sábado, fevereiro 28, 2004

Uma semana difícil ( 13 Janeiro 2004)

1- A Instituição teve uma semana difícil, verdadeiramente complicada. E o motivo para isso não foi, ao contrário do que se possa pensar, a derrota com o cada vez mais eterno rival da Segunda Circular nem sequer a paupérrima demonstração de falta de categoria que a acompanhou. Como diz José Antonio Camacho, «não entendo que, por se perder um jogo, todos critiquem ». Também não foi o empate de domingo em Leiria, em que, bem vistas as coisas, tudo poderia ter sido pior: afinal de contas, aquela despassarada defesa apenas voltou a consentir três golos, que teriam sido cinco não fosse o Moreira (digo-vos, ó instituídos, a vossa Direcção agora parece que quer o Quim mas este rapaz que vocês têm na baliza bem justifica que façam essa economia e gastem o dinheiro, por exemplo, que sei eu, a comprar um par de centrais com algum jeito para a função). Não foi, pois, pelo lado da equipa de futebol que a Instituição viveu uma semana difícil. Mesmo coisas que podem parecer evidentes a alguns adeptos ignorantes— como esse disparate de achar que a equipa trabalha pouco— não são verdade. É certo que na semana antes do derby descansou mais um dia que o rival e logo a seguir à derrota, enquanto este voltava a trabalhar, a Instituição voltou a descansar. Mas logo na terça-feira foi ver os rapazes da Instituição a fazerem um tão intenso treino de duas horas que até tiveram de descansar na quarta e, como diz José Antonio Camacho, trabalha-se no Benfica tanto como nos maiores clubes do Mundo e o fundamental é que «se preservem os pilares colocados». Por isso é que os pilares voltaram a descansar no sábado, recuperando forças da longa viagem entre Lisboa e Vieira de Leiria. Ao contrário do que igualmente se possa pensar, também não foi aquela confusão entre o presidente e o vice-presidente que motivou a difícil semana da Instituição. É verdade que afinal acabámos por não perceber se se amam ou se se odeiam, se conspiram mutuamente ou se confiam um no outro cegamente. Ficámos apenas a saber, por comunicado, que, tendo sido eleitos com 90 por cento dos votos, representando um largo universo de seis milhões de benfiquistas, é natural que haja saudáveis diferenças de opinião entre eles — afinal de contas, 90 por cento de seis milhões de opiniões são muitas opiniões. Ficámos também a saber que tudo não passou de um mal-entendido acerca da filiação clubística de alguém contratado para o decisivo sector da propaganda e que alguns espíritos sempre atentos identificaram como um sportinguista infiltrado (a propósito, que será feito do ex-portista arrependido que ocupava funções idênticas na Instituição?). É que, como explicou alguém da casa, o problema não era apenas o de dormir com o inimigo, era a própria designação da Instituição que estava em perigo. Se, até aqui e ao que parece, já havia quem, lá na sombra dos corredores, andasse a murmurar que aquilo mais parecia o Sport Alverca e Benfica, agora corre-se o risco de murmurarem que parece o Sporting Alverca e Benfica. E isto, note-se, dito por pessoas da casa, intramuros, e não por algum daqueles arruaceiros do Fê-Cê-Pê, como aqueles que em Santa Apolónia andaram a anavalhar sportinguistas disfarçados de claque benfiquista! Não foram, pois, os resultados da equipa de futebol, nem os do vólei, do básquete, do hóquei ou do futsal—tudo derrotas —, que abalaram esta semana a Instituição. Nem sequer o foram as guerras intestinas na SAD ou o comportamento público das claques. Nada disso. O que verdadeiramente abalou a Instituição foi o caso do Evandro. O quê, não sabe o que foi o caso do Evandro? Eu explico: o Evandro é um jogador do Rio Ave que, aos 85 minutos do jogo contra o FC Porto, nas Antas, seguia isolado a caminho da baliza do Baía quando o árbitro auxiliar o assinalou em offside inexistente (para haver offside, existente ou não, é forçoso que o jogador esteja sempre isolado... mas isso é um detalhe). Facto é que o Evandro ia isolado e sabe-se como o Evandro isolado é sempre letal. No caso concreto, embora seja certo que, em 85 minutos de jogo, nem o Evandro nem nenhum dos seus colegas havia criado uma ocasião de golo ou acertado com um remate na baliza do FC Porto, não restam dúvidas de que o Evandro se preparava para percorrer os 30 metros que o separavam da glória evitando todos os defensores no seu encalce e que, uma vez isoladíssimo frente ao Baía, se limitaria a perguntar «para que lado queres?». É verdade que, antes de o Evandro ser travado quando ia marcar um infalível golo, o trio de arbitragem também errou ao não ver uma grande penalidade, todavia pacífica, contra o Rio Ave. Mas isso não interessa: erros contra o FC Porto são erros saudáveis para manter a emoção no campeonato, os outros é que não se consentem. Não fosse o erro do árbitro auxiliar e o Rio Ave teria ganho, ou pelo menos empatado, nas Antas e a Instituição não estaria agora a 11 pontos do FC Portomas sim a uns confortáveis e estimulantes 8 ou 9 pontos, suficientes para «se preservarem os pilares colocados». Como escreveu um tal de Nélson Veiga, em A Capital, há sempre «um árbitro amigo que desenrasca os momentos mais complicados » do FC Porto. Foi assim— para não ir mais atrás—que, na época passada, o FC Porto ganhou a Supertaça, a Taça de Portugal, a Taça UEFA e acabou o campeonato, salvo erro, com uns 12 pontos de avanço sobre a Instituição. São esses árbitros amigos que dão as vitórias e os títulos ao Fê-Cê-Pê e abalam os sete pilares da sabedoria.

2- Nunca percebi a mentalidade dos treinadores que, nos jogos mais importantes, deixam no banco os melhores e mais criativos jogadores que têm disponíveis, privilegiando os jogadores de tipo destrutivo-defensivo, com os quais acham que o meio-campo fica «mais sólido», a equipa «mais compacta» ou «mais coesa» ou outros chavões que tais. Vítor Pontes, treinador do Leiria, fez isso contra o Benfica, deixando no banco, o jogo inteiro, aquele que é não apenas o melhor jogador da equipa mas um dos melhores deste campeonato, um desequilibrador nato: Caíco. Aliás, em minha ignorante opinião, Vítor Pontes fez tudo o que podia para não ganhar o jogo, preferindo sempre apostar em defender o que tinha conquistado, apesar da sua fraca defesa, em lugar de buscar o KO do adversário, aproveitando a facilidade com que o seu ataque lançava o caos e o pânico na patética defesa benfiquista. Acabou por conseguir um empate, salvo que foi pela categoria dos seus avançados.

