sábado, julho 03, 2004

Dezassete meses e cinco dias ( 22 Junho 2004)

Dezassete meses andou Scolari a preparar a equipa errada. Consumado o desastre anunciado, o seleccionador dispôs-se, enfim, a perceber o que já todos tinham percebido e cinco dias bastaram para se constatar ao que pode conduzir uma fútil teimosia.

1 - Dezassete meses andou Luiz Felipe Scolari a preparar uma equipa errada que, teste após teste, demonstrou, mesmo até ao fim — até aos últimos jogos de preparação contra as incipientes selecções da Lituânia e do Luxemburgo — não ter qualquer hipótese de fazer um bom Europeu.

Porque já não havia tempo para ensaiar outra equipa, porque quase toda a gente calou as suas críticas por «dever patriótico», porque havia o precedente do Brasil no Mundial da Coreia-Japão, porque a teimosia do seleccionador foi levada à conta de tique de génio e porque o seu extraordinário talento para relações públicas meteu ao bolso jornalistas e opinião pública, por tudo isso, Portugal avançou para o Europeu com a mesmíssima equipa que durante ano e meio só trouxera desilusões e descrença.E ficámos todos à espera do milagre... para vermos provado que os milagres não acontecem a quem os não merece.

Há quem pense, todavia, que não: que foi a chegada da imagem de Nossa Senhora de Caravaggio, que Scolari mandou vir da sua terra gaúcha, que motivou a radical transformação da Selecção, da equipa lastimável que se exibiu contra a Grécia na equipa nova que emergiu contra a Rússia e brilhou contra a Espanha. Mas a verdade foi outra e bem mais simples: à vista, não apenas do resultado, mas também da misérrima exibição contra os gregos, na iminência de nem aos quartos-de-final conseguir chegar e com os personagens já a agarrarem-se a inacreditáveis desculpas, tais como a da inibição causada pelo apoio do público (!), Scolari teve de deixar-se de uma teimosia suicidária e irresponsável e lançar mão da única hipótese de redenção que tinha.

Quando na noite da passada terça-feira, Luiz Felipe Scolari pôde ficar finalmente a sós com a Senhora de Caravaggio e lhe pediu o favor de um milagre, a Senhora respondeu-lhe: «Não me peças milagres, porque eles só acontecem a quem os merece. Deixa-te antes da tua soberba e teimosia e reconhece o valor de quem o tem: pega nos jogadores que o Mourinho fez campeões europeus e põe-os a jogar. É a tua única hipótese de salvação.»

Na verdade, Scolari já havia feito uma única concessão à razão, uma concessão de última hora, que foi pôr o Maniche em lugar do Petit contra a Grécia — e o Maniche tem sido provavelmente o melhor jogador da Selecção ao longo dos três jogos. Depois da Grécia, a revolução veio, quase total: o melhor central do Mundo em 2004 tomou obviamente o lugar do Fernando Couto; o NunoValente apeou o Rui Jorge; o Deco substituiu o Rui Costa, com a utilidade esperada; o Cristiano Ronaldo tomou o lugar cativo do Simão e até o Nuno Gomes acabou a substituir na hora exacta um irreconhecível Pauleta, que ao longo de 270 minutos de jogo não conseguiu fazer um único remate às balizas adversárias. De todos os inamovíveis durante mais de ano e meio, apenas não saíram o Figo e o Ricardo. O Figo porque continua imprescindível, sobretudo se remetido à sua função natural de extremo, e o Ricardo, que talvez acabe ainda substituído pelo Moreira se a sorte deixar de proteger a sua incapacidade no jogo aéreo, como sucedeu contra a Espanha.

Como ontem escrevia José Mourinho em Ojogo, «Em boa hora os gregos nos ganharam,emboa hora originaram reflexões que determinaram modificações radicais na nossa Selecção. Esta Selecção não é aquela que jogou malmeses emeses e que nos tornounumpaís descrente com a nossa equipa. E imaginem se esta equipa tivesse sido trabalhada nos últimos dois anos!»

Pois é, agora os mesmos que antes não se cansavam de elogiar a teimosia, a «coerência» de Scolari, a sua «fé» numa equipa menos que banal,sem qualquer fio de jogo nem atitude competitiva, agora são capazes de se render à sua capacidade de transformação, à sua genial leitura das alterações necessárias.

Mas a pergunta mantém-se: porque esperou ele dezassete meses para ver o que todos já tinham visto?Que outro treinador competente desprezaria os jogadores que durante dois anos a fio venceram o que havia para vencer na Europa de clubes, ao ponto de nunca se ter dignado assistir a um jogo do FC Porto?

Quem, senão Scolari, ignorou até ao fim que tinha uma defesa e um meio-campo formados, treinados e prontos a ser usados, sem necessidade de inventar mais nada? E se o fez, como eu julgo, por pura vaidade, então o destino trocou- lhe as voltas: ao ver a Selecção de Scolari finalmente a jogar futebol, finalmente crente na vitória e com espírito de conquista, e ao escutar simultaneamente os comentários televisivos de José Mourinho, eu — e milhões de portugueses certamente — percebemos com uma nitidez impúdica que o treinador campeão do Mundo de Selecções,na hora do aperto, se tinha limitado a lançar mão da herança e do trabalho deixados pelo treinador campeão da Europa de clubes.

E o que ele não queria que se visse tornou- se gritantemente evidente: que é muitíssimo mais fácil ser campeão do Mundo com qualquer selecção do Brasil do que ser campeão da Europa com qualquer equipa portuguesa.

O futebol, ao contrário do que algumas vedetas imaginam, não é assim tão complicado como isso. O mais importante, o mais claro e o mais sério do futebol, passa-se à vista de todos, durante os jogos e nos estádios. Não se passa nos míticos balneários, nem nos treinos à porta fechada, nem nos jogos de bastidores e de influências entre jogadores, clubes, treinadores e empresários. A hora da verdade, o momento em que se desfazem mitos e se faz justiça é durante os jogos. E é porque não é assim tão complicado perceber o que se passa num jogo, quem joga bem e quem joga mal, que o futebol é um desporto que arrasta multidões de adeptos e não é uma ciência oculta, apenas acessível a uns quantos iluminados. Tem segredos e tem ciência própria, claro. Mas tem, sobretudo,uma leitura que se baseia na observação e no bom senso. Não é preciso ser diplomado em cursos de Verão de treinador para perceber que, nestemomento e atendendo à forma de cada um, o Vítor Baía deveria estar no lugar do Ricardo, o Ricardo Carvalho no lugar do Fernando Couto, o Nuno Valente no lugar do Rui Jorge, o Maniche no lugar do Petit, o Deco no lugar do Rui Costa, o Cristiano no lugar do Simão e o Nuno Gomes pronto a substituir o Pauleta.

Não era preciso, aliás, ter esperado dezassete meses e ter sofrido a humilhação às mãos deuma selecçãomenor, como a grega, para o entender .Pergunte-se a Portugal inteiro, e apesar das disfunções clubistas de cada um, estou certo de que o consenso aqui é praticamente unânime. Só mesmo o seleccionador é que foi o último a percebê-lo. E agora, ainda iremos a tempo? O trabalho de sincronização da «equipa de emergência» está a ser feito durante os próprios jogos, não o tendo sido feito antes. Muitos destes jogadores estão em clara sobrecarga de esforço, como é o caso de Figo, de Pauleta e dos jogadores do FC Porto, esgotados por uma época tremenda. E os que no decorrer dos jogos os poderão substituir, embora mantenham a motivação, estarão psicologicamente afectados pelas circunstâncias em que perderam a titularidade com que sempre contaram. E Scolari, esse, navega à vista: está dependente do momento de inspiração de Nuno Gomes ou da bola que bate no poste de Ricardo. Daqui para a frente, tudo é uma incógnita. O primeiro- ministro, que procura colar-se à popularidade da Selecção, pode dizer que acredita na vitória no Euro.Mas todos os outros, os que não têm obrigações de propaganda política, sabem que qualquer prognóstico, seja de vitória ou de derrota, é pura adivinhação.

