1. José Mourinho foi o bombo da festa de toda a imprensa lisboeta, sem excepções, durante a semana que passou. Até o director do «Público» achou que se justificava um editorial, atacando-o. Todos o crucificaram «pelo que disse e pelo que fez». O que disse e o que fez José Mourinho que tenhamos como seguro? Disse que se queria ir embora do futebol português, subentendendo que este não prestava devido aos jogos de bastidores. E, então, não dizem todos os articulistas da imprensa desportiva e da outra a mesma coisa, todos os dias?
2. Disse também José Mourinho que a célebre reposição da bola em jogo pelo Rui Jorge tinha sido uma jogada profundamente antidesportiva. E, então, é verdade ou não que ele não esperou que os adversários que tinham ido assistir o seu colega de equipa se recolocassem no jogo para lançar a bola e, pelo contrário, explorou essa ausência posicional para lançar a jogada que valeu o empate ao Sporting? Porque se indignaram tanto com a acusação de Mourinho e ninguém se indignou com a jogada do Rui Jorge e do árbitro? Se o F.C.Porto tem ganho o jogo com jogada semelhante (completada com um penalty de anedota) que sucederia nas bancadas de Alvalade e nos editoriais da imprensa? Dizem que Mourinho não tinha legitimidade para se indignar porque, no ano passado, durante o Lazio-Porto, ele impediu um jogador italiano de fazer um lançamento lateral. Pois impediu, mas como aqui explicou Cruz dos Santos, fê-lo deliberadamente e para impedir que a equipa italiana lançasse um ataque quando havia um defesa do Porto magoado no relvado. Em ambos os casos, o critério foi o mesmo: o jogo antidesportivo não devia valer.
3. Que mais disse ou fez José Mourinho? Segundo José Eduardo Bettencourt, terá desejado a morte em campo de Rui Jorge. Disse-o Bettencourt por ouvir dizer e acredite quem quiser. Provas não há; testemunhos, a haver, serão todos por dever de ofício e fidelidade à entidade patronal. O mesmo em relação ao tão falado episódio da camisola rasgada, que Mourinho igualmente desmente como «absurdo».O único testemunho que temos é o de Bettencourt e, por ouvir dizer, até agora, não apareceu ninguém a dizer que tinha assistido ao acto. Os dois delegados ao jogo presentes começaram por nada ver e nada relatar. Depois houve um que acrescentou uma adenda a subentender que tinha visto, mas, logo no dia seguinte e antes ainda de Mourinho lhe ter chamado mentiroso, veio dizer que afinal não tinha visto, tinha apenas tomado conhecimento da ocorrência via José Eduardo Bettencourt.
4. O Sporting diz que tem um vídeo mas, estranhamente, não o mostra. Temos assim apenas um testemunho indirecto e outro, directo, que o contradiz. E nenhum testemunho independente ou qualquer outra prova. O que poderia fazer, se entendesse fazer alguma coisa, um órgão de disciplina que, ao contrário do CD da Liga, fosse um órgão isento e com pudor? Abrir um processo de averiguações para tentar saber se Mourinho tinha de facto rasgado a camisola e desejado a morte de Rui Jorge publicamente, ou se se tratava apenas de uma grave difamação de um alto responsável do Sporting, para mais susceptível de desencadear a ira dos adeptos sportinguistas sobre os 1200 portistas que ainda se mantinham dentro do estádio. O que fez o CD da Liga? Partiu do princípio de que Bettencourt dizia a verdade e Mourinho mentia e abriu um inquérito apenas contra este. Revelador.
5. A propósito, desafio os leitores a fazerem o mesmo exercício que eu tentei em vão: vejam se conseguem rasgar com as mãos uma camisola daquelas. E vejam ainda se conseguem que ela fique, não rasgada de lado ou pela gola, mas com um rasgão a meio, como se tivesse sido esfaqueada. Terá Mourinho sacado de uma faca? Sabem como é que se consegue rasgar uma camisola daquelas? Com um a puxar para um lado e outro a puxar ao contrário. Nesse caso, Mourinho terá puxado de um lado, e quem terá puxado do outro? E qual deles a rasgou? Estou ansioso por ver o vídeo do Sporting...
6. Que eu saiba, no mundo inteiro, os jogadores trocam de camisola dentro do campo, ou, pelo menos, antes de irem para os respectivos balneários. No Sporting parece que não: manda-se o roupeiro levar a camisola ao balneário do adversário. Curioso.
7. No Mundo inteiro, também, a camisola que se troca é aquela com que se jogou. Mas Rui Jorge jogou com uma de mangas compridas e a que apareceu rasgada tinha as mangas curtas. Explicação: no Sporting, os jogadores guardam uma camisola extra dentro dos cacifos exclusivamente para as trocarem depois dos jogos e via roupeiro. Adensam-se os indícios contra José Mourinho.
8. Se Mourinho não escapou à sanha justiçeira do CD da Liga, outros, para além de Bettencourt, escaparam. Liedson, por exemplo, que passou o jogo a fazer teatro, com uma encenação que passou despercebida a Lucílio Baptista, mas que num jogo internacional não lhe passaria, sob pena de não voltar a arbitrar sob a égide da UEFA. A Direcção do Sporting, que deliberada e abertamente violou a lei na repartição dos bilhetes para o público. O presidente da SAD do Sporting, acirrando convenientemente os ânimos, quatro dias antes do jogo, falando dos chaimites para receber «os novos vândalos», da instigação ao crime e outras atoardas que tais. Um gentleman.
9. O gentleman continuou a espalhar a sua visão moralista do futebol, mal desembarcou de uma semana ausente. Anote-se: os outros é que «perderam a cabeça, deram um festival de loucura». Provas? As provas «foram dadas publicamente» (seria a camisola exibida por Bettencourt?). E o videozinho, pergunta-se. «Não perguntem se temos provas. Temos as nossas provas mas vamos guardá-las» (para o museu, para recordação?) Mas o senhor continua muito zangado — agora contra a comunicação social. E porquê? Porque, apesar de ter estado ausente, ele acha, vejam lá, que a comunicação social «deu o mesmo tratamento ao Sporting que deu à posição do FC Porto, prestando um péssimo serviço ao País.» Se ele mandasse, está bom de se ver, no mínimo, o FC Porto, ou até a própria cidade, desapareciam do mapa, quanto mais das notícias.Saudades do antigamente, desse país do antigamente, em que um gentleman como ele não podia ter a mesma cobertura mediática que um vândalo como Pinto da Costa.
10. E Pinto da Costa? Em vão os jornalistas passaram uma semana inteira, antes e depois do jogo, a estender-lhe o microfone para ver se o incitavam a alguma declaração bombástica que depois pudesse ser pretexto para piedosos editoriais sobre o destempero verbal dos dirigentes. Mas o homem só abriu a boca para anunciar que o seu clube deixava de ter relações com os cavalheiros do Sporting. Li algures o texto de um indignado editorialista que perguntava como é que Pinto da Costa podia «continuar calado face a tais acontecimentos?» Fartei-me de rir.
11. Faço, de boa-fé e boa vontade, uma correcção de pormenor ao que aqui escrevi na semana passada. Eu escrevi que, quando o Rui Jorge relança a bola em jogo, na jogada crucial do encontro, o Jorge Costa ainda está fora de campo, a pedir ao árbitro autorização para entrar, e é exactamente pelo buraco que ele deixou desocupado que o Liedson se infiltra na área do Porto, para depois sacar o penalty que evitou que o Sporting esteja hoje a dez pontos do FC Porto e o campeonato talvez decidido (há que contar agora com o novo factor extra de dificuldade para os portistas que resultado estado inqualificável da relva do Dragão). Ora, quando escrevi, segunda-feira de manhã, eu tinha visto apenas duas repetições da jogada e só uma em câmara lenta. Depois, tive ocasião de ver várias outras e constatei que, de facto, o Jorge Costa já está para cá da lateral quando o Rui Jorge lança a bola, e que talvez o gesto dele não seja a pedir ao árbitro autorização para entrar, mas sim que retarde o lançamento até ele e Maniche se recolocarem em jogo. Isso, porém, só reforça o que eu escrevi: que o Jorge Costa teve consciência de que relançar o jogo assim era tirar partido da sua ausência. Enganei-me, pois, numa leitura visual que implicou, talvez, um segundo de diferença. Mas também me enganei noutra conclusão que tinha tirado e que as repetições depois vistas me levaram a alterar. Eu escrevi que a responsabilidade tinha sido do árbitro, que tinha mandado o Rui Jorge lançar a bola, e não deste, como acusou Mourinho. Ora, de facto, talvez (não se vê) o árbitro tenha dado a ordem. Mas o Rui Jorge foi lesto a cumpri-la e fê-lo exactamente para o local onde sabia que faltava o Jorge Costa e deliberadamente para tentar, como conseguiu, tirar vantagem desse facto. Foi um gesto de profundo antidesportivismo que só o calor do jogo pode justificar.
12. O sr. Daniel Reis, que aqui escreve como sportinguista, aproveitou o meu engano para me chamar mentiroso, aldrabão e manipulador e, para ensaiar, dar-me lições de ética jornalística. Obviamente, não ofende quem quer, mas quem pode, e o sr. Daniel Reis não é ninguém no jornalismo português para me conseguir ofender. Quanto à deontologia, o problema dele comigo foi eu aqui ter escrito que não entendia como é que alguém pode ser num jornal cronista com cor clubista assumida e noutro fingir-se de jornalista isento, assinando textos pseudofactuais onde repete a propaganda das razões do seu clube, induzindo os leitores em erro, ao confundir opinião com notícia. Por isso é que ele se mostra tão indignado por eu habitar também as páginas de A BOLA — onde sempre estive com expressa declaração de princípios de que aqui não faço jornalismo mas apenas opinião. É outro com saudades do antigamente. Saudades do tempo em que eles viviam a dois, no paraíso reservado da Segunda Circular, e todas as vozes incómodas estavam silenciadas."
