Amanhã à noite, nas televisões do Mundo inteiro, milhares de milhões de olhos vão seguir as proezas e aprender os nomes de Vítor Baía, Paulo Ferreira, Jorge Costa, Ricardo Carvalho, Nuno Valente, Maniche, Costinha, Deco, Derlei, McCarthy e Carlos Alberto. E nós, lá no estádio, vamos morrer de orgulho pelo nosso clube, as nossas cores, o nosso país. Hoje, terça-feira, juro que é quanto me basta
1. Se alguém tivesse previsto, há 10 anos atrás, que uma equipa portuguesa conseguiria, no espaço de uma década, chegar à final da Liga dos Campeões, eu teria dito que esse alguém ou era um optimista incorrigível ou era um ignorante das coisas do futebol. É certo que, há pouco mais de 10 anos, Portugal teve duas equipas na final da mais importante competição mundial de clubes: oFC Porto em 1987 e o Benfica no ano seguinte. Mas então não vigorava ainda o acórdão Bosman e a a competição não se chamava ainda Liga dos Campeões. Uma e outra coisa vieram mudar por completo o panorama desta competição e diminuir de forma extrema as hipóteses de êxito de países pobres no contexto futebolístico europeu, como é o caso de Portugal. A chamada lei Bosman, recordemo-lo, retirou aos clubes o privilégio do direito de opção sobre jogadores em final de contrato, tornando os melhores jogadores ao serviço dos clubes portugueses presa fácil dos mais poderosos clubes estrangeiros: foi uma lei ao serviço dos ricos e contra os pobres, uma lei a favor dos negócios e contra a formação de jogadores. A Champion’s League, por seu lado, terminando com a representação de um clube por país e substituindo-a por um critério que privilegia o aumento do número de clubes representantes dos países mais poderosos, teve como efeito prático que as equipas portuguesas, em vez de terem de se haver com um tubarão espanhol, um italiano, um inglês ou um alemão, agora têm de se haver com três ou quatro de cada um desses países. Agora não é preciso ser-se campeão nacional no seu país para se ser campeão europeu: basta ser-se clube rico em país rico, como o Chelsea do sr. Abramovitch. A competição ganhou em competitividade, em qualidade, em número de jogos e em dificuldades mas, mais uma vez, desfavoreceu os mais pobres face aos mais ricos. A actual Champion’s League é uma competição feita à medida dos poucos grandes clubes de primeiríssima linha europeia: Real Madrid, Barcelona, Valência, Inter, Milan, Juventus, Lazio, Bayern, Schalcke, Manchester, Liverpool, Arsenal, Chelsea. Os outros, como o FC Porto e o Mónaco, são os outsiders, que servem para animar a fase de grupos mas cujo destino natural é a morte súbita na fase de grupos ou, em anos excepcionais, nos quartos-de-final. E, todavia, aí estão eles — Mónaco e FC Porto — em Gelsenkirchen, para grande frustração e grande humilhação dos tubarões europeus. O impossível, o impensável, aconteceu. E agora, que pouco mais de 24 horas nos separam já do Arena Aufschalke, olho para estas duas equipas, para os seus jogadores, os seus dirigentes, os seus treinadores, com uma profundo respeito e admiração. Chegar aqui foi tão fantástico que nenhum deles merecia a desfeita de não levantar a taça amanhã à noite. E se, como portista e como português, só desejo obviamente que seja o FC Porto a consegui-lo, não deixo também de pensar que, seja qual for o desfecho, Mónaco e FC Porto já conseguiram fazer história na Champion’s League, reeditando cada um deles a eterna história do combate de David contra Golias. Do meu lado, só tenho a agradecer aos jogadores e ao treinador desta grande equipa que é este FC Porto por me terem levado o ano passado a Sevilha e me terem trazido este ano a Gelsenkirchen. Por terem tornado possíveis os sonhos que eu nem ousava sonhar, por terem desmentido o impossível, por terem feito com que amanhã à noite, uma vez mais, as camisolas azuis e brancas e o nome do FC Porto atravessem os céus do Mundo inteiro e sejam levados pelos satélites a todas as casas do planeta onde mora um adepto deste desporto fantástico. Amanhã à noite, nas televisões do Mundo inteiro, milhares de milhões de olhos vão seguir as proezas e aprender os nomes de Vítor Baía, Paulo Ferreira, Jorge Costa, Ricardo Carvalho, Nuno Valente, Maniche, Costinha, Deco, Derlei, McCarthy e Carlos Alberto. E nós, lá no estádio, vamos morrer de orgulho pelo nosso clube, as nossas cores, o nosso país. Hoje, terça-feira, juro que é quanto me basta. Não adianta especular se jogarão exactamente aqueles onze ou um ou outro no lugar de algum deles. Se jogaremos em 4x4x2 ou em 4x3x3, ao ataque ou na expectativa, cansados ou com força, corajosos ou com receio. Se eu estivesse no lugar de Mourinho, depois de feito todo o trabalho de casa, limitar-me-ia a dizer aos jogadores: «Chegaram até aqui, o que é uma honra e uma proeza única. Agora limitem-se a ir lá para dentro e jogar o que sabem, com alegria e orgulho, sem medo nem constrangimentos. Tudo o que acontecer será inesquecível.»
2. Eu sei que altos interesses nacionais e ditos «patrióticos» recomendam que se calem agora todas as críticas à Selecção e ao próprio Euro. Aliás, esta velha retórica parece ser extensível a tudo o resto, para além do futebol: ainda anteontem, no congresso do PSD, o primeiro ministro ensaiou o discurso de «quem não está por nós, está contra Portugal».Mas só falo no assunto porque o Tribunal de Contas, distraído de dever geral de patriotismo a que o Euro obriga, se lembrou de escolher este momento para tornar públicas as contas dos estádios municipais construídos ou melhorados para o Euro. E o que o tribunal veio revelar esclarece as razões pelas quais alguns, como eu, foram desde o início contra este patriótico acontecimento: nem um só estádio cumpriu o orçamento — no mínimo a derrapagem foi do dobro, outros derraparam três e até quatro vezes o custo inicial previsto; algumas câmaras municipais gastaram com o seu estadiozinho a totalidade do orçamento municipal para um ano de actividade, obrigando-as a endividarem-se perante a banca, o que fará subir o custo final, com os respectivos juros; e nenhum dos estádios, segundo o Tribunal de Contas, conseguirá no futuro assegurar o finaciamento das despesas de manutenção apenas com recurso às receitas geradas: ou seja, é um encargo eterno. O que o tribunal agora veio revelar confirma apenas aquilo que qualquer português avisado já deveria esperar: que qualquer empreitada pública jamais cumpre o orçamento anunciado. Não por acaso, os únicos estádios do Euro que cumpriram os orçamentos foram aqueles cuja parte substancial do pagamento ficou (ou deveria ter ficado) a cargo dos clubes seus proprietários. Mas quando é o Estado central ou as autarquias o dono da obra já se sabe que esta, misteriosamente, acaba sempre por custar o dobro ou o triplo do anunciado. Foi também por saber isso e não esperar outra coisa que fui desde logo contra a ideia do Euro em Portugal. Por respeito pelos portugueses que trabalham e pagam impostos. Ou seja, na minha concepção, por patriotismo. Se a isto acrescentarmos o que o Estado central gastou nos quatro estádios privados, o que a câmara de Lisboa gastou nos estádios de Benfica e Sporting e eventualmente a câmara do Porto nos estádios do Dragão e do Bessa, se acrescentarmos todo o imenso rol de investimentos para além dos estádios (e tive ocasião de ver na altura o extenso caderno de encargos exigido pela UEFA), chegaremos a números finais que são tão chocantes que eu duvido, simplesmente, que alguma vez venham a ser revelados em toda a sua extensão aos portugueses. Não se trata de ser miserabilista ou ter uma atitude de princípio contras as grandes festas públicas. Trata-se de dizer a verdade. Pôr os números reais em cima da mesa, dizer «custa isto, pagam estes, aproveitam aqueles» e, no final, perguntar às pessoas se acham que era necessário.
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
sábado, maio 29, 2004
DIREITO POR LINHAS TORTAS ( 18 Maio 2004)
1 – O futebol é um bocado como a democracia: convém que haja alternância para as coisas serem saudáveis. E não basta apenas a possibilidade teórica da alternância, é preciso também que ela exista na realidade. De outro modo, é como a democracia na ilha da Madeira, onde ganha sempre o mesmo há 27 anos e nos querem convencer de que ganha com mérito. É salutar, pois, que o Benfica tenha ganho a Taça ao Porto. É salutar para todos, até para os portistas.
Devemos reconhecer que nós, portistas, andamos mal habituados. Perder com o Milan, campeão europeu, na Supertaça europeia, ainda vá que não vá. Perder com esta equipa do benfica, sejam quais forem as circunstancias, dói ainda mais. E, todavia, faz bem. A legião de adeptos do benfica precisava desta experiencia, e nós também. Parabéns ao benfica.
Agora, também, não nos peçam demais, à conta de que não sabemos perder. Com toda a franqueza, acho que o benfica não mereceu esta Taça. Para começar, não mereceu chegar à final, depois de um percurso onde, ou ficou isento, ou jogou sempre em casa, em constrate com o FcPORTO que, eliminou o Boavista e o Braga e Rio Ave, fora de casa. Depois, olho para a estatistica do jogo e, em tudo o que interessa, o Porto foi mais do que o benfica: em posse de bola, em ataques, em remates, em cantos,em bolas à trave. E jogou um hora inteira com um jogador a menos – depois de uma epoca muitissimo mais desgastante e exigente que o benfica e a dias de disputar o mais importante jogo que existe em toda a Europa. E , depois daquele quarto de hora inicial, em que o benfica podia e merecia ter acabado com um ou dois golos de vantagem, só deu Porto. E se o benfica, sem ter criado por si qualquer oportunidade, conseguiu, nos 105 minutos restantes, virar o resultado, é porque Mourinho, não querendo ferir susceptibilidades, deu a baliza a Nuno – com consequencias nefastas. Como dizia no comentário em directo da TVI Luis Norton de Matos ( insuspeito de ser portista), foi com dez contra onze que o Porto demonstrou o porquê da supremacia que tem tido no futebol portugues nos ultimos anos. Que me desculpe Mário Dias, mas não ganhou «a equipa que fez mais para isso». Se alguem se bateu pela vitoria, mesmo em inferioridade numerica, foi o PORTO e não o benfica. Após o jogo, jantando com um grande amigo benfiquista, naturalmente radiante, pedi-lhe que me indicasse o nome de um jogador do benfica que tivesse feito uma grande exibição e ele não foi capaz de me responder, ficou-se «pelo colectivo». Mas eu sou capaz, do meu lado: o Paulo Ferreira que , tirando dois lences iniciais, secou por completo o Simão Sabrosa; o Ricardo Carvalho, inultrapassável, como de costume; o Nuno Valente, excepção feito à agressão ao Giovanni, já no prolongamento, e que teria merecido um cartão vermelho; o Derlei e , obviamente, o Deco – perfeito, não fosse a insistencia em marcar, e sempre mal, os livres perto da area.
Mas nem todos estiveram bem no FCPORTO: o Nuno, que mostrou todas as suas limitações, em particular, as saídas da baliza, entre o cómico e o trágico; Jorge Costa, que devia dar o exemplo a acalmar as hostes e que esteve absurdamente nervoso, até conseguir ser expulso; o Pedro Mendes que, não justifica de todo a opção por um 4x4x2 onde se perde um homem na frente e não se ganha nada em troca, com ele no meio campo; o Costinha e o Maniche, ausentes e desconcentrados ( será coincidencia serem ambos dos mais insistentemente falados para irem para o estrangeiro?); e o Maciel, que parece ter atingido o seu patamar de Peter de ambição ao chegar ao Porto e que está preguiçoso e abúlico: agora vai de fáerias, mas é bom que meta na cabeça que para o ano vai ter que mostrar muito mais que este ano.
E sobra a «farsa», como lhe chamou José Mourinho: Lucílio Baptista. Eu disse-o antes do jogo: era um arbitro sem categoria nem merecimento para a final. Pouco importa que seja internacional e esteja no Europeu: não tem valor para tal, é de um caseirismo indisfarçável, mau tecnicamente, sem saber usar a lei da vantagem e com um criterio disciplinar comendado da bancada.
Ao primeiro minuto de jogo perdoou um amarelo a Fyssas, numa entrada a matar sobre Derlei e aos cinco minutos perdoou outro ao Petit, por entrada identica sobre o Deco – como se a gravidade das faltas dependesse do momento em que são cometidas.
Ao Petit mostrou-lhe o amarelo à terceira falta grosseira que ele cometeu e desfez-se em explicações de que já era a terceira.
Mas ao Jorge Costa, mostrou-lhe um amarelo por cada uma das faltas que ele fez e deixou o Porto reduzido a dez, durante uma hora.