3- A avaliar pelas análises da imprensa, há um novo valor a despontar na arbitragem portuguesa: trata-se de Pedro Henriques, de Lisboa, o já célebre sargento do Exército que gosta de apitar à inglesa. Voltei a apreciá-lo no Paços de Ferreira-FC Porto desta semana e confirmei que se trata de um árbitro com qualidades evidentes: grande presença física, acompanhando em cima cada lance, tecnicamente competente nos juízos, discreto e impondo uma autoridade natural e não espalhafatosa, fruto também da ideia de total equidade nos julgamentos que transmite. São qualidades essenciais e decisivas para se fazer um bom árbitro e não tenho dúvidas de que ele vai no caminho certo. Todavia, o tal critério de apitar à inglesa deixa-me muitas dúvidas, algumas delas inevitáveis para quem escolhe um critério de risco. Sem dúvida que este critério é o que melhor defende o espectáculo, evitando as sucessivas interrupções, as simulações de faltas e fitas, que caracterizam os nossos jogos-tipos. O problema é que Portugal não é a Inglaterra e os nossos jogadores não têm a mentalidade dos jogadores ingleses. A um árbitro liberal corresponde em Inglaterra uma atitude dos jogadores que não passa pelas faltas feias, porcas e sujas. Em Portugal, porém, o tipo de arbitragem privilegiado por Pedro Henriques conduz, quase inevitavelmente, a que os caceteiros habituais achem que têm carta de alforria para pôr em campo livremente os seus dotes de antijogo. E isso viu-se no Paços de Ferreira-FC Porto: à meia hora de jogo já o Maciel tinha sido ceifado três vezes por detrás, por entradas que, em Inglaterra, teriam conduzido, cada uma delas, a expulsão directa. Pedro Henriques assistiu às duas primeiras sem sanção disciplinar e à última, verdadeiramente bárbara, a justificar não um cartão vermelho mas um negro, ficou-se por um amarelo — prolongando disciplinarmente o critério de avaliação técnica, o que já não é admissível nem recomendável nem legítimo face às regras da FIFA em vigor. Se, como cheguei a temer, o Maciel tem sido lesionado com gravidade logo no seu jogo de estreia pelo FC Porto, como se sentiria hoje Pedro Henriques e que responderia ele quando o FC Porto lhe viesse exigir responsabilidades? Uma coisa é ter um critério largo e uniforme na apreciação das faltas, permitindo que o jogo tenha mais ritmo e mais tempo útil, outra, e bem diferente, é confundir isso com a complacência para com o antijogo e a violência que chega a pôr em risco a integridade física dos jogadores, de que o árbitro deve ser o primeiro protector.

4- Enquanto a Direcção do Benfica, entretida com coisas mais importantes, não houve de se preocupar ou dizer uma palavra sobre o comportamento das suas claques, que apredrejaram o autocarro do Sporting à entrada da Luz e deixaram em perigo de vida adeptos adversários, anavalhados por um jogo de futebol, aDirecção do Sporting não deixou passar em claro a atitude das suas claques, que não respeitaram ominuto de silêncio pela morte do antigo dirigente benfiquista Fezas Vital. Louve-se a diferença.

A morte lenta de Camacho (7 Janeiro 2004)

1 Pobre Benfica! Dez anos a fio sem ganhar o Campeonato e, pior ainda,sem nunca ter estado na corrida para o ganhar! Sem uma campanha europeia minimamente digna desse nome, sem um motivo de alegria para os adeptos,excepto uma já longínqua Volta a Portugal em bicicleta, através de um grupo de espanhóis contratados ad hoc e jamais pagos! E agora, agora que tudo parecia reunido, que a equipa chegou ao Natal, como proclamou o sr.Camacho «ainda em luta em todas as frentes»; agora que o novo e belíssimo Estádio da Luz, milagrosamente construído quase sem tostão no bolso (e onde até a relva é impecável), se preparava para acolher o primeiro derby da sua história; agora, que este Benfica-Sporting havia sido promovido pela imprensa especializada como jamais jogo algum foi promovido em Portugal, até haver a certeza absoluta de que não restava um bilhete por vender; agora que os seis milhões (são seis, não é verdade?) nada mais esperavam que não a confirmação do favoritismo proclamado pelo sr. Camacho; agora, a equipa baqueia, sem apelo nem agravo, no primeiro teste de fogo (em boa verdade, o segundo, porque já antes havia baqueado na qualificação para a Liga dos Campeões, no que era o mais importante jogo do ano e em que, frente a uma Lazio em baixo de forma e em princípio de preparação foi considerado motivo para elogios ser eliminado apenas por três golos de diferença)!

2 Manda a verdade que se diga que a derrota do Benfica começou de forma falsa e antidesportiva, através de um dos tais penalties fórmula-João Pinto, que consiste em adiantar a bola e deixar um pé para trás de forma a chocar deliberadamente com as pernas ou os braços do guarda- redes e depois deixar-se cair com grande aparato (se houvesse verdadeira justiça na Liga e não aquela paródia antiportista protagonizada pelo Conselho de Disciplina, o sr. Elpídio Silva levaria agora três ou quatro jogos de suspensão por conduta antidesportiva, agravada por ter induzido o árbitro em erro e ter tido influência directa no resultado). Mestre Silva mostrou que não é em vão que se treina na Academia de Alcochete e o Sporting acrescentou a estatistica do clube que invariávelmente obtém mais golos de penalty, apesar de consabidamente ainda ficarem em média 3,83 por assinalar a seu favor em cada jogo. Mas presumo que o dr. Dias da Cunha, desta vez, não queira fazer um comunicado sobre o assunto...

3 Já se sabe que não pode haver um Benfica-Sporting sem casos. Aliás, aqui entre nós, acho que não pode haver nenhum jogo em que intervenha o Sporting sem casos - esse é mesmo um dos maiores casos do futebol português. Tudo começou, desta vez, com mais um patético comunicado da SAD do Sporting a explicar porque é que, mais uma vez, ninguém do clube, excepto os que por dever de contrato não se podiam baldar, iria estar presente na Luz. Ao menos Santana Lopes, honra lhe seja feita, não ficou em casa a redigir comunicados e a ver o jogo pela televisão. Os casos continuaram no relvado, primeiro com o penalty fantasma sacado por Silva e de que Pedro Proença foi vítima indefesa, tamanha é a perfeição daquele truque tão caro tradicionalmente aos avançados de Alvalade.
Depois, sim, o árbitro errou na expulsão do Rochembach- não no segundo amarelo mas no primeiro, em que o desgraçado, vindo e ido em rallye aéreo só para jogar metade do jogo, se limitou a levar um murro do Miguel. E acertou ao não validar um hipotético golo do Benfica em que nenhumas imagens permitem concluir que o Ricardo defendeu a bola dentro da baliza, e acertou também no segundo penalty, em que o Helder varreu,de facto, o Liedson. Conclusão: a arbitragem errou apenas uma vez e aí por mérito do artista.

4 Tal como aqui escrevi há duas semanas, para um portista, o resultado preferido deste grande derby - como sempre indigente em termos futebolísticos - era a vitória do Benfica. Porque, como ficou patente e apesar da falsidade do golo inaugural, é o Sporting a grande ameaça ao FC Porto este ano e não o Benfica. O jogo confirmou que, dos dois, só o Sporting mostrou ter uma organização de jogo, a vontade e o talento para poder ganhar. Não se pode exigir a José António Camacho que faça omoletes sem ovos. E eu, que estou de fora e que já fui grande admirador de equipas do Benfica, mesmo sem ter de recuar aos irrepetíveis anos 60, venho dizendo aos meus amigos benfiquistas, contra as suas ilusões, que não me recordo de ver uma equipa do Benfica tão má como esta. Por junto, há dois jogadores bons nesta equipa: o Moreira e o Simão - do resto, alguns têm uns fogachos de vez em quando e os outros chegam a ser confrangedores. Mesmo assim, há coisas que dão que pensar. Longe de mim pôr em causa o valor do sr. Camacho mas recordem-me lá um grande jogo feito pelo Benfica desde que ele chegou? Um teste de verdade que ele tenha vencido? Vi-o convocar o estágio da pré-época, no pino de Julho, sob 50.º graus à sombra, para Jerez de la Frontera, treinando contra os juniores das equipas amadoras do pueblo próximo do hotel e depois a equipa aparecerer no Campeonato a arrastar- se. Ouvi-o lamentar-se da
«sobrecarga de jogos», porque o Benfica tinha acumulado, à 10.ª jornada do Campeonato, os jogos nacionais com uns jogos da UEFA contra uns amadores da Finlândia ou da Noruega, cujos jogadores, coitados, ainda tinham de vender bilhetes para o espectáculo no dia do próprio jogo, enquanto os profissionais do Benfica estavam concentradíssimos num hotel de luxo. Ouvi-o lastimar-se várias vezes porque por cá as equipas pequenas jogavam sempre muito contra o Benfica, como se fosse dever delas inclinar voluntariamente a espinha perante o Glorioso. E vi-o desdenhar sobranceiramente o treino da equipa no dia 1 de Janeiro,
declarando que jamais convocaria os jogadores para se treinarem a seguir ao réveillon - enquanto no Sporting, Fernando Santos não dispensou o treino do dia 1 de Janeiro e, no FC Porto, Mourinho fez o mesmo, apesar de a equipa só jogar 24 horas mais tarde, em casa e contra o Rio Ave. Vi tudo isso mas pensei para com os meus botões: «Ele é que sabe!» Mas, depois, bem, depois, foram às Antas e não tugiram nem mugiram, receberam o Sporting e foi a confrangedora incapacidade que se viu. Não é só haver ali jogadores que já nem reparamos se ainda estão em campo ou se já foram substituídos, tamanha é a sua inutilidade e a sua ausência do jogo; já nem é aquela patética defesa eternamente aos papéis e que não merece o guarda-redes que tem, aquele meio-campo onde pontifica,
indispensável (Santo Deus!), o Fernando Aguiar, aquele ataque que vive únicamente dos dias e dos rasgos de inspiração de Simão Sabrosa. O mais impressionante de tudo é que, um ano e meio depois, o Benfica de Camacho não aparenta ter uma única ideia de jogo, uma única jogada treinada, que não os livres do Simão. O grande mistério para mim é como é que este Benfica, que joga muito menos que um Beira- Mar, que um Braga, que um União de Leiria, que um Gil Vicente, consegue estar em terceiro lugar no Campeonato. Afin a l de c o n t a s , tenho de reconhecer, deve ser por mérito do treinador.

