1- Ausente doPaís, não tive ocasião de ver o Boavista-Sporting, que definitivamente encerrou a vaga ilusão (não mais do que isso), de o Sporting discutir com o FC Porto o título até final, tirando partido do cansaço crescentemente acumulado dos portistas, coma sua batalhaemtodas as frentes. Li, depois, que os dirigentes, treinador e jogadores do Sporting se revoltaram contra a arbitragem de Bruno Paixão, a quem atribuíram, em exclusivo, a responsabilidade pela derrota, chegando alguns a sugerir a irradiação ou afastamento definitivo, por despromoção, do árbitro de Setúbal que, segundo eles «deixou de ter condições para dirigir jogos do Sporting».Na imprensa desportiva do dia seguinte, li depois que eram dois os factosemque se concretizava a revolta sportinguista: umpenalty por marcar contra o Boavista e a expulsão de Rui Jorge, quando oSporting ainda ganhava por 1-0. Enfim, no painel de ex-árbitros deOJogo (tantas vezes citado por sportinguistas como fonte idónea e definitiva), li que, unanimente, achavam eles que não houve penalty algum, mas,emcontrapartida concordavam que a expulsão havia, de facto, sido injustificada. Temos, pois, que as razões da revolta sportinguista se resumem a isso: a expulsão injusta de Rui Jorge. Para trás ficaram, entretanto— e como nos recordava a edição de ontem deste jornal — três anos e 12 jogos arbitrados porBruno Paixão em que o Sporting foi parte e jamais encontrou razões de reclamação. Assim sendo, a segunda conclusão impõe-se por si: bastou a primeira de 13 arbitragens de que não gostaram para que os responsáveis sportinguistas chegassem à conclusão de que Bruno Paixão tinha deixado de reunir condições para voltar a arbitrar jogos do seu clube. Houve, porém,umaexcepção— et pour cause—a este passado virgem de queixas sportinguistas relativamente a Bruno Paixão: Fernando Santos lembrou que esta era a segunda vez que «via vermelho » com a actuação deste árbitro. Compreende-sebemque ele se lembre e os responáveis do Sporting não: é que Fernando Santos estava a referir-se ao celebérrimo jogo do FC Porto emCampo Maior, em queBrunoPaixão surgiu comoum cometa vindo do além na arbitragem portuguesa, assinando aquela que foi—juro-o, com toda a sinceridade — a mais vergonhosa, a mais tendenciosa e a mais despurada arbitragem em prejuízo de uma equipa que alguma vez vi, ao vivo ou na televisão, em mais de quarenta anos a ver futebol. Só que, ironia da história, nessa noite em CampoMaior e graças aBrunoPaia xão, o FC Porto perdeu a possibilidade de conquistar o sexto título consecutivo e quem saiu a ganhar com aquele inqualificável momento de vergonha absoluta foi precisamente o Sporting, que aí ganhou as esporas de campeão dessa época. Alguém ouviu, então, aos responsáveis sportinguistas, uma palavra que fosse sobre a exuberante falta de qualidade e de isenção de Bruno Paixão? Não, obviamente. E, muito embora este árbitro, que em Setúbal toda a gente sabe que cor defende, tenha continuado, de então para cá, a revelar uma total falta de qualidade e de categoria, os sportinguistas nunca entenderam necessário preocupar-se com o assunto, porque nunca antes de sábado passado no Bessa tiveram razões de queixa dele, antes pelo contrário. E foi assim, com cumplicidades destas, que Bruno Paixão chegou onde chegou: a internacional. Ele, que nasceu para tudo menos para arbitrar jogos de futebol. Sem embargo, repito o que já aqui disse uma vez: é incrível que não haja árbitros afastados tão logo se percebe, em início de carreira, que não têm qualquer aptidão ou vocação para o ofício.Éincrível, que bem à portuguesa, eles vão subindo sempre, paulatinamente e por piores que sejam, por simples antiguidade e regra do «deixa andar».
2-Já que estou com a mão na massa, não posso deixar de referir outro exemplo de um árbitro que, pelo que lhe vi fazer no outro dia (e eu, ao contrário de outros colunistas desportivos, não guardo registo organizado de árbitros e arbitragens), me parece um caso gritante de falta de qualidade e vocação. Refiro-me a João Ferreira, que esta quarta-feira passada na Madeira, arbitrou o Nacional- FC Porto. Para que não haja dúvidas, esclareço, todavia, que não foi por culpa do árbitro que o Porto não ganhou aquele jogo:não houve qualquer caso determinante e mal ajuizado tecnicamente. Em contrapartida, a actuação do árbitro foi decisiva para que se assistisse a um péssimo jogo de futebol. Começou por não ser capaz de distinguir jogo viril de jogo violento e de jogo deliberada e sistematicamente faltoso, permitindo, numa primeira fase, que o Nacional intimidasse os jogadores do FC Porto, naturalmente receosos que aquelas entradas de arrasar os viessem a afastar, por lesão, do decisivo jogo com oCorunha, já amanhã.Umfulano chamado Cleomiro teve três entradas violentas a adversários, no espaço de cinco minutos, terminando o jogo sem ver sequer um amarelo.Umoutro, chamado Fernando Cardoso, teve uma entrada pontapé directo à cara do Deco que, em qualquer lado do Mundo, daria direito, nem sequer a vermelho directo, mas a cartão negro e queixa-crime: ficou-se o árbitro pela marcação da falta e nada mais. Ao intervalo tudo mudaria de figura, ao sabor da disparidade de critério do árbitro: avisadamente, Mourinho tirou Deco, depois de o ter visto escapar milagrosamente a três entradas para rachar. Os jogadores doFCPorto entraram também a responder no mesmo tom, Maniche viu o árbitro perdoar-lhe um vermelho directo, ao mesmo tempo que desatou a mostrar amarelos aos portistas por coisas simplesmente ridículas. Balanço final: três amarelos para os jogadores do Nacional e oito para os do FCPorto. Quem não tenha visto o jogo, deve ter imaginado que o Porto é que deu um festival de pancada. Este JoãoFerreira mostrou não ter qualquer critério disciplinar, exibiu uma confrangedora incapacidade de defender o futebol do antijogo e, tendo virado o critério da primeira para a segunda parte, passando de um total laxismo para uma fúria justiçeira ridícula, acabou a estragar o jogo e a inverter por completo a «verdade disciplinar» daquilo que se passou em campo.
3-Já agora, mais uma nota sobre este jogo de há seis dias atrás. Não foi apenas a total incompetência do árbitro que tornou impossível que as duas equipas que, segundo Mourinho, melhor futebol jogam neste Campeonato dessem umespectáculo que o próprio Mourinho reconheceu não valer o preço do bilhete. Diversos outros factores contribuíram para isso e eles são motivo de meditação, sobretudo para aqueles que defendem que um campeonato com dezoito equipas é excelente, desportivamente atraente e economicamente viável. A ver: a)—ONacional, enquanto clube da Superliga, não existe: é uma ficção, sustentada pelos dinheiros do governo regional, ou seja pelos contribuintes do continente. Sem prejuízo da justiça devida ao campeonato que tem feito, ao lugar que ocupa e a algumas boas exibições que tem protagonizado, a verdade é que só por ficção se pode dizer que faz parte do campeonato português: contra o FC Porto e sob o comando de um treinador brasileiro, exibiram- se dez brasileiros ( e não pôde jogar o Serginho Baiano), um argentino e... dois portugueses. Há equipas estrangeiras que têmmais portugueses do que o Nacional da Madeira. b)—Oestádio onde se exibe esta equipa sul-americana do campeonato português não chega sequer a serumcampo de IIIDivisão: éum quintal do terceiro-mundo, rodeado rodeado de arame emtrês lados e com o quarto lado preenchido por uma amostra de bancada para 2000 pessoas. Écertamente o único estádio de qualquer campeonato europeu onde as transmissões televisivas dos jogos (com a câmaramontada nessa única bancada), não mostram umúnico espectador—o que, como espectáculo, é simplesmente fantástico. c)—Nessa pobre e solitária bancada habitam os adeptos locais, que passam um jogo inteiro a arengar o banco da equipa adversária (cujo treinador deve ficar muito quietinho sem se atrever a pôr a cabeça de fora, sob pena de consequências desagradáveis), e a desesperar os ouvidos e a paciência dos espectadores televisivos, vomitando para cima dos microfones da televisão um insuportável bailinho da Madeira (talvez a pior música do Mundo), animado por um rufar ininterrupto de tambores que serve de pano de fundo aumaespécie de coro histérico de mulheres berberes (consabidamente a pior música do Mundo).Se aquilo põe os nervosem franja aos espectadores, imagino o efeito que não causará aos jogadores adversários. Deve ser esse o objectivo pretendido. d) — O quintal, como é óbvio, tem dimensões mínimas, como convém aomau futebol, nivelando por baixo todas as equipas: as que sabem e querem jogar bem e as que não sabem e odeiam as que sabem. e)—Para agravar mais ainda as coisas, o quintal está exposto a todas as condições climatéricas adversas, que, quarta-feira passada, consistiamnumvendaval que varria o campo num sentido, originando jogadas caricatas, e numa humidade colada à relva que fazia de alguns jogadores aprendizes de patinadores no gelo. Uma delícia para o futebol de qualidade que se diz pretender. f)—Enfim, os rufadores de tambores e o coro berbere estão ali com a intenção, legítima, de ajudar a sua equipa a vencer. Mas, e como tantas vezes sucede por esses estádios fora, esse parece ser o seu único desejo: ver futebol não faz parte do programa. Por isso, os bons jogadores do adversário são insultados e assobiados, mesmo quando se rebolam no chão depois de levaruma castanhada daquelas que deveriam fazer corar de vergonha e indignação qualquer amante do futebol. Para que servem os dez novos estádios do Euro e os investimentos feitos no Euro para melhoria da qualidade do nosso futebol, quando esses estádios e essa melhoria teórica têm de conviver na mesma competição com coisas terceiromundistas como este chamadoEstádio da Choupana? E pensar que um bilhete ali custa o mesmo que um bilhete no Dragão!
