das melhores equipas, o que fazia, aliás, com que o estatuto de favorito fosse mais institucional que real. O próprio Mundial é, a meu ver, uma competição sempre ligeiramente falseada pela vantagem que sul-americanos têm em relação aos europeus, fruto das diferentes épocas em que a competição aparece dos dois lados do Atlântico. Se brasileiros e argentinos aparecem sempre como candidatos à vitória é sem dúvida porque ambos os países são verdadeiras fábricas de grandes jogadores, em produção industrial, mas também porque as suas selecções aparecem sempre nos Mundiais em muito melhores condições físicas e anímicas que as selecções europeias.
Este Europeu — que eu confesso que, apesar disso, me tem surpreendido por uma qualidade superior à que esperava — não foge, todavia, à regra. Vimos selecções como a francesa, a italiana, a inglesa, a alemã, a espanhola, positivamente nos limites. Vimos as vedetas multinacionais do Real Madrid — Zidane, Beckham, Raul, o próprio Figo — fazerem das tripas coração, algumas já de arrasto. À medida que o campeonato avança para o fim, e os jogos nas pernas se acumulam, este vai ser o factor decisivo. Para as meias-finais são favoritos os que tiveram mais dias para descansar, os que disputaram os seus cinco jogos em período mais dilatado de tempo, os que tiveram menos jogos no horário violento das cinco da tarde, os que estão mais habituados a este calor demolidor, os que tiveram uma época menos carregada para os seus principais jogadores. Os favoritos são-no pelas circunstâncias da prova e não por estatuto predeterminado. São favoritos, portanto, Portugal e Grécia.
P. S. — E, por falar em circunstâncias, e se outras de última hora não ocorrerem, no próximo domingo, à hora em que se disputa a final do Europeu, estarei fechado e longe de tudo a bordo de um avião com destino ao Brasil. Porque se trata de trabalho e não de férias e tenho coisas com hora marcada à minha espera, nada há que possa fazer contra as circunstâncias. Só me resta conformar-me com ser um dos raros portugueses que não só não vão assistir, nem sequer pela televisão, à final do Europeu disputado em Portugal, e onde temos a hipótese, que julgo inédita, de sermos na mesma época campeões da Europa de clubes e de selecções, como também estar ausente num momento em que o meu país surge ameaçado por uma catástrofe política sem precedentes na sua história.
Assim, com toda a probabilidade, terça-feira não estarei aqui, nesta coluna. E aviso-o desde já para evitar outras interpretações de gente que por aí há.
Dezassete meses e cinco dias ( 22 Junho 2004)
Dezassete meses andou Scolari a preparar a equipa errada. Consumado o desastre anunciado, o seleccionador dispôs-se, enfim, a perceber o que já todos tinham percebido e cinco dias bastaram para se constatar ao que pode conduzir uma fútil teimosia.
1 - Dezassete meses andou Luiz Felipe Scolari a preparar uma equipa errada que, teste após teste, demonstrou, mesmo até ao fim — até aos últimos jogos de preparação contra as incipientes selecções da Lituânia e do Luxemburgo — não ter qualquer hipótese de fazer um bom Europeu.
Porque já não havia tempo para ensaiar outra equipa, porque quase toda a gente calou as suas críticas por «dever patriótico», porque havia o precedente do Brasil no Mundial da Coreia-Japão, porque a teimosia do seleccionador foi levada à conta de tique de génio e porque o seu extraordinário talento para relações públicas meteu ao bolso jornalistas e opinião pública, por tudo isso, Portugal avançou para o Europeu com a mesmíssima equipa que durante ano e meio só trouxera desilusões e descrença.E ficámos todos à espera do milagre... para vermos provado que os milagres não acontecem a quem os não merece.
Há quem pense, todavia, que não: que foi a chegada da imagem de Nossa Senhora de Caravaggio, que Scolari mandou vir da sua terra gaúcha, que motivou a radical transformação da Selecção, da equipa lastimável que se exibiu contra a Grécia na equipa nova que emergiu contra a Rússia e brilhou contra a Espanha. Mas a verdade foi outra e bem mais simples: à vista, não apenas do resultado, mas também da misérrima exibição contra os gregos, na iminência de nem aos quartos-de-final conseguir chegar e com os personagens já a agarrarem-se a inacreditáveis desculpas, tais como a da inibição causada pelo apoio do público (!), Scolari teve de deixar-se de uma teimosia suicidária e irresponsável e lançar mão da única hipótese de redenção que tinha.