Antes disso, tinha já perdoado o vermelho directo ao Fernando Aguiar por agressão por tras, sem bola, ao Derlei e, depois disso, por achar certamente que nove contra onze era de mais, perdoou a expulsão ao Nuno Valente( mas numa coisa é uma expulsão aos 60 minutos, outra aos 110).
Mas o mais ridiculo foi já mesmo no final, com Petit no chão a ser assistido por caimbras há já 2.10m e ,continuando a ser assistido, ele fez sinal de dois minutos de desconto - e apesar de na jogada anterior se terem gastos 3 minutos só a formar a barreira do benfica para um livre.
Obviamente, e como já se tinha visto nos ultimos dois jogos em Alvalade, Lucilio Baptista acha que lhe cabe a nobre missão de tentar equilibar os jogos em que o FCPORTO é parte.
O que havemos nós de fazer? Esperar que ele se reforme rapidamente e que lá em cima deixem de o proteger. Li que já é a terceira final da Taça que lhe dão: já chega.
E assim se escreveu direito por linhas tortas. Direito, porque, como acima disse, é bom para todos que o benfica tenha ganho a Taça.
Por linha tortas, porque o benfica não mereceu ganhar pelo que jogou e , mais uma vez, fiquei com a ideia clara que, se o arbitro e o estadio não fossem do sul, outro galo cantaria. Se não acreditam, submetam-se à experiencia.
De qualquer modo, a verdade é que, num ano tragico e sofrido, o benfica e a sua falange de adeptos – não todos, mas muitos – mereciam ganhar qualquer coisa. E, em não podendo ganhar o campeonato, ao menos a Taça - o que sempre permitiu à direcção ter umas tshirts preparadas para vestir no final, com a curiosa e sintomatica frase:
« Benfica , campeão da Taça de Portugal»
Campeão da Taça de Portugal? Então , o que será o FCPORTO – campeão do Campeonato?
2- Terça-feira Scolari revela a sua lista de eleitos. Não espero nenhuma surpresa. Se há coisa a que Scolari já nos habituou é a ser previsível. Aposto que vai ser uma lista com todos os suspeitos do costume: esses mesmo, que têm dado tão boa conta de si.
3- Fez este sábado uma semana que o Expresso dedicou quase um número especial a atacar o FC Porto e Pinto da Costa. Citando fontes policiais, o Expresso «sabe» que a juíza vai citar Pinto da Costa para prestar declarações sobre a grave suspeita de em tempos ter oferecido o relógio do centenário do FC Porto a Valentim Loureiro. Indignado com suspeitas de tal gravidade, José António Lima descobriu que Rui Rio fez campanha «contra a promiscuidade entre a política e o futebol» (e eu a julgar que ele só tinha falado no futebol depois de se ver eleito..), e que, por esse facto, Pinto da Costa não escondeu desde logo a sua a «animosidade» contra Rio (e eu a recordar-me que quem abriu as «animosidades, totalmente a despropósito, tinha sido Rio...). Diz José António Lima que agora Rio marca pontos, no momento em que se sabe que o FC Porto esteve envolvido em negociatas com a anterior vereação de Nuno Cardoso. Que negociatas? Segundo o que li, há um inspector da administração do Território que pensa, ao contrário do que pensaram os técnicos camarários, que houve um terreno da CMP permutado com o FC Porto que valia mais 600.000 contos do que a sua avaliação. Até pode ser que tenha razão: as avaliações imobiliárias não são uma ciência certa e variam conforme a opinião. Mas, mesmo que a razão esteja com ele e não com os outros, restaria provar que a avaliação foi uma negociata, como tal, concluída por ambas as partes com o objectivo de beneficiar o FC Porto. Então, e só então, teríamos o crime da ajuda camarária ao FC Porto. Eu pasmo, sinceramente, com isto. Será que no Expresso desconhecem o teor dos contratos celebrados entre a CML e Benfica e Sporting, para a construção dos seus novos estádios? Será que desconhecem o valor das ajudas envolvidas? E, por acaso, ninguém no Expresso terá lido a notícia deste jornal, quinta-feira passada, relatando a visita do Marítimo ao presidente do governo regional da Madeira? Eu recordo o que disse o presidente do Marítimo, Carlos Pereira: que «o governo regional é um grande parceiro de negócio», o que permite ao Marítimo estar em situação financeira «equilibrada, ao contrário de outros que foram considerados modelos de gestão desportiva e financeira e hoje é o que se sabe». E, para provar que o Marítimo também não é ingrato para com o seu «grande parceiro » de negócios, Carlos Pereira revelou que o clube «não vai pressionar o governo para nos pagar os prémios pela conquista da UEFA». Perceberam bem: na Madeira, o governo regional dá prémios financeiros ao Marítimo por este ter conquistado o sexto lugar do Campeonato. O que tem a dizer a isto o José António Lima?
Devemos reconhecer que nós, portistas, andamos mal habituados. Perder com o Milan, campeão europeu, na Supertaça europeia, ainda vá que não vá. Perder com esta equipa do benfica, sejam quais forem as circunstancias, dói ainda mais. E, todavia, faz bem. A legião de adeptos do benfica precisava desta experiencia, e nós também. Parabéns ao benfica.
Agora, também, não nos peçam demais, à conta de que não sabemos perder. Com toda a franqueza, acho que o benfica não mereceu esta Taça. Para começar, não mereceu chegar à final, depois de um percurso onde, ou ficou isento, ou jogou sempre em casa, em constrate com o FcPORTO que, eliminou o Boavista e o Braga e Rio Ave, fora de casa. Depois, olho para a estatistica do jogo e, em tudo o que interessa, o Porto foi mais do que o benfica: em posse de bola, em ataques, em remates, em cantos,em bolas à trave. E jogou um hora inteira com um jogador a menos – depois de uma epoca muitissimo mais desgastante e exigente que o benfica e a dias de disputar o mais importante jogo que existe em toda a Europa. E , depois daquele quarto de hora inicial, em que o benfica podia e merecia ter acabado com um ou dois golos de vantagem, só deu Porto. E se o benfica, sem ter criado por si qualquer oportunidade, conseguiu, nos 105 minutos restantes, virar o resultado, é porque Mourinho, não querendo ferir susceptibilidades, deu a baliza a Nuno – com consequencias nefastas. Como dizia no comentário em directo da TVI Luis Norton de Matos ( insuspeito de ser portista), foi com dez contra onze que o Porto demonstrou o porquê da supremacia que tem tido no futebol portugues nos ultimos anos. Que me desculpe Mário Dias, mas não ganhou «a equipa que fez mais para isso». Se alguem se bateu pela vitoria, mesmo em inferioridade numerica, foi o PORTO e não o benfica. Após o jogo, jantando com um grande amigo benfiquista, naturalmente radiante, pedi-lhe que me indicasse o nome de um jogador do benfica que tivesse feito uma grande exibição e ele não foi capaz de me responder, ficou-se «pelo colectivo». Mas eu sou capaz, do meu lado: o Paulo Ferreira que , tirando dois lences iniciais, secou por completo o Simão Sabrosa; o Ricardo Carvalho, inultrapassável, como de costume; o Nuno Valente, excepção feito à agressão ao Giovanni, já no prolongamento, e que teria merecido um cartão vermelho; o Derlei e , obviamente, o Deco – perfeito, não fosse a insistencia em marcar, e sempre mal, os livres perto da area.
Mas nem todos estiveram bem no FCPORTO: o Nuno, que mostrou todas as suas limitações, em particular, as saídas da baliza, entre o cómico e o trágico; Jorge Costa, que devia dar o exemplo a acalmar as hostes e que esteve absurdamente nervoso, até conseguir ser expulso; o Pedro Mendes que, não justifica de todo a opção por um 4x4x2 onde se perde um homem na frente e não se ganha nada em troca, com ele no meio campo; o Costinha e o Maniche, ausentes e desconcentrados ( será coincidencia serem ambos dos mais insistentemente falados para irem para o estrangeiro?); e o Maciel, que parece ter atingido o seu patamar de Peter de ambição ao chegar ao Porto e que está preguiçoso e abúlico: agora vai de fáerias, mas é bom que meta na cabeça que para o ano vai ter que mostrar muito mais que este ano.
E sobra a «farsa», como lhe chamou José Mourinho: Lucílio Baptista. Eu disse-o antes do jogo: era um arbitro sem categoria nem merecimento para a final. Pouco importa que seja internacional e esteja no Europeu: não tem valor para tal, é de um caseirismo indisfarçável, mau tecnicamente, sem saber usar a lei da vantagem e com um criterio disciplinar comendado da bancada.
Ao primeiro minuto de jogo perdoou um amarelo a Fyssas, numa entrada a matar sobre Derlei e aos cinco minutos perdoou outro ao Petit, por entrada identica sobre o Deco – como se a gravidade das faltas dependesse do momento em que são cometidas.
Ao Petit mostrou-lhe o amarelo à terceira falta grosseira que ele cometeu e desfez-se em explicações de que já era a terceira.
Mas ao Jorge Costa, mostrou-lhe um amarelo por cada uma das faltas que ele fez e deixou o Porto reduzido a dez, durante uma hora.
Antes disso, tinha já perdoado o vermelho directo ao Fernando Aguiar por agressão por tras, sem bola, ao Derlei e, depois disso, por achar certamente que nove contra onze era de mais, perdoou a expulsão ao Nuno Valente( mas numa coisa é uma expulsão aos 60 minutos, outra aos 110).
Mas o mais ridiculo foi já mesmo no final, com Petit no chão a ser assistido por caimbras há já 2.10m e ,continuando a ser assistido, ele fez sinal de dois minutos de desconto - e apesar de na jogada anterior se terem gastos 3 minutos só a formar a barreira do benfica para um livre.
Obviamente, e como já se tinha visto nos ultimos dois jogos em Alvalade, Lucilio Baptista acha que lhe cabe a nobre missão de tentar equilibar os jogos em que o FCPORTO é parte.
O que havemos nós de fazer? Esperar que ele se reforme rapidamente e que lá em cima deixem de o proteger. Li que já é a terceira final da Taça que lhe dão: já chega.
E assim se escreveu direito por linhas tortas. Direito, porque, como acima disse, é bom para todos que o benfica tenha ganho a Taça.
Por linha tortas, porque o benfica não mereceu ganhar pelo que jogou e , mais uma vez, fiquei com a ideia clara que, se o arbitro e o estadio não fossem do sul, outro galo cantaria. Se não acreditam, submetam-se à experiencia.
De qualquer modo, a verdade é que, num ano tragico e sofrido, o benfica e a sua falange de adeptos – não todos, mas muitos – mereciam ganhar qualquer coisa. E, em não podendo ganhar o campeonato, ao menos a Taça - o que sempre permitiu à direcção ter umas tshirts preparadas para vestir no final, com a curiosa e sintomatica frase:
« Benfica , campeão da Taça de Portugal»
Campeão da Taça de Portugal? Então , o que será o FCPORTO – campeão do Campeonato?
2- Terça-feira Scolari revela a sua lista de eleitos. Não espero nenhuma surpresa. Se há coisa a que Scolari já nos habituou é a ser previsível. Aposto que vai ser uma lista com todos os suspeitos do costume: esses mesmo, que têm dado tão boa conta de si.
3- Fez este sábado uma semana que o Expresso dedicou quase um número especial a atacar o FC Porto e Pinto da Costa. Citando fontes policiais, o Expresso «sabe» que a juíza vai citar Pinto da Costa para prestar declarações sobre a grave suspeita de em tempos ter oferecido o relógio do centenário do FC Porto a Valentim Loureiro. Indignado com suspeitas de tal gravidade, José António Lima descobriu que Rui Rio fez campanha «contra a promiscuidade entre a política e o futebol» (e eu a julgar que ele só tinha falado no futebol depois de se ver eleito..), e que, por esse facto, Pinto da Costa não escondeu desde logo a sua a «animosidade» contra Rio (e eu a recordar-me que quem abriu as «animosidades, totalmente a despropósito, tinha sido Rio...). Diz José António Lima que agora Rio marca pontos, no momento em que se sabe que o FC Porto esteve envolvido em negociatas com a anterior vereação de Nuno Cardoso. Que negociatas? Segundo o que li, há um inspector da administração do Território que pensa, ao contrário do que pensaram os técnicos camarários, que houve um terreno da CMP permutado com o FC Porto que valia mais 600.000 contos do que a sua avaliação. Até pode ser que tenha razão: as avaliações imobiliárias não são uma ciência certa e variam conforme a opinião. Mas, mesmo que a razão esteja com ele e não com os outros, restaria provar que a avaliação foi uma negociata, como tal, concluída por ambas as partes com o objectivo de beneficiar o FC Porto. Então, e só então, teríamos o crime da ajuda camarária ao FC Porto. Eu pasmo, sinceramente, com isto. Será que no Expresso desconhecem o teor dos contratos celebrados entre a CML e Benfica e Sporting, para a construção dos seus novos estádios? Será que desconhecem o valor das ajudas envolvidas? E, por acaso, ninguém no Expresso terá lido a notícia deste jornal, quinta-feira passada, relatando a visita do Marítimo ao presidente do governo regional da Madeira? Eu recordo o que disse o presidente do Marítimo, Carlos Pereira: que «o governo regional é um grande parceiro de negócio», o que permite ao Marítimo estar em situação financeira «equilibrada, ao contrário de outros que foram considerados modelos de gestão desportiva e financeira e hoje é o que se sabe». E, para provar que o Marítimo também não é ingrato para com o seu «grande parceiro » de negócios, Carlos Pereira revelou que o clube «não vai pressionar o governo para nos pagar os prémios pela conquista da UEFA». Perceberam bem: na Madeira, o governo regional dá prémios financeiros ao Marítimo por este ter conquistado o sexto lugar do Campeonato. O que tem a dizer a isto o José António Lima?
