1- De repente, um sobressalto colectivo parece ter atravessado a nação futebolística. Consumada mais uma derrota e uma decepção da Selecção de Scolari, uma quantidade de gente, até aqui calada, ousou enfim levantar as suas dúvidas em voz alta: será Luiz Felipe Scolari capaz de nos levar a uma prestação pelo menos honrosa no Europeu?
Tenho a vantagem – e o correspondente risco, se os resultados forem bons – de ter duvidado de Scolari desde quase o início e de ainda na passada terça-feira, véspera do jogo com a Itália, ter repetido as razões par tal. Como os leitores atentos recordarão, penso que fui o primeiro, ou dos primeiros, nas páginas deste jornal, a defender a contratação de um treinador estrangeiro, na ressaca da vergonha asiática. Disso não me arrependo. Pareceu-me, e continua aparecer-me, que só alguém longe das tricas clubísticas da pátria portuguesa , e que não tivesse de prestar vassalagem à geração de Riade e outros poderes fácticos do nosso futebol, estaria em condições de começar tudo ou quase tudo de novo e, com dois anos de trabalho pela frente, apresentar no Euro-2004 uma Selecção nova de nomes e de mentalidades, salvaguardando do passado aqueles e aquilo que se justificava manter. Mas acontece que o Luiz Felipe Scolari, contra todo o bom senso e toda a expectativa, resolveu começar exactamente por onde não devia, embrenhamdo-se, e tornando-se parte, nas guerras fraticídas do futebol português ao decidir – certamente aconselhado por alguém com dor de cotovelo – abrir logo de início uma guerra, totalmente não provocada e incompreensível, com o FC Porto. Arrajem as justificações que quiserem mas é uma vergonha que em ano e meio de trabalho o seleccionador ainda não tenha ido ao Porto assistir pessoalmente a um jogo que fosse daquela que é, desculpem lá, a melhor equipa portuguesa do momento.
Tendo decidido começar assim a sua empreitada, Scolari tornou-se-me logo alguém que, a meu ver, deu provas de fraqueza disfarçada de força, falta de capacidade de isenção e falta de personalidade. Antes de ter qualquer resultado para apresentar, puxou dos galões de campeão do Mundo e tratou logo de comprar uma guerra pelo protagonismo e pelo mando – que, aliás,ninguém lhe disputava. Depois vieram os jogos, os resultados e as exibições. O tempo foi passando, os desastres sucedendo-se e,de jogo para jogo, fui constatando, primeiro, que Scolari já tinha decidido ao fim de 15 dias que irá jogar no Europeu daí a dois anos e, depois, que nada de essencial mudava para melhor no jogo da Selecção. Ao fim de 15 jogos nem sequer existem preparadas à vista aquelas jogadas de bola parada e outras que qualquer treinador de equipa de terceira divisão tem mais que ensaiadas. Na Selecção portuguesa vive-se, como há muito, à espera e dependente de um golpe de génio do Figo, de um rasgo de inspiração de Pauleta ou da ressureição do Rui Costa. É pouco, é nada, é pior que antes. Bem pior que a fase de transição de Agostinho Oliveira.
Julgo que será preciso recuar aos anos 30 ou 40 para encontrar pior registo de resultados de um seleccionador português. A Selecção de Scolari, se disputasse a nossa Superliga, estaria certamente ne segunda metade da tabela: há sete ou oito equipas em Portugal que jogam melhor futebol que aquilo que o Portugal de Scolari mostou até agora. E se, em seis jogos disputados contra selecções que vão estar no Europeu, dos quais quatro intramuros, Scolari não conseguiu vencer um único, tendo empatado três e perdido outros tantos, temos de agradecer ao destino estarmos previamente qualificados como país organizador, de outro modo não constaríamos da lista de finalistas.
O que fazer? Pois, esperar pelo milagre anunciado por Scolari: os 25 dias antes do campeonato, em que ele vai ter a equipa em exclusivo à sua disposição e, por um golpe de magia que só ele sabe, vai transformar aqule grupo de jogadores à deriva em campo num fortíssimo candidato a campeão europeu. Que chegaremos aos quartos-de-final não duvido, porque com os valores comerciais em disputa seguramente, como é tradição, a UEFA se encarregará de pôr a sua mãozinha protectora, em necessidade havendo, ao serviço do país organizador. Daí para a frente é que o cidadão Luiz Felipe Scolari vai ter de mostrar que mereceu os ordenados, que se dizem milionários, que vem recebendo na expectativa desse tal milagre.
Mas se assim é, se tudo se decide nesses tais 25 dias milagrosos,se, ainda por cima, o seleccionador diz e repete que tantoi lhe faz perder como ganhar nos amigáveis, e se nenhumas mudanças, progressos ou esquemas de jogo adquiridos se vêem de um para outro amigável, para quê fazê-los? Para cansar os jogadores, para prejudicar os clubes, para afastar os portugueses da sua Selecção, para nos fazer perder o prestígio? Não seria melhor poupar-nos a estes tristes espectáculos e guardar-se para esse estágio de redenção e renascimento ?
2- Em contrapartida, um frémito de alegria percorreu três quartos da nação futebolística,sábado à noite, quando finalmente o FC Porto caiu, às mãos do Gil Vicente. Luís Campos – que, não tenho dúvida, será um dia, juntamente com outros novos, como Vítor Ponte ou Carlos Brito, um candidato à sucessão de José Mourinho – tem todo o direito de estar feliz mas não parece, sinceramente, que possa exagerar os méritos próprios da sua equipa no triunfo sobre o Porto. Dificilmente o Gil Vicente voltará a ter um jogo em que, tendo sido tão massacrado, acabe por ganhar no espaço de três minutos. É verdade que Baía deveria ter sido expulso aos 15 minutos, quando saiu da baliza e por instinto defendeu com a mão fora da área ( não foi expulso porque o árbitro, ao contrário de nós na televisão, não dispunha da repetição da jogada em slow motion para só então perceber que tinha sido a mão esquerda de Baía a cortar a viagem da bola). Mas até aí já o Porto poderia e merecia estar a ganhar por três ou quatro, não fosse a sorte estar do lado do Gil e no lugar do McCarthy estar o Jankauskas, o mais fraco jogador de todo o plantel do Porto e, juntamente com Silva, do Sporting, o mais inofensivo ponta-de-lança do campeonato. E 15 minutos depois do golpe de Baía, por idênticas razões, também o guarda-redes do Gil deveria ter visto o vermelho. Mas manda a verdade que se diga que José Mourinho, por uma vez, quis igualmente ajudar à festa, cometendo erros que só demonstram que ninguém é perfeito. As três substituições de uma assentada, a saída, já habitual, do Carlos Alberto ( será para refrear o deslumbramento do miúdo, para deixar os adeptos com água na boca? ) e , ironicamente, aquele episódio do bilhetinho, que ele agora inventou e que se tornaria ridiculamente fatal, quando Nuno Valente, acabado de entrar, em vez de ir logo ocupar o seu flanco, por onde o Gil Vicente desencadeava o ataque que resultaria no primeiro golo, ficou preocupado em ir à procura do Deco, qual estafeta da DHL, e entregar-lhe o bilhetinho fatal. A imagem do Deco a ler o bilhetinho ( já desactualizado por força das circunstâncias) , no momento em que a bola vai ao centro depois do golo do Gil e os jogadores do Porto estão de crista caída, é das tais que valem por mil palavras. Enfim, era bom acabar o campeonato sem derrotas mas...fica para o ano!
Entretanto, o que é preciso é que amanhã, em Lyon, o FC Porto não deixe fugir a oportunidade de ouro de o futebol português cometer a impensável proeza de ter uma sua equipa entre as quatro melhores do ano na Europa.
3- Continuam as investigações sobre o sistema. As atenções estão agora viradas para o árbitro que esteve em Braga, no teatro dos sonhos, domingo passado.
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
quarta-feira, abril 14, 2004
quarta-feira, março 31, 2004
Provavelmente o melhor central do mundo ( 30 Março 2004)
1 Bastou-me ver jogar o Ricardo Carvalho a primeira vez para perceber que estava ali um digno sucessor do inesquecível Aloísio na defesa do FC Porto e um futuro central de dimensão europeia. Empurrado por umerro cometido no seu jogo de estreia a titular e também tapado por Aloísio e Jorge Costa, Ricardo viria ser, talvez injustamente, emprestado para rodar no Setúbal. A reforma de Aloísio (antes de tempo, quanto a mim), trouxe-o de regresso ao FC Porto e, de então para cá, Ricardo Carvalho cresceu a cada jogo que passou, melhorando sempre, mesmo quando já não parecia haver mais campo por onde melhorar, ao ponto de hoje ter atingido o mais próximo possível daquilo que alguém, na sua esfera de competência própria, pode estar da perfeição. Terçafeira passada vi-o encher o campo, no jogo contra o Lyon, controlando todas as manobras defensivas da equipa com classe, autoridade, estilo e eficácia tremendas, dando-se ainda ao luxo de marcar o golo porventura decisivo da eliminatória. De facto, como alguém já escreveu, esgotam- se os adjectivos, semana a semana, para classificar as exibições de Ricardo Carvalho. Não vejo ninguém, entre todas as equipas europeias de topo, que tenha um central ao seu nível. Desconheço o que se passa no resto do planeta, mas não é muito arriscado dizer que ele é provavelmente o melhor central do mundo na actualidade. Pelo menos, a «Gazzetta dello Sport» classificou-o como o melhor europeu, nesta fase da Liga dos Campeões. Como se sabe, Ricardo Carvalho esteve fora das convocatórias de Scolari até ter constado com insistência que o mesmo jogador que o selecionador português desprezava , a benefício de Fernando Couto, Jorge Andrade, Beto ou Fernando Meira, estava nos planos do super-Real Madrid. A partir daí, Ricardo começou finalmente a ser convocado, mas como suplente de Couto e Jorge Andrade. Para mim, como portista, até é melhor que Scolari o poupe no Europeu, para ele estar mais fresco na próxima época (se continuar no FC Porto). Agora, como português, como alguém que gosta de futebol e como alguém a quem incomodam injustiças gritantes, considero inqualificável deixar Ricardo Carvalho no banco de suplentes durante o Europeu.