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
sábado, abril 24, 2004
quarta-feira, abril 14, 2004
Nunca tanto foi pedido a tão poucos ( 13 Abril 2004)
Após o recente Portugal Itália, Fernando Santos queixou-se de que apenas dispunha de dois dias para preparar a equipa, com os jogadores que tinham estado ao serviço da Selecção, para o próximo compromisso interno do Sporting. Todavia, dos três sportinguistas seleccionados para esse compromisso, um não chegou a jogar, outro jogou parte do tempo, e apenas Ricardo jogou o jogo todo, mas no lugar menos desgastante que é na baliza. O Sporting apenas jogava no domingo seguinte e os jogadores que foram à Selecção receberam a quinta-feira de folga. Agora, compare-se com o FC Porto: teve cinco jogadores na Selecção e um deles, o Costinha, veio a ser o único jogador pertencente a uma das oito equipas que ainda estavam em prova na Liga dos Campeões, a manter-se em campo o tempo todo, na desgastante função de médio defensivo. Do compromisso com a Selecção até ao próximo jogo interno, o FC Porto tinha ainda menos um dia de intervalo que o Sporting, pois jogava no sábado e, logo depois, quarta-feira em Lyon, um jogo determinante. Resultado: os seus jogadores não dispuseram de folga alguma, seguiram da Selecção directos para o clube. A factura pagou-a em Guimarães, com a primeira derrota no Campeonato. Seguiu-se a noite magnífica de Lyon, infelizmente só beliscada por aquele já imprevisto empate cedido no último minuto. Continuando sem direito a qualquer descanso, os jogadores regressaram de Lyon na madrugada de quinta-feira e sessenta horas depois já estavam em campo outra vez, frente a um Marítimo que soube explorar até quase ao fim o cansaço acumulado pelo seu adversário. Conseguida a vitória a cinco minutos do fim, os jogadores voltaram ao estágio e ao trabalho de imediato, mesmo com sacrifício do domingo de Páscoa, porque já amanhã estão de novo em acção, na dificílima deslocação ao campo do Nacional, onde se joga parte importante e porventura decisiva do desfecho do Campeonato. Três dias depois, no sábado, nova deslocação fora de casa, ao terreno do Beira-Mar, onde sempre o FC Porto encontra tradicionais dificuldades. Mais quatro dias e segue-se a grande jornada do Dragão, contra o Corunha, que pode abrir as portas do impensável sonho de chegar à final da Champions League. Outros quatro dias volvidos e outro jogo para o Campeonato, com o Alverca, em situação de desespero, e que pode ser ou a confirmação do título, ou a manutenção da luta com o Sporting ou um imponderável que ponha em risco um campeonato que já se tem por adquirido. Normalmente, seguir-se-ia finalmente uma semana sem jogo a meio, dando sete dias para preparar a próxima deslocação para o Campeonato — com foros de decisiva, se o Sporting não tiver escorregado até lá — e a jornada , essa sim decisiva, da Corunha. Mas sucede que Scolari, ao contrário de outros seleccionadores do Europeu, resolveu convocar mais um jogo de preparação para essa quarta-feira, e não me parece que vá prescindir dos massacrados jogadores do FC Porto. Daqui até final, poupo aos leitores à sequência do calendário dos portistas, até porque ele ainda não é inteiramente previsível: haverá de certeza a final da Taça contra o Benfica, pode haver ou não disputa do Campeonato até final com o Sporting, e pode haver uma final da Liga dos Campeões contra Mónaco ou Chelsea. Mas o que atrás fica descrito, a tal maratona infernal de sete jogos em 22 dias (fora a Selecção), revela até que ponto a tarefa dos jogadores portistas é quase desumana. Muita gente responsável, por essa Europa fora, tem já questionado várias vezes a terrível sobrecarga de jogos — entre campeonatos e taças nacionais, competições europeias e Selecções Nacionais — a que estão sujeitos os jogadores dos principais clubes. Por isso, se têm eles oposto determinadamente à louca ideia de acumular tudo isto com um Mundial de Clubes — um irresponsável projecto da FIFA, com o único objectivo de acumular receitas para si mesma, à custa dos jogadores e dos clubes que lhes pagam, e ainda com a inevitável consequência de gerar um efeito de saturação entre adeptos e telespectadores. Não é apenas o excesso de jogos que impressiona, pela exigência e desgaste físico que inevitavelmente traduz. É também o tremendo desgaste psíquico causado pela necessidade de ter de ganhar sempre, em dias de inspiração ou de desinspiração, em dias de sol, de chuva ou de nevoeiro. Uma equipa como o FC Porto desta época, que está na posição única entre todas as equipes europeias de poder ganhar tudo, acumula um desgaste psicológico que a torna, nesta altura da época, muitíssimo mais vulnerável aos assaltos de clubes mais pequenos e que normalmente não lhe poderiam causar danos: um Gil Vicente, um Marítimo, um Nacional. Quando oiço os treinadores destes clubes dizerem invariavelmente que o FC Porto é o favorito e que tem as responsabilidades todas de vencer, acho que são desculpas de quem não tema coragem de olhar para os factos e assumir, ao menos, parte dos riscos. Ao cansaço físico e psíquico vem ainda juntar-se o desgaste e a saturação com as viagens, os treinos, os estágios constantes, os dias de folga que são sistematicamente queimados, as semanas seguidas em que pouco sobra para a família, para o descanso, para a distracção ou o divertimento, enfim, para todas as outras coisas que são parte essencial da vida de cada um de nós, para além do trabalho. Por isso, esta equipe do FC Porto, que já cometera a incrível proeza de vencer tudo na época anterior, e que, ainda por cima, viu o azar das lesões levar-lhe o seu melhor jogador a meio desta época e a grande esperança que era, e é, o César Peixoto, logo a abrir a época, é credora de uma gratidão e um reconhecimento sem fim dos seus adeptos—e que, aliás, lhe não tem sido negado. Mas tudo o que se diga, tudo o que se reconheça, tudo o que se elogie, tudo o que se agradeça, é pouco ainda. Só uma enorme equipa, só — um por um — profissionais de excepção, e só um grande treinador e condutor de homens poderiam ter chegado até onde o FC Porto chegou, nestes últimos dois anos. Quando, nestes dias de euforia, em que já toda a gente pretende exigir ao FC Porto nada menos do que uma «natural» eliminação do Corunha (sim, é um clube mais pequeno que o FC Porto, mas tem quase o dobro do orçamento para o futebol...), seguida de uma vitória na Liga dos Campeões, José Mourinho tem toda a razão quando diz que a ninguém — sobretudo aos de fora—é legítimo pressionar ou exigir mais deste grupo de jogadores e respectiva equipa técnica. As exigências devem antes ser feitas sobre aqueles que apenas têm de jogar tranquilamente um jogo por semana, sobre aqueles que, quando chegam à Europa, falham sistematicamente na coragem e na força de vontade para ganhar, ou sobre a Selecção de Scolari, a que nada tem faltado para apresentar resultados que não se têm visto. Para melhor se poder avaliar aquilo que o FC Porto já conseguiu, em termos europeus, nem é preciso citar o ranking da CNN, onde o FC Porto surge esta semana como a equipa n.º 1 do Mundo (!). Basta atentar no destino das outras equipas que marcaram esta época europeia. O Manchester United, o clube mais rico e próspero do Mundo, perdeu o campeonato a benefício da Liga dos Campeões, onde, afinal, soçobrou às mãos do FC Porto, e resta-lhe a hipótese da Taça de Inglaterra. O Arsenal, que estava também nas três frentes até há dez dias atrás, tem o campeonato quase garantido, mas, em contrapartida, numa semana foi afastado da Taça de Inglaterra e da Liga dos Campeões. O seu carrasco europeu, o Chelsea — onde Abramovitch investiu mais de vinte milhões de contos em compras de jogadores esta época, conseguiu as meias-finais da Champions, mas está afastado da Taça e falhou, quase de certeza, o campeonato. O galáctico Real Madrid perdeu, no espaço de quinze dias, a Taça do Rei, as meias-finais europeias e a liderança do campeonato, pagando, como disse Luís Figo, a factura da exaustão física. O Mónaco, que cometeu a proeza de afastar o Real, pagou já o esforço com a perda da liderança do campeonato, esta semana, a favor do Lyon — a vítima do FC Porto. O Milan, campeão europeu em título, manteve a liderança do campeonato italiano graças a um golo de penalty a três minutos do fim, que, todavia, não compensa a imensa frustração da sua eliminação impensável na Corunha. E o Depor, finalmente, foi, a par do FC Porto, o único dos quatro semifinalistas da Liga dos Campeões que conseguiu vencer para o campeonato após a jornada de glória europeia. Mas foi cedo afastado da Taça do Rei e está praticamente afastado do título, disputado mano-a-mano por Valência e Real (mesmo assim, defendendo um terceiro lugar que lhe dá direito a acesso directo à próxima Liga dos Campeões). Ainda bem que internamente ainda tem alguma coisa a defender: talvez assim Irirueta não possa, como já disse ser o seu grande objectivo nos próximos dias, fazer descansar a equipa antes dos confrontos decisivos com o FC Porto. Ou seja: de todas as grandes equipas europeias do momento, o único que se mantém em todas as frentes e para ganhar é o FC Porto. O que quer dizer também que, de todos os quatro semifinalistas da Liga dos Campeões, o único que não pode descansar em frente alguma, que não pode encarar nenhum jogo despreocupadamente, que não pode folga rum dia, é o FC Porto. Nunca tanto foi pedido a tão poucos.
O milagre segundo Scolari ( 6 Abril 2004)
1- De repente, um sobressalto colectivo parece ter atravessado a nação futebolística. Consumada mais uma derrota e uma decepção da Selecção de Scolari, uma quantidade de gente, até aqui calada, ousou enfim levantar as suas dúvidas em voz alta: será Luiz Felipe Scolari capaz de nos levar a uma prestação pelo menos honrosa no Europeu?
Tenho a vantagem – e o correspondente risco, se os resultados forem bons – de ter duvidado de Scolari desde quase o início e de ainda na passada terça-feira, véspera do jogo com a Itália, ter repetido as razões par tal. Como os leitores atentos recordarão, penso que fui o primeiro, ou dos primeiros, nas páginas deste jornal, a defender a contratação de um treinador estrangeiro, na ressaca da vergonha asiática. Disso não me arrependo. Pareceu-me, e continua aparecer-me, que só alguém longe das tricas clubísticas da pátria portuguesa , e que não tivesse de prestar vassalagem à geração de Riade e outros poderes fácticos do nosso futebol, estaria em condições de começar tudo ou quase tudo de novo e, com dois anos de trabalho pela frente, apresentar no Euro-2004 uma Selecção nova de nomes e de mentalidades, salvaguardando do passado aqueles e aquilo que se justificava manter. Mas acontece que o Luiz Felipe Scolari, contra todo o bom senso e toda a expectativa, resolveu começar exactamente por onde não devia, embrenhamdo-se, e tornando-se parte, nas guerras fraticídas do futebol português ao decidir – certamente aconselhado por alguém com dor de cotovelo – abrir logo de início uma guerra, totalmente não provocada e incompreensível, com o FC Porto. Arrajem as justificações que quiserem mas é uma vergonha que em ano e meio de trabalho o seleccionador ainda não tenha ido ao Porto assistir pessoalmente a um jogo que fosse daquela que é, desculpem lá, a melhor equipa portuguesa do momento.