Quando na noite da passada terça-feira, Luiz Felipe Scolari pôde ficar finalmente a sós com a Senhora de Caravaggio e lhe pediu o favor de um milagre, a Senhora respondeu-lhe: «Não me peças milagres, porque eles só acontecem a quem os merece. Deixa-te antes da tua soberba e teimosia e reconhece o valor de quem o tem: pega nos jogadores que o Mourinho fez campeões europeus e põe-os a jogar. É a tua única hipótese de salvação.»
Na verdade, Scolari já havia feito uma única concessão à razão, uma concessão de última hora, que foi pôr o Maniche em lugar do Petit contra a Grécia — e o Maniche tem sido provavelmente o melhor jogador da Selecção ao longo dos três jogos. Depois da Grécia, a revolução veio, quase total: o melhor central do Mundo em 2004 tomou obviamente o lugar do Fernando Couto; o NunoValente apeou o Rui Jorge; o Deco substituiu o Rui Costa, com a utilidade esperada; o Cristiano Ronaldo tomou o lugar cativo do Simão e até o Nuno Gomes acabou a substituir na hora exacta um irreconhecível Pauleta, que ao longo de 270 minutos de jogo não conseguiu fazer um único remate às balizas adversárias. De todos os inamovíveis durante mais de ano e meio, apenas não saíram o Figo e o Ricardo. O Figo porque continua imprescindível, sobretudo se remetido à sua função natural de extremo, e o Ricardo, que talvez acabe ainda substituído pelo Moreira se a sorte deixar de proteger a sua incapacidade no jogo aéreo, como sucedeu contra a Espanha.
Como ontem escrevia José Mourinho em Ojogo, «Em boa hora os gregos nos ganharam,emboa hora originaram reflexões que determinaram modificações radicais na nossa Selecção. Esta Selecção não é aquela que jogou malmeses emeses e que nos tornounumpaís descrente com a nossa equipa. E imaginem se esta equipa tivesse sido trabalhada nos últimos dois anos!»
Pois é, agora os mesmos que antes não se cansavam de elogiar a teimosia, a «coerência» de Scolari, a sua «fé» numa equipa menos que banal,sem qualquer fio de jogo nem atitude competitiva, agora são capazes de se render à sua capacidade de transformação, à sua genial leitura das alterações necessárias.
Mas a pergunta mantém-se: porque esperou ele dezassete meses para ver o que todos já tinham visto?Que outro treinador competente desprezaria os jogadores que durante dois anos a fio venceram o que havia para vencer na Europa de clubes, ao ponto de nunca se ter dignado assistir a um jogo do FC Porto?
Quem, senão Scolari, ignorou até ao fim que tinha uma defesa e um meio-campo formados, treinados e prontos a ser usados, sem necessidade de inventar mais nada? E se o fez, como eu julgo, por pura vaidade, então o destino trocou- lhe as voltas: ao ver a Selecção de Scolari finalmente a jogar futebol, finalmente crente na vitória e com espírito de conquista, e ao escutar simultaneamente os comentários televisivos de José Mourinho, eu — e milhões de portugueses certamente — percebemos com uma nitidez impúdica que o treinador campeão do Mundo de Selecções,na hora do aperto, se tinha limitado a lançar mão da herança e do trabalho deixados pelo treinador campeão da Europa de clubes.
E o que ele não queria que se visse tornou- se gritantemente evidente: que é muitíssimo mais fácil ser campeão do Mundo com qualquer selecção do Brasil do que ser campeão da Europa com qualquer equipa portuguesa.