Uma semana alucinante ( 11 Maio 2004)
FOI, de facto, uma semana alucinante, de terça a terça. Tantas coisas se passaram em catadupa, no mundo do futebol, que o melhor é passá- las em revista cronologicamente.
Terça-feira, 4
A noite histórica de La Coruña, os trezentos quilómetros que faltavam para que o FC Porto conseguisse a impensável proeza de chegar a duas finais europeias em anos consecutivos. Mas bastaram- me os cinco minutos iniciais do jogo para perceber que, a menos que alguma coisa de verdadeiramente imprevisto acontecesse, o FC Porto não deixaria escapar a eliminatória. A atitude com que a equipa entrou no jogo, e que manteve inalterável durante 98 minutos, foi de verdadeiro campeão, de quem sai em busca do seu destino, esteja ele ou não escrito nos designíos dos deuses. Desde o início, o Porto pôs em sentido um Corunha que, por contraste, acusou por completo a responsabilidade de ver a meta à vista e não conseguir reunir a calma, a lucidez e a coragem demanter o ritmo até lá — o célebre e muito estudado síndrome de Mamede. Inversamente, o FC Porto mostrou de que raça são feitos os verdadeiros campeões e uma vez mais provou que é nos grandes momentos que se conhecem os grandes jogadores, os grandes treinadores e as grandes equipas. Na primeira parte manteve demesticado o adversário, na segunda entrou decidido a resolver as coisas rapidamente e ao terceiro golpe chegou ao destino. Também eu reparei no pormenor para que José Mourinho chamou depois a atenção: dos sete jogadores em perigo de levar segundo amarelo, nem umsó cometeu qualquer falta que o justificasse e, aliás, em conjunto, todos eles cometeram apenas oito faltas. Isto define uma equipa que consegue, num ambiente adverso e num jogo de vida ou morte, buscar a vitória sem nunca perder a lucidez. Acertei no desejo-previsão de que o Derlei jogaria de início e aguentaria o jogo todo. Enganeime na inclusão de McCarthy, preterido por umPedro Mendes que, em minha opinião, foi o único que destoou. E enganei-me, e ainda bem, na previsão de uma arbitragem caseira do Colina (já agora uma pergunta aos especialistas: quando falam num penalty contra o Porto que ele não marcou, por agressão do NunoValente aumadversário, poderia haver penalty com o jogo parado e a bola fora, à espera da marcação deumcanto?) Em 180 minutos de eliminatória o Corunha só construiu, e no seu terreno, duas oportunidades de golo, uma das quais — a mais flagrante — porque a defesa do Porto parou à espera de um offside inexistente. O FC Porto atirou duas bolas à trave e falhou mais duas oportunidades claras, além de ter disposto de um penalty não assinalado, no Dragão — onde o Corunha defendeu 90 minutos com onze jogadores atrás da linha da bola e um intenso recurso a toda a espécie de antijogo. É, por isso, inacreditável o facciosismo da imprensa espanhola a analisar o jogo e o tom de desprezo com que apreciam previamente uma final entre oMónaco e o FC Porto: os ricos ofendem-se com as veleidades dos pobres.
Quarta-feira, 5
Mourinho parte para Londres — ele vai ver o Chelsea, a família vai ver a cidade. Manifestamente, a viagem tem dois objecÉ tivos, mas é, de facto, precipitado e injusto julgar, como o António Tavares Teles fez, que Mourinho se prepara para sair pela porta pequena.
Quinta-feira, 6
Também eu parto para um pouco mais longe e, lá onde estou, chegam-me as extraordinárias notícias das ofertas loucas do Sr. Abramovitch. Se, realmente, se confirmar a oferta anunciada — sete milhões de euros por Mourinho mais o trio Deco-Costinha- Paulo Ferreira, ou cinco milhões por todos eles menos o último, é caso para dizer que Mourinho sai em ombros pela porta da Maratona. Mas é cedo para falar disso: há ainda duas finais pela frente e José Mourinho tem, pelo menos — e só isso, se calhar — de demonstrar ainda que tantas negociações semi-secretas e tantosmilhões acenados aos quatro ventos não deram a volta à cabeça do núcleo duro azul-e-branco.
Sábado, 8
E o impensável acontece: o galáctico Real Madrid, a melhor equipa de futebol jamais reunida, soma a quarta derrota consecutiva e, em pleno Chamartin, despede- se do campeonato, depois da Taça e da Liga dos Campeões. Nunca alguém prometeu tanto para cumprir tão pouco. Lá longe chegam-me notícias de que Carlos Queirós poderá ser aposta de Pinto da Costa para suceder aMourinho. Espero bem que seja uma notícia de empresário: com Queirós à frente do FC Porto, o espírito de vitória desta equipa esfumar- se-ia emmenos de umtrimestre. Além de que, eu pelo menos, ainda não esqueçi o que ele dizia e insinuava sobre o FC Porto quando, à frente de uma excelente equipa do Sporting, não conseguiu ganhar-nos o Campeonato.
O FCPorto ganhou mais um título nacional no andebol. Ajuntar aos do futebol e de básquete, já garantidos. E ainda tem o hóquei em patins, onde depende apenas de si próprio para ser também campeão: as quatro principais modalidades profissionais entre nós. Embora no domínio das amadoras, o Sporting não ficou também de maõs a abanar: sucedendo ao eterno rival, ganhou o título de futebol de salão, uma modalidadeemfranca expansão, desde que o FC Porto desatou a acumular títulos no estádio e não mostrou desejos de transferir o seu futebol para o pavilhão.
Domingo, 9
Falho a última jornada do Campeonato — acho que vai ficar a ser o único jogo do FC Porto que eu não vi esta época, excepção feita a dois jogos da Taça. Mas f i q u e i a saber que o McCarthy arrancou, e em grande estilo, o pódio dos melhores marcadores, mesmo sobre a meta, e que o Sérgio Conceição culminou da mais infeliz maneira um regresso falhado. Eis duas previsões em que acertei, assim que ambos vieram. Fico a saber também que o Benfica esperou até ao último minuto para assinar a sua presença em nova tentativa de qualificação para a Liga dos Campeões, após uma recuperação final a todos os títulos notável. E sei, enfim, que o Sporting imitou, à sua escala, a época de todas as derrotas do Real Madrid, em Espanha, e que Belenenses e Guimarães, apesar de novas derrotas, safaram-se do que teria sido uma mais do que merecida descida de divisão (e cumprindo assim a profecia do despromovido José Couceiro, e que é, de facto, uma coincidência que já vem registando-se há duas épocas: nunca descem equipas com estádios para o Euro).
E eis a minha pessoalíssima selecção para o onze deste Campeonato: Moreira ou Vítor Baía (não consegui decidir); Paulo Ferreira, Ricardo Carvalho, Michel van der Gagg e Rossato; Deco, Rochemback e Maniche; Derlei, Liedson e Douala. Os onze são afinal doze: seis do FC Porto, dois do Sporting e um de Benfica, Marítimo, Nacional e U. Leiria.
Segunda-feira, 10
No regresso a casa fico a saber pelos jornais que, com a sua vitória emGuimarães, «ficou provado que o Sporting foi a melhor equipa do Campeonato». Como julgo recordar que o FC Porto também disputou o mesmo Campeonato, isto equivale a dizer que o Sporting é a melhor equipa portuguesa da actualidade.Aúltima vez que olhei para o ranking da FIFA lá vinha o Sporting, se bem me recordo, em 351.º lugar e o FC Porto classificado como a terceira equipa mundial da actualidade. Há, manifestamente, um problema de desactualização da FIFA, cujos critérios não alcançam as especifidades do sistema português.
Terça-feira, 11
O FC Porto regressou hoje ao trabalho para preparar a final da Taça. Os jogadores do Benfica têm mais um dia de folga, só regressam amanhã. Que domingo haja uma bonita festa no Jamor, um grande jogo de futebol, uma arbitragem limpa e sem casos e que ganhe a melhor equipa desse jogo. São os desejos de um portista.
Terça-feira, 4
A noite histórica de La Coruña, os trezentos quilómetros que faltavam para que o FC Porto conseguisse a impensável proeza de chegar a duas finais europeias em anos consecutivos. Mas bastaram- me os cinco minutos iniciais do jogo para perceber que, a menos que alguma coisa de verdadeiramente imprevisto acontecesse, o FC Porto não deixaria escapar a eliminatória. A atitude com que a equipa entrou no jogo, e que manteve inalterável durante 98 minutos, foi de verdadeiro campeão, de quem sai em busca do seu destino, esteja ele ou não escrito nos designíos dos deuses. Desde o início, o Porto pôs em sentido um Corunha que, por contraste, acusou por completo a responsabilidade de ver a meta à vista e não conseguir reunir a calma, a lucidez e a coragem demanter o ritmo até lá — o célebre e muito estudado síndrome de Mamede. Inversamente, o FC Porto mostrou de que raça são feitos os verdadeiros campeões e uma vez mais provou que é nos grandes momentos que se conhecem os grandes jogadores, os grandes treinadores e as grandes equipas. Na primeira parte manteve demesticado o adversário, na segunda entrou decidido a resolver as coisas rapidamente e ao terceiro golpe chegou ao destino. Também eu reparei no pormenor para que José Mourinho chamou depois a atenção: dos sete jogadores em perigo de levar segundo amarelo, nem umsó cometeu qualquer falta que o justificasse e, aliás, em conjunto, todos eles cometeram apenas oito faltas. Isto define uma equipa que consegue, num ambiente adverso e num jogo de vida ou morte, buscar a vitória sem nunca perder a lucidez. Acertei no desejo-previsão de que o Derlei jogaria de início e aguentaria o jogo todo. Enganeime na inclusão de McCarthy, preterido por umPedro Mendes que, em minha opinião, foi o único que destoou. E enganei-me, e ainda bem, na previsão de uma arbitragem caseira do Colina (já agora uma pergunta aos especialistas: quando falam num penalty contra o Porto que ele não marcou, por agressão do NunoValente aumadversário, poderia haver penalty com o jogo parado e a bola fora, à espera da marcação deumcanto?) Em 180 minutos de eliminatória o Corunha só construiu, e no seu terreno, duas oportunidades de golo, uma das quais — a mais flagrante — porque a defesa do Porto parou à espera de um offside inexistente. O FC Porto atirou duas bolas à trave e falhou mais duas oportunidades claras, além de ter disposto de um penalty não assinalado, no Dragão — onde o Corunha defendeu 90 minutos com onze jogadores atrás da linha da bola e um intenso recurso a toda a espécie de antijogo. É, por isso, inacreditável o facciosismo da imprensa espanhola a analisar o jogo e o tom de desprezo com que apreciam previamente uma final entre oMónaco e o FC Porto: os ricos ofendem-se com as veleidades dos pobres.
Quarta-feira, 5
Mourinho parte para Londres — ele vai ver o Chelsea, a família vai ver a cidade. Manifestamente, a viagem tem dois objecÉ tivos, mas é, de facto, precipitado e injusto julgar, como o António Tavares Teles fez, que Mourinho se prepara para sair pela porta pequena.
Quinta-feira, 6
Também eu parto para um pouco mais longe e, lá onde estou, chegam-me as extraordinárias notícias das ofertas loucas do Sr. Abramovitch. Se, realmente, se confirmar a oferta anunciada — sete milhões de euros por Mourinho mais o trio Deco-Costinha- Paulo Ferreira, ou cinco milhões por todos eles menos o último, é caso para dizer que Mourinho sai em ombros pela porta da Maratona. Mas é cedo para falar disso: há ainda duas finais pela frente e José Mourinho tem, pelo menos — e só isso, se calhar — de demonstrar ainda que tantas negociações semi-secretas e tantosmilhões acenados aos quatro ventos não deram a volta à cabeça do núcleo duro azul-e-branco.
Sábado, 8
E o impensável acontece: o galáctico Real Madrid, a melhor equipa de futebol jamais reunida, soma a quarta derrota consecutiva e, em pleno Chamartin, despede- se do campeonato, depois da Taça e da Liga dos Campeões. Nunca alguém prometeu tanto para cumprir tão pouco. Lá longe chegam-me notícias de que Carlos Queirós poderá ser aposta de Pinto da Costa para suceder aMourinho. Espero bem que seja uma notícia de empresário: com Queirós à frente do FC Porto, o espírito de vitória desta equipa esfumar- se-ia emmenos de umtrimestre. Além de que, eu pelo menos, ainda não esqueçi o que ele dizia e insinuava sobre o FC Porto quando, à frente de uma excelente equipa do Sporting, não conseguiu ganhar-nos o Campeonato.