Textos de Miguel Sousa Tavares na Abola sobre futebol, que leio atentamente e de quem sou admirador. Este blog não tem nenhuma relação com o autor dos textos. As crónicas terão sempre desfasamento em relação à última em banca, no respeito pelos direitos do jornal onde são colocadas.
sábado, março 27, 2004
"O incendiário, o artista, o daltónico e o cavalheiro"(3 Fevereiro 2004)
"Para que não haja lugar amal-entendidos, começo por dizer que considero justo o resultado do Sporting- FC Porto. Muito embora se me tenha tornado evidente que o Sporting não conseguiria marcar que não de penalty e não conseguiria evitar a derrota sem a decisiva ajuda do árbitro, a verdade é que os portistas já contavam com isso. Em Alvalade, desde há muitos anos para cá, o FC Porto enfrenta sempre o Sporting e a arbitragem.. Em Alvalade, de resto, é raro assistir-se a uma arbitragem que não seja descaradamente caseira, ver o adversário terminar com onze jogadores ou deixar de ser punido com penalty inexistente. A pressão sobre os árbitros, antes e durante os jogos, aliada ao choradinho de que ainda são prejudicados, é hoje um factor decisivo na competitividade do Sporting. Em dois jogos de título consecutivos, o Sporting beneficiou de quatro penalties, dois dos quais, pelo menos, falsos como Judas e decisivos. Mas, como disse, comisso já oPorto contava e cabia-lhe, mesmo assim, lutar pela vitória, o que manifestamente não fez. O resultado é, pois, justo, mas a história do jogo e do resultado fica indelevelmente ligada a quatro personagens: o incendiário, o artista, o daltónico e o cavalheiro.
O INCENDIÁRIO é, obviamente, o presidente do Sporting. Não foi preciso esperar nem quarenta e oito horas depois do enterro do Fehér para que todas aquelas bonitas palavras sobre solidariedade e paz no futebol tombassem com estrondo, quando Dias da Cunha abriu a boca e, como de costume, despejou ódio e irresponsabilidade. Pode sempre adoptar-se em relação a ele a atitude que se vem instalando de o tomar como inimputável, a quem basta estenderem um microfone para ele se passar de todo. Mas, apesar de tudo, desta vez, o seu comportamento excedeu os limites do anti desportivismo, do insulto e da provocação e só não há mortos e feridos a lamentar do incêndio que ele quis atear porque os adeptos mostraram bem mais categoria para estar no futebol do que o presidente do Sporting. Notável o descaramento com que ele enfrentou o problema criado com a atitude anti desportiva de limitar, contra a lei, a venda de bilhetes a adeptos doFCPorto (e, afinal, estavam dez mil lugares por preencher no estádio...), dizendo que tudo se resumia a uma multa que o Sporting pagaria «sem problemas ». Elucidativa das suas boas maneiras a forma como, tendo visto contrariada pelo MAI a tentativa de separar os adeptos portistas uns dos outros, de modo a que o seu apoio não se sentisse, e mesmo pondo em risco a sua segurança, ele reagiu acusando as autoridades de «terem baixado as calças» às ameaças portistas (respondeu-lhe e muito bem o Comando-Geral da PSP, dizendo que não estavam habituados a discutir «a esse nível»). Irresponsável a leviandade de incitar os ânimos e os ódios, quarenta e oito horas antes do jogo, chamando criminoso a Pinto da Costa, novos vândalos aos adeptos portistas e declarando que, se os houvesse no mercado, mandaria rodear o estádio de chaimites para receber os do Porto. Forte da coragem de saber que em Alvalade nada arriscava e fortalecido pelo abraço recebido na Luz, Dias da Cunha achou-se com a retaguarda suficientemente protegida para insultar tudo e todos, dentro do novo clima de desportivismo, transparência e apaziguamento de que se proclama arauto. Mas é certo e sabido que da próxima vez que o Sporting for às Antas, ele se vai quedar por um hotel no Porto, a ver o jogo pela televisão, declarando que não há ambiente para um senhor como ele ir ao estádio.
O ARTISTA foi, claro, Liedson. Pessoalmente, acho-o um grande jogador e um perigo à solta dentro da área, mas não sabia que, tal como o seu colega Silva, já tinha conseguido, em tão pouco tempo, assimilar as regras da escola de teatro da Academia de Alcochete e aprimorado o estilo de penalties à João Pinto. O primeiro penalty que sacou sábado passado é um clássico dentro do género: é só preciso chegar à bola primeiro que o guarda-redes, depois adianta-se a bola para onde não se consegue nem se pretende ir buscá-la, trava-se a corrida de modo a que uma perna «de arrasto» vá bater nas pernas do guarda-redes, que as não pode fazer desaparecer por magia, e pronto... é penalty. Do segundo penalty nem vale a pena falar, bem como das simulações de faltas sofridas e da forma inebriante como ele se atirava para o chão a rebolar sem parar, como se tivesse sido atingido por um cortador de relva. Agora, na memória de nós todos (excepto, claro, na da Comissão Disciplinar da Liga), há-de ficar aquela cena anedótica em que ele, reagindo ao retardador, se atira para o chão a rebolar e a gritar de dores pungentes, quando o Jorge Costa lhe encostou dois dedos à orelha. Juro que, no género tragicómico, nunca tinha visto igual. Melhor mesmo, só o inevitável Dias da Cunha, a declarar no final que era umapena que Lucílio Baptista não tivesse visto a agressão do Jorge Costa. Ele ver viu, viu exactamente o que se passou, mas até achou que um teatro daqueles até merecia aplausos. Beneficiando da compreensão do árbitro, o artista prosseguiria a sua performance ao longo do jogo e viria a revelar-se decisivo para o seu desfecho.
O DALTÓNICO é precisamente o grande internacional Lucílio Baptista, que esteve, uma vez mais, igual a si mesmo, isto é, sem pinga de isenção ou categoria. Para os artistas do Sporting era toda a compreensão do mundo, para os do FC Porto era dedo em riste, cara de mau, tom de ameaça, amarelos por dá cá aquela palha. Faltas contra o FC Porto eram todas e mais algumas, até assinaladas voltando atrás depois de ter dado a lei da vantagem. Contra o Sporting, foi uma inexplicável dificuldade em ver faltas evidentes: o Deco rasteirado à entrada da área, depois do 0-1, o Maciel agarrado pelo Rui Jorge quando se ia isolar, o Beto a defender em voo e como punho no limite exterior da área, o Pedro Mendes atropelado por dois jogadores do Sporting dentro da área do Porto, permitindo uma jogada de muito perigo do Sporting, etc, etc. Penalties, está tudo dito: viu o primeiro, todavia bem menos visível que os dois que, no ano passado, no mesmo jogo, deixou passar contra o Sporting; quanto ao segundo, conseguiu a proeza de, a trinta metros de distância e encoberto, ver uma pretensa falta cometida pelo Paulo Ferreira sobre o Liedson, quando os dois corriam de costas para o árbitro e lado a lado. Ainda e decisiva foi a sua ordem ao Rui Jorge para lançar a bola, na jogada do segundo penalty e quando estava a ver que na lateral ainda estavam o Maniche e o Jorge Costa junto do João Pinto. Se o Rui Jorge diz a verdade — e eu acredito que sim—o Mourinho cometeu uma injustiça para com ele. O responsável por aquele acto profundamente anti desportivo de recomeçar o jogo tirando vantagem de dois adversários se encontrarem de fora a assistir um colega magoado, foi do árbitro e não do defesa sportinguista. O que eu sei é que as imagens mostram o Jorge Costa a pedir ao árbitro autorização para reentrar em campo, já depois de o Rui Jorge ter lançado a bola, e sei que, não por acaso, foi exactamente pela zona do Jorge Costa e aproveitando a sua ausência, que o Liedson entrou para se atirar para o chão, ganhar um penalty e dois pontos. Foi feio, muito feio, ou, como disse o inevitável Dias da Cunha, uma «arbitragem corajosa» e «contra o sistema». É verdade que, como acrescentaram alguns sportinguistas, Fernando Santos incluído, faltou ainda expulsar o Vítor Baía no lance do primeiro penalty: os quatro ex-árbitros que funcionam como analistas da arbitragem em «O Jogo», explicavam na edição de domingo e unanimemente porque o Baía jamais poderia ter sido expulso e porque o segundo penalty foi inventado. Remeto para essa leitura os porventura de boa-fé.