O futebol, ao contrário do que algumas vedetas imaginam, não é assim tão complicado como isso. O mais importante, o mais claro e o mais sério do futebol, passa-se à vista de todos, durante os jogos e nos estádios. Não se passa nos míticos balneários, nem nos treinos à porta fechada, nem nos jogos de bastidores e de influências entre jogadores, clubes, treinadores e empresários. A hora da verdade, o momento em que se desfazem mitos e se faz justiça é durante os jogos. E é porque não é assim tão complicado perceber o que se passa num jogo, quem joga bem e quem joga mal, que o futebol é um desporto que arrasta multidões de adeptos e não é uma ciência oculta, apenas acessível a uns quantos iluminados. Tem segredos e tem ciência própria, claro. Mas tem, sobretudo,uma leitura que se baseia na observação e no bom senso. Não é preciso ser diplomado em cursos de Verão de treinador para perceber que, nestemomento e atendendo à forma de cada um, o Vítor Baía deveria estar no lugar do Ricardo, o Ricardo Carvalho no lugar do Fernando Couto, o Nuno Valente no lugar do Rui Jorge, o Maniche no lugar do Petit, o Deco no lugar do Rui Costa, o Cristiano no lugar do Simão e o Nuno Gomes pronto a substituir o Pauleta.
Não era preciso, aliás, ter esperado dezassete meses e ter sofrido a humilhação às mãos deuma selecçãomenor, como a grega, para o entender .Pergunte-se a Portugal inteiro, e apesar das disfunções clubistas de cada um, estou certo de que o consenso aqui é praticamente unânime. Só mesmo o seleccionador é que foi o último a percebê-lo. E agora, ainda iremos a tempo? O trabalho de sincronização da «equipa de emergência» está a ser feito durante os próprios jogos, não o tendo sido feito antes. Muitos destes jogadores estão em clara sobrecarga de esforço, como é o caso de Figo, de Pauleta e dos jogadores do FC Porto, esgotados por uma época tremenda. E os que no decorrer dos jogos os poderão substituir, embora mantenham a motivação, estarão psicologicamente afectados pelas circunstâncias em que perderam a titularidade com que sempre contaram. E Scolari, esse, navega à vista: está dependente do momento de inspiração de Nuno Gomes ou da bola que bate no poste de Ricardo. Daqui para a frente, tudo é uma incógnita. O primeiro- ministro, que procura colar-se à popularidade da Selecção, pode dizer que acredita na vitória no Euro.Mas todos os outros, os que não têm obrigações de propaganda política, sabem que qualquer prognóstico, seja de vitória ou de derrota, é pura adivinhação.
2 - Cada vez que há um Portugal- Espanha, em futebol ou em hóquei em patins, é certo e sabido que haveremos de cair no discurso ridículo de Aljubarrota e nas mais disparatadas e imbecis tiradas nacionalistas, como se o espaço de um jogo pudesse apagar milagrosamente as diferenças nacionais que verdadeiramente contam. Queremos, porventura, passar uma imagem de força para o lado de lá da fronteira, mas tudo o que passamos —e, se calhar, nem percebemos — é o retrato de um antigo e invencível complexo de inferioridade.
1 - Dezassete meses andou Luiz Felipe Scolari a preparar uma equipa errada que, teste após teste, demonstrou, mesmo até ao fim — até aos últimos jogos de preparação contra as incipientes selecções da Lituânia e do Luxemburgo — não ter qualquer hipótese de fazer um bom Europeu.
Porque já não havia tempo para ensaiar outra equipa, porque quase toda a gente calou as suas críticas por «dever patriótico», porque havia o precedente do Brasil no Mundial da Coreia-Japão, porque a teimosia do seleccionador foi levada à conta de tique de génio e porque o seu extraordinário talento para relações públicas meteu ao bolso jornalistas e opinião pública, por tudo isso, Portugal avançou para o Europeu com a mesmíssima equipa que durante ano e meio só trouxera desilusões e descrença.E ficámos todos à espera do milagre... para vermos provado que os milagres não acontecem a quem os não merece.
Há quem pense, todavia, que não: que foi a chegada da imagem de Nossa Senhora de Caravaggio, que Scolari mandou vir da sua terra gaúcha, que motivou a radical transformação da Selecção, da equipa lastimável que se exibiu contra a Grécia na equipa nova que emergiu contra a Rússia e brilhou contra a Espanha. Mas a verdade foi outra e bem mais simples: à vista, não apenas do resultado, mas também da misérrima exibição contra os gregos, na iminência de nem aos quartos-de-final conseguir chegar e com os personagens já a agarrarem-se a inacreditáveis desculpas, tais como a da inibição causada pelo apoio do público (!), Scolari teve de deixar-se de uma teimosia suicidária e irresponsável e lançar mão da única hipótese de redenção que tinha.