O FCPorto ganhou mais um título nacional no andebol. Ajuntar aos do futebol e de básquete, já garantidos. E ainda tem o hóquei em patins, onde depende apenas de si próprio para ser também campeão: as quatro principais modalidades profissionais entre nós. Embora no domínio das amadoras, o Sporting não ficou também de maõs a abanar: sucedendo ao eterno rival, ganhou o título de futebol de salão, uma modalidadeemfranca expansão, desde que o FC Porto desatou a acumular títulos no estádio e não mostrou desejos de transferir o seu futebol para o pavilhão.
Domingo, 9
Falho a última jornada do Campeonato — acho que vai ficar a ser o único jogo do FC Porto que eu não vi esta época, excepção feita a dois jogos da Taça. Mas f i q u e i a saber que o McCarthy arrancou, e em grande estilo, o pódio dos melhores marcadores, mesmo sobre a meta, e que o Sérgio Conceição culminou da mais infeliz maneira um regresso falhado. Eis duas previsões em que acertei, assim que ambos vieram. Fico a saber também que o Benfica esperou até ao último minuto para assinar a sua presença em nova tentativa de qualificação para a Liga dos Campeões, após uma recuperação final a todos os títulos notável. E sei, enfim, que o Sporting imitou, à sua escala, a época de todas as derrotas do Real Madrid, em Espanha, e que Belenenses e Guimarães, apesar de novas derrotas, safaram-se do que teria sido uma mais do que merecida descida de divisão (e cumprindo assim a profecia do despromovido José Couceiro, e que é, de facto, uma coincidência que já vem registando-se há duas épocas: nunca descem equipas com estádios para o Euro).
E eis a minha pessoalíssima selecção para o onze deste Campeonato: Moreira ou Vítor Baía (não consegui decidir); Paulo Ferreira, Ricardo Carvalho, Michel van der Gagg e Rossato; Deco, Rochemback e Maniche; Derlei, Liedson e Douala. Os onze são afinal doze: seis do FC Porto, dois do Sporting e um de Benfica, Marítimo, Nacional e U. Leiria.
Segunda-feira, 10
No regresso a casa fico a saber pelos jornais que, com a sua vitória emGuimarães, «ficou provado que o Sporting foi a melhor equipa do Campeonato». Como julgo recordar que o FC Porto também disputou o mesmo Campeonato, isto equivale a dizer que o Sporting é a melhor equipa portuguesa da actualidade.Aúltima vez que olhei para o ranking da FIFA lá vinha o Sporting, se bem me recordo, em 351.º lugar e o FC Porto classificado como a terceira equipa mundial da actualidade. Há, manifestamente, um problema de desactualização da FIFA, cujos critérios não alcançam as especifidades do sistema português.
Terça-feira, 11
O FC Porto regressou hoje ao trabalho para preparar a final da Taça. Os jogadores do Benfica têm mais um dia de folga, só regressam amanhã. Que domingo haja uma bonita festa no Jamor, um grande jogo de futebol, uma arbitragem limpa e sem casos e que ganhe a melhor equipa desse jogo. São os desejos de um portista.
A noite azul e branca( 4 Maio 2004)
A noite azul e branca
1. Logo à noite, no Riazor, o FC Porto vai jogar o seu jogo mais importante da última década. Não esquecendo a fantástica final de Sevilha, ainda tão presente no espírito dos portistas, tenho para mim que o acesso à final da Champions é mais importante que a vitória na taca UEFA: é mais importante desportivamente, financeiramente, em termos curriculares. Se o FC Porto conseguir chegar a Geselkirchen o mundo inteiro, dos Andes à Polinésia, vai ficar a saber o nome dos jogadores da equipa da segunda cidade portuguesa. Se o FC Porto joga o seu jogo mais importante da década, o Desportivo da Corunha joga, como disse o seu presidente, o jogo mais importante da sua existência até hoje. Só isso basta para dar conta da dificuldade da missão que espera os portistas esta noite. À mobilização geral de uma cidade, um clube e uma equipa que não antevêm outro resultado que não a vitória irá somar-se o ambiente infernal do Riazor — ao estilo de estádio inglês —, o apoio constante dos adeptos (de que o Dragão teve uma amostra eloquente, com os 4000 que lá estavam e que faziam mais barulho que os 45 mil portistas) e o momento de infinita confiança que respira o Depor e de que as últimas vítimas foram Queirós e o Real Madrid, tombados sem apelo nem agravo às mãos da quase reserva do Depor. E se a quase reserva do Depor chega para o Real, mesmo em crise, então imagine-se a dificuldade de enfrentar a primeira equipa, perante o seu público, no jogo mais importante da vida deles e sem trazer nas bagagens um só golo de vantagem. De que precisará o FC Porto para poder sair da Corunha com o bilhete marcado para a Alemanha? Sorte, arbitragem isenta e atitude de vitória. A sorte é essencial, pois não há campeões sem sorte, por mais mérito que tenham. Mas uma noite de profundo azar pode deitar por terra o mais perfeito dos campeões. É preciso, por exemplo, que o remate que vai para o golo, com o guarda-redes já batido, não seja devolvido pela barra, como sucedeu no jogo da primeira mão, com Maniche. É preciso também uma arbitragem que não deixe de ver o penalty que no Dragão não viu ou não quis ver e cujo preço poderá ser a eliminatória. E que também não se deixe ir no antijogo do Corunha, se eles porventura estiverem em vantagem e a administrar da forma tão antidesportiva como o fizeram no Porto. Nesse aspecto Collina, o inevitável Collina, é dos árbitros que mais medo me metem. Não apenas por ainda ter fresco na memória aquele golo mal anulado ao FC Porto, quando perdia nas Antas com o Real por 2-1, na fase de grupos desta edição da Champions. Mas sobretudo pelo ar imperial com que comete esse tipo de erros, quase sempre a favor do mais forte ou do que joga em casa. E o Corunha, embora possa não o parecer, é o mais forte: tem quase o dobro do orçamento do FC Porto. Atentas as terríveis dificuldades à partida, é essencial a atitude com que o FC Porto enfrentar o jogo. Neste tipo de confrontos decisivos, e em que se parte em desvantagem teórica, sempre fui adepto do «não esperar para ver». A audácia contra a contenção, a coragem contra a cautela: é apenas uma opinião, que vale tanto como a oposta. Não quero dizer que ache que a equipa entre desvairadamente ao ataque, mal soar o apito inicial de Colina, mas quer dizer que deve mostrar desde o início ao adversário que está ali para marcar o golo ou os golos de que precisa e não à espera de arrastar o jogo para prolongamento e penalties. Se me é permitido dizer, foi o inverso disto que o FC Porto fez no jogo da primeira mão, em que entrou com tantas cautelas e caldos de galinha que, quando deu por isso, já tinha passado metade do jogo sem criar uma oportunidade de golo. Penso, sinceramente, que a atitude de esperar para ver pode conduzir ao mesmo desastre que aconteceu ao Milan no Riazor. Ficou mais ou menos à espera (mas aí com a justificação de ter três golos de vantagem) e o Depor foi embalando: um, dois três, quatro. Todos sabemos que a chave da eliminatória vai depender da capacidade de o FC Porto marcar golos ao Depor — pelo menos um, por segurança dois ou três. Ora, há ano e meio que Molina não sofre um golo no Riazor, para as competições europeias. E nos últimos seis jogos, se a memória me não falha, o FC Porto, com a equipa A, a B ou a A+B, não conseguiu marcar mais de um simples golo. Como poderá Mourinho resolver o problema e ensinar à equipa o caminho de regresso aos golos? Eis a grande questão. Mourinho irá, de toda a certeza, fazer alinhar a equipa habitual dos grandes jogos: Baía mais os quatro indiscutíveis da defesa, o trio inamovível do meio-campo— Deco, Costinha, Maniche — e seguramente McCarthy lá na frente. Faltam dois. Um eu conto bem que seja o Carlos Alberto. Tenho lido muitas críticas depreciativas na nossa imprensa sobre este jo vem jogador brasileiro, longamente observado pelos responsáveis portistas e finalmente chegado em Dezembro. Mas tenho para mim que no jogo da primeira mão ele foi o único que mostrou capacidade de poder romper aquela muralha, jogando sempre para a frente e nunca para trás, e basta ver as opiniões dos jogadores do Corunha, somando às dos críticos franceses que o viram jogar contra o Lyon ou os ingleses que o viram jogar contra o Manchester, para perceber que eles não se deixam iludir: o Carlos Alberto é, de facto, dos jogadores que eles mais temem e por alguma razão será. Admitindo assim que Mourinho fará alinhar Carlos Alberto de início, falta um. Irá para o meio-campo, formando o habitual 4x4x2 desta temporada, e, nesse caso, a escolha será entre Pedro Mendes e Alenitchev ou, mais remotamente, Bosingwa? É provável, bastante provável. Sendo assim o onze de Mourinho para esta noite, isso significa que Derlei, a arma secreta, ficará à espera, embora seja quase certo que acabará por entrar. Ora era aqui, justamente, que eu queria chegar, àquela parte da música do Chico onde ele canta que «está provado que quem espera nunca alcança». E se o Derlei entrasse de início e o FC Porto jogasse em 4x3x3? Se o Derlei entrasse de início poderiam — poderiam... — suceder as seguintes coisas: — surpreender Irureta, que não estará à espera de tal audácia, não sabe em que forma se encontra o Derlei e teria de abordar o jogo e a esperada avalancha inicial do Depor com outras cautelas e outro respeito; — podia ser que o ninja, com toda a sua combatividade, aguentasse mais do que se espera, fazendo toda a primeira parte e um bom bocado da segunda; — podia ser que o Derlei renovasse a imaginação daquele ataque, que parece ter secado, e acabasse por contribuir para que o FC Porto conseguisse marcar e pusesse a pressão toda sobre o Depor — em lugar de esperar para o fazer entrar só quando a equipa tivesse de correr atrás do prejuízo. Ou seja, e se possível, parece-me mais avisado atacar primeiro e defender depois que o inverso. Isso passa pela atitude mas também pela composição da equipa. E esta, aliás, pode determinar aquela. Não custa nada especular, dirme-ão. Pois não: mas que mais se pode fazer numa hora destas? Desejar sorte, uma arbitragem isenta e uma atitude ganhadora, para que o sonho inimaginável de Geselkirchen seja possível. Força, dragão!
2. Tenho impressão de que nunca vi um Benfica-Sporting cujo resultado era absolutamente indiferente para o FC Porto em que todos os portistas que conheço estivessem a torcer pelo Benfica. Porquê? A resposta é só uma: Dias da Cunha. O presidente da SAD do Sporting conseguiu, em apenas dois anos, tornar-se aos nossos olhos a figura mais antipática, a referência mais antidesportiva e o personagem com mais mau perder do futebol português. Tornou-se de há muito completamente inútil rebater as suas verdades unilaterais, pois que já nada o satisfaz, nem sequer as arbitragens de Lucílio Baptista em Alvalade. Anteontem bastar-lhe-ia ter dito que o resultado foi injusto e toda a gente concordaria com ele. Mas acrescentar que o golo do Benfica «foi precedido de um livre marcado ao contrário» (quando, onde, quantos minutos, quantas centenas de metros atrás?) e que a invasão de campo de elementos da Juve Leo (queriam bater em quem — no Geovanni, no árbitro, no Fernando Santos, no Ricardo?) «aconteceu pela acumulação de faltas julgadas ao contrário» mostrou, uma vez mais, que em circunstância alguma ele será capaz de aceitar uma derrota sem esfarrapadas, monótonas e ridículas desculpas de mau pagador. E o que é curioso é constatar que, quanto mais ele aprimora o seu estilo, mais o Sporting vai acumulando derrotas— no futebol e em tudo o resto. «Deus não dorme», como dizia o Mário Mesquita.
3. O que se está a passar com Ricardo começa a ser penoso de assistir. Quarta-feira e domingo passado, mais uma vez os factos vieram dar razão ao que aqui escrevi há cerca de um ano: que os guarda-redes da Selecção deveriam ser o Moreira e o Baía. Mas, porque os outros dois tenham passado toda a época em melhor forma, isso não significa que o Ricardo tenha deixado de ser um bom guarda-redes, bem melhor que aquilo que tem mostrado ultimamente. Todavia, a pressão de saber que mais de metade da opinião pública acha que ele não deveria ser o titular indiscutível da Selecção, sem que ao menos aos outros fosse dada uma oportunidade, não tem contribuído em nada para o seu desempenho. Veremos se o problema criado por Scolari não irá ter consequências ainda mais desagradáveis no Euro.