2 - Cada vez que há um Portugal- Espanha, em futebol ou em hóquei em patins, é certo e sabido que haveremos de cair no discurso ridículo de Aljubarrota e nas mais disparatadas e imbecis tiradas nacionalistas, como se o espaço de um jogo pudesse apagar milagrosamente as diferenças nacionais que verdadeiramente contam. Queremos, porventura, passar uma imagem de força para o lado de lá da fronteira, mas tudo o que passamos —e, se calhar, nem percebemos — é o retrato de um antigo e invencível complexo de inferioridade.

Agora não gostam do Scolari? ( 15 Junho 2004)

Agora não gostam do Scolari?


É exigível que o sino toque a rebate e que toda a gente que está em Alcochete entenda que o País espera deles muito mais e muito melhor do que aquilo que tem sido visto até aqui.

Pareceu-me a mim, mas talvez esteja enganado, que tinha sido, durante mais do que o último ano, uma das raras vozes que na imprensa desportiva portuguesa nunca escondeu as suas desconfianças relativamente à capacidade de Luis Felipe Scolari corresponder às expectativas que uma nação inteira depositou nele e nasua Selecção. É verdade que, consumado o afastamento de Vítor Baía, muita gente escreveu o que precisava de ser escrito sobre essa atitude de pura prepotência do seleccionador. Mas, feito isso, passaram adiante, porque entenderam que não adiantava mais chover no molhado e a hora era então de tocar a reunir. Eu, por mim, confesso que não consegui perdoar essa atitude do seleccionador, pela injustiça e pela arrogância que ela revelou, totalmente inaceitáveis em quem tem por obrigação ser um condutor de homens. O caso Vítor Baía foi para mim um sintoma de qualquer coisa demais vasto e mais sério: percebi que circunstâncias laterais, e não o mérito, podiam determinar as escolhas do seleccionador — e isso era grave e prenunciava potenciais desastres. Hoje, consumado o desastre grego, quase todos se questionam porque ficou Baía de fora, porque fica Ricardo Carvalho no banco, porque é que Rui Costa tem lugar cativo, enquanto Deco e Cristiano Ronaldo são suplentes. A mim o que me espanta é que só agora ocorram tais perguntas, como se elas não se impusessem já naturalmente, após ano e meio e 18 jogos particulares em que nunca houve mais do que meia hora de futebol aceitável. Todos sabiam qual era o onze de Scolari para o Europeu — exactamente o mesmo com que tinha começado há ano e meio atrás, salvo a única concessão de última hora, que foi a opção por Maniche em vez de Petit, a única asneira que ele não cometeu. E, embora esse onze tenha dado exuberantes provas de incapacidade, quer a nível de resultados, quer no futebol totalmente desconexo e sem tino exibido em sucessivos jogos, todos continuaram confiantes que se tratava apenas de maus ensaios gerais, a que se seguiria, não sei porque artes milagrosas, uma auspiciosa estreia, quando aparecesse o primeiro jogo a doer. A onda histérica de patriotismo que invadiu o País exigiu que todos calassem as suas críticas, sob pena de, como no antigamente, serem tidos por maus patriotas. Passámos da máxima de «a Pátria não se discute», de Salazar, para a nova versão de «a Selecção não se discute». Após aqui ter escrito, mais uma vez, no início de Abril, que a Selecção de Scolari, jogo após jogo, não dava mostras de qualquer evolução ou do mais simples «fio de jogo», José Manuel Delgado ripostou, aqui também, o seguinte: «Poisados nos ramos, os abutres de serviço atacam e fogem, sem outras razões que a sua própria natureza, sempre que lhes cheira a sangue. Não matam masmo em, minando as condições de estabilidade em que o trabalho da equipa de todos nós deveria processar-se.» Achei extraordinário que «as condições de estabilidade» exigíveis (para além das condições de trabalho concedidas a Scolari e à Selecção, em que nada, rigorosamente nada, lhes faltou), requerem-se ainda a censura prévia sobre as críticas feitas a tempo de poderem ser úteis — isto é, antes e não depois dos resultados à vista, antes e não depois de tudo se tornar irremediável. De qualquer maneira, hoje entendo que não é a hora para passar da grande esperança à grande descrença. Os que comigo estiveram nos dias anteriores à abertura do Europeu são testemunhas de que eu vaticinei a derrota contra a Grécia, mas acrescentei que a boa notícia daí resultante ia ser a necessidade de Scolari rever todas as suas ideias feitas e reagir em desespero de causa. Acredito que é isso que se vai passar contra a Rússia, que erros gritantes da formação irão ser corrigidos — espero que todos e com a coragem necessária. É evidente que isso, por si só, não garante o êxito, porque Scolari nunca treinou, nunca preparou, nunca encarou a hipótese de um onze alternativo àquele que fixou há ano e meio e do qual nunca se afastou. Mas, considerando que a Rússia é, em qualquer circunstância— e, ainda mais, desfalcada e jogando fora — uma equipa perfeitamente ao nosso alcance, deve bastar pôr a jogar os melhores e os que estão em melhor forma para, por enquanto, poder continuar a alimentar esperanças. Não é, pois, a hora de entrar num bota-a-baixo, que é simultaneamente tardio e precoce. Em tempo de guerra não se limpam armas e estas são as que temos. Antes de Scolari fechar a convocatória, era possível e desejável escutar todas as críticas; agora e por enquanto, não adianta nada. Só há uma coisa que não resisto a dizer, porque não é uma crítica ao seleccionador, mas antes aos que ajudaram a preparar um clima de facilitismo que, em minha opinião, contribui largamente para o desaire contra os gregos. O que quero dizer é que nunca vi, em tempo algum, um seleccionador e uma Selecção Nacional disporem de tantas e tantas condições de êxito e, ao mesmo tempo, toda a gente achar que nada lhes era exigível. Quando Scolari diz que «a cobrança mínima» é a passagem aos quartos-de-final, é espantoso que ninguém se indigne e pergunte se depois dos milhões gastos na organização do Euro para que Portugal tivesse finalmente hipótese de ganhar alguma coisa, depois dos salários, prémios e contratos publicitários milionários das vedetas da Selecção, Scolari incluído, depois das condições de trabalho únicas de que sempre dispuseram, depois do apoio sem desfalecimentos de um país inteiro, acham que chega os quartos-de-final? Como é possível que o Presidente da República e o primeiro-ministro se desloquem ao estágio da Selecção (ao contrário do que sempre foi tradição), para irem lá dizer que ninguém lhes exige nada? Não exigimos? E porque não? Acaso não teremos o direito de exigir que lutem pelo título europeu, depois de todo o esforço financeiro que o país sustentou? É que somos todos muito patriotas, mas os únicos que ganham com esse patriotismo são os que estão na Selecção. E, embora no futebol já lá vá o tempo em que representar Portugal era por si só uma honra e um privilégio que dispensa qualquer outra compensação, é exigível, pelo menos, que quem lá está, honre o contrato de profissional que tem com a Selecção. Em que outro sector de actividade é aceitável que alguém seja principescamente pago, alvo de todas as atenções e homenagens, rodeado de inexcedíveis condições de trabalho e depois ainda lhe digam que nada lhe é exigível em troca? É exigível, sim. É exigível que o sino toque a rebate e que toda a gente que está em Alcochete entenda que o país espera deles muito mais e muito melhor do que aquilo que tem sido visto até aqui.