Quando na noite da passada terça-feira, Luiz Felipe Scolari pôde ficar finalmente a sós com a Senhora de Caravaggio e lhe pediu o favor de um milagre, a Senhora respondeu-lhe: «Não me peças milagres, porque eles só acontecem a quem os merece. Deixa-te antes da tua soberba e teimosia e reconhece o valor de quem o tem: pega nos jogadores que o Mourinho fez campeões europeus e põe-os a jogar. É a tua única hipótese de salvação.»
Na verdade, Scolari já havia feito uma única concessão à razão, uma concessão de última hora, que foi pôr o Maniche em lugar do Petit contra a Grécia — e o Maniche tem sido provavelmente o melhor jogador da Selecção ao longo dos três jogos. Depois da Grécia, a revolução veio, quase total: o melhor central do Mundo em 2004 tomou obviamente o lugar do Fernando Couto; o NunoValente apeou o Rui Jorge; o Deco substituiu o Rui Costa, com a utilidade esperada; o Cristiano Ronaldo tomou o lugar cativo do Simão e até o Nuno Gomes acabou a substituir na hora exacta um irreconhecível Pauleta, que ao longo de 270 minutos de jogo não conseguiu fazer um único remate às balizas adversárias. De todos os inamovíveis durante mais de ano e meio, apenas não saíram o Figo e o Ricardo. O Figo porque continua imprescindível, sobretudo se remetido à sua função natural de extremo, e o Ricardo, que talvez acabe ainda substituído pelo Moreira se a sorte deixar de proteger a sua incapacidade no jogo aéreo, como sucedeu contra a Espanha.
Como ontem escrevia José Mourinho em Ojogo, «Em boa hora os gregos nos ganharam,emboa hora originaram reflexões que determinaram modificações radicais na nossa Selecção. Esta Selecção não é aquela que jogou malmeses emeses e que nos tornounumpaís descrente com a nossa equipa. E imaginem se esta equipa tivesse sido trabalhada nos últimos dois anos!»
Pois é, agora os mesmos que antes não se cansavam de elogiar a teimosia, a «coerência» de Scolari, a sua «fé» numa equipa menos que banal,sem qualquer fio de jogo nem atitude competitiva, agora são capazes de se render à sua capacidade de transformação, à sua genial leitura das alterações necessárias.
Mas a pergunta mantém-se: porque esperou ele dezassete meses para ver o que todos já tinham visto?Que outro treinador competente desprezaria os jogadores que durante dois anos a fio venceram o que havia para vencer na Europa de clubes, ao ponto de nunca se ter dignado assistir a um jogo do FC Porto?
Quem, senão Scolari, ignorou até ao fim que tinha uma defesa e um meio-campo formados, treinados e prontos a ser usados, sem necessidade de inventar mais nada? E se o fez, como eu julgo, por pura vaidade, então o destino trocou- lhe as voltas: ao ver a Selecção de Scolari finalmente a jogar futebol, finalmente crente na vitória e com espírito de conquista, e ao escutar simultaneamente os comentários televisivos de José Mourinho, eu — e milhões de portugueses certamente — percebemos com uma nitidez impúdica que o treinador campeão do Mundo de Selecções,na hora do aperto, se tinha limitado a lançar mão da herança e do trabalho deixados pelo treinador campeão da Europa de clubes.
E o que ele não queria que se visse tornou- se gritantemente evidente: que é muitíssimo mais fácil ser campeão do Mundo com qualquer selecção do Brasil do que ser campeão da Europa com qualquer equipa portuguesa.