O CAVALHEIRO é José Eduardo Bettencourt, uma pessoa por quem eu, à distância, sempre tive, e mantenho, consideração e respeito. Quando o vi, em tom solene e pungente, aparecer na sala de imprensa exibindo uma camisola rasgada do Rui Jorge, contando que ele a quis trocar pela do Vítor Baía e que José Mourinho, perante a concordância de Pinto da Costa, se opôs, rasgando a camisola e declarando que queria ver o Rui Jorge «morrer em campo», fiquei estarrecido. Imaginei a cena e não conseguia acreditar que o José Mourinho, ou quem quer que fosse, por mais nervoso e exaltado que estivesse, tivesse feito e dito coisa daquelas. Mas como era o José Eduardo Bettencourt a jurá-lo pelo seu cavalheirismo, pelo seu bom-nome e maneira «diferente» de estar no futebol, confesso que fiquei baralhado. Mas, afinal, e como relataram os jornais dos dias seguintes, tudo não passou de verdade «por ouvir dizer», visto que José Eduardo Bettencourt, ao contrário do que deixou crer, não assistiu a nada. Segundo o relato do roupeiro do Sporting, terá acontecido que, já na sua cabine (e porque não no campo?) o Rui Jorge terá querido trocar de camisola com o Baía. Mandou-a pelo roupeiro do Sporting, o qual a entregou ao do FC Porto, o qual regressou depois com ela rasgada e o recado que José Mourinho terá enviado, acrescentando que tinha a concordância de Pinto da Costa —ambos, pelos vistos, recolhidos à cabine dos jogadores. Então, o sr. Manuel levou de volta a camisola e a mensagem invocadamente recebidas do sr. Moreno, entregando-as a Rui Jorge, o qual as passou a Fernando Santos, o qual as passou a Bettencourt, o qual, indignado, exibiu camisola e história na conferência de imprensa.Eagora, pergunto, como irá o chefe do departamento de futebol do Sporting fazer prova em tribunal, recorrendo a testemunho em quinta mão, da gravidade das acusações que lançou sobre José Mourinho? E o tom em que o fez? Aquela insuportável postura de «somosum clube diferente, fundado por um Visconde, verdadeiro clube de cavalheiros e desportistas puros, integramos a elite do país, ministros, generais, presidentes, titulares, não nos confundimos nem misturamos nem com o povo benfiquista nem com esses marginais selvagens do Porto, essa gente que tem de comprar o que a nós nos é dado de graça — os favores da arbitragem?» Pois é, mas como pode um clube de gentlemen e fair play ter um presidente que fala a umnível que até a polícia recusa discutir ou ter um speaker de serviço no estádio que, quando a claque do Porto canta, proclama aos microfones que «vozes de burro não chegam ao céu»? Serão privilégios de berço? "
O INCENDIÁRIO é, obviamente, o presidente do Sporting. Não foi preciso esperar nem quarenta e oito horas depois do enterro do Fehér para que todas aquelas bonitas palavras sobre solidariedade e paz no futebol tombassem com estrondo, quando Dias da Cunha abriu a boca e, como de costume, despejou ódio e irresponsabilidade. Pode sempre adoptar-se em relação a ele a atitude que se vem instalando de o tomar como inimputável, a quem basta estenderem um microfone para ele se passar de todo. Mas, apesar de tudo, desta vez, o seu comportamento excedeu os limites do anti desportivismo, do insulto e da provocação e só não há mortos e feridos a lamentar do incêndio que ele quis atear porque os adeptos mostraram bem mais categoria para estar no futebol do que o presidente do Sporting. Notável o descaramento com que ele enfrentou o problema criado com a atitude anti desportiva de limitar, contra a lei, a venda de bilhetes a adeptos doFCPorto (e, afinal, estavam dez mil lugares por preencher no estádio...), dizendo que tudo se resumia a uma multa que o Sporting pagaria «sem problemas ». Elucidativa das suas boas maneiras a forma como, tendo visto contrariada pelo MAI a tentativa de separar os adeptos portistas uns dos outros, de modo a que o seu apoio não se sentisse, e mesmo pondo em risco a sua segurança, ele reagiu acusando as autoridades de «terem baixado as calças» às ameaças portistas (respondeu-lhe e muito bem o Comando-Geral da PSP, dizendo que não estavam habituados a discutir «a esse nível»). Irresponsável a leviandade de incitar os ânimos e os ódios, quarenta e oito horas antes do jogo, chamando criminoso a Pinto da Costa, novos vândalos aos adeptos portistas e declarando que, se os houvesse no mercado, mandaria rodear o estádio de chaimites para receber os do Porto. Forte da coragem de saber que em Alvalade nada arriscava e fortalecido pelo abraço recebido na Luz, Dias da Cunha achou-se com a retaguarda suficientemente protegida para insultar tudo e todos, dentro do novo clima de desportivismo, transparência e apaziguamento de que se proclama arauto. Mas é certo e sabido que da próxima vez que o Sporting for às Antas, ele se vai quedar por um hotel no Porto, a ver o jogo pela televisão, declarando que não há ambiente para um senhor como ele ir ao estádio.
O ARTISTA foi, claro, Liedson. Pessoalmente, acho-o um grande jogador e um perigo à solta dentro da área, mas não sabia que, tal como o seu colega Silva, já tinha conseguido, em tão pouco tempo, assimilar as regras da escola de teatro da Academia de Alcochete e aprimorado o estilo de penalties à João Pinto. O primeiro penalty que sacou sábado passado é um clássico dentro do género: é só preciso chegar à bola primeiro que o guarda-redes, depois adianta-se a bola para onde não se consegue nem se pretende ir buscá-la, trava-se a corrida de modo a que uma perna «de arrasto» vá bater nas pernas do guarda-redes, que as não pode fazer desaparecer por magia, e pronto... é penalty. Do segundo penalty nem vale a pena falar, bem como das simulações de faltas sofridas e da forma inebriante como ele se atirava para o chão a rebolar sem parar, como se tivesse sido atingido por um cortador de relva. Agora, na memória de nós todos (excepto, claro, na da Comissão Disciplinar da Liga), há-de ficar aquela cena anedótica em que ele, reagindo ao retardador, se atira para o chão a rebolar e a gritar de dores pungentes, quando o Jorge Costa lhe encostou dois dedos à orelha. Juro que, no género tragicómico, nunca tinha visto igual. Melhor mesmo, só o inevitável Dias da Cunha, a declarar no final que era umapena que Lucílio Baptista não tivesse visto a agressão do Jorge Costa. Ele ver viu, viu exactamente o que se passou, mas até achou que um teatro daqueles até merecia aplausos. Beneficiando da compreensão do árbitro, o artista prosseguiria a sua performance ao longo do jogo e viria a revelar-se decisivo para o seu desfecho.
O DALTÓNICO é precisamente o grande internacional Lucílio Baptista, que esteve, uma vez mais, igual a si mesmo, isto é, sem pinga de isenção ou categoria. Para os artistas do Sporting era toda a compreensão do mundo, para os do FC Porto era dedo em riste, cara de mau, tom de ameaça, amarelos por dá cá aquela palha. Faltas contra o FC Porto eram todas e mais algumas, até assinaladas voltando atrás depois de ter dado a lei da vantagem. Contra o Sporting, foi uma inexplicável dificuldade em ver faltas evidentes: o Deco rasteirado à entrada da área, depois do 0-1, o Maciel agarrado pelo Rui Jorge quando se ia isolar, o Beto a defender em voo e como punho no limite exterior da área, o Pedro Mendes atropelado por dois jogadores do Sporting dentro da área do Porto, permitindo uma jogada de muito perigo do Sporting, etc, etc. Penalties, está tudo dito: viu o primeiro, todavia bem menos visível que os dois que, no ano passado, no mesmo jogo, deixou passar contra o Sporting; quanto ao segundo, conseguiu a proeza de, a trinta metros de distância e encoberto, ver uma pretensa falta cometida pelo Paulo Ferreira sobre o Liedson, quando os dois corriam de costas para o árbitro e lado a lado. Ainda e decisiva foi a sua ordem ao Rui Jorge para lançar a bola, na jogada do segundo penalty e quando estava a ver que na lateral ainda estavam o Maniche e o Jorge Costa junto do João Pinto. Se o Rui Jorge diz a verdade — e eu acredito que sim—o Mourinho cometeu uma injustiça para com ele. O responsável por aquele acto profundamente anti desportivo de recomeçar o jogo tirando vantagem de dois adversários se encontrarem de fora a assistir um colega magoado, foi do árbitro e não do defesa sportinguista. O que eu sei é que as imagens mostram o Jorge Costa a pedir ao árbitro autorização para reentrar em campo, já depois de o Rui Jorge ter lançado a bola, e sei que, não por acaso, foi exactamente pela zona do Jorge Costa e aproveitando a sua ausência, que o Liedson entrou para se atirar para o chão, ganhar um penalty e dois pontos. Foi feio, muito feio, ou, como disse o inevitável Dias da Cunha, uma «arbitragem corajosa» e «contra o sistema». É verdade que, como acrescentaram alguns sportinguistas, Fernando Santos incluído, faltou ainda expulsar o Vítor Baía no lance do primeiro penalty: os quatro ex-árbitros que funcionam como analistas da arbitragem em «O Jogo», explicavam na edição de domingo e unanimemente porque o Baía jamais poderia ter sido expulso e porque o segundo penalty foi inventado. Remeto para essa leitura os porventura de boa-fé.
O CAVALHEIRO é José Eduardo Bettencourt, uma pessoa por quem eu, à distância, sempre tive, e mantenho, consideração e respeito. Quando o vi, em tom solene e pungente, aparecer na sala de imprensa exibindo uma camisola rasgada do Rui Jorge, contando que ele a quis trocar pela do Vítor Baía e que José Mourinho, perante a concordância de Pinto da Costa, se opôs, rasgando a camisola e declarando que queria ver o Rui Jorge «morrer em campo», fiquei estarrecido. Imaginei a cena e não conseguia acreditar que o José Mourinho, ou quem quer que fosse, por mais nervoso e exaltado que estivesse, tivesse feito e dito coisa daquelas. Mas como era o José Eduardo Bettencourt a jurá-lo pelo seu cavalheirismo, pelo seu bom-nome e maneira «diferente» de estar no futebol, confesso que fiquei baralhado. Mas, afinal, e como relataram os jornais dos dias seguintes, tudo não passou de verdade «por ouvir dizer», visto que José Eduardo Bettencourt, ao contrário do que deixou crer, não assistiu a nada. Segundo o relato do roupeiro do Sporting, terá acontecido que, já na sua cabine (e porque não no campo?) o Rui Jorge terá querido trocar de camisola com o Baía. Mandou-a pelo roupeiro do Sporting, o qual a entregou ao do FC Porto, o qual regressou depois com ela rasgada e o recado que José Mourinho terá enviado, acrescentando que tinha a concordância de Pinto da Costa —ambos, pelos vistos, recolhidos à cabine dos jogadores. Então, o sr. Manuel levou de volta a camisola e a mensagem invocadamente recebidas do sr. Moreno, entregando-as a Rui Jorge, o qual as passou a Fernando Santos, o qual as passou a Bettencourt, o qual, indignado, exibiu camisola e história na conferência de imprensa.Eagora, pergunto, como irá o chefe do departamento de futebol do Sporting fazer prova em tribunal, recorrendo a testemunho em quinta mão, da gravidade das acusações que lançou sobre José Mourinho? E o tom em que o fez? Aquela insuportável postura de «somosum clube diferente, fundado por um Visconde, verdadeiro clube de cavalheiros e desportistas puros, integramos a elite do país, ministros, generais, presidentes, titulares, não nos confundimos nem misturamos nem com o povo benfiquista nem com esses marginais selvagens do Porto, essa gente que tem de comprar o que a nós nos é dado de graça — os favores da arbitragem?» Pois é, mas como pode um clube de gentlemen e fair play ter um presidente que fala a umnível que até a polícia recusa discutir ou ter um speaker de serviço no estádio que, quando a claque do Porto canta, proclama aos microfones que «vozes de burro não chegam ao céu»? Serão privilégios de berço? "