5 José Antonio Camacho nunca foi, porém - há que reconhecê-lo - um demagogo ou um vendedor de banha da cobra. Nunca proclamou, como Mourinho, «para o ano vamos ser campeões!» Mas esse low profile, que sempre foi tido como uma qualidade e um sinal de realismo e de humildade, também pode ser lido como um sinal de conformismo e derrotismo. Sobretudo quando, no final da época passada, ele fez constar que se iria embora se a Direcção do clube não lhe desse uma equipa capaz de lutar pelo título. A Direcção do clube nada lhe deu (deu-lhe agora o tão esperado defesa-esquerdo, sob a forma de um grego, eventualmente bom
jogador, mas com todo o ar de quem vem para o Benfica gozar a reforma), e, apesar disso, ele ficou. Mas ficou, numa atitude de melancólico fatalismo, dando-se por contente quando a equipa não joga nada mas ganha ou quando joga menos mal e mesmo assim é eliminada facilmente por uma sub-Lázio. Como se exclamasse: «O que querem? É o que temos!» Ora, correndo o risco de meter a foice em seara alheia, eu penso que o Benfica é demasiado grande para tão fracas ambições. Manifestamente, há ali jogadores que não merecem a camisola nem o ordenado, há bastante falta de vontade e de profissionalismo, há demasiada falta de ambição e excesso de mediocridade aceite como coisa banal. E talvez falte quem faça o discurso exactamente contrário: «Para o ano vamos ser campeões.
Quem quiser acreditar fica. Quem não quiser, vá-se embora! » Mas, como digo, eles lá sabem e com a fraqueza alheia podemos nós bem. Continuem antes a destilar veneno e maledicência contra o FC Porto e pode ser que um dia consigam assim voltar a ser campeões...

Derlei. O melhor do ano ( 30 Dezembro 2003)

Pinto da Costa teve razão, quando disse que nenhum outro ponta-de-lança do mundo se lesionaria com gravidade estando na posição de defesa-direito, em auxílio à defesa, como sucedeu com Derlei. E, acrescento eu, talvez nenhum outro presidente de clube no mundo prorrogasse o contrato com um ponta-de-lança de 27 anos, nas condições por este pretendidas e no dia seguinte a ele ter contraído uma lesão tão grave quanto a de Derlei. São estes pormenores — a atitude de Derlei, sacrificando-se pela equipa no campo todo e mesmo num jogo sem grande grau de dificuldade, e a atitude de Pinto da Costa, retribuindo, sem hesitar e na hora mais necessária, a generosidade que Derlei tem posto em campo ao serviço do clube — que explicam, desde há largos anos para cá, as razões pelas quais o FC Porto é a equipa dominante no futebol português. Os despeitados, os invejosos, os de mau perder podem continuar a insistir até à náusea que as razões são outras e obscuras: os árbitros, o famoso «sistema» (que, por acaso é dominado, de há uns anos para cá, pela coligação Boavista/Benfica) ou outras que tal. Pois que continuem na sua, com o proveito que se conhece. O facto é que quando, por exemplo, Pinto da Costa resolveu que o clube continuaria a pagar até final do contrato, por mais dois anos, o salário de um jogador tragicamente morto, como aconteceu com a família do Rui Filipe, depois aparecem jogadores como o Derlei, que insistem em jogar a final da Taça, acabados de sair de uma intervenção cirúrgica. É o que sucede quando os jogadores sentem que, ao serviço do FC Porto, são mais do que simples artistas contratados, são parte de um clube e de uma família de valores, cuja força e mística é ser grande na hora das vitórias e continuar a ser grande na hora do sofrimento. Derlei não nasceu para o futebol no FC Porto. Mas, sem dúvida, cresceu futebolisticamente no FC Porto e, sobretudo, assumiu essa tal mística, a que dantes se chamava amor à camisola, e que, por exemplo, o Benfica tinha há 20 anos atrás e hoje desesperadamente procura reconquistar. Só que há coisas que não acontecem por simples vontade e esse tal amor à camisola, coisa tão em desuso nos dias de hoje, não se adquire apenas com um bom treinador ou até com uma boa equipa. É coisa que nasce de cima para baixo e que implica um esforço de continuidade e de coerência ao longo dos anos. Foi isso, quer queiram quer não, o que Pinto da Costa fez no FC Porto. É isso que Benfica e Sporting não têm sido capazes de fazer, por uma simples razão, que muita gente não gosta de ouvir, mas que é a minha explicação: por falta de dirigentes à altura. É preciso mais trabalho e talento do que se julga para transformar um clube grande em Portugal num clube que, segundo o ranking da FIFA, é regularmente classificado entre os 10 ou 20 melhores do mundo. Não basta viver a mandar umas bocas para o ar, queixar-se invariavelmente das arbitragens e continuar a tentar convencer os sócios de que os insucessos são sempre fruto das malfeitorias alheias. Veja-se o caso recente do João Pereira, no Benfica. É apenas um miúdo de 18 anos, lançado esta época e que teve a sorte de lhe correr bem a estreia, se não talvez não tivesse voltado a ter novas oportunidades tão cedo. O facto é que as teve e que indiscutivelmente revelou qualidades e um futuro, para ser trabalhado, pela frente. E como, além disso, era—coisa rara —produto das escolas do clube, foi quanto bastou para que se visse nele um símbolo da «alma benfiquista » recuperada e se tornasse urgente garantir a sua continuidade no futuro para o clube. Manifestamente, ele, ou alguém por ele, deu-se então conta da importância que, de repente, tinha assumido e as negociações para a renovação tornaram-se inesperadamente difíceis. Provavelmente, o João Pereira, como tantos na sua idade hoje em dia, já se imaginava, ao fim de quatro ou cinco jogos, com um pé em Itália, Espanha ou Inglaterra. Finalmente, acabou por renovar e então, e só então, proclamou-se mais um «benfiquista desde pequenino ». Qualquer semelhança entre isto e a tal mística de um clube é pura confusão. Mas falemos, então, do Derlei, objecto principal desde texto, no dia em que ele recupera da delicada operação a uma rotura de ligamento do joelho. Independentemente de todos os elogios que, nesta hora, tenho lido dirigidos ao jogador e que não duvido que sejam sinceros, também não tenho dúvida alguma de que o grosso do povo benfiquista e sportinguista está aliviado, se não feliz, com a gravíssima lesão do Derlei. Porque as coisas são como são e—esse é, aliás, o melhor elogio que se pode fazer ao Derlei—o povo sabe que, sem ele, o FC Porto fica dramaticamente enfraquecido. Venha Maciel, venha Adriano, venha Carlos Alberto, sem pôr em causa o valor deles, ninguém poderá substituir a importância de Derlei no FC Porto. Para mim, Derlei foi o melhor jogador do ano, o melhor da época de 2002/03 e estava a ser o melhor da época corrente — onde era o líder dos marcadores do Campeonato e do prémio de regularidade de A BOLA. A ele deve o FC Porto em grande parte a época dificilmente repetível que terminou em Junho passado coma conquista da Taça, a juntar às do Campeonato, Taça UEFA e Supertaça nacional. O Derlei ficará para a história do FC Porto, no que respeita a Sevilha e à Taça UEFA, no mesmo patamar mitológico que ficou o Madjer em Viena, na conquista da Taça dos Campeões. Em Sevilha, eu estava sentado exactamente no enfiamento do ataque do FC Porto, durante a dramática segunda parte do prolongamento. Eu sabia que, para ganhar o jogo, dependeríamos quase necessariamente das forças e do talento do Derlei. E via-o, quase desfalecido, arrasado pelo esforço daquela primeira parte de campeão, onde o Porto fez todas as despesas do jogo, com 50º graus à sombra, enquanto o Celtic esperava pelo cansaço dos portistas para lançar o seu contra golpe, através desse fantástico Larsson. Quando o Marco Ferreira obrigou o guarda-redes do Celtic a defender uma bola para o lado e ela foi parar aos pés do Derlei, eu olhei e vi que, entre este e a baliza, havia ainda dois defesas do Celtic para ultrapassar. Julguei a missão impossível, constatando o estado de total desgaste do Derlei. Acho que só ele acreditou que era possível, quando rompeu direito ao golo e à vitória, fintando um adversário, tirando o outro do caminho e reunindo a reserva final de energias e de lucidez para encher o pé e rematar com força e colocação suficientes para tornar impossível a parada do guarda-redes adversário. É dos tais momentos do futebol que hão-de viver comigo para sempre, porque foi o resultado da vontade invencível, da garra e do talento de um jogador que, quanto maior é a pressão, quanto maior é a dimensão histórica do instante, maior é a fé e a determinação que revela — jogando não apenas para um jogo, nem sequer para uma final, mas verdadeiramente para a história. Não há muitos jogadores como o Derlei. Há outros melhores tecnicamente, há outros ainda melhores fisicamente mas, neste tempo de mercenarismo, há raros que consigam aliar ao talento e à força, a generosidade, a entrega ao jogo e o respeito pelo clube que lhes paga, como o Derlei. Em Alverca, ele caiu literalmente em combate, traído pelas qualidades que tem e não por algum infortúnio. Podemos sempre exclamar, como eu exclamei quando o vi no chão a pedir assistência e percebi logo que era uma rotura, porque ele não é de fitas: «Mas que raio fazia ele no lugar do defesa-direito, no minuto seguinte a ter marcado um golo?» Mas a verdade é que, se ele não fosse assim, não seria o extraordinário jogador que é. Daí que, mesmo como portista, o que mais me custa nem é a baixa do Derlei para a equipa, num momento crucial do Campeonato e sabendo que ele representava quase a única ténue esperança contra o Manchester, em Março. O que mais me custa é a injustiça da lesão para o próprio Derlei. Se há jogador em Portugal que a não merecia, era ele. Que volte, igual ao que era, tão cedo quanto possível, porque não restam muito mais jogadores que mereçam a admiração que ele merece.