quarta-feira, junho 09, 2004

Saída pela porta grande...dos fundos ( 8 Junho 2004)

Há uma imagem que me ficou marcada, no rescaldo de Gelsenkirchen: o avião que trazia a equipa do FCPORTO, e com ela a taça acabada de conquistar e que a Europa inteira cobiça, tinha aterrado havia pouco em Pedras Rubras, eram umas seis da manhã. depois de na própria pista terem recebido a homenagem dos funcionários do aeroporto, os jogadores esperavam no átrio, no meio da restante comitiva, o momento de saírem lá para fora e tomarem lugar no autocarro que iria demorar ainda uma duas horas a chegar ao Estádio do Dragão, onde uma multidão os esperava desde as 10 da noite. Foi então que apareceu josé Mourinho, acompanhado pela mulher e pelas filhas, com quem tinha viajado na fila da frente do avião, alheio a tudo o que se passava atrás de si. dirigiu-se a uns funcionários do aeroporto com quem falou durante breves instantes e rapidamente desapareceu para nunca mais ser visto no Porto: no rádio do carro que me conduziu de volta a casa ouvi que teria partido directamente para Setúbal ou para Lisboa - até hoje ainda não sei. E dei comigo a pensar que, afinal, Mourinho não tinha saído nem pela porta grande - que merecia - nem pela porta pequena, que seria impensável. Saiu, sim, pela porta dos fundos: a grande , sem dúvida, mas não a da frente.

No Record dessa mesma manhã seguinte à noite de glória, ainda o povo estava na rua a festejar e já o editorialista Bernardo Ribeiro concluía: " ...este treinador afrontou o sistema e tudo vai fazer para denegrir a sua pasagem pelas Antas. Será sistematicamente esquecido e maltratado. A Culpa será...do Pinto da Costa" . Confesso que nunca tinha lido nenhum texto deste Bernardo Ribeiro mas seria quase capaz de apostar que no passado, quando Mourinho e Pinto da Costa eram a imagem inabalável do FCPORTO intratável a nivel doméstico, ele não fazia distinção e seguramente não era tão elogioso para com Mourinho. Pois é, onde estão agora os que ainda há pouco tanto o criticavam, lhe chamavam arrogante e insuportável, os que comeram se, pestanejar o barrete da camisola do Rui Jorge, pretensamente rasgada por Mourinho - conforme demonstravam as provas que o Sporting tinha em seu poder e que jamais vimos nem veremos? Agora, que José Mourinho já não é treinador do FCPORTO, é só elogios e até a sua imediata transformação em vítima do sistema e de PC...

Mas está enganado o homem do REcord: os portistas não esquecem nem se preparam para maltratar Mourinho. A+enas não estão dispostos a alienar a sua dignidade, mesmo perante aqueles a quem mais devem e mais gratos estão. Afinal , o o mesmo fez o Benfica com o mesmo José Mourinho, quatro anos atrás...E eu, que então aqui elogiei a atitude da direcção do Benfica, escrevendo todavia, que Mourinho era o mais promissor treinador do futebol português, hoje escrevo exactamente o mesmo.

José Mourinho foi o melhor treinador que alguma vez passou pelo FCPORTO, desde que me lembro. O melhor na preparação táctica dos jogadores - onde o seu trabalho chega a ser obcecante - , o melhor na leitura estratégica do jogo, o melhor na liderança dos jogadores, o mais inteligente, o mais culto, o mais profissional, o que melhor tira partido da imprensa e das intervenções públicas. Os seus segredos guardou-os sempre em treinos à porta fechada e em relatórios sobre os adversários e entregues aos jogadores - um dos quais, exactamente o relativo ao Mónaco, tive a honra de receber como oferta sua, antes do grande jogo da final. Mas quem quer que tenha entrevisto um desses treinos, lido um desses relatórios ou o tenho ouvido dissertar para auditórios restritos sobre a forma de liderar uma equipa não pode senão constatar como o seu trabalho está a anos-luz de qualquer outro treinador português, incluindo tantos que se tomam por estrelas ascendentes e se pôem em bicos de pés a dizer que " já merecem um grande".

José Mourinho vai marcar para sempre uma época, não apenas no FCPORTO mas no futebol português. Nada mais será como dantes depois dele: muitos tentarão imitá-lo, muitos tentarão humildemente aprender a sua lição, mas nenhum jamais o igualará. É um dos raros casos em que a ambição caminha a par com o talento e em que o talento caminha a par com a capacidade de trabalho e de entrega. Dizer que os portistas iriam agora dedicar-se a esquecer Mourinho é de uma estupidez sem limites. Se alguma coisa este clube t~em é memória.

E tem também gratidão: ninguém, entre toda a nação azul e branca, iria ou irá jamais "maltratar" José Mourinho. Daqui a 20 anos ainda falaremos com saudade e com uma infinita gratidão. Era isso e apenas isso que queríamos ter mostrado a José Mourinho depois do apito final de Kim Nielsen em Gelsenkirchen: a nossa gratidão. Já sabiamos que ele se ía embora e, embora tristes, todos o aceitávamos como facto inevitável - não apenas pelo lado financeiro, o que seria pouco para alguem como ele, mas também pelos novos desafios desportivos que constituem a adrenalina que o faz ser o vencedor que é. Já sabíamos isso e estávamos conformados. Mas queríamos mostrar-lhe que estávamos gratos e queríamos também - e parece-me que não era de mais - que tivesse ido ali, junto de milhares de emigrantes vindos de todo o centro da Europa e dos milhares de adeptos vindos de Portugal e que tinham passado dois anos a seguir por todo o lado o FCPORTO de Mourinho, de Sevilha a Genselkirchen, agradecer-nos igualmente a parte que nos cabia, aos adeptos e ao clube, nos seus e nossos êxitos. Era só isso: que tivesse ali, junto à bancada sul, fazer-nos um gesto de agradecimento, de alegria, de saudação, de adeus, que fosse. Já sei que encontrou a família de repente e decidiu-se por ficar junto a ela. Mas a família iria tê-la logo a seguir, junto à cabina, no avião, em casa. A família portista, essa, era a última oportunidade para a ver e para se despedir. José Mourinho optou por não o fazer e, assim fazendo, optou por sair de cena pela porta dos fundos.

Lamento infinitamente escrever isto mas dicaria de mal com a minha consciência se o não fizesse. Tenho profunda admiração por José Mourinho, não principalmente por ele ter triunfado mas por ter a ousado enfrentar o verdadeiro sistema português, que é o da inveja dos medíocres. Não esqueço nem nunca serei ingrato. Devo-lhe algumas das maiores alegrias que o futebol jamais me deu. Mas, apesar de tudo e ao contrário do que ele talvez imagine, sei e tenho plena consciência de que o que conseguiu não o conseguiu sozinho e não o conseguiria em nenhum outro clube português.

O FCPORTO já era um grande clube do mundo antes de Mourinho e vai continuar a sê-lo depois dele. Ao contrário do que disse Luís Duque, o Sporting não poderia estar agora no lugar do FCPORTO se tem contratado José Mourinho, depois de ele sair do Benfica.

Porque não há comparação alguma entre a competência de Pinto da Costa e o snobismo serôdio de Dias da Cunha.

Porque não há comparação alguma entre entre o profissionalismo da organização do FCPORTO e o voluntarismo da organização sportinguista.

Porque não há comparação alguma entre o espírito de conquista e toda a nação azul e branca, e que na equipa se transmite de geração em geração, venha quem vier, e a atitude de eterna lamechice e desculpas esfarrapadas para os fracassos, do Sporting.