sábado, fevereiro 28, 2004
Como é ténue a fronteira ( 27 Janeiro 2004 )
NINGUÉM deveria morrer assim, em directo, perante o olhar impúdico e instantâneo de milhões de pessoas. Ninguém deveria morrer aos 24 anos, ninguém deveria morrer a jogar futebol, num estádio, perante a multidão. E depois, apesar de tudo, Mikki Fehér teve uma morte linda: morreu a fazer o que mais gostava, morreu a jogar futebol perante um estádio pronto a saudá-lo como um artista, morreu depois de sorrir à vida, morreu de um só golpe, e não consumido aos poucos pela morte, e, já morto, enquanto tentavam em vão reanimá-lo, terá escutado o último cântico de apoio e de homenagem dos adeptos que entoavam o seu nome e acompanhavam o cântico ao ritmo de palmas, como se elas pudessem conseguir o milagre de ressuscitar o seu coração fulminado. Como as palmas dos jogadores do Sporting no dia seguinte, como as muitas palmas que iremos escutar este fim-de-semana nos estádios do país, no final do minuto de silêncio durante o qual iremos rever, como num pesadelo, aquelas insuportavelmente cruéis imagens. Há 30 anos, quando Fernando Pascoal das Neves, dito Pavão, o melhor jogador de então do FC Porto, caiu fulminado ao minuto 13 do FC Porto-Vitória de Setúbal, nas Antas, não havia televisão a transmitir em directo nem as imagens da sua morte foram registadas para mais tarde correrem país e mundo. No exacto minuto em que ele caiu morto com a camisola do meu clube, eu estava a jogar futebol de 5 com amigos, no terreiro do castelo de Monsaraz, e foi através do relato de um transístor de um ocasional espectador que tomei conhecimento da tragédia. Relatava o Nuno Brás («este tão infausto acontecimento », nunca mais me hei-de esquecer das suas palavras) e foi o seu relato e o relato dos jornais no dia seguinte que formaram na minha cabeça o «filme» da morte de Pavão. Agora foi bem pior, tivemos direito a ver tudo em directo, uma vida que se apagava e que desesperadamente não conseguia ser reanimada, ali, à nossa frente, assistindo minuto a minuto a uma tragédia que se adivinhava desde o primeiro instante em que ele caiu de costas em câmara lenta, despedindo-se da vida e olhando um céu nocturno sem estrelas, antes de pousar suavemente a cabeça como se fosse apenas dormir. Nunca mais nos curaremos destas imagens. A morte é assim: não pede licença, não dá aviso, não escolhe vítimas. Vem à traição, como ave de rapina, interrompe até um sorriso, os mais ambiciosos projectos, os mais sonhados sonhos, a mais leve juventude, para nos lembrar que a vida é só uma distracção passageira da morte, amais ténue linha entre a alegria e a inconsciência de uma vida que só existe porque o sangue corre nas veias e o instante súbito em que o coração deixa de bater e tudo submerge num definitivo e eternamente inexplicável buraco negro. Nós, portugueses, porém, temos este defeito moderno de não acreditar na fatalidade das coisas que não têm sentido se não para aqueles que acreditam no transcendente. Tem de haver sempre uma explicação aceitável ou, na ausência dela, um culpado: a ambulância que demorou a entrar e veio em marcha-atrás, o desfibrilador que não estava a postos na linha lateral, os meios (sejam eles quais forem) que não estavam disponíveis e ai Jesus que vem aí o Euro. Tomara qualquer vítima de um acidente cardio-respiratório súbito poder ter os médicos e paramédicos, os meios e a velocidade de intervenção de que dispôs Mikki Fehér! Simplesmente, estava escrito que aquele era o seu último dia, a última hora, o último minuto. É assim a vida, é assim a morte. Entre tantas coisas apesar de tudo bonitas que se viram no meio daquela tragédia inominável, sobraram alguns repórteres infelizmente obcecados em encontrar o «culpado», como se estivessem perante um enredo de Agatha Christie e não perante a mais pura e simples das tragédias. Como sobrou o estupor de saber que houve uma centena de adeptos que esperaram até às três da manhã o autocarro do Benfica, no seu regresso à Luz, para descarregarem uma ira irracional sobre os jornalistas presentes. E, porquê, pergunta-se? Por os jornalistas serem responsáveis pela morte de Fehér? Por quererem filmar ou fotografar os jogadores? Mas os adeptos não estavam ali também para os ver e sem sequer terem como desculpa a necessidade de informar, mas apenas esse voyeurismo doentio dos espectadores de tragédias? Ao menos em momentos destes podia cessar o ódio irracional, as frustrações transformadas em bestialidade, sem destinatário certo nem razão alguma de inteligência. Ah este povo do futebol... Hoje esta crónica sai curta. Menos de vinte e quatro horas depois do minuto 91 do jogo de Guimarães, nada mais tem dignidade para ser falado. Um jovem na flor da vida, que amava o futebol e que por ele lutou sempre por um lugar ao sol, que nunca chegaria a alcançar, caiu morto em pleno campo de batalha, vergado ao golpe, entre todos, decisivo. De que mais se pode falar, nesta hora? Dos jogos do fim-de-semana, da beleza daquela jogada do Deco, abrindo caminho para o primeiro golo do Porto, ou daquele voo do Moreira sobre o avançado do Guimarães? Sim, talvez, noutras circunstâncias. Falar do jogo do título, do Sporting-Porto, do próximo sábado? A única coisa que me ocorre agora é esperar que ninguém se magoe, no campo, nas bancadas ou fora do estádio. Nada mais sobra para dizer. Apenas um desejo: que lá, onde está agora, o Mikki Fehér possa ao menos continuar a seguir os jogos de futebol de que tanto gosta através do Satélite Tranquilidade.
O caminho para o título ( 20 Janeiro 3004)
1. A segunda volta do campeonato virou com os três grandes a cavarem ainda mais o fosso que os separa dos restantes. Como o jogo de Braga eloquentemente demonstrou, é demasiadamente profunda a distância que vai entre os grandes e os médios. Quando Jesualdo Ferreira se queixa de que, ainda com 0-0 no arcador, Barroso falhou um remate à baliza que normalmente deveria dar golo, compreendemos como eram poucas as armas e os argumentos de que o Braga dispunha para fazer frente a um FC Porto que, quando tem apenas de se concentrar no campeonato, não dá hipóteses a ninguém. Nas próximas três semanas o F.C .Porto terá (à parte o Vilafranquense, amanhã) apenas o campeonato para se preocupar. Vai ser um período decisivo para o desfecho do campeonato. Se o Porto conseguir
alargar a distância para o Sporting, ou pelo menos mantê-la depois do jogo de Alvalade, gozará de alguma margem de segurança para o terrível período de Fevereiro-Março, em que se baterá em quatro frentes (Campeonato, Taça, Europa e Selecção), enquanto o Sporting descansará de domingo a domingo. E, se é verdade que o Sporting receberá na segunda volta Porto e Benfica, enquanto o Porto terá de deslocar-se a Alvalade e à Luz, também é verdade que, tirando essas duas saídas, todas as outras com maior grau de dificuldade já foram ultrapassadas pelos portistas: Braga, Guimarães, Bessa, Restelo, Funchal, Leiria. Caminhamos, pois, para aquele que merece a designação de «jogo do título»: o Sporting-FC Porto, daqui a 12 dias e que, apesar disso, tem gozado de uma infinatamente menor promoção mediática do que o defunto derby Benfica-Sporting. No countdown para o grande jogo de Alvalade,sportinguistas e portistas tentam ainda reunir novas armas de última geração: o Sporting com a contratação do médio Tinga e o ainda namoro ao «emigrado» Hugo Viana; o FC Porto com a aquisição do também brasileiro e médio Carlos Alberto e do também emigrante Sérgio Conceição, para além da muito esperada conquista de Maciel para preencher o buraco deixado
por Derlei. Nesta guerra particular, de que o Benfica parece ajuizadamente auto-afastado, a aquisição pelo FC Porto de Sérgio Conceição (em cuja contratação o Sporting estava, ou esteve pelo menos, manifestamente interessado), causou já uma reacção clara de «dor de cotovelo» por parte do presidente da SAD do Sporting, vindo dizer que se deveria olhar com atenção para as contas de «alguns grandes» (leia-se, por junto, o FC Porto). Ora, não obstante o Sporting não estar
claramente em situação de dar lições na matéria - não só pelas aquisições que também faz, como pelos défices de exploração, tão grandes ou maiores que os do FC Porto, que mantém-a verdade é que a observação de Dias da Cunha tem razão de ser e eu também a faço. Para tudo dizer numa simples frase, é minha convicção que a compra de Sérgio Conceição foi um erro da SAD do FC Porto. E foi um erro por diversas razões que posso passar a explicar:
a) Em primeiro lugar, do ponto de vista desportivo, e embora correndo o risco de vir a ter de engolir esta opinião (mas a função do analista é arriscar opinião antes e não depois), duvido que Sérgio Conceição, na sua forma actual e que já vem de bem atrás, tenha talento para integrar o onze actual do FC Porto, para mais afastando da titularidade algum dos que lá se encontram actualmente. É verdade que se trata de um flanqueador, posição em que o FC Porto ficou este ano notavelmente desfalcado, e que isso pode permitir o regresso ao 4x3x3 clássico de José Mourinho, cujo abandono fui o primeiro a lamentar. Mas para isso era necessário que se tratasse do Sérgio Conceição que conhecemos ao serviço do FC Porto e não aquele que tem sido sistematicamente remetido para o banco de suplentes de todas as equipas por onde vem passando ultimamente, Selecção incluída.
b) Depois, o Sérgio Conceição, e muito legitimamente, é um jogador que aceita muito mal o banco de suplentes e que chega também legitimamente convicto de que vai ser titular indiscutível -o que poderá vir a ter consequências negativas no espírito da equipa;
c) Em terceiro lugar, e ainda sob o aspecto meramente desportivo, trata-se do terceiro jogador, para além de Maciel e Carlos Alberto, que, no espaço de semanas,
necessita de ser integrado e absorvido pela equipa, para além de todos os novos que chegaram este ano, como o Nuno, o Bosingwa, o Pedro Mendes, o Ricardo Fernandes, o Bruno Moraes, etc. Com tantas novidades, corre-se o risco de não aproveitar mais do que um ou dois;
d) Em quarto lugar, eu sempre fui contra os plantéis extensos, que me parece só terem desvantagens, quer desportivas quer financeiras, e sempre me fez confusão porque é que qualquer equipa portuguesa, com muito menos jogos durante a época, tem de ter plantéis notavelmente maiores do que as equipas inglesas, italianas ou espanholas. Não percebo como é que, para mais existindo equipas B e juniores para ir lançando, se trabalha uma época inteira com plantéis de trinta ou mais jogadores, dos quais só vinte, quanto muito, são verdadeiramente utilizados.
e) Em quinto lugar, se o facto de contratar um jogador que não pode jogar na Liga dos Campeões, como o Maciel, mas que veio substituir internamente o Derlei,
é uma medida tornada necessária pela força das circunstâncias, já comprar dois na mesma situação não é uma necessidade mas um luxo.
f) Finalmente, venha o Sérgio Conceição pelo tempo que vier, custa a compreender como é que um clube que ainda recentemente teve de recorrer a um empréstimo obrigacionista para resolver dificuldades de tesouraria, que mantém um défice de exploração crónico e assustador que se deve quase exclusivamente aos custos com a manutenção de um pequeno exército de jogadores sob contrato, vai contratar ainda mais um, que não serve para a Liga dos Campeões-o maior objectivo desportivo e financeiro-que internamente não aparece como reforço indispensável e cujos salários serão, certamente, ao nível máximo praticado na equipa. Pode ser que eu venha a estar enganado, mas, para que tal suceda, é necessário que no fim da época se possa dizer que o FC Porto não teria sido campeão sem o Sérgio Conceição. E duvido muito, muitíssimo, que venha a ser o caso.