Balanço de Natal ( 24 Dezembro 2003)

1- Se o FC Porto tiver ganho ontem à noite em Alverca, encerra o ano e quase a primeira volta do campeonato com cinco e seis pontos de avanço sobre Sporting e Benfica, respectivamente. Caso contrário, a proximidade dos três grandes ficará mais íntima e o campeonato ganhará indiscutivelmente mais emoção. Com cinco vitórias consecutivas, Sporting e Benfica conseguiram recuperar uma distância de nove e dez pontos de atraso, que parecia já irremediável. Todavia, se tudo se passar normalmente, a recuperação poderá vir a revelar-se mais ilusória do que real. A tarefa que o FC Porto teve de levar a cabo até aqui foi muitíssimo mais difícil e saturante do que a dos seus rivais. No campeonato, embora tenham recebido águias e leões, os portistas já se deslocaram a campos tradicionalmente difíceis, como são Guimarães, Bessa, os Barreiros, Restelo e Leiria. Consentiram três empates fora de casa e a tanto se resumem as suas perdas. Na Taça, já deixaram pelo caminho um dos candidatos tradicionais-o Boavista -enquanto viram o Sporting sucumbir em Alvalade diante de uma equipa da II Divisão. Com um
sorteio feliz, o Benfica mantém-se também em prova. Na Europa, enquanto o Benfica falhou o objectivo principal (que era apurar-se para a Liga dos Campeões) e tem beneficiado na Taça UEFA de sorteios, esses sim, verdadeiramente de encomenda, e o Sporting soçobrou estrondosamente às mãos de uns turcos de existência até então desconhecida, o FC Porto, tendo começado por falhar, ainda em pleno Verão, a conquista da Supertaça frente ao Milan (perdeu anteontem pela primeira vez esta temporada!), arrancou depois para uma tranquila qualificação na fase de grupos da Liga dos Campeões, apenas cedendo uma derrota frente ao intratável Real Madrid. Em teoria, quem tem o futuro mais facilitado e desanuviado é o Sporting: disputa apenas uma competição, enquanto os seus rivais directos disputam três. Mas, daqui até Março, o FC Porto tem uma pausa nos jogos terrivelmente desgastantes da Liga dos Campeões: esse é o tempo que Mourinho tentará aproveitar, como o fez no ano passado, para concentrar todas as forças (enfim, as que o Conselho de Disciplina deixar...) no campeonato, tentando cavar nesse período um avanço irreversível. O FC Porto, que aqui chegou à frente do campeonato, mesmo tendo o grosso das energias e da atenção concentrado noutra tarefa bem mais importante, desportiva e financeiramente, fica agora e durante três meses disponível para se ocupar apenas da «questão nacional ». Para não o deixarem fugir de vez, Sporting e Benfica só têm um caminho: continuar na senda das vitórias - que, todavia se interromperá já
necessáriamente, pelo menos para um deles, na próxima jornada. Dos dois, a mim parece-me que é o Sporting quem está melhor colocado para liderar a perseguição ao FC Porto. Tem claramente melhor equipa que o Benfica e, embora vá agora perder o concurso de Rochemback durante um mês, ganha em
troca Hugo Viana, para um meio campo que já é de luxo. O Benfica parece-me uma equipa esticada até ao tutano, com alguns jogadores claramente sem categoria para uma I Divisão (quanto mais no Benfica!), e três que carregam com a equipa às costas: Simão, Tiago e Moreira - este a grande aquisição do Benfica para esta época, quando se pensa que esteve na iminência de ser suplente do Ricardo (aliás, é quase consensual que os dois guarda-redes da Selecção deveriam ser o Moreira e o Baía, e não o Ricardo e o Quim. Mas quem sabe se o seleccionador chega a vê-los jogar, ele que raramente é visto nos estádios...) Repito que,
olhando para as duas equipas, o Sporting parece-me claramente superior ao Benfica, jogador por jogador e em termos de futebol jogado. Mas, às vezes, a lógica é uma batata e acontecem desaires impensáveis, como o dos turcos ou o do V. Setúbal. Por outro lado, as vitórias moralizam muito e disfarçam muita coisa: se o Benfica conseguir vencer o jogo da Luz, é provável que vá buscar ainda novas forças aonde lhe falta talento. Mas, se acredito que uma equipa fraca possa disfarçar a sua falta de qualidade durante algum tempo, não acredito que o consiga fazer uma época inteira. Daí que, para um portista, o resultado desejável na Luz é a vitória do Benfica.