1. Logo à noite, no Riazor, o FC Porto vai jogar o seu jogo mais importante da última década. Não esquecendo a fantástica final de Sevilha, ainda tão presente no espírito dos portistas, tenho para mim que o acesso à final da Champions é mais importante que a vitória na taca UEFA: é mais importante desportivamente, financeiramente, em termos curriculares. Se o FC Porto conseguir chegar a Geselkirchen o mundo inteiro, dos Andes à Polinésia, vai ficar a saber o nome dos jogadores da equipa da segunda cidade portuguesa. Se o FC Porto joga o seu jogo mais importante da década, o Desportivo da Corunha joga, como disse o seu presidente, o jogo mais importante da sua existência até hoje. Só isso basta para dar conta da dificuldade da missão que espera os portistas esta noite. À mobilização geral de uma cidade, um clube e uma equipa que não antevêm outro resultado que não a vitória irá somar-se o ambiente infernal do Riazor — ao estilo de estádio inglês —, o apoio constante dos adeptos (de que o Dragão teve uma amostra eloquente, com os 4000 que lá estavam e que faziam mais barulho que os 45 mil portistas) e o momento de infinita confiança que respira o Depor e de que as últimas vítimas foram Queirós e o Real Madrid, tombados sem apelo nem agravo às mãos da quase reserva do Depor. E se a quase reserva do Depor chega para o Real, mesmo em crise, então imagine-se a dificuldade de enfrentar a primeira equipa, perante o seu público, no jogo mais importante da vida deles e sem trazer nas bagagens um só golo de vantagem. De que precisará o FC Porto para poder sair da Corunha com o bilhete marcado para a Alemanha? Sorte, arbitragem isenta e atitude de vitória. A sorte é essencial, pois não há campeões sem sorte, por mais mérito que tenham. Mas uma noite de profundo azar pode deitar por terra o mais perfeito dos campeões. É preciso, por exemplo, que o remate que vai para o golo, com o guarda-redes já batido, não seja devolvido pela barra, como sucedeu no jogo da primeira mão, com Maniche. É preciso também uma arbitragem que não deixe de ver o penalty que no Dragão não viu ou não quis ver e cujo preço poderá ser a eliminatória. E que também não se deixe ir no antijogo do Corunha, se eles porventura estiverem em vantagem e a administrar da forma tão antidesportiva como o fizeram no Porto. Nesse aspecto Collina, o inevitável Collina, é dos árbitros que mais medo me metem. Não apenas por ainda ter fresco na memória aquele golo mal anulado ao FC Porto, quando perdia nas Antas com o Real por 2-1, na fase de grupos desta edição da Champions. Mas sobretudo pelo ar imperial com que comete esse tipo de erros, quase sempre a favor do mais forte ou do que joga em casa. E o Corunha, embora possa não o parecer, é o mais forte: tem quase o dobro do orçamento do FC Porto. Atentas as terríveis dificuldades à partida, é essencial a atitude com que o FC Porto enfrentar o jogo. Neste tipo de confrontos decisivos, e em que se parte em desvantagem teórica, sempre fui adepto do «não esperar para ver». A audácia contra a contenção, a coragem contra a cautela: é apenas uma opinião, que vale tanto como a oposta. Não quero dizer que ache que a equipa entre desvairadamente ao ataque, mal soar o apito inicial de Colina, mas quer dizer que deve mostrar desde o início ao adversário que está ali para marcar o golo ou os golos de que precisa e não à espera de arrastar o jogo para prolongamento e penalties. Se me é permitido dizer, foi o inverso disto que o FC Porto fez no jogo da primeira mão, em que entrou com tantas cautelas e caldos de galinha que, quando deu por isso, já tinha passado metade do jogo sem criar uma oportunidade de golo. Penso, sinceramente, que a atitude de esperar para ver pode conduzir ao mesmo desastre que aconteceu ao Milan no Riazor. Ficou mais ou menos à espera (mas aí com a justificação de ter três golos de vantagem) e o Depor foi embalando: um, dois três, quatro. Todos sabemos que a chave da eliminatória vai depender da capacidade de o FC Porto marcar golos ao Depor — pelo menos um, por segurança dois ou três. Ora, há ano e meio que Molina não sofre um golo no Riazor, para as competições europeias. E nos últimos seis jogos, se a memória me não falha, o FC Porto, com a equipa A, a B ou a A+B, não conseguiu marcar mais de um simples golo. Como poderá Mourinho resolver o problema e ensinar à equipa o caminho de regresso aos golos? Eis a grande questão. Mourinho irá, de toda a certeza, fazer alinhar a equipa habitual dos grandes jogos: Baía mais os quatro indiscutíveis da defesa, o trio inamovível do meio-campo— Deco, Costinha, Maniche — e seguramente McCarthy lá na frente. Faltam dois. Um eu conto bem que seja o Carlos Alberto. Tenho lido muitas críticas depreciativas na nossa imprensa sobre este jo vem jogador brasileiro, longamente observado pelos responsáveis portistas e finalmente chegado em Dezembro. Mas tenho para mim que no jogo da primeira mão ele foi o único que mostrou capacidade de poder romper aquela muralha, jogando sempre para a frente e nunca para trás, e basta ver as opiniões dos jogadores do Corunha, somando às dos críticos franceses que o viram jogar contra o Lyon ou os ingleses que o viram jogar contra o Manchester, para perceber que eles não se deixam iludir: o Carlos Alberto é, de facto, dos jogadores que eles mais temem e por alguma razão será. Admitindo assim que Mourinho fará alinhar Carlos Alberto de início, falta um. Irá para o meio-campo, formando o habitual 4x4x2 desta temporada, e, nesse caso, a escolha será entre Pedro Mendes e Alenitchev ou, mais remotamente, Bosingwa? É provável, bastante provável. Sendo assim o onze de Mourinho para esta noite, isso significa que Derlei, a arma secreta, ficará à espera, embora seja quase certo que acabará por entrar. Ora era aqui, justamente, que eu queria chegar, àquela parte da música do Chico onde ele canta que «está provado que quem espera nunca alcança». E se o Derlei entrasse de início e o FC Porto jogasse em 4x3x3? Se o Derlei entrasse de início poderiam — poderiam... — suceder as seguintes coisas: — surpreender Irureta, que não estará à espera de tal audácia, não sabe em que forma se encontra o Derlei e teria de abordar o jogo e a esperada avalancha inicial do Depor com outras cautelas e outro respeito; — podia ser que o ninja, com toda a sua combatividade, aguentasse mais do que se espera, fazendo toda a primeira parte e um bom bocado da segunda; — podia ser que o Derlei renovasse a imaginação daquele ataque, que parece ter secado, e acabasse por contribuir para que o FC Porto conseguisse marcar e pusesse a pressão toda sobre o Depor — em lugar de esperar para o fazer entrar só quando a equipa tivesse de correr atrás do prejuízo. Ou seja, e se possível, parece-me mais avisado atacar primeiro e defender depois que o inverso. Isso passa pela atitude mas também pela composição da equipa. E esta, aliás, pode determinar aquela. Não custa nada especular, dirme-ão. Pois não: mas que mais se pode fazer numa hora destas? Desejar sorte, uma arbitragem isenta e uma atitude ganhadora, para que o sonho inimaginável de Geselkirchen seja possível. Força, dragão!
2. Tenho impressão de que nunca vi um Benfica-Sporting cujo resultado era absolutamente indiferente para o FC Porto em que todos os portistas que conheço estivessem a torcer pelo Benfica. Porquê? A resposta é só uma: Dias da Cunha. O presidente da SAD do Sporting conseguiu, em apenas dois anos, tornar-se aos nossos olhos a figura mais antipática, a referência mais antidesportiva e o personagem com mais mau perder do futebol português. Tornou-se de há muito completamente inútil rebater as suas verdades unilaterais, pois que já nada o satisfaz, nem sequer as arbitragens de Lucílio Baptista em Alvalade. Anteontem bastar-lhe-ia ter dito que o resultado foi injusto e toda a gente concordaria com ele. Mas acrescentar que o golo do Benfica «foi precedido de um livre marcado ao contrário» (quando, onde, quantos minutos, quantas centenas de metros atrás?) e que a invasão de campo de elementos da Juve Leo (queriam bater em quem — no Geovanni, no árbitro, no Fernando Santos, no Ricardo?) «aconteceu pela acumulação de faltas julgadas ao contrário» mostrou, uma vez mais, que em circunstância alguma ele será capaz de aceitar uma derrota sem esfarrapadas, monótonas e ridículas desculpas de mau pagador. E o que é curioso é constatar que, quanto mais ele aprimora o seu estilo, mais o Sporting vai acumulando derrotas— no futebol e em tudo o resto. «Deus não dorme», como dizia o Mário Mesquita.
3. O que se está a passar com Ricardo começa a ser penoso de assistir. Quarta-feira e domingo passado, mais uma vez os factos vieram dar razão ao que aqui escrevi há cerca de um ano: que os guarda-redes da Selecção deveriam ser o Moreira e o Baía. Mas, porque os outros dois tenham passado toda a época em melhor forma, isso não significa que o Ricardo tenha deixado de ser um bom guarda-redes, bem melhor que aquilo que tem mostrado ultimamente. Todavia, a pressão de saber que mais de metade da opinião pública acha que ele não deveria ser o titular indiscutível da Selecção, sem que ao menos aos outros fosse dada uma oportunidade, não tem contribuído em nada para o seu desempenho. Veremos se o problema criado por Scolari não irá ter consequências ainda mais desagradáveis no Euro.
E VIVA ABRIL! ( 27 Abril 2004)
1 - Meia-hora antes de soarem as badaladas da meia-noite, assinalando os trinta anos sobre o 25 de Abril, o FC Porto sagrava-se pela 20ª vez campeão nacional de futebol, fazendo com que, no Porto, os festejos da liberdade se confundissem com os da vitória portista e que,em Lisboa, o fogo de artíficio sobre o Tejo se confundisse no meu espírito com a festa do Porto - de onde tinha acabado de regressar.
Influenciado pela coincidência dos festejos, dei comigo a pensar na relação histórica entre o 25 de Abril e as vitórias portistas no futebol. Antes do 25 de Abril, parecia-me de todo impossível ver o FC Porto campeão um dia - o Benfica era o clube do «bom povo português» e o Sporting o clube da boa gente do regime. O FC Porto era o parente pobre da província, que fazia ocasionalmente de animador das vitórias dos outros dois. Foi preciso esperar pela liberdade e esperar que a Revolução se transformasse em Evolução e a democracia em normalidade, para que o FC Porto chegasse finalmente ao título. De então para cá, nestes vinte e sete anos decorridos, o FC Porto foi campeão quinze vezes - se os outros foram os campeões do antigamente, o FC Porto é, indiscutivelmente, o campeão do período democrático. E , então, perguntarão? Então, nada. Não há conclusões, apenas e decerto uma coincidência.
2 - Desta vez, fomos campeões no hotel, tal como Mourinho tinha antecipado. E foi bonito de ver a festa espontãnea entre os jogadores e os adeptos e ouvir Mourinho dizer que,naquela noite, podiam beber o que quisessem e deitarem-se às horas que quisessem. Os jogadores também são humanos e ninguem mais do que aqueles tinha direito à festa e, enfim, a uns dias de descontracção. Mas foi também bonito de ver que,se calhar até com alguns ainda de «ressaca» , no dia seguinte os jogadores não facilitaram contra o Alverca - em nome do respeito pelas camisolas e pelos adeptos que enchiam o estádio e em nome da verdade desportiva da luta no fim da tabela. Um notável exemplo de profissionalismo, desta filosofia de «trabalho é trabalho, cognac é cognac», desde grupo irreproduzivel de jogadores. E se o resultado pareceu magro, é porque, de há um mês para cá, as bolas teimam em não entrar nas balizas dos adversários do FC Porto: ou porque eles se defendem com onze dentro da balizae toda a espécie de anti-jogo, como fez o Corunha, ou porque as traves substituem vezes de mais os guarda-redes ou também porque o cansaço e a desinspiração cobram a sua factura de final de época.
3 - Mas, de qualquer maneira, aí vão nove pontos de avanço sobre o Sporting - os mesmos que, segundo Dias da Cunha na sua peculiar e unilateral matemática, as arbitragens «roubaram» aos leões. E com os quais, acrescentava ele antes da derrota em leiria, o Sporting iria «largamente à frente do Campeonato». O problema do presidente da SAD do Sporting não é apenas as extraordinárias coisas que diz e que revelam um agudo sentido de verdade e justiça e um carácter de genuíno fair play. É tambem a infelicidade doa momentos que escolhe para as dizer.
Só faltava agora que...não, isso também era demais, era impensável. Imaginar que o «campeão moral da época», depois de uma brilhante passagem pela Taça de Portugal e pela Taça UEFA, viesse ainda a acabar o Campeonato em terceiro lugar, tal como no ano passado, não, isso não cabe na cabeça de ninguem. Seria a última perfídia do «sistema».
4 - E, a despropósito: será que vai acabar o campeonato e vai tudo de férias ou para o Euro sem se saber o resultado do inquérito à camisola rasgada do Rui Jorge? Não terá passado aainda tempo suficiente para que as «esmagadoras provas» apresentadas pelo Sporting permitam chegar à inevitável conclusão?