Felizmente, aliás.
2. Na crónica do Benfica-Boavista, Santos Neves «executou» sumariamente o árbitro Elmano Santos, acusando-o de «só ele não ter visto aquela grande penalidade sobre o Nuno Gomes » e de ter sancionado dois offsides inexistentes. É engraçado como entre nós as decisões dos árbitros, que são necessariamente subjectivas, não gozam de qualquer contemplação por parte da crítica, mas já as próprias análises críticas, que também são subjectivas, adquirem uma aura de objectividade incontestável que, todavia, nada de especial justifica. Tenho visto inúmeras vezes como, nesta matéria, a cada cabeça corresponde sua sentença e nem sempre determinada por desvios clubistas, como não é o caso, agora. Tenho visto igualmente como os comentadores televisivos são capazes de ver numa
jogada exactamente o oposto do que eu vi, ou vice-versa, e como tal lhes serve frequentemente de fundamento para juízos categóricos de condenação das decisões dos árbitros. Na primeira parte do Benfica-Boavista (e não na segunda, como sintomaticamente refere Santos Neves), eu vi, de facto, um off-side muito mal marcado ao ataque do Benfica, porque o juiz-de-linha não respeitou a regra de, na dúvida, ser a favor do ataque, com isso anulando mal uma jogada de golo provável. Mas, no tal penalty que, segundo Santos Neves, só o árbitro não terá visto, acontece que, dos dois comentadores da Sport TV, por exemplo, um viu penalty claríssimo e o outro viu exactamente o mesmo que eu: o Nuno Gomes a adiantar a bola, o defesa do Boavista amanter-se deliberadamente estático e o avançado benfiquista a forçar o choque com ele - uma simulação clara. Independentemente de saber quem terá visto com razão, a pergunta é esta: se se trata de uma jogada em que as opiniões se dividem (ao contrário de outras, como a simulação do Silva na Luz, que não deixou dúvidas a ninguém), como se pode afirmar tão categoricamente que o árbitro errou, e para mais grosseiramente, apenas porque não teve a mesma leitura da jogada que nós próprios? Afinal de contas, como se constata, isto não é uma ciência certa. Para ninguém.
alargar a distância para o Sporting, ou pelo menos mantê-la depois do jogo de Alvalade, gozará de alguma margem de segurança para o terrível período de Fevereiro-Março, em que se baterá em quatro frentes (Campeonato, Taça, Europa e Selecção), enquanto o Sporting descansará de domingo a domingo. E, se é verdade que o Sporting receberá na segunda volta Porto e Benfica, enquanto o Porto terá de deslocar-se a Alvalade e à Luz, também é verdade que, tirando essas duas saídas, todas as outras com maior grau de dificuldade já foram ultrapassadas pelos portistas: Braga, Guimarães, Bessa, Restelo, Funchal, Leiria. Caminhamos, pois, para aquele que merece a designação de «jogo do título»: o Sporting-FC Porto, daqui a 12 dias e que, apesar disso, tem gozado de uma infinatamente menor promoção mediática do que o defunto derby Benfica-Sporting. No countdown para o grande jogo de Alvalade,sportinguistas e portistas tentam ainda reunir novas armas de última geração: o Sporting com a contratação do médio Tinga e o ainda namoro ao «emigrado» Hugo Viana; o FC Porto com a aquisição do também brasileiro e médio Carlos Alberto e do também emigrante Sérgio Conceição, para além da muito esperada conquista de Maciel para preencher o buraco deixado
por Derlei. Nesta guerra particular, de que o Benfica parece ajuizadamente auto-afastado, a aquisição pelo FC Porto de Sérgio Conceição (em cuja contratação o Sporting estava, ou esteve pelo menos, manifestamente interessado), causou já uma reacção clara de «dor de cotovelo» por parte do presidente da SAD do Sporting, vindo dizer que se deveria olhar com atenção para as contas de «alguns grandes» (leia-se, por junto, o FC Porto). Ora, não obstante o Sporting não estar
claramente em situação de dar lições na matéria - não só pelas aquisições que também faz, como pelos défices de exploração, tão grandes ou maiores que os do FC Porto, que mantém-a verdade é que a observação de Dias da Cunha tem razão de ser e eu também a faço. Para tudo dizer numa simples frase, é minha convicção que a compra de Sérgio Conceição foi um erro da SAD do FC Porto. E foi um erro por diversas razões que posso passar a explicar:
a) Em primeiro lugar, do ponto de vista desportivo, e embora correndo o risco de vir a ter de engolir esta opinião (mas a função do analista é arriscar opinião antes e não depois), duvido que Sérgio Conceição, na sua forma actual e que já vem de bem atrás, tenha talento para integrar o onze actual do FC Porto, para mais afastando da titularidade algum dos que lá se encontram actualmente. É verdade que se trata de um flanqueador, posição em que o FC Porto ficou este ano notavelmente desfalcado, e que isso pode permitir o regresso ao 4x3x3 clássico de José Mourinho, cujo abandono fui o primeiro a lamentar. Mas para isso era necessário que se tratasse do Sérgio Conceição que conhecemos ao serviço do FC Porto e não aquele que tem sido sistematicamente remetido para o banco de suplentes de todas as equipas por onde vem passando ultimamente, Selecção incluída.
b) Depois, o Sérgio Conceição, e muito legitimamente, é um jogador que aceita muito mal o banco de suplentes e que chega também legitimamente convicto de que vai ser titular indiscutível -o que poderá vir a ter consequências negativas no espírito da equipa;
c) Em terceiro lugar, e ainda sob o aspecto meramente desportivo, trata-se do terceiro jogador, para além de Maciel e Carlos Alberto, que, no espaço de semanas,
necessita de ser integrado e absorvido pela equipa, para além de todos os novos que chegaram este ano, como o Nuno, o Bosingwa, o Pedro Mendes, o Ricardo Fernandes, o Bruno Moraes, etc. Com tantas novidades, corre-se o risco de não aproveitar mais do que um ou dois;
d) Em quarto lugar, eu sempre fui contra os plantéis extensos, que me parece só terem desvantagens, quer desportivas quer financeiras, e sempre me fez confusão porque é que qualquer equipa portuguesa, com muito menos jogos durante a época, tem de ter plantéis notavelmente maiores do que as equipas inglesas, italianas ou espanholas. Não percebo como é que, para mais existindo equipas B e juniores para ir lançando, se trabalha uma época inteira com plantéis de trinta ou mais jogadores, dos quais só vinte, quanto muito, são verdadeiramente utilizados.
e) Em quinto lugar, se o facto de contratar um jogador que não pode jogar na Liga dos Campeões, como o Maciel, mas que veio substituir internamente o Derlei,
é uma medida tornada necessária pela força das circunstâncias, já comprar dois na mesma situação não é uma necessidade mas um luxo.
f) Finalmente, venha o Sérgio Conceição pelo tempo que vier, custa a compreender como é que um clube que ainda recentemente teve de recorrer a um empréstimo obrigacionista para resolver dificuldades de tesouraria, que mantém um défice de exploração crónico e assustador que se deve quase exclusivamente aos custos com a manutenção de um pequeno exército de jogadores sob contrato, vai contratar ainda mais um, que não serve para a Liga dos Campeões-o maior objectivo desportivo e financeiro-que internamente não aparece como reforço indispensável e cujos salários serão, certamente, ao nível máximo praticado na equipa. Pode ser que eu venha a estar enganado, mas, para que tal suceda, é necessário que no fim da época se possa dizer que o FC Porto não teria sido campeão sem o Sérgio Conceição. E duvido muito, muitíssimo, que venha a ser o caso.
Felizmente, aliás.
2. Na crónica do Benfica-Boavista, Santos Neves «executou» sumariamente o árbitro Elmano Santos, acusando-o de «só ele não ter visto aquela grande penalidade sobre o Nuno Gomes » e de ter sancionado dois offsides inexistentes. É engraçado como entre nós as decisões dos árbitros, que são necessariamente subjectivas, não gozam de qualquer contemplação por parte da crítica, mas já as próprias análises críticas, que também são subjectivas, adquirem uma aura de objectividade incontestável que, todavia, nada de especial justifica. Tenho visto inúmeras vezes como, nesta matéria, a cada cabeça corresponde sua sentença e nem sempre determinada por desvios clubistas, como não é o caso, agora. Tenho visto igualmente como os comentadores televisivos são capazes de ver numa
jogada exactamente o oposto do que eu vi, ou vice-versa, e como tal lhes serve frequentemente de fundamento para juízos categóricos de condenação das decisões dos árbitros. Na primeira parte do Benfica-Boavista (e não na segunda, como sintomaticamente refere Santos Neves), eu vi, de facto, um off-side muito mal marcado ao ataque do Benfica, porque o juiz-de-linha não respeitou a regra de, na dúvida, ser a favor do ataque, com isso anulando mal uma jogada de golo provável. Mas, no tal penalty que, segundo Santos Neves, só o árbitro não terá visto, acontece que, dos dois comentadores da Sport TV, por exemplo, um viu penalty claríssimo e o outro viu exactamente o mesmo que eu: o Nuno Gomes a adiantar a bola, o defesa do Boavista amanter-se deliberadamente estático e o avançado benfiquista a forçar o choque com ele - uma simulação clara. Independentemente de saber quem terá visto com razão, a pergunta é esta: se se trata de uma jogada em que as opiniões se dividem (ao contrário de outras, como a simulação do Silva na Luz, que não deixou dúvidas a ninguém), como se pode afirmar tão categoricamente que o árbitro errou, e para mais grosseiramente, apenas porque não teve a mesma leitura da jogada que nós próprios? Afinal de contas, como se constata, isto não é uma ciência certa. Para ninguém.