2 A talho de fouce, vem também a já tão falada exclusão de Vítor Baía – também ele distinguido pela «Gazzetta dello Sport» como o melhor guarda- redes desta fase da Liga dos Campeões. Baía está a realizar uma época simplesmente brilhante, exibindo classe, calma e confiança em todos os jogos e todos os ambientes, por mais difíceis que sejam.Opaís inteiro sabe e vê semanalmente que Baía é actualmente o guarda-redes português em melhor forma, seguido do Moreira. Ele é, além disso e desde sempre, o único que temos que domina por completo o jogo aéreo, com um tempo de saída perfeito e uma calma que chega a parecer arrogância aos adversários. Como tudo o indica, Baía vai ser excluído do Europeu, por razões pessoais do seleccionador, que nunca ninguém entendeu, mas que obviamente não têm que ver com ele mas com o clube que representa – como o provou a célebre provocação de chamar à Selecção o terceiro guarda-redes do FC Porto, para o fazer jogar um minuto e evidentemente desaparecer das convocatórias desde então e para todo o sempre. Scolari vai portanto, mantendo a sua soberba, optar por Ricardo e Quim – qualquer deles com quase o dobro de golos sofridos no campeonato em relação a Baía. Apesar de ser de bom e patrioteiro tom prestar tributo, se não mesmo vassalagem a Scolari, é necessário ter a coragem de dizer que a exclusão de Baía é um acto determinado por exclusivas razões pessoais, que seguramente não são recomendáveis. Vítor Baía tem uma longa e prestigiosa carreira ao serviço do futebol e da Selecção de Portugal. Scolari, ao fim de mais de um ano – veremos o que consegue amanhã, contra a Itália – tem apenas no currículo ao serviço da Selecção, além de uma histórica derrota com a Espanha, uma série de jogos inconsequentes, alguns piores, outros menos maus.
3 Algúem, já não recordo quem, atacou-me há dias, por eu ter escrito que nas competições europeias há uma tendência das arbitragens para favorecerem, sobretudo nas fases decisivas, os clubes dos países mais ricos – Inglaterra, Espanha, Itália. Penso que o crítico terá metido a viola ao saco, quando viu o árbitro e o juiz-de-linha do Inter- Benfica fazerem vista grossa a uma entrada de Toldo sobre Sokota a pontapé, que teria ditado obrigatoriamente penalty e expulsão do guarda-redes italiano e, muito provavelmente, outro desfecho na eliminatória. Embora o Benfica se possa queixar e com razão e lhe fosse legítimo esperar outro resultado, não fosse esse clamoroso erro de arbitragem, a verdade também é que não foi por causa disso que morreu na praia, depois de ter conseguido o mais dificil que foi começar a ganhar e marcar três golos em S. Siro. E não foi, primeiro porque o gesto totalmente inesperado de Toldo não resultou de nenhuma jogada de perigo do Benfica, foi sim totalmente gratuito e sem sentido algum: diferente seria, por exemplo, um erro de arbitragem que tivesse deixado pormarcar um penalty. E não foi, em segundo lugar, porque, como se tornou visivel para todos, o Benfica entrou a segunda parte remetido à defesa, de onde não saiu durante mais de 15 minutos, com um meio-campo claramente fora da luta e a equipa sem reação, parecendo esperar apenas que o tempo passasse. Vi o jogo na companhia de dois amigos benfiquistas, um defensor de Camacho, o outro seu crítico.Mas o que nos pareceu evidente a todos é que Camacho durou uma eternidade a dar-se conta de que tinha de fazer alguma coisa -–nem sequer a entrada do Recoba pareceu incomodá- lo – e acabou por só reagir quando já tinha o jogo perdido. Eu registei a ironia dele, afirmando que isso são coisas que só os «entendidos vêm, um treinador, quando perde, não entende nada». Talvez que, como se diz no «bridge », quem está de fora vê sempre melhor, mas a verdade é que eu me habituei a distinguir os treinadores pela forma como eles reagem aos acontecimentos de um jogo: os bons reagem antes que o mal aconteça, os outros reagem só depois e vão sempre atrás do prejuízo.
4 Sporting e FC Porto ganharam esta semana os seus jogos caseiros in-extremis e graças a um erro de arbitragem. Aparentemente as duas situações são idênticas, pelo menos nas suas consequências: provavelmente nenhum dos dois teria ganho sem os erros de que beneficiaram. Mas, apesar de tudo, há diferenças que não são de detalhe. No erro que beneficiou o Sporting foi o próprio golo que foi irregular, por off-side de posição do seu autor; no erro a favor do FC Porto, o golo não foi irregular (foi, aliás, lindo), o que não existiu foi a falta que lhe deu origem. Mas não basta que um árbitro marque um livre perigoso por falta inexistente: é ainda necessário convertê- lo – que o diga o Deco, que este ano já deve ir em mais de uma centena de tentativas falhadas e que, se tem ficado em campo até final, no domingo, ainda a esta hora estaria a tentar converter o livre que o Carlos Alberto converteu. Ou seja, há erros de arbitragem que são consequência directa e necessária de golos e há outros que são apenas consequência indirecta. Digo isto, porque vi o destaque que alguma imprensa desportiva se apressou a dar ao erro que favoreceu o FC Porto, que alguns chamaram mesmo para título da notícia do jogo. Curiosamente, porém, não os vi, no último FC Porto-Manchester, dar idêntico destaque ao livre erradamente assinalado pelo árbitro e que proporcionou o único golo do Manchester. Critérios... Mas há ainda outra diferença: aqui está um portista a reconhecer que o meu clube ganhou um jogo graças a um livre mal assinalado. Não estou nem a pretender que o erro não existiu, nem a queixar-me de uma arbitragem sem razões para queixa, nem a pedir que façam uma investigação ao árbitro porque ele prejudicou o Porto – quando, por exemplo, não expulsou o guarda-redes do Moreirense que derrubou o Maciel quando este ia isolado para o golo (é, aliás regra com que eu não concordo – penalty e expulsão- porque me parece castigo excessivo.Mas a verdade é que a regra existe e uns árbitros aplicam-na e outros não, abrindo espaço para toda a discricionaridade de critérios).
2 A talho de fouce, vem também a já tão falada exclusão de Vítor Baía – também ele distinguido pela «Gazzetta dello Sport» como o melhor guarda- redes desta fase da Liga dos Campeões. Baía está a realizar uma época simplesmente brilhante, exibindo classe, calma e confiança em todos os jogos e todos os ambientes, por mais difíceis que sejam.Opaís inteiro sabe e vê semanalmente que Baía é actualmente o guarda-redes português em melhor forma, seguido do Moreira. Ele é, além disso e desde sempre, o único que temos que domina por completo o jogo aéreo, com um tempo de saída perfeito e uma calma que chega a parecer arrogância aos adversários. Como tudo o indica, Baía vai ser excluído do Europeu, por razões pessoais do seleccionador, que nunca ninguém entendeu, mas que obviamente não têm que ver com ele mas com o clube que representa – como o provou a célebre provocação de chamar à Selecção o terceiro guarda-redes do FC Porto, para o fazer jogar um minuto e evidentemente desaparecer das convocatórias desde então e para todo o sempre. Scolari vai portanto, mantendo a sua soberba, optar por Ricardo e Quim – qualquer deles com quase o dobro de golos sofridos no campeonato em relação a Baía. Apesar de ser de bom e patrioteiro tom prestar tributo, se não mesmo vassalagem a Scolari, é necessário ter a coragem de dizer que a exclusão de Baía é um acto determinado por exclusivas razões pessoais, que seguramente não são recomendáveis. Vítor Baía tem uma longa e prestigiosa carreira ao serviço do futebol e da Selecção de Portugal. Scolari, ao fim de mais de um ano – veremos o que consegue amanhã, contra a Itália – tem apenas no currículo ao serviço da Selecção, além de uma histórica derrota com a Espanha, uma série de jogos inconsequentes, alguns piores, outros menos maus.
3 Algúem, já não recordo quem, atacou-me há dias, por eu ter escrito que nas competições europeias há uma tendência das arbitragens para favorecerem, sobretudo nas fases decisivas, os clubes dos países mais ricos – Inglaterra, Espanha, Itália. Penso que o crítico terá metido a viola ao saco, quando viu o árbitro e o juiz-de-linha do Inter- Benfica fazerem vista grossa a uma entrada de Toldo sobre Sokota a pontapé, que teria ditado obrigatoriamente penalty e expulsão do guarda-redes italiano e, muito provavelmente, outro desfecho na eliminatória. Embora o Benfica se possa queixar e com razão e lhe fosse legítimo esperar outro resultado, não fosse esse clamoroso erro de arbitragem, a verdade também é que não foi por causa disso que morreu na praia, depois de ter conseguido o mais dificil que foi começar a ganhar e marcar três golos em S. Siro. E não foi, primeiro porque o gesto totalmente inesperado de Toldo não resultou de nenhuma jogada de perigo do Benfica, foi sim totalmente gratuito e sem sentido algum: diferente seria, por exemplo, um erro de arbitragem que tivesse deixado pormarcar um penalty. E não foi, em segundo lugar, porque, como se tornou visivel para todos, o Benfica entrou a segunda parte remetido à defesa, de onde não saiu durante mais de 15 minutos, com um meio-campo claramente fora da luta e a equipa sem reação, parecendo esperar apenas que o tempo passasse. Vi o jogo na companhia de dois amigos benfiquistas, um defensor de Camacho, o outro seu crítico.Mas o que nos pareceu evidente a todos é que Camacho durou uma eternidade a dar-se conta de que tinha de fazer alguma coisa -–nem sequer a entrada do Recoba pareceu incomodá- lo – e acabou por só reagir quando já tinha o jogo perdido. Eu registei a ironia dele, afirmando que isso são coisas que só os «entendidos vêm, um treinador, quando perde, não entende nada». Talvez que, como se diz no «bridge », quem está de fora vê sempre melhor, mas a verdade é que eu me habituei a distinguir os treinadores pela forma como eles reagem aos acontecimentos de um jogo: os bons reagem antes que o mal aconteça, os outros reagem só depois e vão sempre atrás do prejuízo.
4 Sporting e FC Porto ganharam esta semana os seus jogos caseiros in-extremis e graças a um erro de arbitragem. Aparentemente as duas situações são idênticas, pelo menos nas suas consequências: provavelmente nenhum dos dois teria ganho sem os erros de que beneficiaram. Mas, apesar de tudo, há diferenças que não são de detalhe. No erro que beneficiou o Sporting foi o próprio golo que foi irregular, por off-side de posição do seu autor; no erro a favor do FC Porto, o golo não foi irregular (foi, aliás, lindo), o que não existiu foi a falta que lhe deu origem. Mas não basta que um árbitro marque um livre perigoso por falta inexistente: é ainda necessário convertê- lo – que o diga o Deco, que este ano já deve ir em mais de uma centena de tentativas falhadas e que, se tem ficado em campo até final, no domingo, ainda a esta hora estaria a tentar converter o livre que o Carlos Alberto converteu. Ou seja, há erros de arbitragem que são consequência directa e necessária de golos e há outros que são apenas consequência indirecta. Digo isto, porque vi o destaque que alguma imprensa desportiva se apressou a dar ao erro que favoreceu o FC Porto, que alguns chamaram mesmo para título da notícia do jogo. Curiosamente, porém, não os vi, no último FC Porto-Manchester, dar idêntico destaque ao livre erradamente assinalado pelo árbitro e que proporcionou o único golo do Manchester. Critérios... Mas há ainda outra diferença: aqui está um portista a reconhecer que o meu clube ganhou um jogo graças a um livre mal assinalado. Não estou nem a pretender que o erro não existiu, nem a queixar-me de uma arbitragem sem razões para queixa, nem a pedir que façam uma investigação ao árbitro porque ele prejudicou o Porto – quando, por exemplo, não expulsou o guarda-redes do Moreirense que derrubou o Maciel quando este ia isolado para o golo (é, aliás regra com que eu não concordo – penalty e expulsão- porque me parece castigo excessivo.Mas a verdade é que a regra existe e uns árbitros aplicam-na e outros não, abrindo espaço para toda a discricionaridade de critérios).