5- Por falar em Rui Jorge, é também impensável que um esquecimento burocrático do departamento médico do seu clube resulte num castigo para o jogador e no seu afastamento do Euro. Dizia o Rui Jorge, e com razão, que além do mais, haverá sempre alguém a pensar que ele se dopou, por mais que a simplicidade dos factos seja explicada, uma e várias vezes. Eu, que também já sofro de rinite crónica, a que só uma operação pôs termo, e que tantas vezes tomei aquele remédio, compreendo bem a revolta de quem vê outrem a confundir, por má-fé ou por inércia burocrática, doping com o que não passa de um banal medicamento para aliviar um mal-estar que só que nunca teve não consegue imaginar. Sempre achei que não há frase mais estúpida do que a célebre «dura lex, sed lex». A lei não é nenhum Boi Apis, inamovível mesmo quando a sua aplicação resulta no oposto da sua intenção. Espero bem que haja o mínimo de bom-senso no desfecho deste caso.
6 - José Mourinho não se conteve e falou antes do tempo: não lhe custava nada, mesmo nada, ter guardado para si os convites do estrangeiro e que tão visivelmente o tentam. Ao falar disso agora, acrescentando que «nos proximos dias» teria de falar do assunto com a SAD do FC Porto, Mourinho passou um mau exemplo aos jogadores: o de que é lícito estar já pensar e a falar do próximo contrato, quando o clube que lhes paga agora e que os projectou para a glória e para o mercado e os adeptos que tão infatigavelmente os têm apoiado esperam ainda deles um ultimo e supremo esforço. Quando se vivem os dias mais decisivos da última década da história do clube.
7 - E agora que Mourinho sonha com o estrangeiro, é curioso lençar um olhar, ainda antecipado, ao desfecho prevísivel para a carreira internacional dos nossos treinadores - que nunca foi tão alargada como nesta época. Carlos Queiroz, ao lem da melhor equipa da historia do futebol, está a um passo de tudo falhar e ter de bater em retirada. O mesmo sucede a Artur Jorge,à frente do campeão russo, e de Humberto Coelho, seleccionador da equipa selecção do ultimo mundial. Jaime Pacheco aguentou dois meses em Espanha e Toni umas semanas na China. Manuel José marca passo no Médio Oriente, onde Nelo Vingada vai-se aguentando, e o unico que parece estar bem é Neca, à frente da selecção...das Maldivas! - pelo menos bateu o pé à Coreia do Sul, de Humberto Coelho. Depois do grande êxodo deste ano, iremos assistir ao grande regresso?
8 - Termino como comecei: com o 25 de Abril e essa coisa tão complicada pra uns e tão simples para outros, que é a liberdade. No dia em que, logo pela manhã, assisti ao descerramento pelo Presidente Sampaio de uma placa no Largo do Carmo contendo um poema da minha mãe sobre esse dia inesquecível ( afixado no excato local onde o meu pai, nessa longínqua outra manhã, subiu à guarita do quartel como porta-voz de Salgueiro Maia), nesse mesmo dia,isto é,domingo passado, recebi extraordinárias notícias de amigos madeirenses. Contaram-me eles que a rádio, a televisão publica e a imprensa escrita do Funchal passaram um dia inteiro a insultar-me e a dar voz e guarida a todos os que pretendiam insultar-me. Depois, telefonou-me um jornalista daqui a pedir-me um comentário à notícia de que o presidente do Nacional da Madeira, não contente com o comunicado inqualificável que o seu clube me dedicou,propõe-se ainda processar-me. E, tudo isto, porque eu escrevi:
a) que o Nacional da Madeira só se aguenta na Superliga graças aos subsídeos do Governo Regional;
b) que jogou contra o FC Porto com doze estrangeiros e dois portugueses;
c) que tem um «Estádio» que parece um quintal rodeado por um arame e onde é impossível jogar bom futebol;
d) que tem um coro de mulheres que parece um coro de berberes histéricas, gritanto durante todo o jogo aos microfones da televisão;
e) e cuja cantam infatigavelmente o Bailinho da Madeira, provávelmente a pior música do mundo.
Ou seja, três factos indesmentíveis e duas opiniões banais, mesmo que irónicas. Grande insulto, enorme ofensa, dizem eles. E ofensa, desculpem, à REGIÃO! - que, pelos vistos, se confunde com o Nacional da Madeira.
Se é verdade que o 25 de Abril demorou três anos a chegar ao futebol, o mais grave- e agora, sim a sério - é que, ao fim de 30 anos ainda não chegou a alguns madeirenses que, infelizmente, se afirmam representantes de todos os outros e que tem da liberdade de expressão esta particular noção: os insultos, na boca deles, são livres e abençoados; as criticas, na boca dos outros, são ofensas à Madeira. Por mais gente que a gente se iluda, a triste verdade é que a democracia e a liberdade não se impõem nem por eleições, nem por decreto, nem por hábito: faz parte da educação com que se nasce. Agradeço aos meus pais terem-mo ensinado desde pequenino.
Influenciado pela coincidência dos festejos, dei comigo a pensar na relação histórica entre o 25 de Abril e as vitórias portistas no futebol. Antes do 25 de Abril, parecia-me de todo impossível ver o FC Porto campeão um dia - o Benfica era o clube do «bom povo português» e o Sporting o clube da boa gente do regime. O FC Porto era o parente pobre da província, que fazia ocasionalmente de animador das vitórias dos outros dois. Foi preciso esperar pela liberdade e esperar que a Revolução se transformasse em Evolução e a democracia em normalidade, para que o FC Porto chegasse finalmente ao título. De então para cá, nestes vinte e sete anos decorridos, o FC Porto foi campeão quinze vezes - se os outros foram os campeões do antigamente, o FC Porto é, indiscutivelmente, o campeão do período democrático. E , então, perguntarão? Então, nada. Não há conclusões, apenas e decerto uma coincidência.
2 - Desta vez, fomos campeões no hotel, tal como Mourinho tinha antecipado. E foi bonito de ver a festa espontãnea entre os jogadores e os adeptos e ouvir Mourinho dizer que,naquela noite, podiam beber o que quisessem e deitarem-se às horas que quisessem. Os jogadores também são humanos e ninguem mais do que aqueles tinha direito à festa e, enfim, a uns dias de descontracção. Mas foi também bonito de ver que,se calhar até com alguns ainda de «ressaca» , no dia seguinte os jogadores não facilitaram contra o Alverca - em nome do respeito pelas camisolas e pelos adeptos que enchiam o estádio e em nome da verdade desportiva da luta no fim da tabela. Um notável exemplo de profissionalismo, desta filosofia de «trabalho é trabalho, cognac é cognac», desde grupo irreproduzivel de jogadores. E se o resultado pareceu magro, é porque, de há um mês para cá, as bolas teimam em não entrar nas balizas dos adversários do FC Porto: ou porque eles se defendem com onze dentro da balizae toda a espécie de anti-jogo, como fez o Corunha, ou porque as traves substituem vezes de mais os guarda-redes ou também porque o cansaço e a desinspiração cobram a sua factura de final de época.
3 - Mas, de qualquer maneira, aí vão nove pontos de avanço sobre o Sporting - os mesmos que, segundo Dias da Cunha na sua peculiar e unilateral matemática, as arbitragens «roubaram» aos leões. E com os quais, acrescentava ele antes da derrota em leiria, o Sporting iria «largamente à frente do Campeonato». O problema do presidente da SAD do Sporting não é apenas as extraordinárias coisas que diz e que revelam um agudo sentido de verdade e justiça e um carácter de genuíno fair play. É tambem a infelicidade doa momentos que escolhe para as dizer.
Só faltava agora que...não, isso também era demais, era impensável. Imaginar que o «campeão moral da época», depois de uma brilhante passagem pela Taça de Portugal e pela Taça UEFA, viesse ainda a acabar o Campeonato em terceiro lugar, tal como no ano passado, não, isso não cabe na cabeça de ninguem. Seria a última perfídia do «sistema».
4 - E, a despropósito: será que vai acabar o campeonato e vai tudo de férias ou para o Euro sem se saber o resultado do inquérito à camisola rasgada do Rui Jorge? Não terá passado aainda tempo suficiente para que as «esmagadoras provas» apresentadas pelo Sporting permitam chegar à inevitável conclusão?
5- Por falar em Rui Jorge, é também impensável que um esquecimento burocrático do departamento médico do seu clube resulte num castigo para o jogador e no seu afastamento do Euro. Dizia o Rui Jorge, e com razão, que além do mais, haverá sempre alguém a pensar que ele se dopou, por mais que a simplicidade dos factos seja explicada, uma e várias vezes. Eu, que também já sofro de rinite crónica, a que só uma operação pôs termo, e que tantas vezes tomei aquele remédio, compreendo bem a revolta de quem vê outrem a confundir, por má-fé ou por inércia burocrática, doping com o que não passa de um banal medicamento para aliviar um mal-estar que só que nunca teve não consegue imaginar. Sempre achei que não há frase mais estúpida do que a célebre «dura lex, sed lex». A lei não é nenhum Boi Apis, inamovível mesmo quando a sua aplicação resulta no oposto da sua intenção. Espero bem que haja o mínimo de bom-senso no desfecho deste caso.
6 - José Mourinho não se conteve e falou antes do tempo: não lhe custava nada, mesmo nada, ter guardado para si os convites do estrangeiro e que tão visivelmente o tentam. Ao falar disso agora, acrescentando que «nos proximos dias» teria de falar do assunto com a SAD do FC Porto, Mourinho passou um mau exemplo aos jogadores: o de que é lícito estar já pensar e a falar do próximo contrato, quando o clube que lhes paga agora e que os projectou para a glória e para o mercado e os adeptos que tão infatigavelmente os têm apoiado esperam ainda deles um ultimo e supremo esforço. Quando se vivem os dias mais decisivos da última década da história do clube.
7 - E agora que Mourinho sonha com o estrangeiro, é curioso lençar um olhar, ainda antecipado, ao desfecho prevísivel para a carreira internacional dos nossos treinadores - que nunca foi tão alargada como nesta época. Carlos Queiroz, ao lem da melhor equipa da historia do futebol, está a um passo de tudo falhar e ter de bater em retirada. O mesmo sucede a Artur Jorge,à frente do campeão russo, e de Humberto Coelho, seleccionador da equipa selecção do ultimo mundial. Jaime Pacheco aguentou dois meses em Espanha e Toni umas semanas na China. Manuel José marca passo no Médio Oriente, onde Nelo Vingada vai-se aguentando, e o unico que parece estar bem é Neca, à frente da selecção...das Maldivas! - pelo menos bateu o pé à Coreia do Sul, de Humberto Coelho. Depois do grande êxodo deste ano, iremos assistir ao grande regresso?
8 - Termino como comecei: com o 25 de Abril e essa coisa tão complicada pra uns e tão simples para outros, que é a liberdade. No dia em que, logo pela manhã, assisti ao descerramento pelo Presidente Sampaio de uma placa no Largo do Carmo contendo um poema da minha mãe sobre esse dia inesquecível ( afixado no excato local onde o meu pai, nessa longínqua outra manhã, subiu à guarita do quartel como porta-voz de Salgueiro Maia), nesse mesmo dia,isto é,domingo passado, recebi extraordinárias notícias de amigos madeirenses. Contaram-me eles que a rádio, a televisão publica e a imprensa escrita do Funchal passaram um dia inteiro a insultar-me e a dar voz e guarida a todos os que pretendiam insultar-me. Depois, telefonou-me um jornalista daqui a pedir-me um comentário à notícia de que o presidente do Nacional da Madeira, não contente com o comunicado inqualificável que o seu clube me dedicou,propõe-se ainda processar-me. E, tudo isto, porque eu escrevi:
a) que o Nacional da Madeira só se aguenta na Superliga graças aos subsídeos do Governo Regional;
b) que jogou contra o FC Porto com doze estrangeiros e dois portugueses;
c) que tem um «Estádio» que parece um quintal rodeado por um arame e onde é impossível jogar bom futebol;
d) que tem um coro de mulheres que parece um coro de berberes histéricas, gritanto durante todo o jogo aos microfones da televisão;
e) e cuja cantam infatigavelmente o Bailinho da Madeira, provávelmente a pior música do mundo.
Ou seja, três factos indesmentíveis e duas opiniões banais, mesmo que irónicas. Grande insulto, enorme ofensa, dizem eles. E ofensa, desculpem, à REGIÃO! - que, pelos vistos, se confunde com o Nacional da Madeira.