Uma semana difícil ( 13 Janeiro 2004)
1- A Instituição teve uma semana difícil, verdadeiramente complicada. E o motivo para isso não foi, ao contrário do que se possa pensar, a derrota com o cada vez mais eterno rival da Segunda Circular nem sequer a paupérrima demonstração de falta de categoria que a acompanhou. Como diz José Antonio Camacho, «não entendo que, por se perder um jogo, todos critiquem ». Também não foi o empate de domingo em Leiria, em que, bem vistas as coisas, tudo poderia ter sido pior: afinal de contas, aquela despassarada defesa apenas voltou a consentir três golos, que teriam sido cinco não fosse o Moreira (digo-vos, ó instituídos, a vossa Direcção agora parece que quer o Quim mas este rapaz que vocês têm na baliza bem justifica que façam essa economia e gastem o dinheiro, por exemplo, que sei eu, a comprar um par de centrais com algum jeito para a função). Não foi, pois, pelo lado da equipa de futebol que a Instituição viveu uma semana difícil. Mesmo coisas que podem parecer evidentes a alguns adeptos ignorantes— como esse disparate de achar que a equipa trabalha pouco— não são verdade. É certo que na semana antes do derby descansou mais um dia que o rival e logo a seguir à derrota, enquanto este voltava a trabalhar, a Instituição voltou a descansar. Mas logo na terça-feira foi ver os rapazes da Instituição a fazerem um tão intenso treino de duas horas que até tiveram de descansar na quarta e, como diz José Antonio Camacho, trabalha-se no Benfica tanto como nos maiores clubes do Mundo e o fundamental é que «se preservem os pilares colocados». Por isso é que os pilares voltaram a descansar no sábado, recuperando forças da longa viagem entre Lisboa e Vieira de Leiria. Ao contrário do que igualmente se possa pensar, também não foi aquela confusão entre o presidente e o vice-presidente que motivou a difícil semana da Instituição. É verdade que afinal acabámos por não perceber se se amam ou se se odeiam, se conspiram mutuamente ou se confiam um no outro cegamente. Ficámos apenas a saber, por comunicado, que, tendo sido eleitos com 90 por cento dos votos, representando um largo universo de seis milhões de benfiquistas, é natural que haja saudáveis diferenças de opinião entre eles — afinal de contas, 90 por cento de seis milhões de opiniões são muitas opiniões. Ficámos também a saber que tudo não passou de um mal-entendido acerca da filiação clubística de alguém contratado para o decisivo sector da propaganda e que alguns espíritos sempre atentos identificaram como um sportinguista infiltrado (a propósito, que será feito do ex-portista arrependido que ocupava funções idênticas na Instituição?). É que, como explicou alguém da casa, o problema não era apenas o de dormir com o inimigo, era a própria designação da Instituição que estava em perigo. Se, até aqui e ao que parece, já havia quem, lá na sombra dos corredores, andasse a murmurar que aquilo mais parecia o Sport Alverca e Benfica, agora corre-se o risco de murmurarem que parece o Sporting Alverca e Benfica. E isto, note-se, dito por pessoas da casa, intramuros, e não por algum daqueles arruaceiros do Fê-Cê-Pê, como aqueles que em Santa Apolónia andaram a anavalhar sportinguistas disfarçados de claque benfiquista! Não foram, pois, os resultados da equipa de futebol, nem os do vólei, do básquete, do hóquei ou do futsal—tudo derrotas —, que abalaram esta semana a Instituição. Nem sequer o foram as guerras intestinas na SAD ou o comportamento público das claques. Nada disso. O que verdadeiramente abalou a Instituição foi o caso do Evandro. O quê, não sabe o que foi o caso do Evandro? Eu explico: o Evandro é um jogador do Rio Ave que, aos 85 minutos do jogo contra o FC Porto, nas Antas, seguia isolado a caminho da baliza do Baía quando o árbitro auxiliar o assinalou em offside inexistente (para haver offside, existente ou não, é forçoso que o jogador esteja sempre isolado... mas isso é um detalhe). Facto é que o Evandro ia isolado e sabe-se como o Evandro isolado é sempre letal. No caso concreto, embora seja certo que, em 85 minutos de jogo, nem o Evandro nem nenhum dos seus colegas havia criado uma ocasião de golo ou acertado com um remate na baliza do FC Porto, não restam dúvidas de que o Evandro se preparava para percorrer os 30 metros que o separavam da glória evitando todos os defensores no seu encalce e que, uma vez isoladíssimo frente ao Baía, se limitaria a perguntar «para que lado queres?». É verdade que, antes de o Evandro ser travado quando ia marcar um infalível golo, o trio de arbitragem também errou ao não ver uma grande penalidade, todavia pacífica, contra o Rio Ave. Mas isso não interessa: erros contra o FC Porto são erros saudáveis para manter a emoção no campeonato, os outros é que não se consentem. Não fosse o erro do árbitro auxiliar e o Rio Ave teria ganho, ou pelo menos empatado, nas Antas e a Instituição não estaria agora a 11 pontos do FC Portomas sim a uns confortáveis e estimulantes 8 ou 9 pontos, suficientes para «se preservarem os pilares colocados». Como escreveu um tal de Nélson Veiga, em A Capital, há sempre «um árbitro amigo que desenrasca os momentos mais complicados » do FC Porto. Foi assim— para não ir mais atrás—que, na época passada, o FC Porto ganhou a Supertaça, a Taça de Portugal, a Taça UEFA e acabou o campeonato, salvo erro, com uns 12 pontos de avanço sobre a Instituição. São esses árbitros amigos que dão as vitórias e os títulos ao Fê-Cê-Pê e abalam os sete pilares da sabedoria.
2- Nunca percebi a mentalidade dos treinadores que, nos jogos mais importantes, deixam no banco os melhores e mais criativos jogadores que têm disponíveis, privilegiando os jogadores de tipo destrutivo-defensivo, com os quais acham que o meio-campo fica «mais sólido», a equipa «mais compacta» ou «mais coesa» ou outros chavões que tais. Vítor Pontes, treinador do Leiria, fez isso contra o Benfica, deixando no banco, o jogo inteiro, aquele que é não apenas o melhor jogador da equipa mas um dos melhores deste campeonato, um desequilibrador nato: Caíco. Aliás, em minha ignorante opinião, Vítor Pontes fez tudo o que podia para não ganhar o jogo, preferindo sempre apostar em defender o que tinha conquistado, apesar da sua fraca defesa, em lugar de buscar o KO do adversário, aproveitando a facilidade com que o seu ataque lançava o caos e o pânico na patética defesa benfiquista. Acabou por conseguir um empate, salvo que foi pela categoria dos seus avançados.
3- A avaliar pelas análises da imprensa, há um novo valor a despontar na arbitragem portuguesa: trata-se de Pedro Henriques, de Lisboa, o já célebre sargento do Exército que gosta de apitar à inglesa. Voltei a apreciá-lo no Paços de Ferreira-FC Porto desta semana e confirmei que se trata de um árbitro com qualidades evidentes: grande presença física, acompanhando em cima cada lance, tecnicamente competente nos juízos, discreto e impondo uma autoridade natural e não espalhafatosa, fruto também da ideia de total equidade nos julgamentos que transmite. São qualidades essenciais e decisivas para se fazer um bom árbitro e não tenho dúvidas de que ele vai no caminho certo. Todavia, o tal critério de apitar à inglesa deixa-me muitas dúvidas, algumas delas inevitáveis para quem escolhe um critério de risco. Sem dúvida que este critério é o que melhor defende o espectáculo, evitando as sucessivas interrupções, as simulações de faltas e fitas, que caracterizam os nossos jogos-tipos. O problema é que Portugal não é a Inglaterra e os nossos jogadores não têm a mentalidade dos jogadores ingleses. A um árbitro liberal corresponde em Inglaterra uma atitude dos jogadores que não passa pelas faltas feias, porcas e sujas. Em Portugal, porém, o tipo de arbitragem privilegiado por Pedro Henriques conduz, quase inevitavelmente, a que os caceteiros habituais achem que têm carta de alforria para pôr em campo livremente os seus dotes de antijogo. E isso viu-se no Paços de Ferreira-FC Porto: à meia hora de jogo já o Maciel tinha sido ceifado três vezes por detrás, por entradas que, em Inglaterra, teriam conduzido, cada uma delas, a expulsão directa. Pedro Henriques assistiu às duas primeiras sem sanção disciplinar e à última, verdadeiramente bárbara, a justificar não um cartão vermelho mas um negro, ficou-se por um amarelo — prolongando disciplinarmente o critério de avaliação técnica, o que já não é admissível nem recomendável nem legítimo face às regras da FIFA em vigor. Se, como cheguei a temer, o Maciel tem sido lesionado com gravidade logo no seu jogo de estreia pelo FC Porto, como se sentiria hoje Pedro Henriques e que responderia ele quando o FC Porto lhe viesse exigir responsabilidades? Uma coisa é ter um critério largo e uniforme na apreciação das faltas, permitindo que o jogo tenha mais ritmo e mais tempo útil, outra, e bem diferente, é confundir isso com a complacência para com o antijogo e a violência que chega a pôr em risco a integridade física dos jogadores, de que o árbitro deve ser o primeiro protector.
4- Enquanto a Direcção do Benfica, entretida com coisas mais importantes, não houve de se preocupar ou dizer uma palavra sobre o comportamento das suas claques, que apredrejaram o autocarro do Sporting à entrada da Luz e deixaram em perigo de vida adeptos adversários, anavalhados por um jogo de futebol, aDirecção do Sporting não deixou passar em claro a atitude das suas claques, que não respeitaram ominuto de silêncio pela morte do antigo dirigente benfiquista Fezas Vital. Louve-se a diferença.