sábado, março 27, 2004
O jogo da época ( 25 Março 2004)
1. Para todos os clubes e todos os anos, costuma-se dizer que há um «jogo da época », que é aquele em que se joga o tudo ou nada. Para o FC Porto, por exemplo, no ano passado, o jogo da época foi – visto agora à distância – a final de Sevilha, que lhe permitiu trazer para Portugal, pela primeira vez, a Taça UEFA. Mas a verdade é que não há apenas um jogo da época, há vários, à medida que se vai progredindo no caminho da vitória. Nesse sentido, antes do jogo de Sevilha, houve vários outros jogos da época para o FC Porto, nomeadamente, os que lhe permitiram abrir caminho para Sevilha e, em particular, os jogos das meias-finais contra a Lazio, que conduziram directamente ao Olímpico de Sevilha. Por isso, o «jogo da época» que o FC Porto joga esta noite contra o Lyon, só o é porque, antes disso, enfrentou e venceu outros jogos da época, como o foram os jogos contra o Manchester e antes contra o Marselha, que permitiram ultrapassar a fase de grupos da Liga dos Campeões. E se, como tantos desejamos, a partir desta noite, o FC Porto desbravar o caminho para a eliminação do Lyon, seguir-se-ão dois novos jogos que significarão essa possibilidade incrível de atingir a final de Geselkirchen. Mas não nos precipitemos: o Lyon vai se um obstáculo tremendo e, muito embora eu mantenha que o sorteio foi feliz com o FC Porto, uma coisa é a teoria, outra a prática. Olhando para o que mudou em 15 dias, no panorama europeu, hoje, por exemplo, talvez fosse melhor que tivesse saído ao Porto um Real Madrid em crise de nítido cansaço, do que este Lyon carregado de ambição e de uma falsa humildade que assusta. A verdade é que só um grande Porto, o Porto da noite contra o Manchester, poderá levar de vencida a equipa surpresa desta edição da Liga dos Campeões. Ambição por ambição, ambas as equipes se equivalem (esse é um dos maiores méritos de José Mourinho, ter construído uma equipa insaciável, que nunca parece cansada de querer ganhar). Pena é que estes 15 dias, desde Manchester, não tenham sido suficientes para recuperar jogadores importantes como Jorge Costa e Pedro Mendes, e que o rol de indisponíveis do FC Porto para esta fase decisiva da época continue a ser tão extenso e tão importante. Desde Manchester, o FC Porto disputou dois jogos, ambos decisivos no desenrolar das respectivas competições: a vitória contra o Boavista, no Dragão, representou, em minha opinião, a machadada decisiva na questão do título – com consequências imediatas na desmoralização revelada pelo Sporting; e a vitória em Braga foi o passaporte que faltava para a final da Taça, depois da vitória também contra o Boavista e da vitória em Vila do Conde, onde o Sporting agora tropeçou com estrondo. Volto a dizer que, ao contrário do Benfica, não foi fácil o percurso do FC Porto até à final da Taça e, por isso, e porque foi trilhado em plena época de decisão do Campeonato e da Liga dos Campeões, tem um valor acrescido e raro. Muito poucas seriam as equipas que, na situação do FC Porto não caíssem na tentação de descurar ou abandonar a menos importante das competições em disputa, como forma de salvaguardar as outras. A grande imagem de marca deste FC Porto é nunca abrir mão de nada. Entretanto, e como já foi referido por outros, estranhei a dureza, a roçar a violência, com que o Braga encarou o jogo. Uma coisa era o desejo intenso de ganhar, de ser o primeiro a vergar o Porto este ano e de chegar à final e garantir a Europa. Outra coisa foi a atitude adoptada para tal que, sabendo-se que os jogadores portistas se queriam logicamente precaver de mais lesões antes do jogo com o Lyon, chegou a revestir aspectos de estratégia de intimidação, pensada friamente. De novo, só uma grande equipa, capaz de se alhear dos ambientes, conseguiria resistir àquela fúria competitiva que, por vezes, como disse Mourinho, esteve «além dos limites», com uma complacente arbitragem. Foi das vitórias do Porto que mais gozo me deram este ano.
2. O Benfica apanhará ainda o Sporting? Eis uma pergunta impensável há umas semanas atrás. No trio da frente, o que era lógico é que Benfica e Porto, sobrecarregados de jogos, fossem perdendo pontos paulatinamente para um Sporting limitado à obrigação de jogar uma vez por semana. Ainda por cima, um Sporting que tem melhor equipa que o Benfica e que, como tantas vezes tem sido recordado, já leva mais pontos esta época do que nas doze ou quinze anteriores. Mas o monumental estoiro do Sporting em Vila do Conde pode vir a ter efeitos psicológicos imprevistos e que, aliados a um calendário final que é tudo menos fácil, ainda é capaz de proporcionar um volte-face nos lugares de honra que poucos ou nenhuns ousavam prever. Tinha graça, uma infinita graça, que, depois de tantos anos a ouvir dizer que a amizade com o FC Porto significava o abraço da morte – triunfos para os portistas e derrotas para os amigos de ocasião – agora se constatasse que a súbita aliança de Dias da Cunha com Filipe Vieira, unidos contra o «sistema» e o FC Porto, conduzisse no curto prazo ao afundamento do Sporting. E se os leões terminarem em terceiro lugar, afastados da possibilidade de qualificação para a Liga dos Campeões, e a dez ou doze pontos do FC Porto, vão precisar de um saco muito grande para lá enfiarem várias violas. Os «roubos» de Barcelos ou do Funchal, o «sistema no seu esplendor», a camisola rasgada do Mourinho, «fatwa» sobre o Rui Jorge, tudo isso se tornará fatalmente, aos olhos dos sportinguistas, o que já era aos olhos dos outros: ridículas desculpas de maus perdedores. Eis um bom motivo para que o Sporting não perca a motivação daqui até final do Campeonato.
3. José Veiga na administração da SAD ou à frente do futebol do Benfica, coloca, de facto, questões interessantes. Sabendo-se que Camacho prefere os jogadores que vêm através do seu empresário espanhol e que José Veiga prefere, logicamente, os seus próprios jogadores, como se entenderão os dois – haverá um Tordesilhas entre ambos? E os que não forem jogadores nem de um nem de outro empresário, que destino terão: serão obrigados a assinar por José Veiga ou terão de seguir (com vantagens pessoais óbvias) o mesmo caminho de Maniche? Eis o tipo de coisa que, na gestão de João Vale e Azevedo, teria já dado direito a uma longa série de interpelações de «notáveis» do Benfica...
2. O Benfica apanhará ainda o Sporting? Eis uma pergunta impensável há umas semanas atrás. No trio da frente, o que era lógico é que Benfica e Porto, sobrecarregados de jogos, fossem perdendo pontos paulatinamente para um Sporting limitado à obrigação de jogar uma vez por semana. Ainda por cima, um Sporting que tem melhor equipa que o Benfica e que, como tantas vezes tem sido recordado, já leva mais pontos esta época do que nas doze ou quinze anteriores. Mas o monumental estoiro do Sporting em Vila do Conde pode vir a ter efeitos psicológicos imprevistos e que, aliados a um calendário final que é tudo menos fácil, ainda é capaz de proporcionar um volte-face nos lugares de honra que poucos ou nenhuns ousavam prever. Tinha graça, uma infinita graça, que, depois de tantos anos a ouvir dizer que a amizade com o FC Porto significava o abraço da morte – triunfos para os portistas e derrotas para os amigos de ocasião – agora se constatasse que a súbita aliança de Dias da Cunha com Filipe Vieira, unidos contra o «sistema» e o FC Porto, conduzisse no curto prazo ao afundamento do Sporting. E se os leões terminarem em terceiro lugar, afastados da possibilidade de qualificação para a Liga dos Campeões, e a dez ou doze pontos do FC Porto, vão precisar de um saco muito grande para lá enfiarem várias violas. Os «roubos» de Barcelos ou do Funchal, o «sistema no seu esplendor», a camisola rasgada do Mourinho, «fatwa» sobre o Rui Jorge, tudo isso se tornará fatalmente, aos olhos dos sportinguistas, o que já era aos olhos dos outros: ridículas desculpas de maus perdedores. Eis um bom motivo para que o Sporting não perca a motivação daqui até final do Campeonato.
3. José Veiga na administração da SAD ou à frente do futebol do Benfica, coloca, de facto, questões interessantes. Sabendo-se que Camacho prefere os jogadores que vêm através do seu empresário espanhol e que José Veiga prefere, logicamente, os seus próprios jogadores, como se entenderão os dois – haverá um Tordesilhas entre ambos? E os que não forem jogadores nem de um nem de outro empresário, que destino terão: serão obrigados a assinar por José Veiga ou terão de seguir (com vantagens pessoais óbvias) o mesmo caminho de Maniche? Eis o tipo de coisa que, na gestão de João Vale e Azevedo, teria já dado direito a uma longa série de interpelações de «notáveis» do Benfica...
A hora das decisões que restam ( 16 Março 2004)
1- Esta noite em Braga e amanhã na Luz decidem-se os finalistas da Taça de Portugal. Mais difíceis as tarefas de Braga e Porto — o quarto classificado do campeonato recebe o indiscutível primeiro mas contrabalança o seu menor poderio com as vantagens de jogar em casa e a muito maior frescura física que tem obrigação de mostrar (afinal de contas, os jogadores podem ser melhores ou piores mas a preparação física, essa depende apenas da capacidade de trabalho e sofrimento). E algum dia há-de ser, algum dia o FC Porto — que este ano ainda só foi batido no Mónaco pelo Milan e nas Antas por um inatingível Real Madrid—há-de tropeçar intramuros. Porque, por maior que sejam a vontade e a capacidade de resistência física, a concentração e a falta de lucidez hão-de falhar em alguma ocasião. Neste momento, em que já se pede a lua ao FC Porto, chegar à final da Taça com um percurso que não foi fácil, ganhar o campeonato e atingir as meias-finais da Liga dos Campeões, a somar à vitória inicial na Supertaça, é um resultado global que não fica aquém da época de ouro do ano que passou. A tarefa do Belenenses, que caminha a passos largos para a segunda divisão e, curiosamente, parece ter piorado substancialmente com os oito (!) reforços de Inverno que adquiriu, essa parece impossível, muito embora também possa e deve atrever-se a explorar o maior cansaço do Benfica. Quanto aos encarnados, esforço continuado à parte, saiu-lhe, no sorteio das meias-finais da Taça, a melhor das seis hipóteses possíveis, culminando um percurso de uma felicidade quase irrepetível, que lhe permitiu estar a um pequeno passo do Jamor sem nunca ter saído da Luz durante as eliminatórias. Mas, fora a sobrecarga de jogos, esta meia-final contra o Beleneneses vem na melhor altura para o Benfica, que finalmente começa a mostrar algum banco (Geovanni, Manuel Fernandes, João Pereira) e que frente ao Inter, e mesmo a espaços contra o Marítimo, mostrou o melhor futebol que se lhe viu este ano. Na Luz, contra o Inter, aconteceu ao Benfica o que havia acontecido uma semana antes ao Rosenborg: encontrou pela frente um guarda-redes que tudo defendeu. Mas o Inter, que já vai em três jogos consecutivos sem marcar um golo, não é forçosamente inultrapassável em San Siro e mesmo já com Vieri. É preciso que o Benfica jogue sem medo, como jogou na Luz, e seja capaz, pelo menos, de marcar um golo. Era bonito e era uma compensação merecida para o grande exército de adeptos benfiquistas, há tanto tempo afastados da emoção e do prazer das grandes noites europeias, como a de quinta-feira passada.