Tendo decidido começar assim a sua empreitada, Scolari tornou-se-me logo alguém que, a meu ver, deu provas de fraqueza disfarçada de força, falta de capacidade de isenção e falta de personalidade. Antes de ter qualquer resultado para apresentar, puxou dos galões de campeão do Mundo e tratou logo de comprar uma guerra pelo protagonismo e pelo mando – que, aliás,ninguém lhe disputava. Depois vieram os jogos, os resultados e as exibições. O tempo foi passando, os desastres sucedendo-se e,de jogo para jogo, fui constatando, primeiro, que Scolari já tinha decidido ao fim de 15 dias que irá jogar no Europeu daí a dois anos e, depois, que nada de essencial mudava para melhor no jogo da Selecção. Ao fim de 15 jogos nem sequer existem preparadas à vista aquelas jogadas de bola parada e outras que qualquer treinador de equipa de terceira divisão tem mais que ensaiadas. Na Selecção portuguesa vive-se, como há muito, à espera e dependente de um golpe de génio do Figo, de um rasgo de inspiração de Pauleta ou da ressureição do Rui Costa. É pouco, é nada, é pior que antes. Bem pior que a fase de transição de Agostinho Oliveira.
Julgo que será preciso recuar aos anos 30 ou 40 para encontrar pior registo de resultados de um seleccionador português. A Selecção de Scolari, se disputasse a nossa Superliga, estaria certamente ne segunda metade da tabela: há sete ou oito equipas em Portugal que jogam melhor futebol que aquilo que o Portugal de Scolari mostou até agora. E se, em seis jogos disputados contra selecções que vão estar no Europeu, dos quais quatro intramuros, Scolari não conseguiu vencer um único, tendo empatado três e perdido outros tantos, temos de agradecer ao destino estarmos previamente qualificados como país organizador, de outro modo não constaríamos da lista de finalistas.
O que fazer? Pois, esperar pelo milagre anunciado por Scolari: os 25 dias antes do campeonato, em que ele vai ter a equipa em exclusivo à sua disposição e, por um golpe de magia que só ele sabe, vai transformar aqule grupo de jogadores à deriva em campo num fortíssimo candidato a campeão europeu. Que chegaremos aos quartos-de-final não duvido, porque com os valores comerciais em disputa seguramente, como é tradição, a UEFA se encarregará de pôr a sua mãozinha protectora, em necessidade havendo, ao serviço do país organizador. Daí para a frente é que o cidadão Luiz Felipe Scolari vai ter de mostrar que mereceu os ordenados, que se dizem milionários, que vem recebendo na expectativa desse tal milagre.
Mas se assim é, se tudo se decide nesses tais 25 dias milagrosos,se, ainda por cima, o seleccionador diz e repete que tantoi lhe faz perder como ganhar nos amigáveis, e se nenhumas mudanças, progressos ou esquemas de jogo adquiridos se vêem de um para outro amigável, para quê fazê-los? Para cansar os jogadores, para prejudicar os clubes, para afastar os portugueses da sua Selecção, para nos fazer perder o prestígio? Não seria melhor poupar-nos a estes tristes espectáculos e guardar-se para esse estágio de redenção e renascimento ?
2- Em contrapartida, um frémito de alegria percorreu três quartos da nação futebolística,sábado à noite, quando finalmente o FC Porto caiu, às mãos do Gil Vicente. Luís Campos – que, não tenho dúvida, será um dia, juntamente com outros novos, como Vítor Ponte ou Carlos Brito, um candidato à sucessão de José Mourinho – tem todo o direito de estar feliz mas não parece, sinceramente, que possa exagerar os méritos próprios da sua equipa no triunfo sobre o Porto. Dificilmente o Gil Vicente voltará a ter um jogo em que, tendo sido tão massacrado, acabe por ganhar no espaço de três minutos. É verdade que Baía deveria ter sido expulso aos 15 minutos, quando saiu da baliza e por instinto defendeu com a mão fora da área ( não foi expulso porque o árbitro, ao contrário de nós na televisão, não dispunha da repetição da jogada em slow motion para só então perceber que tinha sido a mão esquerda de Baía a cortar a viagem da bola). Mas até aí já o Porto poderia e merecia estar a ganhar por três ou quatro, não fosse a sorte estar do lado do Gil e no lugar do McCarthy estar o Jankauskas, o mais fraco jogador de todo o plantel do Porto e, juntamente com Silva, do Sporting, o mais inofensivo ponta-de-lança do campeonato. E 15 minutos depois do golpe de Baía, por idênticas razões, também o guarda-redes do Gil deveria ter visto o vermelho. Mas manda a verdade que se diga que José Mourinho, por uma vez, quis igualmente ajudar à festa, cometendo erros que só demonstram que ninguém é perfeito. As três substituições de uma assentada, a saída, já habitual, do Carlos Alberto ( será para refrear o deslumbramento do miúdo, para deixar os adeptos com água na boca? ) e , ironicamente, aquele episódio do bilhetinho, que ele agora inventou e que se tornaria ridiculamente fatal, quando Nuno Valente, acabado de entrar, em vez de ir logo ocupar o seu flanco, por onde o Gil Vicente desencadeava o ataque que resultaria no primeiro golo, ficou preocupado em ir à procura do Deco, qual estafeta da DHL, e entregar-lhe o bilhetinho fatal. A imagem do Deco a ler o bilhetinho ( já desactualizado por força das circunstâncias) , no momento em que a bola vai ao centro depois do golo do Gil e os jogadores do Porto estão de crista caída, é das tais que valem por mil palavras. Enfim, era bom acabar o campeonato sem derrotas mas...fica para o ano!
Entretanto, o que é preciso é que amanhã, em Lyon, o FC Porto não deixe fugir a oportunidade de ouro de o futebol português cometer a impensável proeza de ter uma sua equipa entre as quatro melhores do ano na Europa.
3- Continuam as investigações sobre o sistema. As atenções estão agora viradas para o árbitro que esteve em Braga, no teatro dos sonhos, domingo passado.
Tenho a vantagem – e o correspondente risco, se os resultados forem bons – de ter duvidado de Scolari desde quase o início e de ainda na passada terça-feira, véspera do jogo com a Itália, ter repetido as razões par tal. Como os leitores atentos recordarão, penso que fui o primeiro, ou dos primeiros, nas páginas deste jornal, a defender a contratação de um treinador estrangeiro, na ressaca da vergonha asiática. Disso não me arrependo. Pareceu-me, e continua aparecer-me, que só alguém longe das tricas clubísticas da pátria portuguesa , e que não tivesse de prestar vassalagem à geração de Riade e outros poderes fácticos do nosso futebol, estaria em condições de começar tudo ou quase tudo de novo e, com dois anos de trabalho pela frente, apresentar no Euro-2004 uma Selecção nova de nomes e de mentalidades, salvaguardando do passado aqueles e aquilo que se justificava manter. Mas acontece que o Luiz Felipe Scolari, contra todo o bom senso e toda a expectativa, resolveu começar exactamente por onde não devia, embrenhamdo-se, e tornando-se parte, nas guerras fraticídas do futebol português ao decidir – certamente aconselhado por alguém com dor de cotovelo – abrir logo de início uma guerra, totalmente não provocada e incompreensível, com o FC Porto. Arrajem as justificações que quiserem mas é uma vergonha que em ano e meio de trabalho o seleccionador ainda não tenha ido ao Porto assistir pessoalmente a um jogo que fosse daquela que é, desculpem lá, a melhor equipa portuguesa do momento.
Tendo decidido começar assim a sua empreitada, Scolari tornou-se-me logo alguém que, a meu ver, deu provas de fraqueza disfarçada de força, falta de capacidade de isenção e falta de personalidade. Antes de ter qualquer resultado para apresentar, puxou dos galões de campeão do Mundo e tratou logo de comprar uma guerra pelo protagonismo e pelo mando – que, aliás,ninguém lhe disputava. Depois vieram os jogos, os resultados e as exibições. O tempo foi passando, os desastres sucedendo-se e,de jogo para jogo, fui constatando, primeiro, que Scolari já tinha decidido ao fim de 15 dias que irá jogar no Europeu daí a dois anos e, depois, que nada de essencial mudava para melhor no jogo da Selecção. Ao fim de 15 jogos nem sequer existem preparadas à vista aquelas jogadas de bola parada e outras que qualquer treinador de equipa de terceira divisão tem mais que ensaiadas. Na Selecção portuguesa vive-se, como há muito, à espera e dependente de um golpe de génio do Figo, de um rasgo de inspiração de Pauleta ou da ressureição do Rui Costa. É pouco, é nada, é pior que antes. Bem pior que a fase de transição de Agostinho Oliveira.
Julgo que será preciso recuar aos anos 30 ou 40 para encontrar pior registo de resultados de um seleccionador português. A Selecção de Scolari, se disputasse a nossa Superliga, estaria certamente ne segunda metade da tabela: há sete ou oito equipas em Portugal que jogam melhor futebol que aquilo que o Portugal de Scolari mostou até agora. E se, em seis jogos disputados contra selecções que vão estar no Europeu, dos quais quatro intramuros, Scolari não conseguiu vencer um único, tendo empatado três e perdido outros tantos, temos de agradecer ao destino estarmos previamente qualificados como país organizador, de outro modo não constaríamos da lista de finalistas.
O que fazer? Pois, esperar pelo milagre anunciado por Scolari: os 25 dias antes do campeonato, em que ele vai ter a equipa em exclusivo à sua disposição e, por um golpe de magia que só ele sabe, vai transformar aqule grupo de jogadores à deriva em campo num fortíssimo candidato a campeão europeu. Que chegaremos aos quartos-de-final não duvido, porque com os valores comerciais em disputa seguramente, como é tradição, a UEFA se encarregará de pôr a sua mãozinha protectora, em necessidade havendo, ao serviço do país organizador. Daí para a frente é que o cidadão Luiz Felipe Scolari vai ter de mostrar que mereceu os ordenados, que se dizem milionários, que vem recebendo na expectativa desse tal milagre.
Mas se assim é, se tudo se decide nesses tais 25 dias milagrosos,se, ainda por cima, o seleccionador diz e repete que tantoi lhe faz perder como ganhar nos amigáveis, e se nenhumas mudanças, progressos ou esquemas de jogo adquiridos se vêem de um para outro amigável, para quê fazê-los? Para cansar os jogadores, para prejudicar os clubes, para afastar os portugueses da sua Selecção, para nos fazer perder o prestígio? Não seria melhor poupar-nos a estes tristes espectáculos e guardar-se para esse estágio de redenção e renascimento ?