Há anos que o escrevo mas - felizmente! - em vão: os adversários internos do FCPORTO deveriam estudar e tentar comprender as razões para os seus êxitos, em vez de se ficarem pela atitude de maus perdedores e de tentarem sempre justificá-los com razões obscuras.

Quando acordarem o FCPORTO será não apenas o maior clube português em termos de títulos internacionais, que já o é, mas também em termos de adeptos espalhados por esse mundo fora. Que nunca acordem!

Ora, ninguém percebeu isso melhor que o próprio José Mourinho. Ninguém como ele percebeu melhor a célebre verdade que todos os treinadores que passaram pelos outros e depois pelo FCPORTO unanimemente referiram: que um título ganho no Porto custa e vale infinitamente mais que um título conquistado em Lisboa. Aos que agora o elogiam e dantes execravam e agora já o vêem como vítima, esquecida e maltratada pelo sistema PC, convém recordar que a primeira vez que José Mourinho disse publicamente que queria ir para fora e libertar-se do sistema do futebol português foi na célebre noite após o jogo de Alvalade deste ano...

E é só por isto que tínhamos direito a esperar que Mourinho tivesse festejado connosco, que tivesse feito parte da alegria que era de todos. Porque os treinadores e os jogadores vão e vêm e nós, adeptos, ficamos sempre. E, por mais insubstítuiveis que eles nos pareçam, a verdade é que continuamos sempre. No limite, basta que haja onze adeptos e podemos fundar um clube, constituir uma equipa sem treinador e jogar. Mas um treinador não sobrevive sem um clube e não há clubes sem adeptos. Por mais brilhantes que sejam os jogadores e o treinador , somos nós, os adeptos, o sal do futebol.

Campeões da Europa ( 1 Junho 2004)

Que mais querem do FC Porto? Se alguém tem alguma dívida para com outrem, é Portugal para com o FC Porto e não o inverso .

1- Está feito: o FCPorto é o clube português com maior dimensão internacional de sempre. Já o era antes de Gelsenkirchen mas há sempre uns teimosos que não se querem deixar convencer e, neste caso, insistiam que o título de campeão europeu que o Benfica tinha a mais que o FCPorto era mais importante que uma Taça Intercontinental, umaTaça UEFA e uma Supertaça Europeia — títulos que o FCPorto tem a mais que o Benfica. Agora já não há lugar para qualquer contestação: o FC Porto tem cinco títulos internacionais, o Benfica tem dois, e,mesmo se ambos foram duas vezes campeões europeus, não há comparação entre o valor de um título de campeão europeu obtido na Champions League, ao fim de 13 jogos, e um obtido na extinta Taça dos Campeões dos anos 60, ao fim de sete ou nove jogos.Mas faça-se justiça à história: tanto quanto me lembro ainda, acho que aquela equipa do Benfica de 1963 teria ganho a Champions League, se ela já existisse. Mas também acho que a equipa do FC Porto do ano passado — que, em minha opinião, era ainda melhor e jogava melhor futebol que a deste ano—teria se calhar ganho também a Champions League, se o destino não lhe tem reservado apenas a Taça UEFA. E se começo por este ajustar de contas histórico o rescaldo de uma semana que ainda vive, intensa e emocionante, no olhar, no coração e na cabeça de cada portista, é porque constatei, estupefacto, que só mesmo no dia seguinte à memorável jornada de Gelsenkirchen é que o País se deu verdadeiramente conta do extraordinário feito que o FC Porto tinha levado a cabo.Até aí senti (e disse-o) que o país desportivo não merecia esta equipa do FCPorto e tudo o que ela já havia feito pelo prestígio do futebol português. Mal o FC Porto desembarcou na Alemanha,segunda-feira passada, a comitiva foi recebida com as notícias que chegavam de Lisboa e que davam conta do caso desportivo que ocupava o País: a inscrição irregular de Ricardo Rocha e a possibilidade de o Benfica vir a ser penalizado por isso com a perda do segundo lugar no campeonato e da Taça de Portugal. Embora a todos nós, que ali estávamos, se tivesse tornado desde logo evidente que o assunto estava fadado para morrer de morte natural, não conseguimos evitar o espanto de realizar que ele tinha afastado todo o noticiário relativo ao FCPorto da primeira página do noticiário desportivo, em jornais, rádios e televisões, e que a histeria lisboeta com o palpitante assunto prosseguiu até à noite do dia seguinte—terça-feira, véspera da final de Gelsenkirchen. De repente o verdadeiro assunto que interessava ao país desportivo não era o de saber se, no dia seguinte, uma equipa portuguesa conseguiria vencer amais difícil e a mais prestigiada competição de clubes do mundo inteiro, perante o olhar de centenas de milhões de espectadores no mundo inteiro, mas sim o de saber se era o Benfica ou o Sporting quem, na próxima época, teria acesso à terceira pré-eliminatória dessa mesma competição! E quando, ao telefone com um amigo benfiquista em Lisboa, lhe perguntei que absurdo era aquele, ele explicou-me que se tratava de «mais uma cabala montada pelo teu clube contra o Benfica». O meu clube?O meu clube estava concentrado no seu hotel a pensar na hora que odestino apenas reserva aos grandes e se algum pensamento unânime se escutava entre a comitiva portista, presidente incluído, sobre o melodrama lisboeta era o de que jamais o FC Porto aceitaria na sua sala de troféus uma Taça de Portugal perdida em campo e ganha na secretaria— por mais que entendessem que fora muito injustamente perdida.Para que quereria uma taça dessas um clube que estava na véspera de poder ganhar a Champions League, depois de ter ganho a Taça UEFA na época anterior, os dois últimos campeonatos ou sete dos últimos dez? Acaso alguém poderia imaginar que isso nos traria um grama que fosse de satisfação ou prestígio acrescentado ? Percebi então o quanto a falta de hábito de vencer pode criar vícios de pensamento doentios e incuráveis. Só quem se habituou a sonhar baixinho pode imaginar que lá, nas alturas onde se sonha grande, se pode perder tempo e concentração para a tarefa de ganhar perante o mundo inteiro uma Champions League para se tentar ganhar na secretaria uma Taça de Portugal! Ocuco-milharuco não imagina o que se passa nas alturas onde voa a águia-real! Enfim, quarta-feira, e com o assunto já a caminho da sua morte natural, a imprensa lá cumpriu a sua inevitável obrigação de trazer de volta o FCPorto à primeira página dos noticiários.E quinta-feira, claro, era Portugal quem tinha acabado de ganhar a Liga dos Campeões. Muito embora, regressado já com a manhã nascida a Pedras Rubras, onde três mil pessoas esperavam há 10 horas para ver a taça e os funcionários do aeroporto faziam alas para saudar os campeões à saída do avião, eu tenha encontrado na imprensa desportiva dessa mesma manhã um artigo garantindo que o feito desportivo da semana não acontecera na véspera, em Gelsenkirchen, mas sim na segunda-feira anterior, num estúdio da SIC, invadido em directo pelo presidente do Benfica, para discutir a questão Ricardo Rocha e inaugurar um novo estilo televisivo que, se tivesse sido protagonizado pelo presidente do FC Porto, estaria ainda hoje a ser objecto de comentários relativos à sua grosseria e falta de maneiras. Mas compreende- se: é que mesmo assim o câmara da SIC de serviço na inauguração da casa do Benfica em Vila Real de Santo António ia deixando a pele na missão assim que o presidente do Benfica assolou as massas contra a SIC, culpada de ter divulgado uma notícia... verdadeira. E nem foi preciso o seu aviso de que embreve vai divulgar o índex dos jornaisq ue «tratam mal o Benfica» (?!), a fim de que sejam boicotados pelos benfiquistas, para que logo na sexta- feira o FC Porto tenha regressado ao seu habitual lugar de rodapé de primeira página e para que no sábado eu tivesse de folhear até quase ao fim os jornais desportivos para finalmente encontrar a notícia de que o FC Porto ganhara também o título de campeão nacional de básquete, a juntar ao futebol, ao andebol e, espero, ao hóquei em patins. Felizmente que doravante vai ser mais fácil remeter o FC Porto para os pés de página: temos aí, durante um mês, as notícias sobre a empolgante Selecção Nacional para nos ocupar.