2- No sorteio da Liga dos Campeões o FC Porto, em minha opinião, também acertou na mouche, saindo-lhe a menos difícil das sete alternativas em jogo. E, de repente, da quase certa hipótese de não ir além dos oitavos-de-final—face à má sorte de um sorteio que lhe reservou o Manchester e simultaneamente a lesão do Derlei — o FC Porto passou para uma forte probabilidade de atingir as meias-finais. Mas falta passar o Lyon, que vai ser um obstáculo tremendo, e espero bem que a Liga não deixe de aceder ao pedido de ambos os clubes para adiar o Nacional-FC Porto, permitindo algum descanso aos portistas. Seria absolutamente impensável e injustificável que o não fizesse e, por isso, nem vale a pena especular sobre o assunto, cujo desfecho já deve ser conhecido hoje, quando este jornal sair para a rua.
3- Com a vitória sobre o Boavista — que era um dificílimo teste de resistência física e anímica depois da jornada histórica de Manchester — o FC Porto parece ter garantido definitivamente o título. Esperava muito mais do Boavista, não só pelo suposto factor de mobilização extra que representava o regresso de Jaime Pacheco mas também porque o Boavista não tinha nada a perder e tudo a ganhar. Mas afinal o que se viu foi o mesmo Boavista de sempre, o Boavista com a marca indelével de Jaime Pacheco. Um futebol feito de faltas sistemáticas, lesões simuladas e perdas de tempo, nenhuma apetência atacante e uma defesa do castelo assumida como única estratégia. Enfim, o futebol mais feio do campeonato. Só não se percebe é porque foi despedido Sanchez se ele se limitou, afinal, a herdar e repetir a fórmula de Pacheco, com ligeiramente piores resultados correspondentes a uma pior equipa recebida. E também não entendo porquê só recentemente é que alguns comentadores deram pelo tipo de futebol do Boavista e passaram a embirrar com ele: é o mesmo futebol de há anos para cá. Quando o Boavista foi campeão, há quatro anos atrás, escrevi aqui que tinha sido bom para o clube e mau para quem gosta de futebol. Mas como, nesse ano, o Sporting e o Benfica cedo ficaram afastados da luta pelo título e foi o FC Porto que amanteve até à penúltima jornada, terminando o campeonato a um ponto de distância e com uma vitória por 4-0 sobre o novo campeão, soltou-se um coro geral de elogios ao Boavista, que certamente teria desafinado se os vencidos tivessem sido outros.
4- E, se o FC Porto parece ter garantido o bicampeonato, o Sporting parece ter igualmente firme o segundo lugar e o correspondente acesso directo à Liga dos Campeões na próxima época. Apesar disso, e apesar de uma pontuação que, em várias épocas, seria suficiente para lhe garantir a liderança, é indisfarçável um sentimento de frustração entre o povo leonino. Porque um bom Sporting não chegou para fazer sombra ao FC Porto no campeonato, porque nas Antas foi claramente batido pelos portistas e em Alvalade só o não foi graças a um penalty inexistente e à célebre jogada que o antecedeu, porque na Taça foi eliminado em casa por uma equipa da 2.ª divisão e na UEFA por uma equipa que, embora estando a ser a surpresa da prova, não consta nem da terceira divisão europeia. E, sobretudo, porque neste Março de todas as decisões, enquanto portistas e benfiquistas mantêm em aberto as três frentes de competição e a adrenalina dos adeptos permanentemente carregada, os sportinguistas arrastam-se no único terreno de luta que lhes resta, sem outro objectivo aparente que não o de cumprirem as oito jornadas que restam, mantendo um olho vagamente vigilante sobre o Benfica e uma esperança mais que remota em sucessivos tropeções do FC Porto. Abaixo do terceiro lugar — também ele praticamente garantido ao Benfica—a luta pelo que resta de espaço europeu aparenta igualmente estar já decidida a favor do Braga e do Nacional, com o consequente afastamento de outros que tanto prometeram de início e rapidamente se deslumbraram: Beira-Mar e Marítimo e o tropeçante Boavista. O que resta por decidir resume-se assim aos lugares do inferno, onde existem quatro candidatos a ocuparem as duas vagas de despromação, além da já reservada ao Estrela da Amadora: Guimarães, Paços de Ferreira, Académica e, mais remotamente, o Alverca. Tirando este último caso (é aliás um milagre e um contra-senso a presença de uma equipa sem qualquer sustentação institucional como o Alverca na primeira divisão), todos os outros ameaçados estão na situação em que estão essencialmente por má gestão dos clubes. Não é um problema de treinadores nem de jogadores mas de gestões amadorísticas e incompetentes. Particularmente no caso do Vitória de Guimarães, é evidente que o problema principal chama-se Pimenta Machado e a solução tem de passar, mais tarde ou mais cedo, com descida ou sem descida, pelo fim do seu longo e exaurido reinado. Só o próprio ainda o não percebeu.
2- No sorteio da Liga dos Campeões o FC Porto, em minha opinião, também acertou na mouche, saindo-lhe a menos difícil das sete alternativas em jogo. E, de repente, da quase certa hipótese de não ir além dos oitavos-de-final—face à má sorte de um sorteio que lhe reservou o Manchester e simultaneamente a lesão do Derlei — o FC Porto passou para uma forte probabilidade de atingir as meias-finais. Mas falta passar o Lyon, que vai ser um obstáculo tremendo, e espero bem que a Liga não deixe de aceder ao pedido de ambos os clubes para adiar o Nacional-FC Porto, permitindo algum descanso aos portistas. Seria absolutamente impensável e injustificável que o não fizesse e, por isso, nem vale a pena especular sobre o assunto, cujo desfecho já deve ser conhecido hoje, quando este jornal sair para a rua.
3- Com a vitória sobre o Boavista — que era um dificílimo teste de resistência física e anímica depois da jornada histórica de Manchester — o FC Porto parece ter garantido definitivamente o título. Esperava muito mais do Boavista, não só pelo suposto factor de mobilização extra que representava o regresso de Jaime Pacheco mas também porque o Boavista não tinha nada a perder e tudo a ganhar. Mas afinal o que se viu foi o mesmo Boavista de sempre, o Boavista com a marca indelével de Jaime Pacheco. Um futebol feito de faltas sistemáticas, lesões simuladas e perdas de tempo, nenhuma apetência atacante e uma defesa do castelo assumida como única estratégia. Enfim, o futebol mais feio do campeonato. Só não se percebe é porque foi despedido Sanchez se ele se limitou, afinal, a herdar e repetir a fórmula de Pacheco, com ligeiramente piores resultados correspondentes a uma pior equipa recebida. E também não entendo porquê só recentemente é que alguns comentadores deram pelo tipo de futebol do Boavista e passaram a embirrar com ele: é o mesmo futebol de há anos para cá. Quando o Boavista foi campeão, há quatro anos atrás, escrevi aqui que tinha sido bom para o clube e mau para quem gosta de futebol. Mas como, nesse ano, o Sporting e o Benfica cedo ficaram afastados da luta pelo título e foi o FC Porto que amanteve até à penúltima jornada, terminando o campeonato a um ponto de distância e com uma vitória por 4-0 sobre o novo campeão, soltou-se um coro geral de elogios ao Boavista, que certamente teria desafinado se os vencidos tivessem sido outros.
4- E, se o FC Porto parece ter garantido o bicampeonato, o Sporting parece ter igualmente firme o segundo lugar e o correspondente acesso directo à Liga dos Campeões na próxima época. Apesar disso, e apesar de uma pontuação que, em várias épocas, seria suficiente para lhe garantir a liderança, é indisfarçável um sentimento de frustração entre o povo leonino. Porque um bom Sporting não chegou para fazer sombra ao FC Porto no campeonato, porque nas Antas foi claramente batido pelos portistas e em Alvalade só o não foi graças a um penalty inexistente e à célebre jogada que o antecedeu, porque na Taça foi eliminado em casa por uma equipa da 2.ª divisão e na UEFA por uma equipa que, embora estando a ser a surpresa da prova, não consta nem da terceira divisão europeia. E, sobretudo, porque neste Março de todas as decisões, enquanto portistas e benfiquistas mantêm em aberto as três frentes de competição e a adrenalina dos adeptos permanentemente carregada, os sportinguistas arrastam-se no único terreno de luta que lhes resta, sem outro objectivo aparente que não o de cumprirem as oito jornadas que restam, mantendo um olho vagamente vigilante sobre o Benfica e uma esperança mais que remota em sucessivos tropeções do FC Porto. Abaixo do terceiro lugar — também ele praticamente garantido ao Benfica—a luta pelo que resta de espaço europeu aparenta igualmente estar já decidida a favor do Braga e do Nacional, com o consequente afastamento de outros que tanto prometeram de início e rapidamente se deslumbraram: Beira-Mar e Marítimo e o tropeçante Boavista. O que resta por decidir resume-se assim aos lugares do inferno, onde existem quatro candidatos a ocuparem as duas vagas de despromação, além da já reservada ao Estrela da Amadora: Guimarães, Paços de Ferreira, Académica e, mais remotamente, o Alverca. Tirando este último caso (é aliás um milagre e um contra-senso a presença de uma equipa sem qualquer sustentação institucional como o Alverca na primeira divisão), todos os outros ameaçados estão na situação em que estão essencialmente por má gestão dos clubes. Não é um problema de treinadores nem de jogadores mas de gestões amadorísticas e incompetentes. Particularmente no caso do Vitória de Guimarães, é evidente que o problema principal chama-se Pimenta Machado e a solução tem de passar, mais tarde ou mais cedo, com descida ou sem descida, pelo fim do seu longo e exaurido reinado. Só o próprio ainda o não percebeu.
Esta noite em Manchester ( 9 Março 2004)
«Hoje à noite namorar, sem ter medo da saudade, sem vontade de casar...»