2- Em contrapartida, um frémito de alegria percorreu três quartos da nação futebolística,sábado à noite, quando finalmente o FC Porto caiu, às mãos do Gil Vicente. Luís Campos – que, não tenho dúvida, será um dia, juntamente com outros novos, como Vítor Ponte ou Carlos Brito, um candidato à sucessão de José Mourinho – tem todo o direito de estar feliz mas não parece, sinceramente, que possa exagerar os méritos próprios da sua equipa no triunfo sobre o Porto. Dificilmente o Gil Vicente voltará a ter um jogo em que, tendo sido tão massacrado, acabe por ganhar no espaço de três minutos. É verdade que Baía deveria ter sido expulso aos 15 minutos, quando saiu da baliza e por instinto defendeu com a mão fora da área ( não foi expulso porque o árbitro, ao contrário de nós na televisão, não dispunha da repetição da jogada em slow motion para só então perceber que tinha sido a mão esquerda de Baía a cortar a viagem da bola). Mas até aí já o Porto poderia e merecia estar a ganhar por três ou quatro, não fosse a sorte estar do lado do Gil e no lugar do McCarthy estar o Jankauskas, o mais fraco jogador de todo o plantel do Porto e, juntamente com Silva, do Sporting, o mais inofensivo ponta-de-lança do campeonato. E 15 minutos depois do golpe de Baía, por idênticas razões, também o guarda-redes do Gil deveria ter visto o vermelho. Mas manda a verdade que se diga que José Mourinho, por uma vez, quis igualmente ajudar à festa, cometendo erros que só demonstram que ninguém é perfeito. As três substituições de uma assentada, a saída, já habitual, do Carlos Alberto ( será para refrear o deslumbramento do miúdo, para deixar os adeptos com água na boca? ) e , ironicamente, aquele episódio do bilhetinho, que ele agora inventou e que se tornaria ridiculamente fatal, quando Nuno Valente, acabado de entrar, em vez de ir logo ocupar o seu flanco, por onde o Gil Vicente desencadeava o ataque que resultaria no primeiro golo, ficou preocupado em ir à procura do Deco, qual estafeta da DHL, e entregar-lhe o bilhetinho fatal. A imagem do Deco a ler o bilhetinho ( já desactualizado por força das circunstâncias) , no momento em que a bola vai ao centro depois do golo do Gil e os jogadores do Porto estão de crista caída, é das tais que valem por mil palavras. Enfim, era bom acabar o campeonato sem derrotas mas...fica para o ano!
Entretanto, o que é preciso é que amanhã, em Lyon, o FC Porto não deixe fugir a oportunidade de ouro de o futebol português cometer a impensável proeza de ter uma sua equipa entre as quatro melhores do ano na Europa.
3- Continuam as investigações sobre o sistema. As atenções estão agora viradas para o árbitro que esteve em Braga, no teatro dos sonhos, domingo passado.
quarta-feira, março 31, 2004
Provavelmente o melhor central do mundo ( 30 Março 2004)
1 Bastou-me ver jogar o Ricardo Carvalho a primeira vez para perceber que estava ali um digno sucessor do inesquecível Aloísio na defesa do FC Porto e um futuro central de dimensão europeia. Empurrado por umerro cometido no seu jogo de estreia a titular e também tapado por Aloísio e Jorge Costa, Ricardo viria ser, talvez injustamente, emprestado para rodar no Setúbal. A reforma de Aloísio (antes de tempo, quanto a mim), trouxe-o de regresso ao FC Porto e, de então para cá, Ricardo Carvalho cresceu a cada jogo que passou, melhorando sempre, mesmo quando já não parecia haver mais campo por onde melhorar, ao ponto de hoje ter atingido o mais próximo possível daquilo que alguém, na sua esfera de competência própria, pode estar da perfeição. Terçafeira passada vi-o encher o campo, no jogo contra o Lyon, controlando todas as manobras defensivas da equipa com classe, autoridade, estilo e eficácia tremendas, dando-se ainda ao luxo de marcar o golo porventura decisivo da eliminatória. De facto, como alguém já escreveu, esgotam- se os adjectivos, semana a semana, para classificar as exibições de Ricardo Carvalho. Não vejo ninguém, entre todas as equipas europeias de topo, que tenha um central ao seu nível. Desconheço o que se passa no resto do planeta, mas não é muito arriscado dizer que ele é provavelmente o melhor central do mundo na actualidade. Pelo menos, a «Gazzetta dello Sport» classificou-o como o melhor europeu, nesta fase da Liga dos Campeões. Como se sabe, Ricardo Carvalho esteve fora das convocatórias de Scolari até ter constado com insistência que o mesmo jogador que o selecionador português desprezava , a benefício de Fernando Couto, Jorge Andrade, Beto ou Fernando Meira, estava nos planos do super-Real Madrid. A partir daí, Ricardo começou finalmente a ser convocado, mas como suplente de Couto e Jorge Andrade. Para mim, como portista, até é melhor que Scolari o poupe no Europeu, para ele estar mais fresco na próxima época (se continuar no FC Porto). Agora, como português, como alguém que gosta de futebol e como alguém a quem incomodam injustiças gritantes, considero inqualificável deixar Ricardo Carvalho no banco de suplentes durante o Europeu.
2 A talho de fouce, vem também a já tão falada exclusão de Vítor Baía – também ele distinguido pela «Gazzetta dello Sport» como o melhor guarda- redes desta fase da Liga dos Campeões. Baía está a realizar uma época simplesmente brilhante, exibindo classe, calma e confiança em todos os jogos e todos os ambientes, por mais difíceis que sejam.Opaís inteiro sabe e vê semanalmente que Baía é actualmente o guarda-redes português em melhor forma, seguido do Moreira. Ele é, além disso e desde sempre, o único que temos que domina por completo o jogo aéreo, com um tempo de saída perfeito e uma calma que chega a parecer arrogância aos adversários. Como tudo o indica, Baía vai ser excluído do Europeu, por razões pessoais do seleccionador, que nunca ninguém entendeu, mas que obviamente não têm que ver com ele mas com o clube que representa – como o provou a célebre provocação de chamar à Selecção o terceiro guarda-redes do FC Porto, para o fazer jogar um minuto e evidentemente desaparecer das convocatórias desde então e para todo o sempre. Scolari vai portanto, mantendo a sua soberba, optar por Ricardo e Quim – qualquer deles com quase o dobro de golos sofridos no campeonato em relação a Baía. Apesar de ser de bom e patrioteiro tom prestar tributo, se não mesmo vassalagem a Scolari, é necessário ter a coragem de dizer que a exclusão de Baía é um acto determinado por exclusivas razões pessoais, que seguramente não são recomendáveis. Vítor Baía tem uma longa e prestigiosa carreira ao serviço do futebol e da Selecção de Portugal. Scolari, ao fim de mais de um ano – veremos o que consegue amanhã, contra a Itália – tem apenas no currículo ao serviço da Selecção, além de uma histórica derrota com a Espanha, uma série de jogos inconsequentes, alguns piores, outros menos maus.
3 Algúem, já não recordo quem, atacou-me há dias, por eu ter escrito que nas competições europeias há uma tendência das arbitragens para favorecerem, sobretudo nas fases decisivas, os clubes dos países mais ricos – Inglaterra, Espanha, Itália. Penso que o crítico terá metido a viola ao saco, quando viu o árbitro e o juiz-de-linha do Inter- Benfica fazerem vista grossa a uma entrada de Toldo sobre Sokota a pontapé, que teria ditado obrigatoriamente penalty e expulsão do guarda-redes italiano e, muito provavelmente, outro desfecho na eliminatória. Embora o Benfica se possa queixar e com razão e lhe fosse legítimo esperar outro resultado, não fosse esse clamoroso erro de arbitragem, a verdade também é que não foi por causa disso que morreu na praia, depois de ter conseguido o mais dificil que foi começar a ganhar e marcar três golos em S. Siro. E não foi, primeiro porque o gesto totalmente inesperado de Toldo não resultou de nenhuma jogada de perigo do Benfica, foi sim totalmente gratuito e sem sentido algum: diferente seria, por exemplo, um erro de arbitragem que tivesse deixado pormarcar um penalty. E não foi, em segundo lugar, porque, como se tornou visivel para todos, o Benfica entrou a segunda parte remetido à defesa, de onde não saiu durante mais de 15 minutos, com um meio-campo claramente fora da luta e a equipa sem reação, parecendo esperar apenas que o tempo passasse. Vi o jogo na companhia de dois amigos benfiquistas, um defensor de Camacho, o outro seu crítico.Mas o que nos pareceu evidente a todos é que Camacho durou uma eternidade a dar-se conta de que tinha de fazer alguma coisa -–nem sequer a entrada do Recoba pareceu incomodá- lo – e acabou por só reagir quando já tinha o jogo perdido. Eu registei a ironia dele, afirmando que isso são coisas que só os «entendidos vêm, um treinador, quando perde, não entende nada». Talvez que, como se diz no «bridge », quem está de fora vê sempre melhor, mas a verdade é que eu me habituei a distinguir os treinadores pela forma como eles reagem aos acontecimentos de um jogo: os bons reagem antes que o mal aconteça, os outros reagem só depois e vão sempre atrás do prejuízo.
4 Sporting e FC Porto ganharam esta semana os seus jogos caseiros in-extremis e graças a um erro de arbitragem. Aparentemente as duas situações são idênticas, pelo menos nas suas consequências: provavelmente nenhum dos dois teria ganho sem os erros de que beneficiaram. Mas, apesar de tudo, há diferenças que não são de detalhe. No erro que beneficiou o Sporting foi o próprio golo que foi irregular, por off-side de posição do seu autor; no erro a favor do FC Porto, o golo não foi irregular (foi, aliás, lindo), o que não existiu foi a falta que lhe deu origem. Mas não basta que um árbitro marque um livre perigoso por falta inexistente: é ainda necessário convertê- lo – que o diga o Deco, que este ano já deve ir em mais de uma centena de tentativas falhadas e que, se tem ficado em campo até final, no domingo, ainda a esta hora estaria a tentar converter o livre que o Carlos Alberto converteu. Ou seja, há erros de arbitragem que são consequência directa e necessária de golos e há outros que são apenas consequência indirecta. Digo isto, porque vi o destaque que alguma imprensa desportiva se apressou a dar ao erro que favoreceu o FC Porto, que alguns chamaram mesmo para título da notícia do jogo. Curiosamente, porém, não os vi, no último FC Porto-Manchester, dar idêntico destaque ao livre erradamente assinalado pelo árbitro e que proporcionou o único golo do Manchester. Critérios... Mas há ainda outra diferença: aqui está um portista a reconhecer que o meu clube ganhou um jogo graças a um livre mal assinalado. Não estou nem a pretender que o erro não existiu, nem a queixar-me de uma arbitragem sem razões para queixa, nem a pedir que façam uma investigação ao árbitro porque ele prejudicou o Porto – quando, por exemplo, não expulsou o guarda-redes do Moreirense que derrubou o Maciel quando este ia isolado para o golo (é, aliás regra com que eu não concordo – penalty e expulsão- porque me parece castigo excessivo.Mas a verdade é que a regra existe e uns árbitros aplicam-na e outros não, abrindo espaço para toda a discricionaridade de critérios).