O futebol, ao contrário do que algumas vedetas imaginam, não é assim tão complicado como isso. O mais importante, o mais claro e o mais sério do futebol, passa-se à vista de todos, durante os jogos e nos estádios. Não se passa nos míticos balneários, nem nos treinos à porta fechada, nem nos jogos de bastidores e de influências entre jogadores, clubes, treinadores e empresários. A hora da verdade, o momento em que se desfazem mitos e se faz justiça é durante os jogos. E é porque não é assim tão complicado perceber o que se passa num jogo, quem joga bem e quem joga mal, que o futebol é um desporto que arrasta multidões de adeptos e não é uma ciência oculta, apenas acessível a uns quantos iluminados. Tem segredos e tem ciência própria, claro. Mas tem, sobretudo,uma leitura que se baseia na observação e no bom senso. Não é preciso ser diplomado em cursos de Verão de treinador para perceber que, nestemomento e atendendo à forma de cada um, o Vítor Baía deveria estar no lugar do Ricardo, o Ricardo Carvalho no lugar do Fernando Couto, o Nuno Valente no lugar do Rui Jorge, o Maniche no lugar do Petit, o Deco no lugar do Rui Costa, o Cristiano no lugar do Simão e o Nuno Gomes pronto a substituir o Pauleta.
Não era preciso, aliás, ter esperado dezassete meses e ter sofrido a humilhação às mãos deuma selecçãomenor, como a grega, para o entender .Pergunte-se a Portugal inteiro, e apesar das disfunções clubistas de cada um, estou certo de que o consenso aqui é praticamente unânime. Só mesmo o seleccionador é que foi o último a percebê-lo. E agora, ainda iremos a tempo? O trabalho de sincronização da «equipa de emergência» está a ser feito durante os próprios jogos, não o tendo sido feito antes. Muitos destes jogadores estão em clara sobrecarga de esforço, como é o caso de Figo, de Pauleta e dos jogadores do FC Porto, esgotados por uma época tremenda. E os que no decorrer dos jogos os poderão substituir, embora mantenham a motivação, estarão psicologicamente afectados pelas circunstâncias em que perderam a titularidade com que sempre contaram. E Scolari, esse, navega à vista: está dependente do momento de inspiração de Nuno Gomes ou da bola que bate no poste de Ricardo. Daqui para a frente, tudo é uma incógnita. O primeiro- ministro, que procura colar-se à popularidade da Selecção, pode dizer que acredita na vitória no Euro.Mas todos os outros, os que não têm obrigações de propaganda política, sabem que qualquer prognóstico, seja de vitória ou de derrota, é pura adivinhação.
2 - Cada vez que há um Portugal- Espanha, em futebol ou em hóquei em patins, é certo e sabido que haveremos de cair no discurso ridículo de Aljubarrota e nas mais disparatadas e imbecis tiradas nacionalistas, como se o espaço de um jogo pudesse apagar milagrosamente as diferenças nacionais que verdadeiramente contam. Queremos, porventura, passar uma imagem de força para o lado de lá da fronteira, mas tudo o que passamos —e, se calhar, nem percebemos — é o retrato de um antigo e invencível complexo de inferioridade.
Agora não gostam do Scolari? ( 15 Junho 2004)
Agora não gostam do Scolari?
É exigível que o sino toque a rebate e que toda a gente que está em Alcochete entenda que o País espera deles muito mais e muito melhor do que aquilo que tem sido visto até aqui.