ELIS REGINA
1 Que hipóteses tem o FC Porto esta noite em Manchester? Sejamos realistas: poucas, quase nenhumas.OManchester é um potentado do futebolmundial, tem jogadores de outro mundo, um banco de suplentes que, só para o ataque, dispõe de Cristiano Ronaldo, Solskjaer e Diego Forlan, um orçamento que é dez vezes superior ao do FC Porto e 30 por cento superior à soma dos orçamentos de todos os clubes da I Divisão portuguesa, um estádio com 60.000 pessoas debruçadas sobre o relvado garantindo um ambiente infernal, onde é quase impossível manter a calma e a concentração, e, como se isso tudo não bastasse, esta noite, como habitualmente, o Manchester United vai ter ainda a seu favor os ventos da UEFA e umtimoneiro ao seu dispor. Para ter alguma remota hipótese de se opor a tudo isso, umFC Porto, ainda para mais desfalcado de algumas peças decisivas (ai, Derlei, malfadado jogo de Alverca...!), vai precisar de três coisas o tempo todo: frieza, coragem e sorte. Frieza para aguentar o ambiente, os cânticos e gritos constantes, a tentativa de pressão e de intimidação que os red devils, apoiados pela sua gente, vão tentar desde o primeiro minuto.OFC Porto lembra-se da experiência, desde a última vez que aqui esteve, emque, atordoado pelo ambiente, foi cilindrado antes mesmo de ter conseguido pegar na bola e mostrar que não era assim tão pior que o Manchester. Mas, quando o fez, já o destino estava indelevelmente traçado. Esta noite, e desde o primeiro minuto, o FC Porto vai ter de se lançar num combate de vida e morte contra a fatalidade do destino. Para tal, vai precisar de uma frieza de icebergue, como se fosse uma equipe de surdos tratados a Xanax, de olhos postos num objectivo que nada e ninguém conseguirá distrair. Depois, vai precisar de imensa coragem. Coragem para não recuar sistematicamente, para defender longe da área e do jogo aéreo, tipo rolo compressor do Manchester, e coragem para atacar sempre que puder, atacar sem descanso o lado fraco dos ingleses, que é o centro da defesa, e atacar com o único tipo de jogo que os desnorteia — os passes curtos e tabelinhas, os improvisos e malabarismos, o futebol de rodeio e imaginação, o samba e o vira. E não ter medo de provocar, investir, ferir o monstro. Enfim, vai precisar de muita sorte. Do tipo de sorte que o Manchester teve no Porto, ao perder apenas por 2-1 tendo feito umúnico remate à baliza e esse através de um livre. Mas também do outro tipo de sorte: é preciso que o árbitro não ofereça ao Manchester, como no Porto, um livre inexistente, ou um penalty já adivinhado, ou uma expulsão sem motivo ouumgolo anulado ao ataque do Porto sem razão. É preciso que o árbitro se esqueça de que oManchester vale infinitamente mais nos quartos-de-final da Liga dos Campeões do que uma simpática, mas pobre, equipa portuguesa. No ano passado, quando estive em Sevilha para a final da UEFA, tive ocasião de ver como se tratavam os funcionários do organismo: era oHotel Afonso XIII, um dos mais luxuosos de Espanha, posto por conta da comitiva uefeira, todas as salas de reuniões reservadas até três dias depois do jogo, salas de refeições exclusivas para as meninas e meninos da UEFA, um batalhão de carros e limousines estacionados por conta cá fora, enfim, uma panóplia de mordomias dignas de uma reunião dos sheiks da OPEP. Quem paga tudo isto, mais os seus magníficos ordenados? As transmissões televisivas. E pagam com que critério? Bom, pagam vinte vezes mais por um jogo doManchester do que por um jogo do FC Porto. Ora, é aqui que a questão se torna séria: para poder continuar a garantir os ordenados e o «train de vie» do pessoal da UEFA, é necessário, imperioso mesmo, que não haja muitos Davides a fazerem frente aos Golias. Sob pena de todo o negócio ficar comprometido. Digamos que, na Europa do futebol, existem uns sete magníficos, que integram o primeiro escalão e são, por si sós, a garantia da prosperidade do negócio: Real Madrid e Barcelona, Manchester e Arsenal, Juventus e Milan e Bayern de Munique. Depois, vem uma segunda divisão composta por Chelsea e Liverpool, Valência e Corunha, Inter, Roma e Lazio, PSG,Mónaco e Ajax. Depois, vem uma terceira divisão onde está o FC Porto, o Celtic, o PSV, o Lyon e o Bordéus, o Werder Bremen e o Eintracht de Frankfurt, o Galatasaray e o Spartak de Moscovo e mais algum clube «flutuante», que pode ser belga, sueco, checo, suíço ou austríaco. A segunda e terceira divisões europeias são essenciais para comporem a fase de grupos da Liga dos Campeões, mas a partir daí são despiciendas ou até prejudiciais e a UEFA deseja, ou recomenda mesmo, que tratem de desaparecer de cena a partir dos oitavos-de-final.Umclube da terceira divisão, como o FC Porto, conseguir chegar aos quartosde- final é uma proeza só repetível cada seis anos; conseguir chegar lá afastando um dos monstros sagrados, como o Milan, o Real ou o Manchester, é praticamente uma impossibilidade. É essa impossibilidade que esta noite se pede ao FC Porto.
2 Não deixa de ser notável que José Veiga, o ex da Casa do FC Porto no Luxemburgo, e o homem que jurou um dia que iria conseguir apear Pinto da Costa da Direcção do FC Porto para se vingar por ele ter vendido o Zahovic para o Valência, por iniciativa própria e em condições muitomais vantajosas para o clube, possa agora vir a ocupar-se institucionalmente do futebol doBenfica. Depois de um sportinguista a tratar da imagem, teremos agora um portista arrependido a tratar do futebol do Benfica!
3 A mesma agência que agora se ocupa da imagem do Benfica, vai-se ocupar também da imagem do Euro. E a mesma empresa que faz a imagem a Santana Lopes e à Câmara de Lisboa, a Durão Barroso e ao PSD para as eleições europeias, ganhou o concurso para a produção dos espectáculos de abertura e fecho do Euro-2004, apesar de, segundo o Expresso, o seu preço ser substancialmente superior a todos os apresentados pelos outros doze concorrentes. Para quem ainda se lembra da indecorosa cena do estado- maior do Benfica a apresentar- se, pela mão de Santana Lopes, a prestar vassalagem ao PSD, num jantar de campanha eleitoral para as legislativas, tudo isto cheira muito mal. Benfica- PSD-Câmara de Lisboa-Euro 2004: tudo a mesma luta?
4 Por falar em EURO-2004, vi esta semana uma entrevista com o coordenador da coisa, onde ele afirma que o Estado— entre comparticipação nos estádios, estacionamentos e acessibilidades— vai gastar «apenas» 180 milhões de euros (ou seja, 36 milhões de contos), com o Euro, os quais o Estado irá recuperar com o aumento do número de turistas e a promoção do País. Esperemos bem que recupere alguma coisa. Agora o que não deixa de ser extraordinário é que o senhor se esqueça de juntar às contas exactamente o dinheiro gasto em promoção do Euro, as despesas administrativas e de organização, as horas extras pagas à policia, aos médicos e a outros milhares de funcionários, e sobretudo, que tenha deixado de fora este dado eloquente: é que as verbas que cita referem-se à participação directa do Estado na construção dos estádios privados, que são quatro. Mas os outros seis estádios construídos ou reconstruídos para o Euro, são integralmente pagos pelas autarquias, mas, curiosamente, não entram nas suas contas. De onde virá, então, pergunto eu, o dinheiro das autarquias?
ELIS REGINA
1 Que hipóteses tem o FC Porto esta noite em Manchester? Sejamos realistas: poucas, quase nenhumas.OManchester é um potentado do futebolmundial, tem jogadores de outro mundo, um banco de suplentes que, só para o ataque, dispõe de Cristiano Ronaldo, Solskjaer e Diego Forlan, um orçamento que é dez vezes superior ao do FC Porto e 30 por cento superior à soma dos orçamentos de todos os clubes da I Divisão portuguesa, um estádio com 60.000 pessoas debruçadas sobre o relvado garantindo um ambiente infernal, onde é quase impossível manter a calma e a concentração, e, como se isso tudo não bastasse, esta noite, como habitualmente, o Manchester United vai ter ainda a seu favor os ventos da UEFA e umtimoneiro ao seu dispor. Para ter alguma remota hipótese de se opor a tudo isso, umFC Porto, ainda para mais desfalcado de algumas peças decisivas (ai, Derlei, malfadado jogo de Alverca...!), vai precisar de três coisas o tempo todo: frieza, coragem e sorte. Frieza para aguentar o ambiente, os cânticos e gritos constantes, a tentativa de pressão e de intimidação que os red devils, apoiados pela sua gente, vão tentar desde o primeiro minuto.OFC Porto lembra-se da experiência, desde a última vez que aqui esteve, emque, atordoado pelo ambiente, foi cilindrado antes mesmo de ter conseguido pegar na bola e mostrar que não era assim tão pior que o Manchester. Mas, quando o fez, já o destino estava indelevelmente traçado. Esta noite, e desde o primeiro minuto, o FC Porto vai ter de se lançar num combate de vida e morte contra a fatalidade do destino. Para tal, vai precisar de uma frieza de icebergue, como se fosse uma equipe de surdos tratados a Xanax, de olhos postos num objectivo que nada e ninguém conseguirá distrair. Depois, vai precisar de imensa coragem. Coragem para não recuar sistematicamente, para defender longe da área e do jogo aéreo, tipo rolo compressor do Manchester, e coragem para atacar sempre que puder, atacar sem descanso o lado fraco dos ingleses, que é o centro da defesa, e atacar com o único tipo de jogo que os desnorteia — os passes curtos e tabelinhas, os improvisos e malabarismos, o futebol de rodeio e imaginação, o samba e o vira. E não ter medo de provocar, investir, ferir o monstro. Enfim, vai precisar de muita sorte. Do tipo de sorte que o Manchester teve no Porto, ao perder apenas por 2-1 tendo feito umúnico remate à baliza e esse através de um livre. Mas também do outro tipo de sorte: é preciso que o árbitro não ofereça ao Manchester, como no Porto, um livre inexistente, ou um penalty já adivinhado, ou uma expulsão sem motivo ouumgolo anulado ao ataque do Porto sem razão. É preciso que o árbitro se esqueça de que oManchester vale infinitamente mais nos quartos-de-final da Liga dos Campeões do que uma simpática, mas pobre, equipa portuguesa. No ano passado, quando estive em Sevilha para a final da UEFA, tive ocasião de ver como se tratavam os funcionários do organismo: era oHotel Afonso XIII, um dos mais luxuosos de Espanha, posto por conta da comitiva uefeira, todas as salas de reuniões reservadas até três dias depois do jogo, salas de refeições exclusivas para as meninas e meninos da UEFA, um batalhão de carros e limousines estacionados por conta cá fora, enfim, uma panóplia de mordomias dignas de uma reunião dos sheiks da OPEP. Quem paga tudo isto, mais os seus magníficos ordenados? As transmissões televisivas. E pagam com que critério? Bom, pagam vinte vezes mais por um jogo doManchester do que por um jogo do FC Porto. Ora, é aqui que a questão se torna séria: para poder continuar a garantir os ordenados e o «train de vie» do pessoal da UEFA, é necessário, imperioso mesmo, que não haja muitos Davides a fazerem frente aos Golias. Sob pena de todo o negócio ficar comprometido. Digamos que, na Europa do futebol, existem uns sete magníficos, que integram o primeiro escalão e são, por si sós, a garantia da prosperidade do negócio: Real Madrid e Barcelona, Manchester e Arsenal, Juventus e Milan e Bayern de Munique. Depois, vem uma segunda divisão composta por Chelsea e Liverpool, Valência e Corunha, Inter, Roma e Lazio, PSG,Mónaco e Ajax. Depois, vem uma terceira divisão onde está o FC Porto, o Celtic, o PSV, o Lyon e o Bordéus, o Werder Bremen e o Eintracht de Frankfurt, o Galatasaray e o Spartak de Moscovo e mais algum clube «flutuante», que pode ser belga, sueco, checo, suíço ou austríaco. A segunda e terceira divisões europeias são essenciais para comporem a fase de grupos da Liga dos Campeões, mas a partir daí são despiciendas ou até prejudiciais e a UEFA deseja, ou recomenda mesmo, que tratem de desaparecer de cena a partir dos oitavos-de-final.Umclube da terceira divisão, como o FC Porto, conseguir chegar aos quartosde- final é uma proeza só repetível cada seis anos; conseguir chegar lá afastando um dos monstros sagrados, como o Milan, o Real ou o Manchester, é praticamente uma impossibilidade. É essa impossibilidade que esta noite se pede ao FC Porto.