2 A talho de fouce, vem também a já tão falada exclusão de Vítor Baía – também ele distinguido pela «Gazzetta dello Sport» como o melhor guarda- redes desta fase da Liga dos Campeões. Baía está a realizar uma época simplesmente brilhante, exibindo classe, calma e confiança em todos os jogos e todos os ambientes, por mais difíceis que sejam.Opaís inteiro sabe e vê semanalmente que Baía é actualmente o guarda-redes português em melhor forma, seguido do Moreira. Ele é, além disso e desde sempre, o único que temos que domina por completo o jogo aéreo, com um tempo de saída perfeito e uma calma que chega a parecer arrogância aos adversários. Como tudo o indica, Baía vai ser excluído do Europeu, por razões pessoais do seleccionador, que nunca ninguém entendeu, mas que obviamente não têm que ver com ele mas com o clube que representa – como o provou a célebre provocação de chamar à Selecção o terceiro guarda-redes do FC Porto, para o fazer jogar um minuto e evidentemente desaparecer das convocatórias desde então e para todo o sempre. Scolari vai portanto, mantendo a sua soberba, optar por Ricardo e Quim – qualquer deles com quase o dobro de golos sofridos no campeonato em relação a Baía. Apesar de ser de bom e patrioteiro tom prestar tributo, se não mesmo vassalagem a Scolari, é necessário ter a coragem de dizer que a exclusão de Baía é um acto determinado por exclusivas razões pessoais, que seguramente não são recomendáveis. Vítor Baía tem uma longa e prestigiosa carreira ao serviço do futebol e da Selecção de Portugal. Scolari, ao fim de mais de um ano – veremos o que consegue amanhã, contra a Itália – tem apenas no currículo ao serviço da Selecção, além de uma histórica derrota com a Espanha, uma série de jogos inconsequentes, alguns piores, outros menos maus.
3 Algúem, já não recordo quem, atacou-me há dias, por eu ter escrito que nas competições europeias há uma tendência das arbitragens para favorecerem, sobretudo nas fases decisivas, os clubes dos países mais ricos – Inglaterra, Espanha, Itália. Penso que o crítico terá metido a viola ao saco, quando viu o árbitro e o juiz-de-linha do Inter- Benfica fazerem vista grossa a uma entrada de Toldo sobre Sokota a pontapé, que teria ditado obrigatoriamente penalty e expulsão do guarda-redes italiano e, muito provavelmente, outro desfecho na eliminatória. Embora o Benfica se possa queixar e com razão e lhe fosse legítimo esperar outro resultado, não fosse esse clamoroso erro de arbitragem, a verdade também é que não foi por causa disso que morreu na praia, depois de ter conseguido o mais dificil que foi começar a ganhar e marcar três golos em S. Siro. E não foi, primeiro porque o gesto totalmente inesperado de Toldo não resultou de nenhuma jogada de perigo do Benfica, foi sim totalmente gratuito e sem sentido algum: diferente seria, por exemplo, um erro de arbitragem que tivesse deixado pormarcar um penalty. E não foi, em segundo lugar, porque, como se tornou visivel para todos, o Benfica entrou a segunda parte remetido à defesa, de onde não saiu durante mais de 15 minutos, com um meio-campo claramente fora da luta e a equipa sem reação, parecendo esperar apenas que o tempo passasse. Vi o jogo na companhia de dois amigos benfiquistas, um defensor de Camacho, o outro seu crítico.Mas o que nos pareceu evidente a todos é que Camacho durou uma eternidade a dar-se conta de que tinha de fazer alguma coisa -–nem sequer a entrada do Recoba pareceu incomodá- lo – e acabou por só reagir quando já tinha o jogo perdido. Eu registei a ironia dele, afirmando que isso são coisas que só os «entendidos vêm, um treinador, quando perde, não entende nada». Talvez que, como se diz no «bridge », quem está de fora vê sempre melhor, mas a verdade é que eu me habituei a distinguir os treinadores pela forma como eles reagem aos acontecimentos de um jogo: os bons reagem antes que o mal aconteça, os outros reagem só depois e vão sempre atrás do prejuízo.
4 Sporting e FC Porto ganharam esta semana os seus jogos caseiros in-extremis e graças a um erro de arbitragem. Aparentemente as duas situações são idênticas, pelo menos nas suas consequências: provavelmente nenhum dos dois teria ganho sem os erros de que beneficiaram. Mas, apesar de tudo, há diferenças que não são de detalhe. No erro que beneficiou o Sporting foi o próprio golo que foi irregular, por off-side de posição do seu autor; no erro a favor do FC Porto, o golo não foi irregular (foi, aliás, lindo), o que não existiu foi a falta que lhe deu origem. Mas não basta que um árbitro marque um livre perigoso por falta inexistente: é ainda necessário convertê- lo – que o diga o Deco, que este ano já deve ir em mais de uma centena de tentativas falhadas e que, se tem ficado em campo até final, no domingo, ainda a esta hora estaria a tentar converter o livre que o Carlos Alberto converteu. Ou seja, há erros de arbitragem que são consequência directa e necessária de golos e há outros que são apenas consequência indirecta. Digo isto, porque vi o destaque que alguma imprensa desportiva se apressou a dar ao erro que favoreceu o FC Porto, que alguns chamaram mesmo para título da notícia do jogo. Curiosamente, porém, não os vi, no último FC Porto-Manchester, dar idêntico destaque ao livre erradamente assinalado pelo árbitro e que proporcionou o único golo do Manchester. Critérios... Mas há ainda outra diferença: aqui está um portista a reconhecer que o meu clube ganhou um jogo graças a um livre mal assinalado. Não estou nem a pretender que o erro não existiu, nem a queixar-me de uma arbitragem sem razões para queixa, nem a pedir que façam uma investigação ao árbitro porque ele prejudicou o Porto – quando, por exemplo, não expulsou o guarda-redes do Moreirense que derrubou o Maciel quando este ia isolado para o golo (é, aliás regra com que eu não concordo – penalty e expulsão- porque me parece castigo excessivo.Mas a verdade é que a regra existe e uns árbitros aplicam-na e outros não, abrindo espaço para toda a discricionaridade de critérios).
sábado, março 27, 2004
O jogo da época ( 25 Março 2004)
1. Para todos os clubes e todos os anos, costuma-se dizer que há um «jogo da época », que é aquele em que se joga o tudo ou nada. Para o FC Porto, por exemplo, no ano passado, o jogo da época foi – visto agora à distância – a final de Sevilha, que lhe permitiu trazer para Portugal, pela primeira vez, a Taça UEFA. Mas a verdade é que não há apenas um jogo da época, há vários, à medida que se vai progredindo no caminho da vitória. Nesse sentido, antes do jogo de Sevilha, houve vários outros jogos da época para o FC Porto, nomeadamente, os que lhe permitiram abrir caminho para Sevilha e, em particular, os jogos das meias-finais contra a Lazio, que conduziram directamente ao Olímpico de Sevilha. Por isso, o «jogo da época» que o FC Porto joga esta noite contra o Lyon, só o é porque, antes disso, enfrentou e venceu outros jogos da época, como o foram os jogos contra o Manchester e antes contra o Marselha, que permitiram ultrapassar a fase de grupos da Liga dos Campeões. E se, como tantos desejamos, a partir desta noite, o FC Porto desbravar o caminho para a eliminação do Lyon, seguir-se-ão dois novos jogos que significarão essa possibilidade incrível de atingir a final de Geselkirchen. Mas não nos precipitemos: o Lyon vai se um obstáculo tremendo e, muito embora eu mantenha que o sorteio foi feliz com o FC Porto, uma coisa é a teoria, outra a prática. Olhando para o que mudou em 15 dias, no panorama europeu, hoje, por exemplo, talvez fosse melhor que tivesse saído ao Porto um Real Madrid em crise de nítido cansaço, do que este Lyon carregado de ambição e de uma falsa humildade que assusta. A verdade é que só um grande Porto, o Porto da noite contra o Manchester, poderá levar de vencida a equipa surpresa desta edição da Liga dos Campeões. Ambição por ambição, ambas as equipes se equivalem (esse é um dos maiores méritos de José Mourinho, ter construído uma equipa insaciável, que nunca parece cansada de querer ganhar). Pena é que estes 15 dias, desde Manchester, não tenham sido suficientes para recuperar jogadores importantes como Jorge Costa e Pedro Mendes, e que o rol de indisponíveis do FC Porto para esta fase decisiva da época continue a ser tão extenso e tão importante. Desde Manchester, o FC Porto disputou dois jogos, ambos decisivos no desenrolar das respectivas competições: a vitória contra o Boavista, no Dragão, representou, em minha opinião, a machadada decisiva na questão do título – com consequências imediatas na desmoralização revelada pelo Sporting; e a vitória em Braga foi o passaporte que faltava para a final da Taça, depois da vitória também contra o Boavista e da vitória em Vila do Conde, onde o Sporting agora tropeçou com estrondo. Volto a dizer que, ao contrário do Benfica, não foi fácil o percurso do FC Porto até à final da Taça e, por isso, e porque foi trilhado em plena época de decisão do Campeonato e da Liga dos Campeões, tem um valor acrescido e raro. Muito poucas seriam as equipas que, na situação do FC Porto não caíssem na tentação de descurar ou abandonar a menos importante das competições em disputa, como forma de salvaguardar as outras. A grande imagem de marca deste FC Porto é nunca abrir mão de nada. Entretanto, e como já foi referido por outros, estranhei a dureza, a roçar a violência, com que o Braga encarou o jogo. Uma coisa era o desejo intenso de ganhar, de ser o primeiro a vergar o Porto este ano e de chegar à final e garantir a Europa. Outra coisa foi a atitude adoptada para tal que, sabendo-se que os jogadores portistas se queriam logicamente precaver de mais lesões antes do jogo com o Lyon, chegou a revestir aspectos de estratégia de intimidação, pensada friamente. De novo, só uma grande equipa, capaz de se alhear dos ambientes, conseguiria resistir àquela fúria competitiva que, por vezes, como disse Mourinho, esteve «além dos limites», com uma complacente arbitragem. Foi das vitórias do Porto que mais gozo me deram este ano.