Se é verdade que o 25 de Abril demorou três anos a chegar ao futebol, o mais grave- e agora, sim a sério - é que, ao fim de 30 anos ainda não chegou a alguns madeirenses que, infelizmente, se afirmam representantes de todos os outros e que tem da liberdade de expressão esta particular noção: os insultos, na boca deles, são livres e abençoados; as criticas, na boca dos outros, são ofensas à Madeira. Por mais gente que a gente se iluda, a triste verdade é que a democracia e a liberdade não se impõem nem por eleições, nem por decreto, nem por hábito: faz parte da educação com que se nasce. Agradeço aos meus pais terem-mo ensinado desde pequenino.
sábado, abril 24, 2004
A paixão de Bruno ( 20 Abril 2004)
1- Ausente doPaís, não tive ocasião de ver o Boavista-Sporting, que definitivamente encerrou a vaga ilusão (não mais do que isso), de o Sporting discutir com o FC Porto o título até final, tirando partido do cansaço crescentemente acumulado dos portistas, coma sua batalhaemtodas as frentes. Li, depois, que os dirigentes, treinador e jogadores do Sporting se revoltaram contra a arbitragem de Bruno Paixão, a quem atribuíram, em exclusivo, a responsabilidade pela derrota, chegando alguns a sugerir a irradiação ou afastamento definitivo, por despromoção, do árbitro de Setúbal que, segundo eles «deixou de ter condições para dirigir jogos do Sporting».Na imprensa desportiva do dia seguinte, li depois que eram dois os factosemque se concretizava a revolta sportinguista: umpenalty por marcar contra o Boavista e a expulsão de Rui Jorge, quando oSporting ainda ganhava por 1-0. Enfim, no painel de ex-árbitros deOJogo (tantas vezes citado por sportinguistas como fonte idónea e definitiva), li que, unanimente, achavam eles que não houve penalty algum, mas,emcontrapartida concordavam que a expulsão havia, de facto, sido injustificada. Temos, pois, que as razões da revolta sportinguista se resumem a isso: a expulsão injusta de Rui Jorge. Para trás ficaram, entretanto— e como nos recordava a edição de ontem deste jornal — três anos e 12 jogos arbitrados porBruno Paixão em que o Sporting foi parte e jamais encontrou razões de reclamação. Assim sendo, a segunda conclusão impõe-se por si: bastou a primeira de 13 arbitragens de que não gostaram para que os responsáveis sportinguistas chegassem à conclusão de que Bruno Paixão tinha deixado de reunir condições para voltar a arbitrar jogos do seu clube. Houve, porém,umaexcepção— et pour cause—a este passado virgem de queixas sportinguistas relativamente a Bruno Paixão: Fernando Santos lembrou que esta era a segunda vez que «via vermelho » com a actuação deste árbitro. Compreende-sebemque ele se lembre e os responáveis do Sporting não: é que Fernando Santos estava a referir-se ao celebérrimo jogo do FC Porto emCampo Maior, em queBrunoPaixão surgiu comoum cometa vindo do além na arbitragem portuguesa, assinando aquela que foi—juro-o, com toda a sinceridade — a mais vergonhosa, a mais tendenciosa e a mais despurada arbitragem em prejuízo de uma equipa que alguma vez vi, ao vivo ou na televisão, em mais de quarenta anos a ver futebol. Só que, ironia da história, nessa noite em CampoMaior e graças aBrunoPaia xão, o FC Porto perdeu a possibilidade de conquistar o sexto título consecutivo e quem saiu a ganhar com aquele inqualificável momento de vergonha absoluta foi precisamente o Sporting, que aí ganhou as esporas de campeão dessa época. Alguém ouviu, então, aos responsáveis sportinguistas, uma palavra que fosse sobre a exuberante falta de qualidade e de isenção de Bruno Paixão? Não, obviamente. E, muito embora este árbitro, que em Setúbal toda a gente sabe que cor defende, tenha continuado, de então para cá, a revelar uma total falta de qualidade e de categoria, os sportinguistas nunca entenderam necessário preocupar-se com o assunto, porque nunca antes de sábado passado no Bessa tiveram razões de queixa dele, antes pelo contrário. E foi assim, com cumplicidades destas, que Bruno Paixão chegou onde chegou: a internacional. Ele, que nasceu para tudo menos para arbitrar jogos de futebol. Sem embargo, repito o que já aqui disse uma vez: é incrível que não haja árbitros afastados tão logo se percebe, em início de carreira, que não têm qualquer aptidão ou vocação para o ofício.Éincrível, que bem à portuguesa, eles vão subindo sempre, paulatinamente e por piores que sejam, por simples antiguidade e regra do «deixa andar».
2-Já que estou com a mão na massa, não posso deixar de referir outro exemplo de um árbitro que, pelo que lhe vi fazer no outro dia (e eu, ao contrário de outros colunistas desportivos, não guardo registo organizado de árbitros e arbitragens), me parece um caso gritante de falta de qualidade e vocação. Refiro-me a João Ferreira, que esta quarta-feira passada na Madeira, arbitrou o Nacional- FC Porto. Para que não haja dúvidas, esclareço, todavia, que não foi por culpa do árbitro que o Porto não ganhou aquele jogo:não houve qualquer caso determinante e mal ajuizado tecnicamente. Em contrapartida, a actuação do árbitro foi decisiva para que se assistisse a um péssimo jogo de futebol. Começou por não ser capaz de distinguir jogo viril de jogo violento e de jogo deliberada e sistematicamente faltoso, permitindo, numa primeira fase, que o Nacional intimidasse os jogadores do FC Porto, naturalmente receosos que aquelas entradas de arrasar os viessem a afastar, por lesão, do decisivo jogo com oCorunha, já amanhã.Umfulano chamado Cleomiro teve três entradas violentas a adversários, no espaço de cinco minutos, terminando o jogo sem ver sequer um amarelo.Umoutro, chamado Fernando Cardoso, teve uma entrada pontapé directo à cara do Deco que, em qualquer lado do Mundo, daria direito, nem sequer a vermelho directo, mas a cartão negro e queixa-crime: ficou-se o árbitro pela marcação da falta e nada mais. Ao intervalo tudo mudaria de figura, ao sabor da disparidade de critério do árbitro: avisadamente, Mourinho tirou Deco, depois de o ter visto escapar milagrosamente a três entradas para rachar. Os jogadores doFCPorto entraram também a responder no mesmo tom, Maniche viu o árbitro perdoar-lhe um vermelho directo, ao mesmo tempo que desatou a mostrar amarelos aos portistas por coisas simplesmente ridículas. Balanço final: três amarelos para os jogadores do Nacional e oito para os do FCPorto. Quem não tenha visto o jogo, deve ter imaginado que o Porto é que deu um festival de pancada. Este JoãoFerreira mostrou não ter qualquer critério disciplinar, exibiu uma confrangedora incapacidade de defender o futebol do antijogo e, tendo virado o critério da primeira para a segunda parte, passando de um total laxismo para uma fúria justiçeira ridícula, acabou a estragar o jogo e a inverter por completo a «verdade disciplinar» daquilo que se passou em campo.
3-Já agora, mais uma nota sobre este jogo de há seis dias atrás. Não foi apenas a total incompetência do árbitro que tornou impossível que as duas equipas que, segundo Mourinho, melhor futebol jogam neste Campeonato dessem umespectáculo que o próprio Mourinho reconheceu não valer o preço do bilhete. Diversos outros factores contribuíram para isso e eles são motivo de meditação, sobretudo para aqueles que defendem que um campeonato com dezoito equipas é excelente, desportivamente atraente e economicamente viável. A ver: a)—ONacional, enquanto clube da Superliga, não existe: é uma ficção, sustentada pelos dinheiros do governo regional, ou seja pelos contribuintes do continente. Sem prejuízo da justiça devida ao campeonato que tem feito, ao lugar que ocupa e a algumas boas exibições que tem protagonizado, a verdade é que só por ficção se pode dizer que faz parte do campeonato português: contra o FC Porto e sob o comando de um treinador brasileiro, exibiram- se dez brasileiros ( e não pôde jogar o Serginho Baiano), um argentino e... dois portugueses. Há equipas estrangeiras que têmmais portugueses do que o Nacional da Madeira. b)—Oestádio onde se exibe esta equipa sul-americana do campeonato português não chega sequer a serumcampo de IIIDivisão: éum quintal do terceiro-mundo, rodeado rodeado de arame emtrês lados e com o quarto lado preenchido por uma amostra de bancada para 2000 pessoas. Écertamente o único estádio de qualquer campeonato europeu onde as transmissões televisivas dos jogos (com a câmaramontada nessa única bancada), não mostram umúnico espectador—o que, como espectáculo, é simplesmente fantástico. c)—Nessa pobre e solitária bancada habitam os adeptos locais, que passam um jogo inteiro a arengar o banco da equipa adversária (cujo treinador deve ficar muito quietinho sem se atrever a pôr a cabeça de fora, sob pena de consequências desagradáveis), e a desesperar os ouvidos e a paciência dos espectadores televisivos, vomitando para cima dos microfones da televisão um insuportável bailinho da Madeira (talvez a pior música do Mundo), animado por um rufar ininterrupto de tambores que serve de pano de fundo aumaespécie de coro histérico de mulheres berberes (consabidamente a pior música do Mundo).Se aquilo põe os nervosem franja aos espectadores, imagino o efeito que não causará aos jogadores adversários. Deve ser esse o objectivo pretendido. d) — O quintal, como é óbvio, tem dimensões mínimas, como convém aomau futebol, nivelando por baixo todas as equipas: as que sabem e querem jogar bem e as que não sabem e odeiam as que sabem. e)—Para agravar mais ainda as coisas, o quintal está exposto a todas as condições climatéricas adversas, que, quarta-feira passada, consistiamnumvendaval que varria o campo num sentido, originando jogadas caricatas, e numa humidade colada à relva que fazia de alguns jogadores aprendizes de patinadores no gelo. Uma delícia para o futebol de qualidade que se diz pretender. f)—Enfim, os rufadores de tambores e o coro berbere estão ali com a intenção, legítima, de ajudar a sua equipa a vencer. Mas, e como tantas vezes sucede por esses estádios fora, esse parece ser o seu único desejo: ver futebol não faz parte do programa. Por isso, os bons jogadores do adversário são insultados e assobiados, mesmo quando se rebolam no chão depois de levaruma castanhada daquelas que deveriam fazer corar de vergonha e indignação qualquer amante do futebol. Para que servem os dez novos estádios do Euro e os investimentos feitos no Euro para melhoria da qualidade do nosso futebol, quando esses estádios e essa melhoria teórica têm de conviver na mesma competição com coisas terceiromundistas como este chamadoEstádio da Choupana? E pensar que um bilhete ali custa o mesmo que um bilhete no Dragão!
2-Já que estou com a mão na massa, não posso deixar de referir outro exemplo de um árbitro que, pelo que lhe vi fazer no outro dia (e eu, ao contrário de outros colunistas desportivos, não guardo registo organizado de árbitros e arbitragens), me parece um caso gritante de falta de qualidade e vocação. Refiro-me a João Ferreira, que esta quarta-feira passada na Madeira, arbitrou o Nacional- FC Porto. Para que não haja dúvidas, esclareço, todavia, que não foi por culpa do árbitro que o Porto não ganhou aquele jogo:não houve qualquer caso determinante e mal ajuizado tecnicamente. Em contrapartida, a actuação do árbitro foi decisiva para que se assistisse a um péssimo jogo de futebol. Começou por não ser capaz de distinguir jogo viril de jogo violento e de jogo deliberada e sistematicamente faltoso, permitindo, numa primeira fase, que o Nacional intimidasse os jogadores do FC Porto, naturalmente receosos que aquelas entradas de arrasar os viessem a afastar, por lesão, do decisivo jogo com oCorunha, já amanhã.Umfulano chamado Cleomiro teve três entradas violentas a adversários, no espaço de cinco minutos, terminando o jogo sem ver sequer um amarelo.Umoutro, chamado Fernando Cardoso, teve uma entrada pontapé directo à cara do Deco que, em qualquer lado do Mundo, daria direito, nem sequer a vermelho directo, mas a cartão negro e queixa-crime: ficou-se o árbitro pela marcação da falta e nada mais. Ao intervalo tudo mudaria de figura, ao sabor da disparidade de critério do árbitro: avisadamente, Mourinho tirou Deco, depois de o ter visto escapar milagrosamente a três entradas para rachar. Os jogadores doFCPorto entraram também a responder no mesmo tom, Maniche viu o árbitro perdoar-lhe um vermelho directo, ao mesmo tempo que desatou a mostrar amarelos aos portistas por coisas simplesmente ridículas. Balanço final: três amarelos para os jogadores do Nacional e oito para os do FCPorto. Quem não tenha visto o jogo, deve ter imaginado que o Porto é que deu um festival de pancada. Este JoãoFerreira mostrou não ter qualquer critério disciplinar, exibiu uma confrangedora incapacidade de defender o futebol do antijogo e, tendo virado o critério da primeira para a segunda parte, passando de um total laxismo para uma fúria justiçeira ridícula, acabou a estragar o jogo e a inverter por completo a «verdade disciplinar» daquilo que se passou em campo.