2- Para variar, o Vitória de Guimarães já mudou de treinador a meio da época. A mudança não trouxe, até à data, quaisquer resultados positivos e a equipa permanece firmemente instalada num impensável lugar de despromoção. Depois de ter responsabilizado as arbitragens, ao ponto de ter comprado uma guerra inédita com todos os árbitros internacionais, o presidente do clube virou a espingarda para o treinador e abateu-o: a culpa, afinal, não era só dos árbitros.Mudado o treinador, insinua-se agora que a culpa será dos jogadores, que não têm brio ou qualidade.
Diz-nos a experiência que, se nenhum destes culpados for suficiente para justificar os inêxitos, ainda resta a hipótese tradicional do inimigo interno, os traidores infiltrados, os destabilizadores. Há vinte e três anos à frente de um clube que geriu sempre com poderes absolutos e sem nunca conseguir fazer sair da cepa torta, o presidente do Vitória tem o azar de se achar quase sempre rodeado de incompetentes: ou o treinador,ou os árbitros, ou os jogadores, ou a oposição interna. Será que, em tanto tempo, nunca lhe terá passado pela cabeça a hipótese de o verdadeiro culpado ser ele próprio?

3- Dias da Cunha segue o estilo. Se o Sporting não ganha ou se ganha cheio de dificuldades, o culpado é sempre o árbitro e o famoso «sistema». Por exemplo, se o Sporting vence dificilmente um Leiria que joga metade do tempo com um jogador a menos, o culpado foi o árbitro, que não viu um penalty, que, de facto, existiu a favor do Sporting e quando ainda havia 0- 0. Ainda que o mesmo árbitro, segundo a generalidade da crítica, tenha igualmente esquecido um penalty a favor do Leiria e anterior a esse, ainda que tenha generosamente expulso um jogador do Leiria, ainda que lhes tenha anulado um golo completamente limpo, com 0-0 no marcador, e ainda que tenha terminado em beleza, oferecendo o penalty do 2-0 tranquilizador ao Sporting. Mas, para esses pormenores, o presidente sportinguista «está-se nas tintas». Só contam as decisões que prejudicaram o Sporting, só conta o que ele viu e ninguém mais detém a verdade e a ciência em matéria de futebol e arbitragens, como ele. Só ficou calado quando os turcos vieram dar um dos tais banhos de bola de que ele tanto fala, em Alvalade. Aí era também um dos tais árbitros internacionais, que ele reclama para virem arbitrar o Sporting. Pessoalmente, morro de vontade de assistir à experiência. De ver um dos tais árbitros que nem se dignam escutar, quanto mais ser intimidados, pelo coro de protestos com que, em Alvalade, é recebida invariávelmente qualquer decisão de um árbitro
português que não faça a vontade à bancada e não veja, em cada jogo, pelo menos três penalties a favor do Sporting. Ou então, um desses árbitros consagrados pela UEFA e pela FIFA, sempre subtilmente a favor dos fortes, como Colina, anulando, com a maior naturalidade e autoridade do Mundo, um golo limpíssimo ao Porto, nas Antas contra o Real, ou o Nielsen, levando com um sorriso o Bayern ao colo até aos oitavos-de-final, à custa do Bruges. PS-Já não tenho paciência para os desafios do Pedro Santana Lopes. Critiquei-o - politicamente- pela forma como ele dispôs de dinheiro e património público a favor do Benfica, descrevendo o que ele havia dado para o novo Estádio da Luz. Ele acusou-me de estar a mentir e eu provei documentalmente que quem mentia era ele. Para mim, ficou tudo dito. Mas vem ele agora insistir, dizendo, ufano e aliviado, que uma das benesses por mim referidas -o tal terreno que a CML, através da EPUL, havia comprado ao Benfica por seis milhões de contos- acaba de ser vendido e com lucro pela mesma EPUL a privados.
Fico contente, pelos dinheiros públicos. Mas falta esclarecer que os tais terrenos certamente que foram vendidos para construção, quando o seu fim era o aproveitamento para infra-estruturas desportivas. E não percebo como é que Santana Lopes pode afirmar que o Benfica não recebeu um tostão da Câmara. Recebeu ou não recebeu seis milhões de contos da EPUL por esses terrenos? E é ou não verdade que esses terrenos lhe foram parar às mãos por doação da própria CML (no mandato de Jorge Sampaio), com o expresso fim de neles o clube construir instalações desportivas,que, inclusive, seriam também de utilização pública? Construiu alguma coisa? Não, não construiu nem um rinque de patinagem, e depois ainda recebeu seis milhões pela venda à mesma Câmara do que lhe havia sido dado. Como diz Santana Lopes, sem comentários... Excepto este, de natureza pessoal: acusa-me Santana Lopes de ser conhecido por ofender
facilmente. Acho isso notável , vindo de quem, aqui mesmo, me acusou de mentir sabendo que eu dizia a verdade, e de quem, por si e por interposto porta-voz, aos microfones da Antena 1, me dirigiu piadinhas e insinuações torpes, de carácter pessoal. Pela minha parte, respondo com o cadastro: em 27 anos de jornalismo, de opinião, de reportagens, nunca fui julgado, e menos ainda condenado, por injúrias, ofensas ou difamações.

quarta-feira, dezembro 10, 2003

Um azul que cega ( 9-12-2003)

1. Como era esperado, o Conselho de Justiça (CJ) reduziu de três para dois jogos a pena aplicada a Deco pelo Conselho de Disciplina (CD). Tem sido invariavelmente assim de cada vez que o CD da Liga castiga um jogador do FC Porto para além da medida da pena prevista no Regulamento Disciplinar. O que desta vez aconteceu de diferente é que a decisão do recurso interposto pelo clube ainda veio a tempo de impedir que o Deco cumprisse o castigo inicial por inteiro, permitindo que a justiça fosse reposta. Mas a forma sistemática com que o CJ corrige para baixo e para os limites normais previstos na legislação os castigos aplicados por excesso a jogadores do FC Porto por parte do CD é a demonstração cabal de que, quando toca ao azul e branco, o CD não julga com justiça nem com equilíbrio mas com uma sanha persecutória que não encontra acolhimento na legislação nem cobertura na instância superior. E, depois de isto se repetir duas, três, cinco vezes, começa a ser uma vergonha indisfarçável. Nenhum juiz que se preze, e que se preocupe com a sua classificação interna para efeitos de carreira, gosta de ver as suas decisões sistematicamente corrigidas, e sempre no mesmo sentido, pelos tribunais superiores. Se os juízes do CD não se preocupam com isso, como os factos demonstram, é porque ali não jogam carreira alguma e o seu brio profissional de julgadores é ofuscado pela cegueira que os atinge quando têm de julgar comportamentos disciplinares de jogadores do FC Porto. Isso, e o facto de a lei actualmente lhes permitir a iniciativa disciplinar, independentemente de queixa ou participação de outrem, tem conduzido a uma dualidade de critérios — tomando a iniciativa de punição nuns casos, não a tomando em outros em tudo idênticos — da qual não é possível extrair qualquer doutrina minimamente coerente e moralizadora. A actuação do CD aparece assim antes como um factor de correcção — neste caso de correcção da flagrante superioridade futebolística que o FC Porto vem exibindo sobre os seus rivais mais directos. É então que faz ainda mais sentido a frase daquele dirigente benfiquista que explicava que, mais importante que ter bons jogadores, era ganhar as eleições da Liga.