2. O Benfica apanhará ainda o Sporting? Eis uma pergunta impensável há umas semanas atrás. No trio da frente, o que era lógico é que Benfica e Porto, sobrecarregados de jogos, fossem perdendo pontos paulatinamente para um Sporting limitado à obrigação de jogar uma vez por semana. Ainda por cima, um Sporting que tem melhor equipa que o Benfica e que, como tantas vezes tem sido recordado, já leva mais pontos esta época do que nas doze ou quinze anteriores. Mas o monumental estoiro do Sporting em Vila do Conde pode vir a ter efeitos psicológicos imprevistos e que, aliados a um calendário final que é tudo menos fácil, ainda é capaz de proporcionar um volte-face nos lugares de honra que poucos ou nenhuns ousavam prever. Tinha graça, uma infinita graça, que, depois de tantos anos a ouvir dizer que a amizade com o FC Porto significava o abraço da morte – triunfos para os portistas e derrotas para os amigos de ocasião – agora se constatasse que a súbita aliança de Dias da Cunha com Filipe Vieira, unidos contra o «sistema» e o FC Porto, conduzisse no curto prazo ao afundamento do Sporting. E se os leões terminarem em terceiro lugar, afastados da possibilidade de qualificação para a Liga dos Campeões, e a dez ou doze pontos do FC Porto, vão precisar de um saco muito grande para lá enfiarem várias violas. Os «roubos» de Barcelos ou do Funchal, o «sistema no seu esplendor», a camisola rasgada do Mourinho, «fatwa» sobre o Rui Jorge, tudo isso se tornará fatalmente, aos olhos dos sportinguistas, o que já era aos olhos dos outros: ridículas desculpas de maus perdedores. Eis um bom motivo para que o Sporting não perca a motivação daqui até final do Campeonato.
3. José Veiga na administração da SAD ou à frente do futebol do Benfica, coloca, de facto, questões interessantes. Sabendo-se que Camacho prefere os jogadores que vêm através do seu empresário espanhol e que José Veiga prefere, logicamente, os seus próprios jogadores, como se entenderão os dois – haverá um Tordesilhas entre ambos? E os que não forem jogadores nem de um nem de outro empresário, que destino terão: serão obrigados a assinar por José Veiga ou terão de seguir (com vantagens pessoais óbvias) o mesmo caminho de Maniche? Eis o tipo de coisa que, na gestão de João Vale e Azevedo, teria já dado direito a uma longa série de interpelações de «notáveis» do Benfica...
2. O Benfica apanhará ainda o Sporting? Eis uma pergunta impensável há umas semanas atrás. No trio da frente, o que era lógico é que Benfica e Porto, sobrecarregados de jogos, fossem perdendo pontos paulatinamente para um Sporting limitado à obrigação de jogar uma vez por semana. Ainda por cima, um Sporting que tem melhor equipa que o Benfica e que, como tantas vezes tem sido recordado, já leva mais pontos esta época do que nas doze ou quinze anteriores. Mas o monumental estoiro do Sporting em Vila do Conde pode vir a ter efeitos psicológicos imprevistos e que, aliados a um calendário final que é tudo menos fácil, ainda é capaz de proporcionar um volte-face nos lugares de honra que poucos ou nenhuns ousavam prever. Tinha graça, uma infinita graça, que, depois de tantos anos a ouvir dizer que a amizade com o FC Porto significava o abraço da morte – triunfos para os portistas e derrotas para os amigos de ocasião – agora se constatasse que a súbita aliança de Dias da Cunha com Filipe Vieira, unidos contra o «sistema» e o FC Porto, conduzisse no curto prazo ao afundamento do Sporting. E se os leões terminarem em terceiro lugar, afastados da possibilidade de qualificação para a Liga dos Campeões, e a dez ou doze pontos do FC Porto, vão precisar de um saco muito grande para lá enfiarem várias violas. Os «roubos» de Barcelos ou do Funchal, o «sistema no seu esplendor», a camisola rasgada do Mourinho, «fatwa» sobre o Rui Jorge, tudo isso se tornará fatalmente, aos olhos dos sportinguistas, o que já era aos olhos dos outros: ridículas desculpas de maus perdedores. Eis um bom motivo para que o Sporting não perca a motivação daqui até final do Campeonato.
3. José Veiga na administração da SAD ou à frente do futebol do Benfica, coloca, de facto, questões interessantes. Sabendo-se que Camacho prefere os jogadores que vêm através do seu empresário espanhol e que José Veiga prefere, logicamente, os seus próprios jogadores, como se entenderão os dois – haverá um Tordesilhas entre ambos? E os que não forem jogadores nem de um nem de outro empresário, que destino terão: serão obrigados a assinar por José Veiga ou terão de seguir (com vantagens pessoais óbvias) o mesmo caminho de Maniche? Eis o tipo de coisa que, na gestão de João Vale e Azevedo, teria já dado direito a uma longa série de interpelações de «notáveis» do Benfica...
A hora das decisões que restam ( 16 Março 2004)
1- Esta noite em Braga e amanhã na Luz decidem-se os finalistas da Taça de Portugal. Mais difíceis as tarefas de Braga e Porto — o quarto classificado do campeonato recebe o indiscutível primeiro mas contrabalança o seu menor poderio com as vantagens de jogar em casa e a muito maior frescura física que tem obrigação de mostrar (afinal de contas, os jogadores podem ser melhores ou piores mas a preparação física, essa depende apenas da capacidade de trabalho e sofrimento). E algum dia há-de ser, algum dia o FC Porto — que este ano ainda só foi batido no Mónaco pelo Milan e nas Antas por um inatingível Real Madrid—há-de tropeçar intramuros. Porque, por maior que sejam a vontade e a capacidade de resistência física, a concentração e a falta de lucidez hão-de falhar em alguma ocasião. Neste momento, em que já se pede a lua ao FC Porto, chegar à final da Taça com um percurso que não foi fácil, ganhar o campeonato e atingir as meias-finais da Liga dos Campeões, a somar à vitória inicial na Supertaça, é um resultado global que não fica aquém da época de ouro do ano que passou. A tarefa do Belenenses, que caminha a passos largos para a segunda divisão e, curiosamente, parece ter piorado substancialmente com os oito (!) reforços de Inverno que adquiriu, essa parece impossível, muito embora também possa e deve atrever-se a explorar o maior cansaço do Benfica. Quanto aos encarnados, esforço continuado à parte, saiu-lhe, no sorteio das meias-finais da Taça, a melhor das seis hipóteses possíveis, culminando um percurso de uma felicidade quase irrepetível, que lhe permitiu estar a um pequeno passo do Jamor sem nunca ter saído da Luz durante as eliminatórias. Mas, fora a sobrecarga de jogos, esta meia-final contra o Beleneneses vem na melhor altura para o Benfica, que finalmente começa a mostrar algum banco (Geovanni, Manuel Fernandes, João Pereira) e que frente ao Inter, e mesmo a espaços contra o Marítimo, mostrou o melhor futebol que se lhe viu este ano. Na Luz, contra o Inter, aconteceu ao Benfica o que havia acontecido uma semana antes ao Rosenborg: encontrou pela frente um guarda-redes que tudo defendeu. Mas o Inter, que já vai em três jogos consecutivos sem marcar um golo, não é forçosamente inultrapassável em San Siro e mesmo já com Vieri. É preciso que o Benfica jogue sem medo, como jogou na Luz, e seja capaz, pelo menos, de marcar um golo. Era bonito e era uma compensação merecida para o grande exército de adeptos benfiquistas, há tanto tempo afastados da emoção e do prazer das grandes noites europeias, como a de quinta-feira passada.
2- No sorteio da Liga dos Campeões o FC Porto, em minha opinião, também acertou na mouche, saindo-lhe a menos difícil das sete alternativas em jogo. E, de repente, da quase certa hipótese de não ir além dos oitavos-de-final—face à má sorte de um sorteio que lhe reservou o Manchester e simultaneamente a lesão do Derlei — o FC Porto passou para uma forte probabilidade de atingir as meias-finais. Mas falta passar o Lyon, que vai ser um obstáculo tremendo, e espero bem que a Liga não deixe de aceder ao pedido de ambos os clubes para adiar o Nacional-FC Porto, permitindo algum descanso aos portistas. Seria absolutamente impensável e injustificável que o não fizesse e, por isso, nem vale a pena especular sobre o assunto, cujo desfecho já deve ser conhecido hoje, quando este jornal sair para a rua.
3- Com a vitória sobre o Boavista — que era um dificílimo teste de resistência física e anímica depois da jornada histórica de Manchester — o FC Porto parece ter garantido definitivamente o título. Esperava muito mais do Boavista, não só pelo suposto factor de mobilização extra que representava o regresso de Jaime Pacheco mas também porque o Boavista não tinha nada a perder e tudo a ganhar. Mas afinal o que se viu foi o mesmo Boavista de sempre, o Boavista com a marca indelével de Jaime Pacheco. Um futebol feito de faltas sistemáticas, lesões simuladas e perdas de tempo, nenhuma apetência atacante e uma defesa do castelo assumida como única estratégia. Enfim, o futebol mais feio do campeonato. Só não se percebe é porque foi despedido Sanchez se ele se limitou, afinal, a herdar e repetir a fórmula de Pacheco, com ligeiramente piores resultados correspondentes a uma pior equipa recebida. E também não entendo porquê só recentemente é que alguns comentadores deram pelo tipo de futebol do Boavista e passaram a embirrar com ele: é o mesmo futebol de há anos para cá. Quando o Boavista foi campeão, há quatro anos atrás, escrevi aqui que tinha sido bom para o clube e mau para quem gosta de futebol. Mas como, nesse ano, o Sporting e o Benfica cedo ficaram afastados da luta pelo título e foi o FC Porto que amanteve até à penúltima jornada, terminando o campeonato a um ponto de distância e com uma vitória por 4-0 sobre o novo campeão, soltou-se um coro geral de elogios ao Boavista, que certamente teria desafinado se os vencidos tivessem sido outros.