2 - Mas não quero ser injusto: de Lisboa chegaram-nos também notícias—ainda nós vivíamos atordoados aquele momento de uma vida, à saída do ArenaAufShalke— da festa que saíra às rua sem Lisboa, onde até a câmara municipal manteve acesas as luzes do edifício, em homenagem aos campeõeseuropeus. Chegaram-nos notícias dessas também dos Champs- Élysées, em Paris, da costa Leste americana, de África e do Brasil, de todo esse vasto mundo onde se fala português, de emigração ou de assimilação, e onde,nos últimos anos, o FCPorto tem sido o bálsamo contra as saudades, as humilhações, as privações, tem sido o mensageiro da alegria e do orgulho de ser português contra todas as tristezas e frustrações em que a pátria ou a ausência dela é fértil.Mas as notícias da festa em Lisboa caíram bem entre os portistas e deitaram já para o plano psicanalítico os que nem assim, nem agora, se renderam à justiça dos factos. Os que escreveram que o FC Porto só foi campeão europeu graças a Mourinho, o que faz com que, a esta hora, pudesse ser o Sporting o campeão europeu, se os sócios não têm impedido a sua contratação, três anos atrás (ou o Benfica, se o tem mantido...). Ou ainda quem descobriu que o FC Porto só foi campeão europeu porque a Liga de clubes acedeu a adiar o jogo com o Naciona lda Madeira, dias antes da eliminatória com o Corunha.Ou que só foi campeão europeu porque Scolari acedeu a prescindir da convocatória dos jogadores portistas para o jogo particular com a Suécia, três dias antesdo jogo da Corunha—decisão criticada, entre outros,por Luís Figo. Eu sei o que lhes vai na alma, o que verdadeiramente gostariam de ter dito e só por pudor o não disseram: «Podíamos ter evitado isto,podíamos ter evitado que o FCPorto fosse campeão europeu...» Não, coitados, nem sequer percebem que não podiam.Porque não sabem de que matéria são feitas as vitórias como esta. Não fazem ideia do que trabalharam os jogadores e a equipa técnica durante estes dois anos. Do que prescindiram, do que sofreram, do que lutaram para deixar os seus nomes na história do futebol português e mundial e dar esta alegria sem fim a todos os portistas —e cada vez são mais!—espalhados por esse mundo todo. Não ouviram o Derlei gritar de dores, forçando uma recuperação clínica dita «impossível » a tempo de ajudar a equipa neste decisivo mês de Maio. Não viram a determinação serena dos jogadores antes da final, a sua alegria depois da vitória, que não era a euforia desmedida de quem tinha acabado de conseguir um milagre mas sim a satisfação imensade terem visto recompensado o esforço de um trabalho feito com profissionalismo,brio e vontade. Nestas horas lembro-me sempre de uma coisa que o meu pai me disse, era eu pequeno: «Filho, se algum dia quiser conhecer a verdadeira natureza dos portugueses, leia a história da batalha de Alfarrobeira,onde o infante D. Pedro das Sete Partidas do Mundo foi morto às mãos do sobrinho, o rei D. Afonso V, envenenado contra o tio pelas intrigas da corte de Lisboa, que não conseguia suportar que um homem da província fosse maior que todos eles. É a história da inveja, essa marca fatal dos portugueses.» Não me esqueci da lição de Alfarrobeira. Revejo-a todos os dias,na história contemporânea de Portugal. Lembrei-me dela em Gelsenkirchen, lembrei-me dela ao regressar a casa. E, por isso,quando outro homem de Coimbra, e de que eu tanto gosto e tanto admiro, que é o Manuel Alegre, declarou, sobre a vitória de Gelsenkirchen, «hoje, Portugal esteve com o FCPorto;espero que o FCPorto esteja com Portugal no Europeu», eu percebi a sua mensagem. O que ele quis dizer foi que a festa de Lisboa tem um preço a pagar pelos portistas: estar com Scolari,no Dragão, no próximo dia 12, e esquecer, entre outras coisas, que Vítor Baía estará na bancada e Ricardo Carvalho no banco de suplentes. É o preço a pagar por, finalmente (finalmente, foi preciso aqui chegar!),nos ter sido feita alguma justiça e reconhecido algum mérito. A isso, com todo o respeito, respondo simplesmente: o FC Porto foi campeão europeu em nome de Portugal.Que mais querem do FC Porto? Se alguém tem alguma dívida para com outrem, é Portugal para com o FC Porto e não o inverso.

sábado, maio 29, 2004

Às portas do sonho ( 25 Maio 2004)

Amanhã à noite, nas televisões do Mundo inteiro, milhares de milhões de olhos vão seguir as proezas e aprender os nomes de Vítor Baía, Paulo Ferreira, Jorge Costa, Ricardo Carvalho, Nuno Valente, Maniche, Costinha, Deco, Derlei, McCarthy e Carlos Alberto. E nós, lá no estádio, vamos morrer de orgulho pelo nosso clube, as nossas cores, o nosso país. Hoje, terça-feira, juro que é quanto me basta