Pareceu-me a mim, mas talvez esteja enganado, que tinha sido, durante mais do que o último ano, uma das raras vozes que na imprensa desportiva portuguesa nunca escondeu as suas desconfianças relativamente à capacidade de Luis Felipe Scolari corresponder às expectativas que uma nação inteira depositou nele e nasua Selecção. É verdade que, consumado o afastamento de Vítor Baía, muita gente escreveu o que precisava de ser escrito sobre essa atitude de pura prepotência do seleccionador. Mas, feito isso, passaram adiante, porque entenderam que não adiantava mais chover no molhado e a hora era então de tocar a reunir. Eu, por mim, confesso que não consegui perdoar essa atitude do seleccionador, pela injustiça e pela arrogância que ela revelou, totalmente inaceitáveis em quem tem por obrigação ser um condutor de homens. O caso Vítor Baía foi para mim um sintoma de qualquer coisa demais vasto e mais sério: percebi que circunstâncias laterais, e não o mérito, podiam determinar as escolhas do seleccionador — e isso era grave e prenunciava potenciais desastres. Hoje, consumado o desastre grego, quase todos se questionam porque ficou Baía de fora, porque fica Ricardo Carvalho no banco, porque é que Rui Costa tem lugar cativo, enquanto Deco e Cristiano Ronaldo são suplentes. A mim o que me espanta é que só agora ocorram tais perguntas, como se elas não se impusessem já naturalmente, após ano e meio e 18 jogos particulares em que nunca houve mais do que meia hora de futebol aceitável. Todos sabiam qual era o onze de Scolari para o Europeu — exactamente o mesmo com que tinha começado há ano e meio atrás, salvo a única concessão de última hora, que foi a opção por Maniche em vez de Petit, a única asneira que ele não cometeu. E, embora esse onze tenha dado exuberantes provas de incapacidade, quer a nível de resultados, quer no futebol totalmente desconexo e sem tino exibido em sucessivos jogos, todos continuaram confiantes que se tratava apenas de maus ensaios gerais, a que se seguiria, não sei porque artes milagrosas, uma auspiciosa estreia, quando aparecesse o primeiro jogo a doer. A onda histérica de patriotismo que invadiu o País exigiu que todos calassem as suas críticas, sob pena de, como no antigamente, serem tidos por maus patriotas. Passámos da máxima de «a Pátria não se discute», de Salazar, para a nova versão de «a Selecção não se discute». Após aqui ter escrito, mais uma vez, no início de Abril, que a Selecção de Scolari, jogo após jogo, não dava mostras de qualquer evolução ou do mais simples «fio de jogo», José Manuel Delgado ripostou, aqui também, o seguinte: «Poisados nos ramos, os abutres de serviço atacam e fogem, sem outras razões que a sua própria natureza, sempre que lhes cheira a sangue. Não matam masmo em, minando as condições de estabilidade em que o trabalho da equipa de todos nós deveria processar-se.» Achei extraordinário que «as condições de estabilidade» exigíveis (para além das condições de trabalho concedidas a Scolari e à Selecção, em que nada, rigorosamente nada, lhes faltou), requerem-se ainda a censura prévia sobre as críticas feitas a tempo de poderem ser úteis — isto é, antes e não depois dos resultados à vista, antes e não depois de tudo se tornar irremediável. De qualquer maneira, hoje entendo que não é a hora para passar da grande esperança à grande descrença. Os que comigo estiveram nos dias anteriores à abertura do Europeu são testemunhas de que eu vaticinei a derrota contra a Grécia, mas acrescentei que a boa notícia daí resultante ia ser a necessidade de Scolari rever todas as suas ideias feitas e reagir em desespero de causa. Acredito que é isso que se vai passar contra a Rússia, que erros gritantes da formação irão ser corrigidos — espero que todos e com a coragem necessária. É evidente que isso, por si só, não garante o êxito, porque Scolari nunca treinou, nunca preparou, nunca encarou a hipótese de um onze alternativo àquele que fixou há ano e meio e do qual nunca se afastou. Mas, considerando que a Rússia é, em qualquer circunstância— e, ainda mais, desfalcada e jogando fora — uma equipa perfeitamente ao nosso alcance, deve bastar pôr a jogar os melhores e os que estão em melhor forma para, por enquanto, poder continuar a alimentar esperanças. Não é, pois, a hora de entrar num bota-a-baixo, que é simultaneamente tardio e precoce. Em tempo de guerra não se limpam armas e estas são as que temos. Antes de Scolari fechar a convocatória, era possível e desejável