4- E, se o FC Porto parece ter garantido o bicampeonato, o Sporting parece ter igualmente firme o segundo lugar e o correspondente acesso directo à Liga dos Campeões na próxima época. Apesar disso, e apesar de uma pontuação que, em várias épocas, seria suficiente para lhe garantir a liderança, é indisfarçável um sentimento de frustração entre o povo leonino. Porque um bom Sporting não chegou para fazer sombra ao FC Porto no campeonato, porque nas Antas foi claramente batido pelos portistas e em Alvalade só o não foi graças a um penalty inexistente e à célebre jogada que o antecedeu, porque na Taça foi eliminado em casa por uma equipa da 2.ª divisão e na UEFA por uma equipa que, embora estando a ser a surpresa da prova, não consta nem da terceira divisão europeia. E, sobretudo, porque neste Março de todas as decisões, enquanto portistas e benfiquistas mantêm em aberto as três frentes de competição e a adrenalina dos adeptos permanentemente carregada, os sportinguistas arrastam-se no único terreno de luta que lhes resta, sem outro objectivo aparente que não o de cumprirem as oito jornadas que restam, mantendo um olho vagamente vigilante sobre o Benfica e uma esperança mais que remota em sucessivos tropeções do FC Porto. Abaixo do terceiro lugar — também ele praticamente garantido ao Benfica—a luta pelo que resta de espaço europeu aparenta igualmente estar já decidida a favor do Braga e do Nacional, com o consequente afastamento de outros que tanto prometeram de início e rapidamente se deslumbraram: Beira-Mar e Marítimo e o tropeçante Boavista. O que resta por decidir resume-se assim aos lugares do inferno, onde existem quatro candidatos a ocuparem as duas vagas de despromação, além da já reservada ao Estrela da Amadora: Guimarães, Paços de Ferreira, Académica e, mais remotamente, o Alverca. Tirando este último caso (é aliás um milagre e um contra-senso a presença de uma equipa sem qualquer sustentação institucional como o Alverca na primeira divisão), todos os outros ameaçados estão na situação em que estão essencialmente por má gestão dos clubes. Não é um problema de treinadores nem de jogadores mas de gestões amadorísticas e incompetentes. Particularmente no caso do Vitória de Guimarães, é evidente que o problema principal chama-se Pimenta Machado e a solução tem de passar, mais tarde ou mais cedo, com descida ou sem descida, pelo fim do seu longo e exaurido reinado. Só o próprio ainda o não percebeu.
2- No sorteio da Liga dos Campeões o FC Porto, em minha opinião, também acertou na mouche, saindo-lhe a menos difícil das sete alternativas em jogo. E, de repente, da quase certa hipótese de não ir além dos oitavos-de-final—face à má sorte de um sorteio que lhe reservou o Manchester e simultaneamente a lesão do Derlei — o FC Porto passou para uma forte probabilidade de atingir as meias-finais. Mas falta passar o Lyon, que vai ser um obstáculo tremendo, e espero bem que a Liga não deixe de aceder ao pedido de ambos os clubes para adiar o Nacional-FC Porto, permitindo algum descanso aos portistas. Seria absolutamente impensável e injustificável que o não fizesse e, por isso, nem vale a pena especular sobre o assunto, cujo desfecho já deve ser conhecido hoje, quando este jornal sair para a rua.
3- Com a vitória sobre o Boavista — que era um dificílimo teste de resistência física e anímica depois da jornada histórica de Manchester — o FC Porto parece ter garantido definitivamente o título. Esperava muito mais do Boavista, não só pelo suposto factor de mobilização extra que representava o regresso de Jaime Pacheco mas também porque o Boavista não tinha nada a perder e tudo a ganhar. Mas afinal o que se viu foi o mesmo Boavista de sempre, o Boavista com a marca indelével de Jaime Pacheco. Um futebol feito de faltas sistemáticas, lesões simuladas e perdas de tempo, nenhuma apetência atacante e uma defesa do castelo assumida como única estratégia. Enfim, o futebol mais feio do campeonato. Só não se percebe é porque foi despedido Sanchez se ele se limitou, afinal, a herdar e repetir a fórmula de Pacheco, com ligeiramente piores resultados correspondentes a uma pior equipa recebida. E também não entendo porquê só recentemente é que alguns comentadores deram pelo tipo de futebol do Boavista e passaram a embirrar com ele: é o mesmo futebol de há anos para cá. Quando o Boavista foi campeão, há quatro anos atrás, escrevi aqui que tinha sido bom para o clube e mau para quem gosta de futebol. Mas como, nesse ano, o Sporting e o Benfica cedo ficaram afastados da luta pelo título e foi o FC Porto que amanteve até à penúltima jornada, terminando o campeonato a um ponto de distância e com uma vitória por 4-0 sobre o novo campeão, soltou-se um coro geral de elogios ao Boavista, que certamente teria desafinado se os vencidos tivessem sido outros.
4- E, se o FC Porto parece ter garantido o bicampeonato, o Sporting parece ter igualmente firme o segundo lugar e o correspondente acesso directo à Liga dos Campeões na próxima época. Apesar disso, e apesar de uma pontuação que, em várias épocas, seria suficiente para lhe garantir a liderança, é indisfarçável um sentimento de frustração entre o povo leonino. Porque um bom Sporting não chegou para fazer sombra ao FC Porto no campeonato, porque nas Antas foi claramente batido pelos portistas e em Alvalade só o não foi graças a um penalty inexistente e à célebre jogada que o antecedeu, porque na Taça foi eliminado em casa por uma equipa da 2.ª divisão e na UEFA por uma equipa que, embora estando a ser a surpresa da prova, não consta nem da terceira divisão europeia. E, sobretudo, porque neste Março de todas as decisões, enquanto portistas e benfiquistas mantêm em aberto as três frentes de competição e a adrenalina dos adeptos permanentemente carregada, os sportinguistas arrastam-se no único terreno de luta que lhes resta, sem outro objectivo aparente que não o de cumprirem as oito jornadas que restam, mantendo um olho vagamente vigilante sobre o Benfica e uma esperança mais que remota em sucessivos tropeções do FC Porto. Abaixo do terceiro lugar — também ele praticamente garantido ao Benfica—a luta pelo que resta de espaço europeu aparenta igualmente estar já decidida a favor do Braga e do Nacional, com o consequente afastamento de outros que tanto prometeram de início e rapidamente se deslumbraram: Beira-Mar e Marítimo e o tropeçante Boavista. O que resta por decidir resume-se assim aos lugares do inferno, onde existem quatro candidatos a ocuparem as duas vagas de despromação, além da já reservada ao Estrela da Amadora: Guimarães, Paços de Ferreira, Académica e, mais remotamente, o Alverca. Tirando este último caso (é aliás um milagre e um contra-senso a presença de uma equipa sem qualquer sustentação institucional como o Alverca na primeira divisão), todos os outros ameaçados estão na situação em que estão essencialmente por má gestão dos clubes. Não é um problema de treinadores nem de jogadores mas de gestões amadorísticas e incompetentes. Particularmente no caso do Vitória de Guimarães, é evidente que o problema principal chama-se Pimenta Machado e a solução tem de passar, mais tarde ou mais cedo, com descida ou sem descida, pelo fim do seu longo e exaurido reinado. Só o próprio ainda o não percebeu.
Esta noite em Manchester ( 9 Março 2004)
«Hoje à noite namorar, sem ter medo da saudade, sem vontade de casar...»
ELIS REGINA
1 Que hipóteses tem o FC Porto esta noite em Manchester? Sejamos realistas: poucas, quase nenhumas.OManchester é um potentado do futebolmundial, tem jogadores de outro mundo, um banco de suplentes que, só para o ataque, dispõe de Cristiano Ronaldo, Solskjaer e Diego Forlan, um orçamento que é dez vezes superior ao do FC Porto e 30 por cento superior à soma dos orçamentos de todos os clubes da I Divisão portuguesa, um estádio com 60.000 pessoas debruçadas sobre o relvado garantindo um ambiente infernal, onde é quase impossível manter a calma e a concentração, e, como se isso tudo não bastasse, esta noite, como habitualmente, o Manchester United vai ter ainda a seu favor os ventos da UEFA e umtimoneiro ao seu dispor. Para ter alguma remota hipótese de se opor a tudo isso, umFC Porto, ainda para mais desfalcado de algumas peças decisivas (ai, Derlei, malfadado jogo de Alverca...!), vai precisar de três coisas o tempo todo: frieza, coragem e sorte. Frieza para aguentar o ambiente, os cânticos e gritos constantes, a tentativa de pressão e de intimidação que os red devils, apoiados pela sua gente, vão tentar desde o primeiro minuto.OFC Porto lembra-se da experiência, desde a última vez que aqui esteve, emque, atordoado pelo ambiente, foi cilindrado antes mesmo de ter conseguido pegar na bola e mostrar que não era assim tão pior que o Manchester. Mas, quando o fez, já o destino estava indelevelmente traçado. Esta noite, e desde o primeiro minuto, o FC Porto vai ter de se lançar num combate de vida e morte contra a fatalidade do destino. Para tal, vai precisar de uma frieza de icebergue, como se fosse uma equipe de surdos tratados a Xanax, de olhos postos num objectivo que nada e ninguém conseguirá distrair. Depois, vai precisar de imensa coragem. Coragem para não recuar sistematicamente, para defender longe da área e do jogo aéreo, tipo rolo compressor do Manchester, e coragem para atacar sempre que puder, atacar sem descanso o lado fraco dos ingleses, que é o centro da defesa, e atacar com o único tipo de jogo que os desnorteia — os passes curtos e tabelinhas, os improvisos e malabarismos, o futebol de rodeio e imaginação, o samba e o vira. E não ter medo de provocar, investir, ferir o monstro. Enfim, vai precisar de muita sorte. Do tipo de sorte que o Manchester teve no Porto, ao perder apenas por 2-1 tendo feito umúnico remate à baliza e esse através de um livre. Mas também do outro tipo de sorte: é preciso que o árbitro não ofereça ao Manchester, como no Porto, um livre inexistente, ou um penalty já adivinhado, ou uma expulsão sem motivo ouumgolo anulado ao ataque do Porto sem razão. É preciso que o árbitro se esqueça de que oManchester vale infinitamente mais nos quartos-de-final da Liga dos Campeões do que uma simpática, mas pobre, equipa portuguesa. No ano passado, quando estive em Sevilha para a final da UEFA, tive ocasião de ver como se tratavam os funcionários do organismo: era oHotel Afonso XIII, um dos mais luxuosos de Espanha, posto por conta da comitiva uefeira, todas as salas de reuniões reservadas até três dias depois do jogo, salas de refeições exclusivas para as meninas e meninos da UEFA, um batalhão de carros e limousines estacionados por conta cá fora, enfim, uma panóplia de mordomias dignas de uma reunião dos sheiks da OPEP. Quem paga tudo isto, mais os seus magníficos ordenados? As transmissões televisivas. E pagam com que critério? Bom, pagam vinte vezes mais por um jogo doManchester do que por um jogo do FC Porto. Ora, é aqui que a questão se torna séria: para poder continuar a garantir os ordenados e o «train de vie» do pessoal da UEFA, é necessário, imperioso mesmo, que não haja muitos Davides a fazerem frente aos Golias. Sob pena de todo o negócio ficar comprometido. Digamos que, na Europa do futebol, existem uns sete magníficos, que integram o primeiro escalão e são, por si sós, a garantia da prosperidade do negócio: Real Madrid e Barcelona, Manchester e Arsenal, Juventus e Milan e Bayern de Munique. Depois, vem uma segunda divisão composta por Chelsea e Liverpool, Valência e Corunha, Inter, Roma e Lazio, PSG,Mónaco e Ajax. Depois, vem uma terceira divisão onde está o FC Porto, o Celtic, o PSV, o Lyon e o Bordéus, o Werder Bremen e o Eintracht de Frankfurt, o Galatasaray e o Spartak de Moscovo e mais algum clube «flutuante», que pode ser belga, sueco, checo, suíço ou austríaco. A segunda e terceira divisões europeias são essenciais para comporem a fase de grupos da Liga dos Campeões, mas a partir daí são despiciendas ou até prejudiciais e a UEFA deseja, ou recomenda mesmo, que tratem de desaparecer de cena a partir dos oitavos-de-final.Umclube da terceira divisão, como o FC Porto, conseguir chegar aos quartosde- final é uma proeza só repetível cada seis anos; conseguir chegar lá afastando um dos monstros sagrados, como o Milan, o Real ou o Manchester, é praticamente uma impossibilidade. É essa impossibilidade que esta noite se pede ao FC Porto.