1. Se alguém tivesse previsto, há 10 anos atrás, que uma equipa portuguesa conseguiria, no espaço de uma década, chegar à final da Liga dos Campeões, eu teria dito que esse alguém ou era um optimista incorrigível ou era um ignorante das coisas do futebol. É certo que, há pouco mais de 10 anos, Portugal teve duas equipas na final da mais importante competição mundial de clubes: oFC Porto em 1987 e o Benfica no ano seguinte. Mas então não vigorava ainda o acórdão Bosman e a a competição não se chamava ainda Liga dos Campeões. Uma e outra coisa vieram mudar por completo o panorama desta competição e diminuir de forma extrema as hipóteses de êxito de países pobres no contexto futebolístico europeu, como é o caso de Portugal. A chamada lei Bosman, recordemo-lo, retirou aos clubes o privilégio do direito de opção sobre jogadores em final de contrato, tornando os melhores jogadores ao serviço dos clubes portugueses presa fácil dos mais poderosos clubes estrangeiros: foi uma lei ao serviço dos ricos e contra os pobres, uma lei a favor dos negócios e contra a formação de jogadores. A Champion’s League, por seu lado, terminando com a representação de um clube por país e substituindo-a por um critério que privilegia o aumento do número de clubes representantes dos países mais poderosos, teve como efeito prático que as equipas portuguesas, em vez de terem de se haver com um tubarão espanhol, um italiano, um inglês ou um alemão, agora têm de se haver com três ou quatro de cada um desses países. Agora não é preciso ser-se campeão nacional no seu país para se ser campeão europeu: basta ser-se clube rico em país rico, como o Chelsea do sr. Abramovitch. A competição ganhou em competitividade, em qualidade, em número de jogos e em dificuldades mas, mais uma vez, desfavoreceu os mais pobres face aos mais ricos. A actual Champion’s League é uma competição feita à medida dos poucos grandes clubes de primeiríssima linha europeia: Real Madrid, Barcelona, Valência, Inter, Milan, Juventus, Lazio, Bayern, Schalcke, Manchester, Liverpool, Arsenal, Chelsea. Os outros, como o FC Porto e o Mónaco, são os outsiders, que servem para animar a fase de grupos mas cujo destino natural é a morte súbita na fase de grupos ou, em anos excepcionais, nos quartos-de-final. E, todavia, aí estão eles — Mónaco e FC Porto — em Gelsenkirchen, para grande frustração e grande humilhação dos tubarões europeus. O impossível, o impensável, aconteceu. E agora, que pouco mais de 24 horas nos separam já do Arena Aufschalke, olho para estas duas equipas, para os seus jogadores, os seus dirigentes, os seus treinadores, com uma profundo respeito e admiração. Chegar aqui foi tão fantástico que nenhum deles merecia a desfeita de não levantar a taça amanhã à noite. E se, como portista e como português, só desejo obviamente que seja o FC Porto a consegui-lo, não deixo também de pensar que, seja qual for o desfecho, Mónaco e FC Porto já conseguiram fazer história na Champion’s League, reeditando cada um deles a eterna história do combate de David contra Golias. Do meu lado, só tenho a agradecer aos jogadores e ao treinador desta grande equipa que é este FC Porto por me terem levado o ano passado a Sevilha e me terem trazido este ano a Gelsenkirchen. Por terem tornado possíveis os sonhos que eu nem ousava sonhar, por terem desmentido o impossível, por terem feito com que amanhã à noite, uma vez mais, as camisolas azuis e brancas e o nome do FC Porto atravessem os céus do Mundo inteiro e sejam levados pelos satélites a todas as casas do planeta onde mora um adepto deste desporto fantástico. Amanhã à noite, nas televisões do Mundo inteiro, milhares de milhões de olhos vão seguir as proezas e aprender os nomes de Vítor Baía, Paulo Ferreira, Jorge Costa, Ricardo Carvalho, Nuno Valente, Maniche, Costinha, Deco, Derlei, McCarthy e Carlos Alberto. E nós, lá no estádio, vamos morrer de orgulho pelo nosso clube, as nossas cores, o nosso país. Hoje, terça-feira, juro que é quanto me basta. Não adianta especular se jogarão exactamente aqueles onze ou um ou outro no lugar de algum deles. Se jogaremos em 4x4x2 ou em 4x3x3, ao ataque ou na expectativa, cansados ou com força, corajosos ou com receio. Se eu estivesse no lugar de Mourinho, depois de feito todo o trabalho de casa, limitar-me-ia a dizer aos jogadores: «Chegaram até aqui, o que é uma honra e uma proeza única. Agora limitem-se a ir lá para dentro e jogar o que sabem, com alegria e orgulho, sem medo nem constrangimentos. Tudo o que acontecer será inesquecível.»

2. Eu sei que altos interesses nacionais e ditos «patrióticos» recomendam que se calem agora todas as críticas à Selecção e ao próprio Euro. Aliás, esta velha retórica parece ser extensível a tudo o resto, para além do futebol: ainda anteontem, no congresso do PSD, o primeiro ministro ensaiou o discurso de «quem não está por nós, está contra Portugal».Mas só falo no assunto porque o Tribunal de Contas, distraído de dever geral de patriotismo a que o Euro obriga, se lembrou de escolher este momento para tornar públicas as contas dos estádios municipais construídos ou melhorados para o Euro. E o que o tribunal veio revelar esclarece as razões pelas quais alguns, como eu, foram desde o início contra este patriótico acontecimento: nem um só estádio cumpriu o orçamento — no mínimo a derrapagem foi do dobro, outros derraparam três e até quatro vezes o custo inicial previsto; algumas câmaras municipais gastaram com o seu estadiozinho a totalidade do orçamento municipal para um ano de actividade, obrigando-as a endividarem-se perante a banca, o que fará subir o custo final, com os respectivos juros; e nenhum dos estádios, segundo o Tribunal de Contas, conseguirá no futuro assegurar o finaciamento das despesas de manutenção apenas com recurso às receitas geradas: ou seja, é um encargo eterno. O que o tribunal agora veio revelar confirma apenas aquilo que qualquer português avisado já deveria esperar: que qualquer empreitada pública jamais cumpre o orçamento anunciado. Não por acaso, os únicos estádios do Euro que cumpriram os orçamentos foram aqueles cuja parte substancial do pagamento ficou (ou deveria ter ficado) a cargo dos clubes seus proprietários. Mas quando é o Estado central ou as autarquias o dono da obra já se sabe que esta, misteriosamente, acaba sempre por custar o dobro ou o triplo do anunciado. Foi também por saber isso e não esperar outra coisa que fui desde logo contra a ideia do Euro em Portugal. Por respeito pelos portugueses que trabalham e pagam impostos. Ou seja, na minha concepção, por patriotismo. Se a isto acrescentarmos o que o Estado central gastou nos quatro estádios privados, o que a câmara de Lisboa gastou nos estádios de Benfica e Sporting e eventualmente a câmara do Porto nos estádios do Dragão e do Bessa, se acrescentarmos todo o imenso rol de investimentos para além dos estádios (e tive ocasião de ver na altura o extenso caderno de encargos exigido pela UEFA), chegaremos a números finais que são tão chocantes que eu duvido, simplesmente, que alguma vez venham a ser revelados em toda a sua extensão aos portugueses. Não se trata de ser miserabilista ou ter uma atitude de princípio contras as grandes festas públicas. Trata-se de dizer a verdade. Pôr os números reais em cima da mesa, dizer «custa isto, pagam estes, aproveitam aqueles» e, no final, perguntar às pessoas se acham que era necessário.

DIREITO POR LINHAS TORTAS ( 18 Maio 2004)

1 – O futebol é um bocado como a democracia: convém que haja alternância para as coisas serem saudáveis. E não basta apenas a possibilidade teórica da alternância, é preciso também que ela exista na realidade. De outro modo, é como a democracia na ilha da Madeira, onde ganha sempre o mesmo há 27 anos e nos querem convencer de que ganha com mérito. É salutar, pois, que o Benfica tenha ganho a Taça ao Porto. É salutar para todos, até para os portistas.

Devemos reconhecer que nós, portistas, andamos mal habituados. Perder com o Milan, campeão europeu, na Supertaça europeia, ainda vá que não vá. Perder com esta equipa do benfica, sejam quais forem as circunstancias, dói ainda mais. E, todavia, faz bem. A legião de adeptos do benfica precisava desta experiencia, e nós também. Parabéns ao benfica.

Agora, também, não nos peçam demais, à conta de que não sabemos perder. Com toda a franqueza, acho que o benfica não mereceu esta Taça. Para começar, não mereceu chegar à final, depois de um percurso onde, ou ficou isento, ou jogou sempre em casa, em constrate com o FcPORTO que, eliminou o Boavista e o Braga e Rio Ave, fora de casa. Depois, olho para a estatistica do jogo e, em tudo o que interessa, o Porto foi mais do que o benfica: em posse de bola, em ataques, em remates, em cantos,em bolas à trave. E jogou um hora inteira com um jogador a menos – depois de uma epoca muitissimo mais desgastante e exigente que o benfica e a dias de disputar o mais importante jogo que existe em toda a Europa. E , depois daquele quarto de hora inicial, em que o benfica podia e merecia ter acabado com um ou dois golos de vantagem, só deu Porto. E se o benfica, sem ter criado por si qualquer oportunidade, conseguiu, nos 105 minutos restantes, virar o resultado, é porque Mourinho, não querendo ferir susceptibilidades, deu a baliza a Nuno – com consequencias nefastas. Como dizia no comentário em directo da TVI Luis Norton de Matos ( insuspeito de ser portista), foi com dez contra onze que o Porto demonstrou o porquê da supremacia que tem tido no futebol portugues nos ultimos anos. Que me desculpe Mário Dias, mas não ganhou «a equipa que fez mais para isso». Se alguem se bateu pela vitoria, mesmo em inferioridade numerica, foi o PORTO e não o benfica. Após o jogo, jantando com um grande amigo benfiquista, naturalmente radiante, pedi-lhe que me indicasse o nome de um jogador do benfica que tivesse feito uma grande exibição e ele não foi capaz de me responder, ficou-se «pelo colectivo». Mas eu sou capaz, do meu lado: o Paulo Ferreira que , tirando dois lences iniciais, secou por completo o Simão Sabrosa; o Ricardo Carvalho, inultrapassável, como de costume; o Nuno Valente, excepção feito à agressão ao Giovanni, já no prolongamento, e que teria merecido um cartão vermelho; o Derlei e , obviamente, o Deco – perfeito, não fosse a insistencia em marcar, e sempre mal, os livres perto da area.