2 Não deixa de ser notável que José Veiga, o ex da Casa do FC Porto no Luxemburgo, e o homem que jurou um dia que iria conseguir apear Pinto da Costa da Direcção do FC Porto para se vingar por ele ter vendido o Zahovic para o Valência, por iniciativa própria e em condições muitomais vantajosas para o clube, possa agora vir a ocupar-se institucionalmente do futebol doBenfica. Depois de um sportinguista a tratar da imagem, teremos agora um portista arrependido a tratar do futebol do Benfica!
3 A mesma agência que agora se ocupa da imagem do Benfica, vai-se ocupar também da imagem do Euro. E a mesma empresa que faz a imagem a Santana Lopes e à Câmara de Lisboa, a Durão Barroso e ao PSD para as eleições europeias, ganhou o concurso para a produção dos espectáculos de abertura e fecho do Euro-2004, apesar de, segundo o Expresso, o seu preço ser substancialmente superior a todos os apresentados pelos outros doze concorrentes. Para quem ainda se lembra da indecorosa cena do estado- maior do Benfica a apresentar- se, pela mão de Santana Lopes, a prestar vassalagem ao PSD, num jantar de campanha eleitoral para as legislativas, tudo isto cheira muito mal. Benfica- PSD-Câmara de Lisboa-Euro 2004: tudo a mesma luta?
4 Por falar em EURO-2004, vi esta semana uma entrevista com o coordenador da coisa, onde ele afirma que o Estado— entre comparticipação nos estádios, estacionamentos e acessibilidades— vai gastar «apenas» 180 milhões de euros (ou seja, 36 milhões de contos), com o Euro, os quais o Estado irá recuperar com o aumento do número de turistas e a promoção do País. Esperemos bem que recupere alguma coisa. Agora o que não deixa de ser extraordinário é que o senhor se esqueça de juntar às contas exactamente o dinheiro gasto em promoção do Euro, as despesas administrativas e de organização, as horas extras pagas à policia, aos médicos e a outros milhares de funcionários, e sobretudo, que tenha deixado de fora este dado eloquente: é que as verbas que cita referem-se à participação directa do Estado na construção dos estádios privados, que são quatro. Mas os outros seis estádios construídos ou reconstruídos para o Euro, são integralmente pagos pelas autarquias, mas, curiosamente, não entram nas suas contas. De onde virá, então, pergunto eu, o dinheiro das autarquias?
O orgulho da Nação( 2 Março 2004)
1. É nestas alturas que eu chego a ter dó de todos os arautos do «sistema», dos que vivem uma vida inteira a insinuar, a dizer, a repetir até à náusea, que são eles a melhor equipa, é deles o melhor futebol e só não são campeões crónicos porque o malfadado «sistema» está deturpado para desvirtuar a verdade e fazer do FC Porto um eterno «campeão de secretaria» - sem valor, nem mérito, nem categoria que o justifique. E tenho pena deles, porque em teoria podemos sempre continuar a discutir, sem jamais chegar a consenso algum, questões subjectivas como a de saber quem é habitualmente mais prejudicado pelas arbitragens e quem é mais beneficiado. Por absurdo, entre nós, até se conseguem discutir os factos estatísticos, como o de saber quem foi contemplado com mais penalties a favor, mais expulsões dos adversários, mais e mais longos castigos decretados pelo CD da Liga. Mas, quando chega a altura em que o FC Porto mostra que é capaz de jogar a um nível igual ou superior a uma Lazio, um Milan, um Celtic, um Marselha, um Real Madrid ou um Manchester United, quando mostra que é capaz de regularmente ultrapassar a primeira fase da Liga dos Campeões ou levar até ao fime até à glória a maratona da Taça UEFA, quando vemos os outros a baterem-se desesperadamente pelo segundo lugar no Campeonato porque ele, graças aos pontos conquistados pelo FC Porto, pode dar acesso à Liga dos Campeões, nessas alturas o que resta de argumentos às carpideiras de sempre? O que resta do «sistema», quando vemos o F C Porto reagir a um golo injusto do Manchester, resultante de um livre inexistente e, mesmo assim, continuar, como se nada fosse, a lutar com «coragem e alegria» pela vitória, como nenhuma outra equipa portuguesa seria capaz de fazer (este fim-de-semana, o «despudorado sistema» também fabricou um livre inexistente que permitiu ao Sporting vencer o Marítimo, mas isso é outra conversa...). Quem viu a exibição do FC Porto contra o Manchester e, mesmo assim, continua a insistir na nauseante explicação do sistema para justificar a superioridade interna do Porto, ou é desonesto intelectualmente ou é um caso patológico de inveja incurável. Quarta-feira passada, como tantas outras vezes ao longo dos últimos anos, o FC Porto foi o orgulho da nação futobolística e só os medíocres e os cegos de inveja é que o não reconhecem. Estamos a falar de um futebol a outro nível, ao nível mais alto, um futebol de uma galáxia que não tem nada a ver com as maledicências, as questiúnculas e as mediocridades armadas em grandes senhorias que por cá vegetam.
2. Há oito dias atrás, eu desejei e previ que, face à hecatombe de indisponíveis para o sector atacante, José Mourinho se atrevesse a romper com os cânones habituais da «escola táctica» portuguesa e ousasse apostar no «miúdo» Carlos Alberto. Felizmente, ele pensou o mesmo que eu e o resultado ficou à vista para todos, excepto para os comentadores da RTP, que não se cansaram de dizer que o Carlos Alberto estava a «emperrar todo o jogo ofensivo do FC Porto». Lá fora, porém, não se enganaram na análise: os ingleses escreveram que o Carlos Alberto pôs a cabeça em água à defesa do Manchester, o L’Équipe chamou-lhe «o prodígio brasileiro» e a Marca escreveu que ele «empurrou todo o jogo de ataque do FC Porto».Há coisas tão evidentes que até custa a compreender como é que «especialistas » as não vêem.
3. Outra coisa evidente, para mim, foi o empenho, o desejo, a esperança, que a nossa comunicação social pôs em que Mourinho castigasse «exemplarmente » o McCarthy pela sua noitada em Vigo. Queriam, porventura, um novo caso Jorge Costa, com o qual Octávio acabou de liquidar a então equipa do FC Porto. Tanta insistência no castigo interno a McCarthy não era inocente, mas Mourinho não se deixou ir na conversa, soube resolver o problema internamente e McCarthy mostrou contra o Manchester que valeu a pena não ceder ao canto das sereias. Com um simples jogo, mas visto por uns 200 milhões de pessoas no Mundo inteiro, ele e Carlos Alberto passaram de ilustres desconhecidos a apetecíveis troféus de caça dos tubarões mundiais.
4. O FC Porto-Manchester United, na RTP, fez 32,2 de audiência, 49,6 de share, esmagando tudo à volta. Durante a época em curso, aliás, dos seis jogos mais vistos na televisão portuguesa, cinco tiveram a participação do FC Porto. Dois tiveram a participação do Benfica - a inauguração do novo estádio e o jogo contra o FC Porto. E um, entre os vinte primeiros, teve a participação do Sporting - o jogo das Antas, contra o FC Porto... Aqui fica uma lição para quem, como a RTP ou a Sport TV, entendeu que a transmissão dos jogos caseiros do FC Porto durante a campanha empolgante da Taça UEFA (incluindo a meia-final contra a Lazio), não era serviço público ou não merecia o interesse do público... Pois, uns têm seis milhões de adeptos e outros são os Grandes Senhores do futebol português. Mas, quando chega a altura de ver futebol a sério, as audiências preferem o tal clube do «sistema». Seremos todos estúpidos?
5. Talvez um dia me ocupe a comentar o texto que, sem me nomear, Miguel Ribeiro Teles me dedicou no penúltimo número da revista Doze e que, francamente, me entristeceu. Por ora, limitar-me-ei a dizer que o «fanatismo » de que ele me acusa é sempre fatalmente fanático aos olhos de outro fanático. Quando, por exemplo, ele me lança a gravíssima acusação de usar esta coluna para «degradar ainda mais o ambiente no futebol português», eu - que tenho apenas responsabilidades de adepto, nem de jornalista, nem de dirigente-pergunto-lhe se ele acha que as declarações incontinentes do presidente do seu clube contribuem para dignificar o ambiente? E dou-lhe outro exemplo sobre a bilateralidade das coisas e o «fanatismo» encapotado: no mesmo número da revista em que ele escreve, topei com nada menos do que três textos quase a lamentar que o Benfica-FC Porto tinha sido «um jogo sem casos nem polémicas». Pois não: o único caso que houve, e que as imagens televisivas mostraram claramente, foi o Argel a agarrar o Jorge Costa dentro da área, impedindo-o de cabeçearà baliza - ou seja, um estúpido penaltizinho por marcar. Mas como o prejudicado foi o FC Porto, a coisa passou à categoria de fait-divers, não-notícia, de facto menor destinado ao desaparecimento definitivo dos arquivos da história. Portanto, de facto, não houve caso e não houve polémica, apenas porque o Benfica não tinha caso e o FC Porto, que o tinha, prescindiu da polémica e ainda bem. Mas, pergunto: e se tem sido ao contrário? (Ainda esta semana vi, no Benfica-Moreirense, duas jogadas eloquentes, dentro da área do Benfica: na primeira, o Argel- que, pelos vistos já se acha impune - a agarrar descaradamente pela cintura um avançado contrário, até que o Moreira segurasse a bola; na outra, o Manuel a fintar o Ricardo Rocha para ficar isolado e a ser rasteirado por ele. Comentários do comentador de serviço: «Empate na disputa entre Argel e Manuel» e «temos aqui um lance em que o pé de Ricardo Rocha prende o pé de Manuel». E nada mais, nem mais uma palavra sobre o assunto. Dois penaltizinhos por marcar, dois fait-divers. Fanatismo? Não, o jornalismo desportivo lisboeta na sua versão habitual. Mas quando são os portistas a chamar a atenção para estas coisas é fanatismo. Porque será, pergunto ainda, que todos, todos sem excepção - jogadores ou treinadores- que chegaram ao FC Porto depois de terem passado pelos grandes de Lisboa, afirmam unanimemente três coisas: que no FC Porto se trabalha mais e melhor; que a organização é incomparávelmente melhor; e que, apesar disso, é muito mais difícil ganhar campeonatos no FC Porto do que no Sporting e no Benfica?