2 Não deixa de ser notável que José Veiga, o ex da Casa do FC Porto no Luxemburgo, e o homem que jurou um dia que iria conseguir apear Pinto da Costa da Direcção do FC Porto para se vingar por ele ter vendido o Zahovic para o Valência, por iniciativa própria e em condições muitomais vantajosas para o clube, possa agora vir a ocupar-se institucionalmente do futebol doBenfica. Depois de um sportinguista a tratar da imagem, teremos agora um portista arrependido a tratar do futebol do Benfica!
3 A mesma agência que agora se ocupa da imagem do Benfica, vai-se ocupar também da imagem do Euro. E a mesma empresa que faz a imagem a Santana Lopes e à Câmara de Lisboa, a Durão Barroso e ao PSD para as eleições europeias, ganhou o concurso para a produção dos espectáculos de abertura e fecho do Euro-2004, apesar de, segundo o Expresso, o seu preço ser substancialmente superior a todos os apresentados pelos outros doze concorrentes. Para quem ainda se lembra da indecorosa cena do estado- maior do Benfica a apresentar- se, pela mão de Santana Lopes, a prestar vassalagem ao PSD, num jantar de campanha eleitoral para as legislativas, tudo isto cheira muito mal. Benfica- PSD-Câmara de Lisboa-Euro 2004: tudo a mesma luta?
4 Por falar em EURO-2004, vi esta semana uma entrevista com o coordenador da coisa, onde ele afirma que o Estado— entre comparticipação nos estádios, estacionamentos e acessibilidades— vai gastar «apenas» 180 milhões de euros (ou seja, 36 milhões de contos), com o Euro, os quais o Estado irá recuperar com o aumento do número de turistas e a promoção do País. Esperemos bem que recupere alguma coisa. Agora o que não deixa de ser extraordinário é que o senhor se esqueça de juntar às contas exactamente o dinheiro gasto em promoção do Euro, as despesas administrativas e de organização, as horas extras pagas à policia, aos médicos e a outros milhares de funcionários, e sobretudo, que tenha deixado de fora este dado eloquente: é que as verbas que cita referem-se à participação directa do Estado na construção dos estádios privados, que são quatro. Mas os outros seis estádios construídos ou reconstruídos para o Euro, são integralmente pagos pelas autarquias, mas, curiosamente, não entram nas suas contas. De onde virá, então, pergunto eu, o dinheiro das autarquias?
ELIS REGINA
1 Que hipóteses tem o FC Porto esta noite em Manchester? Sejamos realistas: poucas, quase nenhumas.OManchester é um potentado do futebolmundial, tem jogadores de outro mundo, um banco de suplentes que, só para o ataque, dispõe de Cristiano Ronaldo, Solskjaer e Diego Forlan, um orçamento que é dez vezes superior ao do FC Porto e 30 por cento superior à soma dos orçamentos de todos os clubes da I Divisão portuguesa, um estádio com 60.000 pessoas debruçadas sobre o relvado garantindo um ambiente infernal, onde é quase impossível manter a calma e a concentração, e, como se isso tudo não bastasse, esta noite, como habitualmente, o Manchester United vai ter ainda a seu favor os ventos da UEFA e umtimoneiro ao seu dispor. Para ter alguma remota hipótese de se opor a tudo isso, umFC Porto, ainda para mais desfalcado de algumas peças decisivas (ai, Derlei, malfadado jogo de Alverca...!), vai precisar de três coisas o tempo todo: frieza, coragem e sorte. Frieza para aguentar o ambiente, os cânticos e gritos constantes, a tentativa de pressão e de intimidação que os red devils, apoiados pela sua gente, vão tentar desde o primeiro minuto.OFC Porto lembra-se da experiência, desde a última vez que aqui esteve, emque, atordoado pelo ambiente, foi cilindrado antes mesmo de ter conseguido pegar na bola e mostrar que não era assim tão pior que o Manchester. Mas, quando o fez, já o destino estava indelevelmente traçado. Esta noite, e desde o primeiro minuto, o FC Porto vai ter de se lançar num combate de vida e morte contra a fatalidade do destino. Para tal, vai precisar de uma frieza de icebergue, como se fosse uma equipe de surdos tratados a Xanax, de olhos postos num objectivo que nada e ninguém conseguirá distrair. Depois, vai precisar de imensa coragem. Coragem para não recuar sistematicamente, para defender longe da área e do jogo aéreo, tipo rolo compressor do Manchester, e coragem para atacar sempre que puder, atacar sem descanso o lado fraco dos ingleses, que é o centro da defesa, e atacar com o único tipo de jogo que os desnorteia — os passes curtos e tabelinhas, os improvisos e malabarismos, o futebol de rodeio e imaginação, o samba e o vira. E não ter medo de provocar, investir, ferir o monstro. Enfim, vai precisar de muita sorte. Do tipo de sorte que o Manchester teve no Porto, ao perder apenas por 2-1 tendo feito umúnico remate à baliza e esse através de um livre. Mas também do outro tipo de sorte: é preciso que o árbitro não ofereça ao Manchester, como no Porto, um livre inexistente, ou um penalty já adivinhado, ou uma expulsão sem motivo ouumgolo anulado ao ataque do Porto sem razão. É preciso que o árbitro se esqueça de que oManchester vale infinitamente mais nos quartos-de-final da Liga dos Campeões do que uma simpática, mas pobre, equipa portuguesa. No ano passado, quando estive em Sevilha para a final da UEFA, tive ocasião de ver como se tratavam os funcionários do organismo: era oHotel Afonso XIII, um dos mais luxuosos de Espanha, posto por conta da comitiva uefeira, todas as salas de reuniões reservadas até três dias depois do jogo, salas de refeições exclusivas para as meninas e meninos da UEFA, um batalhão de carros e limousines estacionados por conta cá fora, enfim, uma panóplia de mordomias dignas de uma reunião dos sheiks da OPEP. Quem paga tudo isto, mais os seus magníficos ordenados? As transmissões televisivas. E pagam com que critério? Bom, pagam vinte vezes mais por um jogo doManchester do que por um jogo do FC Porto. Ora, é aqui que a questão se torna séria: para poder continuar a garantir os ordenados e o «train de vie» do pessoal da UEFA, é necessário, imperioso mesmo, que não haja muitos Davides a fazerem frente aos Golias. Sob pena de todo o negócio ficar comprometido. Digamos que, na Europa do futebol, existem uns sete magníficos, que integram o primeiro escalão e são, por si sós, a garantia da prosperidade do negócio: Real Madrid e Barcelona, Manchester e Arsenal, Juventus e Milan e Bayern de Munique. Depois, vem uma segunda divisão composta por Chelsea e Liverpool, Valência e Corunha, Inter, Roma e Lazio, PSG,Mónaco e Ajax. Depois, vem uma terceira divisão onde está o FC Porto, o Celtic, o PSV, o Lyon e o Bordéus, o Werder Bremen e o Eintracht de Frankfurt, o Galatasaray e o Spartak de Moscovo e mais algum clube «flutuante», que pode ser belga, sueco, checo, suíço ou austríaco. A segunda e terceira divisões europeias são essenciais para comporem a fase de grupos da Liga dos Campeões, mas a partir daí são despiciendas ou até prejudiciais e a UEFA deseja, ou recomenda mesmo, que tratem de desaparecer de cena a partir dos oitavos-de-final.Umclube da terceira divisão, como o FC Porto, conseguir chegar aos quartosde- final é uma proeza só repetível cada seis anos; conseguir chegar lá afastando um dos monstros sagrados, como o Milan, o Real ou o Manchester, é praticamente uma impossibilidade. É essa impossibilidade que esta noite se pede ao FC Porto.
2 Não deixa de ser notável que José Veiga, o ex da Casa do FC Porto no Luxemburgo, e o homem que jurou um dia que iria conseguir apear Pinto da Costa da Direcção do FC Porto para se vingar por ele ter vendido o Zahovic para o Valência, por iniciativa própria e em condições muitomais vantajosas para o clube, possa agora vir a ocupar-se institucionalmente do futebol doBenfica. Depois de um sportinguista a tratar da imagem, teremos agora um portista arrependido a tratar do futebol do Benfica!
3 A mesma agência que agora se ocupa da imagem do Benfica, vai-se ocupar também da imagem do Euro. E a mesma empresa que faz a imagem a Santana Lopes e à Câmara de Lisboa, a Durão Barroso e ao PSD para as eleições europeias, ganhou o concurso para a produção dos espectáculos de abertura e fecho do Euro-2004, apesar de, segundo o Expresso, o seu preço ser substancialmente superior a todos os apresentados pelos outros doze concorrentes. Para quem ainda se lembra da indecorosa cena do estado- maior do Benfica a apresentar- se, pela mão de Santana Lopes, a prestar vassalagem ao PSD, num jantar de campanha eleitoral para as legislativas, tudo isto cheira muito mal. Benfica- PSD-Câmara de Lisboa-Euro 2004: tudo a mesma luta?
4 Por falar em EURO-2004, vi esta semana uma entrevista com o coordenador da coisa, onde ele afirma que o Estado— entre comparticipação nos estádios, estacionamentos e acessibilidades— vai gastar «apenas» 180 milhões de euros (ou seja, 36 milhões de contos), com o Euro, os quais o Estado irá recuperar com o aumento do número de turistas e a promoção do País. Esperemos bem que recupere alguma coisa. Agora o que não deixa de ser extraordinário é que o senhor se esqueça de juntar às contas exactamente o dinheiro gasto em promoção do Euro, as despesas administrativas e de organização, as horas extras pagas à policia, aos médicos e a outros milhares de funcionários, e sobretudo, que tenha deixado de fora este dado eloquente: é que as verbas que cita referem-se à participação directa do Estado na construção dos estádios privados, que são quatro. Mas os outros seis estádios construídos ou reconstruídos para o Euro, são integralmente pagos pelas autarquias, mas, curiosamente, não entram nas suas contas. De onde virá, então, pergunto eu, o dinheiro das autarquias?