2- Nunca percebi a mentalidade dos treinadores que, nos jogos mais importantes, deixam no banco os melhores e mais criativos jogadores que têm disponíveis, privilegiando os jogadores de tipo destrutivo-defensivo, com os quais acham que o meio-campo fica «mais sólido», a equipa «mais compacta» ou «mais coesa» ou outros chavões que tais. Vítor Pontes, treinador do Leiria, fez isso contra o Benfica, deixando no banco, o jogo inteiro, aquele que é não apenas o melhor jogador da equipa mas um dos melhores deste campeonato, um desequilibrador nato: Caíco. Aliás, em minha ignorante opinião, Vítor Pontes fez tudo o que podia para não ganhar o jogo, preferindo sempre apostar em defender o que tinha conquistado, apesar da sua fraca defesa, em lugar de buscar o KO do adversário, aproveitando a facilidade com que o seu ataque lançava o caos e o pânico na patética defesa benfiquista. Acabou por conseguir um empate, salvo que foi pela categoria dos seus avançados.
3- A avaliar pelas análises da imprensa, há um novo valor a despontar na arbitragem portuguesa: trata-se de Pedro Henriques, de Lisboa, o já célebre sargento do Exército que gosta de apitar à inglesa. Voltei a apreciá-lo no Paços de Ferreira-FC Porto desta semana e confirmei que se trata de um árbitro com qualidades evidentes: grande presença física, acompanhando em cima cada lance, tecnicamente competente nos juízos, discreto e impondo uma autoridade natural e não espalhafatosa, fruto também da ideia de total equidade nos julgamentos que transmite. São qualidades essenciais e decisivas para se fazer um bom árbitro e não tenho dúvidas de que ele vai no caminho certo. Todavia, o tal critério de apitar à inglesa deixa-me muitas dúvidas, algumas delas inevitáveis para quem escolhe um critério de risco. Sem dúvida que este critério é o que melhor defende o espectáculo, evitando as sucessivas interrupções, as simulações de faltas e fitas, que caracterizam os nossos jogos-tipos. O problema é que Portugal não é a Inglaterra e os nossos jogadores não têm a mentalidade dos jogadores ingleses. A um árbitro liberal corresponde em Inglaterra uma atitude dos jogadores que não passa pelas faltas feias, porcas e sujas. Em Portugal, porém, o tipo de arbitragem privilegiado por Pedro Henriques conduz, quase inevitavelmente, a que os caceteiros habituais achem que têm carta de alforria para pôr em campo livremente os seus dotes de antijogo. E isso viu-se no Paços de Ferreira-FC Porto: à meia hora de jogo já o Maciel tinha sido ceifado três vezes por detrás, por entradas que, em Inglaterra, teriam conduzido, cada uma delas, a expulsão directa. Pedro Henriques assistiu às duas primeiras sem sanção disciplinar e à última, verdadeiramente bárbara, a justificar não um cartão vermelho mas um negro, ficou-se por um amarelo — prolongando disciplinarmente o critério de avaliação técnica, o que já não é admissível nem recomendável nem legítimo face às regras da FIFA em vigor. Se, como cheguei a temer, o Maciel tem sido lesionado com gravidade logo no seu jogo de estreia pelo FC Porto, como se sentiria hoje Pedro Henriques e que responderia ele quando o FC Porto lhe viesse exigir responsabilidades? Uma coisa é ter um critério largo e uniforme na apreciação das faltas, permitindo que o jogo tenha mais ritmo e mais tempo útil, outra, e bem diferente, é confundir isso com a complacência para com o antijogo e a violência que chega a pôr em risco a integridade física dos jogadores, de que o árbitro deve ser o primeiro protector.
4- Enquanto a Direcção do Benfica, entretida com coisas mais importantes, não houve de se preocupar ou dizer uma palavra sobre o comportamento das suas claques, que apredrejaram o autocarro do Sporting à entrada da Luz e deixaram em perigo de vida adeptos adversários, anavalhados por um jogo de futebol, aDirecção do Sporting não deixou passar em claro a atitude das suas claques, que não respeitaram ominuto de silêncio pela morte do antigo dirigente benfiquista Fezas Vital. Louve-se a diferença.
A morte lenta de Camacho (7 Janeiro 2004)
1 Pobre Benfica! Dez anos a fio sem ganhar o Campeonato e, pior ainda,sem nunca ter estado na corrida para o ganhar! Sem uma campanha europeia minimamente digna desse nome, sem um motivo de alegria para os adeptos,excepto uma já longínqua Volta a Portugal em bicicleta, através de um grupo de espanhóis contratados ad hoc e jamais pagos! E agora, agora que tudo parecia reunido, que a equipa chegou ao Natal, como proclamou o sr.Camacho «ainda em luta em todas as frentes»; agora que o novo e belíssimo Estádio da Luz, milagrosamente construído quase sem tostão no bolso (e onde até a relva é impecável), se preparava para acolher o primeiro derby da sua história; agora, que este Benfica-Sporting havia sido promovido pela imprensa especializada como jamais jogo algum foi promovido em Portugal, até haver a certeza absoluta de que não restava um bilhete por vender; agora que os seis milhões (são seis, não é verdade?) nada mais esperavam que não a confirmação do favoritismo proclamado pelo sr. Camacho; agora, a equipa baqueia, sem apelo nem agravo, no primeiro teste de fogo (em boa verdade, o segundo, porque já antes havia baqueado na qualificação para a Liga dos Campeões, no que era o mais importante jogo do ano e em que, frente a uma Lazio em baixo de forma e em princípio de preparação foi considerado motivo para elogios ser eliminado apenas por três golos de diferença)!
2 Manda a verdade que se diga que a derrota do Benfica começou de forma falsa e antidesportiva, através de um dos tais penalties fórmula-João Pinto, que consiste em adiantar a bola e deixar um pé para trás de forma a chocar deliberadamente com as pernas ou os braços do guarda- redes e depois deixar-se cair com grande aparato (se houvesse verdadeira justiça na Liga e não aquela paródia antiportista protagonizada pelo Conselho de Disciplina, o sr. Elpídio Silva levaria agora três ou quatro jogos de suspensão por conduta antidesportiva, agravada por ter induzido o árbitro em erro e ter tido influência directa no resultado). Mestre Silva mostrou que não é em vão que se treina na Academia de Alcochete e o Sporting acrescentou a estatistica do clube que invariávelmente obtém mais golos de penalty, apesar de consabidamente ainda ficarem em média 3,83 por assinalar a seu favor em cada jogo. Mas presumo que o dr. Dias da Cunha, desta vez, não queira fazer um comunicado sobre o assunto...
3 Já se sabe que não pode haver um Benfica-Sporting sem casos. Aliás, aqui entre nós, acho que não pode haver nenhum jogo em que intervenha o Sporting sem casos - esse é mesmo um dos maiores casos do futebol português. Tudo começou, desta vez, com mais um patético comunicado da SAD do Sporting a explicar porque é que, mais uma vez, ninguém do clube, excepto os que por dever de contrato não se podiam baldar, iria estar presente na Luz. Ao menos Santana Lopes, honra lhe seja feita, não ficou em casa a redigir comunicados e a ver o jogo pela televisão. Os casos continuaram no relvado, primeiro com o penalty fantasma sacado por Silva e de que Pedro Proença foi vítima indefesa, tamanha é a perfeição daquele truque tão caro tradicionalmente aos avançados de Alvalade.
Depois, sim, o árbitro errou na expulsão do Rochembach- não no segundo amarelo mas no primeiro, em que o desgraçado, vindo e ido em rallye aéreo só para jogar metade do jogo, se limitou a levar um murro do Miguel. E acertou ao não validar um hipotético golo do Benfica em que nenhumas imagens permitem concluir que o Ricardo defendeu a bola dentro da baliza, e acertou também no segundo penalty, em que o Helder varreu,de facto, o Liedson. Conclusão: a arbitragem errou apenas uma vez e aí por mérito do artista.
4 Tal como aqui escrevi há duas semanas, para um portista, o resultado preferido deste grande derby - como sempre indigente em termos futebolísticos - era a vitória do Benfica. Porque, como ficou patente e apesar da falsidade do golo inaugural, é o Sporting a grande ameaça ao FC Porto este ano e não o Benfica. O jogo confirmou que, dos dois, só o Sporting mostrou ter uma organização de jogo, a vontade e o talento para poder ganhar. Não se pode exigir a José António Camacho que faça omoletes sem ovos. E eu, que estou de fora e que já fui grande admirador de equipas do Benfica, mesmo sem ter de recuar aos irrepetíveis anos 60, venho dizendo aos meus amigos benfiquistas, contra as suas ilusões, que não me recordo de ver uma equipa do Benfica tão má como esta. Por junto, há dois jogadores bons nesta equipa: o Moreira e o Simão - do resto, alguns têm uns fogachos de vez em quando e os outros chegam a ser confrangedores. Mesmo assim, há coisas que dão que pensar. Longe de mim pôr em causa o valor do sr. Camacho mas recordem-me lá um grande jogo feito pelo Benfica desde que ele chegou? Um teste de verdade que ele tenha vencido? Vi-o convocar o estágio da pré-época, no pino de Julho, sob 50.º graus à sombra, para Jerez de la Frontera, treinando contra os juniores das equipas amadoras do pueblo próximo do hotel e depois a equipa aparecerer no Campeonato a arrastar- se. Ouvi-o lamentar-se da
«sobrecarga de jogos», porque o Benfica tinha acumulado, à 10.ª jornada do Campeonato, os jogos nacionais com uns jogos da UEFA contra uns amadores da Finlândia ou da Noruega, cujos jogadores, coitados, ainda tinham de vender bilhetes para o espectáculo no dia do próprio jogo, enquanto os profissionais do Benfica estavam concentradíssimos num hotel de luxo. Ouvi-o lastimar-se várias vezes porque por cá as equipas pequenas jogavam sempre muito contra o Benfica, como se fosse dever delas inclinar voluntariamente a espinha perante o Glorioso. E vi-o desdenhar sobranceiramente o treino da equipa no dia 1 de Janeiro,
declarando que jamais convocaria os jogadores para se treinarem a seguir ao réveillon - enquanto no Sporting, Fernando Santos não dispensou o treino do dia 1 de Janeiro e, no FC Porto, Mourinho fez o mesmo, apesar de a equipa só jogar 24 horas mais tarde, em casa e contra o Rio Ave. Vi tudo isso mas pensei para com os meus botões: «Ele é que sabe!» Mas, depois, bem, depois, foram às Antas e não tugiram nem mugiram, receberam o Sporting e foi a confrangedora incapacidade que se viu. Não é só haver ali jogadores que já nem reparamos se ainda estão em campo ou se já foram substituídos, tamanha é a sua inutilidade e a sua ausência do jogo; já nem é aquela patética defesa eternamente aos papéis e que não merece o guarda-redes que tem, aquele meio-campo onde pontifica,
indispensável (Santo Deus!), o Fernando Aguiar, aquele ataque que vive únicamente dos dias e dos rasgos de inspiração de Simão Sabrosa. O mais impressionante de tudo é que, um ano e meio depois, o Benfica de Camacho não aparenta ter uma única ideia de jogo, uma única jogada treinada, que não os livres do Simão. O grande mistério para mim é como é que este Benfica, que joga muito menos que um Beira- Mar, que um Braga, que um União de Leiria, que um Gil Vicente, consegue estar em terceiro lugar no Campeonato. Afin a l de c o n t a s , tenho de reconhecer, deve ser por mérito do treinador.