6. Pela segunda vez, vejo uma excelente entrevista do presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira - agora nas páginas deste jornal, a longa entrevista de sábado passado. Muitos falam e não cumprem, nomeadamente, quando apregoam a vontade de «dignificar» o futebol português. Ele mostra verdadeira vontade e cultura de cumprir. É impossível não acreditar na sua sinceridade, quando diz que o futebol tem de ser, e apenas, um espectáculo, um prazer, uma competição em que se perde e ganha e um local onde se pode levar a mulher e os filhos sem medo de se ser anavalhado. Em relação ao Benfica, a sua tarefa é gigantesca, imensa e longa. Mas não se vê outro caminho possível que não o da política dos pequenos passos. Sendo o futebol a chave de tudo, Vieira tem uma equipa profissional que, peço desculpa. mas volto a dizer que, excepção feita a Moreira e Simão, não tem categoria. Miguel ataca bem mas defende mal, o Tiago tem uns fogachos de vez em quando, o João Pereira é uma grande promessa mas que, por enquanto, ainda não é capaz de assegurar dois jogos bons de seguida, e o Mantorras é uma incógnita. Pelas minhas contas, para poder jogar a um nível verdadeiramente elevado, o Benfica precisa de outro guarda-redes que salvaguarde qualquer impedimento de Moreira, de três laterais, de um naipe completo de centrais - quatro -, de quatro médios, de um ala e de dois pontas-de-lança. Quinze jogadores. E quinze jogadores, muito bem prospectados (que é coisa que o Benfica, surpreendentemente, não tem sido capaz de fazer), custam, no mínimo uns seis milhões de euros ou doze milhões de contos. Dinheiro que o Benfica não tem, como não o tem qualquer outro clube português. Simplesmente, Porto e Sporting foram formando um núcleo duro de qualidade, gerindo as saídas e as entradas, alternando a idade com a juventude e as compras exteriores com o resultado das escolas de formação. E, enquanto o faziam, o Benfica perdia tempo e recursos a comprar jogadores de segundo plano ou em fim de carreira, esperando o milagre de conseguir fazer omeletas com ovos fora de prazo. Mas, como o mostra a entrevista de Vieira, ele sabe que os milagres não existem. Custam tempo, planeamento, organização, trabalho e dinheiro.
2. Há oito dias atrás, eu desejei e previ que, face à hecatombe de indisponíveis para o sector atacante, José Mourinho se atrevesse a romper com os cânones habituais da «escola táctica» portuguesa e ousasse apostar no «miúdo» Carlos Alberto. Felizmente, ele pensou o mesmo que eu e o resultado ficou à vista para todos, excepto para os comentadores da RTP, que não se cansaram de dizer que o Carlos Alberto estava a «emperrar todo o jogo ofensivo do FC Porto». Lá fora, porém, não se enganaram na análise: os ingleses escreveram que o Carlos Alberto pôs a cabeça em água à defesa do Manchester, o L’Équipe chamou-lhe «o prodígio brasileiro» e a Marca escreveu que ele «empurrou todo o jogo de ataque do FC Porto».Há coisas tão evidentes que até custa a compreender como é que «especialistas » as não vêem.
3. Outra coisa evidente, para mim, foi o empenho, o desejo, a esperança, que a nossa comunicação social pôs em que Mourinho castigasse «exemplarmente » o McCarthy pela sua noitada em Vigo. Queriam, porventura, um novo caso Jorge Costa, com o qual Octávio acabou de liquidar a então equipa do FC Porto. Tanta insistência no castigo interno a McCarthy não era inocente, mas Mourinho não se deixou ir na conversa, soube resolver o problema internamente e McCarthy mostrou contra o Manchester que valeu a pena não ceder ao canto das sereias. Com um simples jogo, mas visto por uns 200 milhões de pessoas no Mundo inteiro, ele e Carlos Alberto passaram de ilustres desconhecidos a apetecíveis troféus de caça dos tubarões mundiais.
4. O FC Porto-Manchester United, na RTP, fez 32,2 de audiência, 49,6 de share, esmagando tudo à volta. Durante a época em curso, aliás, dos seis jogos mais vistos na televisão portuguesa, cinco tiveram a participação do FC Porto. Dois tiveram a participação do Benfica - a inauguração do novo estádio e o jogo contra o FC Porto. E um, entre os vinte primeiros, teve a participação do Sporting - o jogo das Antas, contra o FC Porto... Aqui fica uma lição para quem, como a RTP ou a Sport TV, entendeu que a transmissão dos jogos caseiros do FC Porto durante a campanha empolgante da Taça UEFA (incluindo a meia-final contra a Lazio), não era serviço público ou não merecia o interesse do público... Pois, uns têm seis milhões de adeptos e outros são os Grandes Senhores do futebol português. Mas, quando chega a altura de ver futebol a sério, as audiências preferem o tal clube do «sistema». Seremos todos estúpidos?
5. Talvez um dia me ocupe a comentar o texto que, sem me nomear, Miguel Ribeiro Teles me dedicou no penúltimo número da revista Doze e que, francamente, me entristeceu. Por ora, limitar-me-ei a dizer que o «fanatismo » de que ele me acusa é sempre fatalmente fanático aos olhos de outro fanático. Quando, por exemplo, ele me lança a gravíssima acusação de usar esta coluna para «degradar ainda mais o ambiente no futebol português», eu - que tenho apenas responsabilidades de adepto, nem de jornalista, nem de dirigente-pergunto-lhe se ele acha que as declarações incontinentes do presidente do seu clube contribuem para dignificar o ambiente? E dou-lhe outro exemplo sobre a bilateralidade das coisas e o «fanatismo» encapotado: no mesmo número da revista em que ele escreve, topei com nada menos do que três textos quase a lamentar que o Benfica-FC Porto tinha sido «um jogo sem casos nem polémicas». Pois não: o único caso que houve, e que as imagens televisivas mostraram claramente, foi o Argel a agarrar o Jorge Costa dentro da área, impedindo-o de cabeçearà baliza - ou seja, um estúpido penaltizinho por marcar. Mas como o prejudicado foi o FC Porto, a coisa passou à categoria de fait-divers, não-notícia, de facto menor destinado ao desaparecimento definitivo dos arquivos da história. Portanto, de facto, não houve caso e não houve polémica, apenas porque o Benfica não tinha caso e o FC Porto, que o tinha, prescindiu da polémica e ainda bem. Mas, pergunto: e se tem sido ao contrário? (Ainda esta semana vi, no Benfica-Moreirense, duas jogadas eloquentes, dentro da área do Benfica: na primeira, o Argel- que, pelos vistos já se acha impune - a agarrar descaradamente pela cintura um avançado contrário, até que o Moreira segurasse a bola; na outra, o Manuel a fintar o Ricardo Rocha para ficar isolado e a ser rasteirado por ele. Comentários do comentador de serviço: «Empate na disputa entre Argel e Manuel» e «temos aqui um lance em que o pé de Ricardo Rocha prende o pé de Manuel». E nada mais, nem mais uma palavra sobre o assunto. Dois penaltizinhos por marcar, dois fait-divers. Fanatismo? Não, o jornalismo desportivo lisboeta na sua versão habitual. Mas quando são os portistas a chamar a atenção para estas coisas é fanatismo. Porque será, pergunto ainda, que todos, todos sem excepção - jogadores ou treinadores- que chegaram ao FC Porto depois de terem passado pelos grandes de Lisboa, afirmam unanimemente três coisas: que no FC Porto se trabalha mais e melhor; que a organização é incomparávelmente melhor; e que, apesar disso, é muito mais difícil ganhar campeonatos no FC Porto do que no Sporting e no Benfica?
6. Pela segunda vez, vejo uma excelente entrevista do presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira - agora nas páginas deste jornal, a longa entrevista de sábado passado. Muitos falam e não cumprem, nomeadamente, quando apregoam a vontade de «dignificar» o futebol português. Ele mostra verdadeira vontade e cultura de cumprir. É impossível não acreditar na sua sinceridade, quando diz que o futebol tem de ser, e apenas, um espectáculo, um prazer, uma competição em que se perde e ganha e um local onde se pode levar a mulher e os filhos sem medo de se ser anavalhado. Em relação ao Benfica, a sua tarefa é gigantesca, imensa e longa. Mas não se vê outro caminho possível que não o da política dos pequenos passos. Sendo o futebol a chave de tudo, Vieira tem uma equipa profissional que, peço desculpa. mas volto a dizer que, excepção feita a Moreira e Simão, não tem categoria. Miguel ataca bem mas defende mal, o Tiago tem uns fogachos de vez em quando, o João Pereira é uma grande promessa mas que, por enquanto, ainda não é capaz de assegurar dois jogos bons de seguida, e o Mantorras é uma incógnita. Pelas minhas contas, para poder jogar a um nível verdadeiramente elevado, o Benfica precisa de outro guarda-redes que salvaguarde qualquer impedimento de Moreira, de três laterais, de um naipe completo de centrais - quatro -, de quatro médios, de um ala e de dois pontas-de-lança. Quinze jogadores. E quinze jogadores, muito bem prospectados (que é coisa que o Benfica, surpreendentemente, não tem sido capaz de fazer), custam, no mínimo uns seis milhões de euros ou doze milhões de contos. Dinheiro que o Benfica não tem, como não o tem qualquer outro clube português. Simplesmente, Porto e Sporting foram formando um núcleo duro de qualidade, gerindo as saídas e as entradas, alternando a idade com a juventude e as compras exteriores com o resultado das escolas de formação. E, enquanto o faziam, o Benfica perdia tempo e recursos a comprar jogadores de segundo plano ou em fim de carreira, esperando o milagre de conseguir fazer omeletas com ovos fora de prazo. Mas, como o mostra a entrevista de Vieira, ele sabe que os milagres não existem. Custam tempo, planeamento, organização, trabalho e dinheiro.