escutar todas as críticas; agora e por enquanto, não adianta nada. Só há uma coisa que não resisto a dizer, porque não é uma crítica ao seleccionador, mas antes aos que ajudaram a preparar um clima de facilitismo que, em minha opinião, contribui largamente para o desaire contra os gregos. O que quero dizer é que nunca vi, em tempo algum, um seleccionador e uma Selecção Nacional disporem de tantas e tantas condições de êxito e, ao mesmo tempo, toda a gente achar que nada lhes era exigível. Quando Scolari diz que «a cobrança mínima» é a passagem aos quartos-de-final, é espantoso que ninguém se indigne e pergunte se depois dos milhões gastos na organização do Euro para que Portugal tivesse finalmente hipótese de ganhar alguma coisa, depois dos salários, prémios e contratos publicitários milionários das vedetas da Selecção, Scolari incluído, depois das condições de trabalho únicas de que sempre dispuseram, depois do apoio sem desfalecimentos de um país inteiro, acham que chega os quartos-de-final? Como é possível que o Presidente da República e o primeiro-ministro se desloquem ao estágio da Selecção (ao contrário do que sempre foi tradição), para irem lá dizer que ninguém lhes exige nada? Não exigimos? E porque não? Acaso não teremos o direito de exigir que lutem pelo título europeu, depois de todo o esforço financeiro que o país sustentou? É que somos todos muito patriotas, mas os únicos que ganham com esse patriotismo são os que estão na Selecção. E, embora no futebol já lá vá o tempo em que representar Portugal era por si só uma honra e um privilégio que dispensa qualquer outra compensação, é exigível, pelo menos, que quem lá está, honre o contrato de profissional que tem com a Selecção. Em que outro sector de actividade é aceitável que alguém seja principescamente pago, alvo de todas as atenções e homenagens, rodeado de inexcedíveis condições de trabalho e depois ainda lhe digam que nada lhe é exigível em troca? É exigível, sim. É exigível que o sino toque a rebate e que toda a gente que está em Alcochete entenda que o país espera deles muito mais e muito melhor do que aquilo que tem sido visto até aqui.
É exigível que o sino toque a rebate e que toda a gente que está em Alcochete entenda que o País espera deles muito mais e muito melhor do que aquilo que tem sido visto até aqui.
Pareceu-me a mim, mas talvez esteja enganado, que tinha sido, durante mais do que o último ano, uma das raras vozes que na imprensa desportiva portuguesa nunca escondeu as suas desconfianças relativamente à capacidade de Luis Felipe Scolari corresponder às expectativas que uma nação inteira depositou nele e nasua Selecção. É verdade que, consumado o afastamento de Vítor Baía, muita gente escreveu o que precisava de ser escrito sobre essa atitude de pura prepotência do seleccionador. Mas, feito isso, passaram adiante, porque entenderam que não adiantava mais chover no molhado e a hora era então de tocar a reunir. Eu, por mim, confesso que não consegui perdoar essa atitude do seleccionador, pela injustiça e pela arrogância que ela revelou, totalmente inaceitáveis em quem tem por obrigação ser um condutor de homens. O caso Vítor Baía foi para mim um sintoma de qualquer coisa demais vasto e mais sério: percebi que circunstâncias laterais, e não o mérito, podiam determinar as escolhas do seleccionador — e isso era grave e prenunciava potenciais desastres. Hoje, consumado o desastre grego, quase todos se questionam porque ficou Baía de fora, porque fica Ricardo Carvalho no banco, porque é que Rui Costa tem lugar cativo, enquanto Deco e Cristiano Ronaldo são suplentes. A mim o que me espanta é que só agora ocorram tais perguntas, como se elas não se impusessem já naturalmente, após ano e meio e 18 jogos particulares em que nunca houve mais do que meia hora de futebol aceitável. Todos sabiam qual era o onze de Scolari para o Europeu — exactamente o mesmo com que tinha começado há ano e meio atrás, salvo a única concessão de última hora, que foi a opção por Maniche em vez de Petit, a única asneira que ele não cometeu. E, embora esse onze tenha dado exuberantes provas de incapacidade, quer a nível de resultados, quer no futebol totalmente desconexo e sem tino exibido em sucessivos jogos, todos continuaram confiantes que se tratava apenas de maus ensaios gerais, a que se seguiria, não sei porque artes milagrosas, uma auspiciosa estreia, quando aparecesse o primeiro jogo a doer. A onda histérica de patriotismo que invadiu