2. O castigo finalmente aplicado ao Deco deveria fazer meditar também todos aqueles que na imprensa desportiva correram a anunciar que o Deco se arriscava, com aquele número da bota, a levar uma suspensão que poderia chegar... aos quatro anos, ou seja, a arrumar praticamente as botas! O absurdo destas previsões sanguinárias, ao arrepio do senso comum ou de qualquer sentido de justiça, só podia ser explicado por um desejo escondido sob a forma de informação e uma pouco subtil tentativa de forçar ainda mais a mão ao CD. Como então escrevi, pretendia-se, manifestamente, preparar o terreno junto da opinião pública para que o CD aplicasse ao Deco qualquer coisa de irracional como seis meses ou doze jogos de suspensão, de modo a tentar nivelar as coisas no campeonato. Essa tentativa patética é eloquente de muitas e significativas coisas, cuja análise deixo aos leitores que tenham a capacidade de a fazer.

3. A acrescentar a um sorteio favorável para a fase final do Europeu, tivemos logo de seguida o mais desejável dos sorteios possíveis para a fase de qualificação do Mundial de 2006. Nunca, que me lembre, tivemos um grupo de qualificação tão fácil e tão acessível, de modo que é caso para dizermos que desta vez, se não conseguirmos qualificar-nos, é porque de todo não justificamos estar no próximo Mundial. A facilidade ditada pelo sorteio poderá eventualmente conduzir a uma reformulação dos planos do seleccionador nacional. Era minha convicção que Scolari ficaria apenas até ao final do Europeu, fosse qual fosse o resultado. Agora, com a perspectiva de estender por mais dois anos um contrato que consta ser milionário, vivendo a família aparentemente satisfeita em Lisboa e com dois anos quase isentos de risco desportivo pela frente, será fatalmente grande a tentação de Scolari de permanecer por cá até 2006. Basta-lhe, para isso, uma prestação um pouco mais que razoável no Europeu.

4 Segundo uma estatística que vi publicada em A BOLA, faltam ao Estádio das Antas três jogos para atingir o número de 1000 jogos oficiais lá disputados e duas vitórias para atingir o número redondo de 800 vitórias do FC Porto na que foi a sua casa nos últimos 50 anos. Se a estatística está certa, e considerando a vontade de toda a gente de só passar para o Dragão quando a relva deste for igual à inesquecível relva das Antas, considerando também as notícias que indicam que o arquitecto Manuel Salgado está a estudar a colocação de pára-ventos nos topos norte e sul do Dragão para evitar aquilo que a estreia mostrou ser o seu grande contra, então penso que a Direcção deve esperar mais três jogos e duas vitórias até proceder à mudança definitiva. Agora, que já todos vimos como é deslumbrante o novo estádio, podemos esperar para que se saia em beleza do antigo e se entre em beleza no novo.

5 Numa linguagem que nem sequer faz o seu género, Jorge Olímpio Bento desembestou aqui, domingo passado, contra os «profissionais da intoxicação da opinião pública, ao serviço de fins escuros que os promovem e sustentam». Neste caso, essa sinistra gente seria composta por aqueles que, tendo-se oposto ao Euro-2004 em Portugal, agora vieram defender a Taça América em Lisboa e lamentar que tenhamos perdido a sua realização a favor de Valência. Ora, eu sou um desses e vou, pois, responder por mim, muito embora já aqui tenha, em escrito anterior, explicado as razões de uma e outra posições. Mas, antes de relembrar essas razões, começo por dizer que fico sempre espantado quando vejo colunistas de opinião atacar colegas de ofício, com o epíteto de profissionais. Acaso receber dinheiro por escrever não é uma profissão digna? Acaso o Jorge Olímpio Bento escreve de borla? (Se sim, peço desculpa por ter confundido com um profissional alguém que tem apenas opiniões gratuitas.) E gostaria de saber o que distingue as opiniões dele das dos outros, de modo a que as suas sejam sérias e as dos outros, quando discordam das suas, sejam «intoxicações da opinião pública, ao serviço dos fins escuros que os promovem e sustentam». Estarei eu ao serviço de «fins escuros» quando escrevi que era bom que a Taça América viesse para Portugal? Então porque não estará ele ao serviço de fins ainda mais escuros (autarquias, clubes, construção civil, empresários turísticos...) quando defende o Euro-2004? Indo agora às razões de ser contra o Euro e a favor da Taça América, é forçoso começar por dizer que o Jorge Olímpio Bento, manifestamente, ignora o que seja a Taça América, de outro modo não faria as comparações disparatadas que fez. Mas sempre lhe direi que, ao contrário do que ele escreveu, a Taça América envolve mais horas de transmissão e mais espectadores televisivos que um Europeu de futebol. Implica muito mais divulgação planetária e mais prestígio para o país anfitrião que um Europeu de futebol e, quanto ao tal «elitismo» de que fala, permitiria recuperar as tradições da vela em Portugal, fazer dela o desporto popular que é em tantos lugares do mundo e levar-nos de regresso, como no passado, às medalhas olímpicas. Envolve mais turistas, mais estadias, mais gastos locais, que o Europeu. Dura quatro anos (ou oito, se o vencedor for o mesmo que detém o título) e não um mês. Traz até nós turistas de muito maior qualidade e poder de compra e não, como no caso do Euro, aviões charter carregados de adeptos que, em muitos casos, viajam directamente para o jogo e regressam após ele. A sua realização em Lisboa não envolvia a construção de estádios, com o consequente endividamento das autarquias e do Governo central, mas apenas o aproveitamento da já existente marina de Cascais e a transformação fácil da Docapesca de Pedrouços em marina, além de um imenso estádio natural, que era o oceano Atlântico. As restantes construções envolventes não esgotariam a sua utilidade durante a competição (como irá suceder com sete dos dez estádios do Euro, que jamais terão assistências que os justifiquem), antes significariam a recuperação de uma zona desaproveitada da cidade de Lisboa e o seu usufruto permanente por parte da população, como sucedeu com a Expo-98 ou o Porto-Capital da Cultura. Mas, e finalmente, ao contrário da Expo, do Porto-Capital da Cultura e do Euro-2004 — todos de prejuízo assegurado para o Estado —, a Taça América daria ao Estado, às autarquias e aos particulares um retorno largamente superior ao investimento financeiro feito. Por isso é que Valência investiu biliões de euros para levar de vencida Lisboa. É tudo questão de conhecer os dossiers de uma e outra competições e ter como critério de escolha o interesse público e o respeito pelo dinheiro dos contribuintes. E, já agora, pelas opiniões dos outros.

terça-feira, dezembro 09, 2003

Iníquo e indigno? (2-12-2003)