Mas nem todos estiveram bem no FCPORTO: o Nuno, que mostrou todas as suas limitações, em particular, as saídas da baliza, entre o cómico e o trágico; Jorge Costa, que devia dar o exemplo a acalmar as hostes e que esteve absurdamente nervoso, até conseguir ser expulso; o Pedro Mendes que, não justifica de todo a opção por um 4x4x2 onde se perde um homem na frente e não se ganha nada em troca, com ele no meio campo; o Costinha e o Maniche, ausentes e desconcentrados ( será coincidencia serem ambos dos mais insistentemente falados para irem para o estrangeiro?); e o Maciel, que parece ter atingido o seu patamar de Peter de ambição ao chegar ao Porto e que está preguiçoso e abúlico: agora vai de fáerias, mas é bom que meta na cabeça que para o ano vai ter que mostrar muito mais que este ano.

E sobra a «farsa», como lhe chamou José Mourinho: Lucílio Baptista. Eu disse-o antes do jogo: era um arbitro sem categoria nem merecimento para a final. Pouco importa que seja internacional e esteja no Europeu: não tem valor para tal, é de um caseirismo indisfarçável, mau tecnicamente, sem saber usar a lei da vantagem e com um criterio disciplinar comendado da bancada.

Ao primeiro minuto de jogo perdoou um amarelo a Fyssas, numa entrada a matar sobre Derlei e aos cinco minutos perdoou outro ao Petit, por entrada identica sobre o Deco – como se a gravidade das faltas dependesse do momento em que são cometidas.

Ao Petit mostrou-lhe o amarelo à terceira falta grosseira que ele cometeu e desfez-se em explicações de que já era a terceira.

Mas ao Jorge Costa, mostrou-lhe um amarelo por cada uma das faltas que ele fez e deixou o Porto reduzido a dez, durante uma hora.

Antes disso, tinha já perdoado o vermelho directo ao Fernando Aguiar por agressão por tras, sem bola, ao Derlei e, depois disso, por achar certamente que nove contra onze era de mais, perdoou a expulsão ao Nuno Valente( mas numa coisa é uma expulsão aos 60 minutos, outra aos 110).

Mas o mais ridiculo foi já mesmo no final, com Petit no chão a ser assistido por caimbras há já 2.10m e ,continuando a ser assistido, ele fez sinal de dois minutos de desconto - e apesar de na jogada anterior se terem gastos 3 minutos só a formar a barreira do benfica para um livre.

Obviamente, e como já se tinha visto nos ultimos dois jogos em Alvalade, Lucilio Baptista acha que lhe cabe a nobre missão de tentar equilibar os jogos em que o FCPORTO é parte.

O que havemos nós de fazer? Esperar que ele se reforme rapidamente e que lá em cima deixem de o proteger. Li que já é a terceira final da Taça que lhe dão: já chega.

E assim se escreveu direito por linhas tortas. Direito, porque, como acima disse, é bom para todos que o benfica tenha ganho a Taça.

Por linha tortas, porque o benfica não mereceu ganhar pelo que jogou e , mais uma vez, fiquei com a ideia clara que, se o arbitro e o estadio não fossem do sul, outro galo cantaria. Se não acreditam, submetam-se à experiencia.

De qualquer modo, a verdade é que, num ano tragico e sofrido, o benfica e a sua falange de adeptos – não todos, mas muitos – mereciam ganhar qualquer coisa. E, em não podendo ganhar o campeonato, ao menos a Taça - o que sempre permitiu à direcção ter umas tshirts preparadas para vestir no final, com a curiosa e sintomatica frase:
« Benfica , campeão da Taça de Portugal»
Campeão da Taça de Portugal? Então , o que será o FCPORTO – campeão do Campeonato?

2- Terça-feira Scolari revela a sua lista de eleitos. Não espero nenhuma surpresa. Se há coisa a que Scolari já nos habituou é a ser previsível. Aposto que vai ser uma lista com todos os suspeitos do costume: esses mesmo, que têm dado tão boa conta de si.

3- Fez este sábado uma semana que o Expresso dedicou quase um número especial a atacar o FC Porto e Pinto da Costa. Citando fontes policiais, o Expresso «sabe» que a juíza vai citar Pinto da Costa para prestar declarações sobre a grave suspeita de em tempos ter oferecido o relógio do centenário do FC Porto a Valentim Loureiro. Indignado com suspeitas de tal gravidade, José António Lima descobriu que Rui Rio fez campanha «contra a promiscuidade entre a política e o futebol» (e eu a julgar que ele só tinha falado no futebol depois de se ver eleito..), e que, por esse facto, Pinto da Costa não escondeu desde logo a sua a «animosidade» contra Rio (e eu a recordar-me que quem abriu as «animosidades, totalmente a despropósito, tinha sido Rio...). Diz José António Lima que agora Rio marca pontos, no momento em que se sabe que o FC Porto esteve envolvido em negociatas com a anterior vereação de Nuno Cardoso. Que negociatas? Segundo o que li, há um inspector da administração do Território que pensa, ao contrário do que pensaram os técnicos camarários, que houve um terreno da CMP permutado com o FC Porto que valia mais 600.000 contos do que a sua avaliação. Até pode ser que tenha razão: as avaliações imobiliárias não são uma ciência certa e variam conforme a opinião. Mas, mesmo que a razão esteja com ele e não com os outros, restaria provar que a avaliação foi uma negociata, como tal, concluída por ambas as partes com o objectivo de beneficiar o FC Porto. Então, e só então, teríamos o crime da ajuda camarária ao FC Porto. Eu pasmo, sinceramente, com isto. Será que no Expresso desconhecem o teor dos contratos celebrados entre a CML e Benfica e Sporting, para a construção dos seus novos estádios? Será que desconhecem o valor das ajudas envolvidas? E, por acaso, ninguém no Expresso terá lido a notícia deste jornal, quinta-feira passada, relatando a visita do Marítimo ao presidente do governo regional da Madeira? Eu recordo o que disse o presidente do Marítimo, Carlos Pereira: que «o governo regional é um grande parceiro de negócio», o que permite ao Marítimo estar em situação financeira «equilibrada, ao contrário de outros que foram considerados modelos de gestão desportiva e financeira e hoje é o que se sabe». E, para provar que o Marítimo também não é ingrato para com o seu «grande parceiro » de negócios, Carlos Pereira revelou que o clube «não vai pressionar o governo para nos pagar os prémios pela conquista da UEFA». Perceberam bem: na Madeira, o governo regional dá prémios financeiros ao Marítimo por este ter conquistado o sexto lugar do Campeonato. O que tem a dizer a isto o José António Lima?

Uma semana alucinante ( 11 Maio 2004)

FOI, de facto, uma semana alucinante, de terça a terça. Tantas coisas se passaram em catadupa, no mundo do futebol, que o melhor é passá- las em revista cronologicamente.