Missão impossível? ( 24 Fevereiro 2004)
1- O FC Porto, em minha opinião, ultrapassou brilhantemente a fase de consolidação do Campeonato que, entre outras dificuldades, envolvia as deslocações à Luz e a Alvalade, a par da manutenção em prova na Taça de Portugal. Tal como aqui escrevi há meses, para voltar a ser campeão, o FC Porto precisava de chegar aqui, ao jogo com o Manchester, com suficiente avanço no campeonato que lhe permitisse precaver-se contra eventuais percalços internos motivados pelo excesso de jogos, de competição e de stress. Nunca é de mais realçar o grau de exigência e de esforço totalmente diverso de uma equipa que, a par das competições internas, se bate simultaneamente ao mais alto nível europeu, face a concorrentes que apenas têm de se concentrar em jogos semanais e internos. E o facto é que o FC Porto conseguiu chegar a esta fase de todas as decisões com o Benfica afastado do título e a concorrência reduzida a um persistente Sporting que, mesmo assim, está a distância razoável embora não decisiva de sete pontos, que, na verdade, são oito. Ainda não é o título ao virar da esquina, mas é uma posição altamente confortável e o máximo humanamente exigível a quem, além do mais, sofreu a baixa insubstituível de Derlei — apenas o melhor jogador do campeonato — somada a uma onda de lesões que, como quase sempre, veio na pior altura.
2- Para o jogo de amanhã, de grau de exigência absoluto, José Mourinho depara-se com um cenário quase devastador. Com Derlei, Alenitchev e César Peixoto magoados, Maciel e Sérgio impedidos de jogar na Europa, Costinha castigado e Maniche eMarco Ferreira em dúvida, são sete ou oito baixas entre o «núcleo duro» dos 18/20 jogadores que constituem a estrutura habitual de uma equipa de alta competição. Isso, mais o facto de, entre as baixas, se contarem todos os flanqueadores da equipa, reduz claramente as opções de Mourinho e deixa-o sem soluções de recurso— ou acerta à primeira, ou não há emenda possível. E o que poderá fazer Mourinho? É manifesto que não tem alternativa senão jogar em 4x4x2. Mas um 4x4x2 que não deixa grandes ilusões quanto às possibilidades de contra-ataque, porque nem Jankauskas nem McCarthy são jogadores para assegurarem por si o contra-ataque, pelo contrário, ambos são pontas-de-lança clássicos para serem servidos a partir dos extremos... que não há. Assim sendo, parece que a única solução ofensiva háde ter que residir no meio-campo. Uma noite de inspiração de Deco e Maniche (este, se jogar) é essencial, mas pode não ser suficiente. Ontem, aqui em A BOLA, aventava-se a hipótese de Mourinho fazer entrar Ricardo Costa para defesa-direito e chegar Paulo Ferreira para o meio-campo. É uma solução que já tem sido testada e, a meu ver, sempre sem resultados eficazes, para além do facto de essa ser o oposto de uma solução que reforce a capacidade ofensiva e desequilibradora do meio-campo. Se aceitarmos que as hipóteses de chegar ao golo terão, por força das circunstâncias, de vir essencialmente do meio-campo, eu penso que, à primeira vista, a solução lógica será a oposta. Ou seja, o Carlos Alberto, um repentista e desequilibrador nato, o tipo de jogador que, quando em noite inspirada, mais mossas pode causar a equipas inglesas. Mas, com ou sem Carlos Alberto, o problema principal de Mourinho vai ser quando olhar para o banco e constatar que, além de defesas, só tem disponíveis jogadores que vêm de lesões, como Ricardo Fernandes e Bosingwa, ou jogadores pouco testados, como Bruno Morais — se a memória me não falha, o único avançado disponível, para além de Jankauskas e McCarthy. E se olharmos para o banco do Manchester United... Enfim, não há muito mais a fazer do que aquilo que Mourinho já disse: esquecer as contrariedades e jogar com coragem e alegria. A verdade é que, como ele também notou e todos sabemos, em condições normais, nenhuma grande equipa portuguesa se pode bater com uma grande equipa europeia. Quanto mais em condições anormais...
3- A Selecção de Scolari não me aquece nem me arrefece. Os jogos já disputados neste ano e meio não servem para estabelecer nenhum padrão, nem quanto a resultados, nem quanto a exibições, a não ser a mediania de uns e outros. Quando a Selecção entra em campo, seja contra quem for, não é previsível para ninguém que exibição irá realizar e que resultado irá obter. Tudo parece continuar eternamente dependente dos rasgos de inspiração de um Figo ou de um Pauleta, coisa que qualquer seleccionador de bancada é capaz de programar. Passado ano e meio, é difícil de perceber que progressos foram feitos em relação à liderança provisória de Agostinho Oliveira, assim como, em última análise, é difícil de entender para que serviram os treze ou catorze jogos de preparação já efectuados. Não há uma linha contínua de evolução e melhorias, não há sequer um esquema de jogo claro e definido. É evidente que a grande preparação será feita quando a Selecção se concentrar nos vinte dias antecedentes ao Euro, com todos os jogadores já libertos dos seus outros compromissos. Mas isso equivale a dizer que tudo poderia começar de novo, a partir daí, visto que em termos de qualidade de jogo adquirida não existe nada. Mas não é o caso: já todos mais ou menos podemos dizer quem são os 23 da escolha final de Scolari, o que significa que praticamente já não há lugares em aberto. Mesmo aquilo que poderia suscitar dúvidas parece já resolvido: Ricardo Carvalho não será titular, pelo menos de início, apesar de ser, à vista de todos, o melhor central português em acção. Vítor Baía não será chamado — devido a uma teimosia irracional de Scolari que talvez um dia se perceba — e apesar do manifesto e preocupante problema que os dois guarda-redes de Scolari têm com o jogo aéreo: Quim, porque é baixo de mais, e Ricardo porque, apesar de ser um enorme guarda-redes entre os postes, é um factor de permanente instabilidade no jogo aéreo, como ficou bem patente no último Gil Vicente-Sporting. Enfim, os comandados de Luiz Felipe Scolari, após um ano e meio de preparação que se afigura ter sido rigorosamente inútil, vão ter vinte dias para se porem em forma e justificarem as expectativas que quase toda uma nação deposita neles. Têm a seu favor o factor casa, que significa o apoio do público e arbitragens tradicionalmente amigas. Mas mesmo isso, por si só, não chega. Vão ter de mostrar muito mais valor e muito mais futebol do que têm feito até aqui.
2- Para o jogo de amanhã, de grau de exigência absoluto, José Mourinho depara-se com um cenário quase devastador. Com Derlei, Alenitchev e César Peixoto magoados, Maciel e Sérgio impedidos de jogar na Europa, Costinha castigado e Maniche eMarco Ferreira em dúvida, são sete ou oito baixas entre o «núcleo duro» dos 18/20 jogadores que constituem a estrutura habitual de uma equipa de alta competição. Isso, mais o facto de, entre as baixas, se contarem todos os flanqueadores da equipa, reduz claramente as opções de Mourinho e deixa-o sem soluções de recurso— ou acerta à primeira, ou não há emenda possível. E o que poderá fazer Mourinho? É manifesto que não tem alternativa senão jogar em 4x4x2. Mas um 4x4x2 que não deixa grandes ilusões quanto às possibilidades de contra-ataque, porque nem Jankauskas nem McCarthy são jogadores para assegurarem por si o contra-ataque, pelo contrário, ambos são pontas-de-lança clássicos para serem servidos a partir dos extremos... que não há. Assim sendo, parece que a única solução ofensiva háde ter que residir no meio-campo. Uma noite de inspiração de Deco e Maniche (este, se jogar) é essencial, mas pode não ser suficiente. Ontem, aqui em A BOLA, aventava-se a hipótese de Mourinho fazer entrar Ricardo Costa para defesa-direito e chegar Paulo Ferreira para o meio-campo. É uma solução que já tem sido testada e, a meu ver, sempre sem resultados eficazes, para além do facto de essa ser o oposto de uma solução que reforce a capacidade ofensiva e desequilibradora do meio-campo. Se aceitarmos que as hipóteses de chegar ao golo terão, por força das circunstâncias, de vir essencialmente do meio-campo, eu penso que, à primeira vista, a solução lógica será a oposta. Ou seja, o Carlos Alberto, um repentista e desequilibrador nato, o tipo de jogador que, quando em noite inspirada, mais mossas pode causar a equipas inglesas. Mas, com ou sem Carlos Alberto, o problema principal de Mourinho vai ser quando olhar para o banco e constatar que, além de defesas, só tem disponíveis jogadores que vêm de lesões, como Ricardo Fernandes e Bosingwa, ou jogadores pouco testados, como Bruno Morais — se a memória me não falha, o único avançado disponível, para além de Jankauskas e McCarthy. E se olharmos para o banco do Manchester United... Enfim, não há muito mais a fazer do que aquilo que Mourinho já disse: esquecer as contrariedades e jogar com coragem e alegria. A verdade é que, como ele também notou e todos sabemos, em condições normais, nenhuma grande equipa portuguesa se pode bater com uma grande equipa europeia. Quanto mais em condições anormais...
3- A Selecção de Scolari não me aquece nem me arrefece. Os jogos já disputados neste ano e meio não servem para estabelecer nenhum padrão, nem quanto a resultados, nem quanto a exibições, a não ser a mediania de uns e outros. Quando a Selecção entra em campo, seja contra quem for, não é previsível para ninguém que exibição irá realizar e que resultado irá obter. Tudo parece continuar eternamente dependente dos rasgos de inspiração de um Figo ou de um Pauleta, coisa que qualquer seleccionador de bancada é capaz de programar. Passado ano e meio, é difícil de perceber que progressos foram feitos em relação à liderança provisória de Agostinho Oliveira, assim como, em última análise, é difícil de entender para que serviram os treze ou catorze jogos de preparação já efectuados. Não há uma linha contínua de evolução e melhorias, não há sequer um esquema de jogo claro e definido. É evidente que a grande preparação será feita quando a Selecção se concentrar nos vinte dias antecedentes ao Euro, com todos os jogadores já libertos dos seus outros compromissos. Mas isso equivale a dizer que tudo poderia começar de novo, a partir daí, visto que em termos de qualidade de jogo adquirida não existe nada. Mas não é o caso: já todos mais ou menos podemos dizer quem são os 23 da escolha final de Scolari, o que significa que praticamente já não há lugares em aberto. Mesmo aquilo que poderia suscitar dúvidas parece já resolvido: Ricardo Carvalho não será titular, pelo menos de início, apesar de ser, à vista de todos, o melhor central português em acção. Vítor Baía não será chamado — devido a uma teimosia irracional de Scolari que talvez um dia se perceba — e apesar do manifesto e preocupante problema que os dois guarda-redes de Scolari têm com o jogo aéreo: Quim, porque é baixo de mais, e Ricardo porque, apesar de ser um enorme guarda-redes entre os postes, é um factor de permanente instabilidade no jogo aéreo, como ficou bem patente no último Gil Vicente-Sporting. Enfim, os comandados de Luiz Felipe Scolari, após um ano e meio de preparação que se afigura ter sido rigorosamente inútil, vão ter vinte dias para se porem em forma e justificarem as expectativas que quase toda uma nação deposita neles. Têm a seu favor o factor casa, que significa o apoio do público e arbitragens tradicionalmente amigas. Mas mesmo isso, por si só, não chega. Vão ter de mostrar muito mais valor e muito mais futebol do que têm feito até aqui.