1- Anderson Luís de Sousa, vulgo Deco, é um daqueles raros jogadores de futebol pelos quais vale a pena pagar bilhete para ir ver o jogo. Jogue ele pelo Benfica, pelo F. C. Porto, pela Selecção Nacional ou pelo Barcelona, Deco será sempre um jogador de excepção, que alia a uma fome quase voraz de jogar futebol, um talento para o improviso, o imprevisto, o golpe de génio, aquilo distingue os poucos jogadores de futebol que passam à história e são lembrados, muitos anos depois de terem arrumado as botas e permanecerem apenas na memória daqueles que os viram jogar. Mas Deco será também — na definição do relator da sentença do Conselho de Disciplina que o condenou a três jogos de suspensão por ele, num gesto de revolta e de despedida do jogo, ter lançado a bota em direcção ao árbitro que injustamente o despediu do Boavista-Porto — um «indivíduo » do pior: «iníquo, indigno, intimidatório e consabidamente descabelado», o qual «continua a não interiorizar o desígnio de pautar a sua intervenção no jogo de modo a não merecer nova censura». Por isso, e porque os sub-21 destruíram a cabina do estádio de Clermont- Férrand em sinal de alegria pela vitória sobre a França, o relator do processo de Deco resolveu aplicar-lhe de castigo, não um, nem dois mas sim três jogos de suspensão. Para que sirva de exemplo e para que aprenda a corrigir-se e a não ser indigno, iníquo e consabidamente descabelado. Do ponto de vista do sr. relator (cujo nome, felizmente, ignoro), a sentença é, de facto, exemplar. É sabido que a CD — um órgão montado e dominado pela «entente cordiale » entre o Benfica e o Boavista — existe basicamente para extravasar o ódio ao F. C. Porto, sem qualquer pudor de ver as suas «descabeladas » sentenças contra jogadores do Porto serem depois, uma por uma, corrigidas superiormente pelo Conselho de Justiça, embora sempre a destempo de reparar os danos causados pela sanha disciplinar contra o azul e branco: a seu crédito, nos últimos três anos, o F. C. Porto já deve ter uma dúzia de jogos de castigo que os seus jogadores cumpriram por determinação da CD e que, a destempo, o CJ julgou injustificáveis. Isso pouco importa ou envergonha os pseudo-juízes da CD: nem a caricata sentença do McCarthy lhes serviu de reflexão. Eles estão lá, basicamente, para, no que puderem, castigar os jogadores do F. C. Porto como não castigam nenhuns outros e mesmo, se necessário ou irresistível, não se limitarem a castigá-los mas também a ofendê-los. Está fácil de ver que, se dependesse deste senhor, nunca mais o Deco pisaria relvados portugueses com a camisola do F. C. Porto. A arte e o talento que exibe, a par dos danos que causa a terceiros, tornam-no íniquo, indigno e descabelado para a práctica do futebol. Seria motivo de relexão para gente séria o facto de o Deco — um jogador criativo, que vive com o ataque e o golo como objectivos e que é um dos mais castigados com faltas em todo o campeonato — ser simultaneamente um dos mais castigados com carões dos árbitros e castigos da CD. Como muito bem sabemos, uma coisa não joga com a outra: um jogador criativo joga com paixão, não faz antijogo. Um Deco não é um Fernando Aguiar. Mas, como ele próprio diz e com razão, muitos árbitros acham que manifestam autoridade, revelam personalidade e sem dúvida devem impor-se aos olhos de quem os nomeia e classifica, quando lhe mostram o amarelo por uma falta por ele cometida no calor da luta ou por um protesto mais do que humano, ao mesmo tempo que ignoram um rol de faltas de jogadores banais ou medíocres que o massacram para ver se conseguem secar o seu talento a golpes de c a - nela. O Deco leva uma, leva duas, leva três, leva quatro: e os árbitros sempre impávidos, até ao momento em que ele responde também ou explode em protesto e aí avançam com a cartolina em riste e ar de grandes justiçeiros. Como escreveu há dias José Manuel Freitas, o problema do Deco é jogar no Porto. Se jogasse no Benfica ou no Sporting, já haveria uma campanha pública de «deixem jogar o Deco!». Mas o F. C. Porto e o Deco não têm culpa de que o Benfica e Luís Filipe Vieira o tenham deixado sair para o Porto, via Salgueiros, e ninguém tem culpa de que ele, manifestamente, se entregue ao jogo com uma paixão e uma febre de futebol construtivo que já não é muito comum neste tempo de mercenários e burocratas do futebol. Mas, mesmo assim... Mesmo assim, não é admissível nem tolerável que um obscuro conselheiro de uma nebulosa Comissão Disciplinar, chamado a julgar um jogador, não se limite a punir a sua actuação como atleta mas ainda se permita atacar e ofender pessoalmente o jogador. Quem é este senhor para julgar que o Deco é um «indivíduo indigno »? Que poderes ou qualificações de mérito lhe assistem, que lhe deve o futebol em particular, que formação é a sua, que percebe ele de futebol ou de disciplina ou de justiça para se atrever a qualificar um jogador como íniquo, indigno e descabelado? Que paródia de disciplina é esta, que descabelada, indigna e iníqua justiça vem a ser esta? Por muito que custe ao senhor, ele ficará apenas na pequena e triste história dos odiozinhos do nosso futebol. Mas o Deco, pelo muito que já deu ao futebol português, pelo muito que já fez vibrar todos aqueles que, independentemente da paixão clubista, gostam deste jogo, ficará para a história onde o senhor relator da CD vale zero. E, por muito que lhe custe, com ou sem Deco, com ou sem os castigos e os insultos contra o Deco, ele e o F. C. Porto hão-de voltar a ser campeões este ano. Porque às vezes, às vezes ainda, o mérito e o talento triunfam sobre a inveja e a mediocridade.

2- Exemplar: o novo e magnífico Estádio do Algarve, construído para o Euro-2004, foi inaugurado sem futebol, pela simples razão de que, nem agora nem num futuro próximo se vislumbram as equipes que lá hão-de jogar. E o ministro Arnaut deu o pontapé de saída de um jogo que não existitu e de uma festa de inauguração descrita como«um exito».Um«êxito»: um estádio novo sem destinatários.

3- Outra vez exemplar: há anos atrás, o Vitória de Guimarães, cultivando as suas necessariamente boas relações com a autarquia local, recebeu em doação (embora juridicamente ainda confusa) o respectivo estádio municipal. Veio o Euro-2004 e Guimarães — cidade e clube — quiseram fazer parte da festa. Vai daí e, inteiramente como dinheiro dos contribuintes e munícipes, a autarquia gastou 4,5 milhões de contos a remodelar o estádio, sem que o clube tenha gasto um tostão que fosse. No fim, a autarquia quis que o clube, ao menos, pagasse os painéis electrónicos, que custavam mais 600.000 contos, mas Pimenta Machado respondeu que não, com o argumento implícito de que o estádio era do clube para o usufruto, mas da autarquia para as despesas e investimentos. A Câmara vai assim ter de repor o subsídio recebido de Bruxelas para os painéis, porque o estádio juridicamente parece que não lhe pertence e o clube diz que não tem nada a ver com o assunto, embora os painéis lhe dêem jeito. Finalmente, propunha-se a câmara, para minimizar os gastos, cobrar o aluguer do estádio durante o Euro-2004. Não — responde Pimenta Machado—porque o estádio é nosso e quem tem o direito de cobrar somos nós. E eis como do investimento público se fazem lucros privados. Por favor, tenham ao menos, alguns comentadores, a distância suficiente para perceber as razões daqueles que sempre foram e são contra o Euro, antes de correrem a chamar-lhes antipatriotas. Não era por haver circo em Roma que Roma era bem governada. Pelo contrário, quanto piores eram os imperadores, mais faustoso era o circo.

4- A mim parece-me que dificilmente o sorteio do Europeu poderia ter-nos corrido melhor. Mas já ouvi falar em sorteio azarado, sorte madrasta e na possibilidade de os «heróis» da Selecção repetirem a saga dos de quinhentos. Este espírito, supostamente patriótico, que pretende transformar em proezas imensas o que é simplesmente normal e em heróis aqueles que desempenham bem um trabalho pago a peso de oiro, não me parece a melhor forma de encarar as coisas. Temos um país que gastou biliões para organizar o Europeu, uma Selecção a que nada tem faltado e que joga em casa, um treinador que é campeão do mundo, e teremos, em Junho, quase dois anos de experiências de toda a ordem para preparar o Campeonato, sem a responsabilidade da qualificação. Se não é agora que temos o direito de esperar resultados, será quando?