3-Já agora, mais uma nota sobre este jogo de há seis dias atrás. Não foi apenas a total incompetência do árbitro que tornou impossível que as duas equipas que, segundo Mourinho, melhor futebol jogam neste Campeonato dessem umespectáculo que o próprio Mourinho reconheceu não valer o preço do bilhete. Diversos outros factores contribuíram para isso e eles são motivo de meditação, sobretudo para aqueles que defendem que um campeonato com dezoito equipas é excelente, desportivamente atraente e economicamente viável. A ver: a)—ONacional, enquanto clube da Superliga, não existe: é uma ficção, sustentada pelos dinheiros do governo regional, ou seja pelos contribuintes do continente. Sem prejuízo da justiça devida ao campeonato que tem feito, ao lugar que ocupa e a algumas boas exibições que tem protagonizado, a verdade é que só por ficção se pode dizer que faz parte do campeonato português: contra o FC Porto e sob o comando de um treinador brasileiro, exibiram- se dez brasileiros ( e não pôde jogar o Serginho Baiano), um argentino e... dois portugueses. Há equipas estrangeiras que têmmais portugueses do que o Nacional da Madeira. b)—Oestádio onde se exibe esta equipa sul-americana do campeonato português não chega sequer a serumcampo de IIIDivisão: éum quintal do terceiro-mundo, rodeado rodeado de arame emtrês lados e com o quarto lado preenchido por uma amostra de bancada para 2000 pessoas. Écertamente o único estádio de qualquer campeonato europeu onde as transmissões televisivas dos jogos (com a câmaramontada nessa única bancada), não mostram umúnico espectador—o que, como espectáculo, é simplesmente fantástico. c)—Nessa pobre e solitária bancada habitam os adeptos locais, que passam um jogo inteiro a arengar o banco da equipa adversária (cujo treinador deve ficar muito quietinho sem se atrever a pôr a cabeça de fora, sob pena de consequências desagradáveis), e a desesperar os ouvidos e a paciência dos espectadores televisivos, vomitando para cima dos microfones da televisão um insuportável bailinho da Madeira (talvez a pior música do Mundo), animado por um rufar ininterrupto de tambores que serve de pano de fundo aumaespécie de coro histérico de mulheres berberes (consabidamente a pior música do Mundo).Se aquilo põe os nervosem franja aos espectadores, imagino o efeito que não causará aos jogadores adversários. Deve ser esse o objectivo pretendido. d) — O quintal, como é óbvio, tem dimensões mínimas, como convém aomau futebol, nivelando por baixo todas as equipas: as que sabem e querem jogar bem e as que não sabem e odeiam as que sabem. e)—Para agravar mais ainda as coisas, o quintal está exposto a todas as condições climatéricas adversas, que, quarta-feira passada, consistiamnumvendaval que varria o campo num sentido, originando jogadas caricatas, e numa humidade colada à relva que fazia de alguns jogadores aprendizes de patinadores no gelo. Uma delícia para o futebol de qualidade que se diz pretender. f)—Enfim, os rufadores de tambores e o coro berbere estão ali com a intenção, legítima, de ajudar a sua equipa a vencer. Mas, e como tantas vezes sucede por esses estádios fora, esse parece ser o seu único desejo: ver futebol não faz parte do programa. Por isso, os bons jogadores do adversário são insultados e assobiados, mesmo quando se rebolam no chão depois de levaruma castanhada daquelas que deveriam fazer corar de vergonha e indignação qualquer amante do futebol. Para que servem os dez novos estádios do Euro e os investimentos feitos no Euro para melhoria da qualidade do nosso futebol, quando esses estádios e essa melhoria teórica têm de conviver na mesma competição com coisas terceiromundistas como este chamadoEstádio da Choupana? E pensar que um bilhete ali custa o mesmo que um bilhete no Dragão!
quarta-feira, abril 14, 2004
Nunca tanto foi pedido a tão poucos ( 13 Abril 2004)
Após o recente Portugal Itália, Fernando Santos queixou-se de que apenas dispunha de dois dias para preparar a equipa, com os jogadores que tinham estado ao serviço da Selecção, para o próximo compromisso interno do Sporting. Todavia, dos três sportinguistas seleccionados para esse compromisso, um não chegou a jogar, outro jogou parte do tempo, e apenas Ricardo jogou o jogo todo, mas no lugar menos desgastante que é na baliza. O Sporting apenas jogava no domingo seguinte e os jogadores que foram à Selecção receberam a quinta-feira de folga. Agora, compare-se com o FC Porto: teve cinco jogadores na Selecção e um deles, o Costinha, veio a ser o único jogador pertencente a uma das oito equipas que ainda estavam em prova na Liga dos Campeões, a manter-se em campo o tempo todo, na desgastante função de médio defensivo. Do compromisso com a Selecção até ao próximo jogo interno, o FC Porto tinha ainda menos um dia de intervalo que o Sporting, pois jogava no sábado e, logo depois, quarta-feira em Lyon, um jogo determinante. Resultado: os seus jogadores não dispuseram de folga alguma, seguiram da Selecção directos para o clube. A factura pagou-a em Guimarães, com a primeira derrota no Campeonato. Seguiu-se a noite magnífica de Lyon, infelizmente só beliscada por aquele já imprevisto empate cedido no último minuto. Continuando sem direito a qualquer descanso, os jogadores regressaram de Lyon na madrugada de quinta-feira e sessenta horas depois já estavam em campo outra vez, frente a um Marítimo que soube explorar até quase ao fim o cansaço acumulado pelo seu adversário. Conseguida a vitória a cinco minutos do fim, os jogadores voltaram ao estágio e ao trabalho de imediato, mesmo com sacrifício do domingo de Páscoa, porque já amanhã estão de novo em acção, na dificílima deslocação ao campo do Nacional, onde se joga parte importante e porventura decisiva do desfecho do Campeonato. Três dias depois, no sábado, nova deslocação fora de casa, ao terreno do Beira-Mar, onde sempre o FC Porto encontra tradicionais dificuldades. Mais quatro dias e segue-se a grande jornada do Dragão, contra o Corunha, que pode abrir as portas do impensável sonho de chegar à final da Champions League. Outros quatro dias volvidos e outro jogo para o Campeonato, com o Alverca, em situação de desespero, e que pode ser ou a confirmação do título, ou a manutenção da luta com o Sporting ou um imponderável que ponha em risco um campeonato que já se tem por adquirido. Normalmente, seguir-se-ia finalmente uma semana sem jogo a meio, dando sete dias para preparar a próxima deslocação para o Campeonato — com foros de decisiva, se o Sporting não tiver escorregado até lá — e a jornada , essa sim decisiva, da Corunha. Mas sucede que Scolari, ao contrário de outros seleccionadores do Europeu, resolveu convocar mais um jogo de preparação para essa quarta-feira, e não me parece que vá prescindir dos massacrados jogadores do FC Porto. Daqui até final, poupo aos leitores à sequência do calendário dos portistas, até porque ele ainda não é inteiramente previsível: haverá de certeza a final da Taça contra o Benfica, pode haver ou não disputa do Campeonato até final com o Sporting, e pode haver uma final da Liga dos Campeões contra Mónaco ou Chelsea. Mas o que atrás fica descrito, a tal maratona infernal de sete jogos em 22 dias (fora a Selecção), revela até que ponto a tarefa dos jogadores portistas é quase desumana. Muita gente responsável, por essa Europa fora, tem já questionado várias vezes a terrível sobrecarga de jogos — entre campeonatos e taças nacionais, competições europeias e Selecções Nacionais — a que estão sujeitos os jogadores dos principais clubes. Por isso, se têm eles oposto determinadamente à louca ideia de acumular tudo isto com um Mundial de Clubes — um irresponsável projecto da FIFA, com o único objectivo de acumular receitas para si mesma, à custa dos jogadores e dos clubes que lhes pagam, e ainda com a inevitável consequência de gerar um efeito de saturação entre adeptos e telespectadores. Não é apenas o excesso de jogos que impressiona, pela exigência e desgaste físico que inevitavelmente traduz. É também o tremendo desgaste psíquico causado pela necessidade de ter de ganhar sempre, em dias de inspiração ou de desinspiração, em dias de sol, de chuva ou de nevoeiro. Uma equipa como o FC Porto desta época, que está na posição única entre todas as equipes europeias de poder ganhar tudo, acumula um desgaste psicológico que a torna, nesta altura da época, muitíssimo mais vulnerável aos assaltos de clubes mais pequenos e que normalmente não lhe poderiam causar danos: um Gil Vicente, um Marítimo, um Nacional. Quando oiço os treinadores destes clubes dizerem invariavelmente que o FC Porto é o favorito e que tem as responsabilidades todas de vencer, acho que são desculpas de quem não tema coragem de olhar para os factos e assumir, ao menos, parte dos riscos. Ao cansaço físico e psíquico vem ainda juntar-se o desgaste e a saturação com as viagens, os treinos, os estágios constantes, os dias de folga que são sistematicamente queimados, as semanas seguidas em que pouco sobra para a família, para o descanso, para a distracção ou o divertimento, enfim, para todas as outras coisas que são parte essencial da vida de cada um de nós, para além do trabalho. Por isso, esta equipe do FC Porto, que já cometera a incrível proeza de vencer tudo na época anterior, e que, ainda por cima, viu o azar das lesões levar-lhe o seu melhor jogador a meio desta época e a grande esperança que era, e é, o César Peixoto, logo a abrir a época, é credora de uma gratidão e um reconhecimento sem fim dos seus adeptos—e que, aliás, lhe não tem sido negado. Mas tudo o que se diga, tudo o que se reconheça, tudo o que se elogie, tudo o que se agradeça, é pouco ainda. Só uma enorme equipa, só — um por um — profissionais de excepção, e só um grande treinador e condutor de homens poderiam ter chegado até onde o FC Porto chegou, nestes últimos dois anos. Quando, nestes dias de euforia, em que já toda a gente pretende exigir ao FC Porto nada menos do que uma «natural» eliminação do Corunha (sim, é um clube mais pequeno que o FC Porto, mas tem quase o dobro do orçamento para o futebol...), seguida de uma vitória na Liga dos Campeões, José Mourinho tem toda a razão quando diz que a ninguém — sobretudo aos de fora—é legítimo pressionar ou exigir mais deste grupo de jogadores e respectiva equipa técnica. As exigências devem antes ser feitas sobre aqueles que apenas têm de jogar tranquilamente um jogo por semana, sobre aqueles que, quando chegam à Europa, falham sistematicamente na coragem e na força de vontade para ganhar, ou sobre a Selecção de Scolari, a que nada tem faltado para apresentar resultados que não se têm visto. Para melhor se poder avaliar aquilo que o FC Porto já conseguiu, em termos europeus, nem é preciso citar o ranking da CNN, onde o FC Porto surge esta semana como a equipa n.º 1 do Mundo (!). Basta atentar no destino das outras equipas que marcaram esta época europeia. O Manchester United, o clube mais rico e próspero do Mundo, perdeu o campeonato a benefício da Liga dos Campeões, onde, afinal, soçobrou às mãos do FC Porto, e resta-lhe a hipótese da Taça de Inglaterra. O Arsenal, que estava também nas três frentes até há dez dias atrás, tem o campeonato quase garantido, mas, em contrapartida, numa semana foi afastado da Taça de Inglaterra e da Liga dos Campeões. O seu carrasco europeu, o Chelsea — onde Abramovitch investiu mais de vinte milhões de contos em compras de jogadores esta época, conseguiu as meias-finais da Champions, mas está afastado da Taça e falhou, quase de certeza, o campeonato. O galáctico Real Madrid perdeu, no espaço de quinze dias, a Taça do Rei, as meias-finais europeias e a liderança do campeonato, pagando, como disse Luís Figo, a factura da exaustão física. O Mónaco, que cometeu a proeza de afastar o Real, pagou já o esforço com a perda da liderança do campeonato, esta semana, a favor do Lyon — a vítima do FC Porto. O Milan, campeão europeu em título, manteve a liderança do campeonato italiano graças a um golo de penalty a três minutos do fim, que, todavia, não compensa a imensa frustração da sua eliminação impensável na Corunha. E o Depor, finalmente, foi, a par do FC Porto, o único dos quatro semifinalistas da Liga dos Campeões que conseguiu vencer para o campeonato após a jornada de glória europeia. Mas foi cedo afastado da Taça do Rei e está praticamente afastado do título, disputado mano-a-mano por Valência e Real (mesmo assim, defendendo um terceiro lugar que lhe dá direito a acesso directo à próxima Liga dos Campeões). Ainda bem que internamente ainda tem alguma coisa a defender: talvez assim Irirueta não possa, como já disse ser o seu grande objectivo nos próximos dias, fazer descansar a equipa antes dos confrontos decisivos com o FC Porto. Ou seja: de todas as grandes equipas europeias do momento, o único que se mantém em todas as frentes e para ganhar é o FC Porto. O que quer dizer também que, de todos os quatro semifinalistas da Liga dos Campeões, o único que não pode descansar em frente alguma, que não pode encarar nenhum jogo despreocupadamente, que não pode folga rum dia, é o FC Porto. Nunca tanto foi pedido a tão poucos.