5 José Antonio Camacho nunca foi, porém - há que reconhecê-lo - um demagogo ou um vendedor de banha da cobra. Nunca proclamou, como Mourinho, «para o ano vamos ser campeões!» Mas esse low profile, que sempre foi tido como uma qualidade e um sinal de realismo e de humildade, também pode ser lido como um sinal de conformismo e derrotismo. Sobretudo quando, no final da época passada, ele fez constar que se iria embora se a Direcção do clube não lhe desse uma equipa capaz de lutar pelo título. A Direcção do clube nada lhe deu (deu-lhe agora o tão esperado defesa-esquerdo, sob a forma de um grego, eventualmente bom
jogador, mas com todo o ar de quem vem para o Benfica gozar a reforma), e, apesar disso, ele ficou. Mas ficou, numa atitude de melancólico fatalismo, dando-se por contente quando a equipa não joga nada mas ganha ou quando joga menos mal e mesmo assim é eliminada facilmente por uma sub-Lázio. Como se exclamasse: «O que querem? É o que temos!» Ora, correndo o risco de meter a foice em seara alheia, eu penso que o Benfica é demasiado grande para tão fracas ambições. Manifestamente, há ali jogadores que não merecem a camisola nem o ordenado, há bastante falta de vontade e de profissionalismo, há demasiada falta de ambição e excesso de mediocridade aceite como coisa banal. E talvez falte quem faça o discurso exactamente contrário: «Para o ano vamos ser campeões.
Quem quiser acreditar fica. Quem não quiser, vá-se embora! » Mas, como digo, eles lá sabem e com a fraqueza alheia podemos nós bem. Continuem antes a destilar veneno e maledicência contra o FC Porto e pode ser que um dia consigam assim voltar a ser campeões...
2 Manda a verdade que se diga que a derrota do Benfica começou de forma falsa e antidesportiva, através de um dos tais penalties fórmula-João Pinto, que consiste em adiantar a bola e deixar um pé para trás de forma a chocar deliberadamente com as pernas ou os braços do guarda- redes e depois deixar-se cair com grande aparato (se houvesse verdadeira justiça na Liga e não aquela paródia antiportista protagonizada pelo Conselho de Disciplina, o sr. Elpídio Silva levaria agora três ou quatro jogos de suspensão por conduta antidesportiva, agravada por ter induzido o árbitro em erro e ter tido influência directa no resultado). Mestre Silva mostrou que não é em vão que se treina na Academia de Alcochete e o Sporting acrescentou a estatistica do clube que invariávelmente obtém mais golos de penalty, apesar de consabidamente ainda ficarem em média 3,83 por assinalar a seu favor em cada jogo. Mas presumo que o dr. Dias da Cunha, desta vez, não queira fazer um comunicado sobre o assunto...
3 Já se sabe que não pode haver um Benfica-Sporting sem casos. Aliás, aqui entre nós, acho que não pode haver nenhum jogo em que intervenha o Sporting sem casos - esse é mesmo um dos maiores casos do futebol português. Tudo começou, desta vez, com mais um patético comunicado da SAD do Sporting a explicar porque é que, mais uma vez, ninguém do clube, excepto os que por dever de contrato não se podiam baldar, iria estar presente na Luz. Ao menos Santana Lopes, honra lhe seja feita, não ficou em casa a redigir comunicados e a ver o jogo pela televisão. Os casos continuaram no relvado, primeiro com o penalty fantasma sacado por Silva e de que Pedro Proença foi vítima indefesa, tamanha é a perfeição daquele truque tão caro tradicionalmente aos avançados de Alvalade.
Depois, sim, o árbitro errou na expulsão do Rochembach- não no segundo amarelo mas no primeiro, em que o desgraçado, vindo e ido em rallye aéreo só para jogar metade do jogo, se limitou a levar um murro do Miguel. E acertou ao não validar um hipotético golo do Benfica em que nenhumas imagens permitem concluir que o Ricardo defendeu a bola dentro da baliza, e acertou também no segundo penalty, em que o Helder varreu,de facto, o Liedson. Conclusão: a arbitragem errou apenas uma vez e aí por mérito do artista.
4 Tal como aqui escrevi há duas semanas, para um portista, o resultado preferido deste grande derby - como sempre indigente em termos futebolísticos - era a vitória do Benfica. Porque, como ficou patente e apesar da falsidade do golo inaugural, é o Sporting a grande ameaça ao FC Porto este ano e não o Benfica. O jogo confirmou que, dos dois, só o Sporting mostrou ter uma organização de jogo, a vontade e o talento para poder ganhar. Não se pode exigir a José António Camacho que faça omoletes sem ovos. E eu, que estou de fora e que já fui grande admirador de equipas do Benfica, mesmo sem ter de recuar aos irrepetíveis anos 60, venho dizendo aos meus amigos benfiquistas, contra as suas ilusões, que não me recordo de ver uma equipa do Benfica tão má como esta. Por junto, há dois jogadores bons nesta equipa: o Moreira e o Simão - do resto, alguns têm uns fogachos de vez em quando e os outros chegam a ser confrangedores. Mesmo assim, há coisas que dão que pensar. Longe de mim pôr em causa o valor do sr. Camacho mas recordem-me lá um grande jogo feito pelo Benfica desde que ele chegou? Um teste de verdade que ele tenha vencido? Vi-o convocar o estágio da pré-época, no pino de Julho, sob 50.º graus à sombra, para Jerez de la Frontera, treinando contra os juniores das equipas amadoras do pueblo próximo do hotel e depois a equipa aparecerer no Campeonato a arrastar- se. Ouvi-o lamentar-se da
«sobrecarga de jogos», porque o Benfica tinha acumulado, à 10.ª jornada do Campeonato, os jogos nacionais com uns jogos da UEFA contra uns amadores da Finlândia ou da Noruega, cujos jogadores, coitados, ainda tinham de vender bilhetes para o espectáculo no dia do próprio jogo, enquanto os profissionais do Benfica estavam concentradíssimos num hotel de luxo. Ouvi-o lastimar-se várias vezes porque por cá as equipas pequenas jogavam sempre muito contra o Benfica, como se fosse dever delas inclinar voluntariamente a espinha perante o Glorioso. E vi-o desdenhar sobranceiramente o treino da equipa no dia 1 de Janeiro,
declarando que jamais convocaria os jogadores para se treinarem a seguir ao réveillon - enquanto no Sporting, Fernando Santos não dispensou o treino do dia 1 de Janeiro e, no FC Porto, Mourinho fez o mesmo, apesar de a equipa só jogar 24 horas mais tarde, em casa e contra o Rio Ave. Vi tudo isso mas pensei para com os meus botões: «Ele é que sabe!» Mas, depois, bem, depois, foram às Antas e não tugiram nem mugiram, receberam o Sporting e foi a confrangedora incapacidade que se viu. Não é só haver ali jogadores que já nem reparamos se ainda estão em campo ou se já foram substituídos, tamanha é a sua inutilidade e a sua ausência do jogo; já nem é aquela patética defesa eternamente aos papéis e que não merece o guarda-redes que tem, aquele meio-campo onde pontifica,
indispensável (Santo Deus!), o Fernando Aguiar, aquele ataque que vive únicamente dos dias e dos rasgos de inspiração de Simão Sabrosa. O mais impressionante de tudo é que, um ano e meio depois, o Benfica de Camacho não aparenta ter uma única ideia de jogo, uma única jogada treinada, que não os livres do Simão. O grande mistério para mim é como é que este Benfica, que joga muito menos que um Beira- Mar, que um Braga, que um União de Leiria, que um Gil Vicente, consegue estar em terceiro lugar no Campeonato. Afin a l de c o n t a s , tenho de reconhecer, deve ser por mérito do treinador.
5 José Antonio Camacho nunca foi, porém - há que reconhecê-lo - um demagogo ou um vendedor de banha da cobra. Nunca proclamou, como Mourinho, «para o ano vamos ser campeões!» Mas esse low profile, que sempre foi tido como uma qualidade e um sinal de realismo e de humildade, também pode ser lido como um sinal de conformismo e derrotismo. Sobretudo quando, no final da época passada, ele fez constar que se iria embora se a Direcção do clube não lhe desse uma equipa capaz de lutar pelo título. A Direcção do clube nada lhe deu (deu-lhe agora o tão esperado defesa-esquerdo, sob a forma de um grego, eventualmente bom
jogador, mas com todo o ar de quem vem para o Benfica gozar a reforma), e, apesar disso, ele ficou. Mas ficou, numa atitude de melancólico fatalismo, dando-se por contente quando a equipa não joga nada mas ganha ou quando joga menos mal e mesmo assim é eliminada facilmente por uma sub-Lázio. Como se exclamasse: «O que querem? É o que temos!» Ora, correndo o risco de meter a foice em seara alheia, eu penso que o Benfica é demasiado grande para tão fracas ambições. Manifestamente, há ali jogadores que não merecem a camisola nem o ordenado, há bastante falta de vontade e de profissionalismo, há demasiada falta de ambição e excesso de mediocridade aceite como coisa banal. E talvez falte quem faça o discurso exactamente contrário: «Para o ano vamos ser campeões.
Quem quiser acreditar fica. Quem não quiser, vá-se embora! » Mas, como digo, eles lá sabem e com a fraqueza alheia podemos nós bem. Continuem antes a destilar veneno e maledicência contra o FC Porto e pode ser que um dia consigam assim voltar a ser campeões...