o País exigiu que todos calassem as suas críticas, sob pena de, como no antigamente, serem tidos por maus patriotas. Passámos da máxima de «a Pátria não se discute», de Salazar, para a nova versão de «a Selecção não se discute». Após aqui ter escrito, mais uma vez, no início de Abril, que a Selecção de Scolari, jogo após jogo, não dava mostras de qualquer evolução ou do mais simples «fio de jogo», José Manuel Delgado ripostou, aqui também, o seguinte: «Poisados nos ramos, os abutres de serviço atacam e fogem, sem outras razões que a sua própria natureza, sempre que lhes cheira a sangue. Não matam masmo em, minando as condições de estabilidade em que o trabalho da equipa de todos nós deveria processar-se.» Achei extraordinário que «as condições de estabilidade» exigíveis (para além das condições de trabalho concedidas a Scolari e à Selecção, em que nada, rigorosamente nada, lhes faltou), requerem-se ainda a censura prévia sobre as críticas feitas a tempo de poderem ser úteis — isto é, antes e não depois dos resultados à vista, antes e não depois de tudo se tornar irremediável. De qualquer maneira, hoje entendo que não é a hora para passar da grande esperança à grande descrença. Os que comigo estiveram nos dias anteriores à abertura do Europeu são testemunhas de que eu vaticinei a derrota contra a Grécia, mas acrescentei que a boa notícia daí resultante ia ser a necessidade de Scolari rever todas as suas ideias feitas e reagir em desespero de causa. Acredito que é isso que se vai passar contra a Rússia, que erros gritantes da formação irão ser corrigidos — espero que todos e com a coragem necessária. É evidente que isso, por si só, não garante o êxito, porque Scolari nunca treinou, nunca preparou, nunca encarou a hipótese de um onze alternativo àquele que fixou há ano e meio e do qual nunca se afastou. Mas, considerando que a Rússia é, em qualquer circunstância— e, ainda mais, desfalcada e jogando fora — uma equipa perfeitamente ao nosso alcance, deve bastar pôr a jogar os melhores e os que estão em melhor forma para, por enquanto, poder continuar a alimentar esperanças. Não é, pois, a hora de entrar num bota-a-baixo, que é simultaneamente tardio e precoce. Em tempo de guerra não se limpam armas e estas são as que temos. Antes de Scolari fechar a convocatória, era possível e desejável escutar todas as críticas; agora e por enquanto, não adianta nada. Só há uma coisa que não resisto a dizer, porque não é uma crítica ao seleccionador, mas antes aos que ajudaram a preparar um clima de facilitismo que, em minha opinião, contribui largamente para o desaire contra os gregos. O que quero dizer é que nunca vi, em tempo algum, um seleccionador e uma Selecção Nacional disporem de tantas e tantas condições de êxito e, ao mesmo tempo, toda a gente achar que nada lhes era exigível. Quando Scolari diz que «a cobrança mínima» é a passagem aos quartos-de-final, é espantoso que ninguém se indigne e pergunte se depois dos milhões gastos na organização do Euro para que Portugal tivesse finalmente hipótese de ganhar alguma coisa, depois dos salários, prémios e contratos publicitários milionários das vedetas da Selecção, Scolari incluído, depois das condições de trabalho únicas de que sempre dispuseram, depois do apoio sem desfalecimentos de um país inteiro, acham que chega os quartos-de-final? Como é possível que o Presidente da República e o primeiro-ministro se desloquem ao estágio da Selecção (ao contrário do que sempre foi tradição), para irem lá dizer que ninguém lhes exige nada? Não exigimos? E porque não? Acaso não teremos o direito de exigir que lutem pelo título europeu, depois de todo o esforço financeiro que o país sustentou? É que somos todos muito patriotas, mas os únicos que ganham com esse patriotismo são os que estão na Selecção. E, embora no futebol já lá vá o tempo em que representar Portugal era por si só uma honra e um privilégio que dispensa qualquer outra compensação, é exigível, pelo menos, que quem lá está, honre o contrato de profissional que tem com a Selecção. Em que outro sector de actividade é aceitável que alguém seja principescamente pago, alvo de todas as atenções e homenagens, rodeado de inexcedíveis condições de trabalho e depois ainda lhe digam que nada lhe é exigível em troca? É exigível, sim. É exigível que o sino toque a rebate e que toda a gente que está em Alcochete entenda que o país espera deles muito mais e muito melhor do que aquilo que tem sido visto até aqui.