Além-fronteiras (25-11-2003)

COMO era previsivel, a experiência árabe de Toni, como treinador, chegou ao fim. O senhor que se segue é Humberto Coelho, na Coreia, que não saiu ainda porque a célebre paciência asiática tem limites a que não estamos habituados.Em contraste, a paciência curta dos espanhóis está a esgotar-se em relação a CarlosQueirós, uma aposta pessoal de Florentino Pérez que sempre teve a desconfiança da torcida e dos jornalistas de Madrid. Com a constelação do Real, a tarefa de Queirós era, à partida, a mais ingrata possível. Se ganhar tudo, ninguém estranhará — é mesmo o mínimo que lhe exigem e o mérito será atribuído não a ele mas aos extraplanetários; se perder, o que quer que seja, a culpa será sempre sua, que não foi capaz de ganhar com uma equipa como jamais se reuniu em lugar ou momento algum da história do futebol. Em contrapartida,Manuel José regressa ao Egipto e Artur Jorge parte para mais uma das suas intermináveis experiências além- -fronteiras — onde, é forçoso reconhecê- lo, nunca conseguiu confirmar os pergaminhos que Viena-87 lhe trouxe. Mesmo registando o êxito — momentâneo pelo menos — que Nelo Vingada está a ter também pelas Arábias (mas continuamos no domínio do terceiro-mundo futobolístico), a regra é que até hoje nenhum treinador português se conseguiu impor de forma indiscutível na cena internacional.Nenhum dos, digamos, 50 melhores clubes da Europa (com a notável excepção do Real Madrid e de Queirós) tem potencialmente um treinador português na sua short list de seleccionáveis. E, se Queirós não conseguir triunfar no Real Madrid, o primeiro treinador português que poderá verdadeiramente ascender a um lugar ao sol na Europa do futebol é José Mourinho — que, com arrogância ou sem ela, tem dado todos os passos certos e todas as indicações necessárias de que se está a preparar para a hora em que for chamado. Sendo que me parece óbvio que ele não quererá começar uma carreira internacional de treinador principal pelas Arábias ou pelo Egipto — pela terceira divisão e não pela primeira. Mourinho irá seguramente escolher um clube grande de um dos cinco grandes da Europa: Espanha, Itália, Inglaterra, França ou Alemanha.Ou então preferirá esperar no Porto, onde, como deixou escapar há dias, num desabafo de raiva contida, há um gozo particular em ganhar contra tudo e contra todos. O panorama em relação aos treinadores exportados repete-se em relação aos jogadores, com algumas excepções e nuances.Temos o caso notável do Luís Figo, que aos 32 anos ainda é titularíssimo no Real Madrid e num lugar tão exigente fisicamente como o de extremo. E temos o caso de Pauleta, também ele titularíssimo no PSG e grande destaque do campeonato francês. Temos depois os casos intermédios de Rui Costa, Boa- Morte, Fernando Couto e Fernando Meira, que alternam nos respectivos clubes a titularidade com o banco de suplentes (entre nós, quando eles ficam no banco de suplentes, costuma-se escrever patrioticamente que foram poupados para o próximo jogo). E temos depois um sem-número de casos claramente falhados, de Dani a Vidigal e Abel Xavier, passando mais recentemente por Capucho e Hugo Viana.E, para acabar, temos os miúdos Quaresma, Cristiano Ronaldo e Hélder Postiga, que partiram com o mundo a seus pés e rapidamente se lhes depararou uma realidade bem mais exigente e difícil do que aquilo que imaginavam. Acontece que em Espanha, em Itália, em Inglaterra, ganham-se, de facto, fortunas. Mas a exigência dos treinadores, dos adeptos e da imprensa está na medida exacta do retorno esperado desses vencimentos milionários. Não basta jogar bem de vez em quando ou fazer um festival de fintas e jogo de cintura um quarto de hora por jogo: é preciso dar o litro e deixar o talento em campo durante todo o jogo, todos os jogos, duas vezes por semana.E também não há equipas que permitam descansar um em cada dois jogos, jogando apenas o suficiente para ganhar. Lá fora, entre os grandes, paga-se caro para ter espectáculo e o espectáculo custa suor, trabalho e sacrifícios a que a grande maioria dos nossos jogadores não está habituada. Cada vez que um jogador português parte lá para fora, é inevitável que começe por se queixar da dureza dos treinos, depois da exigência dos adeptos, de seguida das dificuldades de adaptação e finalmente da frequência dos jogos e viagens.Dá vontade de rir ouvir os responsáveis do Benfica a justificar o cansaço e as lesões dos jogadores com a «sobrecarga de jogos»—contra equipas que, em termos europeus, nem contam. Basicamente, os falhanços dos nossos jogadores lá fora ou as suas dificuldades de afirmação reflectem aquilo que é um sentimento muito português: a incapacidade para ultrapassar uma mentalidade pequenina e feita de facilidades. Em Portugal, um jogador acabado de chegar dos juniores faz dois bons jogos e logo declara que está a sonhar com a Itália ou a Inglaterra. Mas, se tem a sorte de lá chegar, fica siderado com o grau de exigência que lhe cobram, com a «ingratidão» dos adeptos, coma dificuldade da língua e dos costumes locais e acaba roto de cansaço e roído de saudades da família, do bacalhau e do pequeno mundo onde estava habituado a ser reizinho e a ser tratado como tal. Foi por ter sido excepção a esta regra que Luís Figo se conseguiu impor a um grau bem mais elevado do que aquele onde tantos outros falharam. Depois, há também a mentalidade competitiva, que é tortalmente diferente daquilo a que eles estão habituados. Aqui, a rotina de jogo consiste em fazer falta por tudo e por nada, quase por instinto (veja-se o último Porto-Boavista...) e em passar a vida a simular faltas que não se sofreu. Essa atitude é simplesmente detestada em Inglaterra, em Itália, em Espanha, onde quer que o público esteja habituado a ver e a exigir bom futebol. A experiência das dificuldades por que estão a passar os expatriados desta época—Quaresma, Ronaldo, Postiga, Capucho—deveria levar os próximos candidatos à emigração a meditar bem nos seus exemplos. Sair completamente impreparados e apenas para ganhar mais dinheiro não parece ser uma boa opção. É necessário contar com um grau de dificuldades e sacrifícios inesperados, conhecer um mínimo do país e da língua do país para onde se vai, da sua cultura futobolística e da atitude dos seus adeptos e da sua imprensa especializada. Cada vez mais o futebol é um jogo que exige dos seus praticantes duas qualidades primeiras: preparação física e inteligência. Ambas dependem do trabalho feito fora dos jogos, ambas são alheias ao talento próprio do jogador.De nada serve, como dizia o Jorge Valdano do Futre, fintar três adversários dentro de uma cabine telefónica, se depois não se dá com a porta de saída. Olhemos as estrelas galácticas do Real Madrid, de Roberto Carlos a Figo, Zidane, Guti,Raúl ou Beckham: o que têm todos em comum? Talento, a rodos. E capacidade física e inteligência de jogo. É por isso que as cenas lamentáveis dos sub-21 em Clermont- Ferrand não são apenas um episódio sem significado, antes a demonstração de uma mentalidade que permanece e que consiste em não perceber que um jogador de futebol, nos tempos que correm, não se limita a estar em acção e sob o olhar público apenas durante o tempo que está no relvado do jogo. Infelizmente, a mentalidade do jogador português típico vai ganhando fama além-fronteiras, onde, a par de um talento inato e inexplicável que toda a gente lhes reconhece, vem associada a imagem de jogadores faltosos, violentos mesmo e batoteiros. E basta ver algumas arbitragens nos jogos internacionais da Selecção ou das equipas portuguesas para constatar como já estamos a pagar por essa fama.