Terça-feira, 4
A noite histórica de La Coruña, os trezentos quilómetros que faltavam para que o FC Porto conseguisse a impensável proeza de chegar a duas finais europeias em anos consecutivos. Mas bastaram- me os cinco minutos iniciais do jogo para perceber que, a menos que alguma coisa de verdadeiramente imprevisto acontecesse, o FC Porto não deixaria escapar a eliminatória. A atitude com que a equipa entrou no jogo, e que manteve inalterável durante 98 minutos, foi de verdadeiro campeão, de quem sai em busca do seu destino, esteja ele ou não escrito nos designíos dos deuses. Desde o início, o Porto pôs em sentido um Corunha que, por contraste, acusou por completo a responsabilidade de ver a meta à vista e não conseguir reunir a calma, a lucidez e a coragem demanter o ritmo até lá — o célebre e muito estudado síndrome de Mamede. Inversamente, o FC Porto mostrou de que raça são feitos os verdadeiros campeões e uma vez mais provou que é nos grandes momentos que se conhecem os grandes jogadores, os grandes treinadores e as grandes equipas. Na primeira parte manteve demesticado o adversário, na segunda entrou decidido a resolver as coisas rapidamente e ao terceiro golpe chegou ao destino. Também eu reparei no pormenor para que José Mourinho chamou depois a atenção: dos sete jogadores em perigo de levar segundo amarelo, nem umsó cometeu qualquer falta que o justificasse e, aliás, em conjunto, todos eles cometeram apenas oito faltas. Isto define uma equipa que consegue, num ambiente adverso e num jogo de vida ou morte, buscar a vitória sem nunca perder a lucidez. Acertei no desejo-previsão de que o Derlei jogaria de início e aguentaria o jogo todo. Enganeime na inclusão de McCarthy, preterido por umPedro Mendes que, em minha opinião, foi o único que destoou. E enganei-me, e ainda bem, na previsão de uma arbitragem caseira do Colina (já agora uma pergunta aos especialistas: quando falam num penalty contra o Porto que ele não marcou, por agressão do NunoValente aumadversário, poderia haver penalty com o jogo parado e a bola fora, à espera da marcação deumcanto?) Em 180 minutos de eliminatória o Corunha só construiu, e no seu terreno, duas oportunidades de golo, uma das quais — a mais flagrante — porque a defesa do Porto parou à espera de um offside inexistente. O FC Porto atirou duas bolas à trave e falhou mais duas oportunidades claras, além de ter disposto de um penalty não assinalado, no Dragão — onde o Corunha defendeu 90 minutos com onze jogadores atrás da linha da bola e um intenso recurso a toda a espécie de antijogo. É, por isso, inacreditável o facciosismo da imprensa espanhola a analisar o jogo e o tom de desprezo com que apreciam previamente uma final entre oMónaco e o FC Porto: os ricos ofendem-se com as veleidades dos pobres.

Quarta-feira, 5
Mourinho parte para Londres — ele vai ver o Chelsea, a família vai ver a cidade. Manifestamente, a viagem tem dois objecÉ tivos, mas é, de facto, precipitado e injusto julgar, como o António Tavares Teles fez, que Mourinho se prepara para sair pela porta pequena.

Quinta-feira, 6
Também eu parto para um pouco mais longe e, lá onde estou, chegam-me as extraordinárias notícias das ofertas loucas do Sr. Abramovitch. Se, realmente, se confirmar a oferta anunciada — sete milhões de euros por Mourinho mais o trio Deco-Costinha- Paulo Ferreira, ou cinco milhões por todos eles menos o último, é caso para dizer que Mourinho sai em ombros pela porta da Maratona. Mas é cedo para falar disso: há ainda duas finais pela frente e José Mourinho tem, pelo menos — e só isso, se calhar — de demonstrar ainda que tantas negociações semi-secretas e tantosmilhões acenados aos quatro ventos não deram a volta à cabeça do núcleo duro azul-e-branco.

Sábado, 8
E o impensável acontece: o galáctico Real Madrid, a melhor equipa de futebol jamais reunida, soma a quarta derrota consecutiva e, em pleno Chamartin, despede- se do campeonato, depois da Taça e da Liga dos Campeões. Nunca alguém prometeu tanto para cumprir tão pouco. Lá longe chegam-me notícias de que Carlos Queirós poderá ser aposta de Pinto da Costa para suceder aMourinho. Espero bem que seja uma notícia de empresário: com Queirós à frente do FC Porto, o espírito de vitória desta equipa esfumar- se-ia emmenos de umtrimestre. Além de que, eu pelo menos, ainda não esqueçi o que ele dizia e insinuava sobre o FC Porto quando, à frente de uma excelente equipa do Sporting, não conseguiu ganhar-nos o Campeonato.
O FCPorto ganhou mais um título nacional no andebol. Ajuntar aos do futebol e de básquete, já garantidos. E ainda tem o hóquei em patins, onde depende apenas de si próprio para ser também campeão: as quatro principais modalidades profissionais entre nós. Embora no domínio das amadoras, o Sporting não ficou também de maõs a abanar: sucedendo ao eterno rival, ganhou o título de futebol de salão, uma modalidadeemfranca expansão, desde que o FC Porto desatou a acumular títulos no estádio e não mostrou desejos de transferir o seu futebol para o pavilhão.

Domingo, 9

Falho a última jornada do Campeonato — acho que vai ficar a ser o único jogo do FC Porto que eu não vi esta época, excepção feita a dois jogos da Taça. Mas f i q u e i a saber que o McCarthy arrancou, e em grande estilo, o pódio dos melhores marcadores, mesmo sobre a meta, e que o Sérgio Conceição culminou da mais infeliz maneira um regresso falhado. Eis duas previsões em que acertei, assim que ambos vieram. Fico a saber também que o Benfica esperou até ao último minuto para assinar a sua presença em nova tentativa de qualificação para a Liga dos Campeões, após uma recuperação final a todos os títulos notável. E sei, enfim, que o Sporting imitou, à sua escala, a época de todas as derrotas do Real Madrid, em Espanha, e que Belenenses e Guimarães, apesar de novas derrotas, safaram-se do que teria sido uma mais do que merecida descida de divisão (e cumprindo assim a profecia do despromovido José Couceiro, e que é, de facto, uma coincidência que já vem registando-se há duas épocas: nunca descem equipas com estádios para o Euro).
E eis a minha pessoalíssima selecção para o onze deste Campeonato: Moreira ou Vítor Baía (não consegui decidir); Paulo Ferreira, Ricardo Carvalho, Michel van der Gagg e Rossato; Deco, Rochemback e Maniche; Derlei, Liedson e Douala. Os onze são afinal doze: seis do FC Porto, dois do Sporting e um de Benfica, Marítimo, Nacional e U. Leiria.

Segunda-feira, 10
No regresso a casa fico a saber pelos jornais que, com a sua vitória emGuimarães, «ficou provado que o Sporting foi a melhor equipa do Campeonato». Como julgo recordar que o FC Porto também disputou o mesmo Campeonato, isto equivale a dizer que o Sporting é a melhor equipa portuguesa da actualidade.Aúltima vez que olhei para o ranking da FIFA lá vinha o Sporting, se bem me recordo, em 351.º lugar e o FC Porto classificado como a terceira equipa mundial da actualidade. Há, manifestamente, um problema de desactualização da FIFA, cujos critérios não alcançam as especifidades do sistema português.

Terça-feira, 11
O FC Porto regressou hoje ao trabalho para preparar a final da Taça. Os jogadores do Benfica têm mais um dia de folga, só regressam amanhã. Que domingo haja uma bonita festa no Jamor, um grande jogo de futebol, uma arbitragem limpa e sem casos e que ganhe a melhor equipa desse jogo. São os desejos de um portista.